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História

Um dicionário e outros papeizinhos de histórias

História de: Maria Cleta de Almeida
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/04/2018

Sinopse

Quando a menina Maria Cleta soube que havia um livro que reunia o significado de todas as palavras, ficou afoita – ainda mais quando um amigo, depois de andar 30 quilômetros até a cidade mais próxima, conseguiu lhe trazer a novidade: um dicionário. Ávida por ler e escrever, ela cresceu tendo como foco a educação, embora, para alcançá-la, tenha enfrentado diversos obstáculos, incluindo o machismo do marido, que achava absurda a ideia de a mulher querer estudar. Depois de os três filhos atingirem a adolescência, Maria Cleta conta que, enfim, voltou para a escola e construiu a história com que sempre sonhara: se graduou em Pedagogia, cursou parte de outras duas faculdades e fez carreira como assistente social. Sua intensa trajetória a inspira a ir escrevendo suas lembranças, que vai registrando em papeizinhos de papel que encontra por aí – “estou cheia de papelzinho na vida!”, diz ela.

 

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História completa

Uma outra coisa de criancice, as primeiras travessuras... Eu ouvia a conversa dos adultos, que naquele tempo era muita privacidade, criança tinha que ficar longe. E eu tinha meu irmão, a gente tinha uma curiosidade: o que a gente ouvia, ficava pensando naquela palavra, o quê que é aquilo. E não existia dicionário, a gente não sabia o que era um dicionário. Até que um amigo comprou um dicionário. A gente era pobre, pobre demais! Um dia, ele falou: “Tem um livro que a gente pode saber de todas as palavras”. Ele ouviu do povo, ele era o mais perto de Isidoro, meu querido Isidoro.

 

E ele deu um jeito e comprou esse dicionário. Andando... Ah, meu Deus, sete léguas? Eu não sei se são 30 quilômetros. Era muito longe, indo em cima de um caminhão pra comprar com o dinheiro da safra de algodão, que só tinha dinheiro no fim do ano. E ele comprou o bendito dicionário, que custou, eu acho que era mil e 500 mil réis. E o dicionário só quem tinha era médico. Quem era que tinha um dicionário? Nem as professoras sabiam o que era dicionário, não! E ficamos nós dois na mesa, porque meu pai confiava neles. Não era nada de namoro: ele de um ladinho e eu doutro e a lamparina no meio e nós vendo esse dicionário. Nós ficamos muito sabidos naquele tempo com esse livro, esse dicionário. E isso já faz bem mais de 60 anos.

 

E, aí, viemos embora pra São Paulo, minha filha com cinco meses, que agora vai fazer 54 anos. Tem uma história que é meio difícil de vocês acreditarem que aconteceu. Meu marido era aquele cara bem mulherengo, de arrumar mulher: “Vou morar com ela e ficar uns tempos morando”. E voltava pra casa, e eu ficava em casa. E assim foram 44 anos. E ele ia mesmo, e eu ainda dava o perfume. E foi uma vida que eu achava que era legal, mas a minha ignorância (risos). Para o pessoal de hoje em dia...

 

Eu sempre quis estudar, desde criança. E eu com três crianças. Quando meus filhos já estavam adolescentes, eu resolvi estudar. Pra meu marido, foi um absurdo, foi a coisa mais difícil eu estudar. E eu fui passo a passo, porque, se eu fosse falar em estudo, ele ficava doido! Mas eu queria fazer uma faculdade, que, desde criança, eu pensava nisso. E eu me formei, fiz uma faculdade completa, duas incompletas e formei meus três filhos!

 

No tempo do Orestes Quércia, eles fizeram aquele programa chamado Secretaria do Menor, que tinha a PCR [Programa Criança de Rua], que era pra criança de rua. A gente ia trabalhar como educadora tinha que trabalhar com crianças da faixa dos sete aos 17 anos, aquelas crianças carentes, que as mães trabalhavam.

 

E tinha o programa do PCR, eram oito grupos, e se juntava todo mundo, quando era pra um evento, num lugar só. Levava o evento em tal lugar e iam todas as unidades, e as pessoas tinham que se deslocar. Aí, eu avisei em casa, e meu marido não aguentou aquilo ali. E eu falei: “Mas eu tenho que ir porque é do trabalho”. “Não, você não vai pra esse lugar! E com quem você vai?” – aquele ciúme que ele tinha, e eu fui. E eu fiquei, fiquei. Quando foi de noite, eu liguei em casa, eu já tinha telefone em casa. Liguei e falei pro meu filho: “Onde a senhora está, mãe, que não voltou pra casa?” Falei: “Estou no Guacuri”. “O que é isso?” “É uma unidade que tem aqui, e eu não posso voltar hoje, a gente vai virar a noite trabalhando.” Quando meu marido soube disso, aquilo foi um desespero! Aí, o mundo quis se acabar em casa.

 

Ah, quando eu cheguei em casa, qual não foi a surpresa? Ele não achou outra coisa, pegou meu colchãozinho novo, nosso colchão, e pôs lá e fez um fogo e queimou o colchão. Ele queimou o colchão. “Tá doido?” “Não, ela não veio, mas também não vai dormir mais nesse colchão, ela vai dormir no chão agora.” Até que passou uma semana ou duas, ele não gostou de dormir no chão, tem aquele povo que passa vendendo em periferia, vendendo colchão, e ele comprou.

 

Eu gosto de escrever, eu tenho mania de leitura, tenho mania de escrever. Eu leio uma frase duma coisa, ali sai uma coisa. Eu ainda sou assim, e eu gosto da história, de falar da história. E nordestino é assim, quase todo mundo faz a biografia da família. E eu sempre pensei nisso na minha vida, em escrever. Eu vou escrevendo e, pra não esquecer, qualquer papelzinho de pão que eu pego pela rua, porque eu lembro de alguma coisa, eu ponho tal década – porque tem que ser, a gente fica velho, não fala mais tantos anos, é década! Eu tenho que contar pelas décadas da vida, porque foram muitas coisas. E eu estou cheia de papelzinho na vida! E eu quero uma história da minha vida, eu acho bonito, eu acho bom contar história!


 

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