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História

Um carteiro que escreve cartas

História de: Jorge Silva Araújo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 15/10/2013

Sinopse

Jorge é uma pessoa sonhadora. Em seu depoimento relembra a infância em Ituiutuba, MG. Lembra do seu primeiro emprego aos 15 anos de idade, cuja função era cobrar notinhas para uma relojoaria. Fala sobre o concurso dos Correios para carteiro e como começou a trabalhar nessa profissão na cidade de Canápolis. Recorda como conheceu sua esposa numa festa em Ituiutaba. Ao visitar um asilo teve a ideia de escrever cartas para os idosos e hoje em dia escreve 39 cartas por mês.

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História completa

Sou Jorge Silva Araújo, nascido em Ituiutaba, Minas Gerais, em 5 de maio de 1980. Minha mãe é de Acari e meu pai de Florânia, Rio Grande do Norte. Meus avós paternos, felizmente eles ainda estão vivos. Meu avô com 97 anos, minha avó com 93. Agora, os maternos eu não conheço porque minha mãe, de nove irmãos ela foi a única adotada, então meu avô postiço pegou ela e levou pra Ituiutaba, na época era uma cidade próspera, capital do arroz, e eles foram morar lá e eu nunca conheci a minha avó, nem meu avô. Os paternos na época eles foram pra Ituiutaba também pra trabalhar como lavradores, plantavam arroz. Naquela época um pai conhecia o outro pai e falava: “Você casa com a minha filha e tal”, arranjaram o casamento da minha mãe com o meu pai. Meu avô por parte de pai e meu avô que criou a minha mãe. Ele deve ter começado a beber com dez eu acho, ele era alcoólatra. Graças a Deus ele hoje em dia, tem muitos anos já que ele não bebe nem quentão. Ele pegou, começou a trabalhar numa cerealista no caso, que ela tratava o arroz, empacotava e vendia pro país inteiro. Minha mãe toda vida trabalhou lavando roupa pra família que tinha um poder aquisitivo maior, cuidando dos cinco irmãos, sempre ficou em casa, mas trabalhando. Continuaram morando em Ituiutaba, tem até história da minha mãe, que diz que quando ela era pequena tinha que pular a janela da casa do vizinho pra limpar a casa pra ganhar três bolachas. Tinha uma casinha no fundo, da cerealista, e eles cederam essa casa pra ele e a gente morou muitos anos, até que fechou a cerealista e nós tivemos que mudar. Morei lá uns 15 anos. Tiveram cinco filhos. Sou o caçula.

 


Eu lembro que, como a gente não tinha muito dinheiro pra comprar brinquedo, eu pegava aquelas manguinhas verdes, espetava quatro palitinho de fósforo e criava o meu rebanho, ia brincar de fazendinha, como se as mangas fosse as vaquinhas. Minha mãe trabalhava o ano inteiro pra no final do ano me dar um presente no natal, todo ano ela dava. Tem um irmão meu que mora em Goiás hoje em dia, eu brinquei mais com ele, mas ele sempre colocava eu como o ratinho de laboratório dele, ele inventava umas coisas e colocava eu pra andar nesses brinquedos, quando eu via eu estava no chão, mas era gostoso demais. Minha mãe sempre levou a gente na igreja, nós somos todos católicos, eu gosto muito de ler livro espírita, mas ela sempre levou a gente na igreja, todo domingo.
Eu entrei na escola com cinco anos. Ia a pé mesmo, que era só atravessar a praça, andava mais um quarteirão já estava na escola, era rapidinho. Eu fui escoteiro dez anos, então ali a gente aprende lição de civilidade, você ajudar o próximo, você está conectado ao ambiente que você vive. A partir dali eu fui crescendo e fazendo essa, ajudando mais, o que eu podia. Ajudava em casa assim, minha mãe sempre falava pra eu estudar, então eu sempre fiquei mais por conta de estudar do que ficar ajudando ela em casa. Mexi com fazer festa, uma vez eu estava com um projeto de fazer uma expedição e percorrer o litoral a pé, mas não deu certo, mas, enfim, sempre gostei, eu não sou ligado a coisas materiais, meu único desejo é viajar. O que eu gosto de fazer é viajar, então eu sempre quis sair pelo mundo andando, mas ainda não consegui, agora está bem difícil também. Meu pai nunca foi de fazer maldade com a gente, ele sempre foi sossegado. Chegava sempre chegava animado e abraçava todo mundo. Minha mãe mandava eu dormir, ele ficava, na orelha dela e ela colocava ele pra deitar e era assim. Ele não maltratava a gente, não, sempre foi bem na dele, assim. Nunca faltou no trabalho, ele ia bêbado, mas não faltava.

 


A minha primeira paixão, que eu nem lembro, acho que não era pra ser. Eu namorei uma menina no escoteiro, até hoje em dia nós somos amigos, era Patrícia. Teve a Juliana, depois foi a Laura, mas era aquela coisa que não sabia, se aparecer alguém mais forte pra ficar com a gente. Hoje em dia, graças a Deus, a minha esposa, que eu descobri o que é o amor. Comecei com 15 anos a trabalhar. Minha irmã casou, e meu cunhado tinha uma relojoaria, então eu ia cobrar notinha pra ele. A pessoa ia, antigamente não tinha cartão de crédito, chegava: “Não, tem, você me vende fiado, tal”. Vendia, ele fazia a notinha no nome tal, colocava o nome da pessoa, endereço, o valor e pedia pra pessoa assinar, 30 dias depois você pegava aquela nota no caso, ia na casa da pessoa cobrar ela, falava: “Ó, venceu, tal”. Eu devo ter ficado uns dois anos, até que eu saí, um amigo meu do escoteiro me chamou pra trabalhar com ele aqui numa revendedora de computador. Eu cobrava notinha, fiquei uns quatro anos trabalhando.

 


Fui trabalhar no escritório cobrando notinha (risos), só que não era mais notinha, já era honorário. Até que um amigo meu tinha passado no concurso dos Correios, ele fazia leitura de energia. Ele pegou e me perguntou: “Você quer entrar no meu lugar pra fazer leitura?”, eu falei: “Ah, vou, que aí eu posso casar”. Entrei. Casei, eu cheguei na patroa na época, ela falou: “Não, mas por que você quer trabalhar com a gente e tal?”, “Ah, eu quero casar”, ela falou: “Então está bom”. Comecei a trabalhar, quatro anos depois eu pensei em prestar o concurso dos Correios, prestei, passei. Eu pensava mais no salário, agora está mais com o pé no chão. Eu entrei na faculdade, me formei em Marketing. Na verdade eu nem sei, mas é porque eu pensei assim: “Ah, Marketing deve ser legal”, que trabalha com, você expor os produtos do pessoal, você conversa com muita gente, eu falei: “Ah, eu gosto de conversar muito, eu vou fazer Marketing”.

 


Tem uma história dos Correios, eu sou são-paulino e eu peguei, escrevi uma carta pro São Paulo. Todo mundo da rua falou: “Não, pra que você vai escrever pra esse time aí”, eu falo: “Mas eu torço pra eles”, eles: “Não, ele nem vai ver essa carta sua não”. A sorte que com uns 15 dias eles responderam, mandaram cartaz, mandou álbum, mandou autógrafo e o carteiro pegou e foi entregar na minha casa. Eu acho que ele era são-paulino também. Ele foi deixar o envelope e perguntou pra um colega meu, falou: “Ele joga lá no São Paulo?”, meu colega falou: “Não, acho que não”. Escrevi que eu era fã dos jogadores que estavam lá, que eu gostava muito, ficava de madrugada assistindo jogo, na época o São Paulo jogava no Japão, ficava de madrugada acordado esperando começar o jogo, esse tipo de coisa, eu me doava pro time.

 


Foi em 2006 que prestei o concurso, foi de primeira, antes de chegar na cidade, porque sempre o polo de provas era Uberlândia, e antes de Uberlândia o ônibus parou num posto. Nós descemos, eu fui tomar café, cheguei, tinha uns companheiros tomando cerveja, nós tomou umas quatro cerveja. Eu cheguei pra fazer a prova eu estava ruinzinho da cabeça. Fiz e passei de primeira. Quando saiu a vaga pra mim, saiu a vaga em Canápolis, que Canápolis é uma cidade a cento e 50 quilômetros de Ituiutaba. Fui pra Canápolis. Fiquei quatro meses morando lá, até que saiu a transferência pra Ituiutaba. O primeiro dia, eu vou te falar um negócio, eu não estava acostumado com aquilo ali, você pensa: “Isso não é pra mim, não”. Eu pensei: “Ah, vamos ver, quanto tempo que eu aguento”, até hoje estou aguentando. Você pega aquela bicicleta ali com aquele trem cheio de papel pra você entregar, você fala assim: “Eu vou pedalar até que horas isso aqui, gente? Não é possível”. E é subida, é descida, é cachorro, e você fala: “Não estou aguentando mais, não”, no primeiro dia as pernas dá uma doída boa.

 


Conheci minha esposa na festa. Estava no show do Jota Quest no parque de exposição, eu fazia Contabilidade e conhecia uma amiga dela. Eu topei com a amiga dela na exposição, a amiga dela me apresentou ela. Falou: “Ó, essa aqui é minha amiga Graziele”. Assistimos o show, acabou o show, começou as barraquinhas a tocar forró, ela chegou em mim, falou: “Você quer dançar?”, eu falei: “Não, vou dançar agora não porque, está quase acabando a música”, Acabou a música e começou a tocar outra: “Ah, vou chamar ela pra dançar”. Cheguei e falei: “Vamos dançar?”, “Não, agora não quero dançar, não”. Eu falei: “Não, vamos, está no começo da música”. Dançamos, depois dançamos de novo e de novo, eu falei: “Não, e aí? Como é que vai ficar, você vai embora, tal”, aconteceu. Casamos. Enquanto eu estava em Canápolis, ela ficou em Ituiutaba, na casa da mãe dela, e a nossa casa ficou vazia. Eu vinha final de semana, ela ia lá pra casa, na segunda-feira eu voltava pra Canápolis, ela voltava pra mãe dela.

 


Eu já estava louco pra ir embora pra Ituiutaba, falando: “Não, aqui é difícil demais, está longe de casa”, eles: “Não, vem que vai sair uma vaga”. Uma menina foi embora pra Recife e eu fui pra Ituiutaba, eu achava que Canápolis era difícil, quando eu comecei em Ituiutaba eu falei: “Agora, eu peço as contas mesmo, não quero”, é o dobro, anda muito mais, trabalha muito mais. A nossa rotina é levar notícia boa e notícia ruim pros outros, então você acaba se afeiçoando a algumas pessoas, que todo dia você vai, igual tem muita casa, eu chego as senhorinhas já estão com café pronto, fala: “Ó, vamos tomar café”, senta, toma um cafezinho, não que eu tenha tempo pra fazer isso, mas acaba, assim, uns cinco minutos você perde. Então você humaniza o nosso trabalho porque você dá atenção para aquelas pessoas que às vezes não tem e você pega pra conversar com uma pessoa daquela, você acaba como se fazendo parte da família. Tem muita gente que não sabe o que chega pra eles, eles perguntam assim: “Não, mas o que que é?”, a gente fala: “Não, o senhor abre porque a correspondência é sua, se o senhor quiser eu olho o que que é e te falo”. Às vezes eles abrem, olham, eu olho, falo: “Ó, aqui é notícia boa, às vezes é uma aposentadoria que deu certo, às vezes é uma habilitação, tem vezes que é carta, tem muitos que não sabem ler, eu leio rapidinho, por causa do tempo. Eles ficam satisfeitos demais, fala: “Ó, rapaz, estou bem, tal”.

 


Eu sempre ia num asilo, assim, não direto, eu ia uma vez, umas três vezes por ano, eu passava lá. Estava de folga, eu falava: “Não, vou lá ver, se eles estão precisando de alguma coisa”, mas eu pensei: “Não dá pra eu ficar vindo aqui direto, não, vou fazer alguma coisa pra dar atenção a eles” e eu sempre notei que a primeira coisa que a gente faz quando chega em casa é chegar na caixinha dos Correios e abrir, ver o que que tem. Eu falei: “Hoje em dia a gente não escreve carta pra ninguém, o povo reclama que a gente só entrega conta”, eu falei: “Vou escrever carta pra eles, mesmo eu não estando pelo menos eles vão estar recebendo atenção”. Comecei a escrever, e todo dia que a gente está trabalhando acontece alguma coisa e eu trabalho, chego em casa, muitas vezes eu escrevo, final de semana eu escrevo quatro, cinco cartas, já deixo pronto pro próximo mês, no começo do mês eu deixo. Eu pensei: “O que eu vou escrever nessas cartas?”, falei: “Ah, o meu dia a dia”. Escrevo 33, agora são 39 porque aumentou o pessoal, por mês. Eu não estava presente, no dia que eles começaram a receber. Mas eu cheguei e contei pra diretora, falei: “Olha, eu estou com intenção de escrever pra eles”, ela falou: “Não, que bom, boa ideia, escreve mesmo porque eles ficam sozinho aqui”, eu falei: “Não, então você me dá a relação de todos que estão aí”. A partir disso eu falei: “Eu vou ter que escrever 33 cartas, será que eu vou dar conta?”, falei: “Ah, vou tentar”. Comecei escrevendo, tinha dias que eu escrevia duas, tinha dia que eu escrevia três, no final de semana tinha mais por causa dos hospitais. Eles responderam só no programa, que eu tive, eles mandaram uma carta muito legal. Eu  fui no Programa da Fátima Bernardes, foi muito legal. Antes eles não sabiam como eu era, mas sabiam que era eu, que trabalhava nos Correios e, assim, a minha fisionomia eles não conheciam, não. O asilo fica entre a minha casa e os Correios. Do dia primeiro ao dia quatro eu vou lá, deixo cinco, deixo dez cartas. Eu ponho selo, tudo, pra ficar bonitinho. O pessoal doa selo, doa envelope. Já ponho na caixinha já porque na hora que eles abrir a caixinha sabe que tem carta pra eles. Agora está abrindo muitas portas, igual que eu nunca pensava em estar aqui, fazer parte de um projeto tão grandioso, mas eu estou conseguindo mobilizar a sociedade pra fazer algo de bom pra todos na verdade, porque a sociedade é igual uma engrenagem, um precisa do outro pra estar trabalhando. Então até tem um amigo meu que está construindo um site.

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