Busca avançada



Criar

História

Um bate-papo debaixo da samaúma

História de: Luís Carneiro Nawa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/04/2022

Sinopse

Luís fala sobre o trabalho nos seringais, sobre as vezes que foi salvo pela medicina indígena e sobre o povo Nawa.

Tags

História completa

 

(00:31) P/1 - Seu Luiz, muito agradecido por você partilhar um pouco da sua história com a gente. Gostaria que você falasse quando você nasceu e onde você nasceu. 

 

R - Eu nasci aqui no Novo Recreio, na nossa aldeia Nawa. Nasci e me criei. Teve uma época que meu pai saía, mas era ambulante, ia lá, vinha cá. No tempo da seringa, saía para cortar a seringa. Foi uma época que a gente tinha um seringal ali; o papai foi, negociou com o patrão. 

Aí foi a época que eu me casei. Eu pensei, teve aquele toque: “Que dia que eu vou receber esse lugar de volta? Eu não tenho onde morar.” O lugar todo é dos patrões, não tinha como ficar. Eu falei um dia para a esposa do patrão, que era a mulher do Bolota, a Adalgisa: “Eu vou receber o lugar de volta. Quanto será que o patrão vai querer de retorno? Ele tinha dado o motorzinho pequeno [pra gente].” Ela disse: “Não, meu filho, você tem direito, é de vocês. Não tem dúvida, ele vai devolver, fale pra ele.” 

Um dia eu cheguei lá e falei para ele: “Bolota, vamos negociar o seringal de volta? Eu me casei, não tenho para onde ir, tenho que voltar para o seringal.” Ele disse: “Você me dá outro motor, que eu dei o motor para o seu pai, e pode ficar.” A mulher dele me respondeu… Depois ela disse: “Não dê nada, não.” Ele andou as estradas, o pessoal cortou, teve umas que cortaram mal cortado e como o pai dela era sabedor, ele era mateiro também, na época, ele cortava com o trator as estradas, matou um bocado de madeira. Cortava seringa, se cortasse muito pegando faca,  ainda ficava… Quem andasse morria. Isso aí deixou para lá, aí eu fiquei. 

 

(02:56) P/1 - Você falou do seu pai. O que você mais lembra dele? 

 

R - Nessa época, papai vivia trabalhando com ele mais no beiradão do rio, um ano passado em um canto, dois no outro. Voltou para cá e sempre falava nos Nawa. Ficaram duas famílias - aliás três, ficou o Celso, de Urubupeba. Três famílias. Mas é só raizinha mesmo, que nem ela falou, nasceu aqui e botou lá na frente. Era a Chica, papai e a irmã da Chica e do Celso, que chamava Zé Grosso, e daí foi começando. 

Eu me casei, construí família. Aliás, eu me casei com a filha de uma Nawa mesmo. Tive nove filhos, não sei nem quantos netos, uma porção deles, tudo aqui. Meus filhos moram aqui. 

 

(04:11) P/1 - Antes do senhor se casar, como era sua vida quando você era criança?

 

R - Era na roça, capinando, caçando com meu pai por aqui. Você subia de varejão, caçava para sobreviver, no varejão. Nesse tempo motor não existia, era no varejão e no remo, um remando, outro no varejão para sobreviver. E cortar a seringa. 

Tinha roçadinho, pequenininho mesmo; o destino era só ir cortar seringa, minha vida era viver nessas estradas. Quando eu comecei a cortar, era colhendo com um baldezinho. Quando já deu de eu aguentar, aí pronto. 

Quando eu me casei a minha vida foi sofrida. Eu saía meia-noite para cortar, para dar conta da família. E nessa época não tinha motor; ninguém nem falava, nem existia. Era no varejão e no remo. 

 

(05:18) P/1 - Essa seringa que o senhor cortava era para vocês?

 

R - Pro patrão. Era arrendado e ainda pagava trinta quilos de borracha no final do ano para ele, ainda sujeito a vender a borracha toda para ele. Se a gente vendesse a borracha para fora ele expulsava, tomava a estrada e a gente ficava sem nada, porque nosso futuro era cortar e se ajudar, cortar e vender a borracha só para ele e no final ainda tinha que pagar trinta quilos de borracha de graça para ele, de renda. 

Roçava que nem foi roçada essa aqui, do mesmo jeito. Passava dias roçando, aqui era uma estrada. Roçava todinha, ajeitava e no final do ano ainda pagava trinta quilos de borracha, conforme a produção. Se desse muita produção, pagava mais.

 

(06:06) P/1 - E sobrava alguma coisa para vocês? 

 

R - Sobrava porque a gente trabalhava mesmo, porque tinha que fazer mesmo. Tinha que fazer para pagar, era ralado. .

 

(06:25) P/1 - Você disse que saía para caçar com seu pai. Tem alguma história de caçada que você lembra com ele?

 

R - Eu cacei muito com ele. Eu andava só com um bisaco atrás, ele na frente, com uma armazinha; topava a caça, matava e voltava para o acampamento, pro Taperi. Dali era só isso mesmo, fazer o ranchozinho e ir embora para trás, cuidar de casa e também da criação dos filhos. 

Na época que eu me casei, que criei nove filhos… Na minha época era ralado, cansei de ir na boca da noite batendo cana com um porretezinho, espremendo para botar em um vaso, pra mulher ferver e fazer mingau para o menino de manhã. Era açúcar, para não azedar a garapa da cana. Ela fazia aquele mingau, enrolava aqui no dedo, lepo na boca dele aqui e era tudo forte. Tem uma aqui, a Marinis, aquela ali comeu acho que duas latas de leite e comeu muito, era em um dedo aqui enrolado com mingau, garapa de cana. Ela não conta porque era pequena e não se lembra, foi tudo dessa maneira.

 

(07:51) P/1 - E vocês faziam roçado nessa época? 

 

R - Roçadinho pequeno, de seringueiro. Tudo era pequeno. Plantava cana, inhame, touceirinho de banana. A produção era só a seringa, porque era o futuro que a gente tinha para comprar alguma coisa - uma roupa, uma sandália, qualquer coisa, um alimentozinho. O nosso futuro era a seringa. 

Eu cansei de vir com meu pai aqui, subir, nós não passávamos do igarapé aqui em cima, do Boca Tapada, que é aqui perto. Isso aqui era deserto e anta. Os moradores que tinha eram quatro, hoje é vila. Você vê que aqui no Boca Tapada, aqui no samaúma hoje, como estava… Fora os adultos, quantos curumins não tinha aqui? Fora os que estão lá mais para baixo, tanto que não tem, e ali tudo eles vão precisar, vai crescendo, vão se casando e vai aumentando, e eles tem que tirar de onde? É daqui. Então se essa preservação de um ano não está para ali… Ali está fechado, mas está descendo para cá, vai fortalecendo mais alimento para cá porque vem chegando, mas não é fácil, não tem muito. 

 

(09:40) P/1 - E naquela época tinha quantos?

 

R - Eu conto as pessoas que tinha, poucas mesmo. A família dela aqui, do Piu e nós, lá embaixo. Era difícil, era deserto mesmo. [Quando] passava aqui você via mutum, macaco foi crescendo aqui, de um lado para o outro, cansei de ver daqui, desses espinheiros. Barrigudo, mutum, cujubim, mas aumentou, aumentou muito, aí se afastaram para as cabeceiras, porque a gente tem que consumir mesmo, aí vai  subindo. 

 

(10:30) P/1 - Você já se encontrou com algum animal perigoso, tipo onça, sucuri?

 

R - Já encontrei onça, encantei várias. Sucuri já me encantei também. Feras grandes assim nas fronteiras da serra do Novo Recreio já encantei também, feras perigosas. Aquele lá de cima tem o poder grande mesmo, mas teve de frear em cima de feras grandes, daqueles barris de buriti. Atravessando por dentro das baias, em cima do tamanho desse pau aí. Ficava dentro do igarapé, vinham assim, em uma valazinha de nada. Eu fui levando o pé, estava a cabeça dela lá na frente, dei para trás. 

Ninguém nunca disse que tem fera grande nas cabeceiras aqui embaixo. Tem fera grande, grande, grande. Teve até um cunhado dela que andava caçando por aí; ela engoliu foi Catitu inteirinho, nas cabeceiras aí, não tem quem diga.

 

(11:41) P/1 - Você já chegou a ser picado por cobra?

 

R - Já duas, nesse pé aqui e outro aqui. Tudo só nos dedos. Duas jararacas.

 

(11:54) P/1 - E como foi que você…? 

 

R - Eu ia andando dentro da capineira, parece que ela estava dentro dos capins. Quando eu vi foi a picada, três coisas que eu senti aqui. Eu já conhecia, [era] venenosa, estava saindo um pouquinho de sangue. Aí me levaram para rua e eu saí. 

Cheguei na base e o tenente mandou me levar de voadeira. Uma hora eu via as curvas, outra hora eu não via, foi assim. 

Desse outro aqui [do pé esquerdo] eu curei em casa mesmo, mas estava bem melhor. Muitas coisas a gente também tem que ter cuidado em casa, muitos tipos de trabalho. Inchou o pé, mas foi pouco. 

Eu estava com mais ou menos uns seis dias, tinha tocado fogo em uma capoeirinha. Fui plantar arroz e comecei a bater máquina. Quando eu olhei a minha vista tremeu assim nos paus, bem rapidinho, tudinho assim… Eu virei para trás, botei a máquina e tirei para trás. Quando fui pra casa, eu olhava para o terreiro e o terreiro estava todinho assim [sinal de que está tremendo]. Caí na cama, a cama estava assim [faz o gesto de nadar com os braços]. Eu disse pra mulher: “Não estou bem, não.” Foram chamar meu cunhado, até o Cláudio Bandeira veio e baixaram comigo,. Só um lado inchou, até aqui [pescoço e ombros esquerdos].  

Fomos até o Soares, passou os remédios e eu tomei, aí saiu a mancha, aquela mancha roxa desse lado todinho. Por onde inchou ficaram aquelas manchas roxas, aqui e acolá. O médico disse que tivesse dado no meu coração tinha sido só pá, pó. Só devido ao peixe carvãozinho aí, comeu um pouco de veneno para cobra. 

 

(13:52) P/1 - E que remédio foi usado?

 

R - Eu não sei que remédio ele me aplicou lá, me deu uma injeção. Tirando isso, depois eu fui ungido de um lacrau, foi desse remediozinho que tem nesse pau que sobe assim. Quebrei a folhinha, peguei na mão um pouquinho d'água; eu andava caçando, joguei na mão e torci mesmo, joguei para o lado de dentro. Eu não sei se foi a fé também, mas eu acredito que foi o remédio, medicina mesmo, e quem me ensinou foi o pai dela [aponta para Lucila]. Nós andávamos caçando e ele dizia assim… O avô dela, que era o Piu, ensinava para o pai dela. “Esse remédio para isso aqui é bom, é contra veneno. Tem uma qualidade, que é o macho e a fêmea, e o bom é esse aqui. Você pega assim, ele estrala; você pega dos dois lados da fuça, estrala também.” 

Cansei de nadar com ele; [ele] me mostrava, eu aprendi. O Piu falava muito desse remédio também, da jarina o Piu falava muito também. Os parentes falavam muito, Zaqueu… A gente tem uma experiência junto. 

 

(15:26) P/1- Quem era esse Piu? 

 

R - Era o avô dela aqui. 

 

(15:31) P/1 - O que você lembra dele? 

 

R - Ah, eu lembro dele muita coisa, mas eu sou ruim de memória. Ele conversava muito, me contava muita coisa dos índios Nawa. Ele falava [que] essa travessia aqui para ir para os Puyanawa, nas cabeceiras do Novo Recreio, era uma varação por trás. Falava que os Nawa foram sofridos, acabados mesmo, mas Nawa tinha. O povo Nawa foi muito amarrotado pelos patrões, mandava matar mesmo; os Nawa não queriam se entregar e eles matavam mesmo. Cruzeiro do Sul é história, o estirão dos Nawa também é nossa história, tudo é Nawa, toda a vida teve. 

 

(16:38) P/1 - E quando foi que você começou a ver que você era Nawa? 

 

R - Porque o meu pai falava muito: “Nós temos uma raiz de Nawa, nós somos Nawa.” 

A gente nunca teve aquela experiência, aquele avanço. Teve muita aflição do IBAMA por aqui, e andando a gente foi descobrindo que tinha um pouco de direito, tinha direito mesmo e pronto. Graças a Deus estamos nesse caminho, com muita fé em Deus nós vamos chegar até lá com parente aqui. 

Hoje tem uma coisa que também me deixa muito feliz, porque ela fez essa grande coisa aqui e eu nunca pensei, nem eu por morar aqui…. Já completei sessenta [anos], graças a Deus, e vou vencer até lá com eles aqui, até quando eu puder. Nunca pensei dela fazer assim uma astúcia e também você chegar… Estava lá em casa quando ele chegou de momento lá, eu fiquei… Olha, rapaz que não está nem aí para gente tudo, a gente fica feliz, Paulo está nos ajudando, como hoje você veio aqui como quem nunca pensou como estava, parentes que estavam aqui hoje, estão ali. Muito importante, importante mesmo. Muito, muito mesmo.  

 

(18:31) P/2 - Eu queria que você falasse um pouco da sua luta junto com o povo. Você chegou a ser discriminado? 

 

R - Pelo ICMBio nós fomos muito discriminados, muito mesmo. Eles não querem abrir mão, sabendo que nós temos nosso direito. Aqui é nosso, porque nós não temos para onde ir, de maneira alguma, é aqui e aqui mesmo. 

Como eu estou contando, eu nasci e me criei aqui, já estou com essa idade. Eu vou pra onde? É aqui. Tem meus filhos, tem meus netos que nem ela também, os parentes. Aqui é nosso, nós vamos para onde? 

Eu já faço que nem o outro, já estou pedindo que dê tudo certo - vai dar mesmo - mas a gente pensa nos filhos, uns netos que são pequenos, como é que vai ficar? Se fosse pra gente se jogar para outro campo sem saber, qual para o [Parque] Havaí, que eu já andei para lá, é muito difícil. No inverno é pior; no verão tem transporte para quem tem, e para quem não tem? Como é que sai de um ramal que é uma distância monstro para lá? Tem água lá, aquele igarapézinho, naquele groteãozinho; aqui nós temos o nosso rio favorável e graças a Deus, a gente se joga dentro, toma um banho feliz, vai para dentro de casa.

 

(20:32) P/1 - O varejão, hoje motor… Naquela época, como é que era andar de varejão? Eram quantos dias pra viajar? 

 

R - A gente saía dali da Boca do Novo para chegar aqui, no Tapada. Depende do barco. Se o barco fosse pequeno chegava no mesmo dia, mas se fosse um barco grande não chegava não, dormia em viagem para poder chegar lá. E no verão o barco grande descendo também não saia lá, dorme em viagem, que ia arrastando no seco, um sofrimento grande. Tira embaúba, bota a casca em riba daqueles paus, passava. 

Hoje já tem muito enrolado, facilita mais, mas foi muito sofrido. Eu remei muito. A gente saía dali da onde eu moro, ia para o patrão passear [no] dia de sábado no remo. Todo mundo ia na canoa, um na popa, outro na proa, um remo velho, e aqui alagado. [Quando] cansava, agarrava na moita, passava um pedacinho. Tudo isso eu passei, tudo mesmo. 

 

(21:53) P/1 - Você chegava a ir para o município de remo?

 

R - Fui uma vez. Sumimos abaixo do Belo Monte, no outro dia chegamos em Mâncio Lima. Outra vez fui de remo, cheguei lá em São Salvador; não aguentei, deu febre, aí eu fiquei. Um parente, que é o Almir do Brigadeiro, botou o barco dentro do batelão dele e me levou. [Tive] febre de tanto pegar sol, remando, não aguentei, não; [estava] sozinho, numa canoinha pequena. Mas da vez que eu fui era eu, a Alda e o cunhado meu que o pau matou; saímos de Belo Monte [e] com dois dias chegamos lá. 

 

(22:34) P/1 - Você chegou a conhecer os seus avós?

 

R - Não, o meu avô, o pai de papai não conheci, nem a mãe de papai. Da mamãe eu conheci todos os dois. João Batista, Ernestina, conheci. 

 

(22:55) P/1 - Você lembra de alguma história com eles? 

 

R - Ele era muito matador de anta. Eu perguntava, diziam que ele tinha coisa assim da mata para matar as antas, mas ele nunca chegou a me contar. Eu pelejei muito, já era rapazinho, me encostava nele, mas ele não falava nada. Dizem que ele era campeão mesmo, chegaram a ver. Chicão falava muito nele. Ele era campeão, dizem que ele tinha remédio da mata, mas ele nunca soltou nada, não. 

 

(23:37) P/2 - Nessas suas caçadas, você chegou a ser traído por alguma cobra?

 

R -  Rapaz, eu tenho para mim que fui traído, mas não foi cobra não. O meu avô João Batista me disse que foi um cipó, porque eu rodei muito e bateu dor de cabeça. Eu não saía de cima dessa terra. Não me esbarrei com cobra e o meu avô disse que foi um cipó. Eu acreditei porque eu bolei muito, bateu dor de cabeça mesmo, já estava aperreado, até que eu me sentei, fiquei lá, ruim mesmo. Demorei muito, muito mesmo. Tinha um poçozinho d'água, fui lá, tirei a blusa e me molhei todinho com a blusa, [com] pouquinha água. Com muito tempo eu fiquei normal, um pouco, aí peguei o rumo certo. Eu pegava a bússola, rodava na terra.

Meu avô disse que foi cipó da mata e eu acredito que foi porque eu não me esbarrei, mesmo porque eu já estava percebendo que eu estava traído. Eu estava percebendo porque eu cacei muito, vivia muito na mata caçando. Eu estava percebendo que tinha um negócio errado, eu já estava queimado, bateu a dor de cabeça logo e a gente fica aperreado. 

 

(25:13) P/2 - Nessas caçadas que você ia com seu pai, para o centro, você viu algum tipo de assombração na mata? Algum vestígio, algum sinal de ciência, de alguma coisa assim, de assombração? 

 

R - Rapaz, de caçada eu conto bem assim, que uma vez eu andava mais papai, e nesse tempo nós caçávamos com cachorro. Ele disse: “Você vai com esses cachorros por aí, eu vou para cá.” Eu fui. Era até aqui, por esse aguadeiro. Nós estávamos no acampamento aqui, acima da bandeira um pouquinho; eu saí com ela, dois cachorros, saíram rastejando os porcos. Esses cachorros ficaram correndo de lá para cá; ficaram os gritos nos meus pés, bolando no chão e eu não vi o que era. Do meio por fim eu já estava arrepiado, queria correr também, olhava e não via, não. E os gritos mesmo. E daí acabou-se. Eu já tirei para casa e pronto. [Foi] um assombradinho, aconteceu isso. 

Eu achei muito ruim porque a gente não viu o que foi que estava açoitando, batendo, embolando nos meus pés, os gritos… Eu olhava, não via nada nos meus pés, aí eu fiquei mole. “Rapaz, tem uma coisa errada aqui.” Eu já fui voltando. 

 

(27:08) P/1 - E você lembra de alguma vez, além daquela cobra, que você curado com algum remédio do mato? 

 

R - Eu tomei do corredor, a água do açaí mesmo. Eu descasquei, cortei o olho dele, [estava] um pouco novo. Descasquei, meti os dentes, mastigando. Ela alivia bastante, porque a cobra, quando pica a gente e é muito venenosa, que vai ofender, ela puxa muito por água. No que você descasca o açaí e morde, já molhou a língua. Você sente aquele alívio medonho, porque a cobra puxa por água. Aquela secura é que dá o problema de acontecer muita coisa, infecção, tudo. E no que você chupa, morde o açaí, molhou. Até a jarina, você descasca aquela mais verde e quando você morde já sente um alívio grande. 

Quando eu fui a derradeira vez, me levaram do quartel lá para Mâncio Lima. Não me deixaram triscar em água, em canto nenhum. Eu pedia por tudo que eles deixassem ao menos eu triscar na água, e eles não deixaram de jeito nenhum, disseram que eu não ia resistir. Quando cheguei lá, foi o que o enfermeiro disse: “Agora você molhou os dedos, só põe assim”, mas eu fazia que nem macaco mesmo, eu molhava e ficava lambendo os dedos, dava aquele alívio. 

Acham que é uma ciência que tem a água, mas eu acho que não. É porque eu acho que a secura coalha o sangue, aí dá problema, infecciona a gente por dentro. Na hora que você toma qualquer coisa da água, do açaí ou da jarina, ou outro remediozinho de folha da mata, já vai combatendo aquilo, a água vai. 

No momento que ali a derradeira deu aqui no meu pé, eu botava sangue e o colchão ficou todo melado de sangue. Dizem que era pelos cabelos, pelas minhas costas. Eu não provoquei nem nada e o colchão ficou melado de sangue. Dizem que põe mesmo, meu cabelo ficou cheio. 

 

(30:08) P/1 - E teve alguma outra doença que você se curou com medicina da mata?

 

R - Pra diarreia tem vários remédios da mata, tem uma qualidade de cipó também que é bom. A gente corta ele, tapa uma colher de leite e pode beber. É bom, ótimo mesmo, até pra infecção no estômago. 

 

(30:32) P/1 - Hoje você estava dizendo de uma medicina que cura o câncer. Qual é?

 

R - É o mel da jandaíra com a copaíba. Você mistura uma colher de um, uma colher de outro, bota junto. Qualquer tipo de inflamação que estiver no início pode tomar com gotas, botar no café. Eu já tenho um pelejado. Vou na República, dizem que tem jandaíra e eu estou a fim de encantar. Dizem que pra começo de hérnia também é bom. 

 

(31:22) P/1 -  Como foi que o senhor aprendeu?

 

R - Meu filho, em uma viagem uma vez aí para fora… Tinha um parente que estava contando que tinha curado a mulher dele, que estava no hospital, já na mesa de operação. Eu, bem pertinho, fiquei decorando. [Ela] ia se operar, ele foi e fez. A mulher dele ficou boazinha, mas ele não ensinava para ninguém; eu estava parede com parede, aí eu ouvi. (risos)

Esse eu tenho na minha mente e é bom. O óleo de copaíba, se você pegar um gole para passar, sara logo por cima. Se você passar muito… Fica a enfermidade por baixo; você tem que passar bem pouquinho, ele vai fechando. O mel da jandaíra, [se] você passar um gole também, é só ele mesmo. Não queira saber como aquilo é bom, pra qualquer tipo de enfermidade também. 

 

(32:24) P/1 - E você usou isso?

 

R -  Eu já. Ele é uma belezinha. Nós temos aqui na nossa região, mas não é muito fácil, tem que encontrar, mas que tem, tem. Daqui para o alto eu sei onde tem um e um colega meu sabe onde tem outro. 

A gente tem que tirar porque tem muita coisa para problema de estômago, dizem que é bom [pra] ferida no estômago, gastrite. Dizem que jandaíra cura também, feito em gotinhas, porque uns querem [se] curar assim, tomar tudo e amanhã querem ficar bons. Não, é medicina.  

 

(33:12) P/1 - O senhor estava contando que se casou. Quantos anos tinha quando casou?

 

R - Eu casei novinho, novinho que Deus me livre. Eu fiquei muito triste quando eu vinha, eu me casei. 

Eu trabalhava com meu pai, ele quem dominava tudo. [Eu] só cortava a seringa. Quando eu botei a mulher dentro de casa ele disse: “Agora vamos no patrão.” Ele foi e disse assim: “De hoje para frente você vai tomar conta da sua pessoa. Você já tem mulher, vai fazer sua casa, vai fazer tudo”. 

Eu não dormi de noite. Eu dizia: “Como é que eu vou viver?” Só com a rede, a coberta e a mulher. Ele foi lá no patrão, que era o Bolota, vendeu a borracha, repartiu e me deu uma parte do dinheiro. Naquela época, cinco cruzeiros era muito dinheiro, eu baixei e comprei umas coisinhas. 

Eu dizia: “Como é que eu vou viver? Vou deixar essa mulher porque eu não vou sustentar ela não, poxa vida! Tenho costume de trabalhar por conta própria, trabalhava pro pai, que assumia tudo, eu nem vou aguentar.” 

Fui lá no patrão e comprei umas mesclas - naqueles tempos era mescla. Fizeram um colchão, enchi de palha de banana, já deu um colchão que era um medonho. Bati, tirei um enrolo de malva, botei assim, outro assim, bati um pano de choupa, joguei o colchão em cima. Com malva eu fiz os travesseiros, costurava o pano e enchia. Era colchão pronto e a família todinha. Não tinha esse negócio, se não tiver algum colchão, a mulher não quer o cara. Ficamos assim.

 

(35:33) P/1 - Seu pai disse que você não ia morar mais lá. Você foi morar onde?

 

R - Eu fiquei morando perto, mas fui arrendando estrada com o patrão e fui trabalhar por conta própria. Mas eu pensava demais, dizia: “Eu não vou sustentar, não, não tenho costume de assumir nada.” O patrão disse: “Não, rapaz, você pode cortar. Você já corta seringa, pode cortar que eu vendo fiado.” A gente comprava para pagar quando fizesse a produção, cortava e levava a borracha para ele, ia pagando as contas. Eu fui continuando, graças a Deus, foi indo, deu tudo certo.

 

 

(36:17) P/1 - Quando nasceu o seu primeiro filho? 

 

R - Quando ele nasceu… O primeiro não, o primeiro não chegou. A mulher, acredite… Faleceu. Dois. Quando foi o primeiro, eu fui lá no patrão, comprei leite, mas nunca deixava de plantar duas touceirinhas de cana. Não era canavial, não; eram dois, três, quatro touceiras de cana. Sempre tinha ao redor de casa, já para bater… Se não tinha açúcar, batia, espremia a garapinha, a mulher fervia lá no papeiro e botava para não azedar o mingau. Enrolava no dedo aqui a massa de macaxeira, botava no pilão, pisava no pilão a massa. Fazia a massa pro menino no pilão e passava no pano aquele anguzão, chega grudava no dedo aqui, e chlepzão na boca. Era forte.

 

(37:24) P/1 - Você disse que teve nove filhos. Como era sustentar nove crianças? Como é que você fez? 

 

R - Era ralado, lutando mesmo. O pior é que era de um ano para o outro, tinha que ser. Eu ralava na mata, cortando seringa mesmo, danado, cortando mesmo para dar conta. 

 

(37:55)  P/1 - E como era a criação dos seus filhos? Como é que foram criados? 

 

R - Quando eles iam ficando maiorzinhos, aqueles que aguentavam iam arrancar mata ao redor da roça e aqueles outros iam ajudando na estrada por ali também. Dividia as distâncias até certo meio, para não ser muito longe, eles pegavam o baldezinho e iam ajudando também. Era assim. 

A vida não foi fácil para nós, para hoje a gente estar aqui, no que é nosso, e sair para outro canto, sem saber nem como é que a gente vai. A gente vai para Mâncio Lima, mas fica doidinho para voltar para a aldeia, eu fico aperreado lá. [Quando] chego lá, se der dois dias eu volto para trás.

 

(39:03) P/1 - Como foi a primeira vez que você foi na cidade? O que você achou?

 

R - A primeira vez que eu fui eu achei bacana, mas tem muito quente, muita carapanã para lá, eu acho ruim. O silêncio aqui é outra coisa. A gente passa um mês lá [e] quando chega a gente sente aquele… Naquela época, nós fomos para Brasília. Quando eu cheguei em Mâncio Lima sentia aquele fogo medonho, quando eu cheguei aqui foi um sono bacana, relaxado. 

 

(39:44) P/1 - E o senhor foi pra Brasília fazer o quê?

 

R - Fui com ela para uma representação com o ICMBio. Fomos bem uns oito, parece, de seis a oito, acompanhar as lideranças. Foi só acompanhando mesmo, porque também tem os parceiros, para ajudar a dar mais força. 

 

(40:14) P/1 - E o que você viu de conquista para o seu povo?

 

R - Para nós sempre eles botam uma dificuldadezinha aqui e acolá. Eles não botam nada de favorável, não, sempre botam um pouquinho de dificuldade. Aquilo que a gente quer é favorecer, mas eles querem dar só mesmo aquela desculpa, que a agora vai dar certo e tal, mas [a gente] nem dá as costas e eles dão pra trás. É isso. 

 

(40:51) P/1 - O senhor é irmão do cacique. O que você lembra da convivência com ele, antes dele ser cacique? 

 

R - Toda vida ele foi assim mesmo, virado, até porque ele tem a memória boa. Ele e a Lucila têm uma memória boa para decorar tudo. Eu não decoro muitas coisas, não. Se eu for lá em Brasília e a pessoa falar “é assim, assim, assim”, até chegar aqui eu já não sei mais, eu esqueço, por isso que eu digo que eles têm a mente, a cuca bem bacana. Eu não tenho, eu esqueço; às vezes estou me lembrando de uma coisa, mas naquele momento que eu vou falar eu já fico procurando no sentido. 

 

(42:04) P/1 - Teve alguma vez que você foi mariscar que aconteceu alguma coisa? 

 

R - Teve uma vez que eu joguei uma tarrafa, cobri um poraquê. Fui desenganchar, para mim estava cheio de peixe; pulei bem em cima dele. Nesse dia eu disse: “Eu estou morto.” Para mim, tinha rolado a cintura e tinha jogado fora, eu estava só amolgado na canoa, fiquei sem… Eu digo, os quartos foram com a perna, com tudo. Fiquei agarrado na beira da canoa. Eu disse: “O resto foi”, para mim tinha rolado assim. Tinha sido um elétrico d'água. Aquilo ali é soco. 

Outro foi da arraia, deste tamanho assim [pequena]. Furou aqui [no calcanhar]. Tinha saído pra caçar. Eu cheguei, fui tomar um banho. Quando entrei, puxei o pé, tã! [Pensei:] “Não dá nada, não.” 

Fiquei por ali, me deitei. Comecei a escorrer água dos olhos, escorrendo por aqui, assim [pelo rosto]. Deu logo uma íngua e a perna dava choque. Eu disse: “Eu vou chorar logo, porque não adianta. Chorando é melhor, porque já está escorrendo lágrima.” E chorei mesmo, porque não aguentei, não. Chorei porque a dor foi grande. (risos) 

 

(43:26) P/1 - E como o senhor se curou? 

 

R - O parceiro _______ tirou um cupim, botou lá e meteu fogo. Coloquei o pé dentro, cobria tudinho, chegava a adormecer, até que eu consegui pernoitar. Era tardezinha, [quando] entrou pela noite eu agarrei no sono. Quando acordei estava bem pouquinho, mas estava inchado. 

 

(43:50) P/1 - O pé dentro?

 

R - Sim, em cima do copinho o fogo, o fumacê subindo. Eu, com o pé dentro ali, só virando de um lado para o outro. Não aguentei não. Chorei.

 

(44:13) P/3 - Seu Luiz Nawa, sou o Paulo Almeida Nukini. Queria perguntar ao senhor se nesse momento que está sendo trabalhada, revitalizada a memória do povo Nawa, é importante para o senhor com essa nova geração, com seus netos, com seus filhos ter essa essa unificação do povo aqui? 

 

R - Cacique, para mim é uma grande satisfação. Até nunca pensei que você mesmo estaria aqui com a gente. É um estudo, você está dando uma aula, não só para mim como para os parentes, meus filhos, os netos. Eles estão ficando bem orientados. É uma coisa que a gente não pensava, eu mesmo não pensava, mas eu falo para mim e não é só para mim, porque as pessoas estão aqui, todos ficam alegres. 

Pra mim é importante mesmo, Paulo, você sentar com a gente, e quero que você sempre seja bem-vindo aqui, junto com a gente. Essa senhora, esse senhor aqui também, Ave Maria, a gente vai ficar lembrando muito, muito mesmo. 

 

(46:01) P/1 - Você lembra do povo Nukini, como é? Você já foi lá, como é que você conheceu ele?

 

R - Eu estive várias vezes, sempre a gente vivia lá nos Nukini. A gente se dava com eles, eles se davam muito bem com a gente também. Agora eles trabalham com o Paulo Almeida, são meus vizinhos, porque a área [deles é] de um lado e nós, do outro, são parceiros de trabalho. 

A gente tem que ser assim, os parente unidos, porque quando precisa de um está ali, [se] precisar do outro, tem que estar ao lado para ajudar também. A gente está achando muito importante esse trabalho dele, ele está junto com a gente aqui para reforçar mais, porque é bom demais. A gente fica bem agradecido por estar aqui debaixo dessa samaúma, com essa grande felicidade de histórias. Deus vai abençoar, vai dar tudo certo. 

 

(47:10) P/1 - Qual foi a coisa da cultura Nawa que foi importante para você conhecer na sua vida? 

 

R - A cultura Nawa que eu gostei de ver… A nossa cultura foi um pouco devagar. Quando começamos os trabalhos, fomos começando, as meninas, a Lucila, junto com os outros foram levando em frente. Eles têm a memória muito boa, foram tocando para frente a cultura. Estamos indo para frente, já estamos na samaúma; da samaúma vamos mais para frente, isso aí está bom. 

 

(48:17) P/1 - E da cultura dos antigos? Você ainda conviveu com os mais antigos. O que você lembra que eles faziam que hoje os jovens não fazem, que seu pai, a sua mãe fazem? 

 

R - Os antigos, o que eles faziam hoje não tem mais. Eles faziam aqueles potes, barris pra botar água. A água ficava gelada mesmo, a água ficava bacana. Eles não fazem mais. Tem algum ainda lá que trabalha em… Porque para nós aqui tinha mamãe. A mãe está meio baqueada, mas ela trabalha ainda. 

Aliás, nós temos um caripé ali, que eu vi. Quando ela vier aqui, Lucila, a gente vai atacar ela para ver se [com a gente] ajudando ela, ela dá só o retoque, ver se ela faz… Tem um caripé lá no roçado, separado. 

Tem que lembrar, quando ela vir, pra nós fazermos esses potes, esse barris, porque a gente tem que aprender também, e é fácil de aprender. Eu que não aguento, tenho um problema de coluna, não posso ter mais muito trabalho para fazer. Eu não aguento fazer o serviço, mas é importante serviço de barro. 

 

(49:47) P/1 - Ela fazia esse pote e o que mais?

 

R - Faz tudo, querendo faz tudo. Faz pote, barril, faz cachorro, faz gato, faz tudo. Todo módulo faz, todo desenho faz. Faz o forro, que nem está ali, as coivaras, bota dentro e queima. Depois tira, bota lá para o canto, ele esfria e lava ele, já está no ponto de botar água dentro, aí conserva bem a água, bacana a água. Ela faz muito, só quer ela fazer. 

 

(50:27) P/2 - Eu queria que você… A sua mãe, que ainda trabalha na cerâmica… Tem alguma ciência para fazer o pote, para fazer, para queimar? Ela te ensinou alguma ciência?

 

R - Tem o tempero do caripé com o barro, tem a ciência de tempero, e para queimar também.

 

(50:55) P/2 - E fora o tempero, tem alguma ciência no período de tirar o barro, de preparar o barro?

 

R - Tem a ciência para tirar. Aliás, ali onde a Dani mora no Campina tem de onde se tira o barro. Você tem que tirar ele e ver também a lua, se não quando você for queimar, pow!

 

(51:24) P/2 - E fisicamente, tem alguma dieta pra fazer o pote? Como nós somos indígenas, para fazer canoa o homem tem que dormir longe da mulher tantos dias. Eu queria saber se a sua mãe lhe ensinou essa ciência no preparo do barro, na queimação do pote.

 

R - Não, a ciência é essa que eu estou dizendo, da tiração do bairro, agora tem que ser da lua. A ciência pior é da lua, porque você vê… [Quando] trabalha de motosserra, vai derribar um pau, você vê. Dependendo da força da lua, você vai pôr e lasca, de um ponto a outro. Nesse período, se você fizer o pote e for queimar ele, ele [se] parte. 

 

(52:24) P/1 - Então qual é a lua?

 

R - É uma já com força, é lua cheia. O barro é o seguinte, o barro é fácil… [Quando] você vai tirar ele você tem que testar, tem que morder ele, porque se tiver areia não presta. Tem que mastigar ele, tem que ser todo maciozinho. 



(52:49) P/1 - E essa ciência da canoa que ela comentou, como é que é isso?

 

R -  A canoa é porque…. A canoa não tem muita coisa, vai da força da lua também. O cara diz que é assim, mas não é nada. A gente dorme com a mulher até por cima da canoa mesmo. (risos)

 

(53:15) P/1 - O senhor já fez canoas?

 

R - Já trabalhei muito com os outros, mas não sei fazer mais o trabalho. 

 

(53:25) P/1 - Eu queria agradecer então, seu Luís, por ter contado um pouco da sua memória, é muito importante. Queria perguntar o que achou de contar um pouco da sua história e se quer contar mais alguma coisa. 

 

R - Não, tá bom. Pra mim está muito bom, está bom demais. Eu quero agradecer também a presença de vocês todos aqui, da Lucila, do menino aí, o Paulo Cacique, que está aqui também. E quero que sempre esteja conosco aqui junto debaixo dessa samaúma aqui pra gente conversar. Tem uma história bem bacana. Na próxima talvez tenha mais, uma história mais bonita.



Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+