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História

Um engenheiro iniciando a Alcoa em Poços de Caldas

História de: Ricardo Afonso Junqueira
Autor: Raquel
Publicado em: 09/06/2021

Sinopse

Formação de Ricardo. Chegada a Alcoa. Desenvolvimento da empresa.

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História completa

Projeto Trajetória ALCOA Realização Museu da Pessoa Entrevista de Maria Raciope e Lenir Justo Entrevistado Ricardo Afonso Junqueira Local e data da entrevista: Poços de Caldas, 08 de maio de 2008 Código ALCOA_HV013 Transcrição de Michelle de Oliveira Alencar Revisado por Thayane Laranja dos Anjos P/1 – Bom, vamos começar. Bom dia. R – Bom dia. P/1 – Doutor Ricardo, nós vamos começar a entrevista com o senhor falando o seu nome completo. R – Ricardo Afonso Junqueira. P/1 – Local de nascimento? R – Poços de Caldas. P/1 – E data? R – 16 de outubro de 1927. P/1 – Atualmente o senhor tem alguma atividade? R – Eu continuo sendo agropecuarista que sempre fui. Eu herdei terras do meu bisavô, do meu avô, do meu pai. Então, eu nunca me afastei definitivamente da agropecuária, toco a fazenda até hoje. Mas também não larguei a engenharia. Eu ainda sou responsável por firmas de mineração. Tenho uma firma individual de mineração que ainda tá em atividade, né? E na fazenda, principalmente, eu faço o que é de engenharia. Na fazenda, você tem que construir um terreiro de café, você tem que montar um maquinário, você tem que construir uma série de coisas. Agora mesmo montar um transformador, né? Então eu continuo fazendo. P/1 – O senhor dá esse suporte na área aí? R – Eu tô fazendo o que eu sei de engenharia, eu tô aplicando na fazenda. P/1 – Quais são os nomes dos seus pais? R – Carlos Afonso Junqueira e Maria Alice Gianova Junqueira. P/1 – E qual foi a função deles? Qual foi a atividade que eles tiveram? R – A minha mãe foi professora inicialmente e o meu pai foi sempre fazendeiro. Então, depois que eles se casaram, foram morar na fazenda e nós até nascemos na fazenda. E ela lecionou, lecionava os filhos até o primário. Até o quarto primário nós não tivemos escola porque ela mesma foi a professora. E depois eu vim prestar o exame do ginásio aqui, o ginasial, vamos dizer assim. P/1 – E qual a origem da sua família? R – A origem da minha família, a família Junqueira, foi uma das primeiras que vieram. Eram três irmãs que vieram de uma ilha perto de Portugal e essa família cresceu demais. Lembre que naquele tempo as famílias eram muito grandes, tinham 12 filhos, 10 filhos, então conhecimento de uma família era assim enorme, né? Porque cada filho, por sua vez, depois mais 10, mais 10 e aí você vai imaginando. E aí aquele local de origem delas ficava pequeno, então eles eram obrigados a ir pra frente, arrumar terras novas pra cuidar, montarem fazendas novas. Então essa sistemática, quer dizer, cada filho ia montar uma fazenda mais pra frente, mais no interior, né? E esse foi o segredo da colonização do Brasil, também foi assim, né? P/1 – É, com certeza. Quantos irmãos vocês eram? R – Meus irmãos, nós éramos quatro. Dois homens e duas mulheres. P/1 – Então, na sua infância o senhor morou na fazenda, né? R – Na minha infância eu morei na fazenda. P/1 – O senhor lembra como era o tempo da fazenda? O dia a dia de vocês? R – Ah, lembro tudo, né? P/1 – Então o senhor conta um pouquinho pra gente? R – Bom, a minha fazenda era uma fazenda mista: o gado era um ponto básico da fazenda e, então, as coisas eram todas em volta. Chamava curral onde se tira o leite e as cocheiras e tem os bezerros. Então é a primeira que você acordava pra ir pro curral pra tomar leite direto da vaca. E depois ia tirar o leite, depois ia separar os bezerros, depois soltar as vacas. E, posteriormente, você ia, às vezes quando era época de colheita de café você ia pro terreiro de café, então chegava o café, ia lavar o café, espalhar o café, ia secar o café. E paralelamente tinha também, naquela época, fazia-se tudo: plantava-se feijão, então você ia secar o feijão no terreiro também, bater, chamava bater o feijão, eram varas que você batia na palha pra separar a palha do grão e depois você acabava de secar. E o milho que chegava também, que chegava em carros ou em tropas e esse milho ia esperar na porta do paiol, onde você ia guardar, armazenar. Depois eu tinha que estudar, a minha mãe pegava. P/1 – E as brincadeiras que vocês tinham lá na fazenda? R – A brincadeira era normalmente era mais, às vezes, o terreiro de café. E sem contar que você às vezes montava em bezerro, jogava bola, essas coisas todas. P/1 – E essa fazenda era onde? Qual era a cidade? R – É aqui no município de Poços de Caldas mesmo, a 22 quilômetros do centro, né? Ela existe até hoje. P/1 – E você tem alguma lembrança marcante dessa época? Alguma coisa que o senhor lembra da época de infância na fazenda? R – Não. Eu acho que aquela vida, as reuniões de noite que vinham, naquela época, os colonos eram italianos, que vinham as famílias italianas, então eles convidavam a gente pra ir na casa deles e lá tinha um pão, um bolo, tinha essas coisas todas, né? E também depois tinham, naquelas festas, agora eu estou lembrando, festa de São João que você fazia com fogueira, pau-de-sebo, ficava todo mundo disputando quem ia tirar o prêmio que tava lá em cima do pau-de-sebo, né? P/1 – E a sua educação como que aconteceu? R – A minha educação foi o seguinte: eu estudei até o primário, fiz com a minha mãe, depois eu fiz o ginasial aqui no Ginásio Marista, depois fui pra São Paulo onde eu fiz o colegial no Arquidiocesano e no Bandeirantes. E depois eu fui prestar concurso pra engenharia em Ouro Preto e lá eu fiquei seis anos, que o curso era de seis anos. P/1 – A sua formação qual que é em engenharia? R – Pois é, lá só formava, hoje não existe mais, mas eu formava ao mesmo tempo engenheiro de minas, metalurgia e civil, por isso que eu tinha um ano a mais do que outras escolas onde... P/2 – E quando o senhor veio estudar em Poços, que o senhor fez um ginásio? R – A minha volta? P/2 – É, como era a cidade de Poços naquele tempo? R – Bom, a cidade era pequena e era calma e tinha aquelas reuniões de família, visitas. As famílias se visitavam muito por qualquer motivo. Aniversário ou qualquer coisa que tinha era um motivo de se reunir, de reunir as famílias, né? P/2 – As pessoas sentavam na calçada para conversar? R – Não. P/2 – Não? R – Isso eu nunca vi sentar na calçada não. Aqui desde o começo nós tínhamos jardins. Então o jardim era, normalmente, um ponto de encontro às vezes, né? P/2 – E já era uma cidade turística? R – Sempre foi porque desde o começo o motivo que começou a trazer gente pra Poços de Caldas foram as águas sulforosas, então, vinha notícia de que a água era medicinal e muito bom para uma série de doenças e as pessoas vinham aqui atrás dessas águas medicinais, vamos dizer assim. P/1 – E no seu estudo, por que o senhor escolheu a carreira de engenheiro? Qual foi a influência? R – Bom, eu não sei qual foi a influência. Eu tinha tio engenheiro, mas acho que eu gostaria de construir alguma coisa maior do que a fazenda e eu achava que, agora eu lembrei principalmente, Poços de Caldas, naquela época, já tinha muito minério, então eu achava que se formasse engenheiro de minas poderia vir a trabalhar em Poços de Caldas depois de formado e foi o que aconteceu. Quer dizer, eu vim, comecei a trabalhar em uma firma que mexia com bauxita e depois com a Geral de Minas, que naquela época tirava zircônio, que tem urânio, depois descobriram que tem urânio dentro do zircônio. E foi uma forma de eu poder voltar pra minha terra, não precisar sair da minha terra, eu queria trabalhar na minha terra. E aí, só adiantando o expediente, quando a Alcoa Minas apareceu eu vinha trabalhando em outros ramos, vinha trabalhando em construção civil, vinha trabalhando pra construir hotéis, pra construir prédios. Eu construí cooperativas, construí fábricas e depois cheguei, tava na época no Departamento Municipal de Eletricidade, e o meu irmão era prefeito, ele tinha me levado pra ser diretor de departamento. E aí que veio a oferta de vir trabalhar aqui na Alcoa e eu percebi que era a realização dos meus sonhos, porque em um local só, e na minha cidade, eu ia ter todos os tipos de engenharia, foi o que aconteceu: aqui você tinha desde a engenharia civil, o estaqueamento, a montagem de estruturas, tubulação de esgotos, estradas, estradas de ferro, energia elétrica, todos os ramos da engenharia tinha dentro de uma fábrica como foi a Alcoa, vamos dizer assim. Então eu consegui aqui realizar o meu sonho de fazer, de me aperfeiçoar na engenharia na minha própria cidade, né? P/1 – E como foi, assim? O senhor começou com a Companhia Geral de Minas, né? Conta toda essa história do começo da Companhia, depois a Alcoa, como é que foi isso? R – Pois é. Na Geral de Minas eu comecei a trabalhar, tinha a fase, por exemplo, numa outra companhia que foi a Mineração Curimbaba que foi a primeira firma que eu entrei prestando serviços de engenharia de minas, como responsável pra fazer relatórios, fazer pesquisa. P/2 – Foi seu primeiro emprego? R – Foi meu primeiro emprego assim fixo, vamos dizer assim. Depois a Geral de Minas me contratou também pra dar uma assistência. E aí depois eu passei a ficar fixo, trabalhar o tempo integral pra ela em zircônio. Eu tinha um jipe e eu ia ora pra cascata lá, aonde tinha minas pra lá, e ora pro outro lado oposto aqui onde tinham túneis pra tirar zircônio tal e aí eu trabalhava com essa firma, a Geral de Minas pra isso. Aí a Geral de Minas depois ela foi comprada pela Alcoa e eu digo aí o seguinte de que, na realidade, eu fui vendido, né? Eles me venderam junto com a Geral de Minas, eu fui vendido, não fui contratado, né? P/1 – E o senhor continuou trabalhando lá? E aí, qual era o seu trabalho no que passou a ser a Alcoa, né? R – Na Alcoa é isso que eu tava dizendo. Mas depois eu voltei a não ser tempo integral. Uma hora era tempo integral, aí eu voltei a prestar só serviços. E nessa época de prestar serviços é que eu continuava fazendo construções aqui na cidade. E eu fui trabalhar no DME, que é o Departamento Municipal de Energia de Poços de Caldas hoje. Eu fiquei um ano lá quando o Paulo Egídio, que era o diretor da Alcoa me convidou pra trabalhar aqui na fábrica aqui. E aí eu entrevi o futuro disso, achei que devia, não podia recusar um convite desses em toda hipótese. Então foi por isso que eu vim pra Alcoa e aí vinha a tempo integral, vamos dizer assim. Foram uns três anos de construção, foram muito pesados porque você não tinha horário pra entrar, pra sair. A hora que aliviava o serviço, que o serviço trabalhava até tarde, vamos dizer, é você ia pra casa, vamos dizer assim. Agora, quando terminou a construção e entrou na manutenção eu, na realidade, me senti meio assim mais frustrado porque manutenção assim: quando acontecia alguma coisa é que você tinha que entrar e era diferente na construção quando você ia fazer, quando você ia criar uma coisa nova, você vê e ia ver aquilo depois pronto. E o oposto é que a manutenção a coisa tava pronta você ia só fazer com que ela continuasse a funcionar. Então, aí nesse momento eu tive de novo uma proposta da Mineração Curimbaba, primeiro lugar que eu trabalhei, e ele me convidou pra ser diretor industrial lá e que ele na época queria montar fornos, foi o começo da Mineração Curimbaba também. Então eu fui trabalhar com eles lá e fiquei oito anos como diretor industrial, tempo fixo lá. Depois fui me afastando, eu fiquei só como engenheiro, depois continuo até hoje, vão ser 49 anos de trabalho pra Mineração Curimbaba, né, em prestação de serviço de mineração. P/2 – Durante a construção da Alcoa o senhor ficou responsável por qual parte? R – Pois é, teoricamente, eu continuei responsável pela mineração porque o Tom Willians era geólogo mas não podia assinar nada porque era estrangeiro, tudo e não tava ainda. Só no final é que foi contratado um engenheiro de minas, que é o Fernando Lana, que eu acho que vocês vão entrevistar. P/1 – Sim. R – Que aí o Fernando Lana que assumiu toda a parte de mineração. Então a mineração sempre tinha que ter um responsável permanente, não só perante o DNPM [Departamento Nacional de Produção Mineral] pra aqueles relatórios, o ano todo você tem que fazer relatórios de pesquisa, de lavra, de meio ambiente, de recomposição. Então, quando eu estava na Alcoa, aqui na construção, na realidade eu não olhei muito pela mineração, eu era o responsável mas o Tom é que mexia na coisa aqui, eu fiquei em tempo integral aqui na construção. P/2 – Então, mas nessa parte da construção o senhor cuidava de quê? P/1 – Como foi a construção? Conta aí como começou? R – A construção começou o seguinte, né? Ainda hoje vindo pra cá eu me lembrei: não tinham esses bairros, não tinham essas estradas, o acesso era por outro lado. Então, na época o dia que marcaram vieram os caminhões com os maquinários e estava eu e um engenheiro que não era o Tom Scheffer na época, ainda, americano, pra receber aquele maquinário. Então, nós lá naquela encruzilhada esperamos descer o caminhão e as máquinas vieram. E quando passou ali onde hoje é aquele açude que tem ali, que tem o nome do Tom Scheffer, nós tivemos que cortar paus e madeiras pra por no brejo pra máquina poder atravessar pra entrar aqui na área de serviço. Bom, aí a área de serviço primeira coisa você tinha que limpar aquilo tudo, o trator fazia uma limpeza da grama, do pasto, do capim, pra você criar uma área de trabalho, vamos dizer o seguinte. E depois você tinha que criar é uma coisa atrás da outra, é a drenagem, né? Você tinha, agora não tem mais, mas era um rego fundo que você tinha do lado de cá, de forma que toda a água que viesse de chuva caía nesse rego e vinha atrapalhar o serviço de trabalho. Aí começou a entrar, vamos dizer, o primeiro setor era o setor de locação, então era um grupo de topógrafos que vinham locando as ruas, né, os pontos onde seriam as determinadas construções e tinham os topógrafos e tinham os acompanhantes da mineração, da Alcoa, pra ficar fiscalizando onde é que você marcou, onde é que não marcou. E a partir daí, e aí abrindo o serviço. Então quando você abria o serviço, vinha a turma de drenagem. Você precisaria abrir os regos pra por aquelas tubulações pra que quando a chuva viesse ela não atrapalhasse o serviço. Então você abria as ruas, a drenagem e depois da drenagem você ia fazer aí a compactação dessas estradas, aí você criou um centro que é um almoxarifado, e um centro onde você começava a ter a direção, o grupo que dirigia ter ali. E a medida que a firma ia andando iam aparecendo, abrindo setores, então ia abrindo setores, por exemplo, estaqueamento é um grupo de ficar fiscalizando só pra estaquear e fiscalizar aquilo. Depois vinham os engenheiros eletricistas que começaram a tomar providências de como que ia entrar a força, onde é que ia ter os pontos de distribuição. Aí vinha os engenheiros mecânicos pra receber as primeiras máquinas, então, instalar essas máquinas nos diferentes pontos. E aí foi criando, então, dentro da própria fábrica os núcleos de trabalho, então o núcleo, por exemplo, da refinaria era um, o grupo da redução era outro, tinha um setor que era de análises e era outro e a medida que esses grupos iam sendo criados vinham vindo também gente, americanos, pra trabalhar em conjunto em cada um desses setores. Então a firma foi aumentando e ao mesmo tempo ela foi se diferenciando em grupos, esses grupos foram assumindo a chefia de cada setor. Mas precisaria ter um ponto central que unia esses diferentes grupos, porque com toda a boa vontade existia brigas entre os grupos, um queria que fizesse uma coisa mas o outro ainda não tinha acabado o serviço dele, então precisaria ter um ponto central que era um intermediário para apaziguar todas as demandas que existiam nisso aí, né? P/1 – Quem era essa pessoa? Quem era que... R – Pois é, essa pessoa era, depois foi o Tom Scheffer que foi o cara mais extraordinário que eu conheci na minha vida, e eu era o assessor dele. Eu trabalhava eu e ele fiscalizava as obras, o que estava sendo feito e distribuia prioridades, o que tinha que ser feito primeiro, o que tinha que ser feito depois. P/1 – E o senhor lembra assim algumas coisas, o que acontecia lá, algum fato que aconteceu lá interessante, alguma coisa assim? R – Pois é, eu sempre lembro um fato interessante, a fábrica era aqui mas ela foi crescendo, precisou abrir estradas pra várias pontos, precisou fazer uma estrada de ferro. E estrada de ferro, a primeira coisa que tinha que se fazer na estrada de ferro era fazer uma ponte para que os trilhos que estavam em Águas da Prata chegassem aqui, né? Então eu, encarregado de fiscalizar isso, tinha que pegar um jipe, ir em Poços de Caldas, dar uma volta enorme pra ir na ponte pra ir fiscalizar, assim, diariamente o que tinha começado a fazer na ponte, o que não teria. Então tava me dando um trabalho enorme. E aí eu convenci o Scheffer, eu falei assim: “Ô, Scheffer, se eu tivesse um cavalo aqui eu poderia ir pelo trilho da estrada, futura estrada de ferro, eu já ia até examinando onde é que vai ser o trilho e eu ia lá visitava a ponte e voltava, punha um cavalo aqui e voltava a trabalhar o dia inteiro, o que você acha?” E ele falou assim: “Você está com a razão, pode comprar o cavalo”. Aí eu fiz uma cocheirinha e pusemos o cavalo e eu todo dia ia cedo visitar a ponte até a ponte ficar pronta. Então eu lembro desse fato porque talvez seja o único engenheiro da Alcoa que tinha um cavalo, né? P/1 – E o cavalo resolveu a sua situação? R – Resolveu a minha situação. P/1 – E quanto tempo esse cavalo ficou lá ajudando vocês? R – Ah, eu não lembro. Enquanto construiu a estrada de ferro, até a ponte ficar pronta, né? Mesmo, depois da ponte, se tinha que botar os trilhos nessa estrada de ferro, né? P/1 – E outras dificuldades que aconteceram, como que era esse relacionamento de cada núcleo que o senhor falou? R – Não aí, você entendeu? Tinha uma porção de situações, por exemplo, começava a chegar esses americanos e eles precisavam alugar casas na cidade. Então a Alcoa comprou umas dez casas, 12 casas. E, como era também engenheiro civil, eu é que fui lá fazer a reforma, porque todo mundo que vai pra uma casa nunca acha que a casa tá boa, acha que tem que fazer isso, fazer aquilo, então eu tinha que todo dia dar um pulo na cidade também pra ir fazer a reforma das casas pros americanos que estavam chegando por aqui. Esse é um detalhezinho que não faz parte aqui. P/1 – Não, mas faz parte do todo, né? R – Mas faz parte de um todo, vamos dizer assim, né? E tem outros fatos assim interessantes, eu sempre volto a falar no Tom Scheffer porque realmente foi um cara extraordinário, foi a sorte da Alcoa ter mandado um sujeito como ele pra cá, porque ele tinha uma capacidade de interpretação, de decisão fabulosa. Foi a pessoa mais importante da minha vida profissional. P/1 – E conta um pouquinho como que, depois da fábrica, foi a primeira partida? O senhor estava presente, não estava? R – Pois é, a primeira... São vários setores que a fábrica começou a funcionar, ela começou a funcionar primeiro com a redução, né? Que era, e depois a parte lá, a redução não, a redução é o final lá. A redução era o final, era o prêmio da conclusão da obra quando saiu o primeiro lingote, vamos dizer assim. Mas você antes começou a fazer aqui, preparar a alumina. E eu lembro também de fatos que eu como responsável assim, nós tínhamos contratado uma pessoa que ele trabalhou a vida inteira cuidando de jardins, e era verde lá pra cidade. Então eu falei com o Scheffer o seguinte: se ele não, nós não podíamos fazer um jardim aqui em volta da sede pra enfeitar a coisa aqui. Aí ele falou assim: “Não, não faz isso não porque se de repente os gases da fábrica matarem as plantas, aí eles vão cair em cima dizer que a Alcoa mata as plantas”. Então de início ele me proibiu, mas aí eu comecei a fazer e depois chegou a conclusão de que os gases não afetam em nada a planta, pelo contrário, hoje em volta da Alcoa aqui é um jardim todo aqui, né? Então é normal que você tenha receios às vezes na vida e queira contornar isso aí. Mas assim, de acordo com isso daqui, eu estou dizendo pra demonstrar o temperamento do Scheffer, ele negava quando tinha que negar, mas voltava atrás quando tinha que voltar. Então quando eu tinha que... Quando nós tivemos então que levar os equipamentos lá da ponte, um outro exemplo, essas carretas tinham que atravessar a estrada de ferro ali de Poços, chega em Poços, pra chegar lá onde seria a ponte. Aí Scheffer falou assim: “Você tem que ir na Mogiana e pedir autorização pra nós cruzarmos a linha de ferro”. Americano é tudo enquadradinho como é hoje aqui, né? Você tem que pedir. Eu falei: “Nós não vamos conseguir isso nunca!”. Nós fomos com a equipe, compramos foguete, eu vejo o horário que o trem funciona e eu ponho uma turma de lá e uma de cá e com o foguete na mão e nós vamos atravessando com as máquinas, se acontecer de alguém vir o cara solta um foguete, nós paramos tudo. E ele falou: “Não, você está com a razão”. Então me autorizou a fazer alguma coisa assim meio irregular [RISOS]. Mas no começo você não pode, hoje você pode na Alcoa ter crachá, ter isso, ter aquilo, mas no começo você não tem jeito, tem que fazer as coisas, assim, meio na marra, né? P/1 – E como era o relacionamento na cidade com os órgãos públicos, né? Porque vocês tiveram que mexer com tudo isso. Pra construção da Alcoa vocês tiveram dificuldades? R – Não, não tivemos nenhuma dificuldade. A primeira coisa era a aprovação da prefeitura que eu fui responsável por essa aprovação e, paralelamente, é o CREA que você libera. Feito isso, você mais ou menos não depende muito mais disso, você dependeu depois de FURNAS pra trazer energia elétrica, né? P/1 – Isso também o senhor trabalhou com a parte de energia elétrica pra trazer pra cá? R – Não, a parte de energia elétrica já tinha nessa época, já tinha uma equipe da parte de energia elétrica pra fazer, né? P/2 – E a comunicação, seu Ricardo, com o Tom, com as pessoas que eram todos americanos, o senhor falava inglês? R – Não, pois é. Até foi uma falha minha porque o Tom ele aprendeu primeiro português, ele não queria falar inglês comigo porque queria aprender português, entendeu? Então ele, eu ficava só ajudando quando ele ia, ele conversava diretamente com os funcionários. Então, aquilo que o funcionário dizia eu entendia e traduzia pra ele, quer dizer, eu não era um especialista em línguas mas eu entendia o que precisaria ser feito, vamos dizer assim. P/1 – Em termos de comunicação mesmo como que era a comunicação na época? Comunicação: telefone, essas coisas? R – Eu acho que nós não sentimos necessidade disso não. Aqui se criou aqui um centro em que você tinha tudo e tinha também, você tinha que fazer também essas compras, mas aí você criou um almoxarifado, você tinha que comprar brita, tinha que comprar manilhas, tinha que comprar todo aquele negócio, imaginar um volume dessa construção e o que necessitava todo dia, precisava uma hora da brita, outra hora era cimento, outra hora era areia, outra hora... Então foi um ponto básico você criar um almoxarifado pra fazer todas estas compras aqui. Aí eu me lembro exatamente o seguinte: nessa época o primeiro que entrou foi chamado Seu Almir. Almir acho que era Maia, se não me engano. Esse Almir foi também um cara fabuloso, ele tinha uma memória assim descomunal, dentro do almoxarifado com prateleiras enormes você chegava: “Eu quero tal parafuso” ele ia lá e sabia em tal lugar tudo de cor, era uma fábula, vamos dizer assim. Então a Alcoa ela contou, por sorte ou por seleção, não sei o que, ela contou de criar desde início uma equipe e essa equipe ia crescendo na medida, na necessidade, ela ia contratando mais gente: precisamos suprir essa necessidade, então, foi aí que começou: eu preciso do eletricista, preciso agora do mecânico, preciso do motorista, preciso disso. Quer dizer, as coisas foram aparecendo como se fosse normalmente, né? O conhecimento era um conhecimento de demanda, não foi contratar uma equipe que ficava esperando serviço, você já entrava trabalhando para cumprir uma missão, né? P/2 – Então tinha uma parte, assim, administrativa que dava o suporte... R – Que dava o suporte tudo isso aí, né? P/1 – Na época, a Marília já trabalhava com o senhor? R – A Marília é, a Marília trabalhava. Que a Marília também era da Geral de Minas, o escritório inicial da Geral de Minas era na rua Minas Gerais, em frente do Hotel Minas Gerais ali, e depois passou pra rua Prefeito Chagas, mas a Marília que era chefe do escritório, de contabilidade de tudo, vamos dizer o seguinte. E o Dom, porque o Dom também é um outro sujeito fabuloso, né? Porque o Dom ele se tornou um brasileiro com todos os hábitos, com todos os jeitos, mas nunca também deixando de ser o americano de origem. Ele é realmente um dos pontos em que a Alcoa é devedora muito pra ele, vamos dizer assim, né? Como é que foi até hoje essa parte de recuperação de jazidas, de minas, enfim, de criar essa mentalidade de que é importante, você trabalhar mas cuidar das coisas. Então, eu aproveitando pra dar um exemplo aqui, é o seguinte: aqui se minera em Poços de Caldas há mais de 50 anos, e as minas são todas em voltas de Poços de Caldas. E não é só a Alcoa que minera, a Alcoa minera, a CBA minera, a Mineração Curimbaba, que hoje é uma grande firma, minera, sem contar uma série de outras firmas. Bom, se você andar em volta de Poços de Caldas pergunta dizer assim: “Onde é que eles tiraram os minérios aqui que usaram até hoje?”. Você não vê buracos como você vê no caso de mina de ferro lá em Belo Horizonte, aí não tem como porque a mina é um morro que você tirou o morro todo, quer dizer, o buraco ficou lá. Mas aqui não, a mina é superficial, então se você depois de tirar o minério você acertar o terreno e reflorestar o terreno, passado um tempo você não sabe que tirou minério ali. Então esse exemplo que eu dou aqui, que as pessoas são muito, geralmente gostam de criticar os mineradores, que os mineradores vão contra a natureza, né? Arrebentando o solo e mexendo com as águas, mas se os mineradores realmente souberem cuidar da recuperação não ficam sinais, pelo contrário, muitas vezes ficam acréscimos. Então quando você fez na entrada da Alcoa um lago, aquele lago que está ali, e esse exemplo eu vou dar não pra contar a história da minha, mas nós estávamos construindo essa construção aqui e a terra ruim você tinha que jogar fora, a boa você tirava de um ponto alto e punha num ponto baixo pra poder criar o negócio, nivelar. Mas a ruim você tinha que jogar fora porque ela não se compactava. Então nós começamos a jogar a terra ruim num ponto aí. Aí eu falei pro Scheffer o seguinte: “Ô, Scheffer, eu sou fazendeiro e acho que açude é uma coisa muito boa, quando você cria um açude, se você precisar de uma água pra um bombeamento, pra uma lavagem, você tem a água lá. O quê que vai custar pra Alcoa pagar um pouco a mais no transporte e levar essa terra pra fazer um lago?”. Ele falou assim: “Você está com a razão, vai em frente”. Então nós começamos a pegar toda a terra que não era utilizada aqui e formar o açude. Então nós construímos um açude a preço de graça. E ele me ensinou isso depois em vários outros serviços de que quando você está fazendo um serviço de que você pega o excesso daquele serviço e faz um outro você está ganhando o outro de graça. Então, quando eu tava tirando terra daqui pra tirar fora e tava fazendo o açude, o açude saiu de graça. Isso aqui me botou na cabeça o resto da vida. Então, quando eu estou fazendo uma estrada de rodagem e em vez de pegar a terra e jogar em qualquer lugar, eu faço uma praçazinha pra virar carro, entendeu? E esse outro serviço que eu faço tô sempre fazendo ele, ganhando de presente. P/1 – Reaproveitando, né? R – É um presente que você ganha aqui, né? Então são essas coisas que eu tô dizendo que numa vida como essa, se você tem a felicidade de estar trabalhando com uma pessoa inteligente, com bom senso, com a capacidade como ele tinha você cria um grupo que todo o grupo tem que agir, mais ou menos, com o pensamento dele. Agora, se nós tivéssemos tido a infelicidade de ter vindo, vamos dizer, pessoas autoritárias pra chegar lá: “Eu sou americano, eu quero impor a lei assim, assim, assim”, você ia criar um ambiente hostil de trabalho e que a pessoa tava trabalhando mas trabalhando porque precisava trabalhar mas não tava trabalhando com amor. E eu tenho, sou testemunha, de que durante toda a construção daqui todo mundo trabalhava com amor, as brigas que existiam eram brigas porque a pessoa queria fazer o trabalho dela em primeiro lugar do que o outro, então era briga de disputa de áreas de serviço, de prioridades de serviço. Mas o ambiente de trabalho aqui durante a construção foi realmente um ambiente fabuloso. P/1 – E essa preocupação... ----------- FIM DA FAIXA 02 ------------ P/2 – Seu Ricardo, o senhor falou sobre essa preocupação de minerar e recuperar o solo, né? R – Isso. P/2 – Até citou o Dom Willians, é isso? R – Isso. P/2 – Desde o começo ele já tinha essa preocupação ou isso foi uma coisa que veio depois? R – Não, essa preocupação não é só da Alcoa, eu também tenho que ser justo que era das outras mineradoras, da CBA, da Curimbaba. Mas eu tô dizendo porque o minério de Poços de Caldas ele é superficial, ele cria essa facilidade, ele não faz buracos. Então se você tiver o cuidado e não for, vamos dizer assim, munheca de não querer gastar dinheiro você vai depois lá e acerta e recompõe a área, planta, leva matéria orgânica pra cobrir, você pode fazer aqui. E isso aconteceu em Poços de Caldas, então esse exemplo que dou, se você andar em volta de Poços de Caldas, vê muito pouco buraco, porque os buracos são as áreas que são mineradas agora recentemente. Mas se você der um prazo, essas áreas com toda certeza vão ser acertadas. P/2 – Então, a minha pergunta era assim: se a Alcoa, desde o início, já se preocupou com isso. R – Desde o início, é claro! P/2 – Desde o início já... R – Ela tinha desde o início a preocupação. P/1 – E como era o processo de mineração na época e hoje? Qual é a diferença disso assim? R – A diferença não é muita porque a diferença é no peso do equipamento, né? Os equipamentos são mais pesados, tem mais carretas, o volume. A Alcoa começou com 25 mil toneladas, hoje eu não sei se ela já tá com 100, não sei mais o quanto é. Mas ela já multiplicou por quatro, vamos dizer o seguinte. Mas então o que você percebe uma diferença muito grande, eu sinto assim, quando nós começamos a construção tinha um guarda aí pra controlar a entrada, mas não tinha cartão, não tinha ficha, não tinha nada, quer dizer, se entrasse aqui gente estranha, ia ficar no meio aqui não ia, praticamente ninguém ia perceber, era uma família aqui dentro. Bom, depois a medida que as coisas foram crescendo é que começou a criar uma série de fatores, por exemplo, você está perguntando de meio ambiente: nós começamos a botar pedra britada em todas as estradas, os caminhos aqui dentro, por quê? Pra você poder trabalhar o ano inteiro, porque se não na época de chuva começa a patinar aquele barro, então começou, nós pusemos pedra britada não só... E a medida que iam fazendo os núcleos de construção, em volta deles também nós íamos colocando pedra britada. Então criou uma idéia de limpeza aqui muito grande, porque se você jogasse um papel esse papel estaria sendo a vista, né? Então eu vou lembrar uma outra história que eu sempre lembro que uma vez veio um pessoal importante da Alcoa fazer uma visita de vistoria aqui na fábrica, e ele correu a fábrica toda aqui e depois o Tom Scheffer chegou pra mim e falou assim: “Olha, ele encontrou esse prego jogado lá na construção”. Eu falei assim: “Bom, é um alto elogio, né? Se você andar numa construção deste tamanho e ele encontrar um prego pra dizer que tinha uma coisa errada eu considero não uma crítica, né?” P/1 – É um elogio, né? E depois aí como foi, o senhor disse que a primeira partida foi por etapas, né? Então o senhor lembra de alguma coisa que aconteceu, como é que foi esse evento todo? P/2 – Como começou o funcionamento da fábrica? R – Pois é, o funcionamento ela começou já também a refinaria, então na refinaria você ia chegar a bauxita e ia britar, você ia passar naqueles filtros, depois dos filtros vinham pra essas cubas de precipitador, precipitadores. E aí saía em pó, que era o material a primeira fase, que chama. Uma fábrica de alumínio ela pode ser feita em duas partes: a alumina e o alumínio. A alumina é o pó, é a primeira fase, e o alumínio é esse o pó que você vai fundir ele em cubas com a eletricidade, que você põem a eletricidade em alta tensão e aquele ponto funde e vira um líquido, e aí do líquido ele vai vazar, né, em moldes pra sair os lingotes. Então existem locais que só tem uma fábrica, só tem alumina, e outras só tem a redução, o alumínio. E aqui já começou com as duas fábricas mas elas são independentes, uma tem que sair primeiro e que é a de alumina. Então, ela saiu primeiro, saía com todos os controles de laboratório, asa de análise, tudo. P/2 – O senhor lembra quando começou o primeiro, como foi, o que aconteceu? Teve festa? R – Aí quando foi... Não... a redução não teve muito comemoração porque a redução é perigosa lá, é um lugar que tem as cubas, tem desprendimento, às vezes, de um pouco de gases, tem energia elétrica correndo pra lá e pra cá, então não convém muita gente circulando. Então foi o primeiro local que criaram restrições pra entrada de pessoas que não trabalhavam naquele setor foi a redução. Nas outras áreas você normalmente tinha uma liberdade de circulação. Então, a redução era um local que eu mesmo que era quase encarregado aqui tudo eu não frequentava praticamente a redução porque era um grupo treinado só pra aquilo mesmo. P/1 – E o que o senhor diria qual foi o principal desafio que enfrentou durante esse período? R – O desafio, isso aqui é o seguinte: isso aqui é como numa casa, você não tem o principal desafio, todo dia você tem desafios, né? O principal desafio que eu acho que existe é criar uma mentalidade de trabalho, de confiança, de amor àquela obra. Porque uma coisa é você trabalhar, outra coisa é você gostar do trabalho que você está fazendo, não é? Então, o tipo que trabalha por ganhar dinheiro é um sujeito infeliz, porque ele passa aquelas horas de trabalho mortificado, vamos dizer o seguinte, e o sujeito que gosta do trabalho, se ele tiver que trabalhar de noite, no domingo, ele não importa porque o que interessa é que aquele dia de serviço dele, aquelas horas de serviço dele, ele sabe que foram importantes pra andar um pouquinho mais na obra que estava sendo feita, né? P/2 – E o período após a obra, o senhor falou que ficou dois anos, não foi isso? R – Dois anos. P/2 – Como encarregado. P/1 - ... de manutenção. P/2 – Então, conta um pouquinho pra gente esse período que o senhor ficou de encarregado, como foi? R – Pois é, estou dizendo. Aí, você começou, eu que sou engenheiro, comecei a me sentir meio frustrado, porque eu acostumado durante três anos a todo dia fazer uma coisa nova, a montar uma coisa nova, e depois dizer: “Agora não tem mais o que montar, agora você só vai ver se quebrou, e se quebrou agora”. P/2 – A sua função era só ficar vendo se aconteceu alguma coisa? R – É, vendo se aconteceu isso, vamos dizer aqui, né? Mantendo em funcionamento isso e aquilo. P/2 – Mas o senhor tinha uma equipe? R – E coordenador. P/2 – O senhor tinha uma equipe que trabalhava com o senhor? R – Não, os engenheiros todos estavam sob a minha, eu era o responsável por todos os engenheiros, eu era chefe de engenharia, então eu tinha que coordenar essas diversas funções. P/1 – O senhor não participou de outras construções da Alcoa, não? R – Da Alcoa? P/1 – É, de outras fábricas? R – Da Alcoa não, eu só trabalhei aqui em Poços. P/1 – Só em Poços. E depois o senhor ficou mais dois anos aqui e quais foram, assim, os momentos mais importantes que o senhor passou aqui, alguma coisa assim que o senhor queira falar sobre esse tempo de fábrica, de construção, o senhor tem alguma coisa assim? R – Não, o que eu tenho que dizer é seguinte: que, na realidade, não foi um local de trabalho, foi um local em que eu fiz amigos, em que eu me senti feliz, né, e me senti realizado porque – eu vou contar um caso, que você disse que pode misturar, não pode, né? P/1 – Pode. R – Então, quando eu ia me casar a minha noiva, a minha sogra, sogra sempre é fogo, né? A minha sogra não queria o casamento porque eu era fazendeiro e ela não queria que a filha fosse morar em fazenda sem conforto, sem nada. E eu dizia pra ela: “A senhora pode ficar tranquila que eu sou fazendeiro, mas antes de mais nada eu sou engenheiro, eu sou três vezes engenheiro, então a sua filha não vai morar em fazenda, ela vai morar em cidade”. Então isso que eu tô dizendo, fiz a minha vida até hoje continuo fazendeiro, meus filhos tocam a fazenda, eu toco lá quando tem que fazer coisa de engenharia na fazenda sou eu que faço, até hoje. Mas nunca me desliguei de fazenda. Mas me considero antes de mais nada engenheiro, e eu vibro com qualquer coisa que tem fazer na engenharia. P/1 – Depois que terminou a construção que o senhor saiu ficou na manutenção dois anos. O senhor voltou a trabalhar na Alcoa, prestar serviços ou não? R – Não, depois que eu saí da Alcoa eu não voltei mais aqui, não voltei mais a trabalhar na Alcoa. P/1 – Não voltou mais a trabalhar pra Alcoa. P/2 – Mas o senhor manteve os relacionamentos de amizade? R – Eu tinha relacionamentos, tinha sim, principalmente com o Dom. O Dom, inclusive, semana passada ele levou dois engenheiros australianos, que é de meio ambiente, ele pediu pra irem na fazenda, passou lá um dia lá, almoçou comigo lá, passou lá. Então eu mantenho relacionamento. P/1 – E as alegrias? Quais foram as suas alegrias durante esse projeto de construção da fábrica desse tempo de Alcoa? R – As alegrias eu acho o seguinte: cada coisa que você estava fazendo, que terminava, era uma alegria, então, quando você, vamos dizer, terminou uma estrada de ferro é uma alegria. Você foi construir um lago de lama, era... Cada coisa nisso aí era uma colcha de retalhos, cada coisa tinha a sua razão e tinha a sua importância, só que a sua importância ela tinha prazo porque, se ela atrasasse, ela ia atrasar uma série de outras coisas. Então quando você marca, como eles marcaram, um prazo de três anos pra construir a fábrica, era preciso que, é uma máquina que todas as coisas andassem, independente do tempo, de chuva, ou de imprevistos era preciso que essas coisas andassem e que não era que fazia isso, existia em São Paulo alguém que tinha um cronograma, então o Scheffer ia passando toda semana, ia passando: “Fez isso, fez aquilo?”. Então você ia lançando no cronograma pra ver se a obra iria sair dentro dos três anos. Você se não tiver um cronograma pra dizer: “Eu consegui isso, isso tá pronto, falta isso, estamos atrasados nisso, né, precisamos adiantar nisso”. Então, ao mesmo tempo criou-se lá em São Paulo um escritório, esse escritório que é quem tinha o contato, vamos dizer, com os Estados Unidos, o dinheiro, o dinheiro que vinha, como é que vinha, né? P/1 – E vocês tiveram algumas dificuldades que atrasou a obra, que aconteceu alguma coisa? R – Não, nunca teve nada. Eu acho posso dizer que foi como se fosse uma perfeição, não foi chuva que atrapalhou, não teve nada que tenha atrapalhado o cronograma. P/1 – Então a obra ocorreu dentro do previsto? R – Dentro do previsto certinho. P/1 – E o quê que o senhor considera como a sua principal realização nesse tempo de Alcoa, na Alcoa? R – Eu acho o seguinte: que o relacionamento que eu criei com várias pessoas eu acho que isso, que só isso vale a pena, a primeira realização minha foi isso, porque se você tivesse, por isso que eu não recusei, deixei de ser diretor do DME pra vir trabalhar aqui porque enxerguei uma possibilidade, visualizei uma coisa maior aqui. E era um local onde você tinha todos os ramos da engenharia, isso pra quem é engenheiro é muito importante, quer dizer, na sua cidade natal. Quer dizer, aquele primeiro sonho: porque que eu fui estudar engenharia em Ouro Preto? Porque eu queria trabalhar em Poços. Então quando eu consigo não só trabalhar em Poços, mas exercer todas as atividades de engenharia é uma realização muito grande, por exemplo, durante o curso da escola eu fui estagiário em Volta Redonda que na época era a maior firma, vamos dizer, uma siderurgia do Brasil, uma coisa fabulosa. Eu fiz estágio, fui estagiário lá. Eu fui estagiário na mina de Morro Verde, de ouro, era uma mina que você trabalhava há mil e 200 metros de profundidade, você descia em elevadores e com capacetes e com lanternas acesa e eu nunca esqueci isso, porque era um inglês o dono da mina então eles diziam o seguinte: “Pra você usar a lanterna porque no elevador aquele povo era bruto, eles te imprensavam e podiam te machucar dentro do elevador”. Então, se acontecesse você chegava, o lampião pra se defender. Então você trabalhou aquilo, como que tinha que fazer? Você tinha que trabalhar com dinamite, ia numa frente, colocava as bananas de dinamite, depois punha fogo e se afastava uns 20 metros, atrás de um barranco e via aquilo explodir, depois você ia lá ver o que conseguiu de resultado. Então, isso foi parte de mineração, eu trabalhei a mil e 200 metros de profundidade, eu tentei siderurgia, mas eu não encontrei, eu achei que não era por aí que era o meu caminho, o meu caminho era sempre Poços de Caldas, e eu era pegado a Poços de Caldas, e consegui fazer engenharia e realizar o meu sonho aqui em Poços de Caldas. P/1 – E você tem mais algum caso pitoresco que aconteceu durante esse período de Alcoa que o senhor possa se lembrar? R – Ah, a gente esquece assim, né? P/1 – E qual o seu estado civil? R – Eu sou casado, tenho três filhos, são três engenheiros. P/1 – Como é o nome da sua esposa? R – É Ruth Maria de Arruda Camargo Junqueira. P/1 – E o senhor pode dizer como o senhor conheceu ela? R – Eu conheci aqui em Poços porque o pai dela alugava um apartamento aqui e ele vinha todo ano passar férias. Então, nessas festinhas que tinham na cidade eu a conheci. E depois eu acabei namorar lá em São Paulo, eu tinha que ir nos fins de semana em São Paulo... P/1 - ... encontrar com ela. P/2 – Ela era de São Paulo? R – Ela era campineira, os campineiros não gostam de dizer que são paulistas, são campineiros, né? P/2 – Quer dizer que o senhor conheceu ela numa festinha? Tinha muitas festinhas? R – É, aqui tinha muita reunião de festa. P/1 – E o que o senhor gosta de fazer nas suas horas de lazer? R – Olha, eu na realidade eu gosto de trabalhar, eu até hoje eu fico, ainda sobra pra mim a parte burocrática da fazenda que é banco, cartório, papel, entendeu? É pasta. Então eu tenho que organizar aquilo porque eu fico numa preocupação de que aquele amontoado de coisas, que pra mim é fácil de você lidar porque sabe se está aí nesta pasta aqui, se está aqui, se está aqui e eu imagino que o dia que eu morrer os meus filhos vão ter dificuldade pra juntar aquelas coisas. Então eu procuro o mais possível organizar as minhas coisas, a minha vida. P/1 – O senhor dedicou uma parte da sua vida a Alcoa, né? Aposto, acompanhou todo o desenvolvimento, do nascimento. Qual é a sua visão a respeito do desenvolvimento de lá até os dias de hoje? O senhor acompanha ao longo desses anos? R – A gente se afasta, mais ou menos, ainda mais porque a Alcoa ela teve que partir lá pro Pará, pra fora daqui e em projetos grandes, inclusive levando gente daqui, ou então o Scheffer mesmo que foi pra lá. Foi uma série de pessoas que eles levavam daqui pra dar uma força lá. E lá passou a ser uma coisa, vamos dizer em valores, assim, maiores do que aqui. Então, aqui ficou como uma sede, um exemplo, mas quando você fala hoje nos mundos, em faturamento, vamos dizer o seguinte, da Alcoa, é claro que os valores de lá superam muito, né? E essas firmas hoje elas disputam pelo quê? Pelo faturamento, né? Então, não só a Alcoa como a CBA, quer dizer, uma não quer ficar pra trás, uma abre uma fábrica, a outra quer abrir outra fábrica, né? Em pontos elas se associam pra juntas aí eles vão disputar com mercados estrangeiros, fora daqui, né? P/1 – E quais foram os maiores aprendizados de vida que obteve trabalhando na Alcoa? R – Aprendizado de vida? P/1 – De vida. R – Não, é isso que eu tô dizendo: eu aprendi aqui um aprendizado, eu tive possibilidade de experimentar todos os ramos, quase, de atividades de engenharia, então só isso é uma realização. Quer dizer, se você fez um curso de engenharia e você diz o seguinte: eu fiz alguma coisa como engenheiro, né? Então eu acho que isso é um prêmio, então é isso que eu considero o maior prêmio, vamos dizer. P/1 – Então o senhor já foi um “alcoano”, né? Então, como que foi ser um “alcoano”? R – Não, só me deu orgulho! O tempo que eu tive aqui só me deu orgulho e o grupo que na época tinha aqui, por ser um grupo pequeno, era um grupo que você era amigo, era irmão, vamos dizer o seguinte. Então, é claro que não pode ser mais daquele, hoje não pode ser daquele jeito. Então, hoje você vai encontrando obstáculos, você chega aqui, tem uma cabine e eles vão te dizer o que tem que fazer, o que não tem. Você tem que botar um crachá, tem que uma pessoa te acompanha, o outro vem aqui: “Ó, você pode, você não pode sair”. Então é uma coisa completamente diferente que você estranha, entendeu? Quer dizer, você fala: “Eu hoje não tinha jeito de trabalhar desse jeito, né?”. Não consigo, não conseguiria mais trabalhar. P/1 – Muitas regras e muitos procedimentos, né? R – As regras são muito rígidas, exige demais, vamos dizer o seguinte, e limitam demais porque chega um ponto que a pessoa não pode andar, não pode... Não sabe até se está fazendo uma coisa certa ou errada. P/1 – É tudo pela segurança. R – Tudo pela segurança, né? P/1 – No tempo do senhor como que era esse fato, a segurança lá, os americanos já se preocupavam na época da construção? R – Não, eles se preocupavam. Então, se você gosta de ouvir histórias: quando chegaram as primeiras carretas de máquinas e nós, eu e um americano fomos esperar essas máquinas lá na entrada na rodovia lá, e eu já tinha que pôr o capacete e nunca tinha usado capacete na minha vida, né? Bom, como muita gente de Poços sabia que essas máquinas iam chegar lá e foram lá ver a chegada, comecei a sentir vergonha de ter que pôr o capacete, né? Era a primeira vez na vida. E depois eu percebi que pelo contrário, as pessoas estavam orgulhosas. P/1 – De vestir o capacete da Alcoa. Pode continuar? R – Pode. P/1 – O que o senhor acha desse projeto que a Alcoa está fazendo de registrar a sua história através do depoimento das pessoas? R – Eu não sei bem assim, eu não sei bem. As novas pessoas, o quê que iriam ao ler uma entrevista dessas, o que iriam ler, achar de interessante ou não. Então, eu imagino é como se fosse um livro, você tem milhares de livros aí e fala assim: “Ó, esse livro é muito bom!” e você começa a ler e das duas uma, ou você se entusiasma com aquele livro e vai querer ir a fundo, chegar no fim, ou você vai dizer o seguinte: “Isso aí tá muito chato, eu tenho outra coisa pra fazer, né?”. Então eu acho que eu não sei quem vai ler isso e, provavelmente, não vão ser todos iguais, quer dizer, você vai encontrar pessoas que tem interesse de ler a história da Alcoa e outros que não tem o interesse, outros querem o dia a dia aí, continuar no trabalho deles no dia a dia, né? P/1 – O que o senhor achou de participar dessa entrevista? R – Não, eu fico ventoso de ter sido escolhido pra fazer essa entrevista assim. E, de início, fica preocupado porque eu não sabia, uma coisa era a parte profissional, o meu contato profissional com o grupo Alcoa, e outra coisa é fatos que são da minha vida particular. Então quando eu contei alguns fatos aí pra vocês aqui que eu nem sei se eu deveria de ter contado porque não era propriamente da Alcoa, né? É um desabafo meu, é uma lembrança, né? P/1 – Mas foi excelente, é isso mesmo. Então, em nome da Alcoa e do Museu da Pessoa nós agradecemos a sua entrevista. R – Obrigado. P/1 – Obrigada o senhor.
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