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História

Um caminho entre a maquiagem e a meditação

História de: Janaina Reis
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/02/2021

Sinopse

Infância e adolescência no Rio de Janeiro; Teve duas mães; Voltou para São Paulo e morou sozinha; Teve um relacionamento e dele nasceu uma filha; Estudou administração em Minas Gerais; Primeiro emprego na área foi na empresa do pai; Retornou para São Paulo; Começou a vender maquiagem; aprendeu a maquiar; Conheceu mindfulness e se apaixonou; Se reinventou como instrutora de meditação.

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História completa

 Eu sentei e conversei com a minha mãe. Acho que foi a primeira vez que a gente sentou e conversou sobre tudo isso. Ai, vou ficar emocionada. Foi a primeira vez em que eu vi minha mãe com olhos de filha. Eu comecei a entender o tanto que minha mãe abriu mão de muita coisa para ter aqueles momentos comigo. Para ela foi muito difícil. Eu não entendia muito bem, até então eu achava que ela era culpada e que ela não me quis, porque era isso que eles me contavam, que ela não me queria, que ela me abandonou, que meu pai me pegou para cuidar de mim, porque ela me deixava largada com uma vizinha que me maltratava… Então sempre foram histórias muito duras. Quando eu tinha 15 anos que sentei e foram minhas primeiras férias compridas, vamos dizer assim, que eu passei com a minha mãe.... Porque eu sempre a via nos finais de semana, passei acho que dois ou três meses com ela. E aí, eu resolvi sentar e conversar com ela. Eu fui questionar o porquê daquilo tudo e a gente conseguiu conversar. Eu lembro que foi em uma madrugada. Minha mãe passava roupa, estava passando roupa, e a gente passou uma madrugada inteira conversando. Minha mãe passando roupa na cozinha… E foi muito libertador conversar com ela sobre tudo isso. Eu demorei um tempo para aceitar a história dentro de mim e para entender que minha mãe não era culpada, para entender que o único culpado naquela história realmente era meu pai e que meu pai infelizmente não era uma pessoa boa, enfim. Isso causou muita mágoa na minha mãe, em mim, nos meus irmãos… Eu tento até hoje não culpá-lo, e não é fácil, mas acho que essa mágoa de… Porque foi uma parte muito importante de mim que me foi tirada. Inclusive o direito de ter o nome da minha mãe na minha certidão. Eu acho isso muito… É triste, na verdade isso é triste. Fui fazer Administração de empresas. Então eu fui trabalhar com meu pai. Saí do interior de Minas, e fui para o interior do Rio, porque lá a cidade onde meu pai mora até hoje, Itaperuna, é uma cidade maior e lá ele tem uma empresa, então fui trabalhar com ele para administrar essa empresa. Eu fiquei com ele acho que uns três anos mais ou menos. Ele tinha uma empresa de leilão de veículos. Depois, nesse meio caminho, eu ajudei ele a montar outra empresa dele, que é uma de logística reversa, que é a que ele tem até hoje lá, administra uma cooperativa de catadores, enfim, trabalha com reciclagem. Fui trabalhar e morei com ele por mais ou menos um ano ou um ano e pouco. Depois fui morar sozinha com a minha filha em outra casa de aluguel, um apartamento só para nós duas. Trabalhei com ele durante esse tempo e foi difícil também, foi muito difícil. Foi nessa época que eu descobri o que significa "a fruta não cai longe do pé" para o meu pai, qual era o significado disso tudo. Apesar de ser formada em Administração de empresas, apesar de estar administrando a empresa dele, para ele eu sempre iria ser a filha da empregada doméstica, a mulher que não tinha estudos, e não dá para levar a sério uma pessoa que é filha de uma empregada doméstica. O que eu falava, entrava por um ouvido e saía pelo outro, porque não tinha valor, "o que se pode esperar de uma menina que a mãe não tem estudo?", minha mãe tem o terceiro ano primário. E esse era o meu pai… É! Então ele tratava os filhos, e trata os filhos, de acordo com aquilo que a mãe é. Quando eu voltei para São Paulo, não fui trabalhar, não consegui trabalho e fui fazer outras coisas. Eu acabei me tornando maquiadora. Eu lembro que logo depois que eu briguei com meu pai, que a gente teve uma briga muito séria e eu decidi que aquela era a hora e eu voltar para São Paulo, achei que com meu currículo eu iria arrumar emprego aqui rapidinho, só que não, foi muito engano da minha parte, porque com 40 e poucos anos, você está velha para o mercado de trabalho. Como com ele, eu não trabalhei de carteira assinada, então eu não tinha experiência formal para comprovar a minha experiência. A grande maioria das entrevistas que eu consegui, que foram poucas, quando me chamavam para a entrevista, a pergunta era, "com quem fica com a sua filha?", "se ela ficar doente, quem cuida dela?". Na época eu já vendia cosméticos, então acabou virando o meu plano A, mesmo sem eu querer, porque durante muito tempo eu trabalhei vendendo esses cosméticos, mas querendo voltar para o mercado de trabalho. Eu criei o podcast "Rios de mim", e é engraçado, porque quando nasceu a "Rios de mim" com esse nome, era para ser o podcast, não era para ser a empresa. Virou empresa, porque a demanda acabou aparecendo. Por isso que virou empresa, e o podcast acabou ficando meio de lado. Eu criei o podcast acho que em abril, quando eu fiz uma oficina de podcast. E aí, fui criando conteúdo no Instagram para chamar as pessoas para o podcast. Só que o podcast não saía e eu comecei a ter contato com bastante gente para falar desse trabalho que eu estava fazendo de meditação. Quando eu fiz o curso de facilitadora de meditação, foi muito gostoso. Eu lembro que participei de uma live em que eu fiz uma meditação ao vivo, e lembro que quando terminei a meditação, o pessoal me agradeceu muito, e a moça que estava hospedando, me recebendo no Instagram dela para a live, me agradeceu e me disse que estava super leve e super tranquila, que ela iria dormir bem. A gente desligou, minha filha virou e falou para mim, "mãe, você nasceu para fazer isso". E eu descobri que minha segunda grande paixão é realmente conduzir meditação. Bom, em 2017, quando eu percebi que eu não iria voltar para o mercado de trabalho mesmo, eu tive a oportunidade de fazer um curso chamado Empreendedorismo com ferramentas de coach. Quem ministrava o curso era a Paula, e ela tinha feito parte do programa Dez mil mulheres, uma querida, uma fofa. Ali eu descobri porque eu achava que eu não dava conta de ser empreendedora. Na verdade, eu sempre fui empreendedora, uma empreendedora amadora, vamos dizer assim. Porque apesar de eu trabalhar, eu sempre quis uma renda extra, então eu sempre… Eu já vendi cosméticos, já vendi… eu fui vender Tupperware, vendi Avon, vendi Natura, vendi Mary Kay, vendi Contém 1 Grama… Eu sempre gostei, sempre gostei de um dinheiro extra. Acho que desde os meus 16 anos que eu revendo produtos. Eu lembro que uma das ferramentas que a Paula aplicou na gente era justamente a nossa linha do tempo, e a gente escrever coisas em fases da nossa vida que nos marcaram. Era para escrever coisas que nos marcaram de forma negativa, e eu lembrei que quando eu tinha 15 anos, eu repeti o primeiro ano do ensino médio, e eu escutei do meu pai que por conta de eu ter repetido, que eu só iria servir para lavar banheiro, igual a minha mãe, o banheiro da casa dos outros igual a minha mãe, se é que para isso eu iria servir também. Aquilo ficou na minha cabeça lá dentro, aquilo criou uma crença muito grande, então eu só serviria para servir aos outros, para obedecer ordens. Quando a Paula aplicou essa ferramenta e eu fui ressignificar, eu lembro que escrevi assim, "não, eu também sirvo para isso", porque eu tinha um ódio tão grande, que eu detestava lavar banheiro. Eu fui entender porque eu odiava lavar banheiro, porque para mim tinha um peso muito pejorativo. Eu falei, "não, eu também sirvo para isso" e fui reconstruindo, mas não foi um processo fácil. Entre você entender e você desenternalizar isso de dentro de você, é um processo meio grandinho. Eu demorei um tempo para entender que eu podia e deveria cobrar mais caro pelos meus serviços, porque o que eu fazia era bom, porque eu fazia super bem, porque eu faço muito bem aquilo que eu faço, porque é algo que eu gosto… mas ainda não entendia que ainda era muito amador tudo que eu fazia. Eu comecei a frequentar essas reuniões de mulheres empreendedoras. Eram quatro mulheres fantásticas, a Milene, a Cris, a Cátia e a Mirtes, que condenavam essas reuniões e me mostraram o que é empreender com profissionalismo. Nessas reuniões, eu comecei a entender o que era ser uma mulher de negócios realmente, o que era empreender como profissional, entender como eu monto a minha planilha de custos, como eu calculo o preço do meu serviço, como que eu cobro pelo meu serviço, como que eu me valorizo como profissional. E ali, foi quando a minha vida realmente começou a ser transformada. Aos pouquinhos eu fui me entendendo, eu fui melhorando como profissional, fui me erguendo como uma profissional e me colocando como uma profissional de maquiagem no mercado.

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