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História

Um artista em Mataripe

História de: Eunápio Cavalcante Costa
Autor:
Publicado em: 26/01/2015

Sinopse

Eunápio nos conta sobre sua infância e brincadeiras em Cruz das Almas (BA), onde concluiu o ginásio. Fala de sua família, dos cursos que o fez entrar na Embrapa e a mudança para Salvador, nos anos 50. Nos diz como entrou na datilografia e sua entrada na Petrobras nesta profissão, em 1963. Vemos sua passagem pelo exército, onde se formou como sargento e foi dispensado, além de sua passagem para desenhista dentro da Petrobras. Fala de causos na refinaria de Mataripe, por onde se aposentou em 1995, seus dons artísticos para a composição de músicas e a escrita de livros (sobre sua vida e a história de Mataripe). Fala sobre seu casamento, sobre como conheceu seu par e sua aposentadoria - termina fazendo um balanço de vida e de seu testemunho.

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História completa

Eunápio Cavalcante Costa, Cruz das Almas, 2 de novembro de 1939.

FAMÍLIA

Pais: Maximiano Vieira Cavalcante e Isauta Costa Cavalcante. Homem do campo, agricultor. Gostava de extrair da terra a sua própria alimentação e para os seus filhos. E geralmente ele plantava em terreno dos outros, como se fosse capataz de propriedade dos outros; tomava conta de fazendas. Na maioria da vida dele, ele não teve uma propriedade grande dele, não. Plantava laranja, principalmente laranja e fumo, que dá muito na nossa região de Cruz das Almas. Meus avós, tudo similar, também do mesmo ramo. Também agricultores. Maria Costa e João Ribeiro Costa. Os maternos. João, também o nome do avô paterno, e a avó não me lembro agora não. A bisavó.

BRINCADEIRAS DE INFÂNCIA

A brincadeira era mais de, naturalmente, a bolinha - a bolinha de nego, porque ninguém podia comprar bola de borracha, nem couro.  Uma brincadeira chamada finca-pé, que a gente gostava muito. É um ferro com uma ponta; com o chão úmido você fazia um desenho, onde você tinha que fincar jogando, assim, fincar e ir marcando para fechar. Só fazendo mesmo para mostrar. A gente gostava muito. Brincadeira com castanha de caju, quem derrubasse ganhava, coisa assim, botava as castanhas. E uma das principais era a perigosa picula em árvore. Você sabe o que é picula, né? Um correr para alcançar o outro, para pegar o outro. Só que em vez de ser se esconder aqui, seria em galhos de árvores. Imagine! Esconder, mesmo se esconder, porque o outro não pode andar ligeiro ali, porque é perigoso. A gente brincava assim também. As árvores eram manga, jaca, e eu me lembro bem do pé de fruta-pão. Sabe o que é fruta-pão, né? Parente da jaca. Mas se você observar bem, ela tem como se fosse uns bagos, digamos assim, muito colados, o leite, a folha, tudo similar.

GUERRA DE ESPADAS

É muito conhecida lá a festa de São João, principalmente pela Guerra de Espadas. Está muito famosa lá, ultimamente. É perigoso. A gente lá não gosta que o pessoal fique falando contra, porque tem gente que combate, não sei o quê, mas realmente tem que reconhecer que é perigoso, é prejudicial. A bonita fogueira que o pessoal usa fazer - muito bonito, todas as casas com fogueira, mas a gente sabe que aquilo ali está prejudicando a natureza. Tem gente que não tira devidamente a madeira - porque caiu, porque está podre, qualquer coisa, não: derruba a árvore também para fazer isso. A gente sabe que é bonito, mas tem que ser contra. A Guerra de Espadas, geralmente os próprios tocadores de espadas fabricam. Não vou explicar aqui o fabrico porque demora. É basicamente um bambu, que se enrola todo com um cordão com cera para reforçar; pólvora numa quantidade certa; um lado tamponado com barro com um furo bem dimensionado para que esse jato saia equilibrando na peça chamada espada. Geralmente é desse tamanho, mas tem até de um quilo ou mais. Mas é 700, 600 gramas, por aí. Ela tem que ter um controle tal, um equilíbrio tal, que ela tenha o rojão para ser forte e tem que ser controlada para ela não subir muito, nem também ficar rasteando no chão, porque a finalidade é ela ficar mais ou menos baixa para o pessoal perseguir mesmo para lá e para cá.  Olha, ela tem uma etapa chamada de enquanto pega o rojão, né? Quer dizer, acende, dá aquele fogozinho na boca, leve, até pegar o rojão, como se fosse o estágio de um foguete. Então tem o primeiro estagiozinho fraquinho, que não faz com que ela se desloque. Até pegar o estágio dela mesma, que é da pólvora interno, que ela pega o rojão forte e sai na direção que ela quer. Geralmente ela anda de ré, porque o jato é para frente e ela vai de ré. Alguns tocam na mão direto. Outros, por exibição - principalmente se tiver televisão lá -, botam na boca para tocar. Quer dizer, aquilo quem faz tem a sua confiança, mas pode haver um erro e explodir; já aconteceu, explode. Se houver uma falhazinha - por exemplo, tomou uma pancada, rachou um barro daquele -, ela pode explodir. E acontecem muitas explosões. A explosão perto de uma pessoa, as lascas podem atingir e podem afetar. E outra coisa que é perigosa, é quando ela está numa altura tal e quando ela pega uma velocidade muito alta. Um objeto de quase um quilo com uma velocidade muito alta bater numa pessoa é fatal e já matou gente.

Olha, eu nunca participei, por duas razões: uma, pelo perigo em si. Mas pelo perigo, não seria isso, porque eu vou para junto olhar, já fui filmar. Um dia eu fui de camisa normal, filmando aquilo lá, e quando eu vi eu já estava no meio, sem querer. Então não participo por outra, que é cara, eu não gosto de desperdiçar dinheiro, de queimar dinheiro. Então, não participava por isso. Mas o que mudou? Mudou mais o seguinte: não sei se talvez pelo poder aquisitivo do povo. O povo por mais fraco que seja - a gente chama de fraco, né, o sem dinheiro -, mas sempre tinha as suas portas abertas com o que pudesse oferecer para o povo. Era praticamente uma fogueira em cada porta, e cada porta aberta para quem quisesse entrar, não era para conhecido. Mudou um pouco, está diminuindo, mas as espadas, essas coisas, continuam mais ou menos a mesma coisa desde quando eu conheci. Só que antigamente tinha o que a gente chama de espadeiros. Tinha mais espadeiros de recursos, que fabricavam e participavam. Hoje diminuiu um pouquinho, mas tem muitas espadas ainda. É coisa de cidade pequena, é coisa de umas quatro ou cinco caçambas de lixo, só de espadas queimadas, no dia seguinte, numa praça, em cada guerra. E tem uma praça muito grande. Eu comparo até em tamanho com Campo Grande, Salvador - a praça de Cruz das Almas é muito grande.

AVALIAÇÃO DA INFÂNCIA

Eu vivi em Cruz das Almas até 1957. Estudei em Cruz das Almas até o ginásio, e comecei o curso, que era o científico na ocasião, e vim concluí-lo em Salvador. Não é porque é moda, por causa de Lula não, mas é coisa parecida com a de Lula. Conheci o pão antes dos 7 anos, está certo? Mas passei também por muitas necessidades. Isso que faz com que muita gente desista, me fez ao contrário, me fez persistir para sair daquela situação. Então, eu fui sempre procurando todas as oportunidades que encontrava e aproveitando qualquer curso, qualquer coisa que eu podia aprender, e fui conseguindo prosperar, crescer. E consegui ir além do que os meus pais queriam para mim - porque a gente lá da roça, naquela época, o mínimo que conseguisse, uma profissãozinha qualquer, como sapateiro, qualquer coisa, era o suficiente. Eu consegui superar aquilo, fui sempre estudando cada vez mais. Consegui estudar o ginásio, porque uma professora ficou com pena de eu parar de estudar, quando viu a minha prova de exames finais de ginásio. Eu pararia ali. Aí ela chamou o pessoal e disse: “Olha, um menino que faz uma prova dessa, parar de estudar por causa de recursos!” Aí ela conseguiu uma bolsa, consegui fazer o ginásio. Daí eu consegui ir tomando o pezinho e fui seguindo sozinho.

ESTUDOS PRIMÁRIOS

Na escola, eu sempre com aquela dificuldade. Eu tinha de viajar a pé. O que eu me lembro bem foi o primário que eu fiz. Eu saía de um extremo da cidade para outro, atravessava uma florestazinha, que é uma reservazinha de floresta que tem em Cruz das Almas. Hoje está dentro da cidade, mas no meu tempo, no extremo da cidade. Para estudar numa escolazinha pública, onde eu era apenas mais um daqueles pobretões, que nem merenda levava. Então, tinha aquela dificuldade, tinha uma professora daquelas que ainda batia. Felizmente eu não apanhava muito, não. Aquelas sabatinas para castigar quem soubesse menos. E fui levando, e foi nessa escola que eu consegui. Aí a professora, certamente já reconhecendo a minha qualidade como bom aluno e minha pobreza, me deu um prêmio que eu nunca desfrutei. Uma caderneta de poupança no Banco Econômico. Isso eu nunca... Depois de anos, quando eu fui ver, não consegui descobrir mais nada. Era pouca coisa, né?

INTERESSE PELA LEITURA E ESCRITA

Olha, eu lia menos do que deveria ler e mais do que o brasileiro lê. Sempre gostei de ler, mas eu sei que deveria ler mais ainda. Mas lia. Mas o hábito de escrever veio do seguinte: o meu velho Ximino, Maximiano, sempre coisas que, esses matutos que eu chamo, coisas que eles acreditavam e coisas que a gente está vendo que não é possível: “Isso não aconteceu, meu pai!” “Mas foi, eu não vou mentir!” O velho contava certas coisas: “Olha aqui, eu estou arrepiado até hoje quando me lembro e tal!” Lendas da Mãe do Ouro, que a bola de fogo parou na frente de, tal. E no meu livro, deve ser nesse primeiro, eu ainda digo o seguinte: “Tá certo que não pode ter sido aquilo, mas não duvide!” Aí eu cito aquela frase do Shakespeare: “Há mais mistérios entre o céu e a terra do que possa imaginar nossa vã filosofia.” Porque aquilo que o velho disse que viu, que a bola de fogo parou na frente dele, para a gente é mentira, mas pode ter sido verdade. Aí você diz: “Como, verdade, uma coisa que não foi?” Por exemplo: o que é o fogo fátuo? É uma matéria orgânica em decomposição que solta um fogo quando se inflama, quando recebe a atmosfera. Então, o velho pode muito bem, já influenciado no seu cérebro que aquilo existe, quando viu aquilo, para ele foi aquilo, ele não mentiu, apenas se enganou, né? Então, o pessoal dizia a Lenda da Mãe do Ouro, como era, o que devia fazer. Aí outros contava casos do Saci Pererê, outros que se perdiam na floresta quando foram caçar. Aí sempre o velho me contando, e eu digo: “Isso dá um bom livro!” Daí saiu o meu primeiro livro, em 1988. “Crendices Matutas”. Eu botei o título de “Coisas do Arco da Velha”, que eu acho que é um livro que devia ser reeditado com uma capa boa e tudo, que é um livro que seria de boa aceitação, pelo menos para a faixa de idade do fim da criancice para a adolescência, é uma faixa boa de idade para esse livro.

Eu sempre, pelo que eu me lembro, eu me estendia um pouquinho naquilo que escrevia, parece que eu gostava de me estender mais nos assuntos, eu gostava de escrever. Nesse tempo da escola primária, que era praticamente dentro de uma florestazinha, né, a professora fez uma festa um dia, e eu não me lembro em comemoração a quê, onde eu fiz o papel de índio. E eu nessa cor, magrinho, vestido de índio, pronto, fui um verdadeiro índio . Inclusive muita gente passou a me chamar de índio daí para a frente. Dizem que minha, possivelmente, tetravó - é assim que chama? - teria sido índia. E eu acredito. Me comparando com os pataxós, eu me sinto parecido mesmo.

GINÁSIO E CURSO DE CAPATAZ

Fiz um curso. Inclusive, nesse período do curso, para você ver a minha força de vontade, eu posso dizer, eu estava fazendo um curso de Noções Práticas de Enxertadores Auxiliares - resumindo, capataz de agronomia. Mas eu achei que eu não podia me dar àquele luxo de ficar só fazendo esse curso. Tinha uma bolsinha de estudo, né? Aí eu ganhei o direito, ganhei uma bolsa também para estudar o ginásio. Quando a professora viu eu fazer o meu exame final de curso primário, ela viu minha prova tão boa, chamou umas fiscais e falou assim: “Olha, um menino desse parar de estudar por falta de recursos e tal?” Daí saiu uma bolsa de estudos para mim, eu ganhei. Aí eu digo: “Não, eu vou ver se é possível eu vencer os dois cursos!” Eu estava fazendo esse curso de noções de agronomia e vou ver se é possível fazer o ginásio. Aí eu passei a estudar de noite no ginásio, pedi transferência do dia para a noite, para poder fazer os dois cursos. Aí: “Ah, é difícil, você com dois cursos, você não pode dar conta!” Porque naquele tempo dois cursos eram muito para a gente; hoje, não. Eu sei que, resultado: eu passei em primeiro lugar no curso de capataz e passei em segundo no ginásio ainda. E daí para frente praticamente todos os cursos em que eu me metia eu estava entre os primeiros. Até o que eu passei por último aí, para técnico de manutenção - eu até tenho uma historiazinha particular, quando chegar a hora eu lhe falo.

EMPREGO NA EMBRAPA

Aí foi quando eu comecei a trabalhar na Embrapa. Lá mesmo em Cruz das Almas. A Embrapa, como sempre, estudos e pesquisas agrícolas. Uma das tarefas que me couberam como estudante, eu me lembro até hoje, e não sei nem se sei fazer mais, era verificar diariamente numa plantação de caju, no cajuzinho baixinho ainda, verificar determinadas florescências, para ver quantas flores se abriam naquele dia e se era masculina, feminina ou hermafrodita. Fazer anotações. Durante um período eu fiz isso. Porque eles precisavam fazer um estudo aí, dependiam disso, e eu fiz. Aí de lá eu fiquei cuidando de um viveiro de dendê, mudas de dendê para replantio. Depois que eu terminei o curso. Fiquei tomando conta dessa plantação de dendê, onde eu levei um ano e alguma coisa, quando surgiu uma vaga para o escritório em Salvador. Eu tinha 17 anos, por aí. No escritório em Salvador. Eu não tinha nenhuma habilidade, mas a pessoa me perguntou se eu queria vir, e eu disse: “Quero!” Meus pais já tinham vindo para Salvador por algumas razões aí, já tinham vindo antes. Eu estava lá por causa do estudo, né? Aí chegando lá, me deparei com máquinas datilográficas e tudo, sem eu saber digitar quase nada. Aí eu digo: “Vou aproveitar e vou aprender aqui!” Aí descobri como é que se aprende: é o manual e você seguir as instruções do manual. Aí o que o manual mandava fazer cinco vezes sem erro, eu fazia 30. Aí consegui sair de lá um bom datilógrafo. Por isso que mais tarde viria a me servir quando eu fiz o teste na refinaria. Foi por isso que eu fui aproveitado lá, porque estava muito bom na datilografia.

TRABALHO NO EXÉRCITO

Mas desse escritório eu fui servir o Exército, porque eu já estava um pouco atrasado, em débito com o Exército, eu fui servir. Uma vez lá, eu digo: “Não posso ficar parado!” Fui fazer curso de cabo, e em dez meses eu já era cabo, o que já era uma função, para um garoto como eu, naquela situação, já era uma função que dava para viver daquilo. Aí como cabo eu também não ia parar: “Ah, tem curso de sargento.” “Vamos embora!” Me inscrevi para o curso de sargento. Os cabos de Salvador e de Ilhéus totalizavam umas 20 pessoas para fazer o exame, para os aprovados fazer o curso de sargento, que seria em Recife. Daí pouco depois chegou o resultado: “Aprovado somente Eunápio e Osvaldo, então não vai ter curso esse ano por falta de número. Eles terão matrícula garantida para o próximo ano.”

OU EQUIPARA OU AQUI PÁRA!

Eu acho que é aquela tal da greve do “Ou equipara ou aqui pára!”, conhece? Foi mais ou menos 62, por aí. Greve porque o pessoal daqui do Sul tinha um salário, e o pessoal de lá da Bahia, com a mesma função, tinha outro. Os tupiniquins têm que ganhar menos, né? Aí o pessoal não aceitou. Aí vários movimentos. Mário Lima sempre à frente, porque ele sempre foi um líder nato. Mário Lima foi o deputado federal mais jovem, talvez, de toda história. Ah, não, hoje já deve ter os que ACM empurra para ser deputado. Mas, eleito pelo povo mesmo, acho que Mário Lima foi um dos mais jovens, com 22 anos. Aí o pessoal: “Não, isso não está certo, tal, vamos lutar pela equiparação e não sei o quê!” Aí adotaram esse slogan: “Ou equipara ou aqui pára!” Aí foi uma luta danada, aí o Exército foi convocado para garantir a integridade de quem quisesse pegar o ônibus para ir trabalhar. Naquele tempo tinha papa-filas. Aí eu era o cabo, com a turminha, fomos guarnecendo o ônibus, eu na porta, cheio de farda, cheio de fuzil, e parava nos pontos e entrou uma pessoa só, porque queria ir para lá por outra razão, não foi para não parar, não. Aí ele veio contando a história: “Não, rapaz, aqui a gente não tem nada contra nem a favor de ninguém, não - nós só estamos garantindo aqui e tal.” Aí o pessoal conseguiu levar a greve adiante e acabou não parando, quer dizer, equiparou. Lá não parou, mas equiparou.

INGRESSO NA PETROBRAS

Nessa espera para o próximo ano surgiu a Petrobras. Aí quando eu fui lá, não foi exame, concurso, não. Quando eu cheguei lá na Petrobras, o pessoal, precisando de serviço de datilografia, me deu um texto para redigir; quando ele viu eu bater sem olhar para a máquina, já saí dali contratado.

Eu acho que uma pessoa, não ando lembrando bem, uma pessoa me falou. Acho que foi um rapaz chamado Edson Saião, acho que ele me falou que tinha vaga lá para datilógrafo. Aí eu falei: “Ah, vou lá!” E fui. Tinha ido dois meses antes, guarnecendo um ônibus, cheio de farda e fuzil. Guarnecendo um ônibus de movimento de greve, para garantir o transporte de pessoal, né? Isso já foi perto do final do meu período de Exército, e como não veio o curso de sargento, um tempo depois eu já apareci lá. E se eu não me engano, eu fui ainda fardado fazer esse tal desse teste, se eu não me engano. Foi quando eu fui aprovado e pedi dispensa. Em dezembro de 1962 eu fui dispensado, 8 de janeiro de 63 ingressei lá.

Já era não, melhor dizendo, era, porque esse já regredia um pouquinho. É, bom salário, bom pagamento, boas recompensas. Embora, pouca gente sabe, essa recompensa era merecidamente e era mais um engodo, uma maneira de chamar, porque não era um local atrativo para ir trabalhar, era um local hostil, ruim de trabalhar e tudo. Quando eu entrei, já tinha asfalto, já tinha transporte, esses ônibus, que foi 13 anos depois da refinaria construída. Mas no começo foi muito difícil. Daí o salariozinho um pouquinho maior, aquelas histórias de que petroleiro esbanjava dinheiro. Eu explico num dos meus livros aí, isso aí, Não sei se caberia contar a vocês agora. Aquela história de petroleiro esbanjar dinheiro, amarrar dinheiro, fazer corda para sair correndo.  Tinha um que fez uma cortina com nota de dinheiro. É, cortina. Houve realmente coisas desse tipo, mas não é que ganhasse muito, é que o pessoal estava habituado a não ganhar nada, ganhar o que merecia.

Então, realmente houve gente despreparada para ter um dinheirinho. Principalmente - o salário mínimo é pouquíssimo, é pouco, mas para uma pessoa que não paga água, não paga luz, não paga telefone, não paga escola de menino, não paga nada, sobra dinheiro na mão. O cara lá na roça, lá no mato, não quer ver nada em casa. Quer dizer, o pessoal não sabia usar recurso, não sabia. Gente despreparada para tudo acabou com um salariozinho decente e sobrava dinheiro para fazer essas bobagens. Depois é que deveriam ver, quando tomassem juízo, que não era aquele o caminho.

PRIMEIRO DIA DE TRABALHO

Bom, quando eu entrei, aí me chamou a atenção aquele ambiente assim de otimismo, o pessoal se cumprimentando, sorridente, não sei o quê - e baiano gosta muito dessas coisas mesmo, e achei que estava num ambiente bom. E quando eu vi meus trabalhos sendo bem aceitos e eu desempenhando bem, foi uma satisfação. Olha, de início eram equipes de técnicos, de pessoal, de administradores, essas coisas, fazendo, elaborando seus trabalhos lá, seus procedimentos diversos, normas, esses negócios, que a refinaria ainda estava nova, e essa seção que eu entrei era novíssima. Ascon - Assessoria de Organização e Controle. Então, nessa Ascon o pessoal, muito trabalho redigido a mão, tal, cabia a mim dar aquela arrumação bonitinha na máquina. Eu me lembro que um dia botaram a gente para fazer extraordinário só para datilografar um trabalho que devia ser reproduzido em várias cópias, armazenado numa pasta preta, que era para distribuir de um modo geral lá para os órgãos. O pessoal apelidou “a galinha preta”, essa pasta. Aí a gente fez extraordinário para datilografar esse trabalho. Aí eu me lembro que era formulário contínuo, se eu não me engano. É, acho que era formulário contínuo que ia para a máquina. Máquina IBM já elétrica, imagine! Eu vinha daquela Remington, aí quando peguei uma IBM executiva, elétrica, aquele dígito bonito, danado. Aí ia só pá-pá-pá-pá, e o papel acumulando. Só sei que no final foi um monte de papel para a gente arrumar para entregar para o pessoal. Era mais nisso daí, na datilografia.

TRABALHO COMO DESENHISTA

Agora, esse local que eu cheguei para trabalhar em datilografia era uma seção nova e tinha todo equipamento de desenho. Cada material bonito, prancheta com régua T e tudo. E eu sempre gostei do desenho. No Exército eu já tinha me encostado a um desenhista lá, e a gente já ia fazendo alguma coisinha - sempre procurei aprender. Aí, quando cheguei nessa seção, lá tinha todo esse material de desenho - e alguns desenhos para fazer e sem ter quem fizesse. E eu digo: “Eu acho que eu faço!” Aí peguei, comecei a fazer. Daí a pouco o pessoal não me dava mais trabalho de datilografia: “Não, faça esse gráfico aqui, desenhe isso aqui!” Aí os colegas: “Mas você bobo, rapaz, você ganhando como datilógrafo e trabalhando como desenhista.” “Ah, rapaz, eu gosto e tal!” Resultado: por causa disso, pouco depois surgiu a Comissão de Reclassificação. Quer dizer, um grupo para descobrir quem estava trabalhando deslocadamente. Então, não deu outra: “O Eunápio é desenhista!” Pronto, agora o que é que eu me senti: um desenhista que não sabe desenhar direito. Eu digo: “Não, eu quero isso também!” Aí fui providenciar, fui fazer curso de noite, sozinho. E tinha um dos cursos em que o lugar que eu ia fazer era uma fábrica de qualquer coisa ligada a veículo, num lugar ermo, onde eu tinha que andar - a essa altura tinha uns dois que também faziam. Tinha que atravessar um lugar que nem enxergava onde pisava. Mas fiz esse curso de noite lá, consegui ser aprovado muito bem. Aí procurei ler, procurei comprar livro do ramo. Thomas French é um livro muito bom de desenho, que me ajudou muito. Hoje eu sei umas técnicas de letreiro que quase não vejo nenhum letrista usar. Então, um bocado de coisa em que eu andei me metendo assim, querendo sempre procurar um pouquinho mais. Quer dizer, eu posso dizer que eu não sou aprofundado em quase nada, mas entendo um pouco de muita coisa, e isso valeu.

Bom, desenhista - eu já expliquei que eu passei para desenhista. Aí nisso eu estava tentando voltar a estudar de noite, mas nisso, antes de voltar a estudar de noite, eu até cheguei a fazer uns testes num grande colégio lá, que dá curso pré-vestibular. Ele anunciou lá um teste para ganhar bolsa de estudo ou redução. Aí eu fiz, ganhei uma redução grande e fui fazer esse curso pré-vestibular. Eu estava preparado, mas nesse período eu já tinha passado para técnico de manutenção. Então podia fazer determinadas coisas de noite –

 tipo, como dava para ser professor de geografia, de história, advogado, coisas assim, que eu olhava para trás e via na fila várias pessoas querendo entrar na função em que eu já estava. Gente formada. Aí eu digo: “Para que eu vou me formar, só para dizer que sou formado, gastar dinheiro, sacrifício, só para dizer que sou formado? Não vou usar.” Aí parei aí. Aí procurei, em vez disso, fazer tudo quanto é curso que me aparecia. Por exemplo, curso de inglês eu fiz pela refinaria também. Mandaram fazer uma listagem do pessoal interessado, aí eu fiz, me formei. De mais de 30 pessoas, me registrei, só dois concluíram esse curso. Cursinho de, como é que chama, bate-papo de inglês, não curso elevado não, né? Conversação. Que lhe dava a oportunidade de você sozinho seguir. Então, fiz isso e só concluímos esse curso eu e um outro colega chamado Barreto. Mas de lá para cá eu não usei, então pouco sei. Mas de qualquer forma hoje dá para... No avião mesmo, vinha uma gringa ontem e eu não deixei de dar uma trocadinha de palavra com ela.

TÉCNICO DE MANUTENÇÃO

A empresa oferecia, sempre tinha cursos ali. E se desse para eu fazer, se deixasse eu estava lá, não queria nem saber para o que era. Aí fiz vários cursos, principalmente voltados para a função de cada qual. Fiz vários cursos ligados à manutenção, quando depois eu passei para a manutenção. Sendo que o curso principal era o de técnico de manutenção mesmo, o principal, que foi um curso de seis meses, intensivo, muito puxado. E esse curso foi o seguinte: houve um concurso interno para o preenchimento da vaga de auxiliar técnico de manutenção, que é uma função muito boa. Aí nesse concurso interno eu li o programa e não me achei capacitado. Aí não quis, não fiz o concurso. Aí houve o concurso e foi aprovada tão pouca gente que abriram um concurso externo. Aí é que é difícil, porque externo agora pegava gente de escolas técnicas, recém-formados e tal. Aí um colega meu: “Mas rapaz, o que é que você perde em você fazer isso aí? Você vai ter um domingo diferente, um fim-de-semana diferente fazendo!” O cara me meteu na cabeça e eu acabei fazendo. Eu e um tal de Raimundo Borges. Aí na hora em que eu fui me inscrever, o tal do Nei, responsável pela inscrição, olhou para mim assim, meio diferente, e aí eu me inscrevi. E o pessoal fazendo novamente, todo mundo tentando de novo e mais gente, né, o pessoal que já trabalhava. No dia do resultado, o Nei me chamou, eu e Raimundo Borges: “Olha, você e Raimundo, vou lhe confessar agora, os dois eu inscrevi porque era a minha obrigação, mas não esperava nada de vocês. Só passaram vocês dois!” No caso dos internos, né? Aí eu me senti meio uma minhoca no meio de cobras, porque quase todo mundo lá é de formação melhor do que a minha; a maioria deles recém-saídos de escolas técnicas, que ensinam o assunto necessário. E eu me senti o quê? Um desenhista que não tinha chegado ao máximo ainda, ainda estava aprendendo mais. Não tinha praticamente nada que me qualificasse para me sair bem dali. Mas eu digo: “Mas tem que dar um jeito!” Recém-casado. Mas digo: “Mas eu vou, estou aqui e vou tentar!” E persisti, botei uma iluminação no quintal de minha casa, para não incomodar. Ouvi reclamação da esposa: “A gente casado de novo, a gente não tem um domingo para ir na praia, não sei o quê!” Resultado: consegui passar em segundo lugar ainda no meio dessa luta toda.

APOSENTADORIA

Eu terminei, né, nessas viradas de função, de datilógrafo - mudei pouca coisa, mas guinada de 180 graus. De datilógrafo para desenhista já foi uma guinada enorme, e outra para técnico de manutenção, onde seria mais ou menos a última função da época, nível 250, ou nível mais alto, depois que surgiu técnico 1, que eu consegui me habilitar para passar para técnico 1 quando tivesse vaga. Eu fui mais ou menos o terceiro colocado, e só tinha duas vagas. Aí eu fiquei nesse técnico 2 até agora quando me aposentei, né? Eu me aposentei em 31 de março de 95. A função era a mesma de técnico de manutenção, e também cuidava de acompanhar firmas empreiteiras, fiscalizava firmas empreiteiras também. A mesma função.

CASAMENTO

Eu morava em Salvador e trabalhava em Mataripe. Três anos depois eu me casei, né?  Eu fui buscar na minha terrinha mesmo. Minha esposa um dia veio aqui em Salvador com umas pessoas, com uma senhora aí, e eu já aqui, aí perto do Elevador Lacerda, assim, eu digo: “Eu conheço aquela menina, que coisa bonita!” Eu olhei assim, ainda falei, cumprimentei e tal. Aí, um dia, quando eu vou em Cruz das Almas, aí umas parentas minhas que conheciam ela, falaram: “Ah, vai ter uma festa religiosa, qualquer coisa assim, na casa dela hoje e tal. Quer ir?” “Quero!” Não deu outra. Aí a gente chegou lá, na hora de levar a mocinha para casa em baixo de um guarda-chuva, chovendo um pouquinho, eu aproveitei e dei o primeiro cheiro ali e pronto. Dali, três anos depois a gente tinha se casado.

O dia-a-dia na manutenção

Olha, se fosse para as oficinas, podia ser cada qual se especializar mais no ramo, que é de caldeiraria, de tubulação, de isolamento, pintura, entubamento elétrico e tal e tal. Agora, tinha outros que precisavam ter uma noção geral de o máximo possível de todas essas funções, ao ponto de poder planejar e coordenar o serviço. Quer dizer, no meu caso coube, eu não era de nenhuma oficina, ninguém me escolheu para ir para oficina, eu fui para a área. Aí eu tive noção de isolamento, pintura, eletricidade, aprendi um bocado de coisas, suficiente para mais ou menos coordenar e arrumar o serviço. “Bom, tal serviço é aquele, eu preciso de tal apoio, vou precisar disso daqui!” Então eu planejava a quantidade de gente que precisava. A programação chamava O.T., que é Ordem de Trabalho, depois mudou para O.S., Ordem de Serviço. E planejava tudo aquilo, acompanhava e procurava dar todo apoio. Dentro da refinaria, na manutenção. Quer dizer, correção de defeitos. Raramente uma instalação de uma máquina nova, mas geralmente era manutenção do que já estava instalado, que era o básico.

Cada vez se lutava mais para evitar acidentes. A princípio tinha mais, mas diminuindo cada vez mais. Inclusive, eu não preciso dizer isso aí, que não existe um acidente sem um culpado. Inclusive teve um colega que disse: “Mas se você está num lugar trabalhando e cai um raio, quem é culpado?” Eu digo: “Tem culpado sim. O raio existe, o pessoal que conhece sabe das possibilidades de quando é que vai ter um raio, sabe que em tal lugar deveria ter um pára-raios, então, seu chefe não deveria ter lhe mandado fazer aquele serviço naquela hora, então, ele é o culpado!” Se tem as possibilidades, quer dizer, desconhecer não justifica, né? Então, chegou a esse nível assim. Então, é sempre a atenção redobrada contra acidentes, mas acontecia aos poucos. O cuidado era bem maior, mas depois foram cortando algumas coisas porque viram que era exagero, né? Por exemplo, entrar com sapato de sola. Acho que antigamente devia ter prego por debaixo também, ou podia ser telha. Até isso chegou a ser evitado lá, né?

O cotidiano. Chegava de manhã na refinaria, recebia e lia um relatório onde tinha informações de todas as tarefas que você planejou, o que já estava planejado, mas que não tinha sido concluído, acho que estava dependendo de alguma coisa. “Tal tarefa parou porque faltou um andaime, tal tarefa parou porque faltou material!” Tinha que acompanhar tudo aquilo para ir procurar desembaraçar logo, desembaraçar. Depois foi recomendado para a gente, antes de mais nada, passar nas unidades, porque cabia cada grupo de unidade àquele supervisor. Passar nas unidades para ver como está a situação, se tem alguma prioridade, tem alguma coisa que seja urgente. “Ah, tem tal bomba parada, aquilo está assim, não sei o quê!” Então, a gente ia cuidar logo daquilo, de arranjar jeito de deslocar gente para ir para outro. Porque saía tudo programado, o pessoal da manhã espalhado no que já estava programado, mas aí a gente ia e se dedicava com a nova necessidade que surgiu, né? Então era isso: manter sempre informado, para saber distribuir as pessoas e os recursos disponíveis para aquilo; saber separar o que era prioridade também e mandar para lá. Porque às vezes o chefe queria porque queria porque era de sua área, mas a gente tinha que definir o que era mais prioritário, de acordo com o plano geral da refinaria no caso, o plano de produção, para não ser tentado a atender um determinado chefe porque é da área dele e ele quer ver mais bonita. Não era essa a intenção. Então, a gente pegava, desembaraçava o serviço e daí por diante procurava solicitações novas, solicitações que estavam de acordo.

INCÊNDIO NA UNIDADE 13

Olha, eu novo na refinaria, eu conto aí no livro, não sei bem a data, mas eu novo lá, eu entrei em 1963, e talvez em 1965, na hora de sair do trabalho, me dirigindo para pegar o ônibus, fogaréu e explosão na Unidade 13. Chamava Unidade 13, que era a unidade de parafina de óleo lubrificante. Para mim era a maior unidade de fabricação de parafina do Hemisfério Sul, eu posso dizer. Isso deixou a gente chocada, ainda mais quando a gente soube que houve mortes. Foi justamente o acidente que deu mais mortes lá. Mas nós tivemos que prosseguir para casa, não cabia ninguém ir para lá para o local, só gente mesmo já preparada. O certo mesmo era fugir do local. Eram reservatórios de propano, e coisas de maiores explosões podiam acontecer até. Onde aí já entra outra parte. Teve gente, como o Pernambuco - o Pernambuco é o herói que chega a ser meio louco -, que entrava num troço desse, cheio de chama, cheio de coisa, com a devida proteção, mas sujeito à explosão, ao que vier, para fechar uma determinada válvula. E ele conseguiu salvar ainda o resto da Unidade 13,  salvar de riscos maiores. Esse foi um dos maiores, mas eu não vi de perto, assim, de dentro.

INCÊNDIO NA REFINARIA

Mas o que me marcou mais, porque eu participei desde o começo, foi o maior incêndio da refinaria, que eu conto, trago para você uma cópia, que eu chamei de “O Grande Incêndio”, que acontece no dia da Batalha do Riachuelo, que foi 11 de junho. 11 de junho de... Só revendo aí, mas está aí.

Esse incêndio, eu tinha chegado no meu horário de trabalho. Eu tinha um serviço programado para fazer em cima de uma laje, onde passava uma tubulação, em cima de Unidade 6, onde tem o famoso FCC, na Unidade 6, e lá em cima, eu estou lá mostrando o pessoal, quando eu vi o clarão de um incêndio que começou a 80, 70 metros adiante. Começou um incêndio no pé de um tanque, na base assim, no chão em volta de um tanque. Aí eu parei para olhar, a turma ali: “Ah, começou agora e tal.” Aí, quando eu estou em pé olhando, aí uma explosão jogou o tampão, que é a flange que fecha o tanque, para um lado e trechos da plataforma da escada do tanque para o outro. Aí, eu que não via perigo nenhum naquilo, passei a ver, e digo; “Olha, outra explosão pode vir e ninguém sabe para onde vão essas peças!” Aí chamei o pessoal para se retirar e na frente também, né? “Vamos sair daqui, porque pode vir peça para cá!” Aí, no dia seguinte foi que eu estive sabendo que um deles não conseguiu sair, faltou perna, né, um dos encanadores. Aí, resumindo a história, esse incêndio tinha cerca de cinco ou sete tanques com produtos inflamáveis, na mesma base, no mesmo dique assim, e não teve jeito, foi um transmitindo para o outro. Aí foi um transmitindo para o outro, e chegou a um ponto que, em vez do pessoal apagar as chamas, foi cuidar de proteger tanques vizinhos com resfriamento para não explodir ou incendiar também. Não tinha recurso para fazer tudo, então: “Esses não têm jeito, vamos cuidar dos vizinhos!” Passou a ser isso aí. Aí eu conto a vocês como é que foi o começo disso. Por quê? Porque houve um problema, houve falha de serviço, coisas assim que estão envolvidas, eu conto tudo aí. Aí, nisso, o meu envolvimento foi o seguinte: então chegou num ponto em que eu fui até perto onde eu podia e vi que não podia fazer nada, não cabia a mim fazer nada, não podia. Nem mangueira, nem nada, não podia fazer, era o pessoal de segurança mesmo. Aí nisso pediram socorro a tudo quanto é canto, veio gente de Salvador, Aeronáutica. Parece que até do Rio mandaram um produto de fabricação de espuma para ajudar na coisa lá. Então, a conclusão é que tinha que deixar o tanque queimar até quando ele quisesse, porque tinha outros perigos também de apagar simplesmente e ia deixar uma atmosfera perigosa no ar, também. Então, concluíram por queimar. Aí nisso, naquelas de sair com o coração apertado assim andando pela área, sozinho assim, gente avexada para lá e para cá, e a refinaria quase que em peso correndo, fugindo. Por quê? Depois eu estive sabendo a razão também, do porquê. Onde eu estava, o ponto mais perigoso da refinaria seria esse tal de FCC. Uma explosão ali é uma coisa que não dá nem para dimensionar. O FCC é um equipamento enorme de craqueamento de petróleo. De onde eu estava, eu estava justamente junto do FCC. Eu digo: “Não, o fogo atingir o FCC não vai, então meu medo não é o fogo aqui, é o fogo lá mesmo!” Aí saí pela refinaria andando assim, assim meio machucado. Eu digo: “Eu vou ver, eu vou até lá no final!” Quando é lá no final da refinaria assim, onde tem as oficinas, que eu olho para cá, a chama, você via o FCC dentro do fogo, do ângulo, do outro ângulo. Eu sabia que não era. Aí esse pessoal que estava correndo, muitos chefes, chefões aí de a pé de picape, o que tivesse, correndo para sair da refinaria, em direção à Candeia. Aí eu vi o porquê. Porque quem está olhando de cá tem razão. Aí eu fui andando, aí me lembrei de um depósito de parafina enorme que tem lá, um depósito de parafina, onde a gente faz o resfriamento, entabletamento e o armazenamento. Aí eu digo: “Deixa eu ver a casa de parafina se está intacta, como está!” Aí eu chego lá andando, devagarzinho, aí eu olhei tudo friozinho, tranqüilo, aí eu digo: “Beleza!” Só que não vi uma pessoa, ninguém. Aí quando eu vou virando as costas para sair começou o incêndio numa extremidade, lá no alto da casa de parafina. Eu digo: “Ah meus Deus, a casa de parafina vai embora agora!” Aí eu voltei correndo, dentro do possível, avisando as pessoas que passavam pelo caminho: “Começou um incêndio ali agora gente, vê se faz alguma coisa!” Eu estava me dirigindo ao pessoal da segurança para avisar, né? Mas ia avisando no caminho também. Um deles, que eu avisei, chamava-se Pedro Fracassi: “Vai Pedro, vê se faz alguma coisa, começou agora, tal!” Começou no alto, ainda dava tempo de corrigir. Aí consegui chegar lá onde estava o pessoal da segurança: “Rapaz, não dá para a gente fazer nada daqui, não dá para te ajudar aqui não!” Mas, possivelmente pelas minhas comunicações que eu ia fazendo no caminho, quando eu voltei lá alguém já tinham direcionado caminhões que chegavam de socorro. E chegaram caminhões até de particulares lá levando água, levando coisa para fazer alguma coisa. Desviaram alguma coisa e já tinha gente combatendo lá o incêndio. Então, fiquei com aquela pontinha de orgulho, achando que eu ajudei. Mas a gente ver aquilo sem poder fazer nada é dose. Então, por isso o maior incêndio em termos de consumo, de estrago de materiais e tudo foi esse. Felizmente, vítimas fatais não teve. Aí, paralelamente ocorrem muitos casos engraçados aí, que a um bocado eu conto.

Então, esse tal desse FCC, essa Unidade 6 - é 4, 5 e 6 juntas - muito ameaçada porque o fogo já estava passeando, onde ele achava por onde se deslocar, tipo valeta de água, muita água, assim, tinha uma valeta e já tinha fogo viajando por valeta de água para a próxima. E essas unidades precisavam ser paradas, porque tinha todo um envolvimento com várias tubulações e ia implicar em tudo, e precisava ser parada. Mas o pessoal do 6 também já estava correndo. Aí Valmir, é um bom nome da história lá, e Davi Caldeira, que é um dos famosos da história da Petrobras. Valmir e Davi Caldeira saíram para interceptar esse pessoal adiante, e com xingamentos assim, xingando para ver se levantava a moral e tudo, conseguiram fazer com que esse pessoal voltasse para parar a unidade fora das condições normais de parada. Porque parar a unidade era no campo, na sala, comandar alguma coisa, comandar outra, não sei o quê, fechar ali. Mas não, essa foi uma parada mais cá no campo. Inclusive, poucos dias depois, ou no dia seguinte, teve um chefão grande daqui do Rio que foi lá e deu os parabéns para o pessoal, e eu me lembrei do termo que ele falou: “É, vocês estão de parabéns mesmo, porque parar uma unidade dessa ‘no feijão’ é duro!” Ele chamou de “no feijão”. Quer dizer o quê? Na raça, né?

CLUBE DOS OPERÁRIOS DE MATARIPE

E eu era um dos craques - eu tenho cada gol para contar. Tenho cada gol.

Olha, lá sempre teve... Deixa eu contar um episodiozinho que eu estou lembrando agora. O doutor Rolf Janck, um dos primeiros chefes de lá, ele foi o homem que fez a primeira ocorrência de operação da refinaria. Introdução do óleo e obtenção do produto. Foi ele que fez a primeira ocorrência, teve até uma rasura que ele riscou e fez adiante. Essa cópia é sempre mostrada nos eventos, está lá. Rolf Janck, eu não sei, eu acho que ele tinha alguma coisa assim que um poderoso chefão de cá não gostava muito dele. Me parece, isso eu não vou detalhar muito não. E ele preparando-se para casar, escolheu uma das casa lá na vila, porque tinha casas lá, arrumou a casa lá ao modo dele e tudo para ser a casa dele, quando chegou esse grandalhão daqui do Rio e disse: “Ó, rapaz, ótima casa para a gente fazer o Clube dos Operários de Mataripe!” Ia formar o Clube dos Operários, que não tinha. Aí realmente aconteceu, o cara ficou desgostoso, que se mudou para uma casa da região de produção, já um pouco distante, e nunca mais morou em Mataripe. Aí, então passou a ter esse clube, onde tinha festas de vez em quando - eu fui numas duas -, salão de jogos, de sinuca, mais tarde tênis-de-mesa, que eu gosto, né? Tênis, e sempre a gente jogava lá umas coisinhas. Aí passou, depois de muito tempo outras quadras de esporte, onde o pessoal trocava o horário do almoço por jogos, por jogo de bola. E eu adotei isso também. Levei uns 4 a 5 anos. Em vez de almoçar, pegava um lanche de frutas e jogava todo meio-dia.Todos os dias, todo meio-dia. Debaixo daquele calor de verão danado. De maneira que hoje, eu com 63 anos, lá onde eu estou morando agora, dificilmente eu encontre quem ganhe de mim no tênis-de-mesa, né? Saiu de lá pingando suor, todo gordinho, desajeitado, mas o pessoal se engana. Mataripe Social Clube era um, mas eu não participava não. O meu era o tal do “baba” mesmo, aquele jogo só do meio-dia, sem nome, né? Quem chegasse primeiro era o dono da vaga e tal. Mas já tinha aquela turminha certa que sempre jogava. Pelada! Lá também chama, mas a gente chama normalmente de baba. Então, a gente jogava muito lá. Tinha mais uma ou duas vezes na semana que jogava de noite também, em outro local, quando se encontrava. Sempre teve os jogos. Festas, Salão de Arte e Cultura uma vez por ano - eu sempre participei.

SALÃO DE ARTE E CULTURA

Ao que eu me lembre, o primeiro aconteceu em 1963 - e eu participo; eu trouxe uma foto aí para mostrar. Eu estou aí com uma cara de menino ainda. Já foi em 1965, mais ou menos. Eu sempre gostei de paisagens, né, paisagens marinhas etc. Hoje eu pinto até retrato. Agora, é um estilo que, principalmente os arquitetos, não estão recomendando para ninguém botar nas casas agora, que é o mais aproximado do clássico, né? Hoje o Leonardo Da Vinci, então, passaria fome, porque não tinha valor nenhum.  O trabalho, assim, elaborado, não presta hoje. Hoje você faz um bocado de borrão lá e tudo, aplicar as cores certas, técnica, mas a mim não convence. A refinaria eu só pintei uma vez, porque eu gostei de uma vista, assim, através de galhos de uma árvore grande que tem lá, que eu via a refinaria. Agora, a refinaria em si mesma, não.

Essa palmeira eu levei alguns dias, talvez uma semana, olhando todas as fotos que tinha lá em dois arquivos enormes lá, muitas fotos mesmo, e nunca vi essa palmeira. Eu fui ver essa palmeira sabe como? É por isso que eu digo, eu tenho conhecimento de algumas coisas que a própria Petrobras não tem. Esta palmeira eu vim conseguir - eu botei isso no livro - com doutor Carlos Eduardo Paes Barreto, que foi o primeiro superintendente, chefe geral da construção da refinaria nos Estados Unidos, chefe de uma equipe que foi para lá aprender e voltou para ser chefe geral da construção e primeiro superintendente. Ele me trouxe álbuns de fotografia para eu olhar - infelizmente era para devolver também -, e muitos trabalhos numas pastas também. Eu tirei o que eu quis para trabalhar, ele deixou tudo à minha disposição. É por isso que eu tenho essa foto, eu tirei essa foto e botei no livro aí. Essa palmeira ficava mais ou menos ao sul dessa que eu estou chamando de Unidade 4, 5 e 6. Próximo do 4, 5 e 6. A gente chama de pipe way, aquele coisa assim onde passa tubos diversos, né? Pipe way, em inglês, que é caminho de tubos. Ou tubovia. Aí eu sei que o pessoal conseguiu construir essas tubovias, preservando essa palmeira, que ficou lá por muito tempo. Isolada lá, sozinha por muito tempo. Porque eu não alcancei mais, né? Esse muito tempo que falo pode ser que seja 5, 10 anos, não sei. Nessa palmeira o pessoal se inspirou para fazer o primeiro logotipo da refinaria, e depois aproveitou, mudou, e hoje é o logotipo do CEP Mataripe, do Clube dos Empregados de Mataripe. Essa famosa palmeira.

VIDA SOCIAL EM MATARIPE

No caso eu nunca morei na vila, não. Mas o pessoal lá tinha relativamente as suas festinhas sociais, suas festas no clube depois. Tinha um cinema lá, onde passou a ter um dia na semana em que só entrava homem. Aí a mulher de um deles descobriu que só passava aqueles filmes de sacanagem, aí até que ela interferiu e acabou com esse negócio. Tinha um tempo lá, quando moravam lá os gringos. Tinha rua que nem a peãozada podia passar não, era isolada só para os gringos.

A gente tinha muitas casas, tinha jardim zoológico. Jardim zoológico, tinha tudo. Uma preguiça ficou lá como remanescente desse jardim até muitos anos depois lá, depois sumiu também. Tinha muita coisa. Agora, devido à proximidade da vila com a refinaria, foi acabando aos poucos, ficou meia dúzia de casas como casas de veraneio para o pessoal do clube, né? Depois também acabou a metade. Uma delas é aquela casa que era de doutor Rolf, que foi escolhida para o clube, e continua hoje lá como Clube dos Operários de Mataripe.

É afastado, próximo. Quer dizer, sai do portão limite da refinaria. Por sinal, hoje já construíram a sala de controle já fora dessa área, já mais próxima da coisa. Mas é, saiu do portão da refinaria, praticamente já começa uma rua, que hoje já não tem mais casa, mas lá adiante, já subindo uma rampinha ficam as casas. Existia lá uma casa que tinha muita história para contar, chamada Casa da Colina, onde muitas coisas aconteceram, onde ficava hospedado aquele pessoal de mais nível; vinha gente de fora que ficava hospedada lá. Muitas coisas lá, o ponto interessante, o lugar ideal para se transformar num museu. De repente chegou um superintendente, se eu não me engano, do Rio Grande do Sul, mandou derrubar a casa para aproveitar a área para nada, só por derrubar.

ORIGEM DO NOME MATARIPE

Agora, o nome Mataripe - quer que eu fale sobre o nome Mataripe? Mataripe, depois que eu estive pesquisando, descobri que aquela região onde é Mataripe, não era Mataripe, era Porto Santos. Aí atravessa, lá tem um rio que separa, que o pessoal chama de rio, que separa essa área de Mataripe do outro lado, onde fica Queimadas, etc. Depois eu descobri que não é rio, chama de “esteio”. É um falso rio, é como se fosse um riozinho, só que com a influência da maré. É um esteio, segundo um historiador aí. Aí os índios da região lá, em épocas remotas, quando tinha índio, existiam lá muitos papagaios, uma espécie de papagaio pequeno que hoje chama de Maritacas, mas os índios chamavam de Maitá, Maritaqui e tem mais outro nome aí. Sim, e isso significava na linguagem deles: “No Rio dos Papagaios”, entendeu? Por isso eu escolhi esse título estranho para meu primeiro livro sobre Mataripe, que é a tradução de Maritaca: “No Rio dos Papagaios.” Então, Mataripe pouco depois, parece, não sei se em 1756 - eu trouxe até um historicozinho aí de um historiador Pedro Caldeira, falando da história do Engenho de Mataripe. Os engenhos, você sabe, lá naquela região tiveram grande influência, inclusive nas guerras, naquelas guerras, naquelas invasões e tudo. Gente que doava seus pertences, seus objetos de bronze para serem transformados em canhões. Então, o Engenho de Mataripe era um dos famosos. Lá hoje existe uma igrejinha chamada Igreja de Santo Antônio, que é do outro lado de Mataripe, assim, um pouquinho, defronte, que é do outro lado desse que a gente chama de rio, que não é rio. E lá eu estive observando - eu tenho uma visãozinha mais para a história -, aí chego lá observando: “Pôxa, que parede! Por que isso assim, não sei o quê?” “Ah, tem restos mortais de fulano, restos mortais de barão de Paraguaçu, de visconde de não sei o quê, de não sei quem Calmon!” Tudo gente ilustre, gente que fez, que teve influência nas guerras por lá, né, de muita influência. Então, restos mortais de vários membros desses daí. Sim, aí eu estive procurando conhecer essa história. Aí descobri que Mataripe foi um engenho, um senhor engenho de açúcar naquele tempo de escravos, que existia ali perto dessa igreja. Aí eu consegui a história dele todo, consegui. Aí fui mais fundo um pouquinho, descobri dois netos do penúltimo dono. Aí quando a refinaria foi para lá não existia mais nem sinal. Hoje você pode procurar em toda Petrobras, em todas 50, 100 mil pessoas que já passaram por lá, não tem um que diga onde era, eu acredito, que diga onde era o engenho. Eu sou capaz de ir lá e fazer uma planta, levantar, mostrar onde era e tirar tijolo ainda hoje. E vou fazer isso, se o Museu quiser eu tiro os tijolos de lá. Então, eu fui lá, descobri, porque eu conversei com o neto dele, aí descobri tudo onde era, fiz a comparação assim pelo desenho, consegui uma foto de uma pintura antiga dele. Por causa dessa foto e das descrições que eles me deram, eu fiz uma pintura muito grande, que está lá no museu da refinaria hoje. Infelizmente fica fechado esse museu, não sei por quê. Toda vez que eu vou lá está fechado, eu vou até perguntar para o homem por que é. Aí consegui uma foto, pintei um quadro com um metro e 20, bem grande. Consegui que a refinaria me reembolsasse aí um pouquinho. Não me deu o que eu queria, não, mas me colocou lá, está lá no museu junto com o meu livro. Aí eu descobri que esse Engenho de Mataripe, que tem uma história muito antiga dele, desde quando começou, como Casa de Méris e não sei o quê, até chegar aos dias de hoje. Por fim, o pessoal, abandonado, começou a cair alguma coisa, o pessoal começou a acabar tirando o resto de coisas à procura de recursos, de riquezas, de tesouros enterrados, e também depois para aproveitar o material para a construção, né? Muitas casas por lá têm o toquezinho dele. Eram uns tijolos grandes.

CONTANDO A HISTÓRIA

Olha, quando me surgiu a idéia, quando eu escrevi o primeiro livro e participei desse segundo aí, o cineasta Cícero Batomarco, que é um cineasta várias vezes premiado, ele disse: “Olha, Eunápio, a refinaria tem uma lacuna muito grande que você poderia resolver! Quer dizer, contar a história da refinaria que ninguém nunca contou, tem tanta coisa para você contar e tudo.” Aí eu: “Será, rapaz, que eu tenho condição?” “Tem, rapaz, já vi seu jeito, já vi seus livros, você escreve, dá para desenvolver isso bem!” Aí eu digo: “Tá certo, vou partir para a idéia!” Aí daí parti para fazer o meu planejamento. Então, se eu quero escrever a história, vou procurar quem mais conhece da história, então, vou relacionar os primeiros pioneiros, o que eu conseguir localizar, o que estiver vivo ainda, fazer relação, e procurar falar com cada um que eu conseguir falar. E foi isso que fiz. Parti, fiz a relação. Um chefe de manutenção de Mataripe, meu chefe, gostou da idéia também, e numa reunião lá, não sei se Rotary ou Maçonaria, alguma coisa dessas: “Olha, Eunápio, tem um colega meu que participou da construção de Mataripe, engenheiro Mário Lisboa Sampaio, e ele vai gostar dessa idéia sua!” Aí não deu outra - Mário Lisboa me convidou: “Olha, rapaz, vou marcar uma reunião aqui, vou chamar mais gente para a gente conversar sobre esse seu projeto aí e tal!” Aí marcou a reunião, eu fui lá para Salvador no escritório dele. Ele com aquele entusiasmo todo, porque ele vivia mesmo a coisa, né, o Mário Lisboa Sampaio. Aí chamou Petrônio Leão, chamou não sei quem, uns três lá, e pegou o telefone: “Espera aí, rapaz, tem uma figura importante, vou ver se eu consigo achar.” Ligou para Brasília. O doutor Paes Barreto exercia um cargo de confiança no governo Sarney. “Ah, Eunápio, gostei da sua idéia, não sei o quê, está precisando mesmo e coisa. Marca aí uma reunião que eu vou aí levar material para você porque eu tenho muita coisa!” Eu digo: “Opa, que beleza, não podia ser melhor!” Aí começou logo ali mesmo por telefone a contar coisa. Me contou esses dois primeiros casos. Daí para cá eu fui pegando todo o pessoal que eu conseguia, um indicava outro, ia pegando. Aí os casos pitorescos também, os casos interessantes: “Ah, fulano de tal, aconteceu com fulano.” Eu fui lá, entrevistava, conversava. Tive o cuidado de determinados casos eu tirar a identidade da pessoa.

Eu tenho caso até de “bode”. Bode. Sabe o que é bode? Bode é um pequeno roubozinho; a pessoa leva coisa da empresa. A pessoa leva coisa. Eu estou lá no seu escritório, aí levo um bocados de clipes, levo para mim e tal porque eu vou usar. A gente chama de “bode”. Então tem caso de tudo. Ah, tinha bode de tudo, de materiais de escritório, qualquer coisa. Velas de parafina, o pessoal gostava de levar suas velas para - isso é muito usado - enfeite de Natal. Tudo isso era proibido, né? Várias coisas mesmo você consegue levar. Eu anotava, registrava tudo, anotava. Não tive nem a idéia do gravador. O gravador eu cheguei a usar umas poucas vezes depois, já no final. Então, a princípio eu corri atrás desse pessoal todo, peguei a relação do pessoal e ia falar com quem eu conseguisse. Aí, numa de minhas leituras, um livro de Petronilio Pimentel falando sobre a descoberta de petróleo na Bahia. Aí ele lá conta que um dia o Manuel Inácio Bastos chegou, passou tanto tempo fora, que chegou em casa cabeludo e barbudo, e o filho gritou: “Mãe, venha ver que tem um homem estranho aqui na porta, eu estou com medo!” Aí deu o nome do menino. Aí quando eu estou fazendo o meu livro, eu digo: “Espera aí, o Manuel Inácio Bastos não deve estar vivo, mas será que o menino está?” Aí fui para o catálogo telefônico. Lá vai eu, até que descobri Eugênio José Bastos, que tinha o nome dele, né? Aí descobri Eugênio José Bastos; telefonei: “Eu sou Eugênio, sou filho dele, pode aparecer, a gente conversa!” Aí descobri um bocado de coisa. Descobri, por exemplo, que a Petrobras afirmava que ele era engenheiro agrônomo, aí ele falou: “Não, meu pai não era engenheiro agrônomo, meu pai era engenheiro geógrafo.” Aí foi lá, apanhou um diploma velho, todo quebradiço, um papelzão deste tamanho, o diploma lá do homem. Aí me contou um bocado de coisa, apanhou trabalhos inéditos que não tinham sido publicados, um bocado de coisa, aqueles episódios que aconteceram lá por ocasião da descoberta. Por exemplo, a suspeita de que um vizinho estaria colocando querosene no poço, na cacimba do outro, para prejudicar. Aí quem entendia mais um pouquinho da coisa sabia que ninguém ia colocar querosene, um material importado, gente pobre, colocar querosene, gastar na cacimba do outro, e diz: “Não é!” Esse Manuel Inácio Bastos era um farejador do assunto petróleo. Onde tinha qualquer sinal ele estava lá farejando, investigando e tal. Até que ele descobriu. Mas, não vou contar isso não, porque isso é demorado. Sim, então a princípio eu corria atrás das informações, depois as informações passaram para mim: “Ah, o Eunápio está coletando!” Passou a chegar para mim. Resultado: eu queria material para um livro - porque nesse livro eu faço um retrospecto, não sei se eu sou muito prolixo, sei lá - para falar no petróleo, aí eu digo da origem da vida na terra para dizer que o petróleo vem da vida. Petróleo é resto de vida, transformado. Aí falei um pouquinho da origem da vida na terra para explicar a origem do petróleo, as primeiras utilizações do petróleo dadas pelo homem, sob vários aspectos. Inclusive, até o cesto de Moisés. Estive sabendo recentemente que usava petróleo, senão durava menos dentro d’água. Mumificação de cadáveres, tudo isso. Aí eu cito um bocado de exemplos aí das primeiras utilizações do petróleo.

Rapaz, eu percebia uma satisfação muito grande de todo mundo em participar, em querer ajudar, muita receptividade, gente que falava mesmo, você sentindo que estava vibrando, contando as coisas e querendo colaborar. Muito gratificante.

LIVROS SOBRE A REFINARIA

Olha, eu comecei o livro em 1988. De lá para cá que emendei coletando os assuntos para essa história da refinaria, e como lhe falei num trecho aí, os casos foram chegando ao ponto de deu ter casos demais para esse livro, que o meu objetivo era esse livro, mas sobraram tantos casos interessantes que eu publiquei depois “O que a História não Contou.” Quer dizer, eu estou chamando esse de história. “O que a História não Contou.” Mas sobrou tanta coisa, aquelas coisas que inclusive, gente: “Ô rapaz, eu gostaria que você não contasse aquilo não, que o pessoal vai saber que foi comigo, não sei o quê!” Aí eu botei o nome do livro seguinte: “O que não Queriam que eu Contasse!” Onde eu apareço na capa com uma tarjazinha aqui. “O que não Queriam que eu Contasse!” Esse aqui, onde eu apareço aqui com uma tarja. E quando eu olho no computador, porque eu praticamente não seleciono os casos melhores não, vou apanhando. Aí quando eu olho no computador tanto caso bom, interessante, que eu já anunciei - em um deles aí eu anuncio - mais o livro final da série, que eu pretendo fazer, o “Por que não Contar?” É como se eu estivesse nesse período relutando: conto, não conto, conto, não conto, aí vai, por que não contar? E vou contar. Naturalmente, o que não for conveniente eu tiro a identidade, né? Inclusive, tem um caso de um colega encontrado em situações de posições duvidosas, atrás de uma guarita, que ninguém sabe quem era quem, tal: “Rapaz, não conte não que o pessoal vai saber que foi comigo e tal!” “Não, eu só troco o nome e vou contando!” Troco o apelido, eu falei, eu troco tudo, e vou contando as minhas coisinhas. E esse assunto que está no novo livro, eu vou aguardar e se houver algum apoio de alguém que queira publicar, eu vou publicar, ou senão por mim mesmo. Sem a televisão mandar comprar, fica ruim eu tirar o meu pouco agora, porque eu não ganho a complementação integral da Petros não, porque eu fui daqueles que entraram mais tarde. Então, eu vou gastar num livro desses, e a vendagem é difícil, e quando a gente vende e deixa para receber depois só recebe a metade.

CAUSOS DE INCÊNDIOS

Um desses causos, como é o nome da menina? Não sei se é Eunice, uma empregada, toda entrevada, que não podia andar, lá no posto médico, longe,  porque ficava distante da coisa. Toda entrevada, assim, lá esperando atendimento, quando viu a coisa de gente correr, conseguiu correr igual a um avestruz, pulou aquela cerca de tela de quase dois metros de altura. Esqueceu que estava doente. Outro estava num lugar baixo, assim, tipo um poço, um ajudante de encanador, que não ouvia bem, e o encanador tinha saído para alguma coisa: “Rapaz, um incêndio ali! Fulano, corre que é fogo!” Ele diz: “Eu não fumo não, rapaz!” “Não, estou dizendo “corre que é fogo”!” “Por Jesus que eu não fumo! Porra, rapaz, tá surdo!” Estava pensando que o outro estava pedindo fogo para acender cigarro ou qualquer coisa. Precisou eu ir lá sacudir ele, mostrar o que era para sair lá do lugar. 

 

PERNAMBUCO

Olha, esse Pernambuco é uma figura. Ele às vezes pode até não gostar das coisas que eu falo dele, mas são coisas que aconteceram. Vários casos, vários episódios eu conto. Até ele me pediu: “Não escreva mais nada sobre mim mais não, rapaz!” Ele viu muita coisa: um rádio mal sintonizado que não queria pegar direito, ele dava pontapé, quebrava. Era um cara decidido, mas um cara que dava a vida pela refinaria, dava mesmo. Porque situações de real perigo, que o certo era correr e paciência, ele diz: “Não, deixa eu ver o que dá para fazer!” E fez várias coisas. Uma delas foi essa, né? “Me dê a roupa que eu subo lá e vou fechar!” “Mas rapaz, eu subo!” Aí subiu cheio de roupa, de coisa, conseguiu subir até uma determinada válvula que fez parar o fluxo de propano e apagou o incêndio, né, que ninguém sabia o final desse incêndio. E várias ocorrências teve com ele assim, vários episódios de heroísmo. Tem muita coisa, eu conto alguns aí. Mas chegava ao ponto de ser, vamos chamar, de imprudente - quer dizer, pouco valia a vida dele, ele queria salvar a refinaria.

PROCISSÃO DOS HOMENS

Eu vou contar sem ler mesmo, embora possa faltar alguma coisa. Existia lá um rapaz chamado Casemiro. Não posso chamar ninguém de feio não, mas ele não tinha nada de bonito, viu, e todo enfezado. Aí na região de Madredeus existia uma procissão, não sei se ainda existe, chamada Procissão dos Homens. Só homem carrega o andor - aquele andor com a santa. Aí Casemiro bota aquele seu sapatozinho novo, apertado no pé, sua roupinha de domingo. Ele é remador, ele ia para Mataripe todo dia remando canoa. A garrafinha de pinga do lado e remando canoa ida e volta todo dia. Ele morava numa ilha chamada de Pati, que é perto de Mataripe, mas para remar é longe. E nessa Procissão dos Homens, ele com seu sapato novo, sua roupinha domingueira, segurou o andor da santa. Aí os colegas junto, que deveriam tomar, porque de dez em dez minutos deviam tomar. Aí combinaram: “Ninguém toma de Casemiro, ninguém toma, deixe ele lá.” Aí lá vai Casemiro suando, o pé apertando, e ele olhava para um, para outro, não queria pedir, fazia vergonha pedir para tomar, né? Não queria pedir, aí olhava para um e para outro, aí depois notou todo mundo dando aquela risadinha sem vergonha, assim, e nada de tomar o andor da mão dele. Aí, quando ele não agüentou mais: “Não vai tomar essa porra não, eu sacudo no chão!”  A pobre da santa. Eu tenho bastantes casos. Ele trabalhava na refinaria. Era uma figura tão, assim, era gente muito boa, gente bem humilde lá da Ilha de Pati. Teve um dia que o chefe dele, assim, já querendo sacanear mesmo, chegou empregado novo e ele falou: “Eu estou precisando de uma corda!” “Ah, vá ali dentro daquela sala - sala cheia de gente - e peça lá ao cara mais feio que você encontrar lá, você peça a corda que ele lhe dá.” “Não, mas me dá o nome do homem!” “Não, vá lá rapaz, vá por mim, o mais feio!” Ele foi lá, olhou assim: “Olha, o senhor me dá um pedaço de corda para amarrar não sei o quê lá!” “Diga, foi aquele filha-da-puta que disse que fui eu, né, rapaz?”

DESLOCAMENTO DO TANQUE

É, esse pessoal, quanto mais humilde, podendo bebe muito, né, nessa região bebe muito. O episódio do deslocamento do tanque. Acho que é ele que eu conto em algum lugar assim, que ainda digo assim: “Aquela obra faraônica, como diria ACM!” O deslocamento do tanque foi um trabalho meio faraônico, onde o pessoal tinha que deslocar enormes pesos, volumosos, principalmente volumosos, e teve que construir diques para elevar aquele peso para o pessoal empurrar ali, puxar, empurrar e tal. E uma tarefa demorada e dentro d’água. Aí teve um barril de cachaça do lado para ajudar o pessoal. Aí eu digo: “Teve gente que foi ajudar somente para  ter o direito de tomar um gole da pinga.” Em Mataripe, entre empregados, é escondido, naturalmente, mas tinha também. Teve caso de gente botar uma garrafa com um pouquinho de outro produto e outro chegar para roubar um gole e se dar mal. Não era pinga. Tinha vários episódios.

A PIRÂMIDE DE DINHEIRO

A pirâmide de dinheiro, o pessoal da redondeza, principalmente prefeitos das cidades vizinhas, achava que com aquilo, quer com os impostos, todo mundo ia ganhar, que iam receber pirâmides imensas de dinheiro, não sei o quê. Com o advento da construção da refinaria. Mas não era tanto, não era tanto.

MULHERES NA REFINARIA

Eu tenho um episódio que eu conto aí, porque eu procurei falar de tudo. Até - como é que chama? - episódio “Os cornos”, quer dizer, as traições, né? Eu conto isso também, tenho várias coisas. Mulher na refinaria. Essa época nossa só tinha mulher feia. Aí a gente criou até uma brincadeira, eu com um colega lá chamado Roque - que a gente chama ele de Roque Embala, mas ele não gosta não. Aí quando a gente via uma ligeiramente melhorada: “Aquela ali, aquela ali passava no teste, Eunápio?” A gente chegou a dizer: “Será que o pessoal que fazia seleção não gostava da coisa, só escolhia pela feiúra?” Aí dizia até: “Ah, no final dava a vassoura, se ela não voasse não era admitida!” Só tinha mulher feia. Aí eu tenho um episódio aqui- como é que chama o episódio? Não me lembro assim não. Aqueles engenheiros mais jovens e tudo, já chefe de seção e tal: “Pô, vamos escolher uma mulherzinha mais bonitinha aqui para a gente e tal!” Aí deram um jeito de escolher entre as possíveis candidatas, assim, pelas fotos, aí escolhia pela foto um rostinho mais ou menos engraçadinho, bonitinha: “Ah, é essa aqui; não, é essa!” E aquela expectativa para quando a mulher chegasse. Aí no dia que a mulher se apresentou pela primeira vez no escritório para trabalhar, coincidentemente entre aspas tinha lá uma meia dúzia do pessoal para ver a novidade, né? Quando chega lá uma mulher com um rostinho razoável, magrinha, pequena e capengando que só.

Antes eu vou lhe dizer sobre mulher. Romildo Maza é um tipo... Não, Romildo Maza não, Agapito Baiense. Ele morava mais na refinaria, ficava muito lá, e ele com outros colegas assim saiu um dia passeando na área: “Ih rapaz, três mulheres ali!” Ele e mais dois avistaram de longe três mulheres. “Rapaz, vamos dar um jeito de desviar para lá, vamos lá e tal, né, tentar!” Aí quando vai chegando perto: “Ah, você fica com a da direita, eu fico com a da esquerda, não sei o quê!” Já estava até dividindo, imagine! Aí quando vai chegando mais perto nota-se que o Baiense estava recuando, atrasando, começando a suar e tremer: “Mas o que foi rapaz?” “Rapaz, aquela ali é minha mãe, a outra é minha noiva!” “A outra é minha noiva, rapaz!” Mas voltando, o que foi?

MULHERES FAMOSAS

Eu vou contar duas. Talvez antagonicamente. Uma é dona Maria Helena, eu me lembro o nome, a outra dona, eu esqueci o nome dela agora. Esposa de um operador chefe muito justo, competente e rigoroso, cumpridor. Mas de vez em quando ele descobria que um empregado dele cometia uma faltazinha, aí daqui a pouco vinha um pedido da mulher: “Ô, Ivan, alivia aí, não sei o quê!” Aí veio outro, não sei o quê: “Alivia aí. Ah, não faz isso com o menino não, o rapaz é gente boa!” Aí descobriram uma madrinha. Não foi o que talvez vocês pensaram de começo não, mas ela era tão bondosa, não queria ver ninguém sendo punido, e aí acabava enchendo o marido de pedido e aí obedecia tudo, né? Aí quando é um dia, que um cara comete uma falta lá, um pouquinho até mais grave, e a madrinha tinha viajado. Aí ele: “Vai fulano, e não vai pedir não, que a fulana de tal está viajando, você está punido mesmo!” Agora, a dona Maria Helena, esposa do Careca, o tal do Prosperino que eu falo aqui. E Prosperino eu digo em algum lugar que é um nome que de cada duas palavras, três eram palavrões. Exagerando um pouco, claro. Prosperino só falava com palavrão, né? E ela, dona Maria Helena, era uma pessoa de origem... É, de onde ela veio o pessoal não gostava muito, né, não podia falar muito também não. O pessoal não gostava muito de onde ela veio, principalmente as mulheres da vila, acho que não gostavam muito dela. E sempre tinha aquelas brigas, aquela confusão onde ela botava a linguona de fora, falava mal. E falava o que acontecia, o que ficava escondido, ela botava a língua de fora. Então era uma mulher respeitada pelas outras como quem tinha medo. Ela tinha a sua origem duvidosa, mas não negava, e as outras eram tidas como boazinhas e sempre fazendo suas coisas erradas e ela aproveitava e pagava pau.

HISTÓRIAS DE TRAIÇÃO

Como disse, eu procurei me inteirar, escrever, registrar sobre os mais diversos assuntos, desde de casos de traição de marido e mulher e vice-versa, bem diversificado mesmo, até uma coisa meio, que eu fiquei: “Como é que eu vou escrever isso, como é que eu vou publicar isso?” Eu chamei de “o lado fraco dos heróis”. Eu peguei os principais, digamos, heróis de Mataripe, as pessoas de mais projeção nisso, naquilo, e peguei o lado fraco deles. E tenho o defeito de esquecer nomes nessas horas, viu, eu esqueço e depois lembro. Um deles que viria a ser Operário Padrão do Brasil etc. etc. e tal, eu já vi em horário de expediente em briga corporal dentro de uma sala. Quer dizer, começou brincando e tudo, mas daqui a pouco era uma briga. Tem caso de o famoso “bode”. Desapareceu um espelho de trocador de calor, uma peça de bronze, aí viram um desses heróis próximo, assim, das imediações antes de sumir, aí chegaram à conclusão que foi ele. Apertaram, esse herói saiu na calada da noite e devolveu lá sem ninguém ver. Um bocado de coisinha desse tipo, né? Voltando ao episódio de traição de marido e mulher, tem um tão desconfiado da mulher - sabe o que ele fazia? Pegava o sapato dela, riscava de lápis em baixo do sapato e botava lá, se o sapato estivesse sem a marca quando ele chegasse, é porque ela saiu. Tinha saído. Teve outro caso que o cara chegou, e ele chegava em casa toda manhã, ou encontrava a esposa já acordada, ou então um bilhete: “Ô, bem, fui à padaria pegar pão, daqui a pouco eu chego.” Ou então, quando não, encontrava ela. Aí um dia ele ficou doente, voltou mais cedo, voltou de madrugada: “Fui à padaria comprar pão, bem!” Ele esperou, ela não trouxe o pão, mas ganhou bolacha. Tem muitos episódios mesmo para contar, agora, vamos ver se a gente consegue um patrocínio.

CORAL DA PETROBRAS

Um é o coral, que eu continuo cantando. E teve uma época, quando eu perdi minha filha, uma época duríssima para mim e a esposa. Aí eu consegui que ela também entrasse no coral. Ela entrou no coral, e a gente continua cantando lá até hoje. Ela é soprano. Eu tenho uma voz, que a minha voz no caso seria o barítono, né? Então, lá eu entrei como tenor, mas em certa ocasião tinha muito tenor e pouco baixo, e como eu tenho um alcance também para baixo, eu passei a ser baixo e estou até hoje. Mas estou até aguardando, quando entrar mais baixo, eu quero voltar para tenor, aí eu solto mais a voz.

MÚSICAS E CANÇÕES

Eu gosto de cantar, tenho umas composiçõezinhas. Tenho umas composições que tem o pessoal que gosta, aí eu vou fazendo, vou me animando. Eu tenho uma música que meu cunhado - meu cunhado é fã de Roberto Carlos: “Ah rapaz, essa música é boa para o Roberto Carlos, eu vou mandar para ele!” Se tivesse um violãozinho ajudava. Não tem não, né? Nem com violão eu gosto, eu gosto mais com violão e percussão, mas vai um trechinho de uma música chamada “Se sentires falta de mim”: Se sentires falta de mim, olhe nas estrelas, no céu a brilhar, numa cachoeira que cai, nos campos, montanhas, no fundo do mar. Se sentires falta de mim, escute um velhinho sua história contar, olhe no rostinho das crianças, nas flores se abrindo, no sol a brilhar, onde houver a presença de Deus, nos lares felizes eu lá vou estar. Se sentires falta de mim, procures ouvir um coral a cantar, olhe um pôr de sol bem bonito mostrando que a noite não tarda a chegar, onde houver beleza e poesia, amor e magia, tu podes entrar. Se quiseres falar comigo, só nesses lugares tu vais me encontrar - se quiseres falar comigo, só nesses lugares tu vais me encontrar.” A voz está tremida.

Eu só sinto segurança quando estou com violão, uma percussãozinha, eu sinto mais segurança, e aí a voz sai um pouquinho melhor. Um pouquinho. Tem outras, eu vou cantar um trechinho só: Levo a vida a procurar aquele sorriso que um dia tive a ilusão de que foi para mim. Depois ela se perdeu na multidão, deixando muito machucado o meu coração. Um sorriso assim tão lindo, a gente não esquece. Mesmo a razão mandando, coração não obedece. Mas quem vai à luta merece um final feliz, por isso decidi procurar por quem sempre quis. Enquanto o mundo dá suas voltas, vou te procurando. Quem sabe nos atalhos da vida eu acabe te achando. E tu percebas que eu existo e eu possa, enfim, ganhar teu sorriso tão lindo, todinho pra mim.” Aí entram uns lalalaiá, uns efeitozinhos no meio para...  Eu tenho uma dúzia de musiquinhas assim desse nível.

DIA-A-DIA DE APOSENTADO

Olha, eu sou um aposentado, e o pessoal sempre pergunta, mas, rapaz, eu para mim não me aposentei. Apenas a diferença do convívio com os colegas e ver o ambiente de trabalho em todo canto. Não me aposentei, não paro, é cantando, é escrevendo, pintando, compondo, jogando. Jogo bola ainda, jogo meu tênis-de-mesa, sinuca. Seresta, que eu gosto muito de fazer a serestinha, que a voz sai um pouquinho melhor do que aqui, com o violãozinho. Gosto muito desse tipo de coisa. Eu estou fazendo um caderno, eu até me admiro de mim mesmo. Esse servozinho aqui, eu estive fazendo um apanhado, eu estou fazendo um caderno das músicas que eu conheço - que conheço e gosto de cantar -, onde não entra Axé music, não entra Carnaval, um bocado de coisa não entra. Já está em mais de 400 músicas no meu caderninho, para quando eu ir para um serestinha e tudo eu ter meu repertório. Eu acho que vou parar é numas 600 aí, de muita música que eu sei. Eu me admiro.

A minha esposa chama-se Florinécia Montes Dias Costa, mas esse nome todo a gente chama só de Célia mesmo. Célia. Canta no coral, a voz bonitinha também, dá uma arranhadazinha pequenininha no violão, gosta de cantar. Também me acompanha em quase tudo. Porque eu sou um seresteiro diferente, eu nunca saio para fazer minha seresta e deixo a mulher em casa não, né? É, sempre estou fazendo junto com ela. Tenho o meu cantinho lá na Ilha de Itaparica, tem um quarto lá de hotel, onde a gente passa boa parte do verão, uma pequena chácara lá dentro da cidade de Cruz das Almas, onde a gente fica lá também. E estamos morando num lugar que eu considero muito bom hoje, para o meu nível, lá perto do Iguatemi, onde tem também um convívio. Novo lá, estou com sete meses lá, mas eu gosto de lá porque tem quadra de esportes boa, salão de jogos, a turma sempre participando, é uma beleza.

TRAJETÓRIA DE VIDA

Claro, poderia ser mais, poderia ser melhor, ter alcançado mais ainda, mas eu estou muito satisfeito com o nível que eu alcancei. Para o que o meu meio oferecia e propunha, eu fui até longe demais, né? Muito satisfeito. Tive as oportunidades, soube aproveitar, ou talvez estivesse no lugar certo na hora certa em determinadas ocasiões. Porque tem muita gente, meus contemporâneos, que eu vejo a situação e fico com pena, e poderia estar na minha situação e eu na dele, porque talvez seja apenas um simples posicionamento. Por exemplo, se a professora não me oferecesse uma bolsa para eu fazer o ginásio, será que eu teria feito? Se eu não fizesse eu iria para onde? Então, tudo é questão também de ter as oportunidades, encontrar naquela hora certa. Às vezes a gente não pode estar menosprezando as pessoas por não ter conseguido, por ter um nível inferior, porque é analfabeto. Às vezes não tem nada a ver, não é por isso, não teve aquela chance, né?

PETROBRAS

Olha, a Petrobras, onde eu passei metade da minha vida, é uma boa condição de emprego, de respeito mútuo, de oferecer condições, cobrar também. Por ela passam chefes voltados para isso que eu estou falando, de ter interesse e respeito. Passa também gente que não merece todo respeito. Mas passa, vai e a Petrobras continua, e a Petrobras sobrevive a tudo isso e o que estiver assim vai e a tendência é equilibrar. O que eu sempre falei também, é que temos que ter cuidado com a cobiça internacional, né? Eu acho que sempre tem o lado de quem preferia abocanhar também, porque eu não duvido de certas coisas. Por exemplo, digamos assim, se eu não me engano, na Segunda Guerra bombardearam um de nossos navios, mas pode não ter sido o lado que pensa que foi, pode ter sido o outro lado querendo puxar alguma coisa do Brasil para aquele outro lado. Coisas assim desse tipo, né? Tem que ter cuidado, pode aparecer gente querendo mostrar outra imagem da Petrobras, ou querendo provocar outra imagem para que ela diminua, para que alguém possa entrar. Isso tem que ter muito cuidado. Os mais antigos é que sabem bem essa luta pela preservação, porque a gente ajudou a construir, né?

A minha participação eu sempre considero pequena, mas fiz com todo o respeito, com toda honestidade - então eu acho que se todo mundo fizesse um pouquinho que eu fiz já era o suficiente, e realmente acho que está acontecendo. Quase todo mundo, realmente, dificilmente a pessoa não dá a sua parte em prol, porque geralmente todo mundo dá e a empresa continua crescendo; é uma das grandes hoje. Espero que tenha sempre as renovações, tenha cabeças novas que saibam corrigir as pequenas falhas. Por exemplo, uma das coisas que eu acho que deve ter cuidado é as pessoas a quem sabe dirigir e manter, ser sempre gente que vista a camisa, não gente que ganhe dinheiro para aquilo. Terceirizar somente, acho que tem que ser com mais cuidado, porque tem que ser gente que não vá para lá só com interesse de faturar e ganhar dinheiro, senão. O nosso caso lá, o exemplo meu, de Pernambuco - o meu menos -, o colega chamado Joel. Eu tenho um colega chamado Joel, na minha função, que não pode ouvir falar em um incêndio em algum lugar, que ele era o primeiro a correr, apanhar a mangueira para se instalar na frente para apagar, para depois trocar a camisa e vir para cá. Não era para mostrar ao chefe que ele fez aquilo, entendeu? Eu admirei ele mais por isso. O Pernambuco, que sempre deu sua vida, e muita gente que participou, ajudou e merece o reconhecimento que vocês estão dando hoje também.

ENTREVISTA

Olha, eu não quero ser coisa, mas eu posso dizer que eu até pensei nisso antes,  na medida em que já parti para fazer minha coletânea. Hoje eu tenho informações que nem a Petrobras tem, em algumas coisas. Então, é uma idéia muito boa, muito válida, e está sendo levada adiante mesmo, levada a sério. Já percebi o envolvimento que está tendo a coisa. Vai ter gravações lá em Salvador também, eu estou sabendo. Fui convidado para aparecer lá de novo, não vou ter mais nada para falar, mas vou ver, vou apreciar. Muito bom esse projeto, muito sério. Eu não digo que está atrasado não, né, mas podia até ter informações que já foram embora, que podia ter apanhado. Eu ainda coletei um bocado porque não deixei. Tenho um colega lá chamado Evandro Mota, ele é, como eu vou chamar, poeta caipira, vamos dizer assim, tem bastante poesia sobre a Petrobras, inclusive, onde ele usa o linguajar caipira. Se vocês lembrarem ou tiverem conhecimento podia até chamar ele. Ou talvez ele vá lá em Salvador, então. Ele tem muitas poesias caipiras e ele sempre foi o Papai Noel das festas ligadas à Petrobras, porque ele tem uma bonita cabeleira branca e barba branca natural e bem grande, cultivada, né? Fecha tudo assim, tudo de branco, e ele não é lá esse velho. É bom vocês conhecerem aquela poesia dele, mas eu creio que ele vai comparecer lá no Gerab. Se não for, eu vou lembrar. 

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