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História

Um camarada de coração manso

História de: Francisco Alves Duarte
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 25/03/2013

Sinopse

Este depoimento foi gravado no estúdio aberto do Museu da Pessoa no Programa Conte sua História em 21 de março de 2013. Faz parte do projeto:"Aproximando Pessoas" patrocinado pelos Correios. Francisco Alves Duarte passou a infância em Sobral, veio para São Paulo para tentar melhorar de vida. Trabalhou em regiões centrais de São Paulo (centro, Av Paulista,) e exerceu várias funções. Morou durante dez anos em um casarão antigo da Av Paulista. Acompanhou de perto o crescimento e as transformações da cidade. Ao aposentar-se, continuou trabalhando e tornou se artista plástico. Costuma presentear as pessoas com os seus quadros. Sonha em ver os netos e os filhos encaminhados.

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História completa

Nasci no Ceará, Sobral. Em 1932, dia 21 de julho. O meu pai trabalhava na fazenda. Era uma fazenda muito grande, tinha muito gado, toda espécie de gado, animal, cavalo, bicho, tudinho isso aí. E meu pai era quem administrava tudo lá. E eu aprendi a administrar. Eu fazia congada, então tenho uma história completa de lá. Meus pais se conheceram assim: o meu pai ia levando uma boiada pra uma outra fazenda, em Sobral. E então a minha mãe, era menina, com quatorze anos de idade, ia com o pai dela e a mãe dela, que morava por ali. Então, meu pai, que nunca namorou na vida, falou para a menina: quer casar comigo? Foi uma coisa assim. E a menina se assustou, era garota. Mas acabou dizendo sim. Nunca namoraram. Ela tinha quatorze anos e ele tinha dezessete anos. O meu pai era um pessoa que não deixava de falar as coisas, então se acertaram, casaram e tiverem quinze filhos. Eu sou mais ou menos o oitavo. Eu nasci em (mil novecentos e) trinta e dois, o meu irmão mais velho nasceu em 1919. E daí foi assim. Eu corri esses meus anos, aprendi a trabalhar com o gado, amansava cavalo bravo, tudo isso eu fiz na minha vida. Com oito anos eu já andava a cavalo, tirava leite. Eu era uma criança muito esperta. Espertíssima. Então eu aprendi tudo logo muito cedo. Nós andávamos naquele lugar que era muito grande, Léguas, acho que eram léguas. Era uma serra grande, tinha onça, tinha tudo lá, onça pintada, onça preta. Meu pai contava uma história que um dia na fazenda sumiu um potro. Um potro é um cavalo que tem um ano e meio, mais ou menos. Um potro bonito. E ai logo meu pai pensou: a onça matou. E daí foi atrás. Seguiram o caminho com a espingarda e um facão, bem longe. Chegando lá, a onça tinha matado o cavalo. Ele já tinha quase dois anos, era grande e ela comeu quase todo, até os ossos da cabeça. A cidade se chamava Santa Maria. Era pequena. Então a gente tinha uma vida que não tinha nenhuma diversão a não ser festa. Meus irmãos gostavam de festa, mas eu nunca nem dançava. Eu tinha uns dezessete anos. Às vezes gostava de tomar um Cinzanozinho. Meus irmãos tomavam cachaça, mas eu não tomava. A minha vida inteira nunca dei nenhum problema para a minha família. Com os meus oitenta anos, nunca dei nada. Nunca cometi um erro se quer. Sou um homem assim, nota 10,5. Modéstia a parte. Eu vim pra São Paulo com vinte e três anos. O meu pai não queria, dizia que eu era novo, que não sabia fazer nada, que ia. Gastei onze dias de viagem. A gente vinha num pau-de-arara. Pau-de-arara era um caminhão feito com tábuas. Mas eu vim sentado, então estava bom. Quando eu cheguei aqui a gente ia a escola, na (avenida) Brigadeiro Luis Antonio, perto da consolação, ali. Depois fui na avenida Doutor Arnaldo, na escola ao lado da igreja Nossa Senhora de Fátima, tenho até uma fotografia com os professores. Então, aprendi pouco, porque quando eu cheguei aqui não tinha nem profissão. Aí fui procurar emprego e não tinha emprego naquela época em São Paulo, não tinha emprego nenhum. Para fazer um trabalhozinho tinha que ser uma reforma, um sobradinho, esses negócios, e eu também não sabia fazer nada. Ai fui lá, aprendi um pouquinho, coisa e tal. Ai apareceu um trabalho na (avenida) Nove de Julho. Depois disso, arranjava emprego onde dava e ia aprendendo. Fui trabalhar por dez meses na fundação do Edifício Iguaçu, Alameda Santos com a (avenida) Brigadeiro (Luis Ântonio). Depois trabalhei num outro prédio na (avenida) Paulista como vigia por uns 6 meses. Edifício Regina. Esse prédio está lá até hoje. Aliás, esses prédios eram do mesmo dono, seu Pierre, um italiano muito rico, me chamou pra ser vigia à noite, das oito às cinco da manhã. Ai eu morava numa pensão, a vida já estava ficando melhor. Não tinha que fazer comida, coisa e tal. A pensão era na Rua Renato Braga, ali do lado. E então, depois de uns seis meses, me arrumaram um trabalho pra ir trabalhar com essa família. Aí, então, fui trabalhar com essa família. Eram nove empregadas mulheres Quando a minha mulher estava para ganhar a minha filha, Maria Luisa, ela não podia mais fazer nenhum serviço. Então nos mudamos para a rua Minas Gerais, no final da (avenida) Paulista. Pertinho ali do hospital das Clínicas. Ela nasceu na maternidade São Paulo, na Rua Frei Caneca. Ficamos morando lá. Nessa época a Avenida Paulista tinha o bonde e era uma rua qualquer, pouquinho mais larga que essas aqui de bairro. Tinha uma pista, de mão dupla. Tinha aquele bonde que você entrava de um lado e saída do outro. No centro da cidade também era bonde, São Luis, Ipiranga, também. Eu conheci isso tudo ai. São Paulo virou um gigante. Em 1950 só tinha prédio no centro da cidade. Do Itaim até a Paulista não tinha nenhum, só prédios de uns três andares, no máximo. No final de 1959 para 1960 ai foi aquela loucura. Você olhada da paulista, para baixo, só via placa de construção. Foi uma febre. Em 2007, depois de me aposentar, eu descobri uma outra paixão. Passei a pintar. Eu já desenhava, desenhos meio feio no começo. O meu filho nessa época trabalhava a noite, de moto. Enquanto ele não chegava, lá pela meia noite, uma hora, eu ficava sempre pintando, fazendo desenho. Então levei para o meu trabalho e o pessoal falava que eu poderia passar eles para a tela. Ai eu me entusiasmei e em 2007, comecei a pintar com tinta acrílica e tinta óleo. Mas os primeiros passos fui sozinho, com inspiração. Aí eu tinha aula no SESC Pompéia e no parque da Água Branca também, mas não foi muito tempo também. Eu já tinha o meu jeito e professor falava pra continuar desse jeito mesmo, então, continuei. Em casa eu tenho meu cavalete, minhas tintas. Até o Abílio Diniz, dono do Pão de Açúcar, tem quadro meu, fiz um quadro grande. Hoje eu trabalho lá no (supermercado) Extra, da rua João Cachoeira, no Itaim. Eu trabalho seis horas por dia. Eu sou um homem sonhador. Os maiores sonhos que eu tenho é de conhecer a Europa, a Itália principalmente, aquela igreja que é pintada por Miguelangelo. E na minha vida pessoal, fica o sonho de deixar cada filho com uma casa bem boa, dada por mim mesmo, feita, construída. Sonho também em ter os netos todos formados, porque agora eles dão muito trabalho, gostam de balada, essas coisas, e eu não gosto disso. Meu sonho é esse, sempre ajudar quem precisa. Eu sou um camarada de coração manso.

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