Busca avançada



Criar

História

Um dos três maiores violonistas do Brasil

História de: Roberto Vieira Nascimento
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/06/2016

Sinopse

Nesta entrevista, Roberto Nascimento, musicista, nos conta sobre sua família e sua infância. Seu pai, José Vieira do Nascimento, que era radiotelegrafista de bordo, era do Ceará, sua mãe, Guiomar de Souza Nascimento, dona de casa amazonense. Eles se casaram e decidiram vir para o Rio de Janeiro. Nasceu no Botafogo e sua família foi sempre muito pobre, contando com Roberto eram um total de quatro irmãos. Começou a estudar com 11 anos na Escola Preparatória de Cadetes do Ar e da EPCAR de Barbacena, mas largou os estudos para tocar violão. Trabalhou com Elizeth Cardoso, Helena de Lima, Dick Farney, Stepan Nercessian, Cecilia Reis, Cartola, Bethânia, Nara Leão, Paulo Autran e outros. Foi exilado para o México por causa de uma música sua, “Os burros do ano 2000”, adquirindo muito sucesso por lá, fazendo, inclusive, a música oficial da Copa de 70, a conquista do tri. Quando possível, voltou ao Rio de Janeiro, mas logo foi para França, Portugal, Bélgica, Espanha e alguns outros países da América do Sul. Nos fala também sobre o Retiro dos Artistas, como é sua vida lá, onde reside já há dez anos.

Tags

História completa

Meu nome é Roberto Nascimento. Nasci na véspera de Santo Antônio em 1940. Sou o terceiro filho numa família de quatro irmãos. Meu pai era do Ceará e se chamava José Vieira do Nascimento, ele era radiotelegrafista de bordo, e participou da Segunda Guerra Mundial. Minha mãe se chamava Guiomar de Souza Nascimento, era uma dona de casa amazonense. Eles se casaram e decidiram vir para o Rio de Janeiro. Nasci no Botafogo e minha família foi sempre muito pobre, assim que estávamos sempre mudando de aluguel para aluguel. Morei no Engenho Novo primeiro… não, morei na Lins de Vasconcelos, depois fui para o Engenho Novo, do Engenho Novo fui para Vila Isabel, de Vila Isabel para Botafogo, em Botafogo fiquei um tempo lá e aí, depois, meus pais já tinham falecido, eu vim morar sozinho, então eu vim morar no Recreio.

 

Comecei a estudar com 11 anos na Escola Preparatória de Cadetes do Ar e da EPCAR de Barbacena, mas larguei os estudos para tocar violão. Daí em diante comecei a tocar sempre. Comecei a tocar com Elizeth Cardoso, Helena de Lima, e Dick Farney. Meu primeiro show, aliás, foi no Cangaceiro com a Elizeth. Fui pro ar com ela e ela até cantou músicas minhas. Modestamente, realmente, na época eu tocava bem. Depois, passei a tocar excepcionalmente bem. Eu fui um dos três melhores, modestamente, um dos três melhores violonistas do Brasil. Não é à toa que eu tô aqui no Retiro dos Artistas. Quando eu entrei aqui, eu fiz um show, nós fomos muito premiados. Nós inscrevemos, atuamos, a direção foi do Amir Haddad. Não sei se ele morreu, eu acho que não. Nunca mais o vi. O Stepan Nercessian e eu também.

 

Eu sei que eu conheci o Cartola e foi tão bom lá no morro, lá na Mangueira, que me convidaram para ser conselheiro do Centro Cultural Mangueira, porque, modestamente, eu era uma pessoa, em comparação com o pessoal do morro, lá, todo mundo analfabeto, né, eu era mais ou menos culto, falava muitos idiomas, eu fui exilado político, por isso que eu aprendi muito, foi muito bom pra mim. Na ditadura, fui exilado pela minha música “Os burros do ano 2000”: “Uma da tarde, dois de janeiro, três companheiros, quatro canhões, cinco cidades, seis mortos vivos, sete dos sete sou eu. Uma da tarde, dois de janeiro, três companheiros, quatro canhões, cinco cidades, seis mortos vivos, sete dos sete sou eu, oito mandando, nove mandados, dez gritando, onze calados, doze feridos, treze cansados, quatorze enterrados, quinze foguetes no espaço fugindo da guerra, dezesseis toneladas de bombas chovendo na terra, são dezessete, foram dezoito, os dezenove, o vinte fugiu, vinte e um anos, vinte e dois mortos em vinte e dois de abril. São dezessete, foram dezoito, os dezenove, os vinte fugiram, vinte e um anos, vinte e dois mortos em vinte e dois de abril. Mil novecentos e oitenta e tantos, luta que muda, nada mudou. Nascem milhares e morrem outros tantos na revolução. Burros do ano dois mil”.

 

Fui então para o México, onde tive muito sucesso e até fiz a música da Copa do Mundo. Foi a melhor época da minha vida, eu sou muito burro, mesmo, porque eu ganhei muito dinheiro e eu gastei também muito dinheiro, gastei todo dinheiro, porque o dinheiro que eu ganhava, eu ganhava dez mil dólares hoje, não tinha nem dois mil réis, gastava com cocaína. Lá, no México, eu fui diretor criativo de uma agência de publicidade, a maior agência de publicidade do México. Depois, voltei para o Brasil, direto ao Rio de Janeiro. Tinha muita saudade do Brasil.

 

Tinha muito dinheiro na época, e resolvi ir para Paris. Peguei um avião e fui para Paris. Paris é um lugar que me chamava a atenção, depois porque eu nunca me casei, mas eu vivi com uma mulher sete anos… Eu tive vários amores, muitos. Mas com ela eu tive meu filho, Robertinho. Mas eu devo tenho uns 200 filhos por aí pelo mundo, né, que eu viajei o mundo inteiro. Antes era só na sorte ou no azar. As mulheres vinham falar de casamento comigo e eu falava: “Vou deixar a mulher tomar conta de mim, me dominar a vida inteira, tá maluca?”, coisa de menino, né? Depois de tocar no assunto, a mãe do meu filho disse assim para mim: “Roberto, desculpe, você não quer casar, tudo bem, mas porque eu respeito a sua opinião, porque você é espírita e eu também sou espírita, mas em verdade, eu vou dizer uma coisa muito boa pra você, mas que pode ser muito ruim também”, eu disse: “O quê que é?” “Eu tô grávida”, aí a minha vida se resume no que nasceu, Robertinho, garotão bonitão, tem um metro e oitenta e seis, parece, por aí. Eu tenho um e setenta e nove. Viajei com eles pela França, Portugal, Bélgica, Espanha e alguns outros países da América do Sul. Em todos os lugares, toquei e depois de um tempo até comecei a cantar.

 

No Brasil, quem lançou Maria Bethânia fui eu. Zé Keti, Maria Bethânia, João do Valle [cantando]: “Carcará, pega, mata e come, carcará, vai morrer de fome, carcará, mais coragem do que homem, carcará, pega, mata e come…”, essa música, né, era lá no Opinião. Eu toquei com o Pery Ribeiro muito tempo, com a Leni Andrade muito tempo, mas também trabalhei com eles lá fora, fora do Brasil, lá no México. Toquei com Leão. Paulo Autran. Aí, uma hora, parei de tocar e me mudei pra cá, o Retiro dos Artistas, onde resido já há dez anos. Ah, já tô aqui há bastante tempo. Mas hoje eu só tenho um sonho, não sentir solidão. Sentir solidão acho que é a pior coisa do mundo.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | [email protected]
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+