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História

Um Brasil de micos-leões

História de: Adelmar Faria Coimbra-Filho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/05/2005

Sinopse

Nascido em Pernambuco e radicado na capital fluminense, Adelmar Coimbra-Filho traçou uma interessante trajetória no meio conservacionista brasileiro. Forma-se em História Natural, atua no Parque da Gávea e no Jardim Zoológico do Rio de Janeiro, e organiza diversas ações de preservação e reintrodução de espécies vegetais e animais na Mata Atlântica. Nesta entrevista Adelmar nos conta sobre seu trabalho de conservação com base na integração entre diversas áreas das ciências naturais, apontando a importância de se pensar a interação entre distintos elementos de um ecossistema. Se diferencia por ter sido um primatólogo pioneiro na ciência brasileira e por seu trabalho árduo na ampliação de reservas naturais e na luta pela manutenção de micos-leões.

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História completa

P/1 - Bom dia, senhor Coimbra. Obrigada pelo Senhor ter vindo aqui dar o seu depoimento. Nós gostaríamos de iniciar nossa conversa com o senhor falando seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R - Meu nome é Adelmar Faria Coimbra Filho. Eu nasci no dia quatro de junho de 1924, no estado do Ceará, em Fortaleza.

 

P/2- E, Senhor Adelmar, os seus pais eram de Fortaleza?

 

R - Não, meu pai era pernambucano. A minha mãe era de uma família bem antiga do Ceará, e de origem hispânica. A origem do meu avô era a região norte da Espanha. Já brasileiro, mas de origem. E meu pai era de origem portuguesa, mas o português que veio de lá já tinha alguma mesclagem de holandês. Então, eu sou um mestiço ibérico e brasileiro.

 

P/1 - Senhor Coimbra, seus pais faziam o quê? Qual era a atividade deles?

 

R - Meu pai era engenheiro eletricista, engenheiro elétrico. Eu preferia engenheiro, ele engenheiro elétrico, é meio esquisito, mas... E minha mãe é dona de casa, uma mulher inteligentíssima, poderia fazer qualquer profissão, mas era uma dona de casa exemplar.

 

P/1 - E o senhor tinha mais irmãos? A família era grande?

 

R - A família era constituída por cinco pessoas, dois já falecidos. Era um advogado e o outro especialista em raio X, que trabalhou com o meu pai durante muito tempo. Uma irmã que estudava letras neo-latinas, letras clássicas e anglo-germânicas. Ela formou-se pela Universidade do Rio de Janeiro.

 

P/1 E onde o senhor morava lá no Ceará? Como era?

 

R - Bom, eu saí muito pequeno do Ceará. Meu pai trabalhava nas obras elétricas de um açude que levou muito tempo para ser concluído. Se eu não me engano ele foi concluído no período do presidente Juscelino Kubitschek, que era o Açude de Orós. Naquela ocasião ele trabalhava justamente nessa parte de manutenção de parte elétrica. Depois ele saiu, foi para Pernambuco, para Recife. Eu saí do Ceará muito pequeno, aproximadamente com um ano, dois anos, não me lembro. Fomos para Recife. Eu saí de lá para o Rio de Janeiro com aproximadamente doze, treze anos. Nós nos estabelecemos no Rio de Janeiro e voltei já como profissional em algumas áreas. Minha área no início da minha formação, que era ao que eu me dedicava mais, eram florestas tropicais.

 

P/1 - Só para a gente voltar um pouquinho, antes de o senhor falar das florestas, como foi a sua mudança do Ceará para o Rio de janeiro? O senhor sentiu uma diferença? Como é que era?

 

R - Eu não me lembro. Nós saímos do Recife e viemos para o Rio de Janeiro, eu era pequeno, tinha doze, treze anos, e fomos morar em Vila Isabel. Justamente naquela época eu encontrei o Noel Rosa. Fazia umas reuniõezinhas assim, tipo meio fundo de quintal, na Rua Tôrres Homem. Eu não me lembrava muito daquela época, não. Depois nós saímos de Vila Isabel viemos para Copacabana, se eu não me engano, para morar na Rua Constante Ramos. Aí foi onde eu comecei a despertar o interesse pela natureza.

 

P/1 - E o senhor, quando mudou para Copacabana, estudava perto? A escola era perto da sua casa?

 

R - É. Eu estudei em escola pública, que era muito boa naquele tempo.

 

P/1 - E como que se deu esse... O senhor está falando que nessa idade, tão jovem, despertou para a questão da natureza. Como foi isso?

 

R - Bom, eu não posso explicar bem como foi porque eu tenho a impressão de que isso é intuitivo. Eu sou uma pessoa telúrica. Eu gosto da tanto da terra como da natureza, tanto é que eu pensava em ter uma grande fazenda na região oeste onde eu teria, inclusive, minha reserva biológica, uma criação de gado. Mas tudo isso dentro de um contexto, dentro de obediências. Desde muito novo eu tinha um respeito muito grande pelas questões ambientais. Chocava-me ver coisas erradas.

 

P/1 - E como era Copacabana nessa época?

 

R - Copacabana, nessa época, no tempo em que eu cheguei ainda tinha o obelisco na Avenida Atlântica. Então você tem mais ou menos uma ideia. Eu saí da Rua Constante Ramos e passei a morar na Rua Almirante Gonçalves. Esse obelisco era mais ou menos ali perto da saída da Almirante Gonçalves para a praia de Copacabana.

 

P/1 - E o senhor morava em uma casa ou um apartamento?

 

R - Não, era uma casa. Uma casa. Onde eu tinha...

 

P/1 - Ainda tinham muitas casas naquela época?

 

P/2- E os estudos do senhor? O senhor completou sempre no mesmo colégio?

 

R - Não, eu mudei muito de colégio. Estudei no Pedro II, estudei no Vera Cruz, porque a gente mudava muito e meu pai não tinha uma situação financeira muito sólida. Ele sempre trabalhou para companhias. A última companhia em que ele trabalhou antes de falecer era dele, chamava-se Fortec, Fornecedora Técnica Limitada, trabalhava com raios X. Daí ter afetado meu irmão, que trabalhava sempre em recuperação de raios X velhos, defeituosos, de hospitais públicos. Então, teve muito trabalho em competir com entidades já tradicionais e ricas como a Westinghouse, GE. Ele trabalhava com raios X quase manufaturados por ele e tinha um técnico tchecoslovaco, de onde ele importava apenas os tubos de Crookes para raios X. Eu não entendo muito disso mas eu me lembrava. E um dos meus irmãos morreu, provavelmente, por causa de contaminação de raios X.

 

P/1 - E quando o senhor estava nessa fase da escola? Qual a lembrança que o senhor tem desse período?

 

R - Eu me lembro que naquela época havia uma reunião. Eu acho que isso era muito importante para o civismo. O pessoal perfilava, cantava o hino nacional, levantava a bandeira. Isso no meu colégio público. E não tem como eu saber, eu não sabia como é que eram os outros, mas provavelmente era a mesma coisa. Havia mais civismo, havia mais nacionalismo verdadeiro.

 

P/1 - E os seus irmão estudavam na mesma escola?

 

R - Não, só depois quando nós passamos para o colégio particular, Colégio Mallet Soares, em Copacabana, é que nós três ficamos juntos. Eu, o meu irmão que dava aula de geometria descritiva por ser arquiteto e era pintor também. Pintor clássico, tinha curso de Belas Artes. A minha irmã também estudava no Colégio Mallet Soares, em Copacabana. Muito bom o colégio.

 

P/1 - E quando você terminou o colégio, nesse período tinha cursinho para entrar na faculdade?

 

R - Não, eu não fiz a faculdade primeiro. Eu tinha na cabeça ser fazendeiro, mas não esses fazendeirinhos. Eu pensava muito de uma maneira mais ou menos ilógica, que o meu pai não era fazendeiro, então se eu tivesse um curso qualquer para trabalhar para um fazendeiro, eu ia perder tempo. Tanto é que eu fiz o curso técnico agrícola na escola na Escola de Agricultura de Viçosa. Um curso muito bom porque os primeiros professores que davam o curso para os engenheiros agrônomos, no meu tempo, davam para os técnicos agrícolas. Era um curso de dois anos que formava muito bem porque além de dar uma educação agronômica prática, a mesma que recebia um engenheiro agrônomo, ela não tinha tanta teoria. Então isso me facilitou muito quando eu fiz o curso de história natural, porque eu fiquei com uma base agronômica extremamente importante para as minhas realizações.

 

P/1 - O senhor foi fazer esse curso em Viçosa?

 

R - Fui fazer em Viçosa.

 

P/1 - O senhor foi fazer porque queria fazenda?

 

R - Não, eu queria fazenda, mas meus pais sempre diziam: “Não faça isso que você vai perder tempo.” Mas não perdi tempo, pelo contrário. Me deu uma vivência prática e um poder de criatividade que foi muito útil quando eu terminei o curso de história natural, que hoje foi fragmentado em ciências biológicas e ciências geológicas. Mas quando eles eram unidos, era praticamente uma formação ecológica, que é muito mais pragmática para uma pessoa que vai executar um trabalho conservacionista do que só ver a parte biológica ou a geológica. Hoje, quem é geólogo, está em situação financeira melhor porque a Petrobras emprega e paga muito bem. E, geralmente, os biólogos não são muito compreendidos. O Estado do Rio de Janeiro, por exemplo, paga pessimamente ao biólogo.

 

P/1 - E quando o senhor foi para Viçosa fazer esse curso, o senhor tinha quantos anos?

 

R - Eu fui para Viçosa justamente no período da guerra. Eu fui, entrei em 1944, saí em 1946.

 

P/1 - E...

 

R - Não, não. Eu sei que eu fui convocado para a guerra, mas a guerra acabou antes, logo em 1940. Então eu nem cheguei a ir para Parnamirim fazer um treinamento com os americanos para ir pra Dakar e para a Itália. Eu não fui, acabou.

 

P/1 - E nesse período se falava muito da guerra? Como é que as pessoas agiam?

 

R - É, se falava. E o presidente Getúlio Vargas não se definia muito. Eu não me interessava de jeito nenhum por problemas bélicos, militares.

 

P/1 - Então o senhor deu sorte porque não precisou ir.

 

R - É, porque podia afundar o navio em que eu vinha do norte. Os navios Araraquara e o Ita Itanagé foram todos afundados na travessia. Ia servir de alimento para Carcharodon carcharias ou para o Galeocerdo cuvier. Sabe o que é?

 

P/1 - Não.

 

P/1 - O tubarão-anequim é o maior tubarão-branco, que eles chamam. E o Galeocerdo é o tintureiro. Hoje a gente sabe que o cabeça-chata também é um grande comedor de gente.

 

P/1 - E quando o senhor terminou o curso, o senhor voltou para o Rio?

 

R - Voltei para o Rio. Eu tinha terminado esse curso, fui recomendado por uns dois ou três professores que me conheceram bem e eu entrei para a Prefeitura do Distrito Federal, serviço florestal. E eu fui designado como administrador do Parque da Gávea.

 

P/1 - E como aconteceu isso?

 

R - Eu era muito novo naquela ocasião, mas eu já tinha uma experiência lá de Viçosa muito boa. Então eu comecei a aplicar coisas que eu mesmo ficava surpreso porque o meu pessoal era todo muito ignorante, de modo que eu sabia muito mais. Então isso me deu uma certa ascendência de poder exigir certos trabalhos que iam dando certo. Eu nunca fiz um trabalho de base conservacionista agronômica que desse errado, por sorte ou por muito bom senso. Então eu fui bem naquilo. Eu fiquei no Parque da Gávea durante dez anos e eu fiz um trabalho de restauração florestal experimental, sem muito comprometimento ecológico. Mas hoje o Parque da Gávea, Parque da Cidade, que eles chamam, tem jacarandás plantados por mim com cinquenta centímetros de diâmetro. Quer dizer, já dando madeira com aproximadamente cinquenta anos. Então, é exequível. Esse negócio de não plantar no Brasil: “Ah, planta vai demorar muito.” Tem que demorar, tem que demorar alguma coisa. Isso não é pé de alface. Se a Suécia e os países nórdicos plantam carvalho até hoje, aqui no Brasil o desenvolvimento florestal é muito maior, muito mais rápido. Haja vista que estão obtendo os reflorestamentos com eucalipto na Aracruz, na Klabin. O brasileiro, de um modo geral, o brasileiro ignorante, ele tem certa aversão ao eucalipto. Quando ele fala eucalipto já está errado. Ele tem sempre que dizer eucaliptos, porque são setecentas espécies e cada uma completamente diferente da outra, com características de aproveitamentos fabulosos. Haja vista que usando eucaliptos você evita cortar as árvores nacionais que já estão no fim. A Aracruz, por exemplo, fez um híbrido de um eucalipto do Timor com eucaliptos grandes da Austrália. Essa hibridação feita por eles e está dando uma pasta celulósica de primeira e está fornecendo madeira de uma qualidade excepcional. Haja vista que quem importa, se eu não me engano, é a Itália, a Suécia... Países com uma movelaria já famosa. Se eles estão usando essa madeira, eucalipto... E quando exporta o liptus, que é o nome que ele deu pra esse tipo de híbrido, ele não está cortando mogno, não está cortando outras madeiras. O que o Brasil e, principalmente, esse governo precisam, é se atentar, respeitar mais as normas conservacionistas ditadas pelos técnicos. Porque, assim como ocorreu no Nordeste, que praticamente foi à desertificação, está sendo antrópica e pode ocasionar isso também em vários trechos da região atlântica. Muitos rios da região atlântica, principalmente na parte nordeste, são rios secos, rios intermitentes. Foram assim? Não eram assim na época da descoberta e talvez cem anos depois ainda fossem perenes. Príncipe Maximiliano divide, por exemplo, o Rio Pardo, na Bahia, que era rio caudaloso, do Rio Belmonte, que era normal. Tem 150 anos isso. Hoje são rios secos, assoreados.

 

P/1 - É verdade.

 

R - Quase intermitentes. Então, é preciso ter muito cuidado para os ditames da ecologia, porque a ecologia não é brincadeira. Ecologia é a mais complexa de todas as matérias e tem que ser multidisciplinar. Um só botânico, um só zoólogo, um só geólogo, não vai fazer nada. Ele tem que trabalhar de uma maneira inteirada, levar a sério o problema. Por exemplo o caso da transposição. Posso falar disso?

 

P/1 - Pode. Eu só queria voltar um pouquinho.

 

R - Volta.

 

P/1 - O senhor falou que o senhor foi para o Parque da Gávea, e eu queria que o senhor contasse para a gente como o senhor conseguiu ir trabalhar no Parque da Gávea.

 

R - Eu fui recomendado, por dois professores lá de Viçosa, ao diretor do Serviço Florestal da Prefeitura do Distrito Florestal, que era um engenheiro agrônomo formado em Viçosa e que me conhecia. Era Osmar Rezende o nome dele e ele me convidou para dirigir o Parque da Gávea. Eu dirigi durante dez anos, ainda. O Osmar até depois saiu, faleceu e tal.

 

P/1 - E o Parque...

 

R - Mas nessa ocasião eu tinha tido, em Viçosa, a cadeira de silvicultura. E eu gostava demais dessa cadeira. Então eu lia muito, ficava lá na biblioteca. Aquilo era isolado, não tinha muita coisa para fazer a não ser jogar um futebol de vez em quando e atletismo. Mas eu não tenho físico de atleta, então eu fazia o atletismo como se fosse um esporte. E eu ia muito à biblioteca, ia muito para as matinhas ver os reflorestamentos. Desde novinho eu gostava muito de árvore, daí mais tarde eu ser primatólogo. Os macacos brasileiros vivem em árvores.

 

P/1 - E logo depois que o senhor entrou? Isso foi na década de 1940? Quando o senhor foi fazer história natural?

 

R - Como eu estava em uma posição oficial, eu era um funcionário público que gostava do trabalho, eu vivia bem na Gávea. Eu morava em Ipanema, pegava o carro, ia para o Parque da Gávea, que fica perto, um lugar extremamente bonito. Naquela ocasião, a própria fauna e a flora eram muito mais ricas. A favela da Rocinha começava e a minha guarda era a Guarda Municipal da Prefeitura do Distrito Federal. Era armada, não era essa palhaçada que vive hoje. Porque um guarda no Rio de Janeiro, desarmado, ele banca palhaço. O que é que ele vai fazer se um camarada chega com uma arma na mão? Arma militar na frente dele. Ele não é covarde, não. Ele não é burro, às vezes, de reagir. Então ele não pode fazer nada. Eu, por minha conta, mandava desmanchar qualquer favela que estava sendo construída. Qualquer favela, não. Qualquer construção dentro de área protegida, área de preservação permanente. Isso deu certo porque eu fiquei dez anos lá e não tive um barraco em volta do Parque. Quando eu saí do Parque, em dois anos, aquilo virou uma favela imediata e ninguém coibia nada. E depois, também, houve autorizações. Quer dizer, diretrizes do governo, futuro governo. Eu entrei com o último ou penúltimo prefeito do Getúlio, Hildebrando de Góes, que foi quem me nomeou. E começaram a favela e mandaram meus guardas desmanchar. Uma favela, não, qualquer casa. Aquilo ficou uma maravilha. Depois houve invasões. Hoje existe até barraco dentro da área do parque. E, por minha conta, sabendo que aquilo era uma área que estava sendo potencialmente destruída... Eu, por minha conta, mandei ampliar os piquetes dez metros no perímetro do parque. Por minha conta. Acho que ninguém iria fazer uma coisa dessas. Mas eu estava prevendo que ia perder, então ampliei a área do parque. Fiz muitos reflorestamentos, principalmente palmito, que é uma árvore muito característica da Floresta Atlântica e indispensável para a alimentação de uma quantidade muito grande de espécies. Tanto é que mais recentemente eu fiz uma reintrodução de um tucano que ocorreu no Rio de Janeiro e desapareceu do município, que é o tucano-de-bico-preto. De 1969 para 1970 eu fiz, juntamente com o diretor do Parque Nacional da Tijuca, uma reintrodução de 47 tucanos-de-bico-preto que tinham sido apreendidos pelo IBDF [Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal]. Provavelmente iam para um Jardim Zoológico morrer. Nós fizemos esse trabalho com muito critério. Aliás, eu publiquei isso. E hoje você vai a qualquer lugar do Rio de Janeiro que tenha uma floresta e você encontra tucano. É um bicho muito bonito e foi um presente de um cearense que deu ao Rio de Janeiro.

 

P/1 - E quando o senhor vai para a faculdade, para a Universidade?

 

R - Como eu estava bem situado, tinha um emprego que gostava, eu retardei a entrada na faculdade. Eu fiz um vestibular para a Universidade Federal do Rio de Janeiro, fiz durante um ano e desisti. Estava me atrapalhando a vida. Eu já estava casado, com um filho e isso ia me atrapalhar. Então eu praticamente não estava antevendo interesse. Eu estava desenvolvendo um trabalho florestal bom, inédito, mas depois percebi que era indispensável ter o curso superior. Então quando eu fui abrir a matrícula e a tinha perdido, tive que fazer outro vestibular. Fiz o vestibular para a Universidade do Estado da Guanabara, que é um professorado muito bom, e fiz o curso lá. Eu entrei em 1960 e terminei o curso em 1964, porque tinha o curso de bacharelado e tinha o licenciado. Eram quatro anos e eu terminei. E passei um período muito grande só trabalhando. Sempre pesquisei, eu gostava de pesquisar. Tanto é que eu perdi. Quer dizer, perdi. Está lá, eu posso voltar e fazer, mas não interessa mais. Eu plantei no Parque da Gávea, mandei plantar, aproximadamente, mais de quatrocentas espécies de árvores da Mata Atlântica e mais ou menos um terço delas de outras partes do Brasil. Principalmente algumas do Nordeste e algumas da Amazônia. Obviamente não com interesse ecológico. Aliás, as do Rio de Janeiro, da Mata Atlântica, eu plantava com intuito já ecológico. Essas amazônicas eram em fase experimental. Então eu encontrei coisas muito interessantes como a imburana-de-cheiro do Nordeste, eu fiz comparação entre ela com sementes nordestinas, sementes da Mata Atlântica, sementes do Acre e sementes do chaco paraguaio que me trouxeram. E eu vinha observando diferenças muito patente entre elas. A do Acre um grande botânico florestal brasileiro classificou como Torresia acreana e as do Nordeste e da Mata Atlântica, Torresia cearensis. Mas a Torresia cearensis do Nordeste, da caatinga, difere bastante da Torresia cearensis da Mata Atlântica. Ela tem diferença de hábito, de formação. A do Nordeste é mais esgalhada, mais baixa e a da Mata Atlântica é muito alta, lembra demais e é em tudo muito parecido com a acreana. E a impressão que eu tenho é de que não são espécies. É uma superespécie muito próxima uma da outra, com variações geográficas. Eu plantei. Posso dizer isso?

 

P/1 - Pode.

 

R - Eu plantei um exemplar da Torresia cearensis do Ceará, da caatinga cearense, em Petrópolis, na casa do meu sogro. E ela ficou uma espécie magnífica com o mesmo habitus da caatinga, bem esgalhada, com quase quarenta centímetros de diâmetro. Ela ficou lá, e eu preciso voltar para saber se ainda está lá, porque isso vai mostrar. E também durante o desenvolvimento da semente, a gente notava características. A raiz da nordestina tem uma espécie de um xilopódio comprido, uma reserva, e a gente não vê isso na da Mata Atlântica. E outra coisa, eu estou dizendo Torresia porque eu não admito o nome Amburana cearensis, é errado. E muitos botânicos brasileiros ainda colocam o nome Amburana cearensis. Amburana é um termo errado. Porque eles confundiram Torresia com Torrisia. E de acordo com as regras de nomenclatura zoológica e botânica, uma letra não é motivo pra modificar um gênero. Então um autor americano conceituado, ele com certeza ouviu dizer que Torrisia, o americano produziu. Ao invés de ler Torresia — que é uma homenagem a um frei alemão, botânico nosso, mais ao menos em meados da década de 1800, 1850, 1860 —, ele fez esse gênero Torresia em homenagem a um médico cearense que gostava de plantas. Daí o nome Torresia. Mas como alguém pronunciou Torrisia, que é um gênero de botânica posterior, esse americano disse: “Torrisia já existe.” Então invalidou e botou Amburana. Até hoje, poucas pessoas botam o nome Torresia, mas aí eles: “Não, isso é nomina conservanda.” Em regra de nomenclatura zoológica e botânica, nomina é o nome que é usado quando esqueceram o verdadeiro. Mas não é o caso, porque os melhores botânicos brasileiros, principalmente Adolfo Ducke, um dos maiores especialistas do mundo em leguminosas, usava sempre Torresia. E Carlos Toledo Rizzini, um dos maiores fito e geobotânicos brasileiros, usava sempre Torresia. Morreu há pouco tempo. E se você ligar na internet e procurar Torresia cearensis, todos os bioquímicos brasileiros botam Torresia. Então, não é nomina conservanda, entendeu?

 

P/1 - Entendi.

 

R - Então esses aspectos passam. Eu sempre me interessava por isso, embora seja zoólogo.

P/1 - Então, eu queria que o senhor contasse um pouquinho… Quando o senhor entrou na universidade, na faculdade, o senhor foi para o curso de história natural...

 

R - História Natural.

 

P/1 - E a História Natural englobava… Era um curso para biólogo, para zootecnia?

 

R - Não, não era para biólogo. Porque o curso de filosofia era pra formar professores. Mas muitos faziam apenas o bacharelado para ser técnico. De modo que um técnico que fizesse história natural, ao meu entender, estava um pouco mais adaptado a obter, entender melhor uma atividade executiva do que um só biólogo. A não ser que, por exemplo, um biólogo se especializasse em genética e fosse fazer biotecnologia, genética aplicada. E tudo bem. E como o pessoal da geologia ia para a Petrobras, trabalhar em perfis. Mas no meu caso, por exemplo, história natural foi muito bom, porque eu estudava petrografia, cristalografia, edafologia. E o professor era muito bom, um professor da Escola de Engenharia, já com certa idade, muito bom, professor Rui. Ele dava um aspecto — porque era um homem muito inteligente ecológico à mineralogia, tudo. Foi bom para mim, eu gostei. Eu gostei porque eu já lia, por autodidatismo, por minha conta, tudo. Eu tenho uma biblioteca razoável porque a FEEMA [Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente] nunca comprava um livro de primatologia de fora, só comprava livro de poluição. Os engenheiros se beneficiavam. Eu tive sorte porque eu trabalhei, sempre publico um trabalho. Eu não faço um artigo publicado, eu chamo trabalho publicado. Eu executo um trabalho e depois publico aquilo que eu executei.

 

P/1 - E...

 

R - Hoje se faz isso, que é o desenvolvimento da pesquisa, tudo. Mas naquele tempo você fazia artigo, pegava meia dúzia de livros, tirava um pouquinho, botava uma concepção dele lá. Mas, não. Eu executava um trabalho. Tanto é, por exemplo, que a reintrodução do tucano hoje está completando 32 anos. Então, a maior parte dos tucanos, hoje, são nascidos já desses reintroduzidos. Porque eu soltei o tucano? Dentre todos, eu soltei vários animais. Eu publiquei isso sobre a restauração da fauna do Parque Nacional da Tijuca. O tucano foi um deles. Mas levei muito a sério o tucano porque há um déficit de palmito, do Juçara, o palmito verdadeiro da Mata Atlântica, porque todo mundo corta palmito. E é um dos alimentos mais importantes para a fauna da Mata Atlântica, tanto desde roedores até muitas aves. Porque que eu soltei o tucano? Porque eu também sempre fui um grande plantador de palmito. Não são grandes plantadores, era eu sozinho em áreas sem nenhum recurso para fazer isso. Fazia por ser obstinado, querer fazer. Então os tucanos são os melhores disseminadores. Ele come, utiliza a polpazinha do fruto, que é quase um açaí. É um açaí de estirpe único. O açaí, por exemplo, você corta uma das partes e as outras continuam dando fruto. O palmito, não. Cortou matou. Então, como ele é estirpe única, ele está fazendo falta já para a Mata Atlântica. Então as populações de espécies dos animais da Mata Atlântica estão extremamente rarefeitas. Você não vê mais animal porque não tem o que comer. Foi o caso da maçaranduba. É uma das árvores mais importantes para o reflorestamento da Mata Atlântica. Reflorestamento ecológico, pensando em alimentação da fauna. Você não encontra lugar para ter semente nem muda. Se você for procurar onde é que tem uma maçaranduba para tirar a semente na Mata Atlântica do Rio de Janeiro, não encontra. Porque demora. Você já ouviu falar em maçaranduba?

 

P/1 - Já.

 

R - É um monumento, uma árvore monumento. É uma árvore com até um metro de diâmetro, um tronco liso de vinte metros, abre a copa lá em cima e os frutos são como se fossem miniaturas de um sapoti. Qualquer pessoa pode comer, é doce. Atrai todo o tipo de animal da fauna. De modo que essas coisas precisam ser vistas, ao invés de estar criticando o eucalipto. Porque quem está plantando eucalipto está querendo ganhar dinheiro com o eucalipto. Mas você planta eucalipto e evita cortar uma árvore nativa. Então vai plantar árvore nativa, pelo menos uma.

 

P/1 - Senhor Coimbra, como é que era essa questão ecológica na década de 1960, o meio ambiente?

 

R - Praticamente não existia. Existia só na cabeça de pessoas mais inteligentes. Porque que existe pessoa inteligente e pessoa burra, é lógico. Você não tira duas folhas iguais de uma mesma árvore. Como é que você quer ter a veleidade de achar que todo mundo é igual? Não há essa igualdade. Em biologia é justamente a diversidade, a biodiversidade é um fato. Como é que você pode querer que dois homens tenham a mesma inteligência. Você pega um homem brilhante, trabalhador, honesto e pega um homem burro, ladrão, preguiçoso. Como é que você pode? Não pode. Mas isso é geneticamente. O que eu estou dizendo é que pode ter gente, esse pessoal que acha que todo mundo é igual. Todo mundo tem que ter os mesmos direitos e as mesmas oportunidades. No meu ponto de vista, se eu fosse presidente com poder, duas coisas eu faria de imediato: uma educação fundamental extremamente boa e uma saúde pública extremamente boa. O resto vem tudo normalmente. Você tendo um homem com uma boa formação básica e uma saúde boa, ele normalmente sabe qual é a área universitária que ele vai querer ter. E outra coisa também importante: universidade é para todos. Isso é uma balela, isso é brincadeira. Eu acabei de dizer agora que não existe nada igual. Homem inteligente, homem burro, burro em QI baixo, geneticamente. Eu acredito que a genética determina níveis de inteligência também. Então, tendo um estudo fundamental muito bom, privilegiado, isso é coisa que um presidente, um estadista vai ter que fazer. A universidade vem automaticamente. Mas um estudo fundamental privilegiado, tratar com respeito a um professor primário, uma professora primária, e uma saúde pública digna, você tem um país... Eu não vou dizer que é isso que a Coréia tenha feito, mas alguma coisa nesse sentido ela deve ter feito para ter esse desenvolvimento fabuloso, técnico que ela teve. Não estou nem citando o Japão. No Japão eu sei como é o estudo, porque eu estive lá um mês. Eu vi como é que as crianças estudam no Japão. Mas o estudo universitário, “universidade é para todos”, como estão dizendo agora, isso é brincadeira, não é sério. Você pode ter um eletricista ou um mecânico ganhando muito mais do que um engenheiro. Se ele for bom, ele vai sozinho. Se ele não tem nível para acompanhar um estudo de engenharia ou medicina, ele pode ser um grande enfermeiro, um grande fisiologista. Então eu acho isso. Eu acho isso.

 

P/2- O senhor está falando que na década de 1060 se falava muito pouco a respeito.

 

R - Não, nem existia.

 

P/2- Quer dizer, em 1950, então.

 

R - Mas uma coisa é preciso, depois da ECO-92...

 

P/2- Mas nós estamos em 1960, o senhor já está querendo chegar em 1992. (risos)

 

R - Não, então está bom. Vai dirigindo. Vai dirigindo.

 

P/2- E, quer dizer, o que eu queria dizer é se em 1960 nada...

 

R - Nada, nada, nada.

 

P/2- Em 1950, então?

 

R - Não sabiam nem definir ecologia. E até hoje, tem muita gente que não define de uma maneira rápida e rasteira a ecologia.

 

P/2- O senhor em 1960 terminou a universidade? O senhor estava ainda na Gávea, no Parque?

 

R - Estava no Parque da Gávea. Fiquei lá durante dez anos.

 

P/2- Então o senhor sai do Parque da Gávea?

 

R - Eu saí do Parque da Gávea por umas questões extremamente desagradáveis. Mas que na época... Eu não quero te dizer isso porque é uma coisa um pouco desagradável. Mas o jornalista que me entrevistou, que eu pedi pra não colocar essa parte, colocou. Então está lá, você vê.

 

P/2- Eu vou olhar.

 

R - É, está lá. Depois eu fui para cuidar um tempo do Carlos Lacerda, para o Jardim Zoológico do Rio de Janeiro. Fui ser chefe do serviço técnico-científico do Jardim Zoológico do Rio de Janeiro. Eu estava com todas as minhas experiências de floresta tropicais no Parque da Gávea e, sem eu querer, eu fui jogado para o Jardim Zoológico do Rio de Janeiro. Quase como se fosse um favor, porque iam me mandar pro matadouro de Santa Cruz e eu não era veterinário. E por uma série de outras coisas, que eu não quero comentar aqui. Lá, o diretor, Professor Henrique Melo Barreto, um homem desperdiçado, extremamente competente, mas já era mais velho, não tinha posição. Mas era um dos maiores fito-geólogos que eu conheci. Ele: “Coimbra, o que fizeram com você? Você vem para cá, vamos trabalhar.” Aí foi que eu comecei a estudar. Eu sempre fui muito estudioso, comecei a estudar a fauna. Quer dizer, ia de beija-flor a elefante, porque eu fiquei como chefe do serviço. Quando entrava um animal por doação, aquisição: “Coimbra, vê lá o que a gente vai fazer aqui.” Então tinha que ver a espécie. Quer dizer, levantar taxonomicamente o animal, verificar o aspecto dele, porque a sessão de veterinário estava começando também. E, principalmente, o que era mais difícil, o processo nutricional, a alimentação, o arrazoamento desses animais. Isso me deu tamanha capacidade imediata de trabalhar com animais de um modo geral, que foi muito boa. Aí foi que eu comecei a me interessar pela primatologia. Não foi no Jardim Zoológico, quando eu trabalhava com chimpanzé, orangotango, vários macacos brasileiros, africanos, mas foi porque eu vi, tempos atrás, um macaquinho, que era o mico-leão-dourado, que eu achei uma coisa extraordinária. Estava na casa de uma família portuguesa, ele estava amarradinho pela cintura e assim corria. Naquela época eu gostava de caçar. “Mas você é um conservacionista, como é que você gosta?”  Eu gostava não de matar. Eu gostava de ver o trabalho dos cães na mata, gostava de andar na mata. Tinha um português, era vidraceiro, um rapaz alto, gostava de caçar também. Ele caçava em Portugal, gostava de caçar javali, aquele cervo, perdiz. Então eu caçava só paca e um porco do mato pequeno, porque eu tinha dois cães que tinham certa agressividade que era prejudicial a eles, tinham um faro muito bom. Mas quando eu ia caçar... Que eu fui caçar o porco grande, o queixada, no Espírito Santo, eu perdi de saída um cão. Eles bobearam, o porco estraçalhou logo. Mas o porquinho pequeno dava bem, então eu caçava naquela região da Fábrica Nacional de Motores, na Baixada do Rio de Janeiro, por ali. Eu caçava paca, que se caça até hoje. Você vê que eu não era matador. Se não matasse paca ou porquinho, não matava mais nada. Tanto é que quando eu encontrei o mico-leão-preto em São Paulo, eu podia ter atirado em um para dizer: “Olha, eu descobri.” Então muita gente me gozou lá: “Você viu mico-leão-preto, tal coisa.” Porque nas fotografias saiu o ambiente, mas não saiu o bichinho. E eu fui obrigado a pegar e provar que tinha. Mas essa ida à mata nas caças é que me deram uma experiência muito grande em questões florestais, eu tenho muita coisa para publicar. Como eu me estava considerando um zoólogo, primatólogo, eu deixei de escrever muita coisa de floresta, de árvores, por isso. Mas a coisa de recente... Eu publiquei um trabalho muito importante em benefício do problema de despoluição da Baía de Guanabara. A importância das florestas que protegem os rios que deságuam na Guanabara. Saiu publicado há um ano.

 

P/1 - Quer dizer, o senhor passou das florestas tropicais...

 

R - Para a fauna.

 

P/1 - Para a fauna.

 

R - E na fauna, lá dentro, por causa do mico-leão, passei a estudar. Então eu salvei o mico-leão-preto, porque redescobri na floresta. Hoje o Cláudio Pádua está fazendo na Fundação IPÊ [Instituto de Pesquisas Ecológicas] um trabalho muito bom. Está preservando, está fazendo um trabalho admirável sobre a preservação. Mas, se não fosse eu, aquela mata tinha sido desaparecida. Porque o Instituto de Florestas estava usando para pesquisas florestais. E na fotografia que eu recomendei a você ver, a primatologia, a silvicultura em São Paulo, a revista de 1976, por aí, tem o meu trabalho sobre essa descoberta, com fotografias. E em uma fotografia tem não sei quantas perobas derrubadas, tronco limpo, do Instituto de Floresta. Eu não entendi aquilo, aquilo é uma reserva. É preciso levar muito, eu defendo muito esse ponto de vista. Parque Nacional, reserva disso, reserva daquilo. Essas áreas, essas unidades de conservação são o que são, uma reserva. O que é uma reserva? Uma reserva é uma salvaguarda de um patrimônio para você usar quando souber usar. Porque da natureza, atualmente, ninguém sabe nada. Você, por exemplo, o mapa do genoma humano... Posso falar isso?

 

P/1 - Pode.

 

R - Foi decifrado. Aí eu pergunto: “E daí?” É a mesma coisa que você descobrir um besouro novo e dar um nome científico nele. É o tal, tal, tal nome científico. E daí? E a biologia dele e a ecologia? E o potencial que ele tem de ajudar a humanidade de alguma maneira? Você pode ter um inseto que tem uma substância. Naquela luta do inseto contra a planta, a planta cria veneno para evitar o inseto, e o inseto cria antiveneno para comer a planta. Nessa interface é que vai sair muita coisa boa. Mas o biólogo sozinho não faz nada. E o bioquímico sozinho também não faz. Tem que ser uma entidade multidisciplinar, os dois trabalhando juntos para descobrir coisas fabulosas. É possível que o inseto tenha uma substância que cure todos os tipos de câncer, tudo o que é vírus. Ninguém sabe nada. Haja vista que as espécies conhecidas que nós temos atingem, em flora e fauna, entre microorganismos, tudo, um milhão e setecentas mil espécies, aproximadamente. Não quer dizer que se conheça. São identificadas, tem um nome científico. Muito poucas são aproveitadas. Para você ter uma ideia de quanto se sabe do que não tem nome científico: de acordo com estudiosos na área vai de dez milhões a cinquenta milhões. É a totalidade, quase, da biosfera. E quem é que conhece as interrelações entre elas? Por exemplo, árvore entre árvore, problemas de alelopatia. Alelopatia são certas propriedades de uma árvore com a outra, nocivas ou benéficas. Ninguém sabe nada. Então quando você cria uma unidade de conservação, você está criando uma reserva. É como se fosse uma biblioteca verdadeira onde tudo está certo. Você pode queimar uma biblioteca maior e não perder tanto quanto você descobrir um ecossistema inteiro. Porque o ecossistema inteiro tem 3,5 bilhões de anos evoluindo. O que é errado vai saindo. Então, atualmente, em um trecho da Floresta Amazônica que um debilóide derruba para pegar uma ou outra madeira, ele está destruindo milhões de espécies que nem nome científico têm. Está acabando com a reserva da humanidade. Por exemplo, quando o  [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis] autoriza um índio a matar tatu-canastra: “Ah, porque é alto. Não pode fazer isso.” O índio, qualquer índio, é Homo sapiens, faz parte da humanidade. E ele está destruindo no setor da humanidade desconhecido para o bem da humanidade, inclusive eles. Esse negócio de “nação índia”, isso para mim é palhaçada. Eles têm que ser integrados. Eles são brasileiros, tem que ser integrados ao Brasil, brasileiros. Dar instrução, certo? Ensinar o português. Ensinar alguma coisa para fazer. E se eles quiserem ter a cultura deles, acrescenta a cultura deles, não tem problema. Agora tem que ser brasileiro. Essa “nação índia”, eu acho que é um crime de lesa a pátria. Nações índias, nações, não tem nada. É Brasil.

 

P/1 - Então, Senhor Coimbra...

 

R - Esse é o meu ponto de vista.

 

P/1 - Não, lógico. Nós estamos falando da década de 1960, que o senhor estava falando agora mais dos animais. E tinha alguma ONG que trabalhava com essa questão que o senhor conhecia?

 

R - Conhecia e tinha pessoas excelentes. José Cândido de Mello Carvalho do museu, já falecido, foi um grande conservacionista. Era zoólogo, um entomólogo e trabalhava com insetos. Se eu não me engano, a especialidade é hemiptera, são percevejos. Tem mais de quinhentos trabalhos publicados, um homem de valor. Tinha, por exemplo, o Sampaio, que era do Parque Botânico, era um botânico do Museu Nacional também. E no Brasil tinha diversas personalidades, mas era uma andorinha só. Em 1992, que você diz que...

 

P/1 - Pode falar. Pode falar. (risos)

 

R - Em 1992, por incrível que pareça, muita gente diz: “Ah, não adiantou nada.” Adiantou muito. Abriu certa oportunidade para pessoas que já tinham aquela sementinha que cresceu. O que também não resolveu muita coisa. Haja vista o que o governo atual está fazendo com a Amazônia. Porque essa ministra, eu não sei se eu devo dizer isso, é uma pessoa excelente, bem intencionada, mas é incompetente para o cargo. Não dá pra.. Meio ambiente no Brasil é coisa de uma seriedade tal, que eu fico abismado como é que esse pessoal não entende, não vê. Às vezes você entende mas não alcança o significado futuro da preservação das reservas ambientais. Você pode dizer uma coisa de imediato, você me entende? Tirou o mato, acabou água. Isso é possível que tenha. Impermeabilizou o solo todinho, São Paulo está inundada. Por quê? Porque não deixou áreas de infiltração. Então o assoreamento do Tietê e os rios se transformando... Rios são artérias, não é pra jogar porcaria ali dentro. Você não vai injetar porcaria no seu sangue. É o que se está fazendo com os rios brasileiros.

 

P/1 - E, Seu Coimbra, como foi pro senhor a década de 1970 nessa questão ambiental?

 

R -  Os anos 1970, para mim, foram de estudo.

 

P/1 - O que acontecia?

 

R - Acontecia pouco. A Maria Tereza Jorge, quando foi presidente do IBDF, criou uma porção de reservas, Parques Nacionais, e foi um trabalho muito bom. Mas a Amazônia estava praticamente, naquela época, integral. E tinha que fazer mais áreas ainda. Porque quando se fala em preservação da biodiversidade, tem uma coisa que tem que ser levada, que eu até falei, que eu queria até ver se o meu relator do nosso grupo falou isso. Duas coisas são indispensáveis. Primeiro: ampliar ao máximo as áreas dessas reservas. “Ah, mas não tem mais mata.” E daí? A gente bota mata. Porque tem que ter uma área grande para que ela seja farta de espécies. Uma área pequena... Você liquida ela. Você tem uma simplificação biótica em cada decênio. Você tem cem espécies hoje, daqui dez anos tem oitenta, daqui a dez anos ela vai diminuindo. Como é que você pode ter um reserva de mil hectares e bota uma onça pintada lá dentro. Acaba veado, acaba todo o mamífero maior. Ela vai comendo. E tem que ver o potencial, fazer um estudo sério. Não é como eles estão pensando. É o caso da reserva do mico-leão no Rio de Janeiro. Eu tenho criticado tremendamente porque eles estão concentrando os micos-leões em uma área mínima da reserva. E o resto é capinzal. Então eu idealizei um método de ampliar imediatamente a reserva. Eles não aceitam, porque a base da reserva é o eucalipto. Mas o eucalipto não é para ficar, é para favorecer, e o mais rápido possível, a floresta. Para que os micos-leões não vivam concentrados comendo os últimos animaizinhos que são, que têm predileção. Eles espalham e não há uma pressão grande sobre aquela área minúscula. É fácil de entender. Os americanos entenderam logo. O Ibama não entendeu. “Ah, é exótico.” Exóticos estão os capins que estão lá, que todo ano pegam fogo e avançam um metro, dois metros na mata.

 

P/1 - E nesse período... Nós estamos falando de 1970, porque nós falamos de 1950, 1960, 1970...

 

R - Em 1970 eu redescobri o mico-leão-preto aqui em São Paulo. Eu preparei... Quer dizer, sugeri a reserva biológica para o mico-leão-de-cara-dourada da Bahia. Escolhi a área e lutei para que ela fosse decretada. Porque como era o General Geisel que era o presidente da república, tinha um interventor, que era o Almirante Faria Lima, um homem sério. Eu mandei um ofício para o presidente da FEEMA dizendo que aquela área era indispensável, que estava engavetada em Brasília em uma gaveta de um Ministro da Agricultura. Então o Almirante Faria Lima mandou um ofício que eu vi, duro, dizendo que aquela área era indispensável, porque é de interesse do Estado do Rio do Janeiro. E era interventor, saiu. Porque senão não tinha saído antes. Ficou com base em um ofício meu. E se eu não tivesse redescoberto o mico-leão-preto, aquela floresta do Morro do Diabo tinha acabado. Continuava Reserva Florestal ao invés de Parque Estadual. E o Cláudio Pádua não tinha o material para ele fazer o trabalho que está fazendo agora. Então eu trabalhei muito. Eu fiz a restauração em 70%, mais ou menos, 69% da fauna do Parque Nacional da Tijuca. Quer dizer, eu mostrei que é exequível fazer isso sem dinheiro nenhum, não tinha nada. Tinha só boa vontade e ser obstinado.

 

P/1 - E o senhor trocava informações com outras organizações fora do Brasil?

 

R - Antes tinha muito com Russell Mittermeier, mas depois que eu me aposentei ele estava em uma posição muito grande, muito forte. Ele é presidente da Conservation, então a gente perdeu. Mas sempre que ele publica um livro eu tenho uma dedicatória dele, que é uma dedicatória magnífica, dizendo que eu guiei os passos deles aqui no Brasil, um livro Hotspots. E tem dedicatórias que eu falei com o Fernando há pouco. Que eu, eu não preciso de nada. Eu sou membro da Academia Brasileira de Ciências, tenho o prêmio Augusto Ruschi, uma medalha de ouro de duzentos gramas.



P/2- Bom, a gente parou na década de 1970, quando o senhor...

 

R - É, o que eu falei foi que na década de 1970 [havia] dois fatos muito importantes. Um foi extremamente importante, principalmente para São Paulo e para a natureza, de modo geral. Foi a redescoberta do mico-leão-preto no Morro do Diabo. Com isso, o Morro do Diabo estava sendo trabalhado para pesquisas florestais e, nessa revista que eu disse a você para não deixar de ver, tem não sei quantas toras de peroba perfeita, tombadas, e o trecho da mata ali todo destruído. E eles iam fazer isso com o resto. Tinha um engenheiro agrônomo lá, que [foi] quem presenciou essa briga. Eu sempre falei: eu sou um cara pequeno, franzino, mas sou brigão que sou danado. Era, principalmente. E, então, quem estava lá e que podia dizer alguma coisa era o Cláudio Pádua, que trabalhava ainda comigo e estava fazendo uma espécie de um estudo lá no Morro do Diabo, começando. Porque eu briguei com o homem, disse: “Mas, como é que o senhor bota gado aqui, toca fogo numa reserva biológica?” O cara era o chefe e eu disse lá uns desaforos, me revoltei e fui embora. O Cláudio sabe melhor, porque eu nem me lembro mais o que aconteceu. Quando a gente fica nervoso, não se lembra. Estava derrubando madeira para criar gado. Quando teve a descoberta, aquilo teve uma repercussão internacional. Então eles transformaram a Reserva Florestal em Parque Estadual de preservação do mico-leão-preto de São Paulo. A espécie só ocorre em São Paulo.

 

P/2- E na década de 1970, principalmente...  

 

R - Eu também fiz a prospecção aérea e terrestre da reserva de Una, na Bahia, para preservação do mico-leão-de-cara-dourada, juntamente com o delegado regional do IBDF de lá, o Mário Aragão.

 

P/2- O mico-leão-de-cara-preta é só em São Paulo?

 

R - Não, o mico-leão-de cara-preta foi uma descoberta de 1990, em Guaraqueçaba e no sul de São Paulo. Para mim não é espécie, é uma subespécie do preto. É um fim de população que foi fragmentada mais ou menos ali em Paranapiacaba por causa de formações. Tanto é que neste trabalho, se você for ver, eu botei uma interrogação. Trabalho de 1976 a espécie nem era descoberta. Eu botei uma interrogação porque eu não sabia o que tinha acontecido por lá, eu não tinha condições de saber. Os recursos eram meus.

 

P/1 - Entendi.

 

R - O CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico] me dava uma porcaria de... não dava pra nada. Mas eu fazia porque eu sou um cara obstinado. Eu não disse a você que eu plantei dois jequitibás em uma praça pública da Gávea? Não perguntei a ninguém. Peguei os dois jequitibás, a árvore mais bonita da Mata Atlântica, quarenta, cinquenta metros de altura. Não tem uma praça com uma árvore daquela. Então plantei bem em uma área bem espaçosa, bem grande. Está lá, já está uma árvore desse tamanho. Foi plantado há um ano, está com um ano e dois meses, já está assim. Eu espero que com dois anos a árvore ultrapasse dois metros e depois fique bem plantada. Eu vou lá a cada semana, dou uma gratificação para o jardineiro da praça. Ele fica satisfeito.

 

P/2- No final da década de 1970, principalmente na metade final, começam a surgir diversas, ou pelo menos algumas, instituições ligadas a defesa do meio ambiente. Queria que o senhor falasse um pouquinho sobre esse período, se o senhor se recorda disso.

 

R - A única coisa que eu ofereci em 1970, até antes um pouquinho, mas foi principalmente em 1970... Ofereci a ideia do Centro de Primatologia, que eu tinha um ensaio. Nessa ocasião era diretor da divisão de pesquisas do Instituto de Conservação da Natureza, no Alto da Boa Vista. Eu ofereci a três reitores: da Universidade do Rio de Janeiro, da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da [Universidade Federal] Fluminense. E expliquei que nós tínhamos, era o país com maior número de primatas e que seria muito interessante, no Departamento de Biologia, fazer o Centro de Primatologia, que a gente conseguiria recursos internacionais, pápápá. Nenhum aceitou e nenhum entendia o que era um Centro de Primatologia, porque na ocasião os Estados Unidos tinham sete centros de primatas, que eles chamavam Primate Center. Não tem nada a ver com primatologia. Primatologia é o estudo dos primatas. Lá, Primate Center é o uso de primatas na pesquisa biomédica e farmacêutica, é outra coisa. Tanto é que quando eu expliquei primatologia, o primeiro a mudar foi o Centro de Antropologia da Universidade de Quênia, com aquele filho do Leakey que estudava os fósseis humanos. Ele mudou para primatologia porque na ocasião só existia um Centro de Primatologia, que estava na Universidade de Kyoto, e o Centro era em Inuyama, onde faziam um estudo dos primatas de uma maneira geral, de fósseis, e que eu fui visitar a convite da Sociedade Progresso da Ciência lá do Japão, juntamente com a Academia Brasileira de Ciências. Como eu sou acadêmico e a cada ano vinha um japonês para cá e mandava um brasileiro para lá, o Professor Aristides Pacheco Leão me disse: “Ô, Coimbra, você não quer ir?” “Bom, eu não falo japonês.” “Não, todo mundo te conhece lá.” Porque eu tinha publicado já muito trabalho, mesmo trabalho em português com abstract pequeno, todos eles me pediam separata, eu mandava, então me conheciam de nome. Então eu fui e aproveitei muito. E eles me trataram muito bem lá, viu? Mas muito bem mesmo. Aliás, onde eu fui, o pessoal já me conhecia de nome, sempre me trataram muito bem, qualquer lugar. Mas no Japão eu fiz questão de viver com o japonês. E para ir atrás de macaco aqueles interiores lá, não é?

 

P/1 - O senhor virou um especialista em primatas?

 

R - É, não sou especialista, eu conheço alguma coisa sobre primatas.

 

P/1 - Conhece muito.

 

P/2- E aí, na década de 1980...

 

R - Na década de 1980, o meu nome como primatólogo já estava bem consolidado. Já tinha descoberto espécies, feito trabalhos interessantes. Por exemplo, quando o Colin Groves disse que era uma lenda viva da primatologia. E aí depois eu fui reparar porque que ele fez isso. Eu fiz uns três trabalhos com macacos de fora. A Macaca mullata, por exemplo, que é o Rhesus, ninguém. Gente que só trabalhava nisso, ganhava um dinheirão para ir à Índia, não viu a inversão do período reprodutivo do hemisfério boreal para o austral. E eu, que não tinha nada com isso, uma pequena experiência que eu tive na Ilha do Pinheiro, onde tinha uma população de macaco Rhesus, Macaca mullata para pesquisa biomédica no Instituto Oswaldo Cruz. E eu verifiquei que quando eles nasciam no hemisfério boreal, estavam em cópula no austral. Eu fiz esse trabalho para ver se acontecia isso com o mico-leão, com as três [espécies], e deu a mesma coisa. Há uma inversão de período reprodutivo, fotoperíodo, não é? E publiquei na Revista Brasileira de Biologia. Até a Rússia pediu o trabalho. Como era o nome dele? Ele até já faleceu, é um primatólogo famoso, Boris. Agora não estou me lembrando o nome dele, o nome da família. Bom, Boris, Dr. Boris. Todo trabalho que eu publicava em português, ele pedia cópia, porque saía sempre um abstract. Ele tem todos os meus trabalhos de macaco lá. Então, nessa ocasião, eu comecei a idealizar em 1980. Em 1980 já estava no Centro de Primatologia, eu diria bem desenvolvido, já. Com sede, que obtive, eu consegui recursos da FINEP [Financiadora de Estudos e Projetos]. A FINEP teve um homem excepcional que era o José Pelúcio. Foi o primeiro presidente da FINEP. Um homem de uma clarividência, uma coisa extraordinária. Ele era economista. Quando eu expliquei a necessidade do Centro, ele entendeu de imediato. “Não, Coimbra, pode deixar.” Quando eu quis fazer a segunda etapa do Centro, que seria o laboratório de genética, o laboratório de patologia e um auditório pequeno, o outro presidente, quando ele saiu, que era de São Paulo, teve assessoria de um zoólogo paulista. Um homem sozinho não faz um centro primatologia. E cancelou o recurso. Quer dizer, eu fiquei numa situação com um prédio, um laboratório e sem saber o que fazer, porque o estado não dava um tostão para aquilo. Aí eu recorri à Souza Cruz, de cigarros. Ela fez a biblioteca, 22 viveiros de alvenaria dentro do esquema que eu queria e fez um laboratório de nutrição, de alimentação. Se não fosse a Souza Cruz... E publicou um trabalho que nós fizemos sobre o Centro de Primatologia, um papel couché, um trabalho fino, fotografias excepcionais. A gente deve muito a... Ah, e outra coisa, a Souza Cruz abriu um concurso para arquitetos fazerem uma casa de residência para visitantes ilustres. E é o primeiro prêmio do Instituto de Arquitetos do Brasil. Essa casa está lá e o primeiro visitante foi um dos maiores homens, Philip Hershkovitz, que inclusive ficou um mês na casa trabalhando. Então nós fizemos, nessa época estava já consolidado e servindo de exemplo para o mundo inteiro. Não usar só primatas, vamos estudar os primatas também. Russell Mittermeier, que esteve comigo, era muito novo, estava terminado o curso em Harvard e depois fez o doutorado também. Ele deu uma ajuda, pelo menos psicológica, precisava de um nome lá nos Estados Unidos, uma ajuda psicológica a mim.

 

P/2- E, nessa década de 1980, como era tratada a questão ambiental?

 

R - Bom, eu estava muito ligado a primatas. Eu estalava lá no Centro de Primatologia, fica afastado 120 quilômetros do centro do Rio de Janeiro. Eu ia sempre para lá, só não ia sábado e domingo. Então a gente tinha muita publicação e, sob o ponto de vista da preservação de primatas, já tinha as atuações do Grupo Mico-Leão, diziam Sociedade Amigo do Mico-Leão. Isso teve uma ênfase muito grande em primatas que automaticamente empurramos, mas muita pouca coisa na parte florestal. Porque o pessoal fala demais, mas ninguém faz nada. É isso que eu estou dizendo. Por exemplo, tem uma mata, até vou fazer um trabalhozinho sobre isso: o melhoramento de remanescentes secundárias. Ninguém faz nada. Você encontra, isso é comum, isso no Nordeste. Tem uma árvore retinha, o cara, pumba, corta para fazer uma cerca. Então ela fica perfilada em três. Perda de energia. Ela tem um tronco ruim, ficam três, quatro. O pessoal quer isso, quer para fazer cerca de madeira uma junto da outra. A desertificação lá é culpa humana. Até um trabalho eu fiz com Ibsen sobre os limites originais da Mata Atlântica no Nordeste do Brasil. Não é o que está escrito hoje, não. Está tudo errado. A Mata Atlântica saía daqui, pegava toda a costa do Ceará, Piauí, Maranhão e ia até o Amapá. Mata Atlântica é a mata que dá para o Oceano Atlântico. Você tem a Mata Atlântica brasileira e tem a Mata Atlântica africana. É mata que dá para o Atlântico. Então ela parou no Rio Grande do Norte, agora. Talvez daqui dez anos ela vá parar na Paraíba, que o restinho dela está sendo destruído agora e ela fazia toda aquela parte. Só que naquela parte ela sofreu uma ação humana muito deletéria, e não é de hoje. Não é do descobrimento, não. Os índios da região eram extremamente aguerridos. Qualquer coisinha eles estavam se matando e tocando fogo. Essa Niède Guidon, que está lá na Serra da Capivara, diz que o homem está na região lá há quatro mil anos. Provavelmente mais. Quatro mil anos usando fogo e caça e derrubada. É aquele negócio que eu disse a você. Onde é que está o genoma de uma árvore do Nordeste? Os bons já foram embora. Ficou o genoma de árvores raquíticas, menores. É o que estão fazendo na Amazônia.

 

P/2 - Em 1986 foi o ano de fundação da SOS Mata Atlântica. Como foi que o senhor tomou contato com a SOS?

 

R - Não, a SOS eu tomei contato... Primeiro que eu sabia e gostava. Qualquer entidade séria eu sempre apreciei muito. Mas eu era absorvido nos trabalhos de primatologia. Publicar um trabalho inédito dá trabalho, você precisa de convênio. Então todas essas atividades conservacionistas, a Fundação Brasileira para Conservação da Natureza estava caindo. Foi a primeira. Era formidável, mas depois foi caindo. E agora está com um presidente, até gosto dele, mas que não é um conservacionista. É um empresário que faz aquilo porque dá nome a ele. Ele viajou ao Canadá como presidente da Fundação. Foi bem recebido pelos conservacionistas de lá. Mas não é o Ibsen, por exemplo. O Ibsen, quando foi presidente da Fundação, era outra coisa. E esse da atual não está recebendo recursos internacionais porque não é o Ibsen. Se tivesse o Ibsen estava recebendo ajuda internacional.

 

P/1 - E o senhor conheceu o senhor Ibsen onde? Em que época que foi?

 

R - Lá na Fundação.

 

P/1 - Lá na Fundação.

 

R - É. Porque o Ibsen é almirante, é da ciência naval. Mas quando ele foi presidente da Fundação eu era coordenador das espécies ameaçadas de extinção de lá. Eu não gosto de me destacar em posições. Já fui convidado para ser presidente do IBDF, presidente, diretor do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Eu fui convidado. E não aceito porque eu sei que não é possível. Aí perguntam: “Por que o Jardim Botânico tem cem mangueiras e não tem uma maçaranduba do Rio de Janeiro?” Para mim essas entidades são reservas. Reservas para um futuro, quando a ciência souber usar. É isso que ninguém lá embaixo está dizendo. Se o coordenador do meu grupo disser isso foi por que eu frisei muito. Duas coisas indispensáveis: aumento das áreas, porque mais nada vai ficar a não ser dentro daquelas áreas; e vai ficar se tiver uma fiscalização muito séria e criar taxonomistas. Porque o grosso das espécies que existem é muito maior do que as que se conhecem. E quem é que sabe isso? Não tem especialista. Um taxonomista dá um trabalho danado para se formar e não ganha nada. A maior parte já está no seu lugar. Você não tem dez taxonomistas no Museu Nacional. Agora vai em uma entidade americana ver quantos taxonomistas tem para mosquito, por exemplo.

 

P/1 - O senhor estava falando e eu estava pensando. O senhor começou pela floresta tropical, depois o senhor foi para os primatas. Os primatas não...

 

R - Não... Os primatas... Não é da floresta... Eu passei pros primatas, não...

 

P/1 - Não.

 

R - E lá na fauna, por causa de um bicho que eu vi na mata.

 

P/1 - O senhor...

 

R - É. Eu passei, achei interessante, fui. E quando eu fui caçar, certa vez, eu vi o bicho na natureza, na baixada do Rio de Janeiro, que eu tinha visto preso em uma família portuguesa. Aí eu disse: “Esse bicho ainda existe aqui?” Aí foi que eu comecei a estudar.

 

P/1 - Então, não. Eu só estou fazendo um resuminho...

 

R - Um retrospecto.

 

P/1 - Para eu perguntar para o senhor.

 

R - Pergunta.

 

P/1 - E os primatas eles não conseguem sobreviver, existir, se nós não tivermos a mata, a floresta?

 

R - Pelo menos no Brasil.

 

P/1 - Isso.

 

R - Os africanos são de savana.

 

P/1 - Aqui no Brasil. E como que senhor trabalhou com as duas coisas, por causa de uma questão ambiental?

 

R - Não, é questão de fazer uma zoologia séria. Onde é que vivem os macacos? O habitat dele? Floresta. O que é que eles comem? É árvore. Então comecei a estudar árvore com os macacos. Eu não estudava as árvores porque era obrigado para fazer uma boa primatologia. Nenhum primatólogo conhece quase nada de árvores. Eu, porque gosto de árvore.

 

P/1 - Mas o senhor teve que começar a trocar mais informações de um determinado momento com os ambientalistas?

 

R - Com botânico. Tem botânico no Brasil que falou: “Você é botânico, não é zoólogo.” Está tudo bem. Para você eu sou botânico e sou zoólogo para mim. Eu gosto de árvore, adoro plantar e ver a árvore crescer. Agora o sujeito vem: “Ah, mas eu tenho uma plantinha assim, como é que...” Não interessa. Interessa árvore. A minha filha tem um sítio em Araras. Eu tenho perto de umas vinte espécies de árvores brasileiras, e eu vou lá mais para acompanhar as árvores, o desenvolvimento das árvores. Você bota uma... Esse morro está pelado aqui. Onde é o morro? “Ah, lá em Cascadura...” “Você bota uma árvore aqui em quanto tempo?” Eu digo: “Eu boto em mais ou menos nesse tempo, se eu tiver recursos para fazer isso. Mais ou menos tempo com uma fauna mais ou menos assim.” Quem é que faz isso?

 

P/2- Senhor Coimbra, a ligação com a SOS Mata Atlântica se deu quando?

 

R - Maior, um pouquinho maior quando eu vim a primeira vez aqui para Atibaia.

 

P/2- Em que ano foi isso, o senhor se lembra?

 

R - Você é que sabe, você que é daqui.

 

P/1 - Foi em 1990 e pouco.

 

R - Eu vim aqui colaborar com esse mapeamento, essas coisas todas. O papel foi nulo através do Ibsen, que o Ibsen vem sempre aqui. O Ibsen é amigo do Klabin, então...

 

P/2- Ah, certo.

 

R - Eu vou à Fundação quando tem convocação. Eu faço parte do conselho curador porque sou um estudioso do assunto isolado. Eu estou aposentado, vivia em uma entidade já falida, a FEEMA. A FEEMA foi criada pelo Almirante Faria Lima para tratar das questões ambientais do estado do Rio de Janeiro. Como entrou o Brizola, ele queria acabar com a FEEMA, então criou a Secretaria do Meio Ambiente. Houve uma dualidade altamente prejudicial a um e a outro. Porque o corpo de alta categoria da Fundação, da FEEMA foi saindo, se aposentando. Ninguém entrava mais, e quando entrava, entrava político marginal. Até hoje. Outro dia saiu em um jornal que foi problema de corrupção lá dentro, que deve ter muita. Fiscalização sem controle, politiqueiro.

 

P/1 - Quais são os maiores problemas que, o senhor acha, enfrenta hoje a defesa do meio ambiente?

 

R - Primeiro, a falta de compreensão das autoridades. Falta de competência. Segundo, o desrespeito do povo, porque é ignorante. É impressionante o povo mais pobre que vive de saque da natureza, corta madeira, pega bicho para vender, na situação. E o mais importante de tudo são problemas hidrográficos, problemas de chuvas, desertificação. O Nordeste é um fato, área de desertificação. Pode resolver? Pode. Como? Eu faria isso: um poço artesiano, tem água pra burro no subsolo; irrigaria, por exemplo, plantações imensas de eucalipto. “Ah, eucalipto?” É, eucalipto. Quando você puder, você substitui por jacarandá ou peroba. Vai ver onde se vai cortar muda de jacarandá para fazer isso. De eucalipto tem, tem tecnologia. E é árvore, ela produz evapotranspiração da mesma maneira que um jacarandá, uma peroba. Só que há tecnologia, faz-se rapidamente e a outra não. Agora, ao meu entender, [para] salvar, usa eucalipto. Não tem um eucalipto, tem setecentas espécies completamente diferentes uma diferente da outra. Deus é brasileiro mesmo, ele criou o eucalipto para salvar o São Francisco. Eucalyptus camaldulensis, que vive na margem dos rios secos, na Austrália. Agora é um lugar seco e que, quando inunda, ele sobrevive. Tem que estar pronto para as inundações das áreas. Agora quem é que sabe isso? Quem é que sabe que são setecentas espécies de eucalipto? Você conversa com um agrônomo, por exemplo: “Ah, eucalipto.” Não é. Os eucaliptos...

 

P/1 - E como o senhor vê os maiores problemas enfrentados hoje em defesa da Mata Atlântica?

 

R - Bom. Primeiro, a incompetência dos órgãos que colocam sempre à testa um político. Nós não temos gente? Tem engenheiros florestais, engenheiros agrônomos, biólogos, são perfeitamente... Mas não está em uma posição, está num lugarzinho vagabundo, vivendo miseravelmente com os ordenados. E pega um político qualquer, por exemplo, do PT, e bota em uma posição que ele nunca imaginou. Por exemplo, o Dutra está na posição de presidente da Petrobras. Já está rico, com certeza. Não é que ele tenha roubado... Só com o que ele ganha já mudou a posição dele. Os outros perderam eleições, têm todos uma posição boa. Competente? Não, politiqueiro. Vai fazer uma boa administração? Não. Não vê esse Tarso Genro na Educação? Não vê esse problema seríssimo das cotas. Eles estão criando um racismo que o Brasil não tinha. Eu tive colegas meus que... Eu vivia com eles jogando pipa, brincando. Nunca tive qualquer aspecto negativo contra um preto. Na minha casa, se tiver um preto educado, ele entra. Como entra um branco, que é um branco ordinário, não entra. Eu não tenho essa... Agora vai criar, sabe por quê? Porque entra um camarada incompetente, vai entrando assim, vai passando de qualquer maneira, colando, e vai se formar. Forma um médico. Aquele médico vai ser desprestigiado, no final vai ser o médico preto que não presta. O engenheiro preto que não presta. Então cria. E, outra coisa, tive pretos brilhantes na minha  turma que se formaram. E tem pretos, a minoria, porque eles vivem numa situação, em uma escola pública altamente prejudicial. Já entra aquele negócio que eu disse a você: uma escola pública de classe dá oportunidades iguais para todos; o cara doente vai para uma saúde pública boa. Então o justo é você dar oportunidade. Agora, querer que sejam iguais não há. E o PT quer, o PT, partido comunista, todo mundo é igual. Igual uma ova.

 

P/1 - E o senhor acha que a legislação atual para o meio ambiente é uma legislação forte, boa, ou ela deve ser diferente?

 

R - Não, ela tem muita coisa boa mas tem coisas altamente negativas. Por exemplo, esse termo “desenvolvimento autossustentável”. O que é isso? O que é autossustentável? Eles vão lá, derrubam, corte raso na Amazônia. Não selecionam as árvores perfeitas para servir de exporta semente. São as que eles vão cortar primeiro. Isso é autossustentável? Isso é imbecilidade. É uma incompetência imbecil de um camarada inferior que não prevê, não tem competência nem inferior. Então eu tenho brigas. Acontece que eu não tenho papas na língua. Quando eu quero dizer, eu digo pra qualquer um. Então eu não sou bem quisto. (riso) Pouco me interessa, eu quero fazer as coisas certas.

 

P/2- E fazendo uma análise sobre a mata atlântica... Na sua opinião, quais são as perspectivas quanto a ela daqui pra frente, daqui a um tempo?

 

R - Elas são muito ruins. Primeiro por um fato que pouca gente fala: a simplificação biótica das áreas protegidas. Por quê? Porque são áreas ridículas. Como é que você pode querer preservar o mico-leão, por exemplo, com uma área onde você força a população que está lá a se destruir? Estão obrigando os micos-leões a destruir o que ele prefere para comer. Eu já disse isso. Teve um americano que entendeu de imediato, mas o representante do grupo: “Não. Não podemos plantar eucalipto, porque eucalipto é exótico.” Aí, eu disse assim: “Bom, porque que vocês não tiram, não removem, todos os capins que estão lá, que são africanos?” O eucalipto está lá parado para beneficiar a vinda da vegetação natura,l e o capim que está lá, todo ano que tem queimada, ele avança um, dois metros, três metros, cinco metros na mata nativa. Aí o cara fica olhando para você com cara de imbecil, porque ele já deve ser imbecil e só fala: “Ah, eucalipto é exótico.” Não, até aí você não entendeu a minha explicação. Então, você é uma besta. Eu não posso dizer isso, mas quase que digo. É inacreditável que você não tenha compreendido o que eu expliquei.

 

P/1 - O senhor pode fazer um balanço da questão ambiental nesses anos todos, de ganhos e perdas, como é isso?

 

R - Há realmente uma valorização da conservação. Tem muita gente já que entende, mas não tem a faca e o queijo na mão. A faca e o queijo na mão estão com o governo. E o governo está usando politiqueiros em lugar de técnicos. Quer dizer, um governo de estadistas procura a nata do que há de bom. Tem, o Brasil tem. Mas por que não bota? É porque o Lula, por exemplo… Não se pode dizer que ele é um homem burro, porque um cara que chega à presidência da república com a ignorância dele... Ele é inteligente. Mas a inteligência dele está mal dirigida, ele é ignorante. Quando ele bota, por exemplo, a ministra que é uma pessoa boa, honesta, bem intencionada, mas ela não tem competência nem energia para evitar essa devastação na Amazônia. A devastação, como está sendo feita na Amazônia agora, é burrice. Entende coisa assim? Então, você está dizendo que o Lula é inteligente. É inteligente. Com a ignorância dele está sendo considerado burro. Que você está queimando a galinha dos ovos de ouro com uma porção de coisas desconhecidas. Eu já disse que para você. Queimar uma biblioteca, a melhor biblioteca do Brasil. Você queimando vai ser um prejuízo cultural grande, mas não técnico-científico, porque 90% dos livros são ultrapassados. Antigos, bonitos, mas ultrapassados. E você tem uns 10% de livros que estão atualizados, mas a ciência não é atualizada, a ciência evolui. E uma Floresta Amazônica que evolui há 3,5 bilhões de anos, está tudo certo lá, é só ter competência de interpretar e saber pegar. Não sabe ainda. A evolução tem 3,5 bilhões de anos. A espécie humana, como nós, tem aproximadamente cem mil anos. Olha a defasagem. E a ciência humana, em nível um pouquinho melhor, que ainda não é o ideal, tem cinquenta anos. Microscopia eletrônica, o computador. Não quer dizer que seja o ideal, não. O homem não sabe, não interpreta. Onde é que tem os genes disso ou daquilo? Onde é que está o gen, que agora tem o genoma. Sim. Mas onde é que está? Por isso que estão estudando o genoma do chimpanzé, para comparar. Porque o homem fala e o chimpanzé não fala. Então, comparando os dois, ele vai ver uma porção de coisas. Vai ver que vai pra frente. É como, por exemplo, a biota brasileira, tem nome científico. É Psorophora genu-maculata, por exemplo. É um percevejo, vem aquele cheiro desgraçado. Ele tem um cheiro danado, mas ele é comestível. Lá no Centro de Primatologia eu peguei um desses, é um percevejo do mato verde. Fede para diabo. Você chega no mico-leão, ele fica piscando lá, quando ele está com fome, ele pega e come. Depois vomita, entendeu? Mas não morreu. Então aquele cheiro é pra alguma coisa. Justamente essa fase do inseto predar a planta e a planta criar defesas para evitar a ação do inseto, essa intérfase é que vai se descobrir coisa demais. Mas é como eu disse, é preciso um trabalho multidisciplinar. Bioquímico com biólogo, botânico, zoólogo. Trabalhandos juntos, passando coisas. O Japão está fazendo isso, a França deve estar fazendo, os Estados Unidos devem estar fazendo, a Inglaterra está fazendo. Então é preciso esperar os resultados que são demorados. Porque ninguém liga para isso no Brasil. Por exemplo, o Ibama pega um alemão, um velho alemão que pegou meia dúzia de insetos e levou para a coleção particular dele, prende o cara. E estão derrubando quilômetros e quilômetros de florestas, permitindo. Isso é brincadeira. E a coleção do alemão é uma coleção útil, a coleção dele vai servir pra humanidade. É dele, mas vai servir pra humanidade. Agora, a destruição está prejudicando o Brasil.

 

P/1 - Como o senhor vê a atuação da SOS Mata Atlântica?

 

R - Eu acho que a SOS está fazendo um trabalho admirável, mas precisa fazer mais. Falar menos e fazer um pouquinho mais. Eu dei uma ideia para o nosso relator: aumentar as reservas. “Ah, mas não pode.” Como é que não pode? A SOS Mata Atlântica pode comprar uma área devoluta lá. Por exemplo, Murici, um pedacinho de mata do Nordeste que vale uma fortuna, já está entrando em um processo de simplificação biótica há muitos anos. O que a SOS pode fazer? Compra áreas ao derredor. “Ah, mas não tem nada.” E daí? Mostra competência, bota uma floresta lá. Eu boto uma floresta lá nativa, mais ou menos idêntica àquela. Usa o eucalipto como elemento básico para favorecer a vinda da mata. Eucalipto com três anos já está com cinco metros de altura. E qual é a árvore brasileira que cresce tanto? Nenhuma. Então, você cria uma floresta que age como elemento tampão, protetor daquela área protegida, através da evapotranspiração, cria um grau higrométrico maior, mais favorável. E a vegetação nativa vai sair naturalmente porque o passarinho que sai da mata pousa, defeca, vem a plantinha de lá. E pouco o eucalipto. “Ah, o eucalipto vai praguejar.” Ele vai praguejar nada. Dê-me um eucalipto que pragueje que eu vou plantar para ganhar dinheiro, eu não preciso plantar. Ele vai nascer. Não existe isso. E se nasce um ou outro pezinho de eucalipto, você corta ele ou deixa lá. Ele é como se fosse uma estaca para favorecer a vinda da floresta. Ou então, no caso do mico-leão, mais ainda. Ele em três anos: você pode pegar comunidades epifíticas, bromélias, orquídeas que tem justamente o lugar de forragem, forrageamento do mico-leão; bota tudo dentro do saco plástico, amarra e bota em cada eucalipto aquela comunidade amarrada. “Mas o eucalipto não tem casca, casca fina.” Tem, tem eucalipto que é revestido quase como se fosse um xaxim. Tem que saber.

 

P/1 - Nesses seus anos todos dedicados...

 

R - De velhice, não é?

 

P/1 - Não.

 

R - Já está começando a artrose na mão.

 

P/1 - Dedicados a causas tão nobres, como que o senhor vê o peso da questão ambiental na sua vida? Qual peso têm?

 

R - Eu tenho uma família excelente. Meu filho é engenheiro por concurso de escola pública, passou em terceiro lugar quando era o vestibular unificado. Ele podia ser médico e foi para engenharia. Ele teve notas tão boas que a Petrobras patrocinou o quinto ano dele lá. Ele foi pra Petrobras já direto e lá dentro ele fez um outro concurso para saber para onde ia. Ele queria ir para a parte de pesquisa, mas ele ficou em uma posição que não foi o primeiro. Parece que os dois primeiros foram pra seção de pesquisa. Ele ficou como engenheiro de equipamento. Mas ele está muito bem lá na Petrobres. A minha filha é radiologista, ele trabalha no INCA [Instituto Nacional do Câncer] em um hospital particular, Aurus, muito bom também. Então eu não tive nenhum problema com meus filhos, filhos excelentes. E cada um tem um casal de filhos. Tenho quatro netos que não têm problema nenhum, me dou muito bem. Quer dizer, eu acho que eu prejudiquei a família porque como eu fui biólogo, biólogo é muito mal remunerado no Brasil. E o Estado do Rio de Janeiro, com aquele casalzinho criminoso que está lá, eles exploram de tal maneira o funcionário... E eu não sou pulador, não sou pula para cá, pula para lá. Se eu fosse médico, teria um bom consultório meu e eu levo a sério. Em pouco tempo eu seria bem conceituado porque eu gosto de publicar, de escrever. Mas tive uma vida que não pude... Por exemplo, minha esposa, que é filha de franceses, tem dupla cidadania. Eu podia perfeitamente ir à França com ela. Eu gostaria de ir à França. Mas não, eu financeiramente não tenho condição. E eu me privei muito. Quer dizer, não pude sair com meus filhos, enquanto meu filho está saindo com os filhos dele. Eles, agora, estão lá na Disneylândia. Mais uns três dias eles chegam, voltam. Passou quinze dias lá, nas férias dele. Eu não podia fazer isso com eles. Mas sempre que era possível, eu levava. Por exemplo, quando eu era chefe do Serviço Técnico-Científico do Jardim Zoológico. Sábado, domingo, às vezes dava plantão, eu levava eles pra passar um dia comigo lá. Fiz o que foi possível. Eu sei que a educação que eu dei foi extraordinária. Colégio público, só em fim de curso é que pegaram curso melhorzinho. Eu acho que é tão elementar um sujeito com um pouquinho de inteligência, um presidente. Por exemplo, se tivesse um Castelo Branco ou mesmo um Geisel. Era um homem inteligente, brilhante, mas era militar. E sendo militar ele talvez fosse um pouco demorado na parte da formação do brasileiro. Ele podia ter força armada e era um economista. Não era economista mas ele via a economia do Brasil. Não deixava os americanos tomar conta da gente, entendeu. Mas não era o Castelo Branco. Se o Castelo Branco fosse presidente do Brasil, assim, entre os dois primeiros... Ah, era outra coisa. Ele era brilhante. Era muito inteligente. O Carlos Lacerda, por exemplo, era meio malucão no negócio de política, foi comunista. Quando ele viu que aquilo lá era uma estupidez, deixou. Mas era um administrador fabuloso. No colégio público no tempo dele, os professores eram prestigiados.

 

P/1 - O senhor acha que tudo que o senhor produziu cientificamente... O senhor está deixando uma coisa de peso?

 

R - Eu acho que estou deixando uma semente muito boa porque vários jovens, jovens de quarenta anos, esse povo eu sei que me estimulou com seus trabalhos. Eu sou um cearense que veio... Por exemplo, vivia soltando tucano lá, plantando árvore. Você vê jacarandá no Parque da Gávea, você encontra jacarandá que eu plantei lá, já disseminando. Está nascendo jacarandazinho que não tinha mais. E eu trabalhei na reserva lá em Jacarepaguá, foi no tempo do Carlos Lacerda. Eu fiz um repovoamento com uma réplica, mas anilhando. Foi a primeira vez que se anilhou ave, e para ver que aquilo era exequível. É claro que eu podia. Eu acho, modéstia à parte, que eu sou um cara desperdiçado. Eu podia fazer grandes coisas. Por exemplo, a transposição do São Francisco, eu faria isso brincando. Quer dizer... Brincando, não, com prazer. Porque eu sei. A impressão. Quer dizer, posso estar até errado. Mas a impressão que eu tenho... Eu faria, pelo menos dava um início muito bom. Mas não usando água do São Francisco para irrigar o Nordeste. Para ativar os rios que secaram lá. E para isso tinha que fazer o quê? Acabar com a exploração agrícola e florestal na Chapada do Araripe, que é uma reserva de aquíferos. As águas de lá é que formam o Jaguaribe, o Piranhas, o Mossoró, aqueles rios. Então revestir as serras nordestinas em floresta e servir como aquíferos, isso é sobrevivência. “Ah, mas eu tenho um sítio.” Não interessa, é desapropriado e cai fora de lá. O que é que o Governo Federal, o IBDF, fez na Chapada do Araripe? Reserva Florestal. Sabe o que é Reserva Florestal? Que pode explorar madeira e as raízes das árvores. Está tudo no livrinho, em uma publicação que eu fiz recentemente. Os aquíferos são preenchidos, guiados pelas raízes da floresta e, de lá, vão para os rios. Então pegar água do São Francisco e botar pra lá, é perigoso. Porque não vai ativar o rio de lá e vão irrigar. Então Bahia e Minas Gerais tem direito a irrigar também. E o rio está doente. Diga o que disser, ouvi declaração: “Rio doente é uma bobagem.” Bobagem uma ova. Leia livros de escritores antigos que você vê.

 

P/1 - Seu Coimbra, nós estamos no final da nossa conversa.

 

R - Já acabaram lá, então.

 

P/1 - Não, não, dá tempo. O senhor queria deixar, para esses dezoito anos que a SOS está completando, uma mensagem, alguma coisa que o senhor espera deles?

 

R - Em um sentido muito objetivo, é claro que o meio ambiente é o ambiente natural do homem. O homem não nasceu dentro de apartamento. Mesmo que ele viva em apartamento ultra confortável, ele precisa de um ar puro, de água pura. Isso só vem de um meio ambiente equilibrado. A água depende muito de floresta. Não tem floresta, não tem água. Não tem uma evapotranspiração boa, não tem chuva. Já está provado no Nordeste. Só quem quer tapar os olhos não quer ver. Nordeste é um exemplo típico que aconteceu no Brasil. Só que as condições meteorológicas de lá são muito piores do que aqui. Tem os alísios constantes que ressecam. Como não tem floresta, seca tudo. Chuvas equatoriais, que lavam todo o regolito, lavam o solo, botam tudo dentro do mar ou dos rios. E um solo equatorial, que dá cinquenta graus no solo. Só isso já era para ver que o Nordeste não pode deixar de estar coberto de floresta. E era, só que o pessoal ainda confunde hoje o termo caatinga um um carrascal de cactáceas. Não é. Caatinga é uma mata decídua, onde havia um índice pluviométrico um pouco maior. Mas é floresta. O fogo nessa a floresta foi o que facilitou a abertura de manchas onde entraram as cactáceas porque não tinha mais solo para a regeneração da floresta, foi tudo lavado pelas chuvas equatoriais. Então nesse livro que eu fiz com Ibsen está muito claro aquilo. Só não vê quem não quer. Agora, outra coisa, que é para estadista, que eu friso bem: educação fundamental de alta qualidade, saúde pública de alta qualidade. Só essas duas coisas. Eu acho que tudo normalmente. É isso que eu quero deixar.

 

P/1 - Então, nós agradecemos muito por o senhor ter vindo, por ter ficado aqui com a gente essa manhã. Obrigada.

 

R - Ah, foi um prazer imenso.

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