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História

Um carpinteiro no garimpo

História de: Raimundo Nonato Castro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 24/09/2013

Sinopse

Em seu depoimento Raimundo Nonato conta sobre o trabalho do pai na criação de gado na Fazenda Boa Esperança. Recorda o período em que morou na casa do padrinho em Gurupá para estudar e como começar a aprender a trabalhar com madeira. Relembra a época em que trabalhou em garimpos, construindo casas de madeira e vendendo mercadorias para os garimpeiros. Por fim, descreve a festa de São Benedito, uma tradição de sua família na cidade de Almeirim, da qual é o festeiro atual.

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História completa

Eu nasci no município de Gurupá. Papai era Raimundo Castro da Fonseca e a mamãe, Alzira Castro. Eles foram nascidos e criados aqui. A mamãe nascida num igarapé com o nome Marauaru, lá de cima. O papai aqui em baixo, mas no igarapé Arumã, fica aqui perto da Boca do Paru. As famílias foram se entrosando, eles se conheceram, depois casaram. Foram morar pra lá, pro Marauaru. Ele trabalhava primeiro com o padrinho dele, trabalhava com gado.

 

Aí depois que eles casaram, ele foi pra lá, se mudou pra lá pro terrenos dos pais dela. O padrinho Liberato tinha essa fazenda Boa Esperança, ele chamava Liberato Borralho. Ele tinha essa fazenda lá na Boca do Xingu, de nome Boa Esperança, e ele arrumava um pessoal pra trabalhar, trabalhava uma semana, trabalhava um mês, saía e tal. Aí se mudaram pra lá. Quando eles foram tinham três filhos, quatro com aquele que faleceu. Tinha dois homens e duas meninas, mas uma faleceu, aí foi só com os três: dois homens e uma menina. Aí pra lá, nasceu eu, o Vicente, Luís, Maria, Antônio e Jovelino. Depois que nós viemos de lá pra cá, nasceu mais dois, a Alcina e a Elvira. Ele trabalhou 14 anos com ele.

 

A casa era lá na várzea, casa de madeira. Ele trabalhava com o gado, tinha o curral perto da casa, tinha a maromba pros turnos do inverno. Quando eu ainda era menino eu comecei a aprender a montar. Eu ia pro campo com ele e trabalhava no curral. Quando eu era menor ficava na porteira do chiqueiro lá dos bezerros, pra tirar leite. Depois que eu cresci mais eu aprendi a tirar leite também. Aí tirava leite e ia pro campo, ir buscar o gado, levar gado do campo pra eles fazer o manejo deles. A gente prende ele de tarde, solta de manhã, bota ele lá pro campo, aí quando dá três horas vai buscar e prende de novo. De manhã tira o leite, solta, é assim. As vacarias, a gente ficava com eles no manejo do curral, o gado solteiro ficava pra fora, ali no campo grande, ficava lá pra fora. A gente ia buscar às vezes pra fazer ferra.

 

Quando era pra fazer ferra, contagem, a gente ia buscar, depois a gente ia pra lá assim. Quando era pra fazer embarque, às vezes pra levar gado pra Gurupá, a gente prendia o gado solteiro. Aprendi a ferrar gado, ainda aprendi a vacinar. Mas esse serviço de vacina eu vim aprender quando eu trabalhei na Jari. Na idade de 12 anos eu já montava em cavalo. Minhas irmãs trabalhavam na roça, plantava maniva, tirava mandioca. A gente comia carne, peixe, às vezes matava gado pra comer, às vezes pegava peixe, caça do mato também. Lá nessa fazenda onde eu nasci, era muito farto, era bom de peixe, bom de caça. É como eu sempre digo pro pessoal, conversando com o pessoal, eu digo: “Olha, no tempo que eu me entendi, a vida era assim”. Anunciava a farta. Tinha farta de açúcar, tinha farta de café, tinha farta de farinha. Mas quando anunciava a farta, o patrão dizia pro papai: “O, seu Castro, está anunciando uma farta, de farinha…”, passava o regatão ia e passava lá, “…quando ele passar você compra lá, mas se você não tiver, você não sofra, você vem aqui que tem.” Aí quando anunciava a farta, ele abastecia. O dono da fazenda, ele abastecia porque ele tinha comércio.

 

Ele tinha outros freguês, tinha pessoa que trabalhava na borracha, tinha pessoal que tirava timbó pra ele, tinha outros que tiravam fruta, esses negócio, fruta de cumaru, a bonilha. Tudo isso ele tinha. Cacau, todos traziam pra vender pra ele e a borracha. Ele tinha essa freguesia grande. Então quando anunciava a farta, ele se prevenia. Eu morei com ele quando tava na idade de oito anos. A casa dele era grande, de alvenaria. Tinha uma sala de visita, tinha atrás o quarto dele, tinha mais um outro quarto das empregadas. Aí tinha o comércio assim do outro lado, um corredor. Desse outro lado tinha o comércio. Atrás do comércio tinha o escritório. Atrás tinha a varanda, que ele chamava era a sala de refeição. Ele só tinha um filho, que esse filho que era o meu padrinho mesmo. Era o Carlos Borralho. Ele era Liberato Borralho e o filho dele era Carlos Borralho. Ele se formou. Ele era um advogado, meu padrinho. Ele era o meu padrinho e a irmã da madrinha Diná, era a minha madrinha de batismo.

 

Eu vim estudar em Gurupá porque na fazenda não tinha escola, não tinha aula pra ir, aí fui morar com ele lá, pra estudar. Lá morava eu, tinha uma irmã, essa irmã mais velha que morreu, morou também com nós. Tinha uma outra que tem aqui, Joaninha morou, tinha mais uns quatro, cinco meninos lá. Tivemos lá até o tempo que nós se mudamos pra cá que eu parei de trabalhar. Aí quando eu estava empregado na Jari eu trabalhava de carpinteiro, mas tinha um capataz de fazenda que gostava de me convidar pra trabalhar no campo com ele. Eu ia pro campo com ele, aí ia apartar gado no curral. Porque o meu serviço era carpinteiro, mas trabalhava na área da pecuária.

 

Nós fazia casa, nós fazia curral, fazia maromba, tudo. Desde uma idade de 12 anos, por aí, comecei a mexer com madeira. Eu comecei a trabalhar em casa assim com papai um pouco e aprender mais a mexer com madeira com mestre Lordi Barreira. Era um manauara que morava por aqui. Quando ele foi fazer a primeira casa que possuímos lá, coberto com telha, ninguém sabia a coisa do pontal da casa, aí papai convidou ele pra ir arrumar a casa pra nós. Eu trabalhava com ele lá, quando ele terminou de arrumar a casa, ele pediu pro papai pra mim ir trabalhar com ele. Aí eu morava com ele e trabalhava aqui na cidade. Eu trabalhava com ele, quando fracassava o serviço eu ia embora lá pra casa. Quando aparecia serviço ele mandava me chamar, eu vinha pra trabalhar com ele.

 

Ele me ensinou a aplainar madeira, armar os caixilhos de porta e janela, essas coisas. E armar casa, também. Eu morei uns dois ou três anos assim, mas não era diretamente, só na época que aparecia serviço, de casa essas coisas, eu vinha pra ele. Quando nós chegava do serviço nós ia fazer coronha de espingarda, essas coisas. Eu ganhava aquele dinheirinho com ele. Eu comprava as coisas, levava pro papai e pra mamãe. Comprava as coisas pra mim também. Meu pai começou a trabalhar com a Festa de São Benedito no tempo do tio dele. Aí depois quando ele foi pra Boa Esperança, meu tio ficou. Quando nós viemos pra cá, passou a trabalhar também na irmandade da festa. Era o tio dele que era dono do santo e ele já trabalhou com ele. Depois que este tio morreu, passou pra um outro tio meu que era primo de papai, que tomava conta da irmandade. E depois passou pro papai. Quando papai já estava velho, foi tempo que veio o Zé Alfredo de prefeito, tinha um cunhado dele, seu Sabá, disse: “Olha, o seu Castro já está com idade, já não dá pra ele estar se envolvendo com isso, tu que tem que tomar conta disso”. Aí eu passei a tomar conta.

 

E quando eu passei a tomar conta, digo: “Mas eu vou querer o seguinte, eu tenho que arrecadar as coisas, os instrumentos, tudo”. Eu que guardo tudo: é instrumento, é tambor, é sameador, é rapador, é bandeira, correia, tem a opa, todo o material da festa. Aí tem andor, que é pra colocar o santo. Tinha esse irmão que faleceu, ele sempre me ajudava. Tem dois tambor que ele fez. Esses daqui são antigos esses tambor. Esse sameador, que o sameador primeiro era de lata, aí tava tudo esculhambado. Ele que fez esse sameador que nós temos agora. Agora esse ano não fiz a festa porque não deu pra nós porque meu irmão morreu, entreguei pro padre, o padre falou. Eu disse pra ele que eu não podia me envolver na festa. Ele desse um jeito, visse como que dava pra ele fazer. Que se tivesse outro que se prontificava pra fazer. Aí ninguém se envolveu na festa. Já está com uns quantos anos que eu tomo conta da irmandade. Começa com a levantação do mastro.

 

Aí tem novena. Quando é dia 25 a gente vai pro Jaburu, 26 pra Arumanduba, a noite em Arumanduba, quando é 27 vem pros barcos. Aí pernoita lá, aí passa o dia. Quando for à tarde, a gente vai daqui, pega, vem pra fazer a meia lua, no barco. No barco, na balsa, qualquer coisa. Aí faz a meia lua, dá as três voltas aqui no rio, depois sai, aí vai pra igreja. Quando é dia 29 à tarde tem a procissão. Faz a procissão, depois vem pra igreja e fica. Quando é dia 30, nove horas a gente vai e derruba o mastro. É encerramento da festa. Depois de derrubar o mastro a gente vai e encerra o santo lá na igreja, aí bate o pessoal atrás do mastro. Tem uma casa aqui de uma vizinha nossa, Rosarina, aí leva o mastro pra aí, a gente faz a festa, brinca o dia todo. Quando eu fui pro garimpo do Carará, eu trabalhei com madeira. Eu fiz casa, porque lá eles trabalhavam na vala e no túnel.

 

Eu fazia a casa em cima do túnel. Ainda fui procurar ouro nas valas, mas pouco tempo. Aí foi o tempo que o carpinteiro saiu aí o chefe lá tava encomendando carpinteiro. Aí teve um que me conhecia “Mas por que o senhor não bota o seu Nonato no lugar dele?”, aí ele “O senhor Nonato entende alguma coisa de carpintaria?”, disse “Olha, dos carpinteiros que eu já vi aqui, eu não conheço nenhum pra botar nele”,”É mesmo? Então deixa o senhor Nonato”. Daí eu fiquei trabalhando no serviço de carpinteiro. Quando eu fui trabalhar no garimpo do Pinto, eu fui trabalhar na cantina do Fonseca, tomando conta da cantina, vendendo mercadoria. O negócio do garimpo sempre tem alguma briga por lá, mas graças a Deus, que comigo não. Do jeito que eu fui eu vim, nunca foi preciso eu morrer nem matar ninguém. Eu vi gente morto no garimpo do Crepori. Eu vi gente morto e vi as notícias que eles matavam por lá, mas eu nunca vi. No garimpo do Carará nunca vi também morte.

 

Lá no garimpo do Pinto, eu vi duas mortes. Um matou o outro assim na casa, na frente da cantina. Era coisa deles, fuxico. Eles trabalhavam no negócio de transporte de combustível. Aí eles traziam o combustível de viagem no rio. Eles passaram por aqueles garimpeiros que trabalhava no mergulho. Chegavam, vendiam o óleo e botavam água no coiso. Aí quando foi um tempo, descobriram que andaram contando dele, aí o cara chamou o outro e deu um tiro nele. O outro, por besteira, porque o cara disse que eles tiveram lá na cantina jogando, aí o patrão disse pra ele: “Mas se o Índio passasse”, o Índio era um garimpeiro nosso aí, “Se o Índio passasse agora aqui, eu dava um tiro nele”. Aí o freguês dele disse: “Por quê?”, disse: “Não, porque um dia desses ele encheu o saco lá na boate com a mulher, e falou umas coisas que eu não gostei.

 

Só sei que vou dar um tiro nele”. Tiveram lá bebendo, jogando dominó, jogando bilhar. Depois foram embora pra casa dele. Depois que chegaram lá, aí passou uma casca lá no rio, aí ele disse pro outro rapaz: “Baixinho, olha rapaz o Índio.”, “Cadê?”, “O Índio passou aí”. Ele escutou as toadas, ele saiu, ele pegou a espingarda. Quando ele pulou que fecho a espingarda, a espingarda disparou. O Índio olhou, olhou, correu. Aí ele quebrou a espingarda, tirou aquele cartucho, meteu outro cartucho, saiu atrás. Aí eu disse: “Baixinho, Zé comprido vai morrer agora” “Será que vai?” “Vai correr atrás do Índio agora”.

 

Ele foi, chegou lá na casa, pegou a espingarda dele e veio ficar aqui no canto da outra casa, esperando. Veio correndo aqui e atirou. Aí quando ouvi o tiro, eu digo: “Eu não te disse baixinho? Quer ver?”, nós fomos ver, ele está lá no meio da rua botando sangue, espingarda no chão. E é assim. Deu o prazo de eu vim embora, eu vim embora. Mas graças a Deus, trabalhei nesses três garimpos, nunca fui ofendido por nada e nunca ofendi ninguém também, graças a Deus. Eu trabalhei na Jari 10 anos, mas eu trabalhei na área da pecuária, no tempo do Ludwig, do gringo. Não cheguei a ver ele.

 

Ele vinha aí, mas ele vinha mais lá em Dourado. Ia trabalhava nessas áreas da fazenda pra cá. Eu conheci minha esposa no tempo que eu trabalhava com o mestre Lordi, ela morava com ele. Era novinha, morava com eles. Quando eu comecei a trabalhar na Jari, foi que eu comecei a namorar com ela. Eu não sei nem como foi. A gente entrosou assim em conversa, que eu me dava muito com eles, e quando eu trabalhava na Jari, quando eu vinha pra cá, chegava aqui, meus pais morava no interior. Nós não tinha casa aqui, eu parava na casa dele. Aí eu conversava com ela. Aí foi. Ela tinha dois filhos, um casal. Agora nós tivemos quatro filhos, dois casais. Mas o segundo filho morreu.

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