Busca avançada



Criar

História

Um dia fugi da escola e fui parar no congelador

História de: Ocyara Almeida dos Santos Soriano
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 22/12/2008

Sinopse

Infância em Quitaúna, Osasco. Pai veterinário do exército, mãe professora, matemática. Cresceu em meio militar. Conta sobre sua infância e juventude na cidade de Osasco e como opunha-se às regras da família. Iniciou sua carreira de professora ainda jovem e aprofundou-se nessa profissão. Advogada e mãe.

Tags

História completa

IDENTIFICAÇÃO Meu nome é Ocyara Almeida dos Santos Soriano. Nasci no dia 4 de setembro de 1958, em Bagé, Rio Grande do Sul. Gaúcha, tche (risos) FAMÍLIA Osman Borges dos Santos, Araci Almeida dos Santos. Meu pai, ele era militar, militar veterinário, ele trabalhava no Quartel General (Quartel General do Segundo Exército) [localizado] no Ibirapuera. Terminou, sendo afastado, pediu afastamento, terminou como tenente coronel. E [era] veterinário no Jóquei Clube de São Paulo. Ele faleceu há sete anos atrás. Minha mãe está conosco, graças a Deus, e é professora. INFÂNCIA [Minha infância foi] Nômade. (risos) Foi assim, foi meio complicado porque nós não tínhamos parada escolar, amigos... Nós tínhamos, fazíamos, construíamos as nossas amizades, quando conquistávamos, ficávamos dois, três meses e tínhamos que viajar. De mudança, com tudo, mudava tudo, de mala e cuia. E aí, nós, eu saí do Rio Grande do Sul, mas eu tinha tipo uns quatro anos, aí nós fomos pro Rio, do Rio pro interior de São Paulo, fiquei lá até os sete, sete anos. E vim aqui pra Quitaúna. Aí de Quitaúna nós fomos pro Jaguaré, que também é São Paulo, mas ficando sempre de um bairro pra outro. Ou de um município a outro. Então foi meio complicado, pra todas nós, eu e minhas irmãs. FAMÍLIA [Tenho irmãs] Nós somos, hoje, em quatro. Quatro mulheres. [Meus pais] Eles são de Salvador, meu pai soteropolitano, e minha mãe, baiana. Minha mãe é do interior. Se conheceram porque minha mãe veio morar na cidade de Salvador. Aí eles moravam na mesma rua, e meu pai era um galanteador, dava aula de matemática, assanhado para dar aula de matemática. E minha mãe, nessa, acabou se apaixonando, se envolvendo, e eles se casaram, não chegaram a, não, não tiveram um casamento de, na Igreja, foi só no Civil. E os filhos, duas nasceram lá em Salvador, aí quando meu pai foi promovido, ele fez o Centro de Preparação de Oficiais da Reserva de São Paulo - CPOR, então ele já entrou e nunca foi soldado. Ele já entrou como tenente, aí ele foi transferido pra o Rio Grande do Sul e minha mãe estava grávida de mim, por isso que meu pai me chamava de “Gabaúcha”, uma mistura de baiana e gaúcha. (risos) No exército, na carreira militar, você pode entrar como soldado, que é... Você é escalado, você é chamado pra se apresentar, e quando você quer seguir a carreira militar, você faz a CPOR, que aí você, com um nível superior, a faculdade, ela já te permite estar graduado numa patente diferente. Então meu pai, ele fez Veterinária lá na Bahia. Quando ele entrou no Exército, como tenente, ele trabalhava na área militar, mas ao mesmo tempo na área veterinária. Então tudo que se tratasse, reportasse à granja, na época era granja, porcos, galinha, cavalo, era a área que meu pai cuidava. O serviço dele era mais dirigido para área veterinária. E aqui em São Paulo, quando ele veio mesmo, ele ficou com o Jóquei, ele foi escalado pra trabalhar no Jóquei. Ele era designado de acordo com o Exército. Tivemos a época do Lamarca, eu vivi e convivi com o Lamarca, ele foi meu vizinho. CAPITÃO LAMARCA O capitão Lamarca era uma pessoa, eu tinha... Nove, nove anos. Meu pai trabalhava no mesmo quartel, antigamente era o Quarto RI (Quarto Regimento de Infantaria), hoje é o Quarto BIP, em Quitaúna. Eu morei ali, hoje é 4.º BIP. Mas eu fiz minha primeira Comunhão inclusive no Quartel, nós morávamos, moramos ali por uns quatro anos mais ou menos. E o capitão Lamarca, ele foi meu vizinho. Ele pra passar, para chegar a casa dele, ele vinha do quartel, minha casa era... Nós morávamos na Vila Militar, para eles virem do quartel até a residência, ele era obrigado a passar em frente de casa. Como eu tinha minha irmã caçula, ele era apaixonado por ela, nós não usávamos “chiqueirinho”, nós tínhamos um caixotão e minha irmãzinha ficava ali dentro, bem na porta... Esperando o meu pai chegar. Aí o Lamarca passava, tomava uma caipirinha com meu pai, conversava, muito amável... Foi uma pessoa formidável pra nós, realmente. E eu lembro naquela época que assim, a gente não tinha contato com os filhos dele, ele mantinha meio na reclusa mesmo, a mulher também. E uma vez me chamou a atenção... A semana passada eu assisti o filme dele pela quinta vez, e eu lembrei disso, nós fomos à casa dele e não tinha móveis, a casa dele não tinha móveis. Estranho. Eu, com nove anos, eu queria ver um sofá, mas, estranho, não tinha móveis? “Mas ele não estava de mudança?”. E a gente criança, não tem malícia, não tem nada? Passou-se um tempo assim, e de repente veio a, prisão, a busca dele, a fuga. E foi um período difícil para nós, foi muito difícil porque meu pai tinha um relacionamento mais próximo dele, e o quartel ficou de prontidão, e nós éramos crianças e não entendíamos. Então seis horas da tarde apagava-se a luz, ninguém podia... A gente tinha que ficar todo mundo no silêncio, silêncio mortal, e não podia se falar nada. Eu andava, eu ia para escola com guardas, soldados com metralhadora atrás de mim. Era assim com as filhas de militar e era uma vila. hoje tem transporte escolar, peruas, vans. Na minha época nós andávamos de caminhão, caminhão do exército, então o caminhão [era] que nos transportava. E nós não tínhamos empregada, auxiliar doméstica não, nós tínhamos ordenanças. Eram os soldados que trabalhavam pra nós. Então naquela época a gente andava com segurança, digamos assim. Os soldados que nos acompanhavam. Isso na época do Regime Militar. Mesmo antes, naquela época, quando eu fui pra lá, com sete anos, que isso foi em 65, que eu vim de Lins, já era assim, era uma coisa assim, vivia de prontidão o quartel, e nós não tínhamos esse conhecimento, meu pai não deixava nós termos esse contato com a política, com o regime, com nada. Primeiro porque nós éramos mulheres, e o meu pai, por ser militar, ele tinha assim, ele tinha uma rigidez muito, muito, muito mesmo imposta e minha mãe sofreu muito também, minha mãe não podia usar calça comprida, sabe? Foi uma coisa de ditadura, meu pai era um homem bem militar mesmo. Um homem que veio de seis irmãs mulheres, depois cinco filhas mulheres, então você imagina, ele tinha um quartel feminino para liderar. Então ele exigiu uma coisa diferente. E pra falar de política ele morria de receio mesmo, por nós também, por proteção. Então na época do Lamarca, eu lembro que nós tínhamos que ficar trancadas, a gente não saía, e minha irmã, a segunda, que hoje é dentista, ela ousou uma vez falar, dar uma reposta ao meu pai, em função do que ela tava ouvindo. Nossa, meu pai na hora... reagiu fisicamente. Nossa ele achava que as palavras, as palavras que nós tínhamos nós não poderíamos usar, “liberdade”, “democracia”, essas coisas assim, sabe? A gente tinha que ser submissa mesmo. Depois que o tempo passou, as coisas mudaram. É que modificou, a gente foi conquistando, mas foi muito difícil. FAMÍLIA Tenho lembranças, assim, o meu avô, pai do meu pai, era Testemunha de Jeová. A minha bisa, avó, bisavó, a minha tataravó, mãe dele, foi escrava, uma negra, negra de tronco. Mas foi seduzida por um alemão, chefe da fazenda e, assim, isso é parte, do meu avô. O meu avô era assim, uma pessoa culta, não tinha estudos, mas era um homem letrado, vamos dizer. A minha avó não, a minha avó já era - mãe do meu pai - já era uma pessoa mais cult, mais fechada, mais carrancuda, agressiva. O que ela fazia era, eu lembro dela com aqueles pentes de osso no cabelo, ela tinha um cabelo anelado até a cintura, e o fumo, ela tinha um fumo, que ela ariava -- ela não tinha cárie, ela tinha, eu lembro que ela tinha sessenta e tantos anos e não tinha, nunca tinha tido uma cárie. E meu pai alegava que era por causa desse fumo. Ela não fumava, ela tinha um fumo preto, que ela ficava ariando aqueles dentes o dia inteiro e com a peneira jogando feijão, colhendo feijão e arroz. Mas não era de conversa conosco, não era de muita conversa. Ela era descendente de espanhol, ela era bem, bem fechada, aquela expressão de distante, não era afetiva. Meu avô não, meu avô, ele contemplava a natureza, ele te dava assim, se você acordasse e: “Vou pra praia.”, ele olhava pro céu e falava assim: “Olha, você vai à praia, mas meio-dia esteja em casa, porque quando for meio-dia e vinte vai começar a fechar o tempo, a nuvem não sei da onde...” Então ele tinha uma coisa de espiritualidade bem diferente. ORIGEM [essa história da família é passada porque] É legal Assim, porque eu gosto de história, eu gosto de História, eu gosto da disciplina História, eu gosto da história da vida. E como professora, meu nome é esquisito, como os alunos falam: “É esquisito, né?”, e as pessoas também. E eu conto e, assim, é uma coisa que eu gosto de contar é a origem, eu não sou branca. Aí, lógico, né, existe, por mais que você não queira, o preconceito, pré-conceito ou não, ele ‘tá aí, na pele de qualquer um. E como professora, você se torna, assim, um alvo, um alvo muito grande. Quer queira, quer não, pai te observa, você tem que ‘tá tentando seduzir família, envolver. Só que assim, nessa hora, pra você buscar, pra você não convencer, mas pra você sensibilizar, você vai nas raízes. Porque você tem uma história, e quando você vai nessa história, você sensibiliza, porque aí você faz o outro pensar também, faz ele reverter isso pra ele, buscar a origem dele. E aqui no Brasil, não tem como você não ser, não ter essa origem afro. Não tem como, é muito difícil, nós não somos raça pura. Então lá um pouquinho, todo mundo tem um pezinho na senzala, sabe, no povo indígena, não importa onde é, mas tem. E aí o que acontece, eu fico curiosa, conversando com as minhas tias. A cor, meu avô, ele tinha uns traços mais finos, mas a pele mais escura. A minha avó, a pele mais clara, mas os traços brutos, nariz largo, lábios carnudos; meu avô não, nariz fino, lábios finos, e a pele bem mais bronzeada. Não chegava a ser negro. Eu lembro que quando eu era pequena, falavam assim pra mim: “Ah, aquele crioulo lá.”, meu avô, se referindo ao meu avô. Aí eu falava assim: “Não, meu avô é banquinho, banquinho”. (risos) Olha, criança, “banquinho, banquinho”, isso ficou, até hoje minhas tias lembram disso, a minha defesa. Então eu fui buscar, contando. Aí as minhas tias, as irmãs do meu pai, vem essa que é a sua avó Sérgia, aí foi contando e isso ficou. Eu fui buscar, fui buscar minha origem. E meu pai é assim também, meu pai sempre tentou. Antes dele morrer, não sei onde está, minha mãe diz que está tentando achar, mas tem alguns rabiscos. Os meus filhos todos, eles têm as sobrancelhas bem grudadas, inclusive que a gente fala, se for pego como árabe, quiserem pegar, meus filhos são todos levados, porque eles têm as sobrancelhas juntas. Meu pai começou a buscar também, será que na nossa família, na nossa descendência, na nossa árvore não tem, porque esses meninos têm uns traços muito fortes, então os três têm. E o meu pai, foi buscando, que além de e aí descobriu, nós temos espanhóis, nós temos portugueses, italianos, indígenas, foi indo. Mas aí meu pai chegou aonde? Aonde ele queria, nos árabes. Só que ele começou a tracejar, só que meu pai é assim, ele pega qualquer guardanapo, qualquer coisa, e, entendeu, e anota, ele tinha diário. Então essas coisas daí é uma questão de quem tem essa sensibilidade que vai poder entender esses rabiscos dele. Minha mãe não é tão ligada, envolvida. INFÂNCIA Foi o tempo maior de infância foi lá [No Quartel]. Eu estudava num colégio de freiras que existe até hoje aqui em Osasco, o Nossa Senhora da Misericórdia. Então, nossa amizade era voltada ali e tinha alguns filhos de militar sim, porque a minha mãe, ela freqüentava muito chás beneficentes, então as mulheres dos militares, elas não faziam nada, tipo assim, alguma atividade profissional. Elas ficavam como madames mesmo, conversando, na casa delas. Não tinha esse negócio de shopping, cinema, muito difícil, né? A viagem seria tipo viagem pra visitar parentes, mas entre elas, eram dentro da casa delas que elas se reuniam, festinha de aniversário de uma, um chazinho, um cafezinho, e nós íamos. Então nós ficávamos no quintal da casa. Então eu ia muito na casa dos coronéis, meu pai na época era capitão. Minha mãe era muito comunicativa, eu era novinha, mas assim, tinha um relacionamento com as pessoas muito bom, então ela era sempre convidada, só que as três filhas -- na época nós éramos três, depois que veio a quarta -- e aí nós ficávamos no quintal. Só que, nós ficávamos no quintal, conversando assim, a gente acabava ficando mais com as empregadas, porque elas eram mais dinâmicas [interessantes] --, as crianças, não sei, eu não me lembro, não lembro muito de criança naquela época, eu lembro de crianças chatas. (risos) É, daquela época, eu lembro de crianças, não eram próximas. Eu vim brincar mesmo, eu posso dizer, assim, de brincar, brincar, com essa minha irmã caçula. Que tem uma diferença de nove anos. vim brincar de casinha, eu, dezoito anos, eu fazia bonequinhas, aquelas bonequinhas de papel, eu recortava, minha irmã chegava da escola, eu tinha montado. Eu pegava livros do Jorge Amado, a coleção dele, e fazia beliche, sabe, telhadinhos. Essa época eu lembro. Eu brincava muito com menino. Eu gostava de bolinha de gude, pipa, é, capuxeta, que fala. É o que a gente fazia, apanhava muito por causa disso, eu tenho o joelho todo marcado, carrinho de rolimã. Meninas eu fui ter depois. Mas nessa época, minhas brincadeiras eram diferentes. nós tínhamos uma vizinha, da minha idade, e um menino dois anos mais velho. Nós fizemos amizade com eles, ficou muito tempo, inclusive eles foram para o Rio de Janeiro, depois nós visitamos. As outras crianças tinham acesso para nos visitar na vila. Sem problema, sem problema, sem problema mesmo. Nós nunca... Essa particularidade, assim, de impedimento, não. O que nós não podíamos é, entre nós, estar falando de política, de quartel, não. Nossos amigos, lá, estudavam num colégio estadual, nessa época. Nesse lance de ficar mudando pra lá e pra cá, nem sempre a gente conseguia escola particular, então, o quê que acontecia, qualquer escola que tivesse vagado, pra não ficar sem estudar, e eu estudava num colégio estadual naquela época, nesse, estudei meio ano lá. E essas crianças que eu fiz amizade continuam, a gente freqüentava, só que na escola, a gente não era pra falar da casa, de nada, de nenhuma atividade, tudo a gente tinha que ficar quietinho. LEMBRANÇA MARCANTE DA INFÂNCIA Olha, televisão, nós não tínhamos televisão. Então, nós morávamos em Lins, e em frente a nossa casa, foi o primeiro lugar que eu vi televisão, aquele móvel imenso. E a casa da vizinha, ela tinha uma escadaria muito grande, e os degraus eles eram distantes e estreitos ao mesmo tempo, perigosíssimo. E nós fomos assistir, não lembro o nome da senhora, ela nos convidou. Aí minha mãe pegou, arrumou todas, deu banho... (risos) Arrumou aqueles vestidos lindos, maravilhosos. (risos) Minha mãe que fazia nossos vestidos, bordava tudo. Era muito interessante. E naquela época a gente não tinha situação financeira boa, minha mãe, eu lembro que minha mãe fez vestido de toalha de mesa e cortina, mas ninguém dizia. Porque ela era... os bordados maravilhosos mesmo. Aí, nós fomos, todas... [cheia de ] laços, assistir televisão (risos). Perfume, tudo que tinha direito (risos) eu tinha cinco anos, quatro anos. (risos) Aí eu fui ver a televisão. Aí a gente ficava olhando aquilo lá, era estranho. E assim, os nossos passeios preferidos que, isso pra mim vai ficar na história, era andar, era ver a televisão na vizinha, assistir a televisão, e passear de charrete. Minha mãe empetecava deixava a gente realmente, três horas da tarde, as três arrumadíssimas, impecáveis. Lá vinha a charrete, parava na porta de casa, quinhentos cruzeiros o passeio Aí a gente ia passear na Dom Bosco, a igreja que tem até hoje lá em Lins. Dava uma volta pela cidade, pela praça, comia uma pipoca, um algodão doce, aí voltava para casa. (risos) OSASCO [naquela época a cidade era] Menos habitável, menos tumulto, menos marginalidade, isso no âmbito geral, mas aqui especificamente em Osasco. Porque assim, até hoje existe, novamente, o preconceito, “chapa de Osasco”, a idéia de Osasco é onde Judas perdeu a bota, onde só tem marginal. Naquela época, eu digo pra você, assim, que era diferente. Muitos jovens, você via assim, era o Instituto Tecnológico de Osasco - ITO, que agora não é, onde ‘tá a prefeitura, era o ITO; virou Fundação Instituto Tecnológico de Osasco - Fito também. E o Colégio Misericórdia. Então o Colégio Misericórdia é colégio de freiras, só mulheres, e o ITO só homens. Então o nosso [era] lá de cima, e o ITO aqui embaixo. Então assim, você via muitos jovens normais, sem até roupa, vestimenta, era diferente. Era o jeans, era o que for, mas não era de maneira agressiva, não tinha esses coloridos, nada disso? Então eu digo pra você que eu sinto a diferença muito grande pra transitar, pra falar, as pessoas mesmo que não te conhecessem, existia um sorriso, hoje não. O Jaguaré ‘tá diferente, muito diferente. Onde você passava você conhecia: “Oi”, “Oi”. . Hoje não, hoje não tem isso, hoje você não sabe nem que é seu vizinho. Osasco cresceu muito, modificou muito. Onde eu moro, que é [Vila] Adalgiza, era um lugar-- há vinte anos atrás -- que só tinha aquela terra vermelha, igual em Itumbiara. Aí depois ainda o meu marido falou assim: “Olha, a gente vem pra cá.”. A gente comprou, eu casei e fui morar numa casa alugada. Tinham acabado de construir a casa, nós alugamos um sobrado geminado. Logo em seguida nós compramos esse terreno. Então nós íamos constantemente visitá-lo, né? E ali era um terrão vermelho Hoje é o que é. Hoje você vê o quê? Todos os prédios, todas as propagandas que você vê na televisão, na revista Veja, são todos os meus arredores. Então, assim, foi dominado mesmo, houve uma evolução, crescimento de indústria, de tudo, de escola, de tudo, faculdades. A faculdade que eu fiz, hoje é universidade, que é a Fieo e era uma coisa pequena, hoje é um universo. ADOLESCENCIA Já foi aqui em Jaguaré e Osasco, porque eu continuei estudando nesse colégio, estudei onze anos nesse colégio. No período de adolescência eu fugia pra ir em baile, que meu pai não deixava, eu tinha um horário até dez horas. Eu punha a chave debaixo do portão, de um lado que, que quem tivesse dentro podia pegar e quem tivesse do lado fora também. Adorava salto, aí eu roubava salto da minha irmã, porque minha mãe comprava salto, sapato alto pra minha irmã do meio e não comprava pra mim. Era assim, uma vez você podia, você tinha uma roupa, para você ter a outra, para você chegar a sua vez demorava, . A boneca quando era criança também, dessa vez é você, o ano que vem é a outra, e assim eu fui crescendo dessa forma. Só que eu sempre gostei de música, sempre gostei de me relacionar com os homens, não em termos de namoro, mas a amizade. [Em] amizade eu me dei sempre melhor com os homens. Então eu tinha uma equipe, assim, como é que chamava, de Santo Antônio, porque eu fazia o namoro dos meus colegas com as minhas amigas, e eu mesma, fora, né? E de repente assim, superfeminina, amável, as mães me adoravam, me convidavam porque a gente fazia Ki-Suco e Pão Pullman com patê, ou maionese. Porque o patê encarecia, então a maionese só põe um ingrediente. E aí você fazia aquela jarra de Ki-Suco, e a luz às vezes -- depois que veio aquela estroboscópio, que alguém mais riquinho conseguiu, um aparelho lá que ele juntou. Porque ele começou a fazer banda, então com a banda ele faturou um dinheirinho e conseguiu, então ele emprestava pra gente. Mas não, a gente punha papel celofane, ia de blusa branca, pra chamar atenção, pra ficar os dentes aparecendo, aquela coisa toda. Só que meu pai não permitia isso de jeito nenhum... Eu fui rebelde. Eu fui considerada, das minhas quatro irmãs, a rebelde e coisa assim. E eu vejo hoje, essa história, eu conto tudo que eu estou contando aqui pra vocês a minha filha, que tem 20 anos sabe. Porque eu senti necessidade de até rever isso comigo. Assim, eu sempre fiz as coisas e sempre deixei o rastro, eu nunca consegui fazer bem feito. Então eu sempre aprontei muito. Eu fumei, eu, nossa senhora. Eu fazia o rapaz da lanchonete abrir o maço de cigarros e vender picado. Aí aquela coisa de um centavo, um centavo, nem sei que dinheiro que era, que moeda que era naquela época. Nossa, a gente achava uma moedinha no chão e catava para comprar um cigarro e aquele cigarro rodava em todas, sabe aquela coisa de pegar o grampo e por a bituca e queimar aquela coisa assim. Nossa. E fumava dentro do banheiro, depois assoprava talco, uma neblina. E minha mãe, o banheiro era aquela porta, aquele trinco que fazia assim, mas se você desse um tranco ele abria. Ara Aquela fumaça, ninguém tava tomando banho, mas que me perdoe o desperdício de água - uso racional - mas eu fiz isso. Só pra sair fumaça e eu tacar talco e fumar. Então, eu fiz muito isso. Minha mãe estudava no Misericórdia também, minha mãe voltou, começou a conquistar a parte de mulher dela, de existência mesmo. Aí voltou a estudar, ela estudou com o Mário Prata, em Lins, aí fez só até a quarta série, que para mim é a oitava série. Aí o meu pai não deixou mais, mas ela veio para cá aí de repente foi fazer magistério, depois magistério ainda fez Teresa Matan, faculdade de Matemática. Então ela foi conquistando. De repente avançou. ela foi buscar um monte de coisas. Então assim, eu tiro o meu chapéu. Nós somos totalmente diferentes de minha mãe em termos de relacionamento. É que cada uma de nós, por incrível que pareça, por mais que nós tenhamos a vida que nós tivemos - porque a vida conjugal dos meus pais foi de muitas desavenças, muitas brigas, físicas mesmo, agressões verbais. Coisas desagradáveis mesmo sabe? Assim, de a gente ver minha mãe mal mesmo, toda ensangüentada, meu pai era um homem meio violento, era uma pessoa extremamente inteligente, carismática, sedutora, tinha um fã clube maravilhoso. A mãe do Roberto Carlos se apaixonou por ele, Dona Laura, num casamento que nós fomos. Nossa, essa mulher ficou com ele, foi uma das crises, das brigas do meu pai com a minha mãe. Da minha mãe... e da mãe do Roberto Carlos, olha só -- assim, mas minha mãe começou a se libertar e as filhas foram crescendo. A adolescência a gente foi conquistando. O colégio de freiras ‘te dá o respaldo de ter só mulher. Então cada uma com a sua experiência, todos nós estudamos lá. A minha irmã teve uma oportunidade, a segunda, de estudar com pessoas de um nível social mais alto. Então ela freqüentava lugares, tipo assim, vizinhos do Paulo Goulart, o Alto de Pinheiros. Ela estudou no Fernão Dias depois. Então a clientela dela era diferente. Da minha outra irmã foi Rita Lee, Zuleica de Barros. Então, a gente tem um histórico, uma aprendizagem, um convívio diferente. E isso tudo vai libertando, porque você vai construindo os seus valores apesar de você ter a tua família, os seus são seus. O que é bom para você. Então, nós casamos. As três mais velhas casaram. Igreja, tudo direitinho. A caçula que teve mais liberdade do que todas, que teve uma visão, que tinha uma intimidade com meu pai, que ia pra motel namorando com o rapaz que ela vive até hoje, vive não, ela namora, ela não é casada, ele tem o apartamento dele, ela tem o [dela]. Mas assim, ela teria todas as oportunidades de reverter isso, mas ela resolveu ao contrário. Ela não quis casar, e não quis ter filhos. Justamente o que poderia acontecer conosco pela criação, pelo que nós vivenciamos. E, no entanto foi minha irmã caçula que tomou esse caminho. ADOLESCÊNCIA Fugas Eu não tenho vergonha de contar, sabe por quê? Eu vejo tudo isso assim. A única coisa de vício meu foi cigarro. Eu estou há um mês sem fumar. Eu parei, pretendo realmente assumir essa postura. Eu já havia parado há um tempo atrás, antes do meu pai falecer a dois anos. Meu pai morreu e eu voltei desesperadamente. E agora eu parei há um mês e botei na minha cabeça, eu não quero fumar e acabou. Então, meu vício era cigarro. Eu era tão diferente das minhas irmãs, dos padrões convencionais, vamos dizer assim. Porque não era uma coisa assim eloqüente de eu burlar. Ai, “olha, aquela menina é malquista”. Não, era por que eu era diferente e estudava num colégio de freiras, . Eu gostava de fumar. Eu gostava de estar conversando, sentar na calçada, eu fazia tudo diferente. E nessa época o que aconteceu, eu cabulei aula. Como eu falei, meu rastro ficava. Eu não fiz direito a coisa. Então, tinha uma galera querendo sair da escola, e eu consegui que essa galera saísse, só que eu era a última. Então, eu era meio líder. Eu nunca pensei que eu fosse líder. Hoje eu penso o que é liderança, e eu estou lendo O Monge e o Executivo, aí eu estou me encaixando em algumas coisas. Porque eu falei “eu não sou líder”, mas de repente. Autoridade e poder tem uma diferença e eu estou entendendo algumas coisas. E aí foi, foram saindo, sobrou quem? Sabe aquela coisa que você faz aqui, sobe uma, sobe outra. Mas a estrutura era eu, quem ia fazer eu pular o muro? Quem ficou? Eu... Ah é, e a carteirinha carimbada: papai comparecer na escola. Aí minha mãe não era besta de dar para o meu pai. Imagina, não dava. E eu não era muito besta de dar pra ela. Aí eu dava para a minha irmã mais velha, e minha irmã mais velha ia lá e falsificava. Era isso, . Aí o que aconteceu, eu tinha uma prova de história, como eu te falei, eu gosto de história, e era a professora Glória, eu me lembro dela, era apaixonada por mim e eu por ela. E eu já tinha dez, já tinha fechado, terceiro bimestre já tinha fechado. Certo, trinta pontos, beleza Quer dizer o quê, se eu tirasse zero no quarto, mas não era isso que eu queria no meu boletim de história Porém, a tentação... Vamos numa festa no quartel. No quartel não sei aonde. Eu falei “ah não, quartel, não, meu pai...” Lá é que tá a onda. Mas é num quartel aqui em Osasco, ai, eu não lembro. Bom. Ah não, é rapidinho tem uns... ai como chamavam? Tem uns soldados, “reco”, né? Ai, umas gracinhas. Tipo pracinhas, que falavam. Ah vamos lá, mas só que eu tenho que voltar dez horas pra fazer a prova de história, eu só vou nessa condição. Fui. Só soldado, a empolgação, e a gente tinha que subir a Antonio Agu inteirinha. Nada. Quando eu chego, meio-dia. Minha irmã do meio estudava lá, que aconteceu? Lógico que todo mundo comentou que eu não estava na escola. A minha irmã do meio veio: “É, e aí como é que você foi na prova?”. Falei: “Bem”, “Bem? Bem como? Só se você fez ela por telepatia”. Aí eu percebi que ela sabia, daí eu fiquei quieta. O que ela fez? Contou para a minha mãe. Zerão, né, zero, porque eu perdi a prova, não tinha como. Choquei, decepcionei a professora que era minha fã e eu dela, óbvio. Foi a primeira pessoa com quem conversei depois. Aí minha mãe veio, só que minha mãe não era de bater assim, surra. Dava tapa, beliscões, essas coisas assim. Aí a minha irmã toda cheia da razão, e sempre colocando a turma dela como a elitizada, e a minha turma da baderna. Me perturbou, peguei as minhas coisas. Olha só, peguei meus cadernos, meu uniforme, ó o detalhe, olha que fuga interessante. Uniforme e lá fui para a casa de uma amiga minha no Jardim de Abreu. Dormi lá, pra voltar pra a escola no dia seguinte, olha a idéia Voltar de manhã. Aí fui, só que eu não avisei ninguém, nada que ia dormir fora essa noite. No dia seguinte, sete horas da manhã. Misericórdia, todas as alunas para fora, na rua, mil e tantos alunos lá fora. E minha mãe desesperada. Tô subindo. Porque o ônibus não deixava a gente lá em cima, o percurso dele não subia, então você tinha que descer lá embaixo, pra subir a pé. E eu estou subindo, conversando com uma amiga numa boa. Dormi, estava tranqüila. Frustrei minha mãe, ela quis morrer nesse dia, por quê? Subi rindo, literalmente estava rindo, brincando, e ela passa com uma amiga e me vê rindo. Ah, essa mulher chorou demais. Foi um baque pra ela, né. Eu estava feliz, e ela... e meu pai não sabia que eu tinha fugido. Isso eu tinha 12, 13 anos. Aí foi, passou minha mãe não contou para o meu pai, voltei numa boa. A Madre Superiora me chamou, me fez ir lá, rezar Salve Rainha. De joelho, ficar lá uma hora, e fazer lá num sei o quê umas penitências direitinho, com terço, com tudo que eu tinha direito. Que me deram o direito, né? E aí foi. Depois aos 15 anos novamente, eu saí. A minha juventude, nessa idade, o que é que eu tinha, eu tinha raiva - é eu era meio rebelde mesmo - da postura das professoras e das irmãs, entendeu, eu não gostava de imposição. Eu não sei se é por tanta imposição do meu pai, tanta coisa, que eu queria fugir daquela coisa. Eu queria fazer as minhas [coisas] ... por mim mesma. E eu não estava agredindo ninguém, porque eu não fazia mal. Mas eu queria me divertir, eu queria rir. Naquela época tinha muitos hippies, na porta da escola, fazendo aqueles brincos ali na tua frente, com feltro, eles punham aqueles panos de feltro, aquelas roupas bem... aqueles jeans sujos, aqueles cabelos imensos. Nossa, as irmãs detestavam, eu achava fantástico a maneira deles viverem, por [causa da] liberdade, né? Então, assim, eu acho que me rebelava por isso, eu queria fumar. Era assim, as pessoas confiavam muito no que eu fazia. Então eu descobri que na lanchonete, eu fiz o dono da lanchonete colocar um espelho na parede, onde eu ficasse desse lado nesse corredor, eu olhando nesse espelho eu via o portão da escola abrir. Então, eu tinha esse controle, eu ficava, meu posto era ali. Eu ficava olhando assim, eu: “sujo”. Aí eles tinham uma porta lá dentro, ah, corria todo mundo lá pra dentro, tinha um fundinho, um banheiro, subia por cima da privada, as irmãs entravam, não viam os pés da gente. Um dia eu fui parar dentro do congelador, do freezer, não deu tempo, eu ‘tava olhando, o portão abriu, quando o portão abriu eu não vi a irmã sair, aí nós continuamos lá. Aí estamos lá, daqui a pouco o dono ‘tá bem na porta e fala: “hum” e faz assim. Quando ele faz assim uma turma abaixou. E aquela lanchonete com aqueles negócios rotatórios, aqueles banquinhos. Ah não deu outra, eu só fui engatinhando assim, primeiro lugar que eu vi, abri o freezer e entrei. Gente olha, foi assim cômico, hilário, hilário, mesmo. Porque eu sempre tive problema de bexiga (risos), não podia rir demais porque eu me urinava toda. Então era cômico o pessoal querer me ver rir bastante. Entramos, ‘tô ali dentro e o Toninho atendendo a irmã, e a irmã falando assim, “eu sei que elas estão aí dentro”, e não sei o que, aí ele, “pode entrar, onde é que eu vou esconder, embaixo do estrado, na geladeira, onde é que eu vou esconder?”. Que vergonha, duas na geladeira, eu e outra. Pegaram duas ali dentro. Mas nada. Eram essas coisas que eu fazia, eu questionava muito. Então, eu fiz magistério porque era o que o Misericórdia oferecia, Magistério era a opção dele. Ele não tinha o terceiro colegial, não era assim. Então, tanto é que minhas irmãs saíram do terceiro, uma foi fazer o Fernão Dias, o terceiro ano, a outra foi para o Zuleica. Eu permaneci lá, primeiro porque eu gostava de dar aula. Eu gostava de criança, a área que eu queria era Direito, Letras, Psicologia, ‘tá, eram as áreas que eu queria. Então a escola estava me conduzindo para aquilo, então não havia necessidade de eu sair dali. E ali, de certa forma, a minha mãe achava que era uma escola que me acomodava, me deixava mais calminha. Porque, de uma forma ou de outra, existia uma imposição. Tinha umas regras muito mais rígidas a serem cumpridas, e aí eu fiquei no Magistério. Tanto é que eu saí de lá e fui direto pra faculdade. FACULDADE Eu fiz, eu tinha 17, 18 anos quando eu saí do Misericórdia. Porque eu fiz o quarto ano em 76, foi quando eu comecei a namorar com meu marido até. Eu poderia ter feito o terceiro colegial e saído, mas não. Aí eu quis fazer o quarto... É, e minha mãe também fez lá. Aí fiz e meu pai naquela época dizia que não queria ninguém fazendo Direito, porque na família já tinha muitos advogados. Só que eu queria Direito, então eu fiz Direito escondido, eu fiz vestibular escondido. Eu não fiz, eu tinha uma crise muito grande por causa de grana, pagar cursinho. A minha irmã mais velha e a outra, tanto uma como a outra queriam Medicina, mas o Objetivo que elas fizeram naquela época, caríssimo. E aí não entraram no vestibular, meu pai começou com uma represália muito grande, e eu assistindo aquilo, começou a me incomodar. Tanto é que a minha irmã, a que fez Odonto, foi a segunda opção dela, quem a ajudou em todo o curso dela, livros que eram caros, foi a minha irmã mais velha que começou a trabalhar. Ela começou a trabalhar na Vimave, uma empresa do Silvio Santos, lá no Itaim. E ela com a grana, ela que pagava cigarro pra minha irmã, livro e tudo mais. Aí o quê que eu fiz, eu com 16 anos, 17 anos comecei a trabalhar na Pais e Filhos. Minha mãe começou [ e depois] trabalhava lá. uma escola, no Parque Continental, aqui em Osasco, metade Osasco, metade São Paulo. Minha mãe trabalhava lá, na pré-escola, e aí me indicou porque eu precisava fazer estágio como Magistério, só que em vez de estagiária eu fui registrada como auxiliar de classe, mas eu era titular, eu assumi a classe. Aí fiquei lá, já ‘tô na minha área. Só que eu não queria Pedagogia, como até hoje, sempre relutei, tentei fazer, sabe? Tentei fazer, eu fiz quase um ano, Psico-pedagogia. Não foi minha praia, não foi minha praia mesmo. Na Unifieo mesmo, não gostei. Tentei fazer um pouco de Pedagogia também, não gostei, sabe, não era minha praia. Essa parte teórica eu já tinha esse conhecimento, eu já tinha muita prática. Então me chocava muito eu ficar sentada ali, e tudo que eu falava... A professora usava para dar aula do meu trabalho. Então eu não precisava daquilo mais, eu precisava de outros tipos de reciclagem. E aquele diploma também não ia me fazer falta. Aí eu fiz Direito e entrei, na primeira lista não. Escondi, meu pai não sabia, só sabia o meu marido, na época meu namorado, e minha mãe. Minha mãe que pagou a inscrição. Aí não entrei na primeira lista, falei “Bom, como que eu ia ter a pretensão de entrar no vestibular se eu nunca vi matemática na minha vida, e nem física, nem química”? Magistério, matemática que eu aprendi foi aplicado para o infantil, para o primário. Aí pronto, estou dando aula, falei, “Vou dobrar período, trabalhar dois períodos, porque assim eu tenho dinheiro suficiente pra bancar o meu cursinho, não preciso que ele me pague nada”. Aí foi, de repente, dando uma aula, ligaram lá pro meu trabalho dizendo que uma moça havia desistido; lembro no nome dela, Vera Lúcia, e meu nome subiu, se eu ia fazer mesmo, eu tinha dois dias de prazo. E eu fui, fiz a inscrição. E aí de repente me reverteu tudo, que o meu pai foi uma das pessoas que curtiu o meu trabalho lá. Porque assim, eu entrei no primeiro ano, final do primeiro ano eu casei, casei em 78. Final do primeiro ano eu tive filho. Entrei na faculdade, casei, e no final do ano eu tive filho. Então eu casei, depois de três meses eu engravidei, então foi tudo muito rápido. E o que aconteceu, eu fui tendo filho, fazendo faculdade, trabalhando no Bradesco, . Foi uma coisa muito complicada. Depois não. Mas sim, a princípio... O problema do meu pai era o social, sabe? Estar com homens, envolvidas em ambiente de muita gente. Ele sempre quis assim, não só poupar ou se limitar. Não sei se ele não queria se expor, com medo da gente expô-lo. Não sei o que era, mas ele sempre teve ressalvas, sempre. BRADESCO [entrei fazendo] Concurso. Não. Não era minha opção. Foi minha mãe. Minha mãe tinha uma amiga baiana, que tinha vindo recentemente de Salvador. E ela trabalhava aqui na Fundação Bradesco. O marido dela também. E assim, minha mãe com a amizade com ela, a minha irmã caçula estudava com a filha dela, na mesma sala, se davam muito bem, e ela morava perto de casa. E eu dando aula na Pais e Filhos, minha mãe pega uma ficha com ela, e preenche no meu nome (risos). Preenche... Preenche essa ficha. É cômico por quê? Porque assim, eu não imaginava. Porque de repente... Eu havia casado em 78. Eu tava lá no salão, juntei um dinheiro e fui inventar de fazer bigudinho, meu cabelo tava curtinho e eu fui fazer bigudinho, uma fortuna. E num salão dez no Parque Continental. A vaidade vai lá fazer bigudinho. Tô lá fazendo o bigudinho aí ligaram. Minha mãe sabia que eu estava no salão, porque eu já tinha guardado o dinheiro fazia tempo, para fazer isso. Aí estou lá eu no salão a minha mãe liga. Aí vem, mó mico mesmo, porque falam em auto-falante, igual supermercado, sabe? A cliente fulana de tal, a sua mãe, falei, “ai meu Deus, não acredito”. Eu com aqueles negócios no cabelo, e minha mãe me chamando, me pedindo recado pelo auto-falante. Que eu não deveria. Olha, me dando bronca no alto-falante, na frente de todo mundo. Eu já adulta, achava que era, pelo menos. Aí ela pega e fala que eu não devia estar lá, que o meu concurso, a minha prova, já estava acontecendo, que eu tinha um compromisso. Ela tinha comentado, mas eu não guardei, não era tão meu interesse então eu não guardei data, não guardei horário. Sabia que estava para acontecer, então não foi relapso, entendeu. Foi um concurso para professor, só que eu não sabia data, não fixei. Não guardei mesmo. Não sabia o horário nem nada, sabia que estava próximo, mas não guardei aquilo para mim. Aí bom, tá bom. Ah você tem que ir porque eu assumi esse compromisso, ela arrumou essa fixa, não é assim que funciona. Tudo bem, fui. Só que do Parque Continental até aqui [Cidade Deus] não tem ônibus. Dia de semana, não tinha ônibus. Aí o que que você faz, a pé. Agora você imagina o que eu tinha feito do cabelo. Olha, gente... Foi muito triste, muito triste. Aquele cabelo, desmanchando, desmanchando. E eu aqui subindo num furor muito grande, eu lembrando dos vinténs, mas tudo bem. E minha mãe falando no alto-falante, aquela coisa toda. E eu andando, andando, andando, nem sabia onde que eu tinha que entrar, não sabia nada. Aí essas portas que tem a janela. As salas de aula, eu entrando, “Ah é por ali, é por ali”. Eu entrando em todas. Bati na porta, várias pessoas em pé. As moças sentadas, várias moças. Gente mais velha, mais nova, tudo. Aí eu olhei: "Você não pode entrar, porque é psico-teste e é por tempo, é cronometrado". Eu falei, “Ah então eu vou embora, perdi já, tô desclassificada, psico-teste”. Aí virei, aí me vem uma e me segura o braço, irmã do Mário Prata, a Ruth, psicóloga. Ela olha pra mim, “Não, você não vai embora, você é...”, falei “Ocyara”, “Ah então, só falta você mesmo, você vai aguardar, que quando terminar aí, nós vamos fazer com você sozinha esse exame”. Ah tá. Ela era psicóloga e tinha uma fono junto. Lá fora, tá. Só que é desagradável igual vestibular. Cinco minutos, quatro minutos, é aquilo, sabe? Então elas marcaram, pegaram o relógio e puseram. “Olha, nós vamos marcar um tempo para você, e nós vamos dizer pra você, conforme você for fazendo, quanto tempo falta pra você”. Eu falei, “ah, não vai dar certo, isso não combina comigo”. “Não, mais tenta, olha a gente não vai te pressionar”. Aí já me dá suador, ficar lembrando. Mas sabe de uma coisa, primeira pessoa que eu pensei: Pelé. Eu vou ler e vou é chutar, que eu vou pensar, eu vou entregar antes de ela chegar para mim e falar que encerrou o tempo. E foi o que eu fiz. (risos). Ela falava, “Não, você tem tempo”. Eu falava, não, não tenho mais tempo, eu não tenho mais o que preencher aqui. Eu olhava e respondia, mas foi muito rápido. era uma coisa rara ter concurso. Rara e não era aberto assim. Essas fichas, não era todo mundo que tinha esse acesso. Eram sessenta candidatas e duas vagas. Era uma coisa assim. Bom, o que aconteceu. Eles tinham, eu lembro que tinha três meninas que tinham estudado comigo. Mas uma delas, o pai era piloto de Seu Amador Aguiar. Então você percebe que esse acesso não era para todas as pessoas que tinha essa informação. Muita gente nem ficava sabendo. Sabia depois. Olha, eu entrei. Mas como? Ai, eu recebi. Eu nunca vi. Não tinha né. Justamente pela preocupação da minha mãe, que eu corri mesmo. Aí eu sei que eu fiz o psico-teste, depois eu fui e fiz o escrito. Tinha uma redação. Eu lembro que uma amiga minha não sabia responder. Aí foi constrangedor porque ela sentou atrás de mim. Olha, vestibular já me fizeram isso. E ela me cutucando. Olha, aquele dia foi tudo errado mesmo, viu. É que era Deus e a providência era pra eu estar aqui mesmo, e ficar todo esse tempo. Ela chegou pra mim e falou, ela queria que eu mostrasse. Ela me cutucou, aí eu peguei, ela cutucou, mas eu não percebi que era cola que ela queria. Eu olhei, mas aí eu fui chamada a atenção, advertida pela fonoaudióloga, era a Sandra. Aí eu fiquei, postura, filha de militar. Encolhi a barriga e fiquei quietinha, dura. Aí ela chegou, fez, fingiu que caiu alguma coisa, “é, tá pensando o quê, pode não deixar eu ver, a vaga já é minha mesmo”. Tinha umas questões que você tinha que estar respondendo. Redação eu lembro, “as mãos”, “com as minhas mãos”. Olha, foi fantástico. Eu adoro escrever. Eu tenho uma facilidade muito grande. Quando me jogaram lá no (Cenearte), uma escola que eu também estudei pouco tempo. Me deram uma crônica, que eu tinha que fazer uma crônica. Nunca tinha feito, não sabia como que era. Também ganhei.Com dez anos eu ganhei o concurso de aves. Então eu falei assim ó, aves, mãos, é tudo pra mim, crônica, pode mandar. Na hora que eu vi o texto, eu me identifiquei muito. E fluiu legal mesmo. Foi o que eu falei pra minha mãe, não sei as respostas, psico-teste, Pelé que me ajudou. Algumas coisas eram óbvias, no começo. Mas quando elas começaram, tempo, mandei bola. Mas eu digo assim, para gente a ansiedade dá por que você está sendo avaliado, naquele momento eu tinha que fazer de mim. Eu não conhecia a estrutura da Fundação Bradesco. Nós sabíamos assim, que era uma potência, . Uma escola de renome mesmo. Mas eu não conhecia ninguém. Não tinha acesso a ninguém. Eu tinha assim, meu tio veio de Salvador, irmão da minha mãe, morou em casa para trabalhar aqui, fazer estágio, depois trabalhar aqui na Cidade de Deus como bancário. depois ele foi crescendo, crescendo depois foi para o Banco do Brasil, para o Banco Central. Mas foi aqui que começou a história dele. A história do meu tio que tem hoje, assim, um patrimônio e uma vida equilibrada, e estável. Bradesco que deu aqui em São Paulo. Então é isso que eu sabia. Mas assim de escola, nunca, nunca tive contato com ninguém. Então pra mim, foi um compromisso que eu assumi com a minha mãe, uma responsabilidade com ela. E de mudar, eu não podia falar, ai que interesse que eu tenho? Ai, eu quero trabalhar lá. Eu estava na escola. As crianças, o que eu fazia? Eu estava num momento que eu gostava da classe que eu estava. As crianças saiam dali e não tinha primeira série lá, é até pré e terminava. Então muitos saíam de lá e vinham pra Fundação porque os pais eram funcionários. Então o sonho deles e da escola, da pré-escola nossa, era formar nossos bons alunos para entrar, porque eles faziam prova naquela época. Tinham prova. Aqui na Fundação não, mas nas outras escolas, ITO, o que fosse, tinha um teste que faziam para avaliar. A Fundação não fazia, não precisava fazer, mas em compensação tinha que ser funcionário, e era considerada a melhor escola. Então era um must estudar aqui. Só que eu não imaginava a intensidade de ser professora aqui. Eu achava assim uma coisa, um muro imenso. E quando eu fui chamada eu lembro que foram 20 ou 25 primeiras classificadas. Aí teve entrevista. A última coisa que eu fiz. A penúltima foi entrevista coletiva, como eu estou com vocês, eu aqui e várias pessoas na minha frente, era uma bateria de perguntas. Foi muito difícil. Muito complicado. A pior parte pra mim foi essa, por quê? Porque da mesma forma, mas isso especialistas, psicólogos, fono. Então um perguntava, e eles eram tão perspicazes que eu lembro que eu saí péssima esse dia. Esse me perguntava uma coisa, nesse mesmo instante aquele pegava a pergunta ou a resposta, fazia um jogo. Mas então você disse isso agora, então você não percebe... Não mas você... Era uma coisa... Não era essa coisa, dão uma pausa para eu refletir aqui, olhar para ele. Eu não tinha, eu não tinha controle. Então aquilo me deixava, meio assim, sabe, meio zonza. Tanto é que eu fiz amizade com um depois. Me tornei uma grande amiga desse pessoal. Porque eu realmente acho passei por um teste maravilhoso, porque eu me considero uma heroína. Porque me marcou muito. O psicólogo era o Sérgio. E ele era bem claro, tipo albino. Com manchas até. e ele foi o que mais me torturou mesmo. Mas me torturou. acho que tinha umas cinco. eu me tornei amiga da Ruth que veio trabalhar comigo. Da Sandra também. O Sérgio ficou na Unidade I, na parte de cima. E a Sandra e a Ruth foram trabalhar no meu prédio, então a gente criou muitos vínculos. Principalmente... Elas adoraram muito a minha redação e a minha fala. E isso foi se aproximando. A Ruth se aproximou primeiro, conforme foi aparecendo lá na lista, ficava afixado no corredor da escola. Eu fui dar aula no prédio da pré-escola. Porque a vaga era um para a pré-escola. Uma vaga para a pré-escola e uma vaga para a primeira série. São desvinculados os prédios. Da Cidade de Deus, só que um prédio lá, e outro prédio. E o da pré-escola era um prédio assim, que a gente chama Pré-Cristo. Tem um símbolo do Cristo. E ele era próprio para pré-escola. Só funcionava pré-escola. Lindo, maravilhoso, acho que foi a parte mais feliz, momentos mais felizes que eu passei mesmo aqui, foi nesse prédio. inclusive nessa ficha que ela preencheu, vale até lembrar que é legal. Tinha que colocar assim, minha opção: “primeira e pré-escola” ela queria que eu colocasse, pois se eu não conseguisse. Ela pensou assim, de repente os pontos que eu fizer deu pra... Não deu para pré, mas deu pra primeira, ela pensava assim, minha mãe. Então ela queria que eu pusesse primeira e pré. Eu falei não, pré, pré. Ou é pré ou é pré, se não for pré, eu não quero. E foi o que aconteceu. Foi a única exigência minha, pus pré, pré. Aí foi indo, foi indo, de repente. Ficamos para a final quem? Eu e uma amiga da minha mãe, a que pediu cola. Então assim, a gente tem um vínculo legal. Outras amigas minhas também cruzei com elas, uma dá aula no Albert Sabin. Eu tive com ela recentemente. Mas assim, foi classificada, mas não chamada. Ficou um tempo. Que nem todo mundo, aqui, para trabalhar na Fundação você tem que estar disponível mesmo. Com horário, com tudo. E aí ficou meu nome, aí eu entrei. A última entrevista foi com a Dona Regina. Que foi a nossa, a minha primeira diretora, uma pessoa estilo meu pai. Rígida, vozeirão. Falou alguma coisa, ela dava. Você tremia só de passar perto dela. Ela tinha um musculão assim, sabe? Sabe Araci de Almeida? Estilo do físico, biotipo, igualzinha. E brava mesmo. Mas um coração, que nossa... Amava isso aqui, ama, acredito eu até hoje. E eu fui entrevistada. Aí já tremi nas bases, porque eu e ela só. E o pessoal... Já tinha encontrado com algumas pessoas já tinha falado, que se eu passe por ela a porta estava aberta mesmo. Aí eu falei, então agora não vai dar mais. Até aqui beleza, a minha mãe foi riscando, agora minha mãe não vai ver mais meu nome. E não, aí pronto, ficamos nós duas. Fui chamada e pré. ela perguntou de escola, parte pedagógica. Meus objetivos como profissional. Minhas colocações perante crianças com dificuldades. Mediante alguma... A escola se de repente me propõem alguma coisa inovada, qual o meu olhar para isso. A minha pré-disposição. Alunos com problema, qual seria a minha reação. A minha relação com os pais. . Como eu me vejo. Aí eram essas perguntas mais voltadas para a parte pedagógica e até o meu lado emocional. Com as crianças mesmo. Aí comecei, fui registrada, normal, 79. 14 de março de 79 foi a minha admissão aqui. Na época eu fazia Direito. Aí eu trabalhei meio período. Hoje, atualmente, a cinco, seis anos, eu dobro o período, mas naquela época não. Então quando eu terminei Direito em 82, o que aconteceu? Eu fazia estágio, não tinha... Você faz faculdade, mas você não tem nenhuma experiência, nenhuma bagagem. Você faz estágio, mas os estágios que você faz são de várias áreas, cíveis, criminais e trabalhistas. Mais você faz trabalhista, por quê? Porque é mais rápido e você preenche logo a carga horária, não é? A cível e a criminal demora muito. Então o quê que aconteceu, eu fui querer fazer algumas coisas. Então quando eu chegava do Bradesco. Eu trabalhava até meio-dia. Aí eu chegava em casa e ia para o Fórum. Aí logicamente eu não podia usar calça comprida. Eu tinha que me travesti de mulher mesmo, usar salto, saia. Então, era diferente. Aí eu chegava mais tarde. O meu marido não gostava muito dessa idéia. A gente teve alguns atritos em termos das minhas saídas, eu convivia com os homens, como advogada, sair e deixar filho. Eu continuei estudando Direito, porque assim. Eu pensei não só temporário, eu pensei assim, que era uma coisa que eu gostava e sempre gostei. Mas por outro lado eu sempre gostei muito de justiça, coerência, dá para ver pela minha trajetória, por tudo. Não que eu tenha me considerado vítima. Mas eu acho que as coisas que aconteceram tudo... Não dá para ser defendido. de repente eu pensei sim, pensei em estar largando o magistério. Pensei sim, pensei em estar largando o magistério. Dei uma, realmente dei uma guinada após o fato de eu ter sido mãe, de optar por ser mãe. Porque aí eu quis criar, eu não quis deixar a minha mãe tomar conta. Tanto a minha mãe quanto a minha sogra moravam perto. Então, quer dizer o que eles viviam, meu pai e minha mãe, constantemente. Meus filhos viam mais os meus pais do que a mim mesma, meu pai principalmente. Meu pai absorveu muito. Meu pai pegava meu filho, levava para o Jóquei e ficava com ele o dia inteiro. E minha sogra também morava perto. Então quer dizer, eu falei: “Não, eu quero o meu jeito”. Deixa eu errar, né? E saiam, e deixa eu errar sozinha. Tive brigas com a minha mãe em função disso. Eu dizia para ela que ela já teve a oportunidade de criar as filhas dela, agora eu queria eu criar. Mas só que pra eu fazer isso eu tinha que estar disponível, . O que que aconteceu? Eu ia para o Fórum, eu ia para o Largo São Francisco, um trânsito terrível sempre em São Paulo. E para audiência, é uma atrás da outra, e demorada. O que que acontecia? Chegava tarde. Não tinha condições. Marido começou a ficar emburrado sim. Daí eu digo hoje não foi só por ele, foi minha primeira opção: mãe. Eu queria criar os meus filhos. Eles começaram no Bradesco. Caderno, eu sou extremamente organizada e exigente. Eu gosto de lição impecável, tá? Sou uma professora assim mesmo. Sou mãe, professora, esposa, igualzinho, mesmo jeito. E aí eu queria que os meus filhos acompanhassem a escola. Então, se tem pesquisa, vamos fazer pesquisa, aquela de sentar juntos, vamos entender. E aí foi. Só que me sugava também. Aí fui deixando, você entendeu? Fui deixando, e me envolvendo cada vez mais. Primeiro que os retornos que eu estava recebendo da Fundação, não da empresa eu digo da clientela, tá? Eu tenho pais que são amigos meus até hoje, . Eu tenho um vínculo muito forte com eles. Eu dava aula na pré-escola para crianças até idade 6 anos. eu fiquei sete anos dando até 6 anos. Aí eu fui para 5 anos. Eu fiquei sete anos no pré II, e sete anos na primeira, no pré I. FUNDAÇÃO BRADESCO Imagem eu tinha um respeito. Nossa, parecia que eu tinha uma, uma não, dez mil estrelas. Achavam meu salário, minhas amigas que estudaram comigo no Misericórdia, que estavam dando aula no Estado, na Prefeitura, lá de Carapicuíba, seja lá onde que fosse. Nossa Me chamava de marajoara, era de tudo que vocês podem imaginar, de tapete vermelho. Tinha... Não precisava nem inflar. Eu punha e falava Fundação Bradesco. Até hoje eu sinto isso. Proporcionalmente. Eu ia até trazer a minha carteira de trabalho, e acabei esquecendo, mas olha. Quando eu saí da Pais e Filhos, só para dar uma idéia, pra fazer um cálculo. Quando eu saí da Pais e Filhos eu acho que eu recebia 600, 700 e tantos Reais, Cruzeiros vamos dizer assim. Eu entrei aqui, o meu primeiro salário foi 6 mil, 3 mil, alguma coisa. Olha, deu assim, deu uma diferença. A particular, eu tenho... Triplicou, quadruplicou, não sei, não sei, não tem nem pra dimensionar. Não dá, não dá, porque eu posso estar até pecando, mas houve uma diferença brutal e era assim no início. Eu entrei com, vamos dizer, em março eu tava ganhando tanto. Chegava em abril tinha uma correção. Mas uma correção já, né? Então chegava em maio, tinha o aumento do salário, né, por lei, aquilo ia. Primeiro que eu não queria ter empregada, o meu marido não suporta. Ele é italiano, então a família dele não gosta de gente estranha em casa. E não havia necessidade mesmo, nós dois. Mas eu podia me dar ao luxo de pagar uma empregada trabalhando meio período. Olha, e eu me dei o luxo de ter. Por quê? Porque meus filhos são todos prematuros, meu mais velho é de seis meses e meio, então tudo complicado. Bom, aleguei o quê? Estava grávida do segundo preciso realmente de alguém. Comecei já com princípio de aborto com dois meses, então já fui controlando aí. Aí veio, eu tinha condições de pagar a empregada. Sabe, assim, era um salário que eu pagava muito bem, como se eu tivesse no Alto de Pinheiros pagando como uma funcionária. FUNDAÇÃO BRADESCO Disciplina A disciplina da escola era rígida. Até hoje. O perfil da nossa escola, eu falo nossa porque eu realmente já faço parte, né? Na época era mais, né. A Regina, né. A Regina ela era mais ainda do que hoje é. Mas as nossas regras permanecem as mesmas. Uma maneira de como você as cobra, né? De como você fica ali cerceando, né, controlando, ou permitindo. Na época da Regina não havia essa, nenhuma permissividade. Não havia mesmo. Cabelo, barba, nem pensar. Cabelo era rente, rente, aparecendo pescoço mesmo do homem, pezinho tudo bonitinho, tá. Moças... Isso para os funcionários e alunos Professor teve uma época que não podia usar jeans. Tênis não podia usar, né? Era totalmente exigente mesmo. Postura era uma postura, assim, vamos dizer, tradicional, tá? Aluno uniforme camiseta para dentro da calça, blusão. Olha, engomadinhos eles eram perfeitos mesmo. Para entrar aqui na Cidade de Deus, ele não entraria com a barba. Cabelo cumprido, meu marido veio, porque a irmã dele trabalhava aqui, ele não era nem meu marido aquela época. Ele tinha um Jipe, de cabelão cumprido, hippie. Não deixaram entrar. Ele tinha cabelo cumprido, barba, tudo emendado, né, aquelas coisas bem Jesus Cristo. Não, de jeito nenhum. E eu peguei a época já um pouquinho já... barba cerradinha tudo bem, mas cabelo até hoje. Isso tudo... essa disciplina, regras... Sinceramente não é o meu carro chefe, como eu falo para minha mãe. Não é o meu carro chefe. Meu carro chefe ainda sou eu mesma, pelo que eu faço. Mas eu digo assim, eu gosto de disciplina, eu gosto de ordem. Isso eu aprendi mesmo. Mas assim, não aquela coisa padronizada, você entendeu? Eu gosto de respeito. Então não importa se você está mal vestido, mas eu gosto de educação. Então, eu prezo por educação. Não é aquela coisa de sentar, não. É eu estar te olhando e você estar ouvindo, e olhando para mim, não é aquela coisa desleixada, displicente, . Então eu acho que é uma questão de educação, respeito, né? A ordem sim, tudo bonitinho, alinhadinho, eu aprendi muito com meu pai em termos de regime militar, e de repente eu fui para uma instituição que permaneceu. Então isso eu sei fazer, você quer que eu faça, perfeito eu faço. E exijo. FUNDAÇÃO BRADESCO Comemorações A nossa escola, ela sempre foi um foco, até hoje, de chamariz para propaganda, para marketing, para tudo. Eu faço parte de vários filmes aí, de recortes, por causa dessas crianças. eles iam sempre filmar no Pré-Cristo, é um lugar maravilhoso mesmo. E a Ação de Graças, naquela época, aquela coisa de disciplina, eles ficavam num campão, não sei se vocês viram ali embaixo, então era num gramadão. As crianças desciam, tinha assim, o nosso papel, nós inseríamos um programa, então no momento que a acriança tinha que falar alguma coisa, uma parte de uma oração, e nós ensaiávamos, não é? Então era uma coisa pequena, a apresentação das crianças era uma coisa pequena. Geralmente era pra chacoalhar alguma coisa, formar alguma coisa, não é, que do alto, da visão vertical, você via alguma coisa escrita, alguma cena. Então, ou era por cor, então vamos supor, a minha classe podia ser a verde, a da minha amiga era amarela, e assim montamos bandeira do Brasil, montamos arco-íris, com guarda-chuva, e nós ganhávamos toda a parafernália. Era uma coisa montada. Vinha com coreógrafo, vinha com tudo, era uma coisa, era uma coisa, assim, superproduzida mesmo. Tinha artistas demais, tinha assim... Olha, era uma coisa tão produzida que tinha assim, tipo, rostos que poderiam, fotogênicos, então, o seu ângulo, o dela, esse não, aquele sim, . Coisas de miscigenação de raças, mesmo: “eu quero um negro, eu quero um japonês, eu quero um loiro, quero um...”. Sabe, era uma coisa totalmente produzida. Enquanto era no campão, beleza. E era uma coisa inédita, gente, porque até dez para o meio-dia, o tempo fechado, quando dava meio dia, que era hora de apresentar, abria o sol. É mito que tem aqui, mas eu vivi...Eu vivi. Era verdade, mesmo, tanto é que muitas coreografias eram montadas com guarda-chuva, não só porque ficava bonito, mas porque ia ser necessário. E o seu Amador Aguiar, que eu falo assim, de tudo que eu vivi aqui, são duas pessoas que eu tiro meu chapéu até hoje, a Dona Regina, e Seu Amador Aguiar. Gente, era uma, foi uma pessoa assim, que nesses encontros de Ação de Graças, esse homem, ele passava por todas as crianças. Primeiro ele ia lá no nosso prédio, pegava na mão de todas as crianças, beijava, passava a mão na cabeça e algum carinho, alguma fala, ele dirigia a nós. Para nós professoras, Nossa Senhora Se ele pudesse, ele punha um tapete de diamantes e abraçava e descia. Porque, bom, que a menina dos olhos dele era a Fundação Bradesco. Ele dizia assim, que isso era um sacerdócio, que ele admirava, que se ele pudesse, o mundo seria só de escolas. E era uma coisa pra nós, porque ele amava, ele acreditava naquilo, ele não achava só bonito o nosso trabalho, ele acreditava no trabalho. A Ação de Graças, quando passou a ser no ginásio, aí foi difícil, gente, que aí foi a parafernália de televisão, não era uma coisa natural, era uma coisa que não tinha mais o cenário natureza, era palco, então era, era aquelas tomadas que vocês já estão acostumadas, acostumados. Você faz aquela parafernália para tirar um minutinho só daquilo. Então você imagina que as crianças ficavam aqui até uma, duas horas da manhã. Então isso, isso, essa época foi... Os pais não reclamavam, em geral eram funcionários do banco. Nossa, foi muito difícil Essa época foi a pior, tanto é que depois disso foi, foram, foi suspenso. Mais ou menos década de 90, foi. Nossa, mas foi, era, gente, era difícil demais, aquele, aquelas, aquela instrumentalização, aqueles focos, um calor danado, nós não temos acústica naquele, naquele ginásio, calor demais, muitos alunos, sabe? Fala, o som era ruim, os pais clamando, polícia. Nossa, foi aí que foi esvaindo, sabe, foi indo, foi indo. Hoje a nossa Ação de Graças, nós, enquanto professoras, não sei como funciona os, em outros departamentos, mas nós professoras fazemos na sala, nós comunicamos todo ano, na penúltima quinta-feira do mês de novembro. A gente faz uma, oito horas a gente combina, então oito horas todas, como se fosse uma corrente, todos nós paramos e fazemos uma oração, mas cada uma na sua sala. um desses eventos que foi especial para a turma, quando Toquinho tocou: “Numa folha qualquer eu desenho um sol...”.[Aquarela.] Ah, essa daí foi lindo, foi lindo, lindo Além do artista, foi emocionante. Nossa, foi para ficar, ficar na história E aquela, “Amigo é coisa...”, também, do Milton Nascimento. Foram dois momentos, pra gente, professor, as músicas e a participação dos alunos, gente, eles são os protagonistas da nossa história. E eles eram 10 e são 10, porque você põe, ele fica, você pede, ele faz. Ele pode demorar, se rebelar, mas faz (risos) FUNDAÇÃO BRADESCO Primeiro dia de trabalho Eu não fui bem aceita a princípio. Não, porque eu era novinha e as pessoas já tinham conquistado espaço. Então eu tive problemas de adaptação. Quem foi minha amiga foi Dona Regina. Ela que meu deu uma força muito grande, ela acreditou no meu trabalho. É, eu agradeço a Deus mesmo, porque eu tenho um carisma que acabei cativando algumas pessoas, algumas pessoas que foram importantes pra eu continuar aqui, que eu tive vontade sim. Existe muita competência em todos os, é, aliás, competição em muitos lugares, a gente sabe disso. As pessoas são competentes, mas elas vêem alguém entrar, se sentem ameaçadas, e elas não sabem lidar com isso, elas não sabem se aproximar. Eu, eu penso diferente, eu me aproximo das pessoas que chegam e dou pra elas o melhor, entendeu, e fico mano a mano, mas eu não sinto, não me sinto desafiada. E eu fui, eu provoquei, eu provoquei muito. Eu era nova, eu era tempestuosa, como pela minha história você sabe, eu gosto das coisas diferentes, não gosto das coisas regradinhas. Eu gosto da educação, olha como são as coisas, e a escola me ensinou assim a manter isso, mas a minha classe, eu mantenho eles na, mantenho eles brincando com sucata, o que for, mas numa disciplina, numa ordem. Na minha ordem, que eu posso dominar e controlar. Então isso eu tinha, e o pessoal não via dessa forma, o pessoal já era mais tradicional, eu era mais liberal, minha classe sempre... As atividades pedagógicas, e a minha pessoa, como eu conquistava. E eu acreditava e acredito que a maneira de educar é diferente, a minha e a delas. Eu gosto muito de pele, tato, colo, . Aproximação... isso não tinha Aí foi difícil, porque achavam que a minha classe era bagunceira, entendeu, era rebu. Aí chamavam uma orientadora para entrar na minha sala, aí de repente minha sala tava cheia de rolo de papel higiênico, caixa de fósforos, iogurte. E eu transformava aquilo lá... bom. E aí, bom, eu sofri um pouquinho sim. FINDAÇÃO BRADESCO Pais Eu tenho fotos de pais que hoje estão na Igreja Evangélica, um deles é pastor, é, o filho está indo para o mesmo caminho, são pessoas assim que, eu vou ao casamento deles. Nenhum não tinha problemas de aceitação com os pais, nenhum, não, muito pelo contrário Nunca tive, nunca, nunca Bom, eu tenho, são pedidos pra entrar na minha sala, então isso pra mim é assim...Até hoje. FUNDAÇÃO BRADESCO Declaração de Princípios A gente tem umas regras, princípios, as regras, as normas, as normas. Então, essas normas são normas de conduta, de funcionamento. Essas normas, elas entram para nós, esse ano já veio até no caderno. Tem um caderninho, no final, tem uma folha que ela é retirada que os pais, é o “acuse”, que o pai assina, e nós guardamos, e fica arquivado na escola. Então, nós assinamos também. Mas isso é desde, é quando eu entro, quando eu sou admitida, aí tem o contrato, nesse contrato rezam as regras de funcionamento, da minha postura, roupas, horário de entrada, de saída, as permanências nos locais. Como aqui é uma Cidade de Deus, lugar de estacionar, limite de velocidade, e um monte de outras coisas. A gente assina sim, nós todos assinamos, os alunos assinam, e de certa forma ou de outra, quer queira quer não, a gente acaba sendo, em algum momento, tendo que ser lembrados dela. (risos) FUNDAÇÃO BRADESCO Mudanças Eu vejo isso, nós temos hoje assim, não só na Fundação, a educação mesmo teve uma, umas mudanças, umas exigências, umas transformações, desde a LDB, a gente sabe disso, aí entrou o Construtivismo, Emília Ferreira veio. Então tem um monte de mudança mesmo, quer queira, quer não, afeta. E isso, Emília Ferreira desde 87, por aí, 86, por aí, que veio pra nós, aqui, na Fundação Bradesco. Então meu filho, até o segundo, é a primeira turma do Construtivismo daqui da Fundação Bradesco. Então houve sim, houve uma diferença, nessa época, nessa época houve o quê? Você ouvir o aluno, tá? Então, de repente, eu, o professor passa a ser o que deveria ser sempre: mediador das relações, não aquele do pedestal, do degrau mais alto, aquele que está passando conhecimento, passando informação. Ele é o detentor do saber. Ficou uma diferença. Ele desceu, não existiu mais aquele, aquele tablado acima, ele está ali, então ele está próximo, como nós estamos aqui conversando, o aluno também, então eu estou ouvindo. Então ele tem a vivência dele, ele não é mais aquele saco sem fundo. A Fundação acompanhou todas essas mudanças, vem acompanhando cada vez mais, inclusive agora nós estamos no auge da inclusão, não é, então até isso, antes nós não tínhamos crianças deficientes, físicas. Que a gente, sabe, a gente fala tanto, de tomar o cuidado ao falar da inclusão, porque a inclusão, nós também somos incluídos, cada um com suas dificuldades e deficiências. Mais as físicas, como cadeiras de rodas, cadeirantes, auditivo, visual, nós não tínhamos. Então hoje, inclusive professores fazendo cursos, pra se aperfeiçoar, para receber essa clientela, porque já veio na Educação Infantil, vai vim pra nós, vai chegar a nós. Então assim, houve mudanças sim, hoje eu acho que ao aluno tem um conceito mais, é, vamos dizer assim, não é um respeitado não, porque ele sempre vai ser como pessoa, mas de oportunidade. Ah, eu acho que teve mudanças de ensino, na área pedagógica mesmo, o que acontece. A média do aluno continua sendo a mesma, então eu, particularmente, uma observação minha, e não só minha, eu sei que tem muita gente que compartilha comigo. Por todas as mudanças, se você vai medir e falar em avaliação. Avaliação para mim é uma coisa assim, é difícil, é polêmico, complexo, é difícil mesmo. Se você, eu sei também que a gente precisa mensurar nota, eu sei disso, existe isso, ainda ninguém quebrou isso. Eu espero um dia ver, mesmo que eu esteja velhota, mas eu espero ver isso, que alguém consiga. Porque se você avalia o percurso, então você tá ali, não havia necessidade dessa escrita toda, você entendeu, então isso me choca ainda. Apesar, pra você ver, eu comecei tão, há tanto tempo atrás, e, no entanto, a minha idéia nunca foi conservadora, nunca foi tão tradicional. Eu gosto de algumas coisas, sim, eu acho que tem que fixar regras, eu acho que tem que fixar sim a ortografia, a escrita, a caligrafia, eu preciso mesmo, eu me comunico escrevendo, então eu preciso ter um traçado correto. O “a” tem que ser “a”, não precisa ser aquele bonitinho, mas eu tenho que visualizar. Bom, então o que eu acho? Eu acho que essa facilidade, essa permissividade hoje nas avaliações, da gente deixar a criança se expressar, trazer o conhecimento perto dela e eu levar essas inferências, essas relações que ela estabelece, riquíssimas. Então, eu não sei se eu precisaria dar uma nota, entendeu, pra isso, você percebe? Então isso ainda, isso me choca, me violenta, vou dizer essa palavra, porque ela tem que ser forte mesmo. Nós trabalhando com nota. Sim, você vê, então eu posso chegar pra você, é, ele, ele aqui é regular, mas ele é um regular que se você incentivá-lo e provocá-lo, você quer ver onde que ele é legal? Bom, por que eu falo principalmente isso? Se você vai estudar as competências e as habilidades, então você percebe a diferença, . Então, de repente você tem habilidade, mas você não tem competência para fazer, mas eu tenho competência e não tenho habilidade. Então é uma coisa, então isso eu acho que fica difícil na área da educação no mundo de hoje, porque essas crianças, elas vem tecnologicamente com uma gama de informações superiores a tudo, e eles são, como eu falei do bundalelê lá, aquilo lá, para mim, eu não to acompanhando tudo isso, mas ele sabe funk, o movimento. Muda culturalmente. Muda por quê? Muda porque, muda muito, porque eles vêem, não existe aquela... A Roseli Saião fala muito, da invasão, da gente troca de papéis, inversão de papéis. Hoje eu não sei mais, porque eu já tive em várias palestras, cursos, leio artigos dela, mas assim, inversão de papéis: a escola quer ser a família, a família quer ser... Hoje eu acho que ela até ta pensando diferente, porque não tem como você não ser. As informações dos alunos são ótimas, enormes, cada vez maior, nós estamos aqui conversando, quanta coisa não foi descoberta nessas frações aqui. Em compensação, os pais, que eles tão fazendo, ausentes. Ausentes, então, delega a quem, sobra para quem? Então hoje, eu sinto uma diferença muito grande. Antes, antes, tinha-se, tá, não adianta você falar: “Ah, tem natação, balé, inglês.” São muitas atividades, eles não dão conta de tudo isso. Curtem, mas não dão conta de assimilar tudo isso. Alguns dão, mas são poucos. Então o que acontece, eles chegam pra nós, ué, não sabe sentar, não sabe falar, entendeu, são palavrões, agressivos. Eles não sabem dividir. De todas as idades. Todas Não tem, não tem, hoje você não pode falar de quatro anos, cinco anos, não pode. Você vê as minha amigas falando do Grupo 1, que são cinco anos, você não acredita. E você passa pela fila, você vê. Por isso que eu falo que tem que ter um pouco da ordem. Eles têm, eles têm advertência, eles têm, nós temos, nesse, nessas regras de funcionamento, nós temos tudo explicando. Então a criança ela é chamada atenção: “Olha, você fez isso, por que você fez isso?”. Ele vai dialogar, ele vai conversar. Nós, eu falo muito em negociação, eu to sempre negociando, negociando, negociando. Esse ano, eu passei o ano inteiro negociando com um aluno, cheguei agora no final, eu levei para orientadora. E para eu chegar num ponto desse, é porque esgotou mesmo, tá? Os outros que eu mandei, eu tive alunos advertidos esse ano, que vai, advertência que vai escrito pela orientadora, aí os pais têm que assinar aquilo. Quer dizer, numa segunda, numa terceira, ele ganha suspensão de um dia. Então nós temos alunos de primeira que são suspensos. Suspensos. Temos de grupo, entendeu, que são advertidos. Então você imagina, por que, você imagina, aí você fala: “Ah, mas ele não sabe o que faz.” Gente, são crianças, não posso esquecer. Tudo bem, mas sabem, e enfrentam você, eles têm argumentos, eles têm uma fala que você fala não, é de complicado. A Fundação discute isso com os pais, com os pais. Nós, nós escolhemos textos pra isso, nós fazemos as nossas reuniões de pais quando a situação não é que ela está transbordando ou não. No início do ano, a gente já tem alguns carros-chefe, tá, alguns textos que já são, justamente faz parte daquele período. Nós temos um período agora, de começo do ano, que é adaptação. Esse período de adaptação, eu preciso do respaldo da escola, e da parceria da família. Então já tem texto pensando no quê? Na, na, cumprimento de deveres dos alunos, o horário, a escola precisa de horário de entrada e saída no horário certo, pros pais, você. Então tudo isso, a gente já procura, primeira reunião de pais já é burocrática. Os pais levam três horas, e eu, eu fico com, eu gosto, eu tenho uma garrafa de chá, eu bebo muito chá. Eu fico com meu chazinho ali, morninho, vai esfriando, e eu vou, e dá-lhe chá. Por quê? Eu falo para eles, não é boa, não é boa, porque eles não me conhecem nessa reunião, só que é a primeira e eu preciso passar isso. A diretora recebe todos no pátio, fala, aí depois eles vão para sala, e eu. Então eu só vou ter um contato meu, profissional, com ele, na segunda, tá. Mas eles são sensibilizados constantemente e a escola propõe alguns cursos, entendeu, algumas palestras pra trazer esses pais pra escola. FUNDAÇÃO BRADESCO Reuniões Nós temos, a cada bimestre nós temos uma reunião, tá, e aí, só que no meio do caminho eu posso tá chamando esses pais quantas vezes eu precisar. Vamos supor que é um caso bastante dificultoso, compromissado mesmo, né? Ou, assim, a gente já tem antecedentes, nós temos relatórios de alunos. Então esse aluno que é meu na segunda, ele já passou na primeira e tem uma ficha desse aluno. Então, de repente, na primeira, os pais nunca vieram na reunião e a professora está pedindo e o menino continua apresentando as mesmas características, a família está ausente. Então, neste caso eu posso chamar junto com a minha orientadora. Aí eu solicito, Nadir vamos atender juntos, não sei o que. Tudo bem, um caso de doença também, grave. Mas assim, geralmente é eu por quê? Porque eu que estou na sala de aula. Quando é uma fono, a fono de fulano vem, aí eu atendo junto com a minha orientadora. Por quê? Porque tem um sistema que joga os dados já para esse setor, que é a parte de computador, de tecnologia da escola, de dados dos alunos. Aí ela já pega, passa tudo, quer dizer, se aquele aluno continuar na escola a ficha dele inteirinha já está arquivada ali. Então ela atende conosco. Ela atende a psicóloga conosco. Eu não atendo psicóloga sozinha. Só. Não atendo. Não atendo fono sozinha. Psicopedagoga, não atendo ninguém, nenhum especialista sozinha, sempre com ela. E aí tem atividades que chamam os pais a participarem. Eu só posso... eu posso dizer para você que o índice da minha sala é praticamente 100%. Muito difícil os pais não virem. Nós temos assim, uma falta, a nossa escola é uma coisa legal, nós temos uma falta assim de um, dois, três pais, máximo, mas três a gente já considera muito. FUNDAÇÃO BRADESCO Fato pitoresco Foi uma coisa positiva, eu me apaixonei mesmo. Eu não me imaginei ir para a segunda série, de repente é uma coisa meio até... não sei, mística, cabalística, que o pessoal fala. Porque eu fiquei sete na primeira, sete no pré I, sete no pré II, sete na primeira e estou chegando no sétimo da segunda, então alguma coisa vai acontecer. Ou eu vou sair, ou da série, ou da escola (risos), porque são sete, sete, sete. Então para mim, assim, se eu pensar nisso tudo eu só tive glórias mesmo. Eu tive, eu tive uma homenagem uma vez no auditório, uma coisa positiva. É muito boa, o pré I, eu estava no pré I e aí o Construtivismo, foi logo no início. E a gente, nós gostaríamos de ver como seria a evolução desses alunos do primeiro ano para o segundo. Então eu fui escolhida, eu no período da manhã e uma professora no período da tarde de acompanhar a sala. Então eu subi com a minha classe, para o grupo II, o pré II, e aí eu podia acompanhar o quê que aconteceu. Então eu fiz, foi uma coisa, o avanço da minha classe, eram 28 alunos, o avanço deles. Então isso para mim foi muito gratificante. No final do ano os pais fizeram uma homenagem para mim, assim, no auditório, minha família foi para assistir, sempre me acompanhando. Minha família é minha família mesmo. E de repente as mães pedem para a Regina o espaço do microfone, e foi uma coisa... puseram uma música em minha homenagem. Porque eu tive crianças inclusive hoje um trabalha na diretoria, esse menino foi muito problemas, muitos problemas ele tinha, muitos mesmo. E foi o meu desafio no Construtivismo, para somar, para conhecer números, para escrever, ele parecia disléxico mas não era. Ele tinha todas as características e de repente esse menino... E a gente usava varal na sala e a gente punha, e eu pedia permissão do pai para a gente colocar a evolução desse menino. E aí foi, e esse menino hoje maravilhoso. Essa foi uma coisa positiva. E esse encontro aí foi por causa da segunda série. Foi a minha primeira turma que me desafiou muito. A gente pensa assim, ah é polivalente. Primeira série é uma carência diferente, eles vêem do pré uns, eles falam alfabéticos, uns lá alfabéticos, (pré-seláricos). Aí você tem que ensinar tudo, pegar no lápis, cortar, não sabe usar cola. E é grudento, né? E eles têm uma carência de mãe, e não quer se desgrudar e fica, “dzdz”, e dá tchau, aquela coisa. Menos você. Então você tem que ser muito sedutora, muito sedutora. Bom, e aí essa segunda série foi uma segunda que me envolveu, me amou, era um amor maravilhoso. Só que antes disso eu tive um problema, foi no pré, uma coisa que me marcou. Pré? Não, não era pré não, foi na primeira série. Primeira ou era segunda? Esse menino disse que eu tinha puxado a orelha dele, então aí a parte negativa, porque a gente não conta só as coisas boas, as vanglórias. E os pais eram evangélicos... é acho que eram evangélicos, eu não lembro... eu não conhecia o pai, eu conhecia a mãe. Você vai lembrar por causa da cor, o negócio que eu falei da minha tataravó também. E o menino mais escuro que eu, cabelo crespo, pixaim mesmo, mas bem assim limpinho, bonitinho, mas extremamente agressivo. Ele já veio nos anos anteriores com essa agressividade já pontuada, reconhecida, tudo bem. E aí eu corrigindo umas atividades, ele estava fazendo avaliação, no momento da avaliação eu não posso estar interferindo em mais nada, acabou avaliação é avaliação. Eles estavam fazendo uma avaliação de matemática. Ele vem mostrar para mim, aí eu olhei, falei, “Opa, presta atenção nisso aqui Que conta que é essa?”. Mas eu não falei “Ah presta atenção...” não falei nessa vozinha doce. Primeiro que meu timbre de voz, que eu falei, eu não consigo nem fazer mansinho no cangote do meu marido, então é essa a minha resposta lá na escola. Não espera mansidão da minha voz porque não vai ter. Meu timbre é grosso e alto. Aí eu cheguei para ele e falei, “Ó, que conta é esta? Presta atenção no sinal. Que que é isso?”. Ele falou “É... vezes, multiplicação”, eu falei “E o que que você fez?”, aí peguei a folha, mostrei, “Olhe”. Bom essa foi a cena na frente dos outros todos. Foi falar que eu tinha puxado a orelha dele. Gente. Falo pra mãe dele. Aí o que que aconteceu? Nessa classe, eu só estou tentando me lembrar, porque esse meu aluno outro está na quarta e é repetente. Então nós estamos em 2005, quarta. Acho que tem uns quatro anos atrás, cinco anos gente. Acho que foi, mais ou menos, é. Ele pega a mãe A mãe não, o pai. Essa minha turma... Ligaram para a escola, de manhã, e eu dobrando período. Ligaram para a escola e me detonaram. Ninguém me avisou nada, ninguém me falou nada, ninguém da equipe técnica. Nada. Isso já me deixou, sabe? Eu não vou dizer para você que eu não fiquei chateada. Fique sim. Achei assim, uma falta de consideração. Bom, aí eu vou assinar o ponto, quando eu vou assinar o ponto, isso quinze para uma hora, uma hora eu vou assumir minha turma. Eu tinha nessa turma um menino chamado Maxwel, por isso que eu estou lembrando, ele está na escola ainda no meu prédio, só que ele é repetente e ele tem muitos comprometimentos, nível social baixo, a mãe sem nenhuma cultura, mas um coração, humilde, humilde, humilde. Esse menino com muitos comprometimentos e até para falar, para entender. A mãe chega na hora que eu vou assinar o ponto me pega, e a gente tem assim, a gente não atende os pais nesse horário, tem que ter horário, mas ela me pegou pelo braço e meio desesperada. Aí eu peguei e falei: “O quê que houve? Ah eu estou no meio horário de assinar”, não sei o que. Ela “ah mas eu preciso te falar professora”. Falei “O que é que houve?”. Olha, para mim foi muito triste, triste, porque ela chegou para mim e falou assim: “É o pai do...” “Ele pediu para mim dizer aqui na escola que você puxou a orelha do filho dele mesmo, e que puxou a do meu também. Ele pediu para mim vir aqui dizer isso”. Eu falei, “O quê?”. Eu não estava entendendo nada. Ah aí me deu branco, aí me deu branco. Aí ela chegou e falou “Mas eu não posso dizer isso, sabe por quê? Por que o Maxwel...”. Aí ela se emocionou e eu acabei me emocionando também. Ah porque o Maxwel ele te adora, ele não vai dizer que você bateu nele. Ai gente... Aí foi. Olha a situação. Tudo bem, aquilo já, a minha perna, já perdi o chão. Vou assumir a minha classe. Assim que eu entro na minha sala, a inspetora vem, naquela época a assistente de direção Odila, ela está te chamando junto com a psicóloga, Ana Lúcia. Desci, desci. Só que aí. É magoa mesmo, falo de coração, são pessoas que eu tenho apresso, mas jamais eu tomaria essa atitude, jamais eu tomaria essa posição. Não só pelo tempo de casa, mas por respeito ao profissional, eu penso. Eu acho que é uma coisa que jamais alguém deve tomar, nenhum lugar deve-se fazer, tomar essa atitude. Elas chamaram o menino para conversar, ouvir o menino e a mim também, como se fosse uma acareação, juridicamente falando.Pra dizer... eu faço essas relações porque na minha vida eu gosto... tudo na minha vida é uma relação de Justiça mesmo, de coerência. Aí eu bom, estou ali, não entendi do que se tratava. “Ele está contando que você puxou a orelha dele”. E eu falei: “Como foi isso?”. Aí ele pega e confirma que eu o havia. Falei eu não acredito. Diego Lembrei. “Puxei a sua orelha? Como?”. “É você...” Peraí, eu não fiz isso, eu não fiz isso. Aí a Odila pegou e olhou para mim, “Ocyara, de repente a gente fica nervoso.” Olha só “A gente excede, será que de repente você não...”. Falei: “Olha, vou dizer uma coisa, se um dia eu pegar o braço de um aluno, sacudir, ou puxar a orelha de um aluno, eu sou a primeira a me apresentar”. “Eu peço perdão pelo que eu não fiz, mas pelo que eu fiz, pelo que eu deixei, não fiz, estou sendo acusada, aí não vai dar certo, não vai dar certo”. Aí, “Não, nós estamos do seu lado”, não sei o que, não sei. Eu tenho certeza. Subi. Eu já estava tremendo, já estava emocionada, sabe? Foi difícil, não vou dizer que foi fácil. Olhava para as duas assim, eu não me conformava com aquela situação. Aquela exposição, dando cartaz para um aluno ainda por cima. Espera um pouquinho, me chama do lado, me colocasse a situação. Então eu acho que é postura. Então isso é uma mágoa, isso foi uma coisa que para mim negativa mesmo. Que ficou forte, que a escola tomou dores, porque eu passei mal. Eu sou uma pessoa sorridente e me emudeceu. Tanto é que hoje, hoje eu digo para você Cláudia, com todas as letras, eu já falo logo nas minhas reuniões, sou enérgica, sou exigente, sou assim, sou assado. Qualquer problema olhe para mim e fale, aí você vai ser parceira para sempre. Mas não ultrapasse, não vá em direção sem saber o que está acontecendo. E foi o que aconteceu. Eles ficaram, levaram, tentaram levar eles por um bom tempo. E eu achando que eu ia ter problemas com esse aluno. Eu não teria, para mim ele não ia me incomodar, eu estava chateada e magoada como ser humano, caramba Aqui dentro não é sangue de barata, sou gente também. Sou adulta mas espera um pouquinho, mexeu com o meu profissional. Aí eu fui para a sala, fiquei com ele, tudo bem. Pai quis transferi-lo, quis transferi-lo para uma outra série. Foi pedir, não o sei que, com medo. Nada. Aí a escola falou não porque vai ficar difícil, ele vai ter que conviver com isso. Aí que vai ficar configurado. Não. “O quê que você acha?”. Eu não acho justo que ele saia. Não vou destratá-lo, é meu aluno como qualquer outro. Primeiro que eu sou professora dele e não do pai dele. Se o pai dele tem algum problema comigo, o pai dele vai ter que resolver comigo. Não com o meu profissional, é com a minha pessoa. Ele nem me conhece, eu nunca vi esse homem. O quê que houve? Eu falei deve ser alguma rixa mesmo. Aí ele veio com um lance de preconceito. Ah, quando ele inventou nessa de preconceito foi aí que eu rasguei o verbo. Rasguei o verbo no sentido de quê, vou resgatar. “Tu tá falando com que?” Lerê, lerê. Foi aí quando eu me identifiquei. Não. Para a mulher dele. Olha, aconteceu isso, imagina, não tem como, tá? Rasta aqui. Não tem como. Preconceito, o que é isso, eu não nego as minhas raízes. E admiro e amo porque eu sou. Da onde eu vim, da minha origem. Pronto, passou, o tempo foi indo. A mãe teve um nenê, e ele trouxe a foto do nenê para eu ver. E aí começou a se aproximar. E a minha classe era muito chamegosa mesmo. Sempre são, acabam ficando muito em minha volta, e foi. Final do ano, só para finalizar. Final do ano distribuindo as pastas a gente arrumando a sala e tudo o mais. Quem veio falar comigo? Quem estava? Ah foi um rebu. Eu tô lá, pensei que fosse o presidente da república até. Nossa, foi mesmo porque eu toda brincando nanana. Senhora... aquela propaganda... não sei o quê. O pai. Eu mesma já estava magoada, sabe? Para mim já tinha esquecido em parte. Mas ele já tinha deixado o rombo lá dentro. Deixou, deixou, deixou, a escola deixou. A escola não, as pessoas que estavam envolvidas deixaram. Da mesma intensidade, para mim foi a mesma intensidade. Então isso para mim marcou, marcou muito, marcou mesmo. É, quando eu desisti de Direito eu abracei essa profissão como a minha vida. Meu marido morre de ciúmes disso aqui. Meu marido tem crises homéricas. Eu já quase me separei várias vezes. Porque ele diz mesmo que isso aqui é a sombra dele. E é mesmo, gente. Eu trabalho aqui, eu trabalho em casa por isso aqui. Então eu acho que a escola já está mais do que clara. Os pais. O que eu quero, o que eu sou. Então eu acho que pisaram na bola. Meus filhos estudaram aqui. Todos desde o pré I. Família Eu tenho um de 26, ele entrou aqui com 5. Saiu com, estudou os 11 anos dele aqui, 13. Saiu no terceiro colegial. Aí o segundo também, um faz, ele faz Física na USP o mais velho. O outro faz Engenharia Elétrica na UNESP, Ilha Solteira. E a menina faz Gestão Ambiental no SENAC. Todos estudaram aqui. Mas assim, foram alunos que muita gente nem soube até que eram meus filhos. Não dei aula para eles. Não é aconselhável. Mesmo na minha época no começo, por exemplo, dois filhos. Vocês dois tem filhos, e os dois são professores aqui, eles caem na minha sala. Não, deveria ser só um. Muitos filhos de... hoje já não pensam dessa forma. Hoje o pessoal já é mais liberal. Mas antigamente não. Antigamente tinha que ser um filho de professor da sua amiga só em cada sala, tá? E antes tinha sala fraca, forte, e hoje não. Avaliação da Escolha Eu particularmente digo assim, é uma coisa que eu dou conta de fazer. É eu dou conta, está no meu sangue, no meu jeito, na minha postura. Esse jeitão meu ser. Ao mesmo tempo brincalhão, ao mesmo tempo bravo. É uma mistura tão grande. Como eu acho, não é assim, não é filosófico isso não, sabe? Como eu acho que eu amo o meu país. Eu penso assim. Esse negócio de formar cidadãos críticos, não sei o que. Se você não põe a mão na massa, só fica na teoria. Eu sempre acreditei nisso, e eu me sinto muito próxima e responsável. Então hoje gente, eu vejo e eu, aí eu vou ser pretensiosa, eu faço parte. Ínfima não, mas de uma parcela de grandes pessoas que trabalham inclusive aqui. Outras que são. Olha, eu vou em consultório veterinário, eu tenho alunos que são médicos aí, ginecologistas, sabe? Não é porque esse cargo, podia ser até lixeiro que eu falo para os meus alunos, não importa. Mas o que eu gosto é da integridade. Então o respeito. Hoje quando eu estava esperando vocês, ali me passou um engravatado, esse menino me deu um trabalho do cão, mas deu um trabalho Gente Aí depois, “O que você fez?”, ele todo bonitão, charmoso, “Que que você fez?”, e ele: “Está perguntando da vida professora, da faculdade?”, eu falei “É, você não fez faculdade?”, “Não professora, fiz Física, Matemática e Economia”. Olha, eu só não sentei por que... Física Meu filho faz é loucura Quem diria, você vê competências e habilidades. Então eu digo para você assim, que eu sou uma pessoa que eu faço uma diferença na vidinha desses meus alunos. Se eu fizesse, se fosse Direito eu não ia poder fazer, por quê? Porque sabe qual era a área? Eu queria crime. Sabe o que eu fiz escondido? Teste para delegada de polícia. Você sabe por que eu não passei? Primeiro exame qual que era? Estatura. Eu não tenho altura. Hoje não tem essa, juro por Deus. Fui lá na USP escondida do meu marido, de todo mundo, porque eu já era casada e tudo o mais. Já tinha dois filhos, fui com minha amiga. Ela, busto, alta, não muito mais alta, mas alta. Eu, menos busto mais traseiro. Aí ela falava assim, “Vamos fazer o seguinte, você faz assim” e quem disse... o negócio de madeira. Não cheguei no 1,60. Mas não consegui, não consegui mesmo. E ela. Você já imaginou onde eu ia estar agora, morta. Porque do jeito que eu sou, eu já tinha entrada numa gangue aí e... já tinha preso... Eu acho, eu acho que a troca valeu a pena. Encontro com os ex-alunos Eu tinha trazido a foto de uma que estava na minha casa, foi um presente que me deram no meu aniversário. Levaram a menina ginecologista, deu o cartãozinho. Aí a gente falou assim, ginecologista? Para ser ginecologista da gente é uma coisa. É complicado... Precisa ter muito... Aí de repente ter ginecologista uma aluna minha. Eu falei, “Você me desculpa, eu até te respeito, mas...” (risos), nada contra. Aí tô com um aluno lá e de repente ele fala “Minha mãe foi sua aluna”, falei “Sua mãe?”. Só que quem vinha trazê-lo era um senhor de idade. Aí eu falei, olhei, não. Dizia ele que eu sou patrimônio tombado, então estão tirando sarro de mim. Falei, “Sua mãe não, imagina”, “Eu tenho a foto”. Sabe aquela foto que eu te mostrei que eu estou dando o diplominha, bem velhinha, a mãe dele é a segunda, aquela turminha que está ali. Aí ele mostra, quando eu olhei, eu falei “é Ana Paula”, “Isso, é minha mãe”. Ela usava black, gente, terrível a menina, um cão. Eu me lembro de muitos deles, sobrenome e tudo. Maior barato. Aí eu peguei e olhei, é que o pai dela é que assumiu a paternidade. Então ele é avô e pai. Por isso que eu falei, não é que eu sou novinha, mas eu achei ele muito velho (risos). FUNDAÇÃO BRADESCO Diferença na história da educação no Brasil Ai eu acho, eu tenho certeza que sim. A nossa ainda, a gente pode dizer, talvez eu peque, mas é um pecado até consciente, aqui a nossa parece mais favorecida em função de estarmos na cidade, Osasco, você fala ai. Não, mas tem uma infra-estrutura diferente.Tem shoppings, tudo é perto. Mas nos outros lugares do Brasil. Gente, eu sou assim fissurada em viajar pelas outras Fundações Bradesco que estão por aí. Canuanã, Bodoquena. Gente, uns lugares, eles lá são carentes mesmo, não são filhos de funcionários é a comunidade. Então lá é curso de bordadeira, então eles trabalham para o profissional, para ele garantir, a vida deles. E o que você vê, tem crianças que moram lá, que moram na... porque não tem como, é barco, ficam sem a família, só vão passar Natal. Então pensa gente, e o sustento deles. É profissionalizante, este era o sonho do senhor Amador Aguiar. A nossa escola ficou sendo um pouco diferente, ela tem uma visão, por exemplo, nós não temos uma horta, nós não temos uma granja. Essa coisa de você por a mão na massa, da vivência, lá eles têm, eles vivem com índios, gente. Tem muitos lugares diferentes. Então eu tiro o meu chapéu, eu tiro, a Fundação ela pode ser a maior parte dela, daqui para cima é para tirar o chapéu sim. Tem um diferencial que é para a gente respeitar e agradecer. Eu enquanto educadora, pensando no meu país, eu acho que eles contribuem bastante. Perpetuou esses valores dele,do Amador Aguiar, eu sinto falta disso ainda. Eu acho que... (risos) Ah assim, o quê que eu falo? Talvez até a Regina fale um pouco isso, ele tinha um olhar mais direcionado. Ele tinha coração. Ele não tinha marketing só. Ele não tinha só valores financeiros. Apesar de ser sem fins lucrativos, mas dá marketing para o Banco, para a empresa. Eu sinto essa diferença. Eu sinto isso, ele quis isso para o país. Ele quis isso para o cidadão. Hoje eu sinto uma coisa de empresarial. Tem a escola, tem, tem porque não tem como não ter, . Nós estamos aqui, os protagonistas precisam disso porque eles exigem de você. Você está na frente deles, são 42 alunos por sala. Não tem como 40 alunos, não tem como, na Unidade I é mais, 45. Você já imaginou que responsabilidade a sua. Mas só que hierarquicamente é outra visão. É outra, a nossa escola ainda é uma boa representação. Mas algumas situações. É porque de repente, como agora, se a gente chegasse lá na escola e quisesse filmar, fotografar alguma coisa, você vai ter que fazer o que. Para um movimento que está acontecendo para você fazer isso. E qual professor que não reclama? Por mais... não tem como, você está no seu trabalho, você pára. Quando você está na sua casa fazendo um arroz, fazendo alguma coisa, toca o telefone você reclama, não é verdade? Uma campainha.Uma coisa mínima só para você. Aí você está naquele ritmo ali, o que acontece, como a escola é vista assim, de repente chega autoridades. É bom, é ótimo para os olhos da educação, para um monte de coisa, mas você vê o que, que é um olhar diferente, é um olhar diferente. Não está prejudicando, mas não vou dizer para você que era esse o olhar que eu sentia no Seu Amador Aguiar, não era tão amplo assim. FUNDAÇÃO BRADESCO Avaliação do Projeto Quando eu li no site de vocês esse negócio de memória social é uma coisa muito sensível, mexe muito. Resgatar, é história mesmo. A gente fala assim, o brasileiro tem memória curta. A gente esquece das coisas. Isso que vocês estão fazendo é um resgate muito legal. Porque quer queira quer não, a gente fala que a moda é cíclica. Vira e mexe o jeans volta, a calça Lee, a boca de sino, algumas coisas assim. E a gente não pára para ver na memória em volta. O que a gente quer apagar, o que a gente não quer. E mesmo que você queira apagar ela está ali, é só você começar a ativá-la. E é isso que faz a diferença. É isso que faz a diferença, eu acho que é isso que pode causar as mudanças. Eu que estou lá há tanto tempo penso assim. Que vejo em relação, eu vejo meninas que trabalham comigo com a idade da minha filha de 20 anos, novinha, começando, e um respeito, nossa, me sinto assim muito bem perto delas. Pela idade, elas falam, e pelo tempo. Então, eu vejo ele fazer isso, uma valorização muito grande. De coração, se assim, eu nunca quis um cargo, tentei assim, até um dia pensar em ser pedagoga lá, orientadora. Quando a Regina tentou me conduzir, mas não... Agora isso para mim é um presente. Então se eu saio da Fundação hoje, se eu saísse agora e falasse, “Olha, vou chegar agora e não quero mais”. Ou a escola me demitisse eu diria para você: “Eu cumpri a minha missão, eu saio vitoriosa e reconhecida”. Isso é o meu presente, esse é o meu presente. Eu me emocionei quando me falara. Nossa, me emocionei muito mesmo. Se não fosse eu, fosse a Cida uma outra colega que, eu também sentiria as mesmas emoções. Obviamente que com a gente, a pela da gente vibra mais. Mas é, sabe aquele professor nota dez? Victor Sevita aquele prêmio? Esse foi o meu reconhecimento, esse foi o meu troféu. Poder contar a minha história e fazer parte desta grande. Eu poder fazer parte desta história, e ela fazer parte, a empresa, da minha história. Acho que vocês foram tão... De uma forma também polida, tão educados (risos) É sensíveis. Não, eu acho que não. Eu acho que tudo que está aí é o que eu sou mesmo. Estou nessa escola aí porque eu quero mesmo. Não sei quanto tempo, dizem aí a Dona Ana Luiza, as pessoas que estão lá que eu não sei fazer outra coisa que não dar aula, que eu tenho que ficar. A minha chefe hoje, a minha diretora é a Dona Ana Lúcia. Também uma pessoa que eu criei um vínculo muito forte. Eu sou uma pessoa extremamente festeira a minha casa está sempre cheia deles. Amanhã nós estamos indo no encontro da Regina com os, eles falaram assim, o convite, gente, está super legal, a turma da jovem guarda. Então é isso que é memória para mim. E você poder compartilhar é legal. É legal porque você conscientiza essas pessoas de 20, 22 anos podem achar meio assim. Mas se você olhar, ouví-las, você percebe que elas estão ainda perdidas, e quando ouvem as nossas histórias. Elas querem, são até mais exigentes que a gente em termos de educação, bravas, não tem paciência. A gente se acha severa. Mas quando a gente as ouve, nossa, falando tão novinha, o que acontece? Daqui 10 anos já saiu da escola, não agüenta ficar nisso aqui. Porque não tem estrutura. Aí quando começa a ouvir isso reflete.Se posiciona, retoma, e isso é legal. Isso que eu chamo que é ensinamento. É a oportunidade que elas tem. Isso já aconteceu. Então quando a gente pega ouve elas ficam, “Olha, vai acontecer isso na escola”, aí você fala: “Calma, daqui a pouco resolve...”. . Então é legal isso aí, muito legal mesmo. Eu acho que foi ótimo participar do projeto. (risos). Maravilhoso. Ah eu achei que era pior [dar entrevista] mais foi fácil. (risos). Nossa fiquei com medo, não vou dizer que não. (risos)

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+