Busca avançada



Criar

História

Um elo entre sociedade e indústria

História de: Miguel Bahiense
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/02/2017

Sinopse

Miguel Bahiense é soteropolitano. Nascido em 1972, conta nesta entrevista sobre a infância na cidade marcada pelas idas à praia e pelo futebol na rua em que vivia. Optou por seguir a engenharia química, cursada no Rio de Janeiro. Após graduar-se, conseguiu realizar o antigo sonho de trabalhar no Polo Petroquímico de Camaçari, em sua cidade natal, como estagiário, lá teve conhecimento da questão ambiental. Com uma vasta experiência na área com passagens pelo Instituto do PVC, Instituto Nacional do Plástico e Plastivida, Miguel é um dos principais nomes nacionais em se tratando da temática da sustentabilidade associada aos materiais plásticos.

Tags

História completa

Me chamo Miguel Bahiense, eu sou natural de Salvador e nasci em dezenove de agosto de 1972. Meu pai se chama Agapito de Campos Bahiense e a minha mãe, Benita Pinheiro Bahiense. Minha família é da Bahia, não à toa, o sobrenome Bahiense, eles vieram do interior da Bahia. Ambos cresceram na cidade de Jequié e o meu pai aos dezenove anos se mudou para a capital, para Salvador, e foi trabalhar na Petrobrás, onde desenvolveu seu trabalho por quarenta e quatro longos anos. Essa é história aí dos meus pais chegando à capital baiana.

A minha mãe é uma pessoa muito especial, ela tem o mérito de ser chamada de “mãe” por muitas das pessoas que eu conheci em vida, de familiares, amigos. Tem uma história muito marcante, porque a família da minha mãe tem uma descendência europeia, e o meu avô tinha preconceitos racistas, inclusive. O nome da minha mãe é Benita porque se fosse homem, meu avô chamaria de Benito, em homenagem ao Mussolini e como nasceu mulher e naquela época não se sabia o sexo antes do nascimento, ela se chamou então, Benita. Então, a família é 100% loira de olhos azuis, embora na Bahia, e minha mãe se apaixonou por meu pai, Agapito, que é negro. E o meu avô não aceitava a relação deles, o casamento, especialmente pela cor de pele do meu pai, que tem uma origem índia dentro da família dos meus avós paternos. No entanto, o meu avô materno morreu nos braços do meu pai, dizendo que ele foi o maior homem que ele conheceu em vida e que ele se arrependia muito dos preconceitos que teve no começo da vida dele. Então, é uma história de família muito legal, porque o reconhecimento, ainda que tardio, chegou, mas enfim, tudo aconteceu de uma forma muito bonita, e a família da minha mãe se rendeu e entendeu que não se pode ter esse tipo de comportamento perante as pessoas, especialmente num lugar como a Bahia, que por essência, é negra.

Tive uma infância muito feliz, uma infância que eu nasci, praticamente, numa rua sem saída, no bairro da Pituba em Salvador. Cheguei lá, praticamente, recém-nascido, com menos de dois anos de idade e foi um lugar que eu cresci, eram vinte e duas casas, em uma rua sem saída e nós crescemos chamando os vizinhos de tios e tias, frequentando suas casas à vontade, todas as festas que existiam, São João, Dia das Crianças, Dia dos Pais, Dia das Mães, se faziam festas nas ruas, os pais construíram uma quadra de futebol, onde eu aprendi a jogar bola e me tornei goleiro. O futebol era sempre, não tinha época, e o time da rua era uma coisa fantástica.  Nosso time tinha uma origem na minha casa, a quadra que eu me referi que os pais construíram, era uma quadra de futebol de salão, e na minha casa tinha uma equipe de futebol de salão, porque era eu no gol, três irmãos mais o meu pai, então eram quatro na linha e um no gol. Eu me lembro que o meu pai costurava bolas de futebol, então nós não tínhamos uma bola comprada na loja, nós tínhamos a bola que o meu pai fazia com a sobra do conserto das bolas das pessoas que conheciam ele e pediam para ele consertar. Ele fazia as nossas bolas e eram bolas maravilhosas, então não havia necessidade de ter uma bola de determinada marca, sabe, não tinha ainda esse apelo comercial. Outra relação muito forte, de fortes lembranças boas da Bahia é do time que eu torço, do Bahia, porque domingo à tarde, cinco horas, era sagrado estar na Fonte Nova para assistir o Bahia, o meu Bahia como a torcida se refere, jogar. Era um programa familiar que o meu pai estendia para outros vizinhos, os pais não tinham o costume de ir ao estádio ver o futebol, mas vários desses meus amigos iam com a gente no estádio, então acho que é uma lembrança que até hoje eu sinto falta e procuro praticar com os meus filhos. Meu filho, embora nascido em São Paulo, hoje com treze anos, se o Bahia pintar por aqui num raio de até 400 quilômetros, eu estou com ele no estádio.

Eu decidi fazer Engenharia Química, porque Química era a matéria que eu mais gostava do colegial. Me lembro que na época, eram poucas vagas disponíveis na Federal da Bahia, a UFBA, eram sessenta vagas por ano apenas, e o Polo petroquímico de Camaçari absorvia muito os formados em Engenharia Química, então era um curso muito difícil de ser aprovado. Acho que eu terminei também me influenciando, de certa forma, porque todas às vezes que nós íamos viajar para visitar os meus avós no interior, minha mãe saía de casa com o carro, pegava o meu pai no começo da tarde na Refinaria e ele gostava de mostrar a unidade, a casa de parafina, onde ele trabalhava, enfim, a gente conhecia a RLAM, a Refinaria Landulpho Alvez como a palma da mão, porque toda viagem que nós fazíamos, a gente ia para lá e todas às vezes, ele gostava de mostrar. Então, eu sempre gostei muito disso, foi muito bacana.

A faculdade foi muito difícil porque eu recordo que eu tinha um amigo, Augusto, que era o meu vizinho de muro e foi o amigo que eu cresci junto, nos identificávamos bastante, e eu lembro que o Augusto falava que o sonho dele era morar no Rio, mas o pai dele não deixava e eu dizia para ele: “Você é maluco, que morar no Rio de Janeiro, pô, sair daqui, tem faculdade aqui”, e a gente ficava brincando e conversando ali no segundo, terceiro ano falando sobre isso. Até que o meu irmão Roberto me chama para fazer o vestibular no Rio de Janeiro e Roberto, é um ano e meio mais velho que eu, eu me espelhava nele, então ele me sugeriu: “Vamos para o Rio fazer Química lá na UFRJ?”. Aceitei o desafio e aí, a Vania, uma prima minha da Ilha do Governador que nos ajudou fazendo inscrição na faculdade e ela virou para mim e me falou que saiu o resultado, eu recordo que eu fiquei mais triste por ele não ter sido aprovado do que feliz por ter sido aprovado, porque eu fui para o Rio de Janeiro sozinho, larguei uma família grande, e fui morar no Rio de janeiro sozinho.

E nesse momento, eu consegui um estágio. Era um estágio que estava aberto há seis meses a vaga, ninguém preenchia, ninguém aceitava ou fazia o estágio porque ele tinha uma característica, era um estágio em que o trabalho era ler informações técnico- ambientais sobre o plástico PVC. Aceitei de imediato e vaga e passava a semana toda no Polo de Camaçari lendo informações ambientais sobre reciclagem, sobre reciclagem química, energética, incineração, PVC incêndio, aditivos na indústria de PVC, então todos os temas ambientais ligados ao plástico PVC me chegavam através de documentos em que o meu trabalho era lê-los em inglês, espanhol, francês, francês. O meu trabalho era compilar essas informações para mandar para a sede da Abivinila, que era Associação Brasileira dos Fabricantes de Resinas de PVC aqui em São Paulo para que as pessoas que trabalhavam na Abivinila pegassem esses compilados e criassem artigos técnicos ambientais sobre o PVC. Então, esse que era o meu trabalho, esse que foi o estágio que eu aceitei.

O meu sonho era trabalhar no Polo, era subir em torre, era ligar equipamento, medir pressão, sabe, era de trocador de calor, aquela coisa toda da química, da Engenharia Química, reatores, mas de repente, eu comecei a tomar conhecimento de uma área que era muito pouco divulgada no país ainda, que era o lado ambiental de um setor industrial, não importasse se fosse plástico ou não. Então eu comecei a entender o meio ambiente de uma outra forma, comecei a entender as questões ambientais do setor plástico de outra forma que não estando na indústria, operando máquinas e absorvendo conhecimento de terceiros, mas ali, eu formava uma opinião, eu conhecia o tema e o dividia com as pessoas, ainda que enquanto estagiário, depois como assessor técnico dessa entidade de classe que hoje eu também presido que é o Instituto Brasileiro do PVC.

Então todo esse trabalho no Instituto do PVC que foi onde eu me formei, onde eu aprendi a trabalhar, enfim, chegou um momento que ele foi, de certa forma, reconhecido, né, mais ou menos em 2009, eu recebi um convite para assumir um processo em que estabelecesse essa energia entre diferentes associações de classes, então foram me citadas algumas delas: o instituto onde eu já era diretor executivo, estava me tornando presidente; a Plastivida que era outra identidade de classe independente e o Instituto Nacional do Plástico, e eu recebi um convite para que eu pudesse estabelecer as sinergias entre essas associações e eventualmente outras. Em 2009, começamos a discutir o tema, 2010, até que do meio para o fim de 2010, eu assumi também a Plastivida e o INP, primeiro digamos como ouvinte, ali, ainda com a estrutura anterior dessas duas entidades, mas já começando a me integrar dos temas de cada uma delas, até que em janeiro de 2011, eu assumi a presidência da Plastivida, acumulando ela com a do Instituto Brasileiro do PVC e também no Instituto Nacional do Plástico. Então, essas três entidades ficaram sob o meu comando, com suas equipes na tentativa clara de estabelecermos sinergias, então foi um momento de uma nova guinada na minha vida profissional, em que assumi novos compromissos, novos desafios.

A Plastivida é uma entidade de classe, que nasceu com o intuito de ser o Instituto Socioambiental dos Plásticos e em verdade, a Plastivida é de 1992, ela era Comissão de Reciclagem da ABIQUIM – Associação Brasileira da Industria Química e em 2005, ela ganhou voo solo, vida própria, se tornando de fato, uma entidade de classe. E por muito tempo, a Plastivida, desde então, na verdade, deixou de discutir apenas a questão da reciclagem, mas junto a ela, o questão do consumo consciente, da relação da sociedade com os produtos plásticos, no intuito de promover o setor, promover os produtos, mostrar para a sociedade a relevância dos plásticos para o desenvolvimento desta, seja na área médica, seja na indústria automotiva, na indústria de construção civil, enfim, nos diversos setores em que os plásticos são utilizados no nosso dia a dia.

Em 2014 a Plastivida ganhou, além de um novo  logotipo, uma nova marca, um novo posicionamento, não mais para ser a voz da indústria na sociedade, mas sim sendo a voz da sociedade na indústria. A gente precisa estabelecer esse link com a sociedade, a gente precisa mostrar a sociedade os benefícios que os plásticos permitem a sua vida. A gente não pode dar as costas, não só às pessoas, mas às coisas, também, porque na hora em que a gente reconhece isso, na hora que a gente prática isso, a gente muda um ponto fundamental da sociedade, que é o meio ambiente, a gente ouve muito falar assim: “Que planeta nós vamos deixar para os nossos filhos e netos?”, não, tem que ser ao contrário, essa mudança de relação, passar essa informação à frente para nossos filhos e netos vai nos permitir mudar essa visão e falar o seguinte: “Que filhos e netos nós queremos deixar para o nosso planeta?”, nessa inversão de valor é que a Plastivida está imbuída de procurar estabelecer um link melhor dos plásticos com a sociedade, da sociedade com a indústria, da indústria com o poder público, da universidade com a sociedade e com a indústria. A Plastivida tem esse olhar, nós não somos uma entidade que discute mercado de produto, falamos de características, aplicações do plástico, benefícios, vantagens, respondemos a questionamentos, estabelecemos um elo socioambiental entre sociedade e indústria. Então, é fundamental que a indústria ouça a sociedade, e também que a sociedade ouça a indústria, a Plastivida procura fazer esse link, como está no seu logotipo, na sua assinatura: “Juntos somos mais sustentáveis”, e juntos todos são os atores da sociedade, acho que esse processo é um caminho pra gente ter um meio ambiente mais saudável.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+