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História

Um bancário nos anos 1950

História de: Arnaldo Viana de Azevedo Marques
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/07/2020

Sinopse

Arnaldo conta histórias da época em que trabalhou no setor bancário no centro de São Paulo e no bairro do Paraíso, refletindo sobre as mudanças que ocorreram no setor ao longo dos anos, com a digitalização dos processos e sobre algumas das figuras com quem conviveu.

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História completa

P/1 - Boa tarde.

 

R - Boa tarde.

 

P/1 - Por favor, seu nome completo. O local e a data de nascimento.

 

R - Arnaldo Viana de Azevedo Marques. Nasci em São Paulo no dia 2 de fevereiro de 1930.

 

P/1 - Seu Arnaldo, qual é o seu centro aqui na cidade de São Paulo, os locais que o senhor frequenta ou frequentou?

 

R - Agora eu não frequento mais o centro, mas já frequentei muito aqui em torno. O próprio Banco do Brasil e aqui onde tem a Bolsa de Valores, que era o Banco Comércio e Indústria de São Paulo, onde foi o meu primeiro emprego, como bancário na inspetoria do Banco Comércio e Indústria de São Paulo.

 

P/1 - E o senhor vinha muito aqui para o Banco do Brasil?

 

R - Vinha. E depois de um certo tempo eu vinha sempre acompanhado de um funcionário buscar dinheiro aqui exatamente onde nós estamos agora.

 

P/1 - Aqui no cofre.

 

R - É, aqui no cofre da tesouraria.

 

P/1 - Como é que era?

 

R - Vinha com uma mala e retirava o dinheiro e nós saíamos pela rua e íamos até lá o Comércio e Indústria.

 

P/1 - Com a mala cheia de dinheiro.

 

R - Cheia de dinheiro.

 

P/1 - Sem problemas de assalto?

 

R - Sem nenhum problema. Posteriormente eu fui transferido para uma agência nova, lá no Paraíso aí não era no Banco do Brasil, mas eu vinha aqui no Banco Comércio e Indústria, a gente fechava o caixa no fim do dia. Você deixava uma reserva lá no banco e o restante punha numa mala, pegava um táxi e descia na Praça da Sé e vinha a pé até o Banco Comércio e Indústria para depositar ele na matriz.

 

P/1 - E vinha sem segurança, sem nada?

 

R - Sem nada. As únicas recomendações da norma do banco é que seriam sempre duas pessoas, um procurador e o gerente, no caso, da agência, o gerente com um procurador, que eu era procurador do Banco Comércio Indústria. 

 

P/1 - E como é que era essa burocracia de pegar e levar o dinheiro? Tinha que escrever papelada?

 

R - Tinha, tinha que fazer um relatório do movimento do dia, que acompanhava o malete, e entregava na tesouraria do Banco Comércio e Indústria. Quando era na matriz a gente vinha buscar dinheiro aqui. Também, tinha uma requisição que se apresentava, uma identificação. Preenchia o formulário e levava o dinheiro para o banco. 

 

P/1 - Que ano foi isso?

 

R - Isso aí foi na década de 1950, foi eu acho que 1950, 1951, 1952, 1953 nessa faixa. Depois eu saí do banco e fui trabalhar na parte industrial.

 

P/1 - E o senhor tem alguma história para contar dessa época que o senhor fazia esse trajeto nos bancos com o dinheiro? Teve algum episódio?

 

R - Não, nesse daí não. O que ocorria quando eu trabalhava lá na agência do Paraíso, tinham outros bancos lá em volta da Praça Osvaldo Cruz, e quando era cheque de um outro banco depositado, não ia para a compensação. A gente fazia a compensação a pé. Eu ia nas agências e ia trocando os cheques. Isso que eu eu achava pitoresco. E lá na agência aparecia uma senhora sempre muito bem vestida, muito bem arrumadinha e chegava no balcão e contava uma história: “Olha eu tenho uma ordem de pagamento do meu filho no Rio de Janeiro, mandou para mim, meu nome é tal, mandou aqui para o banco”. O pessoal atendia, procurava e dizia: “Ah, mas não chegou ainda”. E ia nos arquivos e procurava: “Não, não chegou?”. “Não, mas ele mandou, ligou para mim do Rio e falou que está aqui”. Toda com chapeuzinho, veuzinho, com tailleur, muito bem maquiada, uma senhora de 60, 70 anos mais ou menos. O pessoal atendia e os funcionários preocupados em atender e procurar. Daí ela voltava depois de uma semana: “Mas não chegou ainda a ordem de pagamento?”. “Não, ainda não chegou”. Uma das vezes que eu fui fazer essa compensação no local de cheque, em um banco vizinho, cheguei lá e encontrei essa senhora no balcão com a mesma pergunta. E os funcionários rindo, alguns pondo a mão na cabeça. E eu: “Mas o que que é?”. “Ih, ela percorre todos os bancos aqui”. Nossa agência era nova e não estava...

 

P/1 - Não estava sabendo.

 

R - “Ih, ela conta essa história. Toda vez ela vem aqui e conta todas as histórias”. Aí eu voltei e falei para o gerente e para o contador: “Olha, me falaram isso lá no banco”. E ele falou: “E a gente caindo nessa história aqui, a agência é nova”. Aí passou mais ou menos um ano. De vez em quando ela voltava lá, a gente dava uma atenção. A gente tratava com educação, mas não ligava. Não ia perder mais tempo procurando, né? Só que uma vez mudou o gerente. Quando o gerente do Banco Comércio e Indústria começou lá era o Doutor Salustiano Bandeira de Mello e foi o Silvio Tescari quem o substituiu. Um gerente todo empolado, metido, não sei o quê, altão, metido, todo não sei o quê. Aí chegou essa senhora. E tinha um contador muito, mas muito engraçado, malandro, que falou o seguinte: “vamos atender e encaminhar lá para o Seu Silvio” [risos]. E ele, um gentleman, atendeu e disse: “A senhora pode sentar” e tomou nota e disse: “Eu vou verificar, a senhora pode ficar tranquila”. E o pessoal na agência morrendo de rir. Eu trabalhava lá como procurador e tive que me abaixar de tanto que eu ria. E ele atendendo a senhora, tomando nota, chamou o contador e o pessoal todo rindo. No fim ela levantou e foi embora, todo mundo ria e ele perguntou: “Mas o que que é?”. Aí, contaram a história para ele e ele ficou uma fera: “Que falta de respeito, estão brincando comigo”. Isso é o que eu me lembro. Um dos fatos mais pitorescos da minha era bancária foi esse. O trote que passamos no novo gerente. Mas, instruídos pelo contador, a gente falou: “Olha, esse aí é por sua conta hein”.

 

P/1 - [risos] Interessante. E um outro personagem? O senhor falou dessa senhora, que é bem típica, né? Algum outro personagem que o senhor tem lembrança aqui no centro da cidade? 

 

R - Não, no Centro não. É que aqui no banco eu trabalhei na inspetoria, e foi mais estágio, justamente me preparando para ser procurador lá na agência do Paraíso. Então foi curto o período daqui. 

 

P/1 - Ah, foi curto. Como é que era o cheque nessa época, o senhor se recorda?

 

R - Não é como hoje. Não era nominal, não vinha impresso nem CIC, RG, telefone, era muito mais simples. E outra coisa não era necessário usar o cheque impresso. Se você fizesse um documento a mão, dos mesmos jeitos que o cheque, valia como cheque.

 

P/1 - Ah, é? Qualquer papel, então?

 

R - Qualquer papel. E era interessante, eu estava vendo ali umas fotografias. Promissória, como tinha promissória antigamente. Trocar promissória,  descontar com promissória, comprar. Hoje é tudo virtual, magnético, né? Eletrônico. Eu não fiquei muito tempo como bancário. Logo fui contratado pela indústria e me desliguei do ramo bancário. 

 

P/1 - E teria mais alguma história para contar para a gente, senhor Arnaldo, dessa sua vivência nos bancos na década de 1950?   

 

R - Sim, eu me lembro. Depois que eu fui trabalhar em uma indústria, como eu tinha essa experiência bancária, eu fui levado justamente para a tesouraria e tinha uma indústria cuja fábrica era em na Avenida Santa Marina, móveis ______________, eu era procurador aqui na Avenida Itapetininga. A gente formava os borderôs de duplicatas para desconto. E eu ia aqui no Banco Itaú que começava e era aqui na João _____________ e quem me atendia era o Setúbal. E aqui no Bradesco também, eu era atendido pelo ex-governador de São Paulo que foi diretor do Bradesco, eu não me lembro o nome dele, que foi diretor também do São Paulo Futebol Clube, o ex-governador.

 

P/1 - E eles próprios que vinham atender o senhor?

 

R - É. Lá era o Setúbal, onde em frente hoje é a sede do Banespa, ali, acho que é João Nicolas.

 

P/1 - Acho que é sim.

 

R - Que vai da Antônio Prado até a Alvares Penteado, aquele trecho ali.

 

P/1 - E agora, Sr. Arnaldo, o que o senhor está achando de contar para a gente essa memórias da década de 1950 e 1960?

 

R - É sempre interessante. E essa visita aqui eu achei muito interessante. O cofre que eu já conhecia [risos]. Nunca tinha entrado aqui dentro, só ficava ali fora, na tesouraria. 

 

P/1 - O senhor não chegava a entrar aqui dentro para pegar o dinheiro?

 

R - Não. Geralmente vinha o funcionário, eu ia acompanhando e ele que entrava, né? E eu ia acompanhando ele até a rua.

 

P/1 - Então, a gente agradece a sua colaboração. Se quiser registrar mais alguma coisa, contar para a gente.

 

R - Não, acho que é só. Achei interessante essa visita aqui. Eu trouxe meu filho e minha nora e então eu estou explicando. Fiche, por exemplo, Fiche era famosíssimo em São Paulo. Montou uma fábrica de artigos de aço, esquadrias e uma série de coisas.

 

P/1 - Conta para a gente uma curiosidade que o pessoal às vezes pergunta aqui. As paredes do cofre, como é que eram, o senhor se recorda?

 

R - Ah, não me lembro. Geralmente eu acompanhava um contador e ele que entrava aqui. Eu fazia mais era acompanhar. Saía todo o dinheiro para a rua. Isso que eu achava fantástico aqui em São Paulo. 

 

P/1 - Vamos fazer hoje, de novo. 

 

R - É. Não havia notícia de assalto em banco. Assalto em banco foi a partir do terrorismo, da ditadura militar, que o assaltante tomava lição com os terroristas na cadeia, foi aí que começou. Quer dizer, antes era completamente desconhecido.

 

P/1 - Está bom Seu Arnaldo, a gente agradece a colaboração. E chame seus colegas daquela época para vir prestar um depoimento.

 

R - Eu vou trazer. Tem quem traga.

 

P/1 - Muito obrigado.

 

R - Obrigado.  

 

----------------------- Fim da entrevista ------------------

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