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História

Um brilho de vida muito forte

História de: Gustavo Bessa de Nogueira Dias
Autor:
Publicado em: 16/10/2015

Sinopse

Gustavo Bessa de Nogueira Dias, Gerente de Proteção e Reabilitação Ambiental da Companhia Vale do Rio Doce, nos fala sobre os contrastes da vida no campo com a vida na cidade. e como as suas experiências na fazenda da família o fizeram se embrenhar pela Agronomia. Nessa conversa, ele explica como não é possível dissociar as questões econômicas do meio ambiente, que é importante preservar um patrimônio florestal e ao mesmo tempo, é necessário produzir produtos para a subsistência humana. No entanto, é preciso se atentar às questões ambientais, pois não poderemos sobreviver no planeta sem ar ou sem água, devemos pensar no coletivo. Gustavo nos conta sobre as suas experiências na Vale, na colaboração da organização do Parque Florestal da Cenibra e na elaboração do programa de pesquisa ambiental na região de Carajás. Finaliza declarando: o avanço nas pesquisas de reparação dos ambientes explorados e o trabalho de conscientização sobre a importância do uso correto e sustentável dos nossos recursos naturais são os caminhos para resolver as questões ambientais no Brasil e no mundo.

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História completa

P/1 - Gustavo, você pode falar o seu nome completo, local e data de nascimento?

 

R -  Meu nome Gustavo Bessa de Nogueira Dias, nasci em 18 de janeiro de 1952, no Rio de Janeiro.

 

P/1 - Seus pais são do Rio de Janeiro também?

 

R - Meu pai nasceu em Minas Gerais, minha mãe nasceu no Rio de Janeiro e são filhos de imigrantes.

 

P/1 - É, conta um pouquinho essa história, seus avós imigraram de onde?

 

R -  Da parte da minha mãe, todos eles vieram de Portugal, Espanha, um pouquinho da França, uma mistura e a minha mãe nasceu no Rio, logo depois que eles chegaram no Rio de Janeiro, ela nasceu. E meu pai é fruto de uma família que foi pro interior de Minas Gerais, uma parte era paulista já mais antiga e com uma pequena mistura também com alemães, então deu uma salada danada.

 

P/1 - Por que eles vieram pro Brasil?

 

R - Por questão de dificuldade econômica no local lá, tanto em Portugal como Espanha de onde eles vieram, meus avós e bisavós e tal, o problema era realmente de limitação econômica. Era a busca, uma espécie de hoje o que se faz em alguns lugares do Brasil até, sobretudo Governador Valadares, que vai pros Estados Unidos, de certa forma eu identifico muito, associo muito esse movimento ao movimento que as famílias, as respectivas famílias, de pai e mãe fizeram no começo do século passado, uma coisa muito parecida, uma busca de qualidade de vida, de um status sócio-econômico mais avançado.

 

P/1 - Gustavo, como que seus pais se conheceram?

 

R - Meu pai, por ser professor, tinha um contato muito grande com várias escolas e com isso acabou conhecendo a minha mãe, dentre outras, e aí se casaram.

 

P/1 - Mas por quê? Sua mãe era aluna dele?

 

R - Minha mãe chegou a ser aluna dele, (risos), isso é legal, aliás ser professor tem algumas vantagens. Ele era professor de matemática, de português e até de taquigrafia,  hoje é uma matéria em extinção e aquilo fazia com que ele, circulava em várias escolas e acabava conhecendo várias pessoas, então propiciou esse encontro e essa paixão deles aí.

 

P/1 - E aí eles se casaram e foram morar onde?

 

R - Se casaram e foram morar na casa da minha avó aqui no Rio de Janeiro e aí, nenhuma das duas profissões, ele professor e ela assistente social, não dava também nenhum recurso especial financeiro, eles ficaram muito tempo na casa da minha avó e depois com o tempo conseguiram comprar uma casa e assim como a classe média baixa da ocasião fazia, embora até a vida nos anos 50 e 60, era uma vida, eu diria, até mais humana do que hoje e conseguiam, mesmo sem muito poder aquisitivo, se organizar dentro das limitações econômico-financeiras deles.

 

P/1 - E você nasceu logo depois que sua mãe casou, como foi?

 

R - Nasci logo depois, dois anos depois.

 

P/1 - Mas você nasceu na casa da sua avó?

 

R - Nasci na casa da minha avó, ainda fiquei por mais, eu me lembro ainda, com quatro anos de idade é que eu fui pra casa, que eles compraram uma outra casa, conseguiram comprar uma casa. Aí minha irmã já era nascida, tinha dois anos, nós saímos da casa da avó, ficamos perto, era uma casa próxima.

 

P/1 - É você e mais uma irmã?

 

R - Eu e mais uma irmã.

 

P/1 - E como era essa sua casa de infância?

 

R - Era uma casa grande, no centro da cidade e pra ter recursos, a gente alugava alguns quartos também, aquele negócio.

 

P/1 - Alugava os quartos na casa onde você morava?

 

R - Valia tudo, (risos). Isso aqui é na Lapa, aqui no centro da cidade e aí a gente ficou muitos anos nessa casa, até pelo tamanho dela, até que o próprio acesso de evolução imobiliária fizesse propostas de comprar e tal.

 

P/1 - Como é que era a Lapa nessa época?

 

R - A Lapa era uma coisa assim meio romântica, uma coisa assim meio que a “Ópera do Malandro”, eu traço muito paralelo com isso, uma coisa pobre, mas com  certo brilho, certo romantismo, muito charme. Uma certa violência também, mas nada que fosse assim desmedido, era uma violência um pouco mais equilibrada e que a gente podia, a gente conseguia até conviver melhor com isso. Mas ela tinha um certo brilho, sem dúvida alguma, um grande brilho e um grande charme, era uma escola até de relações humanas, porque era uma mistura muito grande, centro da cidade, onde você tinha esse contato com muitos extratos da camada social. A Tijuca era um lugar que tinha assim casas de bom padrão, o próprio centro da cidade tinha algumas também, então você misturava muita gente, eu diria, num ambiente razoavelmente pequeno, então isso fazia a gente até aprender melhor a convivência e essa questão dessa relação social como um todo, eu acho que tinha um brilho bem interessante, sem dúvida alguma, uma lembrança que eu tenho muito positiva.

 

P/1 - E nessa sua casa, como era esse convívio com outras pessoas, que alugavam os quartos?

 

R - Era uma farra, uma verdadeira farra. No Natal era todo mundo junto, os inquilinos ficavam  junto. Às vezes eu tinha alguma dificuldade em alguma matéria, um inquilino fazia Engenharia, ele me ensinava e às vezes um inquilino brigava com alguém lá de casa e a gente brigava também, era uma espécie de uma grande família, uma coisa assim, que tinha uma relação muito forte. E no fundo a gente tinha quase uma sensação de uma extensão realmente da família, não era uma coisa comercial, embora a gente saiba que o fundo era comercial, mas acabava que ela tinha muito de uma relação mais humanizada, uma relação muito humana realmente, não tinha essa questão do desejo do dinheiro, até eu me lembro muitas vezes, que alguns deles passavam meses sem pagar, até tentar se restabelecer.

 

P/1 - Tem assim alguma pessoa que marcou, algum personagem desses?

 

R - Tem a pessoa que depois eu ocupei o quarto dele, os quartos mais nobres eram pros inquilinos. Então, em dado momento, ele saiu e eu acabei ficando no quarto dele

 

P/1 - Quem era ele?

 

R - Era Valdo, (Valdo Mongonveja Rojas?)

 

P/1 - Mas marcou pelo quarto?

 

R - Marcou pelo quarto e pelas aulas também, que ele às vezes...

 

P/1 - Ah! Ele que te dava aula, que fazia engenharia? E quem exercia mais autoridade na sua casa, seu pai ou a sua mãe?

 

R - Sempre as mulheres, sempre, minha mãe, minha avó e minha bisavó, sempre. E é tudo um pessoal muito enérgico, né, uma mulherada assim muito forte. Era bom que eles não se metessem muito não, senão a coisa ficava feia, era típico mesmo de relação matriarcal. E acabava que a família também era de muitas mulheres, os homens morreram, eram poucos homens e a maioria tinha morrido também.  Por exemplo, meu avô morreu em construção, o outro morreu na praia por excesso de sol, era muito branco também, morreu queimado.

 

P/1 - É mesmo? Quem é esse?

 

R - Esse que veio de Portugal. Ele chegou e montou uns negócios aqui pra minha avó e logo depois se distraiu, foi pra praia, passar um dia na praia e só passou um dia mesmo, ele morreu queimado, queimadura daqueles últimos graus, ele adormeceu na praia, aí cozinhou rim, cozinhou um monte de coisa,



P/1 - Nossa!

 

R - Era muito branco, não sabia o que era Rio de Janeiro, praia, aí morreu, morreu um monte de homem então, às vezes do coração, às vezes por conta de outras questões e a família ficou muita mulher. Então, na realidade, na família mesmo, na parte do meu pai, só ficou eu, meu pai e dois tios, o resto era tudo mulher.

 

P/1 - E você tinha uma irmã também.

 

R - Tenho uma irmã.

 

P/1 - Gustavo e suas brincadeiras de infância, quais que eram?

 

R - Ah! Eram de garoto daquela época, futebol, adorava, sempre gostei de futebol, bola de gude, pipa, farra de ir pro mato, andar à cavalo. Porque a gente tinha, meu avô tinha, uma casa no interior onde meu pai nasceu, no interior de Minas, cidade muito pequena, um lugarejo, uma vila e lá então tinha uma “fazendolazinha”. Então, sempre nas férias de verão e de inverno a gente ia pra lá, alternava muito, cidade e campo, e de certa forma isso até fez com que eu escolhesse minha profissão. Na realidade eu tava com uma dúvida tremenda de profissão porque eu tocava guitarra, jogava muito bem futebol e gostava muito de namorar também, isso é uma coisa muito legal, essas três coisas, eu tinha que escolher entre as três, alguma coisa que (risos), então como namorar não é profissão, eu ficava na dúvida entre jogar futebol e a parte da guitarra, aí as duas coisas começaram evoluir bastante, cheguei até entrar num grupo um pouquinho mais profissional de música, mas havia um medo assim muito forte em cima dessas questões, porque ainda mais naquela época, no final dos anos 1960, você tinha que ser alguma coisa do tipo: engenheiro, médico, alguma coisa assim, senão você não era nada. Então havia uma pressão, até minha mesmo, mais cultural dizendo “olha você tem que largar esse negócio de futebol e bola porque...” embora bola já desse algum dinheirinho, é futebol e guitarra, né?  Porque o negócio é você ser um Engenheiro, alguma coisa assim, aí eu tive que abrir mão daquilo e por conta até da Fazenda dos meus avós, acabei enveredando pra essa questão da Agronomia e da parte florestal, que eu gostava muito também, mas pode ter certeza que foi um dilema essa escolha. Inclusive foi uma coisa muito interessante, a minha mãe pediu de presente de aniversário até pra você ter uma idéia, pra eu fazer o vestibular, eu falei “mãe eu não vou conseguir passar, eu não tenho jeito de passar no vestibular”

 

P/1 - Presente de aniversário pra ela?

 

R - Pra ela. Eu falei “mas não tem jeito, você sabe que eu jogo futebol o dia todo, o tempo que sobra de eu jogar, vou tocar guitarra, como é que eu vou passar no vestibular?” Não, mas aquele negócio “então, faz de presente”, aí acabei passando e tomando gosto. Tomei muito gosto realmente, mas foi um dilema até há muito tempo depois, durante a escola inclusive pra largar as duas paixões.

 

P/2 - Chegou a jogar em algum clube?

 

R - Não, eu joguei pela escola e a gente ganhava sempre, jogava pela universidade, pela faculdade.

 

P/2 - Qual era sua posição?

 

R - Minha posição, jogava de meio campo, ainda mais que naquela época, logo depois, o Brasil foi tricampeão. Então era um momento assim muito brilhante do futebol, era uma coisa muito interessante. Meu pai inclusive falava ‘bom, vamos ver se a gente coloca você num clube”, aí você fica naquela dialética, a impressão nítida que eu tinha era de estar colocando realmente o prazer de um lado e, vamos dizer assim, a ascensão social de um outro, da balança. Você fica numa divisão danada com isso aí, mas de repente até, realmente se eu tivesse jogado futebol, naquela época não era ainda, assim o auge, o que se tem hoje, que o jogador ganha uma verdadeira fábula. Mas era um negócio do ponto de vista da  estética, da plástica, da arte, uma coisa que eu acho belíssima, o futebol pra mim reúne assim a essência talvez da própria estratégia do dia a dia das pessoas, se você puder traçar um paralelo, porque ele tem de tudo, de tudo tem o ventinho da sorte, tem o deslize do juiz, ou tem o roubo, tem o vigor, tem a vontade, tem a arte, tem a Engenharia, tem tudo. O futebol consegue reunir tudo e ele culmina no gol, que a gente tenta sempre na vida também. Então é um negócio muito bacana, eu acho que se você traçar um paralelo, o futebol tem muita coisa a ver com a vida e é uma arte. Até hoje quando eu jogo futebol ele é tão arte, se você puder separar a questão física da técnica em si, se você tomou um vinho a mais no dia anterior, se você não tá um pouco bem, se você tá meio chateado, aquilo interfere na qualidade realmente do jogo, na visão do jogo, na engenharia do jogo, então aquilo é uma arte realmente. E não tem idade, claro que não podemos jogar com um garoto de 18 anos, mas podendo jogar com a mesma faixa etária, você percebe a engenharia que está por trás daquilo, é muito bonito, vocês precisavam ver (risos)

 

P/3 - Você ainda joga? 

 

R - Jogo, e gosto muito. Aliás, é um dia assim especial, quase como que espiritual, um dia muito bacana.

 

P/1 - Você tem assim algum tipo de formação religiosa?

 

R - A minha mãe era espírita e meu pai católico e aí eu acabei virando nada. A reunião dessas duas coisas, fez com que realmente, tenho um respeito tremendo e conheço até as duas áreas muito bem, a minha família inclusive queria até que eu fosse padre, você imagina, não tinha a menor chance pra isso.

 

P/2 - A família paterna, principalmente mineiros, né?

 

R - É mineiro paterno “padre tem um brilho”, eu falava “gente não é nada disso”, mas eu respeito muito, acho que dá pra aproveitar muita coisa que aprendi por conta da religião dos dois. Eu acho muito legal

 

P/1 - E um respeitava a religião do outro?

 

R - Mais ou menos, viu. Porque esse negócio acaba virando uma tentativa de um querendo convencer o outro que a dele é melhor, é uma coisa meio engraçada, mas eu acho que nesse negócio acabei pegando o espírito da coisa, eu participava muito desses debates, dessas discussões, então acabava percebendo,  ainda muito jovem, essa coisa toda, mas acho que religião é um negócio que cada um, se a pessoa puder usar positivamente, muito legal, senão estraga muito a vida das pessoas.

 

P/1 - E política, vocês discutiam em casa?

 

R - Minha mãe era muito política. Meu pai era mais mineiro, mais discreto, um outro tipo de política também, uma outra coisa que eu aprendi. Minha mãe era mais na política da explosão, do arroubo e meu pai era mais de tratar a coisa com  certa diplomacia, uma coisa mais articulada e tal, então são duas formas de política também que eu acabei aprendendo porque os dois eram, sobretudo minha mãe, minha mãe era muito política, muito militante, muito mesmo.

 

P/1 - Mas militante, militava em algum partido?

 

R - Era, gostava, freqüentava inclusive a casa de políticos, até isso de certa forma me envolvia, freqüentava a casa do João Goulart, até naquela época que o próprio Chico Buarque tava também iniciando, eu circulava um pouco por esse ambiente. Era uma doideira porque um garoto vê isso de uma forma, meio que como um caleidoscópio, as coisas vão mudando assim, vão virando, aquele negócio. E tem um charme também de você conhecer uma pessoa que é assim meio ícone e participar às vezes de algum debate, você acaba vivenciando muitas coisas também. E pro lado do meu pai, ele tinha uns encontros em casa, ele também tocava, então tinha encontro de Chorinho, de Tango, uns negócios bacanas. Tinha política por traz também, então era uma coisa maravilhosa, juntava tudo, juntava Tango com política, ficava aquele negócio muito diversificado. E de certa forma, os dois sempre muito, engraçado né, o pai e a mãe sempre com posições muito diferenciadas. Isso é chato por um lado, mas enriquece por um outro. Você acaba sempre tendo a oportunidade de participar de encontros onde cada um apresenta o outro lado da questão, cada um junta argumentos pra tentar convencer o outro, pra tentar dissuadi-lo de determinada rota, então acaba enriquecendo bastante.

 

P/1 - Com quantos anos você entrou na escola?

 

R - Entrei com quatro anos, naquele chamado, um tipo de um pré-maternal, uma assim, não sei que nome a gente poderia dar hoje, quase uma creche, que você aprende alguma coisinha, porque os dois trabalhavam fora, então tive que... e depois, continuei direto, não parei. Entrei na Faculdade com 18 anos e graças a Deus, sempre me vejo muito, embora gostasse muito de bola e de música, nunca fui de faltar aulas, me lembro muito de estar sempre, de ter esse compromisso de aulas desde que eu me lembro por gente, ter sempre alguma coisa pra você ir lá fazer. E antigamente essa coisa girava muito em torno da cobrança e da medição. Acho que hoje isso, não sei se tá muito assim ainda, nessa faixa mais jovem, mas era uma cobrança muito grande em cima de notas, coisa que acho que hoje a escola, cobra indiretamente. Acho que antigamente era uma cobrança mais objetiva, então me lembro muito de estar vivenciando isso: escola, notas, essa coisa toda, desde muito cedo.

 

P/1 - Você viveu quantos anos nessa casa da Lapa?

 

R - Ah! Eu vivi até 17 anos. Aí, com 18 anos, fui pra escola, que era internato, aqui, que era a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e lá você não podia morar fora, tinha que morar dentro da escola, então eu fiquei lá internado, eu só passava o fim de semana, mas aí logo depois a minha mãe faleceu, logo que eu entrei na Faculdade, aí nós mudamos de casa e com isso a gente foi pra um apartamento perto do Centro, ali da cidade também, mas de lá pra diante eu praticamente nunca mais vivi em casa, a partir de 17 anos era basicamente na faculdade e depois fiquei sozinho, independente.

 

P/1 - E a adolescência na Lapa como foi? 

 

R - Muito legal, viu. Era uma coisa muito bacana, pra você ter uma idéia até hoje eu me lembro, freqüentava às vezes aquele Nova Capela, eu não sei se vocês, até hoje tem um certo charme, e lá tinha cantores da noite, era um negócio muito bacana, era uma coisa muito autêntica, um negócio meio que despido dessa questão mais forte, vamos dizer assim, da questão um pouco armada mais voltada pra ganhar dinheiro. Me lembro que muitas vezes o show acabava e as pessoas continuavam cantando e brincando ainda no final da noite, então era um movimento muito bacana, aliás eu diria que isso talvez tenha embasado bastante esse meu gosto pela música, porque ali passavam muitos boêmios, muitas pessoas voltadas ali pra música e a gente acabava ficando muito ligado nesse tipo de coisa. Mas o fato de eu passar muito as férias na Fazenda, me colocava o outro lado da questão, uma vida muito distinta dessa. Aliás, uma das coisas que eu mais gostava quando era garoto, é uma coisa assim até meio inusitada, era quando a gente tinha que sair de uma, porque a Fazenda é o seguinte, tem horas que o pasto cresce de um lado e o boi come tudo ali, o gado come, você tem que mudar pra uma outra posição porque aquele pasto está esgotado até que venha a chuva, etc. e tal, um rodiziozinho, então, o que eu mais gostava, era de levar a boiada de um pasto pro outro, que andava vários quilômetros. Eu passava o dia todo andando, aquele negócio era de uma beleza, uma coisa tão, você sair de manhãzinha, com o sol às vezes sem aparecer ainda, você pegar aquela boiada toda e tomar cuidado que o boi dispersa, aquela coisa toda, ir com uma tropa pra cima, então aquela coisa assim foi me conquistando, você passar o dia assim é uma coisa muito chão mesmo, uma coisa que tem um brilho de vida muito forte. Isso foi um contraponto, foi o lado que me desviou para o mundo da agronomia. É uma coisa muito bonita, eu me lembro de passagens assim de você parar na beira do rio e tomar água e deixar o gado tomar água também, é uma coisa que a gente hoje talvez só veja em alguns filmes, é uma coisa assim, é um negócio muito bacana a gente vivenciar isso.

 

P/1 - Aí você foi pra Faculdade, quer dizer você contou todo esse processo que sua mãe pediu de presente de aniversário...?

 

R - É. Fui pra faculdade e aí acabei realmente me encontrando, confirmando, vamos dizer assim, esse prazer todo. Embora, na faculdade, você ainda ache muito músico também, fica um negócio te atormentando o tempo todo ali. Mas lá na faculdade, a gente tinha acesso, era uma coisa muito prática, a gente dirigia trator, desmontava trator, plantava, fazia  experiência, aí, aquele negócio acabou de consolidar e fortalecer essa minha veia agronômica. Foi uma passagem muito bonita também.

 

P/1 - Esse foi o ano que você saiu de casa?

 

R - Foi o ano que eu saí de casa.

 

P/1 - Esse ano que você entrou na Faculdade? Você foi morar onde?

 

R - Fui morar lá na Federal Rural do Rio de Janeiro, lá perto de Campo Grande. Lá tem um centro, tem alojamentos, tem tudo, é bem completo, até hoje é um lugar muito bonito, pra quem não conhece, vale a pena ver a arquitetura muito bonita, a disposição das edificações, os prédios é um negócio muito bonito e era. Naquela época, a gente ainda vivenciava, vamos dizer assim, uma abordagem da economia muito prática, muito forte porque ainda tinha um certo recurso, a gente ainda botava muito a mão na massa indiretamente. O fato, por exemplo, de poder andar, dirigir e desmontar trator, de plantar e de tocar um experimento, fazer a colheita desde a semente até a colheita, hoje em dia é um negócio que fica muito difícil nas escolas, os recursos financeiros são muito limitados, quer dizer, era uma coisa que a gente realmente se envolvia muito, botava muito a mão na massa, um negócio muito bacana e você, aquela velha frase, que se aplica a muitas coisas: “você só pode amar aquilo que você conhece, se você não conhecer é difícil, se você não se aproximar e botar a mão também, você não consegue amar direito”.

 

P/1 - E aí como é que foi esse período de faculdade, quais foram as matérias que mais te interessaram?

 

R - Olha, eu gostava de muita coisa. Tinha trazido uma base muito sólida em algumas matérias que me davam a chance de poder compensar sem estudar um pouco algumas matérias. Por exemplo, matemática eu era muito bom, a parte de geometria descritiva, era muito bom também. Fui professor também no final do terceiro ano científico.

 

P/1 - Professor de Geometria descritiva?

 

R - É. Mas era uma coisa não formal, quer dizer, eu dava aula assim tipo bico e isso fica muito forte, esse negócio. Aquilo me fazia. Eram menos duas matérias que eu tinha pra estudar. O primeiro ano da faculdade você dá uma nivelada geral, tinha algumas matérias que eu tinha muita dificuldade, eu não tinha boa base, a parte de química, e aquilo me fazia então sobrar um pouquinho de tempo pra essas coisas, mas no geral, quer dizer, química é uma coisa um pouco árida, não é muito agradável não, mas no final acabei gostando de quase todas elas, embora eu gostasse mais, realmente, da parte voltada especificamente pra Agronomia mesmo, e muito a questão da Economia também. A Economia me deixava, embora naquela época o curso não fosse, não era realmente muito forte nessa parte da Economia, era uma coisa que me agradava muito porque uma noção mais do coletivo, da própria capacidade das coisas existirem, porque algumas coisas caminham pro lado A ou pro lado B, o que sempre tá por trás disso é a economia, sempre, invariavelmente a economia, a política claro que ela comparece à essa questão, mas pra dar forma aos interesses econômicos, que estão por trás de tudo isso. Acabei tomando gosto e, de certa forma, isso até me levou a fazer algumas questões dentro da Vale, que até hoje guardo e continuo por conta disso, dessa questão voltada pra economia. Tem até um episódio muito interessante: no primeiro dia, eu entrei na Vale por concurso, naquela época, a Vale estatal, eu passei em primeiro lugar inclusive, um negócio que eu ficava muito animado, aí quando eu cheguei pra conversar com meu chefe, ele conversou um monte de coisas e falou uma que eu fiquei até meio bobo, ele balançava na cadeira, encostava a cadeira um pouquinho pra trás, um cara com 60 anos e eu com 24, eu ficava lá babando com o cara “esse cara deve ser um doido”, aí ele encostou uma hora assim, fez aquela cara que eu era assim, muito distante da realidade do mundo, pegou um livro eu diria que quase que já sabendo de cor onde tava o livro e mostrou pra mim e falou assim “olha você não volta falar comigo sem saber o que está dentro desse livro”, ele não tinha nem paciência pra escutar um cara que não soubesse o que era Engenharia Econômica. Eu não sabia nem o que significava esse título, pra você ter uma idéia, aí tirou o livro e falou “volta a falar comigo quando você souber esse negócio”. Eu li o título, um tal do Puccini, até me lembrou música, que tem um cara  bom também com esse nome e ele falou “olha, você lê e vem depois discutir comigo”. Quando peguei aquilo ali, no início, pra mim, era chinês arcaico e comecei ler, ler bastante aquele negócio até voltar falar com ele sobre o assunto. Esse foi o primeiro episódio, vamos dizer assim, que me marcou muito dentro da empresa, essa coisa que se encaixou muito.

 

P/1 - Quem que falou isso pra você?

 

R - O meu chefe, agora já falecido, Enos Miranda Cardoso. Eu achei muito legal. Hoje acho muito útil essa coisa assim meio desvairada de tratar a questão, mas achei e acho, e continuo achando isso muito útil, porque realmente isso vem a reforçar isso que eu falei há pouco, a questão da economia, tudo o que tá por trás da economia e o livro trata de uma forma mais ordenada, ele estrutura essa questão, disciplina melhor e você fica com uma visão muito aguçada. Depois vim entender porque ele me obrigou, vamos dizer assim, a entender do assunto, o  fundamento é óbvio, você passa a ter a verdadeira, um conhecimento mais profundo, os motivos, a motivação que ele teve pra isso.

 

P/1 - Como que se dá sua entrada na Vale do Rio Doce?

 

R - Assim, eu li no jornal, que tinha uma empresa de grande porte, que tava fazendo teste, seleção pra pessoal enveredar pra área florestal, porque o agrônomo também milita na área florestal e era um assunto que eu sempre gostei também, eu tinha uma atração muito grande, e tinha uma bateria de provas. Fui fazendo essas provas...

 

P/2 - ...Sem saber que empresa era?

 

R - Eu não tô muito lembrado, mas teve um momento que eu soube, quer dizer ,antes de terminar, já sabia qual era a empresa, eu não sei nem por que, não sei se tava explícito isso e aí acabei passando. Depois de passar por essa bateria toda, não sei, talvez eu não esperasse uma pessoa muito jovem passar naquele negócio. Depois passei por uma bateria de gerentes, gerente me entrevistar, “o que você acha disso, daquilo?” uma espécie de confirmação.

 

P/3 - Você tava recém formado?

 

R - Eu tava recém formado, tinha saído, entrei no sistema Embrapa/ Emater primeiro, mas ganhava muito pouco e tinha muito gasto também e tava longe do Rio, aí tava lendo isso no jornal, foi por meio do jornal que eu me interessei, aquela coisa fez com que eu mudasse completamente o rumo. Tava no rumo de extensão rural, parte um pouco voltada pra pesquisa e extensão rural, que é uma coisa bonita também, uma coisa brilhante. E a empresa Vale do Rio Doce tava se organizando pra montar o parque Florestal dela e foi com essa história e com essa necessidade da empresa que eu acabei entrando pra estruturar.

 

P/3 - Você começou trabalhar quando?

 

R - Entrei pra Vale do Rio Doce, mas tinham muitas viagens. A sede era no Rio de Janeiro e eu acabei tendo um monte de contatos, já tinha muita vivência de campo por conta da Fazenda e passei a ter uma missão específica, que era a organização, quer dizer, fazia parte de uma equipe, o chefe comandava, a organização do Parque Florestal de uma empresa chamada Cenibra, hoje já foi vendida pela Vale do Rio Doce. A história é muito interessante, porque a empresa já tava organizada, a instalação, a fábrica, tudo organizada, e a empresa ainda não tinha a definição do programa de abastecimento de madeira, quer dizer, você tem uma fábrica muito grande, um investimento muito grande e a questão da madeira não tava ainda equacionada, então a contratação foi por necessidade de reforço interno da empresa, no sentido de organizar um quadro, uma estrutura que pudesse administrar, gerenciar essa questão. Quer dizer, você tem uma fábrica e essa fábrica precisa consumir madeira, então essa madeira tem que tá organizada no espaço e no tempo, então isso era um problema grande porque  era madeira como se sabe, demora pra crescer, se você não tem isso agora, é difícil, você tem que esperar seis, sete anos no mínimo, pra questão se converter em realidade. Foi um período de correria até a organização desse parque Florestal e eu já entrei em meio desse sufoco todo, de tentar organizar isso e foi muito bom, quando você entra no início das coisas é que você aprende muito também.

 

P/1 - Que ano que foi isso?

 

R - Foi em 1975, eu entrei na Vale em 9 de maio de 1975

 

P/1 - Mas nessa época de 1975 tinha assim uma consciência ecológica?

 

R - Uma coisa engraçada, né. Quando eu passei por essa bateria de gerentes depois de ter passado pela prova formal, já notava nas entrelinhas a questão ambiental, já era uma preocupação muito grande, achei isso muito legal. Hoje me recordo com muita clareza disso né. Claro que as coisas não são muito estruturadas, as perguntas tinham um forte conteúdo ambiental, sem estar muito organizado, mas que tinha, tinha. Essa questão de quantidade de área a ser plantada, como é que era a disposição geográfica dos projetos, da área reflorestada, a questão das aves, a avifauna como um todo, tinham perguntas. Porque as pessoas que me entrevistavam, não eram da área florestal, nem da área agronômica. Eles eram economistas, administradores, engenheiros civil, etc., com exceção do meu chefe, então as outras pessoas faziam perguntas muito focadas pra uma certa, quer dizer, tinha a parte da economia sempre presente, mas tinha a parte dessa curiosidade ambiental muito aguçada também, um negócio muito interessante. Eu também não tinha isso muito organizado, na época muito jovem também, isso não era uma coisa muito organizada na minha cabeça, mas já havia um sentimento pró-ambiental, um certo cuidado, vamos dizer assim, num canto da mente pra se tratar as questões de cunho ambiental.

 

P/1 - Mas você acha que em 1975 aqui também já tinha essa consciência porque em 1972 teve a primeira conferência mundial né, de meio ambiente?

 

R - Você tá falando do Rio 92?

 

P/1 - Não 1972, em Estocolmo.

 

R - Ah sim, Estocolmo. Sim, mas não era uma coisa muito próxima, não era realmente, porque no Brasil, uma vastidão territorial imensa, a Amazônia imensa, a gente nem conhecia direito o que a gente tinha.

 

P/3 - Você acha que isso se devia a quê?

 

R - Talvez uma  preocupação de pessoas mais cultas mesmo. Acho que isso começou a ganhar, vamos dizer assim, mais espaço, quase que num sentido da proporção do nível cultural das coisas, essa percepção das coisas, então isso foi, isso acaba levando com que as pessoas reflitam. As pessoas que entrevistavam, tinham um padrão muito alto, um conhecimento muito elevado das coisas e tavam realmente além da média, vamos dizer assim, das pessoas

 

P/3 - Uma característica da Vale.

 

R - Exatamente, era uma característica muito forte, pessoas com uma cultura muito elevada mesmo, muito alta. Isso é muito bom porque você aprende, aprende demais, é cobrado assim de uma forma quase que na mesma proporção direta, vamos dizer assim, o conhecimento deles. Isso é uma coisa natural do ser humano e você também acaba absorvendo muita coisa, você aprende muito. Isso é muito bom, a vantagem que eu tive foi sair de um mundo muito rural, e encontrar um mundo econômico muito organizado que era a Vale do Rio Doce, as pessoas com a cabeça muito organizada do ponto de vista econômico e foi um encontro muito feliz e muito saudável.

 

P/2 - Já havia uma preocupação nessa época em termos ambientais, com as matas nativas, porque a Cenibra usava, acredito eu, eucalipto ou não?

 

R - A empresa é abastecida com, sempre foi o fornecimento, a sustentação da empresa foi com eucalipto. Na ocasião existia a lei que dirigia e a empresa sempre obedeceu muito de perto, eu diria, integralmente, mas essa consciência, a ficha do meio ambiente, eu diria, ela caiu de meados pro final dos anos 1980. Acho que foi realmente quando a questão ambiental, dentro da área florestal,encontrou o seu espaço definitivo, veio pra ficar realmente, porque embora, uma coisa interessante, o Brasil hoje é destacadamente o país número um no mundo em  qualidade técnica e condução de questões florestais, assim como todo mundo fala do futebol, o Brasil é o número um em área florestal, não existe nenhum país melhor que a gente. Agora a gente não tinha ainda realmente uma consciência, uma organização ambiental dentro da área florestal no mesmo status do conhecimento da silvicultura em si, da questão da capacidade de fazer a madeira crescer, eu acho que isso foi o grande avanço até pra essa organização florestal nossa, acabou tendo um encontro natural e depois passou a ser uma questão obrigatória realmente. Quem não se organiza bem na parte de meio ambiente, hoje não pode ter sucesso, passa a ser uma questão até de cunho econômico ou seja, quem não se organiza bem na área ambiental, é uma questão de tempo para que a área florestal venha a ser contaminada negativamente por um passo mal feito na área ambiental porque tem uma conexão muito forte, quer dizer, isso hoje já é sabido nessa questão da agricultura orgânica. Você faz agricultura orgânica porque as outras plantas, que não exatamente a cultura agrícola, é beneficiada por aquela mistura toda de espécie e o mesmo acontece quando você transporta esse  raciocínio pra área florestal, você acaba se beneficiando também, ou seja, quem se comporta, quem entende bem o meio ambiente faz as outras coisas melhor. É claro que você tem que dominar a coisa principal que tá fazendo, o teu negócio principal, mas existe um vaso comunicante muito grande, sobretudo em questões rurais, agrícolas de uma forma geral, se você trata aquilo bem do ponto de vista ambiental ela responde muito bem

 

P/2 - Quer dizer que o foco está ligado ao ambiente, ele faz parte?

 

R - Tá inserido no meio ambiente, eu diria até, uma coisa que não é da área florestal, a própria mineração. Se a gente pensar também, a mineração depende de você saber administrar bem o meio ambiente, porque embora seja uma interferência muito concentrada num ponto quando você faz uma mina, ali é um pedaço do meio ambiente e se quando você termina a mina, você faz com que aquele local volte, ou se aproxime de uma situação ambiental equilibrada, uma situação ambiental próxima do que era antes da sua interferência, você também tá fazendo da sua natureza, vamos dizer assim, daquele teu negócio, um negócio positivo em todos os sentidos, às vezes até você consegue levar aquele negócio pra uma derivada três, ou dois, ou três, você consegue transferir uma área que antigamente não tinha nenhum tipo de exploração pra outro tipo de coisa. Até recentemente teve uma situação vivida por nós de empresas, outras atividades numa região, num lugar onde tava fechando uma mina, se interessar em aproveitar aquela mina pra fazer um Resort ali, porque ali tinha uma cava, o nível da água subiu, ficou um lago belíssimo, um lago perfeito, sem problema nenhum de cunho ambiental.



P/1 - Onde?

 

R - No Estado de Tocantins. E acabou sendo um negócio assim, no meio do nada, mas de uma beleza estonteante. Você começa a ver uma coisa que você nem imaginava. Volto mais uma vez, quando você trata bem o ambiente depois, no processo de fechamento de mina, aquilo ali se organiza e você passa a ter opções não só pra retornar, vamos dizer assim, pro ambiente, como também pra buscar outras opções de negócio.

 

P/2 - Voltando um pouquinho pra 1975. O senhor passou no concurso em primeiro lugar, houve essa desconfiança original, uma série de entrevistas, o livro de engenharia econômica, como foram seus primeiros meses de trabalho, onde o senhor foi trabalhar? Preencheu as expectativas ou não?

 

R - Ah! Sim, uma coisa interessante também era que talvez o fato de eu já ter uma certa vivência no campo, a gente tinha missões, eu me sentia assim, um verdadeiro 007, quer dizer, você chega numa empresa do tamanho da Vale e falam assim “olha agora você vai conhecer uma floresta em tal lugar e ver se a gente pode comprar”, imagina um garoto, sai eu lá pra conhecer, medir, comecei na parte de inventário florestal, que acho belíssimo também, uma coisa que você acaba conhecendo por dentro a floresta, você sente a floresta por dentro, mede a floresta, é quase como um médico de floresta, então como a empresa precisava de madeira eu saía que nem um 007 à caça de madeira “olha, sai logo lá mede e vê o que você pode fazer”, aí saía, media, passava às vezes um mês no campo, dois meses, já passei três meses no campo.

 

P/2 - Como é que era isso, ia uma equipe?

 

R - Ia uma equipe, a gente tinha uma Kombi no local, pegava lá uns braçais, um pessoal de foice, uma turma que tem um equipamento todo de medir altura de árvore, media a cintura da árvore, que é o dap, o diâmetro altura do peito, e você tentar levantar todo esse potencial dessa floresta, então você saía  às vezes, um carro, dois carros, pro campo e passava, desde que o dia amanhecer até quando tiver luz no campo você tá tomando as medidas, aí você faz um relatório e meu chefe, de acordo com o que tava ali, ia negociar com os donos daquela floresta e com sentido de abastecer a Cenibra. A gente, é claro, sentindo uma importância tremenda por isso, porque ficava animadíssimo com aquela coisa de ir pro campo e medir, que aquela coisa ia resultar numa grande negociação depois, ia fazer uma fábrica se movimentar, ia fabricar papel no final da história, quer dizer, a celulose, no fundo, era basicamente pra isso. Uma coisa muito gostosa, você se sente parte de um processo, integrado num grande processo, você vê começo, meio, fim. Pra um rapaz de 24 anos, é um negócio muito legal.

 

P/2 - Houve algum “causo” interessante nessas expedições florestais, que o senhor lembre, engraçado?

 

R - Ah! Tem muita coisa. Por exemplo, se perder em floresta é um negócio muito interessante, num lugar onde você tem que se basear pelo barulho, você não sabe onde tá, não pode se guiar pelo céu, não tem Cruzeiro do Sul, não tem coisa nenhuma, o sol tá se escondendo, então você tem que falar “onde eu tô?”

 

P/2 - Aconteceu algumas vezes?

 

R - Aconteceu três vezes já comigo.

 

P/2 - O senhor ficou quanto tempo?

 

R - Teve uma que eu fiquei uma tarde, teve outra que eu fiquei poucas horas e o pior, foi realmente no Suriname, quando fui fazer uma viagem pela FAO pra levantar, fazer avaliação de manejo sustentável de floresta nativa e foi uma equipe assim multinacional, tinha pessoas de todo lugar do mundo, tentando fazer um documento, tentando mostrar pra FAO as vantagens, virtudes, pontos positivos, negativos daquela coisa toda, e o nosso guia tava assim um pouco distraído e de repente ele olhou pra trás e falou assim “tamos perdidos”, perdidos numa floresta completamente fechada, uma floresta tropical, alta, eu não conhecia nada ali, uma chuva pesadíssima e a gente andando em círculos, aí você tem que usar todos os artifícios que você tem pra tentar sair daquilo ali e cada um falando uma língua, se encontrava no inglês, mas todo mundo com uma certa dose de tensão no ar e os mosquitos cada vez mais presentes, então um negócio muito bacana (risos) vocês precisam ver, a gente saiu já tarde, já tava quase escurecendo. Essa viagem pro Suriname foi muito interessante por vários motivos, porque eu não tenho cara de muito parecido com brasileiro e lá tava um dilema muito grande com holandeses, eles me identificavam muito com holandês. Outra curiosidade também, num dado momento da nossa viagem, a gente tava de um lado da ponte, do outro lado tinha uma guerrilha e as pessoas imaginavam que uma guerrilha organizada pelos holandeses e os soldados do Suriname que davam do lado de cá da ponte parou nossa comitiva, a missão, e tavam discutindo se matavam a gente ou se não matavam porque nós éramos em tese holandeses disfarçados do que qualquer outra coisa e fazia parte da adrenalina da viagem aquele negócio, que acabou sendo também um ponto de destaque nessa questão do mundo florestal nessa investigação fora do Brasil.

 

P/2 - Como era a Vale quando o senhor entrou? A questão dos níveis hierárquicos, havia muitas chefias, que setores especificamente o senhor trabalhava?

 

R - Olha eu trabalhei num setor inicialmente, ele era um setor de desenvolvimento, uma área de desenvolvimento.

 

P/2 - Tinha um nome específico?

 

R - Tinha. Era Superintendência e Desenvolvimento e depois com o fato da gente, a gente Vale, estar ingressando na área Florestal, aí acabou realmente criando um setor mais voltado pra área florestal, especificamente, a gente acabou derivando pra essa área. É difícil a gente comparar porque são olhos diferentes, vamos dizer assim, a Vale, a impressão que você tem, de um garoto de 24 anos dentro de uma empresa, é que, pra mim era um mundo muito formal, mas eu diria que provavelmente é tão formal quanto o de hoje, e eu diria que a roupagem talvez seja um pouco diferente, mas o conteúdo é muito próximo. Talvez, um sentimento também que pode estar presente mais em mim do que na própria realidade das coisas. Talvez houvesse uma identidade muito maior do profissional com a empresa, até porque as pessoas permaneciam muito tempo na empresa, quase todas as pessoas eram de carreira, coisa que nos dias de hoje acaba não sendo a prática, você acaba mudando muito de posição, mudando de empresa. Acho que talvez isso seja um ponto que diferenciava os anos 1970 dos anos atuais, isso fazia uma certa diferença porque, por conta disso, as equipes ficassem um pouco mais irmanadas, não sei se pela longa permanência das pessoas dentro de uma certa área, então tinha uma abordagem, uma relação um pouco mais intimista.

 

P/2 - E esse formalismo se dava onde?

 

R - É porque você imagina um camarada com 25, 20 anos de empresa, que era um superintendente, era uma coisa assim, era quase um deus e também do ponto de vista, da ótica nossa, era um camarada que a gente percebia que ele tinha um poder de mando, vamos dizer assim, muito forte, mas hoje também você nota uma pessoa de nível de gerente geral também com essa mesma coisa, talvez seja um pouco mais a visão da gente, mas essa questão talvez do longo tempo de permanência seria a grande questão que diferencia a vida naquela época, a vida profissional naquela época e hoje. Porque inclusive era uma coisa assim meio nipônica, os japoneses também sempre preservarem isso. Foi, agora também está mudando no Japão isso, foi uma rotina no mundo profissional, era uma virtude uma pessoa permanecer na empresa por longo prazo, que a gente via na Vale do Rio Doce, e via no Japão, também tive muito tempo trabalhando com os japoneses, porque a Cenibra era uma empresa Nipo brasileira, tinha a participação de um grupo de japoneses, então isso me permitiu a viagem pro Japão, uma interface e um relacionamento muito grande com os japoneses e eu, engraçado, percebia uma semelhança muito grande nessa questão da permanência das pessoas, na indicação das pessoas, tanto na Vale quanto nas empresas que participavam do grupo no Japão, esse negócio que tinha uma semelhança muito grande, e hoje eu diria que é quase que o contrário, a tendência dos profissionais passarem um período de tempo mais curto nas empresas, rodiziarem, até ganharem mais experiência e, de certa forma, isso acaba permitindo uma ascensão salarial, mas antigamente era quase um pecado, você falava assim “passei por três empresas, quatro empresas”, a pessoa ficava assim meio, alguma coisa tá acontecendo com esse cara, mas o mundo muda mesmo.

 

P/2 - Como foi sua mudança desse cargo, sua trajetória profissional, dessa avaliação de florestas?

 

R - Aí eu comecei, depois de ler esse livro do meu chefe a minha cabeça mudou, Tuf! saiu daquele canal, eu comecei muito fortemente nessa parte de inventário e de pesquisa florestal, aí depois eu passei muito fortemente pro mundo da administração florestal, conjugando todas essas questões da técnica com a questão da economia.

 

P/2 - Ainda dentro da Cenibra, desse universo?

 

R - Mas aí já tinha Florestas Rio Doce, desde o início, a gente trabalhava muito próximo das controladas e das empresas subsidiadas. As empresas no caso, a Cenibra, a Floresta Rio Doce era uma empresa integral da Vale do Rio Doce, ambas mexiam com essa parte de Florestas, então essas empresas permitiam à gente, de certa forma, eu tinha que co-administrar essas empresas, isso fazia com que a gente entrasse muito fortemente nessa questão da economicidade, do lucro e da produtividade das empresas e da organização, do suprimento dessas empresas, então esse tipo de coisa fez com que eu fosse caminhando também pra essa parte, enveredando pro mundo da economia e depois acabei assumindo uma gerência dentro da empresa, um departamento florestal. Eu acabei por conta dessa coisa toda, também ligado ao mundo da computação. Naquela época ainda era muito incipiente e por ser mais jovem, acabei dominando mais também a parte de informática e aí, por conta disso assumi, o Departamento Florestal da Vale do Rio Doce. Era uma área que detinha, vamos dizer assim, o que seria uma espécie da cultura, era o endereço florestal da Vale do Rio doce, se precisasse alguma informação de caráter técnico, de conhecimento, ou de inventário, de conhecimento do parque florestal da empresa, a capacidade de fornecimento de madeira, ali era o endereço. Aí começou minha ascensão profissional, por conta disso.

 

P/2 - Isso foi em que ano?

 

R - Isso foi no início dos anos 1980.

 

P/2 - Nessa época aparece ainda uma visão utilitarista da Floresta, quer dizer, a floresta como produtora de bens, que podem ser utilizados economicamente pela empresa. Era esse ainda o grande enfoque da Vale com relação à Floresta nessa época?

 

R - Na realidade, a floresta plantada funciona como a própria agricultura, você planta o arroz e feijão, com objetivo claro de consumo, a floresta plantada tem esse objetivo claro de consumo também, só que em muitas das vezes ela também tem um outro papel. A preocupação maior é de tentar extrair o outro lado e de fazer um casamento perfeito com as florestas não plantadas, as florestas nativas. Esse era o enfoque da ocasião e continua sendo o de hoje também, o que se agregou muito fortemente nos dias de hoje é essa questão do acoplamento, vamos dizer, da parte da floresta ambiental, esse enfoque dessa associação da floresta plantada com a floresta natural, a floresta de objetivos mais voltados pra questão ambiental, isso sim que teve uma grande evolução, mas no mais, o princípio, o enfoque,sempre foram muito parecidos.



P/2 - A Vale tem uma interface com a Mata Atlântica na região de Minas, Espírito Santo, forte e tradicional, qual é o impacto de Carajás nisso tudo, nessa grande floresta ?

 

P/1 - Só pra emendar, dentro disso que ele ta falando,  depois que você passa pra essa atividade, a grande discussão internamente passa a ser Carajás, como se deu a sua entrada nesse processo em Carajás, levando em consideração isso que o Arnaldo falou?

 

R - Olha, Carajás é simplesmente uma maravilha, em todos os pontos, do ponto de vista ambiental, do ponto de vista da capacidade da empresa tocar um negócio naquela escala, que é a maior província mineral do mundo e você conseguir associar uma exploração mineral dentro de uma área como Carajás. Pra você ter uma idéia nos dias de hoje, a taxa de interferência, dentro das áreas protegidas, é de menos de 3%, ou seja, você tem uma área gigantesca, protegida da floresta nacional, que são as florestas de Carajás e Tapirapé, na região de Carajás. Uma área muito grande, que é a área que a Vale protege e dentro você tem pequenos pontos de interferência, que é a área de minério. Fazer com que essas duas coisas coabitem, consigam viver de uma forma muito equilibrada, isso é uma beleza. Do mesmo ponto que você tá protegendo um patrimônio florestal, ambiental, belíssimo, gigantesco, ao mesmo tempo você tá conseguindo fazer daquele território, um território produtivo, que consegue produzir produtos básicos, fundamentais pra toda humanidade, não se restringe ao Brasil, que o minério é exportado também, diversos tipos de minério e pra todo mundo. Fazer essa associação, esse casamento, é um negócio simplesmente engenhoso, belo, equilibrado, todos os adjetivos que você puder colocar em cima disso é pouco ainda, realmente ainda mais numa região, que eu diria, muito frágil, que é a Amazônia, é muito frágil sob o ponto de vista tropical, ambiental. É sabido que a própria fertilidade é muito baixa, muito curta, o que sustenta a floresta é basicamente a reciclagem, a madeira que tá ali em cima, a chuva, aquela reciclagem dos nutrientes, é uma linha muito tênue entre você manter o equilíbrio e promover, por exemplo, uma degradação. Então, conseguir se instalar uma operação do tipo que a Vale faz dentro da Amazônia, de uma forma completamente correta, equilibrada, eu diria, é um feito sem igual.

 

P/2 - Na nossa visão histórica, o que a gente tem uma grande curiosidade, com certeza as pessoas que vão tomar contato com o projeto também, é que esses 3%, essa maravilha toda, com certeza está lá e é motivo de orgulho pra gente, são um resultado feliz de todo um processo na verdade. Quando eu fiz a minha pergunta, no momento que Carajás surge pra Vale do Rio Doce, uma intervenção Florestal numa outra área, num ecossistema ao mesmo tempo rico, mas muito delicado, que impacto isso traz à empresa, de repente a empresa se vê obrigada economicamente até por desafio a intervir nessa área, isso traz essa responsabilidade, quer dizer, hoje se festeja o bom resultado, mas naquele momento possivelmente houve um espanto, talvez, não sei, com o desafio que era. O senhor viveu isso dentro da empresa, como foi chegar à Carajás em termos ambientais, em termos florestais na Vale, houve uma reorganização do ponto de vista administrativo, criaram-se novos departamentos, novas gerências, novos técnicos? Quer dizer, o que isso causou na empresa pra que hoje a gente possa estar realmente festejando?

 

R - Olha, interessante nesse processo, primeiro que é uma coisa contínua, e é um processo de construção talvez cultural, porque a Vale do Rio Doce, as frentes operacionais voltadas à mineração são fortemente interessadas, e não podia ser diferente, em ter resultado, ou seja, se eu sou gerente de extração de minério, a minha função é abrir uma cava e tirar o máximo possível dentro do meu programa de minério, o que aconteceu talvez nesses últimos anos desde a inauguração de Carajás a partir de 1985, foi um processo e está sendo até hoje um processo crescente de aculturação ambiental, porque existia essas metas, esse programa de extrair o minério e, ao mesmo tempo, ainda havia aquela cultura, não digo a Vale, uma cultura geral no Brasil, que o meio ambiente era uma coisa assim meio infinita. A margem da Amazônia, a Amazônia é uma coisa difícil de pensar, uma escala meio astronômica, o que acontecia, você dentro da Amazônia, cercado de floresta por todo lado fazendo uma cava, um buraco no chão, que, do ponto de vista da proporcionalidade, é uma coisa desprezível, é óbvio que no início as pessoas não tinham uma cultura ambiental estabelecida, mas já tinha um departamento, já tinha algumas pessoas pensando nisso. Em cima desse negócio todo, essas poucas pessoas fazendo esforço pras outras que são realmente aquelas que produzem, que faz o dinheiro, que faz a máquina girar, essas pessoas fazerem com que as outras fiquem conscientizadas, é o seguinte “eu posso fazer isso, mas eu tenho um jeitinho pra que essa coisa seja um pouquinho melhor”, ela pode estar mais voltada pra questão ambiental sem prejudicar minha operação ou apenas com pequena mudança, o que acontece então? A partir dos anos 1985, essa questão começou a vir num crescendo dentro da empresa e a função que hoje continuo com isso, eu diria até que a minha função hoje principal seria, botando isso assim muito no chão, no plano do operacional, do prático, tentar avançar um pouco mais nessa parte de pesquisa de conhecimento da reabilitação, tentar ter artifícios, ter mais elementos pra que a reabilitação seja bem sucedida, agora em paralelo, e talvez mais importante do que isso, é fazer com que as pessoas que trabalham efetivamente com operação de mina e com a operação como um todo, sejam conscientizadas do processo do meio ambiente. Porque é óbvio, se você tem uma missão de fazer um determinado produto, você acaba se focando muito naquela missão e acaba esquecendo às vezes o contexto, uma das funções nossas seria realmente lembrar e tentar fazer a pessoa e que o processo se insira dentro da questão ambiental. É um processo até de doutrinamento, eu diria que tem uma missão em paralelo, que é doutrinar, que eu acho muito bacana também.

 

P/1 - Gustavo, nessa época você tinha contato com o Eliezer?

 

R - Tive muito contato com o Eliezer, muito, muito.

 

P/1 - Porque ele foi uma pessoa que teve muita sensibilidade e que colocou pela primeira vez pro país, não sei ele, ou a Vale, pelo menos é o que a gente viu em vários outros depoimentos, essa questão não era formulada dessa maneira, mas do desenvolvimento sustentável.

 

R - Sem dúvida, o Eliezer Batista é uma cabeça brilhante, uma pessoa muito além do tempo dele. Eu diria que muitas das vezes tive oportunidade de ser aluno dele em algumas questões, essa questão ambiental e dessa inserção também na questão da economia. É uma pessoa que tinha e tem um descortínio assim altíssimo, eu me lembro de algumas missões, que ele me passava, ainda bem jovem também, ele tinha um jeito muito despojado, pegava o telefone, ligava “Gustavo, vamos bater um papo...” de repente, já voltava eu imbuído do espírito do 007, com uma missão assim que eu dizia “nunca pensei isso na minha vida”. Embora eu tenha ouvido na escola, mas da primeira vez que eu ouvi do ponto de vista de uma experimentação prática, falar do assunto, que era piretrina, que é um princípio ativo de algumas plantas que crescem em regiões altiplanas e que podem combater insetos sem agredir o meio ambiente, resumindo as piretrinas de uma forma muito genérica. A primeira vez que uma pessoa chega e fala isso pra mim nos anos 1970, você imagina um negócio desses, “olha Gustavo, seria interessante você estudar um pouco essas plantas, que conseguem produzir a piretrina”, eu saí de lá “gente, o que é isso?” Uma diversidade belíssima no negócio. Aí lá vai eu estudar sobre piretrina;  depois ele me passou uma outra missão, estudar sobre a extração de resina das florestas de Pinus, nós tínhamos algumas florestas de Pinus também, era uma coisa que o Brasil importava do exterior e também produz breu, terebintina, tem uma série de químicas por traz disso muito interessante, altamente estratégica, mas é uma coisa de base, vamos dizer assim, ambiental, florestal, era uma das ligações dele também e lá vai eu com a minha malinha de 007 pro interior do Paraná conhecer algumas indústrias que mexiam com essa questão da resina do Pinus, então era um negócio assim, que sem dúvida demonstra e demonstrava que ele é uma pessoa que tá muito além do tempo dele. Algumas das questões, a gente pode incrementar dentro da empresa, outras coisas dependiam de uma evolução muito maior dentro da empresa, depende da estratégia da empresa você entrar numa rota ou não, isso dependia de outras questões, mas do ponto de vista da concepção da idéia, eu sempre tive oportunidade de ter algumas reuniões, alguns encontros assim brilhantes, em todas as questões. Por exemplo, preocupação até de, que não é especificamente em tese o conhecimento específico dele, mas que são coisas voltadas até à preparação muito grande, eu tenho essa preocupação mas isso é da minha profissão, mas ele me chamava pra discutir questão de estratégia de semente; é um negócio, que coisa na Vale do Rio Doce, tem um camarada, que pega o telefone e..., então aquelas ligações sempre foram muito interessantes, quando tinha ligação do Doutor Eliezer, eu já ficava animadíssimo.

 

P/3 - E você casou?

 

R - Casei, casei em 1976, casei e descasei e continuo casado.

 

P/2 - Tem filhos?

 

R - Tenho três filhos 

 

P/1 - Mas nessa época você chegou a ficar em Carajás? 

 

R - Em algumas missões, porque eu fui responsável pela elaboração do programa de pesquisa florestal da Vale do Rio Doce na região de Carajás. Aliás, tenho uma história muito interessante, que, na ocasião, havia um conceito, por conta de alguns insucessos muito fortes no Brasil e no mundo, de que não haveria a menor chance de se implantar florestas nas regiões tropicais, mais especificamente próximo da linha do Equador. Havia uma demonstração, vamos dizer assim, explicita, bem no começo dos anos 1980, que aquilo ali era uma missão inglória, era uma missão que não ia dar certo. E a gente tava discutindo por conta da abertura de Carajás, da Ferrovia, pra montar uma base de pesquisa, pra fazer com que a Vale abrisse oportunidades de indústrias de base florestal na região, que eu acho, do ponto de vista estratégico, uma coisa excepcional, brilhante. E aí eu fui chamado então pra gente discutir a possibilidade de montar um programa de pesquisa e com isso acabei me deparando com cientistas de todo o mundo, trocando idéias com pessoas do Brasil e fora do Brasil, as pessoas principais no mundo da floresta e da questão ambiental e que havia uma divisão clara, nítida, explícita, metade dos cientistas diziam “olha, plantar florestas na região tropical é uma coisa de alto risco, que eu não sei se vai dar certo”, a outra metade dizia “só louco planta, se plantar vai errar e não vai ter sucesso”. E essa coisa ficou nessa queda de braço durante, eu diria que quase um ano, que culminou com meu chefe na ocasião, que não era mais esse, era um segundo chefe, o Murilo Passos chegou pra mim e disse “olha Gustavo, é uma divisão muito grande, tem gente que diz que só louco faz isso e tem gente que diz que acha que isso pode dar certo e a gente não pode investir 10 milhões de dólares numa roleta russa. Você aposta sua matrícula?” Eu levei um susto com aquele negócio, foi um efeito bumerangue “Você aposta sua matrícula, que a gente pode ?” Eu falei, “eu aposto a matrícula, eu topo essa parada”. E aí começou esse Centro de pesquisa, que é o programa de pesquisas florestais Carajás, que é um programa que ensejou e permitiu a criação da CEUMA, que tá até hoje e que permitiu a gente montar um parque florestal, hoje um parque de primeiríssima linha, uma coisa belíssima. Nasceu dessa coisa toda, desses encontros e desencontros, e formações e experiências mal sucedidas dentro do Brasil e que a gente teve que começar do zero. E a questão eu diria que é simples, na verdade, quando se trabalha com a natureza você tem que conhecer, que alguns lugares são diferentes do outro, isso é essencial e se você trouxe pros lugares mal sucedidos, se levou um material genético fora do conceito que aquela região permitia, é uma questão muito simples, o mundo trabalha com faixas de latitudes, coisas que tem a mesma latitude, tem uma tendência muito forte a funcionar muito parecido, não adianta você pegar uma latitude diferente e botar uma espécie de outro lugar e é o que estava se fazendo e tava todo mundo errando, bastou ajustar a questão da latitude a coisa deu certo, até hoje tá dando certo e o resultado é muito positivo.

 

P/2 - O Senhor chegou a implantar especificamente esse projeto lá ou só fez o estudo pra eles.

 

R - Eu fui responsável pela criação, pela concepção, pelos estudos, pela contratação dos cientistas, pelos debates de todo o processo até a implantação do projeto e de todo projeto de pesquisa durante vários anos e que culminou com o resultado de pesquisa final, apresentando as espécies que são viáveis pra região. Hoje a gente tem o que a gente chama dentro da área nossa, da raça local, porque acabou-se criando um material genético extremamente apropriado  e associado àquele meio. A pesquisa começou do zero absoluto, do zero completo pleno, até o resultado, e você tem hoje um material genético e você planta lá e você tem o resultado. Isso é uma coisa bacana na Vale também, que a Vale te permite dar passos e investir em coisas, que eu diria, mudam o curso da história. Esse movimento mudou o curso da história no norte do Brasil e se puder extrapolar, até a faixa tropical. Porque até durante a missão que eu fui ao Suriname, a gente via alguns trabalhos com empresas de altíssimo nome no mundo, de renome, fazendo trabalhos mal sucedidos dentro da faixa do Equador, muito ruins e, ao mesmo tempo, a Vale do Rio Doce não era uma empresa florestal, mas a organização da empresa permitia e permite até hoje, que você consiga dar passos que, praticamente, se você for pensar do ponto de vista da estatística, das chances, são coisas quase que impossíveis você pensar uma empresa de mineração dar um salto qualitativo na área florestal, que coisa linda,  quer dizer é possível, você consegue fazer isso.

 

P/2 - Tem organização e método?

 

R - Organização. Você ter o poder de catalisar as coisas, uma empresa desse tamanho, ela pode fazer o que ela quiser, tem o poder de organização e de alavancar as coisas, que é absurdo. Às vezes, chego a pensar que a empresa não sabe que ela tem isso, isso é uma coisa tão grande, que isso acontece. A tese do Touro. O Touro não sabe a força que ele tem, senão ele atravessava aquela cerquinha desse tamanhozinho. É uma comparação meio grosseira, mas a Vale é de um poder tão grande que se ela quiser realmente enveredar pra outras questões, basta apertar um botão, você consegue se organizar e partir pra uma questão que no momento pode ser considerada até utópica. O poder de organização e catalisação de organização das coisas.

 

P/2 - Da gerência do departamento florestal, qual foi a sua trajetória dentro da Vale?

 

R - Eu acho que a coisa evoluiu muito grande na carreira profissional porque eu acabei reunindo algumas coisas que até o mundo florestal, naquela ocasião, não tinha muito, quer dizer, um pouco de conhecer a parte de economia, de informática e vindo da área florestal, foi uma contribuição muito positiva e isso fez com que eu pudesse também entrar no mundo da negociação, a organização do Parque florestal pra uma empresa que consome madeira é uma coisa vital, é decisiva, em dado momento eu comecei a participar de negociações no Japão e em outros lugares, por conta da Cenibra no sentido de otimizar esse parque florestal. Essas coisas acabaram me dando uma experiência muito grande e aumentou sem dúvida minha capacidade de negociar, de entender melhor essas questões e que, no fundo, é a essência de qualquer negócio, quando você consegue caminhar pra posições cada vez melhores. Pra se ter uma idéia, a gente chegou a montar um parque florestal por força de algumas questões do acaso, muito início da organização da Vale do Rio Doce numa região que aparentemente não teria sucesso, hoje é onde tá (Abaiaçu?), que dizer, por muitas das vezes eu comecei a fazer ensaios na região e dizendo “olha, ou a gente dá um destino florestal pra esse conjunto, pra esse parque Florestal do Sul da Bahia, ou a gente vai ter que fazer alguma coisa, vender, porque uma floresta solteira, descasada de qualquer ligação comercial, solta, que tá há centenas de quilômetros da fonte de consumo, não tem sucesso. (interrupção) Esse tipo de discussão de debate, acabou levando à criação de uma fábrica. Hoje uma fábrica excelente, que tá funcionando aí, com uma lucratividade muito grande, que é (Abaiaçu?), isso por questões de oportunidade e de capacidade de investigação, mas por trás disso o que tem? Tem toda essa questão de você ter elementos e ter o ferramental na mão e o que aconteceu por conta dessa questão da investigação e da discussão em cima das opções florestais, eu acabei ascendendo dentro da empresa, até o posto de Gerente Geral, porque aí você acaba realmente tendo um domínio, vamos dizer e um conhecimento em cima do todo da questão.

 

P/1 - E você foi desenvolvendo também essa coisa gerencial em cima disso, né?

 

R - Sem dúvida, na realidade, eu diria que tem alguns quesitos que são fundamentais, mas o fato de eu ter vindo dessa parte de pesquisa e dessa parte de inventário, me faz sentir muito a floresta por dentro e quando você conecta isso com a questão do diálogo, e da relação da negociação, uma negociação bem feita tem o poder de alavancar um negócio de uma forma esplêndida. Se você consegue, vamos dizer assim, enxergar um negócio de uma forma positiva e levar pro seu interlocutor aquilo dentro de uma situação ganha-ganha, e fazer com que ele enxergue aquele negócio, você acaba sem dúvida, catalisando mais uma vez os negócios, tanto é que a Vale teve grandes avanços na área florestal por conta de negociações, de bons casamentos, bons sócios. A questão de recursos humanos é fundamental nisso, a relação humana é fun-da-men- tal nesse tipo de coisa, é básica. Aliás, cada dia mais entendo que isso é essencial pra tudo. As empresas não são feitas de parede, são feitas de gente, você tem que fazer essas coisas fluírem da melhor forma possível. E gente é uma coisa muito especial e também você tem que saber se comportar de uma forma muito positiva e com muito respeito, é uma coisa que agrega muito valor, quando essa questão passa pela questão social.

 

P/2 - Essa trajetória de grande sucesso, não só dentro da empresa, mas de resultados e com isso toda uma interação, como chega na privatização e na sua saída da empresa?

 

P/1 - Ah! Então deixa eu voltar um pouco antes de chegar nisso, que tá dentro do social. Essa possibilidade que você  fala que esse trabalho tem, esse impacto social, como ficou essa relação, vamos pegar o exemplo de Carajás, de toda preservação e desse trabalho com a Floresta e nas outras comunidades, nas quais existe, essas florestas da Vale, como foi a relação com as comunidades indígenas, as comunidades do Pará, já chegando no Espírito Santo, as de Minas, de Linhares e sobretudo em Carajás, como ficou essa relação?

 

R - Eu entendo que a relação social, eu diria até socioeconômica pode, a grosso modo, se desdobrar em dois grandes tomos. A primeira internamente, você tratar bem o seu corpo de colaboradores, de empregados, estar interagindo muito bem, porque as pessoas são muito dependentes da questão da motivação, você tem que estar muito atrelado e muito atento à essa questão. Agora pro lado de fora, é uma coisa também vital, porque você só consegue sobreviver hoje, eu diria, com um mínimo de harmonia se você inserir a empresa no contexto socioeconômico. Aliás, eu diria que esse é um forte desafio, mais que isso, é uma missão da empresa hoje, porque a Vale do Rio Doce é uma empresa de grande destaque, indubitavelmente, e se ela não se cuidar ou não tiver uma preocupação grande com a inserção dela mesmo no contexto regional, acaba que naturalmente começam algumas diversidades, dificuldade natural, então é uma preocupação, é uma arte e uma coisa altamente profissional inserir a empresa no contexto regional e eu diria que isso é uma preocupação crescente que deve ocupar a cabeça, no mínimo a título de reflexão de todos os empregados, você faz parte de uma empresa, que muitas vezes o seu entorno é muito desprovido e tem, às vezes, um nível socioeconômico muito baixo.

 

P/1 - Mas como é a relação da Vale, como era e o que modificou, quer dizer, o que permaneceu e o que transformou nessa relação ambiental com as comunidades, na postura da Vale com as comunidades?

 

R - Isso é uma relação pra mim, muito dialética, porque têm várias pessoas que se motivam, têm uns que tem algum interesse em tirar proveito da Vale, por ser uma empresa de grande tamanho e grande sucesso também, têm outros que se sentem meio desprestigiados, a gente nota que tem políticos ou alguma liderança em alguns lugares, que a gente visita e percebe isso claramente, que eles notam um desnível muito grande, entre a Vale do Rio Doce, que tá ali há alguns metros da cerca dele, e o que eles não conseguem fazer, por dificuldade econômica, financeira, às vezes por incapacidade técnica ou administrativa, e essa é uma questão que hoje permeia muito fortemente toda a Vale do Rio Doce, isso não é privilégio de Carajás, é em todo o lugar, porque o Brasil, de uma forma geral, é um país que tem vários lugares, vários pontos, a questão socioeconômica ainda tá muito subdesenvolvida, a questão social tá muito fragilizada, muito aquém do que a gente poderia chamar de satisfatório e quando você coloca uma empresa, do tipo Vale, que é um padrão internacional, você acaba chocando, conflitando, contrastando de uma forma muito grande na região e a empresa já está se preocupando com isso, sem dúvida alguma. E piora a questão o seguinte, se o Brasil, de uma forma geral, não crescer, se o entorno da empresa não crescer, esse desnível fica maior e esse aro, vamos dizer assim, essa potencialidade de se entrar em rotas de conflito, também acaba crescendo, isso atinge desde índios, coisas que muita gente não entende direito como funciona esse negócio, até empresas passando por municípios, prefeitos e uma série de questões ou até vizinhos realmente, que tem às vezes uma área criando um gadinho lá, se eles não tiverem consciência, não tiverem no mesmo clima econômico financeiro,  há uma natural tendência a ter um certo afastamento. Isso é uma preocupação que a empresa tem que ter, isso, mais uma vez, tem que permear a empresa toda, permear o corpo gerencial, em especial, pra ele ter uma atenção muito forte em cima desse tema, porque senão, você para uma empresa às vezes, você prende, trava uma empresa por questões sociais, mesmo que sejam infundadas, isso não interessa, isso pode não ter o maior fundamento, mas o coletivo gritando é uma coisa faz com que você não consiga evoluir ou funcionar bem num determinado local. Isso é uma questão altamente estratégica pra empresa e eu diria que há alguns anos atrás é uma coisa que ninguém pensava muito nessa questão da inserção da empresa no contexto regional, hoje eu diria, é uma peça de altíssima importância, ou faz isso ou vai ter problemas muito sérios.

 

P/3 - Simbolicamente falando, qual seria o livro que você indicaria pra um jovem empregado na fábrica?

 

R - (Risos), olha eu diria, que se  essa pergunta fosse feita quando eu tivesse uns 25 anos, eu diria que é Engenharia Econômica. 

 

P/3 - E hoje?

 

R - Além da Engenharia Econômica, eu diria que tem muitos livros. Até recentemente eu circulei pra vários gerentes, que tratam do casamento dessa questão social e ambiental, nesse contexto econômico, qualquer coisa que trate de Ecologia e Economia porque o mundo daqui pra diante não consegue viver sem água, sem ar. A questão da água já conhecida, é um negócio terrível. A gente, humanidade, tá tratando a questão água de uma forma muito displicente. Se a gente não se atentar pra essa questão, vamos ter problemas cada vez maiores. O próprio Brasil já tem algumas dificuldades, se a pessoa não tiver a noção do coletivo, nós estamos num planeta, estamos viajando numa nave, o que já foi falado há muito tempo atrás e que se a gente não tratar bem dessa nave, a gente pifa esse veículo nosso e a gente não tem jeito de pular fora. Então, eu diria que um conhecimento um pouco mais macro, mais conceitual entre as questões econômicas e as questões socioambientais, é fundamental pra uma pessoa hoje. Eu passo isso inclusive pros meus filhos, no momento não trabalho com a área de meio ambiente, mas que eles tenham esse conhecimento e consigam entender essa engrenagem, onde eles estão inseridos, como é que funciona essa coisa toda. No fundo nós estamos aqui pra ter uma qualidade de vida boa, nós estamos aqui pra viver bem, se é pra todo mundo viver num sofrimento tremendo, sem água e numa poluição, não tem graça e também não há sustentabilidade nisso. Então esse conhecimento dessa inserção, desse casamento dessas questões todas, que culmina com a palavra que já tá muito surrada, que é a sustentabilidade, é fundamental. Eu diria, nenhum gerente hoje consegue ir muito longe sem ter essa noção, até mesmo pra ele se colocar diante dos pares dele ou de uma platéia, seja gerente de qualquer coisa que ele venha a ser, ele tem que saber o contexto, tem que saber onde ele tá sentado, ele tá sentado no meio ambiente, se ele não souber isso, ele não consegue evoluir, ele não consegue ir adiante.

 

P/2 - Retomando a pergunta anterior, essa trajetória, me parece que com muitas conquistas, propiciando esse processo vitorioso hoje, em Carajás e ambiental e florestal e a saída da Vale e nesse meio a privatização, como é que é isso na sua vida?

 

R - Eu diria que um certo trauma até, porque eu vestia a camisa da Vale, eu vestia várias camisas, uma por cima da outra, eu pensava e vivia a Vale de uma forma muito integral, eu tinha uma paixão muito grande, quando veio o momento da privatização, inclusive eu tive a oportunidade de circular com os potenciais compradores da Vale, dentro do tema florestal pelo fato de militar muitos anos na área de florestas, passei a circular nos principais... com todos compradores potenciais, isso então já começou a fazer uma reflexão muito forte, eu comecei imaginar, que daqui há alguns meses essa empresa não é mais minha, vamos dizer assim, é uma coisa meio íntima até. Por outro lado, a empresa já assinalava, já acenava, com algumas coisas do tipo área florestal não é o nosso centro de negócio, vamos nos desfazer, quer dizer, eu era um, não mexia com minério, nem com trem, nada, quer dizer eu já comecei me sentir um pouco fora da empresa, um pouco por antecipação, comecei achar, “a não ser que uma pessoa compre a empresa e goste de mim”. A cabeça da gente começa a ficar... comecei a vivenciar... nesse momento comecei a abrir opções pra outras questões, o que acho acabou sendo muito positivo, porque realmente a empresa acenou negativamente, não precisava mais daquele tipo de serviço, era uma tendência a se desfazer da atividade florestal e eu comecei a pensar que eu poderia já ter alguns ganhos pessoais se eu pudesse explorar outras opções de vida, já tava com filho um pouco mais velho, eu já tava pensando em ter alguns negócios próprios. Comecei a viver um momento de mudança e essa coisa acabou casando, a empresa realmente foi vendida e eu tive essa oportunidade de abrir um negócio próprio. A empresa falou que não precisava mais do serviço florestal, a tendência era essa mesmo e eu peguei saí e abri os meus negócios. E eu diria, foi muita alegria, muita felicidade, muito trabalho que eu tive porque você passa a fazer tudo.

 

P/2 - O que o senhor foi fazer?

 

R - Eu comprei uma parte numa locadora de veículos. Fiz um estudo econômico, é um negócio muito positivo, isso até é um negócio que não dá muito trabalho, é um negócio que ganha dinheiro sem muito trabalho, mas você tem que ter muita harmonia entre os sócios. Esse eu diria que foi um momento em que a gente vê de perto o que é um sócio pensar completamente diferente de você, eu to pensando num caminho A, ele ta pensando num caminho B, o que foi ótimo pra mim também, porque é você viver de dentro, o que eu de certa forma administrava como empresa, mas dentro de um  contexto um pouco mais, um nível muito alto, onde a ficha acaba caindo mais rápido. Se uma outra pessoa tem, às vezes é uma questão de motivação pessoal, escapa um pouco da questão empresarial às vezes. Foi um aprendizado muito grande você mexer com uma empresa, em que uma pessoa tem um enfoque econômico completamente invertido, nada daquilo, outro caminho. Então eu passei uma temporada boa com esses sócios e depois, mas foi muito positivo isso, saí, era uma empresa até legal, um negócio que era pra ganhar, expandir a empresa, etc. e tal, mas a limitação realmente...

 

P/3 - Ela não existe mais?

 

R - Ela não existe mais, eu vendi, depois eles continuaram e a coisa não...

 

P/2 - Naquele caminho?

 

R - É naquele caminho, no Rio de Janeiro.

 

P/1 - Como é que ficou a área nessa sua saída, nesse momento que você vai, entra nesse plano, enfim dessa mudança no seu rumo profissional, quem continuou? Esse setor continua aqui internamente? 

 

R - É, a parte florestal continuou, vamos dizer assim, embutida dentro da parte industrial, porque a minha função era um pouco desenvolvimentista, era um criador de novos negócios, muito voltada pra expansão, pra abrir frentes novas, pra abrir florestas, opções de negócios, administrar as antigas também, mas pra abrir esses negócios . E as florestas antigas já tavam acopladas às indústrias e se a Vale já não tinha interesse, pelo menos internamente, nem em ficar com as indústrias, quanto mais com as florestas.

 

P/1 - Entendi.

 

R - Então, a minha função tava assim, de certa forma, extinta, não precisa mais um desenvolvedor, uma pessoa que fomenta, que avança, incrementa o parque florestal, não vai ter mais isso. Pra mim isso ficou muito claro desde o início e com isso abri depois, por conta até do meu filho, meu filho passou uma temporada na Austrália e ficou muito entusiasmado com essa questão de turismo e tal, aí eu tava me preparando pra isso e mexi um pouco também com a parte de restaurante, foi um aprendizado muito grande. O primeiro você ganha dinheiro e não trabalha muito, o segundo você trabalha muito e não ganha dinheiro (risos), então foi uma coisa.

 

P/2 - Como chama o restaurante?

 

R - Vila Assunção, no Botafogo. Aí você tem de tudo, um episódio belíssimo. O primeiro dia de funcionamento, um restaurante bonito, vidro Blindex, ar refrigerado, aquela coisa assim arrumadinha, passa um caminhão na rua, o caminhão com uma  altura muito superior ao padrão da rua e arranca todos os fios de dentro do restaurante, saiu puxando assim...

 

P/1 - Nossa!!

 

R - Ou seja, eu, a poucas horas de receber a primeira clientela, o restaurante estava com os fios puxados desde a geladeira assim, nada. Foi um negócio assim, eu falei “gente, agora arrego, não consigo mais”. Fizemos um monte de coisa lá pra coisa funcionar, eu sei que em meio dia ele tava lá, aberto, funcionando, com ar refrigerado direitinho, nem sei mais como nós conseguimos fazer aquilo.

 

P/1 - Qual foi o milagre...

 

R - O milagre daquilo, você mexer com negócio próprio você tem disso, tudo nota dez, pronto, você tá ali bonito, só falta tá o bigode enrolado lá na porta, paradinho, chapeuzinho na porta

 

P/1 - Tá com a beca já...

 

R - ...passa um caminhão e arranca tudo, leva fio leva tudo.

 

P/2 - Qual era a especialidade do restaurante?

 

R - Eu tava pegando uma fatia do mercado, vamos dizer, um pouco mais light, dar uma opção pra um nível assim mais de gerente de empresas, donos de empresa, que na região tinha muito ali. E as comidas, as outras opções são um pouco mais pesadas, e a gente tava querendo abrir espaço pra uma coisa mais fina, sem ser caro, um pouco mais cuidadosa. Uma coisa interessante, quem gosta mais disso é mulher, cheguei à essa conclusão, então 70% da clientela era mulher, gostavam assim, de uma torta um pouco mais refinada, uma saladinha e tal. Então pegava muita mulher e os donos das empresas, é até, de certa forma, um aprendizado de vida, um conhecimento do raciocínio, do pensamento do ser humano, e com isso você acaba sendo obrigado a refletir muito sobre isso, o que as pessoas querem? Por que essas pessoas querem isso? Quem é o meu cliente, é um exercício muito bacana e você tem uma interface muito grande com as pessoas, as pessoas que querem determinadas coisas, por que as pessoas querem. É um aprendizado muito grande. É uma diversidade muito grande também de gostos, de idéias, de tudo.

 

P/2 - Durou quanto tempo?

 

R - Fiquei um ano e pouco com isso e depois vendi também, porque o problema é que você faz conta, quando a gente faz conta, fica um pouco desanimado, quando faz conta você vai ver que aquele negócio “eu trabalho tanto e ganho tanto, isso não dá certo”. Aí o problema já não era de sócio, o sócio era excelente, uma pessoa maravilhosa. Era um pouco também uma questão conjuntural, logo depois que eu abri, abriu outros restaurantes na região também, então você tinha uma disputa muito grande. Mas a vida é assim mesmo, você tá sempre num cenário de grande instabilidade, nada é definitivo, então isso te permite, aí eu comecei fazer mais contas e tal e falei  “não dá certo trabalhar desse jeito”, trabalhar até que é legal, mas sem receber, não dá certo.

 

P/2 - Bom, fechou o Vila Assunção, o que o senhor fez?

 

R - Fechei o Vila Assunção, vendi os dois, o restaurante e a locadora de veículos e decidi tirar férias, falei “gente, vou parar um tempo”.

 

P/2 - Merecidas.

 

R - Merecidas, descansar um pouquinho, né. Aí acabei indo pros Estados Unidos,  passar uma temporada lá. Eu gosto muito de vinhos, sou um apaixonado por vinhos. No restaurante, inclusive, os temas eram muito voltados pra vinho. Tinha a tarde dos vinhos africanos, a tarde dos vinhos franceses, a tarde dos chilenos, tinha sempre um tema pra deixar o ambiente um pouco mais animado. Aí eu fui pros Estados Unidos. 

 

P/2 - Foi pro Napa Valley?

 

R - Fui pro Napa Valley. Um lugar belíssimo, uma coisa assim sensacional, aí tomei meus bons vinhos, etc. e tal, aquela coisa toda e acabei conhecendo sem querer, um brasileiro que tava lá num supermercado, um supermercado muito bom e ele batendo papo, aquela coisa toda, foi um episódio, que eu acabei esquecendo um objeto meu e ele me ligou e acabou que a gente se aproximou e eu continuava de férias e ele tava dizendo que ele tava lá e tava satisfeito com a família, eu falei “gente eu não tenho nada pra fazer agora, eu vou ficar mais um pouco aqui, agora tenho até amigo”, a família voltou, eu falei “vou continuar um pouquinho, que minhas férias tão muito curtinhas”, eu tinha tirado com eles 12 dias de férias, eu falei “vou ficar mais um pouco” e acabei ficando muitos meses por conta disso, porque depois nessa história de vinhos eu comecei a pensar em juntar uma coisa com a outra, eu vou ser a pessoa que trabalha, porque tinha gente lá, eu vi numa placa lá tavam procurando especialistas em vinhos, e eu “aqui está ele”. As pessoas queriam me contratar, mas o social security tem dificuldade, eu ia ser uma espécie de meio que como um gerente que organizava as compras dos vinhos pra casa e aquele negócio me entusiasmou tanto. Comecei a pensar “então eu tenho que tirar o social security, pensar naquele negócio em aberto, mas sempre como pano de fundo, na questão que me motivou a compra do restaurante, que é a questão voltada pra turismo, pra eventualmente chegar até a uma pousada,  alguma coisa que pudesse conciliar esse prazer com ganhar dinheiro. E esse negócio todo acabou evoluindo de tal sorte, que uma pessoa me perguntou “olha o social security você não tem, mas tem uma empresa aqui que tá precisando de alguém que fale português”

 

P/1 - Nossa, que incrível!!

 

R - Então tá bom, “você fala espanhol?” “Falo  espanhol”, português e espanhol, aí acabei trabalhando nessa parte ligada a turismo, que foi muito agradável também, uma passagem muito boa, fiz muitos amigos lá. 

 

P/2 - Era recepção de grupos, essas coisas?

 

R - Era recepção de grupos, mas de grupos que só falavam português e espanhol, então você tinha que organizar, tinha que organizar a chegada do pessoal, as tabelas.

 

P/2 - Isso era onde?

 

R - Aí eu saí da Califórnia e fui prá Flórida, essa coisa se deu lá na Flórida. Eu falei “gente, eu to num lugar que eu não tenho compromisso - que eu era uma espécie de free lancer na empresa e ganhava dinheiro que nem um desespero, o dinheiro vinha do jeito que eu queria - o que eu vou fazer mais?” Eu já estava pensando nos meus filhos estudarem nos Estados Unidos.

 

P/2 - Estava solteiro nessa época?

 

R - Não, a minha mulher falou “eu vou também” e o pessoal foi pro Brasil. Eu falei “eu vou ficar mais um pouco e vocês vão se organizando, porque aqui o negócio tá muito legal, ganhar dinheiro que é uma loucura”.

 

P/3 - Seus filhos tem que idade?

 

R - 16, 15 e 18, já tava tudo, ainda dá pra pegar escola aqui. Eles gostam que eu falo português, adoro eu falar português, tá ótimo, não tem problema nenhum aqui, venho ganhando dinheiro.

 

P/1 - Tá tudo direitinho...

 

R - ...com possibilidade de escolas, aí o pessoal começou se organizar. Aí eu me pego de repente, com carteira já, com carro, casa, já nos EUA, “gente eu to ficando americano”, indo à festa de americano, eles achavam que eu era alemão, adoravam meu sotaque de alemão, eles gostam muito de alemão, então achavam o máximo aquilo. Então foi uma boa passagem também, aí falei “gente, eu não vou ficar mais aqui não, esse negócio de vocês se organizarem no Brasil tá demorando, eu vou voltar”. Aí cheguei no Brasil, ótimo também, acabei me envolvendo como consultor nessa parte de meio ambiente, comecei a prestar alguns serviços nessa parte de consultoria e esse negócio começou me...”que coisa nobre, bonita, brilhante”.

 

P/2 - Diferente, porque antes não havia tanto esse apelo. Mesmo na Vale não se pensou que da parte florestal fosse se encaminhar pro meio ambiente, né? Em 2000 isso era 2000, né? O meio ambiente...

 

R - O meio ambiente crescendo a todo vapor. Aqui o pessoal com uma cabeça maravilhosa, pensando nessas questões. A Vale do Rio Doce tem tudo a ver com meio ambiente, eu falei “não tem nada mais próximo do que você estar operando no meio da Amazônia, isso é puro meio ambiente”. Mas quando cheguei, ainda não fui contratado pela Vale, fui contratado por outra empresa, voltada pra parte de elétrica, empresa de barragens essa coisa toda, voltada pra energia. Aí comecei a me apaixonar com esse negócio.

 

P/3 - Mas o senhor foi contratado depois que chegou, ou chamado dos Estados Unidos pra cá??

 

R - Não, eu cheguei dos Estados Unidos, falei que nos Estados Unidos eu tava com a cabeça focada em turismo, muito forte focada em turismo, aí comecei a fazer algumas incursões, alguns contatos, em alguns lugares muito estratégicos e nesse decorrer fui chamado pra uma consultoria, aí de uma consultoria fui chamado pra outra, aí de outra eu fui chamado pra consultoria dentro da Vale, aí a coisa começou, fui definitivamente conquistado, fisgado pela questão ambiental, porque eu falei “é um negócio muito brilhante e tem tudo a ver com a empresa, com o momento, com as questões, com o negócio da empresa” aí eu saí dessa rota que eu tava imaginando de turismo, na realidade o turismo é uma questão também de você estar muito próximo da natureza e com qualidade de vida.

 

P/1 - Como que foi essa sua volta aqui pra Vale, você saiu num momento em que você tinha um papel desenvolvimentista, que todo esse trabalho com a floresta representava, aí você volta num momento pós privatização, com outra mentalidade, com uma preocupação grande internamente, mas já num outro contexto, como foi esse seu retorno?

 

R - Olha,  o bacana desse negócio é que eu saí com a cabeça voltada pra desenvolvimento de parques florestais plantados e com essa interface forte com a questão regional, social , porque isso tem tudo a ver, você não consegue implantar um parque florestal sem cuidar do entorno, da região, isso pra mim é uma coisa muito clara, sem a menor dúvida. Então essa coisa, o que se mudou nos dias de hoje foi o seguinte, antes eu buscava o desenvolvimento de indústrias de base florestal, através das florestas, hoje eu diria que a questão de reabilitação e de proteção de áreas ambientais dentro da empresa é quase como se fosse uma garantia da continuação da empresa, uma coisa é você desenvolver, outra coisa é você garantir o desenvolvimento da empresa, sobretudo na Amazônia, não tem como você possibilitar a evolução de negócios, de qualquer tipo de coisa, que não tenha um bom lastro ambiental e hoje a minha função de certa forma, nada mais é do que isso, esse trabalho de tá conectado com as frentes operacionais, trocando idéias, passando informações de como a gente pode reabilitar o ambiente, nada mais é do que o seguinte, o que tá por trás disso? Você trabalha bem, cuide bem do meio ambiente, que você pode continuar a trabalhar bem, é uma espécie de  garantir ou perpetuar a possibilidade de você desenvolver e evoluir indefinidamente, garanta a questão ambiental que você tem passe livre pro seu negócio. É um pouco como a seqüência daquilo que eu vinha fazendo só que, agora o cunho é ambiental e não exatamente a questão de indústria de base florestal, então acho que isso foi, eu diria que até uma coincidência meio filosófica, muito grata, muito positiva pra mim. Hoje eu tô muito feliz nisso.

 

P/1 - Qual é seu cargo hoje?

 

R - Eu sou Gerente de Proteção e Reabilitação Ambiental da empresa.

 

P/2 - Quais são seus grandes desafios nesse cargo?

 

R - É gente. Esse negócio de desafio, eu diria, cultura, conhecimento, isso você obtém, compra, desenvolve, você faz. O charme, o grande pulo do gato das coisas, é você fazer as pessoas olharem pro mesmo lugar, entenderem, pessoas de espírito diferenciado, de visões diferentes e falar “vamos tentar olhar pra aquele foco lá no fundo, ali tá a saída, por ali que passam todas as coisas”, fazer as pessoas às vezes pararem um pouco pra pensar, que aquele é o melhor caminho, sem abandonar a rota deles. Não é simples. Aparentemente parece uma coisa, mas não é não, é muito difícil fazer as pessoas de um ritmo alucinante poder parar e falar “se abstém um pouquinho só do seu trabalho e pensa numa outra coisa que vai fazer com que você possa trabalhar mais livre, melhor, tranqüilo, sem problemas, sem pressões”. É uma coisa que precisa um convencimento muito grande, você precisa estar muito atento às emoções, aos valores de cada pessoa, porque as portas de entrada pra cada pessoa são diferentes. Posso sensibilizar você através de um ponto, diferentemente de outras pessoas. Então você tem que ter um pouco de percepção, voltando à sua pergunta, eu diria que o desafio é: a relação humana, basicamente, o resto é fácil.

 

P/1 - Qual foi o momento mais marcante nessa sua trajetória na Vale do Rio Doce, que você viveu?

 

R - Eu diria, a conquista, vamos dizer, do status de permitir com que a Vale pudesse entrar na Amazônia plantando, foi um negócio assim brilhante, pra todos nós que participamos disso. Outra conquista muito grande é fazer com que as empresas florestais tivessem o seu próprio parque florestal organizado, que isso era uma coisa no inicio meio desorganizadão. Quando começou essa coisa no Brasil ninguém pensava isso de uma forma ordenada, “tem madeira ali, vamos tocando”, ninguém pensava numa forma altamente estratégica, esse negócio, ainda mais porque tinham algumas questões ligadas ao FISET, tinha alguns financiamentos e alguns incentivos fiscais, que fazia esse negócio assim um pouco relaxado, um mundo de florestas plantadas, uma coisa um pouco relaxada, então todo mundo se acomodou um pouco, mas a visão da empresa de se organizar, pra montar o seu próprio parque, pra ter essa coisa muito mais sob controle, eu diria foi outro ganho tremendo, do ponto de vista da economicidade da empresa, foi um salto assim absurdo, a economia da empresa, nós fizemos alguns ensaios econômicos, de dezenas de milhões de dólares, que a empresa tava salvando por ano, é uma coisa muito forte. A evidência desse negócio, eu como participei do grupo de planejamento estratégico da empresa, por cinco anos, uma coisa que também foi um negócio muito bacana, você participar de um grupo que pensa, sobre qual é o futuro da empresa, pensa e traduz aquilo em números e discute e coloca todas as opções da empresa numa mesa, só é um negócio muito bacana, bacana pro grupo e pra empresa também. É muito legal. Esse tipo de coisa então te permitia movimentar essas peças da questão florestal com muito mais pertinência, e muito mais lastro, você tem números pra aquela coisa toda. Então foi um outro momento muito brilhante com destaque na empresa.

 

P/1 - Se você pudesse mudar alguma coisa na sua trajetória de empresa, você mudaria?

 

R - Olha, a única coisa talvez que tenha me incomodado, hoje eu tento compensar com muita conversa com meus filhos, é porque eu passei muito tempo viajando, muito tempo, eu acho que esse talvez tenha sido um pecadozinho, essas viagens acabam fazendo com que a gente fique um pouco distante dos filhos num momento importante e isso eu diria que é o lado. Mas na vida você tem sempre, muitas das vezes,o fenômeno da gangorra, você sobe algumas coisas de um lado e tem que ceder em outras coisas, hoje eu falo isso claramente com meus filhos.

 

P/2 - Eu tenho uma pergunta final, nós falamos tanto de futebol, qual é o time do seu coração?

 

R - (risos) Embora hoje não seja um time de primeira, mas eu sou muito Flamengo. Acho o Flamengo assim muito gente, muito povo. Mas eu não desgosto dos outros não, eu sou meio cosmopolita, não sou daqueles que falam, “o Vasco jogando sei lá contra o Penharol, eu sou contra o Vasco”,  não sou nada disso. Sou muito flamengo, mas gostaria que os outros tivessem bem também.

 

P/1 - Uma pergunta agora tudo revista Caras, alquimia, (risos), e os mitos e lendas da floresta, esses causos assim?

 

R - Vocês não imaginam o que é mitos e lendas em cima da área de meio ambiente com florestas, vocês não imaginam, tem coisas absurdas. Uma delas assim, que chegou inclusive a abalar uma área nossa, uma frente operacional nossa, era que o eucalipto causava impotência masculina, saíram com essa história, essa coisa foi tomando corpo, “olha, quem respira ar de eucalipto não vai conseguir funcionar de jeito nenhum”, (risos). Aí começou as mulheres dos caras que trabalhavam, começaram a ficar preocupadas e essa coisa começou a tomar corpo e é uma coisa completamente louca, infundada. Até chegar “gente, ou os caras que tão no eucalipto, durante o dia, estão com tempo de sobra pra fazer outras coisas, e chega de noite não resolve, mas é completamente infundado”. Mas estórias como essa tem assim aos milhares, não só porque o eucalipto toma toda água, secam todos os rios, é um negócio assim, que como se o eucalipto é uma espécie com se fosse diferente de outras espécies. E a questão do meio ambiente, por exemplo, algumas coisas ligadas à ocupação do território, existe muita confusão em cima disso, e muitas pessoas se valem pra inserir e enxertar um pouco mais de confusão. Tem gente que gosta de quanto mais confuso melhor, então se aproveitam um pouco dessa onda toda e aí se aproveitam pra vender uma tese nova, mas tem muita coisa a respeito.

 

P/1 - Bom pra encerrar, o que você acha da iniciativa da Vale do Rio Doce estar fazendo um projeto das suas memórias contadas através dos empregados?

 

R - Eu acho isso muito importante, olhando isso de uma forma um pouco mais global, o Brasil, de uma forma geral, destrata muito, dá pra se entender que é uma questão muito voltada, sobretudo à questão de recursos financeiros, mas há um destrato muito grande com a questão da cultura, da tradição, das informações, quer dizer, isso não é uma coisa muito bem administrada. Eu diria, isso é um ato louvável da empresa e certamente, se já não existe em certos lugares, outras empresas vão copiar isso também, eu acredito. Porque isso é uma coisa muito bacana, muito importante, pra todos nós, até não só pras futuras gerações, como até pros familiares das pessoas, que vão ter acesso a esse tipo de coisa. Acaba, talvez, até entendendo um pouco mais quem foi o pai, ou a mãe, enfim, na empresa. Dificilmente você conta uma história dessa pra um filho da forma que a gente tá conversando aqui, né. Ele passa ter acesso a isso, a própria empresa passa a ter acesso e no futuro, algumas pessoas, que talvez não tenham entendido o porquê do nascimento de determinadas coisas, podem voltar talvez a um banco de informações e ali colher alguma informação. A gente vê hoje dentro da empresa, não só aqui, vários lugares a questão dessa falta da memória, de arquivos, de papel, de documentos, é uma coisa gritante, a empresa não pode prescindir desse tipo de coisa, eu diria enfim, é uma coisa louvável, muito bacana.

 

P/1 - Obrigada, foi ótima a entrevista.

 

R - Obrigado.


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