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História

Um dos pilares das refinarias Petrobras

História de: Lilian
Autor: Lilian
Publicado em: 06/06/2021

Sinopse

Infância em Pelotas, Rio Grande do Sul. Muda-se para o Rio para estudar. Serve à Aeronáutica por três anos. Começa a trabalhar na Petrobras. Constrói uma carreira na empresa. Dante Enedino participou na construção e operação de refinarias e bases pelo Brasil todo. Advogado. Dois casamentos. Quatro filhos. Dois netos.

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História completa

P/2 – Boa tarde.

R – Boa tarde.

P/2 – Eu gostaria que o senhor começasse dizendo para a gente o seu nome completo, local de data de nascimento.

R – Meu nome completo Dante Enedino Funari de Lucia, é... local de data de nascimento: eu nasci em Pelotas, no Rio Grande do Sul, no dia 9 de março de 1938.

P/2 – Agora conta para a gente o nome dos seus pais e dos seus avós.

R – Bom, meu pai era Vitório Funari de Lucia, minha mãe Enedina dos Santos Funari. Os meus avós por parte de pai era Tomás Funari, ele era italiano e Ermínia Funari. Por parte de mãe era José Funari e a minha avó por parte de mãe... minha avó por parte de mãe; espera aí, deixa eu me lembrar porque eu não conheci ela , não conheci ela e... ah! Firica Funari; esse é o nome que eu conheci também. Porque, o meu avô, por parte de mãe, ele era irmão da minha avó por parte de pai, eles eram italianos.

P/1 – Sua família veio quando para cá, o senhor sabe?

R – Por volta de 1894. Mas alguns retornaram à Itália e depois voltaram. Perdão, deixa eu fazer uma retificação: Zeferina Funari. É que o apelido é que era Firica. Zeferina Funari. Então eles... alguns voltaram para a Itália, outros ficaram aqui, naquela época minha mãe dizia que eles falavam que iam fazer a América, né, quando eles vieram para cá.

P/2 – Quais as atividades dos seus pais, o quê que eles faziam quando eles vieram para cá?

R – Olha, os meus avós na Itália e depois meu pai, eles eram ligados à construção civil. Naquela época existia uma atividade chamavam parece que de estucador. Esses prédios todos trabalhados com bichos, com coisas trabalhadas com cimento, né, eles eram especializados nisso; o meu avô por parte de pai. Ele se radicou em Bagé, e lá ele trabalhava na construção civil. O meu pai também seguiu os mesmo passos do pai dele e trabalhava também na construção civil, só que ele era construtor. Aqui, na cidade de Bagé e depois em Pelotas, no Rio Grande do Sul.

P/2- O senhor tem irmãos, senhor Enedino?

R – Heim?

P/2 – Irmãos?

R – Irmãos. Bom, eu tenho seis irmãos, quer dizer, nós éramos seis comigo, por parte... pelo primeiro casamento do meu pai. A minha mãe faleceu 48 horas depois que eu nasci. Ela morreu de parto. Então, o meu pai depois casou novamente e teve mais dois filhos do segundo casamento. E eu e todos os meus irmãos, fomos criados por uma tia que era irmã do meu pai, ela que criou todos... eu fui desde que nasci e os outros também, que aí nasciam e iam para a casa dela.

P/2 – E, onde o senhor foi criado, onde o senhor passou a sua infância?

R – Bom, eu fui criado em Pelotas até os 12 anos de idade.

P/2 – E como era o bairro, a rua que o senhor morava lá?

R – Era uma cidade... naquela época, Pelotas era a segunda cidade do Rio Grande do Sul. Nós tínhamos uma casa muito boa, foi meu pai quem fez, bem no centro da cidade, só que estudei em escola pública lá em Pelotas e depois fui para a Escola Técnica de Pelotas, fazer o curso industrial básico e em 1952 minha mãe me trouxe para o Rio. Mas, sabe, houve problemas com a família lá em Pelotas e ela foi obrigada a vender a casa e vir trabalhar no Rio de Janeiro, isso em 1951. Em 1952 ela foi me buscar e eu vim morar com ela aqui.

P/2 – Diz para a gente como era o cotidiano da sua casa, da sua infância?

R – Como era...?

P/2 – O cotidiano lá da sua casa?

P/1 – As lembranças da infância, sua brincadeiras, os seus...

R – É, todas as coisas de cidade do interior, né? Naquela época, por exemplo, ninguém tinha carro, era muito raro, né? A nossa casa era uma casa boa, era uma casa grande, os nossos irmãos... meus irmãos brincavam no jardim, na rua; na rua em frente à casa não passava automóvel, né, e... eu fui; não digo que tenha sido o mais sacrificado, porque acontece o seguinte: em 1944 eu... 1943 para 1944, meu pai estava muito doente e foi recomendado pelo médico que ele se afastasse da cidade, porque esse problema de obras em que ele trabalhava, em construção, ele dizia que não gostava de despedir o empregado, um pedreiro. Então ele levantava e ia de madrugada para a obra para consertar ou para fazer uma coisa que ele não gostou, durante ... e, isso, agravava o estado de saúde dele. Naquela época era muito comum os problemas pulmonares e tudo. Então minha mãe comprou uma chácara nos arredores da cidade, para que ele fosse morar na chácara, para poder afastá-lo daqui. Mas só que ele faleceu antes. Então nós fomos para essa chácara, ficamos lá um tempo, quando... até acabar, em 1944 nós viemos para a cidade, né, e mais tarde, mais tarde o meu irmão mais velho, quer dizer, não é bem o meu irmão mais velho, é um irmão de criação que era filho dessa tia que nos criou. Era meu irmão, mas não era filho do meu pai. Então ele se meteu em alguns negócios lá em Pelotas, um restaurante, uma boate, um negócio assim, e a época não era para aquilo, coisas muito caras, fora da realidade e aí a minha mãe achou que o nome dela valia mais do que aquilo, ela resolveu vender a casa, pagar todas as dívidas. Então, devido a esse problema da boate, do restaurante, como eu era o mais moço, eu praticamente fui mais sacrificado, porque o pessoal trabalhava de noite e tudo e eu fiquei... eu dormia durante o dia e eu era pequeno então, até eu estudava de manhã e... confesso que eu não fui um bom aluno, porque eu trabalhei... eu estudei fiz o primeiro ano primário num colégio de freiras e eu não gostava muito de freira, então...

P/1 – Essa educação religiosa veio do colégio de freira ou tinha dentro de casa também?

R – Não, eu morava perto da Catedral de Pelotas e mais alguns colegas da minha idade, a gente frequentava a Catedral não tanto por religiosidade, mas frequentava. E depois nós fomos ser sacristão, o padre convidou a gente para ser sacristão, nós fomos, inclusive, eu me lembro, que dois desses colegas nossos, meus, acabaram saindo padre, foi para o seminário, formaram, foram padres, né?

P/1 – Colega de brincadeira da...

R – É, colega da rua, colega de brincadeira, ali da redondeza. Acabaram sendo padres. Então depois que houve esse problema com o meu irmão, que a minha mãe vendeu a casa, nós fomos morar numa outra casa que era do meu pai, que ele morava com a segunda esposa dele, que também já tinha casado novamente e ficamos lá um ano, ou dois, aí já mais afastado da cidade e ela resolveu vir para o Rio, ela era enfermeira, trabalhou aqui no Rio no...

P/2 – Em que ano foi isso?

R – 1950; 1950 para 1951.E eu fiquei em Pelotas e fui morar com meu irmão. Meu irmão mesmo, mais velho, que havia casado há pouco tempo, eu fui morar com ele que eu passei para a Escola Técnica de Pelotas, cursei um ano, o primeiro ano na Escola Técnica de Pelotas e aí ela veio me buscar e eu vim transferido para a Escola Técnica Nacional. Nessa época minha mãe trabalhava no Colégio Nova Friburgo, da Fundação Getúlio Vargas. Inclusive até tinha conseguido uma bolsa de estudos para mim. Mas eu, para poder ir para o colégio de Nova Friburgo, eu ia perder um ano de Escola Técnica, que na época correspondia ao primeiro ano ginasial ou industrial básico. E ela achou que não era conveniente perder um ano e, por isso, eu fiquei aqui no Rio estudando na Escola Técnica e ela morando em Friburgo. Eu fiquei aqui na casa de uma família amiga dela; aliás, ela era madrinha de casamento, madrinha de uma das filhas, família de Pelotas também e eu fiquei morando um ano com eles, depois fui para a casa de uma prima em Jacarepaguá.

P/2 – Senhor Enedino alguém da sua família já trabalhava antes na Petrobras?

R – Não.

P/2 – E senhor foi o primeiro?

R – Fui o primeiro.

P/2 - O senhor tem alguma lembrança marcante da Petrobras relacionada à sua infância? Na sua infância o senhor lembra-se de alguma coisa que a Petrobras tenha...?

R – Não, porque é... a Petrobras é de 1953, não é?

P/2 – É.

R – 1953 eu... eu vim para o Rio em 1952. Em Pelotas, alguma coisa que se ouvia falar, ou se escutava era aqueles negócios de “petróleo é nosso”, aquelas... aquele movimento para a criação da Petrobras, né, até a criação da Petrobras com a Lei 2004, era menino, não tinha nenhuma participação... a gente escutava só falar, mesmo porque, em Pelotas não havia nenhum tipo de movimento de qualquer atividade petroleira, o negócio vinha da Bahia, vinha do Rio de Janeiro, né?

P/1 – E aqui no Rio, senhor Enedino, depois então, voltando então um pouco, o senhor tinha... fez amigos logo, como é que foi a sua chegada aqui na cidade, o que achou de ter vindo para uma cidade maior?

R – É, porque eu vim estudar na Escola Técnica Nacional, lá em... no Macaranã. Naquela época; eu não sei se hoje, porque já mudou muito, a gente entrava na escola às 8:00 horas da manhã e saía às 5:00 horas da tarde, né? Tomava café da manhã e tinha aula de manhã, depois almoçava na escola, tinha aula de oficina, 16:30 tomava café da tarde e ia embora para casa. Numa determinada época eu inclusive morei na escola, morei na escola e eu tenho um irmão, que inclusive já faleceu, que era mais velho do que eu, que veio também da Escola Técnica de Pelotas. Só que ele já estava no curso técnico, eu estava no industrial básico. E a escola mantinha um... não era internato, era um alojamento, para aqueles alunos que vinham do interior. Tinha muita gente de Goiás, Mato Grosso e tudo e nós moramos lá um ano, dois anos. Minhas relações eram normais, amigos, colegas de... Quando depois saí de lá e fui morar aqui no Flamengo, eu e a minha irmã, alugamos um apartamento e tinha rapazes no prédio e tal, era relativamente normal.

P/2 – Como o senhor costuma se divertir com seus amigos, o que é que vocês faziam?

R – Naquela época eu acho que era mais difícil para a gente; quer dizer, não é mais difícil para a gente se divertir, era o divertimento da época. Então, naquela época não tinha muito dinheiro, ou quase nenhum para divertimento, né? E a minha família também, eu morei muito tempo só eu e a minha irmã, minha irmã trabalhava e com o que ela ganhava a gente sustentava o apartamento, depois veio esse meu irmão que eu disse que morou na escola, também veio morar conosco, depois a minha mãe também veio morar, era um apartamento pequeno, de quarto e sala, né, Rua Silveira Martins, ali no Flamengo, né, então ela trabalhava, ela cuidava de pessoas doentes, essas coisas e sempre tinha algum dinheirinho, tal e o nosso programa era um programa de rapazes daquela idade.

P/2 – E qual era o programa?

R – Era conseguir uma festa para ir ao fim de semana, é... um aniversário ou ia para um baile, ficava lá jogando sinuca, praia...

P/2 – O senhor ia muito à praia?

R – Ia, morava próximo à praia, né, morava ali no Catete; ali no... aliás, Flamengo, perto da praia, não existia ainda o Aterro do Flamengo, tal, então a praia era ali perto, então digamos assim, programa de jovem, rapaz, mas... também, não tinha muito mais coisas do que isso, que ninguém tinha carro. Depois começou a aparecer lambreta, essas coisas, né, mas não tinha dinheiro para essas coisas.

P/2 – O Senhor praticava algum esporte na praia que o senhor gostava de ir?

R – Praticava. Eu fui sócio da Associação Cristã de Moços, disputei prova de natação, de water polo [polo aquático], depois eu cheguei a ganhar torneios e depois, com 17 anos, eu já tinha saído da escola, eu fui fazer o serviço militar e me apresentei como voluntário na Aeronáutica e fui para a Base Aérea do Galeão e lá eu fiquei três anos. Eu servi na Companhia de Polícia da Base, então lá praticava esportes, sei lá, dava serviço, lá foram três anos da minha vida, como soldado na Base Aérea do Galeão.

P/1 – Qual eram as músicas da época da sua juventude, o quê que o senhor guarda de lembrança?

R – Olha, eu nunca fui... eu sempre gostei assim, por exemplo, de samba, dessas coisas. Mas na época da juventude foi quando surgiu o rock, né, Elvis Presley, esses negócios era música de sucesso no momento, né?

P/1 – E o senhor gostava?

R – Não muito, eu sempre gostei de música popular brasileira.

P/1 – Nosso samba.

R – Quer dizer, não tinha... não era contra, nem a favor, mas não era... nunca fiz parte daqueles grupos de rock, aquelas não, nunca fiz parte daquilo.

P/1 – E conta para a gente, como é que eram as paqueras naquela época?

R – Era [pausa]. Eu acho que era um pouco mais difícil do que hoje, pois os recursos eram muito diferentes, né?

P/2 – Como assim? [riso].

R – Não, hoje é normal, hoje a vida do jovem é normal. A gente assiste diariamente na televisão, comentário, né, “namorado leva namorada para casa, os pais concordam, acham até que é melhor, porque é menos perigoso”, né, “a namorada leva o namorado para casa”. Naquela época não tinha nada disso. Por volta de 1970, que houve a grande evolução, a grande libertação da mulher, que foi a pílula, né, a pílula foi a grande libertação da mulher. Então, naquela época era difícil. A gente namorava lá, é... por exemplo: hoje todo mundo tem carro, tem motel em tudo quando é lugar, naquela época não tinha, era proibido, era escondido, quando ia para algum lugar era escondido, com medo da polícia, tinha que fazer ficha, não sei o quê. Mas... e depois eu fiz, na época que eu fiz serviço militar, aí saía, andava nessas pracinhas fardado e namorava...

P/2 – Paquerava....

R – Hã?

P/1 – Paquerava no baile?

R – Num baile, na praça. Soldado tinha muita facilidade de conseguir doméstica [riso]. Mas só assim, uma coisa normal, uma coisa da época é normal, né?

P/2 – Conta para a gente como foi o seu primeiro namoro.

R – O meu primeiro namoro... o mais sério?

P/2 – É. R – Eu namorei uma moça, chamava-se Terezinha, ela era de Campos e a família morava aí num subúrbio aí. E nós ficamos algum tempo namorando e havia uma certa... minha mãe não gostava muito dela...

P/2 – Por quê?

R – Porque nessa época eu havia parado de estudar. E o sonho da minha mãe era que eu voltasse a estudar e me formasse. Os mais velhos já estavam formados e tal, e uma amiga nossa, amiga da minha irmã, teria dito para a minha mãe que a Terezinha disse que eu ia mostrar como eu não deixava mais ela e não voltava a estudar. Não deixar mais ela até que a minha mãe não deu muita bola, mas não voltar a estudar era uma inimizade para o resto da vida.

P/2 – Isso era verdade?

R – Não, não, não tinha a ver. Não sei por que essa moça foi dizer isso para...

P/1 – E por que o senhor tinha parado de estudar?

R – Olha, eu parei de estudar porque eu, quando saí da Escola Técnica, eu fui fazer o Serviço Militar. Aí era mais difícil conciliar Serviço Militar com...

P/1 – Trabalho.

R – Com trabalho, com estudo, né? E também com colégios autônomos e todo aquele colégio pago e tal, e eu parei um bom tempo de estudar.

P/2 – A sua mãe, ela tinha alguma predileção por alguma carreira para o senhor seguisse?

R – Não, ela queria que eu me formasse.

P/2 – Qualquer coisa.

R - Eu tenho um irmão, eu tinha um irmão que já faleceu, o Ermírio, que ele veio para o Rio, também ele fez o Curso Técnico aqui na escola Técnica e se formou em Engenharia Mecânica, então era o xodó dela era o Ermírio, porque se formou. Tinha o outro irmão que ficou em Pelotas, o Tomáz, ele se formou em Agronomia e depois formou em Economia. E a minha irmã só veio se formar muito depois, muito depois que a minha mãe inclusive, já havia falecido. Então ela não tinha assim, uma preferência, mas ela queria que eu estudasse, que eu me formasse.

P/1 – E o senhor retomou os seus estudos?

R – Eu retomei, eu me formei, eu sou advogado.

P/2 – Depois que saiu do Exército, ou como é que foi?

R – É, depois que eu saí da Aeronáutica eu... comecei a minha vida propriamente, né? Era uma época em que não tinha nenhuma profissão, não tinha nenhum conhecimento assim, então era aquele negócio; naquela época era auxiliar de escritório, era corretor, vai vender imóvel, vender terreno, vender não sei o quê. Nunca vendi nada, não consegui fazer nada, não é? Então, aí eu ingressei na Petrobras. Quando eu ingressei na Petrobras aí minha vida mudou.

P/1 – Mas como é que foi esse seu ingresso, aí o senhor ingressou tinha um concurso? Conta para a gente como é que foi.

R – Eu estava procurando um emprego, né? A Petrobras era nova também. E praticamente tudo na Petrobras se resumia no Edifício Barcelos, ali na 534, da Presidente Vargas, né? Então, minha mãe tinha vindo do Sul... tinha vindo do Sul porque ela foi a passeio, passar um período lá na casa dos meus irmãos, então ela veio me ajudar a procurar um emprego. Eu também não... procurar um emprego. Meu irmão, que morava junto, também reclamando que eu não estudava, que eu não trabalhava, aquela coisa. Então nós fomos até um cartório, ali na Rua do Rosário, aí ela encontrou um amigo que foi tesoureiro no Colégio Nova Friburgo, Fundação Getúlio Vargas na época em que ela trabalhou lá no colégio. E eram conhecidos de longa data e ela perguntou se havia alguma possibilidade de trabalhar no cartório: “ - Não, aqui os escreventes são juramentados e datilógrafos de cartório são altamente especializados. Então não tem. Mas a Petrobras está abrindo, está começando e na Petrobras tem o Maia; que também foi do Colégio Nova Friburgo. Quem sabe você não vai conversar com o Maia e... Ele está lá na Presidente Vargas, 534.” E nós fomos, no mesmo dia. Eles se reencontraram, minha mãe... inclusive, a esposa do Maia tinha dois filhos e a parteira dos filhos foi ela lá no colégio, e ele disse: “- Olha, a Petrobras agora é só concurso. Não em nenhum concurso aberto. Aqui na Cidade, auxiliar de escritório tem muito pouco, mas a refinaria está começando a fazer concurso para atividade operacional.” Então disse: “Olha, já houve concurso para instrumentista, para técnico de instrumentação, houve concurso para ajudante de operador de processamento, ajudante de operador de utilidades e vai haver concurso para ajudante de operador de transferência e estocagem.” Aí ficamos com ele: “Deixa eu ver, espera um minuto.” Aí, pediu licença e se retirou. Aí voltou e disse: “Olha, conversei lá com o pessoal, vamos abrir a inscrição para transferência e estocagem. Você vai ser o número um. Pronto.” Aí me trouxe um formulário, eu preenchi o formulário, entreguei: “Agora você vem de vez em quando aqui, para saber o andamento, quando é que vai... quando vai se realizar o concurso, né?” E eu fui algumas vezes, até que um dia, a pessoa que me atendeu disse: “Olha, acabou tudo aqui, não tem mais nada. Agora é no Centro de Treinamento da Reduc [Refinaria Duque de Caxias].” Era, na época... até era... estava saindo de Refrio, Refinaria Rio de Janeiro, para Reduc, né, e estavam criando o Centro de Treinamento lá. O chefe do Centro de Treinamento era o Dr. Armando Avelar Torres. Então eu fui à Reduc para saber se tinha alguma novidade e tal, e encontrei um rapaz, meu colega, meu conhecido, que serviu comigo na Aeronáutica. E ele conversando comigo... “Você está desempregado e tal?” – eu disse: “Estou!” “Tem vaga aí na vigilância, mandaram um vigilante embora ontem, antes de ontem. Vamos lá que eu vou arranjar um negócio, você vem trabalhar então aqui.” E me apresentou para o chefe da vigilância. Eu conversei com ele, expliquei da Aeronáutica, o que é que eu fazia e tudo, ele mandou que eu fizesse uma prova, eu fiz e uma semana depois eu fiz exames médicos, comecei a trabalhar. Mas isso foi por um mês, um mês e pouco, porque logo a seguir eu fui chamado para fazer o concurso para operador. Nós fizemos um concurso na Escola Técnica, eram muitos candidatos, 28 vagas, a primeira turma, e eu fiz, na época eu fui 11o classificado. Mas foi um drama, porque o manual do pessoal da época, dizia que para o sujeito trocar de função tinha de ter, no mínimo, dois meses na função e eu não tinha os dois meses. Então, tive que apelar para todo mundo, até que eu consegui. Com a condição: que eu faria o curso e eu só ficaria se fosse bem classificado. Então, dali eu fui para Cubatão na...

P/1 – Aí então foi só com... quanto tempo, menos dois meses?

R – Dois meses só.

P/1 – Foi direto para Cubatão fazer o curso lá?

R – Fazer o curso lá me Cubatão. Lá em Cubatão, RPBC [Refinaria Presidente Bernardes – Cubatão], nós morávamos em Santos, né, morávamos numa pensão; naquela época não tinha hotéis, numa pensão ali no Gonzaga e nós éramos 86 bolsistas da Petrobras morando na pensão.

P/1 – O ano do seu ingresso o senhor se lembra?

R – Lembro. Foi em 1960. P/1 – 1960.

R – Eu entrei na obra, né, como vigilante, no dia 4 de agosto de 1960. E no dia 15 de outubro nós embarcamos para Cubatão. Aí ficamos morando lá, na nova pensão São Francisco, na Rua Floriano Peixoto, no Gonzaga, 86. Não preciso dizer para a senhora que dava polícia, dava o “diabo” lá. Porque 86 rapazes morando numa pensão...

P/2 – Faziam muita bagunça...

R – Bagunça. No dia em que eu cheguei, num sábado, tinha... o ônibus que eu fui tinha só dois lugares e o resto ia num ônibus contratado. Então, quando eu cheguei na Pensão, a dona me disse: “- Eu espero que vocês sejam melhores dos que os que estão aí. Porque só tem maluco” [riso].

P/1 – E que tipo de bagunça que tinha, cantoria...?

R – Ah, cantoria, porque trabalhava em turno, o pessoal chegava de madrugada, batia porta, gritava. Era... eles apelidaram o dono da pensão de Gavião, aí chegava: “seu Gavião, dona Megera”, fazia aquele barulho, acordava todo mundo.

P/1 – Mas a pensão era só com vocês?

R – Heim?

P/1 – A pensão era só de vocês?

R – Só nossa, só nossa, só tinha gente da Petrobras.

P/1 – Só o pessoal da Refinaria.

R – Só o pessoal da Refinaria. E no final do ano nós retornamos para o Rio, né, e quando foi passado as festas de Natal e Ano Novo e nós iniciamos a operação da parte... prática nós já tínhamos treinado lá na RPBC, mas a prática...

P/1 – Conta um pouquinho da RPBC, como é que foi esse treinamento, o que é que o senhor achou lá da refinaria?

R – Olha, as coisas eram muito diferentes, né,? O Centro de Treinamento da Refinaria era um barracão de madeira lá fora da área, lá próximo aos tanques de cru e lá tinha um único funcionário que fazia faxina e servia cafezinho. Os engenheiros que deram treinamento para nós eram engenheiros daqui do Rio. O doutor Lisboa foi o chefe, depois passou para Humberto Loureiro, Jonas Boechad, Heitor Augusto de Moura Estevão, eram todos aqui da Reduc. E tinha outros que eu não recordo o nome agora. Inicialmente nós íamos de manhã cedo e voltávamos de tardezinha, almoçávamos na Refinaria, tendo aula o dia todo e prova no dia seguinte, de manhã cedo. E era um negócio meio apertado porque tinha uma média mínima de sete, de modo que quem tirasse menos de sete poderia ser desligado. E depois de algum tempo encerrou a parte teórica e vieram dois supervisores da Refinaria para dar o treinamento prático, né? Aí era o treinamento teórico da atividade e depois prático. Aí nós entramos em turno, trabalhávamos em turno, éramos 28 divididos em quatro grupos, trabalhavam aprendendo em turno, né? Então... era o turno de oito horas naquela época, para mim... bom, aí eu não posso dizer que não, mas muito forçado, né? Como nós éramos pessoal... “- Não, carioca não é de trabalhar, não sei o que...”. Então, a gente acabava de fazer um serviço, vinha outro... “- Psiu, vem comigo, vem fazer não sei o quê.” Voltava, o outro... Mas foi, foi bom. E aí nós voltamos para a Reduc e no dia 15 de fevereiro eu fui demitido da obra de construção da Refinaria Duque de Caxias e fui... eu e mais dois colegas que eram da obra também e o resto foram admitidos dia 15 de fevereiro de 1961, na função de ajudante de operador, transferência e estocagem.

P/1 – Como é que estava a Refinaria naquela hora, ela já estava montada, ela já estava...?

R – Não, não.

P/1 – Como é que era o nome da Refinaria?

R – Refinaria Duque de Caxias, né?

P/1 – Não, mas o senhor falou antes...

R- Refrio.

P/1 – Refrio.

R – Refinaria Rio de Janeiro.

P/1 – Então a Reduc foi adaptação...

R- Não, não foi adaptação. Era o primeiro nome que surgiu, né, inclusive havia placas e tudo lá, com a Refinaria Rio de Janeiro, né, depois é que foi dado o nome definitivo.

P/1 – Duque de Caxias.

R – Refinaria Duque de Caxias. Olha, era uma situação muito difícil. Dia de chuva não entrava ninguém da Refinaria, nem viatura, nem nada, porque atolava na lama. Tinha uns tratores espalhados pela área para retirar as viaturas atoladas na lama. É... saíam as turmas de trabalhador braçal lá para o fundo da área para abrir valas para drenar, que era tudo mangue, né? Eu nunca vi, mas eles diziam que às vezes não vinham todos, iam lá dez, voltava nove, um ficava enterrado lá na lama. Isso é o que diziam; eu nunca vi. Mas nós passávamos, quer dizer, o Posto Médico da Refinaria era a alguns quilômetros separado da Refinaria, lá fora, num barracão de madeira. E atrás do barracão fizeram outras duas salas e lá era o Centro de Treinamento, não é? E mais longe, fora da Refinaria, a Refinaria alugou um restaurante também, um negócio de madeira que nós íamos almoçar lá, a gente ia de ônibus, almoçava lá. Quer dizer, dia de sol, que a comida ficava marrom, mas não era canela, era poeira mesmo. Porque [riso], os carros passavam, era uma poeira que nem... . Então foi muito difícil essa época, né, muito difícil, a Refinaria ainda estava em construção, teve unidades que só ficaram prontas muito depois e depois nós entramos em turno naquelas condições, não tinha...

P/1 - E tinha condução para vocês irem para , como é que era?

R – Tinha, tinha condução. A princípio era um “papa fila”, passava aqui na Praia do Flamengo.

P/1 – “Papa fila”?

R – É, aqueles ônibus grandões. Depois... aí já tinha... nós já éramos, assim, tratados com certos benefícios, porque nós éramos já da Refinaria, éramos operadores e o resto do pessoal era da , né, então já tinha um ônibus melhor para a gente ir para a Refinaria e depois de tarde para voltar e ele ficava lá para circular para levar a gente para dentro, para a área, para estudar aquela tubulação, alinhamentos, tanques, aquelas coisas todas. E depois, aí nós entramos na fase de pré-operação da refinaria, né? Uma fase muito difícil, não tinha luz lá na área, não tinha casa de controle, não tinha nada, era um lampião grande, um ventilador... nem, o ventilador veio depois quando veio a luz e foi muito difícil. Não tinha água para tomar banho, eu tomava banho com garrafa de água mineral. Embaixo da... a refinaria tem umas casas de material para combate a incêndio, então, por exemplo: na minha área é Casa 11, era na segunda rua, nós ficamos lá durante muito tempo. E embaixo da casa passava um valão grande. Então o pessoal descia ali e ficava jogando água com garrafa de água mineral. Depois um colega nosso arranjou uma mangueira e puxou lá do... foi uma mangueira com água e aí botava aquela mangueira para a gente tomar banho. De madrugada era aquele mosquitinho maruim, né, insuportável, porque, se fechasse a casa o calor era insuportável por causa do lampião, se abrisse a casa os mosquitos invadiam... Eu muitas vezes fiz relatório andando pela área, porque não conseguia parar. Então pega o livro, botava aqui, ia fazendo o relatório e andando na área. Foi muito difícil, foi uma época muito difícil.

P/1 – Durou quanto tempo esse período de construção?

R – Ah, isso depois... nós entramos em torno de julho de 1961 e eu acho que e... acho que em agosto entramos na fase de pré-operação, né? Depois fizeram as casas de controles e nós já começamos a receber petróleo, né? Tanque 111, 111 foi o primeiro tanque a receber petróleo.

P/1 – Já nesse mesmo ano?

R – 1961, final de 1961. E já começamos a receber petróleo, entrar em fase de pré-operação, as unidades também, aí as coisas foram melhorando, foram tomando assim... um destino mais certo.

P/1 – Em volta da Refinaria tinha alguma coisa, ou era muito deserto?

R – Em volta da Refinaria; digamos assim, de dentro da Refinaria para fora, do lado esquerdo era um canal, Rio Sarapuí, se eu não me engano. E do lado direito tinha um canal que ligava; um canal artificial, que ligava a casa de força ao mar, de onde era retirada a água para a refrigeração das unidades e do lado passava uma estrada, chamava-se Estrada da Fabor, onde foi construído no final da estrada a fábrica de borracha sintética.

P/1 – Por essa época?

R – Por essa época, 1962, 1963, por aí.

P/1 – Tem alguma história engraçada que o senhor se lembre, desse período, teve os mosquitos e o que mais?

R – Ah, teve, teve muita coisa aconteceu.

P/1 – Conta para a gente alguma.

R – Por exemplo, eu era... eu trabalhava na área de cru.

P/1 – Área de?

R – Cru, área de petróleo.

P/1 – Tá.

R – Tinha eu e meu amigo Manoel, que ele até entrou comigo e um dia nós chegamos para trabalhar e o relatório... tinha na ordem de serviço, tinha uma ordem para, numa determinada hora da noite, duas, três horas da manhã, fosse fechado o tanque 110, que era o último tanque da área, porque ele estava drenando, estava cheio de água e estava drenando. Então quando foi na hora nós fomos para lá, a pé, pela rua, né, não tinha luz, não tinha nada, só lanterna. Quando nós atravessamos para ir para o rio, né, aquela plataforma que tem em frente ao dique do tanque: “E agora, como é que eu vou chegar lá no tanque?”. A água cobria tudo. Não tem como chegar, porque andar por cima da tubulação é muito perigoso porque a gente não enxerga a tubulação. Então o resultado, eu disse: “Ô Manoel, tu segura a lanterna aí, que eu vou tirar a roupa e vou a nado.” E eu tirei a roupa, o parceiro segurou o macacão e eu pulei na água e fui nadando até o tanque e lá nós fechamos a válvula do tanque e voltei nadando. Era o único jeito de chegar lá no tanque, porque não tinha como chegar. Outra ocasião, logo que o tanque 111 recebeu o primeiro petróleo, de dia, mais ou menos às onze horas da manhã, tinha que medir o tanque, medir a altura do tanque, medir a água no fundo do tanque, tirar a temperatura, tirar amostras, colocar aquele material todo numa caixa e eu fui medir. Quando eu subi o dique que eu desci correndo assim, eu consegui andar uns cinco passos e atolei na lama até aqui. E aí fiquei lá tentando sair, porque quando eu forçava um pé, o outro enfiava mais. Aí fiquei até que alguém me socorresse, lá eu não ia sair...[riso] Então... mas isso não era assim, era uma coisa assim, mais ou menos comum, porque a Refinaria não tinha... ainda estava no início, né?

P/2 – O senhor disse que depois de um certo tempo vocês começaram a ter alguns benefícios. Que outros benefícios e quais as vantagens que havia naquela época?

R – É, quer dizer, benefícios... nós passamos a ter... fizeram as casas de controle para a transferência, tinha luz, tinha um ventilador, tinha banheiro. Tinha melhor condição de trabalho. Só.

P/2 – E tinha alguma desvantagem?

R – Não, era lanche, nós não íamos ao refeitório, a gente recebia lanche e... não tinha nem... era comum de outras Refinarias, na RPBC também era a mesma coisa.

P/2 – Estava tudo em construção ainda, praticamente.

R – Não, já eram quase definitivas, eram coisas definitivas, que só deixaram de ser definitivas agora, com as novidades, com as condições novas que foram feitas na Refinaria.

P/1 – Como é que era a sua jornada, hein? O senhor entrava...?

R - Olha, inicialmente, nós entrávamos... tinha turno de sete às quinze horas e quinze minutos, às 23 horas e vinte e três minutos às sete. Então isso o ano todo; por exemplo: no Natal, o grupo que estivesse saindo no dia 25, quando a gente acertava para a gente poder sair mais cedo um pouco, para dar tempo de chegar em casa e o grupo que entrasse, entrava mais cedo para não sacrificar os dois. E era comum, no Natal, no Ano Novo, a gente se reunia, fazia uma ceia, cada um levava uma coisa, tal e ninguém reclamava, ninguém... era normal. As unidades...

P/1 – A Empresa não fazia um Natalzinho para vocês?

R – Às vezes melhorava o lanche, eu acho, nesse dia ninguém dava nem “bola” para o lanche, porque cada um levava alguma coisa.

P/1 – Então vocês faziam esse turno...?

R – De sete às quinze, quinze às 23, e 23 às sete.

P/1 – Aí saía no outro dia.

R – Depois nós passamos para o turno de seis horas. Aí passou de seis ao meio-dia, meio-dia às dezoito, dezoito às 24, e de 24 às seis.

P/1 – Que mais assim, dessa época o senhor, o que lhe marcou também? O que o senhor destacaria? R – O que me marcou, vamos ver? Hã?

P/1 – O que o senhor destacaria, que tenha lhe marcado assim, que o senhor lembre.

R – Olha, deixa eu ver uma coisa. Nós tínhamos um tanque que ele tinha os costuradores do lado e esse tanque começou a vazar no misturador. E a manutenção só permitia... não podia consertar porque só se entrasse dentro do tanque. E eles não tinham como entrar porque o tanque, no mínimo, tinha meio metro de petróleo. E um engenheiro que era o nosso chefe, veio na área e disse: “- Dante, você topa entrar nesse negócio?”, eu disse: “Eu entro!” E abriu os tanques, botamos os equipamentos de segurança e eu entrei no tanque com petróleo até aqui em cima do joelho, para tirar uma peça que havia caído lá dentro. Outra coisa, quando eu comecei a trabalhar, quando a Refinaria começou a trabalhar, os tanques de petróleo armazenavam 217 mil barris de petróleo cada tanque.

P/1 – Você está dizendo aquelas esferas?

R – Não. Os tanques grandes lá no fundo da área. Era 217 mil barris de petróleo. Então, a orientação que nós tínhamos era que, quando o tanque atingisse 2,20 metros, trocar por outro, para evitar que houvesse algum problema na unidade de cru. E aquilo ficava na minha cabeça. Toda vez que eu tinha que trocar um tanque de 2,20 metros, são 14, são 28 mil barris de petróleo que a gente está perdendo de espaço no tanque. Aí fui, algum tempo fui, até que um dia eu cheguei para pegar à meia noite, o meu colega que estava saindo, disse: “-Dante, manda o teu pessoal para a área, porque vai trocar agora. Já está em torno de 2,10 metros, 2,20 metros, vai ter que trocar.” E eu falei: “É hoje!” Aí mandei chamar: “Vai lá para a área, manda o cara embora e vamos fazer esse negócio.” Eu já tinha combinado com meu subchefe e aí nos fomos, controlando, com lanterna, um em cima do tanque medindo, olhando...

P/1 – Controlava assim, com a lanterna, no “olhômetro”? R – É, no “olhômetro”, olhando o manômetro da bomba, para ver o ponteiro. Quando foi às 3:00 horas da manhã, o engenheiro coordenador chegou para buscar o relatório e me perguntou: “Que horas trocou o tanque?”, eu falei: “Não trocou!”, “Então, com quantos metros está, gente?”, “Essa hora deve estar com 1,50 metro, mais ou menos.” Aí ele deu um pulo assim, falou: “Ó, a responsabilidade é tua! Eu falei: “Eu não estou dizendo nada!” Aí foi. Aí nós começamos a ficar com medo: “Vai acontecer alguma coisa”; aí trocamos com 1,40 metros e poucos. Aí um outro grupo viu aquilo, trocou com 1,20 metros. E aí, quando aconteceu, as mesmas coisas nós levamos, até 87 centímetros.

P/1 – Vocês foram deixando ver até onde ia.

R – É. Aí o chefe da divisão reunião, deu um elogio para o pessoal e disse: “- Olha, vamos parar em 1 metro. Porque senão vocês vão parar a Refinaria. Porque está havendo disputa e... vamos parar em 1 metro.” E, a partir daí, nós ganhamos uma quantidade de espaço muito grande nos tanques.

P/1 – Mudou muito, senhor Dante, um tanque daquela época para um tanque de hoje?

R – Mudou, mudou. Quer dizer, mudou... a Refinaria, na área de cru... eu trabalhei nas três áreas, mas na área de cru hoje tem... os tanques 101 a 110 foram retirados e no local onde existiam esses tanques, foram construídos pequenas unidades de processamento de lubrificantes. Isso eu vi agora quando visitamos a Refinaria. E os tanques do lado direito, que eram tanques de teto fixo, quer dizer, fechado, foram transformados em tanques de teto flutuante, ou seja, é um tanque que o teto flutua sobre o produto, o teto sobe e desce de acordo com o nível do produto. Isso é utilizado, é mais caro o tanque, o custo é muito mais elevado, mas ele é utilizado para evitar a perda por evaporação. Porque não há espaço livre, o teto está sempre apoiado em cima do produto e aí ele para antes do teto encostar no fundo. Porque ele tem umas bases então antes ele para aí. E flutua em cima, então fizeram tanques desse tipo na área de cru. Antigamente era só tanque de gasolina que era assim, tanque de nafta, essas coisas, hoje, tem tanque de petróleo também desse tipo. A Refinaria... nós estivemos lá agora, eu estava falando para ela que a Refinaria ofereceu... toda a primeira quarta-feira do mês tem um churrasco, lá na Ambep [Associação de Mantenedores-Beneficiários da Petros], no Ceps [Clube de Empregados da Petrobrás], dos aposentados. E no mês de novembro a Refinaria participou e ofereceu uma homenagem a primeira turma de operadores de transferência e estocagem, que eu fui. Então nós ganhamos umas camisas o emblema da Petrobras e tudo, uma placa e fomos passear dentro da Refinaria, de ônibus, né? Antigamente era mais romântico, né? Hoje está muito moderno. Por exemplo, as casas de controle não existem mais, é uma casa de controle só para todo mundo, todo mundo com computador na frente, não tem mais aquilo que existia antigamente, é tudo automatizado e tal. Realmente é o progresso, não pode ser diferente. Mas antigamente, a gente... sei lá, né, vibrava mais com o negócio, porque tudo dependia da gente, você não tinha recurso automatizado nenhum.

P/1 – Tudo no olho?

R – No olho e na mão e era assim, não tinha... e principalmente nas áreas de equipamentos automáticos e tudo, não tinha...e os que tinham não havia confiabilidade, você acionava um equipamento e ia lá na área para ver se ele abriu ou fechou, porque antes ninguém confiava que ele fosse funcionar. Por exemplo, na Reduc, havia um sistema de medição de tanques da Ilha D´Água, eles tinham um painel, que através daquele painel eles teriam condições de ver se os tanques da Reduc estavam abertos ou fechados e a medição, o nível dos produtos do tanque. Nunca funcionou aquilo. Nunca funcionou. Houve, inclusive, acidente por causa daquilo... em razão desse painel, o pessoal da Ilha D´Água fazia determinadas operações, pensando que a Reduc estava com o tanque aberto e com a medição, e que na realidade, ia estourar a linha, porque aumentou a pressão e a linha estourou. E aquilo nunca chegou a funcionar. Hoje eu acredito que deve ser mais confiável, né, porque tem computador e tem esse negócio todo.

P/1 – Senhor Dante, o senhor tinha falado que o senhor se formou em Direito, né?

R- É!

P/1 – Como é que o senhor retomou seus estudos, o senhor já estava na Petrobras?

R – Já... Não, nós conversamos até agora só a Reduc, não é?

P/1 – Tá, então vamos com calma.

R – Só na Reduc, não é?

P/1 – Então tá. Desse período aí o senhor ficou trabalhando, o senhor pegou logo o jeito do trabalho, gostou do trabalho de operador...?

R – É, eu entrei em 1960... 1961, digamos assim, que foi... nós passamos como ajudante de operador, uma função extinta, não existe mais. No final de 1962 eu fui operador. Em 1963 eu fui operador-chefe.

P/1 – Como é que era esse plano de carreira...?

R – Tinha.

P/1 - Tinha um plano ou era...?

R – Não, tinha um plano de carreiras: ajudante de operador, operador, operador subchefe, operador e supervisor. Eu só não fui operador subchefe, porque nós fomos as primeiras turmas, então alguém tinha que ser promovido. Então a nossa turma foi a primeira a ser promovida, eu fui ajudante de operador, depois fui operador e depois fui operador-chefe.

P/2 – E como se davam essas promoções, era por tempo de trabalho...?

R - Nessa época era por indicação da chefia. Nós tivemos sorte porque vieram muitos operadores da RPBC; operadores de processamento e também de utilidades. Inclusive na área de utilidade veio gente da Marinha, veio gente de outras... contavam na época, eu não posso garantir porque era o que a gente escutava. Que esse pessoal de transferência e estocagem da RPBC, por exemplo, teriam pedido alguma vantagem maior do que os outros ganharam para vir para cá, porque senão eles não vinham. Porque eles não confiavam que nós tivéssemos competência para dar partida na refinaria. E o Dr. Armando Torres, reuniu a nossa turma e perguntou: “- Vocês têm condições de dar partida?”, “Claro!” E então veio muito pouca gente, só os supervisores. Então, nós começamos era... um era encarregado de área, o outro era sub-encarregado. Com o tempo, um ano, nós fomos promovidos a operadores e aí com o tempo... aí foram as promoções definitivas, né? Então, eu fui operador-chefe em 1963.

P/1 – Em pouco tempo, né?

R – É, em pouco tempo. Nem subchefe eu não fui.

P/1 – A Petrobras já era um bom emprego? Quando a sua mãe foi.....?

R – Era, muito bom, muito bom, muito bom.

P/1 – Ela ficou contente com a sua contratação, era um emprego seguro?

R- Claro, claro, claro. A Petrobras sempre foi um excelente emprego.

P/1 – Ela ficou contente.

R – Ficou e era um excelente emprego.

P/2 – E que tipo de profissionais tinham na época da construção da Reduc, que o senhor participou, tinha engenheiro...?

R – Tinha muita gente, porque as empreiteiras que trabalhavam nas obras, construtoras, (Foster William?) que era responsável pelo projeto, né, mas nós não tínhamos nenhuma intervenção nisso, nessa parte não. A Refinaria chegou a ter mais de 3 mil homens trabalhando só na obra, né? Inclusive ali do lado da refinaria tinha um portão e a seguir tinha uma espécie de uma Vila onde tinha tudo: casa de jogo, boate, era aquele pessoal de obra que vinha e morava tudo em pensões... que moravam por ali. Mas a nossa parte foi completamente diferente.

P/2 – E quais os tipos de profissionais que tinham nessa sua área? Eram engenheiros, eram...?

R – Não, eram todos eles... tinha os chefes de setor, tinha o engenheiro-coordenador e tinha nós que éramos operadores e que operávamos cada área... tinha área intermediária, área de cru, área final e ali tinha... trabalhava com soda cáustica, trabalhava com flares, aquele negócio que tem aquela chama que tem lá. Mas... quase todos tinham sido estudantes, quase todos vinham de... inclusive, na minha turma tinha muitos ex-cadetes da Escola de Aeronáutica, tivemos um problema qualquer lá na Aeronáutica e foram desligados. E a Aeronáutica fez um acordo com a Petrobras se eles se submeteram a um concurso junto, com a minha turma. Então, muitos da minha turma eram originários da Escola de Cadetes da Aeronáutica. 

P/1 – Bom, senhor Dante, aí o senhor tinha comentado sobre as suas promoções, né, que o senhor chegou a chefe de operação.

R – É. Eu cheguei a operador-chefe...

P/1 – Operador-chefe...

R – Aqui na Reduc, né? E permaneci na Reduc até 1968. Em 1968 eu fui convidado, indicado por um colega, eu fui convidado pela Refap [Refinaria Alberto Pasqualini] para ir trabalhar em Porto Alegre, porque eu sou gaúcho, minha esposa na época era gaúcha também, era de Caxias do Sul, né?

P/1 – O senhor também casou com uma gaúcha?

R – É, casei aqui no Rio, mas com uma gaúcha.

P/1 – Encontrou uma conterrânea.

R – É. Então eu fui para Porto Alegre. A Refap estava em obra e eu fiquei fazendo a parte de pré-operação da Refinaria, na atividade de transferência e estocagem só tinha eu, depois é que chegaram alguns aqui do Rio, da RPBC, dei treinamento para o pessoal da primeira e segunda turma da Refinaria, depois dei treinamento também da primeira e segunda turma do Dedut, do Oleoduto lá em Tramandaí e fiquei até final de 1969. Eu tive problema lá em Porto Alegre, família e... não me adaptei bem à cidade, a Refinaria era pequenininha, a gente vinha de uma Refinaria grande para uma refinaria pequenininha que não acontecia nada. Então eu comecei a tratar da minha vida para voltar para o Rio, né?

P/1 – Mas o senhor pegou outra Refinaria começando. Como é que foi também...?

R – É, uma refinaria começando, uma refinaria pequena, quer dizer, mas já em condições muito melhores do que a Reduc.

P/1 –Ah é, por quê?

R – Ah, em condição muito melhor, a Refinaria já estava bem... a parte estrutural da Refinaria já estava bem mais adiantada, ruas calçadas, iluminadas, né, o prédio da administração estava pronto, restaurante pronto, funcionando. Então, a estrutura da Refinaria... A Refap, não posso dizer com relação à Regap [Refinaria Gabriel Passos], mas ela foi construída na mesma época da Regap, e a projetista foi a (Islan?), italiana. Então a Refap, aconteceu um fato interessante. Quase todo o pessoal da obra era contratado, mesmo na parte de administração. Tinha pouca gente da Petrobras. Tinha um cidadão lá, chamava-se José Zinhago, era um trabalhador braçal, que entrou no início da obra, contratado. E um dia precisaram de mais um braçal e ele disse: “- Não, pode deixar que eu trago um aí.”. Não sei se foi estimulado por quem, ele botou uma firma e começou a trazer gente para trabalhar na obra, contratado da firma dele e se tornou uma firma grande na época. Quase todo mundo era empregado do Zinhago. Quer dizer, o pessoal da Refinaria só começou a ser admitido e tudo, depois que a Refinaria estava pronta, está entendendo? Então quando nós chegamos lá, que estava ainda em fase de obra e ia iniciar ainda a parte de pré-operação, a Refinaria já estava estruturalmente pronta, os prédios prontos, a superintendência lá em cima do morro, o restaurante, a entrada da Refinaria, os prédios, almoxarifado, essas coisas todas já estavam prontas, luz, água, tudo... diferente de outras unidades. Aí foram sendo dispensados os contratados e admitidos aqueles que se submeteram ao concurso e que foram aprovados.

P/1 – O senhor... da Reduc, tinha ido só o senhor, ou tinha ido outros ?

R – Não, foram mais. O primeiro a ir foi o Glauber Gurgel Valente. Foi ele, inclusive, quem me indicou. E depois fui eu. E eu passei um bom tempo sozinho lá. Depois foram outros colegas nossos daqui, dois da Bahia e outros de alguns da RPBC.

P/1 – RPBC era tida com um pólo de instrução?

R – Não, não.

P/1 – O senhor foi fazer curso lá, foi uma das primeiras Refinarias...?

R – A RPBC [Refinaria Presidente Bernardes], quando nós começamos, era a maior Refinaria do Brasil, né, porque tinha a Rlam [Refinaria Landulpho Alves] que era pequena, então a Reduc usou para treinamento a RPBC, mas depois disso a Reduc deu os seus próprios treinamentos, a Refap também, alguns da Refap treinaram na Refinaria Ipiranga, em Rio Grande, vieram para a Reduc alguns também, treinar aqui. Aliás, foram até a Bahia também porque a Relan era a única refinaria que tinha a unidade de tratamento e craqueamento térmico. Então, para a unidade de craqueamento da Refinaria, da Refap, eles foram treinar na Bahia também. Aí acabou esse problema de só RPBC.

P/1 – Aí lá na Alberto Pasqualini, lá em Porto Alegre, como é que foi voltar para o Sul, como é que foi lá; montou a casa de novo, como é que foi?

R – É, eu montei uma casa lá, naquela época era muito difícil, porque eu cheguei em Porto Alegre no início do ano, eu acho, ou no final... no início do ano e o tal do povo gaúcho adora praia, né, então nós chegávamos cedo. E não tinha lugar para se alugar uma casa, porque todo mundo estava na praia. Então, eu fiz um contato com aquelas locadoras, né, e também ainda tinha negócio de quem aceitava carta de fiança da Petrobras, quem não aceitava. Chegou ao ponto até que o pessoal na Refinaria dizia: “Ó, fala com o Dante...” – quando vinha alguém de fora, “ ... fala com o Dante que ele diz quem é que aceita, quem não aceita, essas coisas.”. Mas eu tive problemas lá, não... com a cidade também, porque é completamente diferente, né, é um povo diferente, povo bairrista, embora eu seja gaúcho também, mas é um povo bairrista, lá é o Internacional, o Grêmio e mais nada, é aquele... muito, muito... e eu tive problemas. Eu, quando cheguei em Porto Alegre, uma cunhada minha que havia se separado do marido, estava com seis filhos, não tinha nada, resolveu ir lá na minha casa me fazer uma visita, não saiu nunca mais [riso].

P/2 – Ficou quanto tempo lá?

R – Um ano.

P/1 – Foi tomar um cafezinho...

R – Tomar um café e não saiu nunca mais. Então, aquilo para mim... que eu tinha dois pequenos, né? E depois o frio, as condições de trabalho, assim, quer dizer, condições de trabalho que eu digo é em relação ao frio, aquela coisa toda. E eu comecei a pensar em voltar para o Rio. Eu trabalhei como supervisor lá na Refap, depois que nós entramos no turno, coordenador era o Engenheiro Rolf Janke, me dava muito bem com ele e ele inclusive foi, depois, indicado para ser chefe superintendente do Rolf Janke, lá em Tramandaí. E ele me disse: “- Olha: eu vou lá. Se, quem indicou for o superintendente, o Dr. Maurício, eu não aceito.” Porque eles vinham brigados desde a Bahia. “ - Se não, eu vou para lá. E procura o teu lugar. Qualquer proposta que você aceitar eu cubro, para você ir para Tramandaí.” Mas eu não, não queria ir para Tramandaí de jeito nenhum. E aí fiquei lá até final de 1969. Aí, final de 1969; eu já tinha vindo ao Rio, já tinha tentado aqui, tentado com a Reduc. No final de 1969 o Decom [Departamento comercial] criou uma divisão nova, aliás, uma superintendência nova dentro do Decom, que era Sudist [Superintendência de Distribuição]. Inicialmente foi Didist [Divisão de Distribuição], depois Serdis [Serviço de Distribuição] e depois Sudist. E o primeiro superintendente da Sudist foi o doutor Flávio Magalhães Chaves e ele soube que eu queria sair de Porto Alegre. Então ele me chamou lá na sala dele e disse: “ – Olha, eu vou para o Rio que eu vou ser superintendente de distribuição. Me lembrei do Glauber e de você. O Glauber já foi e você, quer ir?”, “É só o que eu quero é isso, é ir embora daqui.”, “Então, eu vou para o Rio, vou entrar de férias e daqui a um mês, tu me procura.” E assim eu saí da Refap e me desliguei dessa área de refinaria e vim para o departamento comercial e fui trabalhar na Rua do Acre, no Disgua - Distrito da Guanabara.

P/1 – E como é que foi mudar completamente assim, o ambiente de trabalho, saí do ambiente de uma Refinaria?

R – Sair de uma Refinaria... é... E vim para o Disgua, mas eu estive ligado à atividade operacional, né, sempre estive ligado à atividade operacional. Inclusive, quando eu vim ao Rio, que eu fui entrevistado pelos gerentes do Disgua e pelo gerente adjunto, eu viria para a área de manutenção, mas outro chefe de setor de operações que soube que eu vinha, me conhecia de nome, fez questão que eu fosse trabalhar com ele. E aí eu fui trabalhar. Então, em pouco tempo eu me adaptei bem, eu fiquei um bom tempo como encarregado da área de provimento, transporte marítimo, na Baía de Guanabara e depois fui dar partida na base de Vitória, na Bavit [Base Vitória Petrobrás] e depois fui convidado para ser chefe da base de Vitória.

P/1 – Espera aí. Então aí o senhor ficou nesse tempo da Disgua...

R – É.

 P/1 – Era um trabalho mais de escritório, não?

R – Mais de escritório. Alguma coisa de fora, né, principalmente na área marítima. Nós tínhamos um serviço em Arraial do Cabo, duas vezes por mês iam navios da Fronape [Frota Nacional Petroleiros], Arraial do Cabo, para levar óleo para a Companhia Nacional de Álcool e para uns tanques da Esso. Isso era um serviço que requeria um cuidado muito grande, porque os oleodutos estavam todos estragados, tudo furado. Então é... uma vez furou num domingo de manhã, a linha furou em frente à igreja. Tivemos que abrir uma porta no fundo para o pessoal sair da missa, porque a frente da igreja ficou toda inundada de óleo.

P/1 – Isso onde?

R – Arraial do Cabo.

P/1 – Arraial do Cabo mesmo?

R – É. Depois isso passou para o Detran [Departamento de Transporte da Petrobrás] e eles reformaram. E nós tínhamos aqui na Baía da Guanabara as entregas por barcaça, Milagres, que era para a Rede Ferroviária, para atender a Rede Ferroviária, descarregava no Cais do Porto, também péssimas condições, tudo podre, as linhas todas... E era da Shell, e depois a Shell resolveu não operar mais e se a Petrobras quisesse, que ficasse com aquilo, a Petrobras também não quis ficar e a Rede Ferroviária passou a criar tanques em cada local onde ela fazia os abastecimentos. Aí passamos a entregar por caminhão. E operava os clientes aqui, da Baía de Guanabara, que mandava óleo para Vitória, eu fazia essa atividade toda operacional.

P/1 – E a ida para Vitória foi como, foi através de convite?

R – É. O primeiro chefe da Base de Vitória foi Paulo Brandão. Eu fui lá para dar partida, receber o primeiro navio, toda essa atividade, o segundo navio também eu fui lá para dar partida e algum tempo depois o Paulo resolveu voltar para o Rio, porque parece que a esposa dele não se adaptou bem lá e tal. E aí o chefe me convidou se eu queria ir para Vitória; “Pôxa, já vim do Sul agora... Vou!”. Falei em casa: “Vamos?”, “Vamos!” E aí eu fui para Vitória e fiquei dois anos lá na Base, em Vitória, era uma Base grande, uma das maiores do Brasil, com atividade rodoviária, ferroviária e marítima, dentro das instalações da Companhia Vale do Rio Doce e fiquei lá até que fosse criada a Petrobras Distribuidora.

P/2 – E como é que era a sua rotina de trabalho lá na Base?

R – Eu morava em Vila Velha, já fora da Ilha, né, e diariamente eu ia para a Base, de manhã, eu tinha um carro da Petrobras que era eu que dirigia e lá na Base eu era o chefe da Base, da parte operacional, administrativa, tudo. Na época muito difícil também; até estava contando para ela, porque naquela região da Companhia Vale do Rio Doce só tinham quatro linhas de telefone, que eram da Vale. E a Vale cedia duas para a Petrobras, mas uma para área cidade e a outra podia fazer interurbano. Então era assim, eu chegava à base de manhã, falava com a secretária: “- Pede uma ligação para o Rio!”, aí ela dizia: “- Ó, tem seis horas de demora... tem cinco horas de demora...” Aí quando era no final da tarde saía a ligação, aí a gente ficava: “- Ehhhhh... fala alto, não estou escutando nada, fala alto... então deixa para amanhã! ” E assim, era o nosso contato era esse, uma fase muito boa...

P/1 – E Vitória naquela época, como é que era a Cidade?

R – Ela era boa, porque Vitória só tinha uma ponte ligando com o Continente, na entrada da Cidade, tinha uma ponte pequena na saída. Então não tinha assalto, não tinha roubo, não tinha nada, porque era só fechar a ponte e o sujeito não tinha como sair, tá entendendo? Olha, eu trabalhava na base, então... eu tinha um movimento muito grande na base, um movimento de, o quê? 7 milhões, eu não me lembro... diário.

P/1 – A base era perto do porto, não?

R – Não. A base era dentro do terreno da Companhia Vale do Rio Doce, lá em Tubarão. E nós construímos... havia um quebra-mar em frente ao píer de graneleiros e ali naquele quebra-mar foi construído o píer de petroleiros. Então, a gente faturava, estava dizendo, nesta época, cerca de 7 milhões de cruzeiros, né, ou cruzeiro novo, cruzeiro, sei não, não me recordo agora exatamente. Então, eu fui ao Banco Real, conversei com o gerente que era conhecido nosso e eu disse: “Olha, eu não vou mandar todo dia o dinheiro, você faz o seguinte: você manda buscar.” Então, todo dia 17:30, 18:00 horas ia um subgerente num fusquinha, com a pasta, ia lá na base, reunia o dinheiro todo, botava e ia embora. Na sexta-feira ele telefonava antes, perguntava se alguém ia querer dinheiro para ele levar e nunca ninguém roubou nada, nunca mexeu em nada, né, nunca tivemos problema.

P/2 – Conta para a gente aquela história daquele malote secreto...

R – É, eu tinha uma correspondência aqui com o Rio, correspondência normal, através de Fis, de CIs...

P/1 – CI é o quê?

R – FI é Folha de Informação. CIs era Circular Interna. E tinha Confidencial, não é e tinha uma que era Secreta. Então essa era a mais cuidadosa. Então, final do mês de agosto, creio que em 1971, princípio de setembro, final de agosto, eu recebi um telefonema daqui do Rio dizendo que no malote do dia seguinte chegaria um envelope secreto para eu receber o malote, fechar minha sala toda, abrir o cadeado e tirar o envelope e depois entregar para a secretária distribuir a correspondência. E eu fiz, demorou, aquele dia o malote atrasou, fiquei preocupado que... bom, mas finalmente ele chegou , eu abri e havia uma informação, dizendo que os setores de segurança da Petrobras e do Brasil, SNI [Serviço Nacional de Informações], aquela coisa toda, foi no período revolucionário, né, havia um... eu obtive informações de que estavam sendo programados atividades terroristas na área de Tubarão e na área da Bavit, que ficava dentro de Tubarão, que eu tomasse as providências. Bom, eu peguei a carta, botei no bolso, saí, fui lá para o Porto de Tubarão, é onde carrega minério ali. E que o superintendente do Porto era o responsável pela segurança da área toda, o engenheiro Pacheco. Eu entrei na sala dele eu disse: “Pacheco, estou com problema!”, ele disse: “Eu também!, “Tu recebeu uma carta assim, assim, assim.”, “Recebi.”, “Eu também recebi.”, “O que que nós vamos fazer?” A segurança da base era ele que fornecia, e era contratado e ele me cobrava o salário do pessoal da Petrobras. Então ele me disse: “Olha, Dante, essa segurança, que você sabe, é todo mundo desarmado, eles só usam cacetete. E é tudo bandido, se a gente botar uma arma na mão deles, eles vão matar a gente. Então você procura o que você puder e eu também me comunico o que é que tu arranjou, eu também vou te comunicar...”. E assim nós iniciamos naquela semana, trágica. O SNI tinha um escritório no Centro de Vitória, fui lá, só tinha um cara. Sentado numa mesa, ele disse: “Pois não!” Foi todo mundo para Brasília, agora eu que resolvo tudo.” Era um contínuo, eu acho. No quartel de aprendiz de marinheiro, o Comandante gentilmente me levou até a porta, passou uma tropa de grumetes, né, ele disse: “- Ó, tem esses garotos aí, se tu quiser levar esses garotos, eu mando tudo para lá.” No exército a mesma coisa: “Só tem recruta e não sabe fazer nada. Quer levar?”. Polícia Federal... Delegado da Polícia Federal me disse assim: “Fica de olho, heim! Fica de olho. Qualquer coisa tu me avisa, porque eu não tenho viatura para isso, nem gente para fazer isso. Então tu fica de olho. Se tu descobrir alguma coisa, tu me telefonema e tal, que a gente tenta mandar alguém lá.”. Resultado: eu só consegui alguma coisa com a Polícia Militar, que forneceu quatro homens com a condição de eu levar eles, dar comida e de madrugada ir lá acordar eles também, porque eles também não iam ficar acordados. E assim nós passamos o período de Semana da Pátria e graças a Deus ninguém estava querendo fazer nada e não aconteceu nada.

P/1 – E aquele guarda de trânsito?

R – É, eu estava dizendo para ela que naquela época, Vitória só tinha um guarda de trânsito, era o “Armando Marques”. Era um escurinho, ele ficava bem no centro...

P/2 – Por que “Armando Marques”?

R – Armando Marques é um juiz de futebol tinha aqui, que era muito conhecido, Armando Marques. Que, aliás, até é da CBF [Confederação Brasileira de Futebol], atualmente. Então ele ficava no trânsito...

P/2 – Apelidaram ele assim?

R – Ele apitava no revólver. Ele tirava o revólver e fazia assim, aí botava “‘Xuiiiii’!” Aí o carro parava, ele vinha, sentava no capô do carro, fazia e gesticulava e tal. Juntava gente na rua para ver o Armando Marques, era o único guarda que tinha, guarda de trânsito. Era uma cidade pacata, era uma cidade que não aconteciam... não acontecia nada assim como hoje, violência. Hoje, Vitória está com um índice de violência altíssimo, né? Eu sei que eu fiquei dois anos em Vitória, uma base muito boa, uma base moderna, grande e nós tínhamos... ela foi construída principalmente, para atender a Companhia Vale do Rio Doce e Companhia Ferro e Aço, de Vitória, Cais do Porto, mas tinha postos de gasolina, clientes de interior, fábricas de interior, cerâmicas e tudo. Lá permaneci por dois anos, até a criação da Petrobras Distribuidora.

P/2 – E como foi a sua saída de lá, como se deu?

R – Não, o meu cargo era cargo de confiança. Eu era chefe da base, era cargo de confiança. Quando criou a Petrobras Distribuidora eu ainda fiquei algum tempo, mas o gerente do Distrito da Guanabara... que nós éramos subordinados ao Distrito da Guanabara, então o gerente do Distrito da Guanabara, Wilson Berbara, veio do Rio Grande do Sul e disse que ele tinha uma pessoa de confiança dele para ser o chefe da base; aliás, ele esteve lá e eu disse para ele que como o cargo era de confiança estava à disposição dele. Então ele achou por bem botar o meu assistente operacional, Geraldo Mesquita. Tudo bem! É comum na vida da gente, quem tem um cargo de confiança é assim mesmo. Nessa época estavam acontecendo as primeiras crises de petróleo no mundo, não é? Então... quem tinha sido o meu gerente aqui no Rio, no Disguave, Tomas Azevedo, me telefonou para eu vir conversar com ele, que ele queria que eu viesse trabalhar com ele. Então, depois que o Geraldo assumiu a base, eu vim e aconteceu o seguinte: existia uma divisão na Petrobras que era do CNP [Conselho Nacional do Petróleo], mas administrada pela Petrobras. Chamava-se GFOAPF [Grupo de Financiamento de Óleo Combustível de Alto Ponto de Fluidez], ou seja, o petróleo baiano é de base parafínica. E o óleo combustível, extraído do petróleo baiano é de alto ponto de fluidez. É um óleo que necessitava, necessita de uma temperatura alta, porque senão ele em temperatura ambiente, ele fica duro, como se fosse graxa de sapato. E esse óleo é um óleo de baixíssimo teor de enxofre. Por isso ele era caro. Mas que tem que ter instalações apropriadas para poder manusear esse óleo, porque senão ele esfria. Então esse GFOAPF ele não só projetava a instalação, como financiava indústrias de pequeno porte, que quisessem trabalhar com o APF, que era mais barato, inclusive. Então eles faziam o projeto de caldeiras, essas coisas todas e depois vendiam o óleo, o preço era bom. Eu participei de diversas visitas a clientes da área de Vitória. Inclusive levava para pagar o custo deles da obra, levar projetos que vinham do Rio, só que eu não tinha nada que ver com esse negócio. Na base eu não tinha nada com isso. Em 1972, com as crises de petróleo, esse óleo encareceu muito. Porque, como ele era de baixíssimo teor de enxofre, ele era muito caro e passamos a exportar... a Petrobras passou a exportar esse óleo. Então até que inverteram-se os papéis. Só podia trabalhar com esse óleo quem tivesse realmente necessidade. Por exemplo, cerâmicas, indústria de azulejos essas coisas, porque o enxofre do óleo prejudicava a coloração do azulejo. Então quando a gente vê os azulejos com as pontinhas assim, aquilo é enxofre. Então, só eles, só essas indústrias que tinham necessidade é que podiam trabalhar com APF e o resto ia ser exportado. Em troca, a Petrobras importou muito petróleo de alto teor de enxofre, que era o óleo mais barato, que o preço do petróleo é calculado pelo teor de enxofre, então, grande quantidades de óleo de alto teor de enxofre. Inclusive, navios que vinham, ficavam aqui fundeados, fazia _______ como tancagem flutuante. E não tinha para quem vender esse óleo. Pegavam um navio, enchia do óleo combustível de alto teor de enxofre, botava aí, viajava o mundo todo, voltava e ninguém comprava. Porque o teor de enxofre era muito alto. Então, nessa época o Presidente da Petrobras era Shigeaki Ueki. E esse convidou Mario Azevedo, que foi meu o chefe, e eles conseguiram, através da CNP, autorização para exportar esse óleo como combustível para consumo de bordo do navio, que chama-se de broker. Para navios nacionais em viagem internacional e para navios a estrangeiros. Foi a primeira atividade no Brasil e de venda que é preço livre. Então a gente calculava o preço em Roterdam e nos principais postos e calculava o preço de reposição no Brasil, porque nós éramos importadores, né? Então o nosso preço era livre, nós... eu mesmo negociava com os armadores por telefone, um dólar a mais, um dólar a menos e tal, para vender. E com isso nós implantamos essas atividades no Brasil todo. A princípio era só a Petrobras.

P/1 – Mas isso o senhor fazia via... é... estava já ligado a BR Distribuidora, não?

R – Não, não tinha que ver com a BR.

P/1 – Ainda estava em Vitória?

R – Heim? P/1 – Estava em Vitória?

R – Não, aí eu estava aqui no Rio.

P/1 – Mas, então, quando o Senhor veio de Vitória o senhor veio para quê?

R – Departamento Comercial.

P/1 – Departamento Comercial?

R – Isso.

P/1 – Tá!

R – Divisão de Abastecimento a navios. Aí é foi criado uma divisão, chamava-se Divisão de Abastecimento a Navios e que no início ainda ficou com o nome de GFOAPF, porque extinguiram o GFOAPF e no lugar dela entrou Divisão de Abastecimento a Navios, a Dinave. Então eu fiquei com a atividade operacional, viajei o Brasil todo, todos os Portos do Litoral, visitando todos os portos, vendo as instalações, a atividade foi crescendo muito, vendo as instalações, vendo se a tancagem, dando treinamento para o pessoal e nisso eu fiquei até me aposentar, vinte anos, mais ou menos.

P/1 – E nessas viagens, que história engraçada que o senhor tem?

R – Ah, tem muita coisa!

P/1 – Conta uma para a gente. R – Um navio, eu creio que abastecido pela... porque no início era só Petrobras, como eu disse. Mas a Esso e a Shell começaram a pressionar. Que eles tinham clientes internacionais, contratos com brokers internacionais que mandavam os navios para abastecer aqui no Brasil. E não podia porque era só Petrobras. Então a Petrobras fez uma concessão, pediu ao CNP para fazer uma concessão e a Esso e a Shell passaram a fazer essa operação, mas controlada pela Petrobras. Nós é que dávamos o preço que eles podiam vender, as quantidades, depois a gente repunha porque eles venderam, eles ganhavam uma comissão na venda, nós cobrávamos uma taxa operacional quando usavam os nossos terminais, então eles tinham o controle completo. Então a Petrobras... é... um navio carregado de minério; eu não me recordo o nome desse navio, porque ele carregou minério em Tubarão e quando chegou no Litoral de Maceió, ele parou com defeito de máquina. Não tinha como chegar lá, ele estava a 1 metro do fundo. Se fosse rebocado, qualquer coisa, ele encalhava e depois não ia ter como sair. Então eles apelaram para a Petrobras. Para ajudar e mandar diesel para o motor auxiliar deles, para eles poderem sair até onde pudessem encontrar um porto que tivesse socorro para a máquina que estava quebrada. E eu fiquei encarregado de fazer isso. Foi uma dificuldade terrível.. “- Aonde, como é que eu vou conseguir?” Aí eu consegui com... na época era Depro, (Depera?),essa área de exploração e produção, com rebocador supply boat, que ia para o Norte, para o Nordeste, vazio... “- Então você faz o seguinte: vocês vão levar 5 mil toneladas de óleo diesel, descarregar nesse navio assim, assim, assim e depois debitam para o Decom, o custo da viagem, porque rebocador supply boat vinha vazio. E nós fizemos isso, o supply boat foi, atracou a contra bordo do navio, descarregou o óleo, conseguiu a viagem dele. O navio depois foi embora, passado uns dias mandou dizer que não ia pagar porque não tinha recebido aquela quantidade que... eles haviam até assinado um comprovante de recebimento. Aí depois, uma troca de correspondência com os armadores, eles queriam discutir isso no Tribunal de Haia. Aconteceu que o navio entrou no Triângulo das Bermudas e afundou no Triângulo das Bermudas, nunca mais nós tivemos notícias do navio.

P/1 – Imagina!

P/2 – Nossa!

R – Nunca mais se teve notícias. Ele afundou no Triângulo das Bermudas, que tem muito navio afundado para lá, né. E nós nunca mais tivemos notícias no navio.

P/1 – Deixa eu só também perguntar. Nessas suas viagens que o Senhor ia de um Porto para o outro, o Senhor ia de navio...

R – Não.

P/1 – O Senhor ia de avião, como é que era? R – Eu ia de avião... P/1 – Direto para o Porto onde o senhor tinha que negociar.

R – De um porto para o outro, então, por exemplo, eu... geralmente eu fazia isso duas vezes por ano, eu corria toda a costa brasileira. A Marinha de Guerra brasileira ela é abastecida pela Petrobras Distribuidora. Mas os navios da Marinha de Guerra Americana, que vêm ao Brasil para as Operações Unitas, treinamento aqui na América do Sul, eles só eram abastecidos por nós e eles usavam o óleo Marine Diesel Oil, que seria o óleo diesel, com oito a 10% de óleo combustível. Então, normalmente eles entram pelo nordeste. Fortaleza ou Recife, Salvador, Rio de Janeiro e às vezes Santos, às vezes Rio Grande. Então, de onde eles entrassem... ou entravam por Rio Grande, dependendo da programação da Marinha, eu ia esperar eles no primeiro Porto, que eles entrassem. Eu ia de avião, combinava com a unidade próxima no caso de... por exemplo, em Fortaleza, a fábrica de asfalto, Asfor e programávamos todo o abastecimento, eles chegavam, atracavam, eu estava na operação, o pessoal de operações abastecia, media, aqueles “troços” todos, faturava e eu ia a bordo, levava a fatura e eles me pagavam. Aí eles saíam de Fortaleza, vinha para Recife, eu pegava um avião e vinha me encontrar com eles em Recife. E assim eu vinha. Muitas vezes eu chegou aqui no Rio, na mala com um cheque de um milhão de dólares.

P/2 – Por quanto tempo o senhor exerceu essa atividade?

R – 1972 a 1988. Eu fiz os manuais de abastecimento, eu dei treinamento para o pessoal, comprava o material, porque a área operacional era toda comigo. Então era só navio estrangeiro, navio nacional era com a Petrobras Distribuidora.

P/1 – E o que é que o senhor achava de passar assim, viajando também, tanto tempo?

R – É, no início, eu estava dizendo, quando a gente pegava só a parte de vistoria, treinamento assim, passava dois, três dias em cada porto, né? Às vezes, quando mudava muito de repente não sabia nem o número do apartamento que eu estava, de tanto trocar de hotel, né? Ia até Manaus e às vezes voltava parando de Manaus para cá também. Quando nós entramos na atividade, quando a Petrobras resolveu fazer isso... começar de baixo: Rio Grande não tinha nada. Tinha uma tubulação para o gás, que era da Refinaria Ipiranga, para fornecer óleo para a Marinha do Brasil. E na Base onde a Petrobras operava junto; Petrobras Distribuidora, operava junto com a Ipiranga, na quarta seção da barra, não tinha nada, nós tivemos que montar a unidade misturadora, era um aparelho americano, importado, que eles tinham medidores, existia um sistema de mistura que ele dosava a quantidade de óleo diesel e de óleo combustível e produzia uma mistura dentro daquelas especificações. Então nós tivemos que equipar o porto de Rio Grande. Paranaguá também não tinha nada. A princípio nós alugamos um fundo de uma sala da Texaco e ali se fazia pouca coisa. Quando a Petrobras assumiu o Porto de Paranaguá, então nós fizemos tubulações novas, botamos válvulas misturadoras e conseguimos uma casa dentro da base, uma sala onde ficou o nosso escritório. Santos também não tinha nada. Lá no Alemoa, aliás, no Saboó, tinha umas linhas muito velhas que ainda era da antiga, do tempo que a Refinaria recebia petróleo por ali. Também teve que reformar tudo e trabalhar lá no terminal novo, no Saboó. Aqui no Rio de Janeiro existe... existia uma tubulação do armazém do um até o armazém 18, mas todas podre. Então foi tudo abandonado e nós passamos a trabalhar com barcaças, chatas-tanque, provenientes da Ilha D’Água. Vitória foi o primeiro porto que se falou em fornecimento de combustível para navio. Eu estava lá na base, o Shigeaki Ueki foi lá, visitou a base, eu mostrei as instalações e ele disse para mim o seguinte: “- Gastaram uma fortuna para construir essa base e agora estão economizando 500 “réis” para poder fazer uma atividade que dá dinheiro.” E por incrível que pareça, foi um dos últimos postos que foi equipado.

P/1 – Então esse seu trabalho nessa divisão; que era uma divisão nova...

R – É. P/1 – ...fez toda essa montagem...

R – Toda a costa brasileira.

P/1 – ...de colocação de dutos, de instalação...

R – Dutos, instalação...

P/1 - ... direto para os portos?

R – Isso. Alguns portos trabalhavam com barcaça...

P/1 – Isso começou em que ano? O senhor se lembra?

R – Em 1972. P/1 – Então começou no mesmo ano da divisão, né, nela? Inaugurou!

R – Eu inaugurei a Divisão.

P/1 – Setenta e... ?

R – Dois. Eu fiz até o Manual de Abastecimento para distribuir em todos os Portos. E assim nós fomos. (Subaria?) também não tinha nada, Recife e... vamos ver... alguma coisa interessante, eu não sei nem se a gente pode falar assim. Quando raptaram o Embaixador americano aqui no Rio de Janeiro, eu estava na Fronape, resolvendo um problema da _____ _______, mandaram me buscar correndo para ir para à Ilha de Santa Cruz, onde havia uma quantidade de ______ (Special?); um óleo especial da Marinha, para poder carregar a esquadra e tudo, porque a esquadra toda estava vazia, não tinha uma gota de óleo da esquadra.

P/1 – A esquadra...

R – Brasileira.

P/1 – Brasileira.

R – Foi à noite toda a gente levando gente, carregando...

P/1 – E esse movimento todo por conta do sequestro?

R – É, por conta da Petrobras, né? Naquela época não era Distribuidora, ainda era Petrobras.

P/1 – E tem mais alguma outra história desse tempo?

R – [pausa] Tem! Fortaleza. Eu cheguei em Fortaleza para fazer Operações Unitas. Os navios estavam atracando, os navios americanos e os navios brasileiros. Mas não tinha óleo da fábrica de asfalto. Só tinha um pouquinho de... um restinho de óleo que poderia ser utilizado num navio americano. Mas o resto não tinha óleo diesel. E estava chegando um navio da Fronape com óleo diesel para abastecer a Cidade. Para tudo, abastecer os navios, abastecer a Cidade, Corpo de Bombeiros, tudo isso. Mas não tinha espaço para ele atracar, o navio estava lá fora. Então eu fui à Capitânia dos Portos. Conversei com o capitão dos Portos, expliquei a ele e ele disse que “de jeito nenhum”, que eles não iam tirar os navios brasileiros, fazer... como se chama, né, “fazer uma gaveta”, quer dizer, tirar os navios, botar um contrabordo do outro para deixar o petroleiro entrar no meio, “que aquilo era uma vergonha para o Brasil, uma vergonha para a esquadra brasileira, não sei o quê... de jeito nenhum!” – “mas o senhor pode deixar porque senão ninguém vai receber óleo, a cidade está seca.” E aí... “Bom, que o senhor vai deixar, vai. Agora, depende de como o senhor vai deixar. Agora vai... e se não tem outra saída.” – “Não, de jeito nenhum, não sei o quê..” Eu fui para o Hotel, liguei para o Rio, falei com o meu chefe aqui no Rio, eu disse: “Mário, está acontecendo isso, isso, isso, isso. Tem que acionar o Detran [Departamento de Transporte da Petrobras] e Ministério da Marinha, porque ele não vai... Eu sei que houve um movimento aqui, um movimento em Brasília. E quando eu cheguei de manhã, na beira do cais, eu era o cara mais procurado na beira do cais. O guarda me... “Dante!”, até o guarda disse: “Olha, eu aconselho o senhor não entrar aqui no cais hoje.”, “Por quê?”, “Porque o Capitão dos Portos está louco aí procurando-lhe.” Aí quando eu cheguei próximo ao Capitão ele...: “- Não, porque não sei o quê, porque você não precisava dar chave de...” – como é – é uma ordem de... “chave de galão porque não sei o que...” Eu disse: “-Mas eu avisei ao senhor ontem”, “Não, mas eu ia pensar.”, “O senhor não disse que ia pensar não, o senhor disse que não ia fazer.” “Ah, de madrugada o Ministro me telefonou e mandou eu tirar os navios e botar aí...” Aí, depois me convidou para almoçar com ele no dia seguinte, ficamos amigos e tal, porque era realmente uma necessidade. E assim, de vez em quando, a gente passava por essas assim, nesses portos, sempre tem um... Então, quando eu vim de Vitória, que vim trabalhar na Dinave, eu fiz o vestibular para Direito; no primeiro até, eu não tinha horário, eu não tinha ponto, eu conversei com meu chefe, que ele deixasse eu frequentar umas duas aulas de manhã cedo, quando precisasse de mim para viajar eu viajaria e assim completei o primeiro ano, depois fui transferido para a noite e aí me formei em Direito, à noite. Realizei o sonho da minha mãe que já tinha falecido há muitos anos, trabalhei algum tempo depois que me aposentei...

P/1 – O senhor se aposentou quando?

R – 1988. Eu me aposentei só que tive um problema na minha vida. Em 2002 eu passei mal, fui num hospital e disseram que eu tinha... a indicação era colocar ponte safena e eu me internei no Cardiobarra, fiz a operação e uma semana depois eu fui para a casa, bem, só que dois dias depois eu comecei a sentir febre, dor, voltei para o hospital com uma infecção hospitalar, aí passei quatro meses internado, quase morri.

P/1 – Imagina.

R – Aí mudou a minha vida toda, agora é que eu estou me restabelecendo...

P/1 – Mas o senhor trabalhou, então, depois que se aposentou?

R – É, eu tenho um escritório...

P/1 – Como advogado?

R – Como advogado. Nunca usei o Direito como meio de vida, tá? Mas... por exemplo, eu falei para ela que me dediquei muito na área de Direito Penal, eu gosto muito de Júri. Então fiz muito júri comutativo. O (Etevaldo Junior?) mandava me chamar: “- Tem um cara para ser julgado aí, está sem advogado, quer fazer?” Eu fazia assim mais na... porque eu gosto de fazer.

P/2 – Ainda faz?

R – Não tenho feito. Depois da operação eu não fiz mais. Talvez volte a fazer, mas não tenho feito.

P/1 – E o que é que o senhor gosta de fazer para se distrair?

R – Heim?

P/1 – E para se distrair, o que o senhor gosta de fazer?

R – Olha, pois é, eu ainda sinto um pouco é... quando eu caminho muito eu ainda canso um pouco, a respiração fica meio ofegante, né? Então eu estou saindo aos poucos. Aí fico vendo televisão, essas coisas. Caminho um pouco, moro num condomínio lá na Barra e... e gosto de futebol, dessas coisas, né?

P/1 – O senhor está casado?

R – Estou. Eu me casei de novo, tenho dois filhos do segundo casamento. Um rapaz tem 19 anos e o outro tem 13. E do primeiro casamento eu tive dois filhos, um casal. O rapaz mora nos Estados Unidos, mora Beverly Hills, na Califórnia e a menina mora aqui no Brasil, é contadora, é casada e mora aqui no Rio.

P/1 – Já tem neto?

R – Desse que mora nos Estados Unidos tem um casal.

P/1 – Quais são os nomes? O senhor podia dizer os nomes deles?

R – É Vinícius; porque o nome do pai é Marcos Vinícius. E a menina é Isabela, inclusive ela está aí passando uns dias, até estava falando para ela que ela tem quatro anos e fala português e inglês. E da minha filha eu tenho o Ricardo, que é o nome do pai também, o outro é Allan e a mais nova, que tem um ano e pouco, é Rebeca.

P/1-E dos seus dois filhos do...

R – Heim?

P/1 – Os seus dois filhos do segundo casamento?

R – Do segundo casamento eu tenho o Rafael, tem 19 anos e Leonardo, tem 13.

P/1 – Tem algum plano que o senhor ainda gostaria de fazer? O Senhor foi fazer Direito, depois de se aposentar tem algum...?

R – Olha, não sei. Plano a gente sempre, mas a idade também vai chegando a gente não pode se aprofundar em muitos planos, porque...

P/2 – Tem um sonho então?

R – Não sei, eu acho que eu fiz um... que tudo que eu gostaria de fazer na minha vida eu fiz, está entendendo? Pode ser que... mas não tenho assim, um... sonho que eu tenho hoje seria ver esses dois meninos formados e realizados. Fora disso não tenho assim, nenhuma... alguma assim de que eu vá brigar ou lutar. Pode aparecer alguma coisa na minha vida, mas... já estou com 66 anos.

P/1 – Está moço ainda.

R – É.

P/1 – Será que algum vai querer trabalhar na Petrobras?

R – Não sei, pode até ser. O mais moço, talvez. O mais velho não. O mais velho está fazendo Educação Física. E até ontem nós fomos assistir o encerramento de um curso de teatro que ele está fazendo lá no Retiro dos Artistas. E ontem terminou uma parte, aí fizeram uma peça lá e ele trabalhou lá e o sonho dele é ir com o outro irmão morar lá nos Estados Unidos. Porque o que mora nos Estados Unidos tem Academia de jiu-jitsu lá. Então o sonho dele também é ir para lá com o irmão. E eu acho que eu tenho mais ou menos realizado... Dentro da Petrobras, quando eu me aposentei eu estava no último nível de... na última letra de nível médio, sempre fui muito bem conceituado em todas as unidades onde eu passei, trabalhei em todo todas as bases, em portos, agora mesmo a Reduc... era uma coisa que eu queria fazer. A minha turma eram 28 quando nós entramos na Petrobras. Mas nove já morreram. Então não conseguimos localizar todo mundo, faziam uma relação, fizemos um almoço e agora a Reduc fez uma... participou de um almoço também, deu uma placa para cada um, camisa com... se bem que eu não sei se... Tenho vontade, tenho, eu gosto. Principalmente na área marítima, já me convidaram, eu andei trabalhando... mas não... eu fui só... eu era advogado só, empresas de hotelaria nas plataformas, né? Eu era advogado de uma Empresa e depois eu cheguei até ser Presidente do Sindicato deles, mas... Aí caí fora, porque não era meu ramo, não valia a pena continuar e eu acho que a gente deve fazer aquilo que gosta, não é? Não gosta, não adianta.

P/1 – Senhor Dante, eu queria perguntar o que é que o senhor achou dessa iniciativa da Petrobras de fazer o Projeto Memória e se o senhor gostou de ter participado?

R – Muito, muito, muito. Eu tenho um amor muito grande pela Petrobras. Eu acho que tudo que eu tenho na vida eu devo a Petrobras, evidentemente com o meu esforço, com o meu trabalho, né, mas eu... tudo que eu puder fazer, que a Petrobras precise de mim e o que eu puder participar ou ajudar eu estarei sempre à disposição e eu acho que a Petrobras faz parte da minha vida. Gostei muito da entrevista de vocês, estou sempre à disposição para o que vocês precisarem e quiserem.

P/1 - Então tá! Senhor Dante, a gente gostaria de agradecer a sua participação, por essa entrevista que foi muito boa.

R – Muito Obrigado.

P/2 – Muito obrigada.

 

----FIM DA ENTREVISTA---

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