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História

Um anistiado político

História de: Ruiderval Miranda Moura
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Ruiderval, nasceu em Xambioá, TO. Teve uma infância marcada por brincadeiras e trabalho. Ainda jovem viu seu pai ser preso pela Ditadura Militar, acusado de terrorismo por participação na Guerrilha do Araguaia. Seu pai teve a morte declarada como suicídio enquanto estava preso. A partir de então, Rui ficou conhecido na cidade como "filho do terrorista" o que o fez procurar Brasília. Lá trabalhou na construção civil e no comércio, até finalmente entrar para o Corpo de Bombeiros onde ficou 30 anos.

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História completa

P/1 – Posso te chamar de Rui?

 

R – Sim, claro.

 

P/1 – Rui, fala o seu nome completo, por favor?

 

R – Ruiderval Miranda Moura

 

P/1 – Quando que você nasceu?

 

R – Dezessete de julho de 1956 em Xambioá, Tocantins, às 16 horas da tarde.

 

P/1 – Qual o nome dos seus pais, Rui?

 

R – Meu pai, Lourival Moura Paulino e Maria Miranda Feitosa.

 

P/1 – Qual a atividade deles, principal?

 

R – Meu pai era lavrador e também, trabalhava no ramo de farmacêutico e minha mãe, lavradora junto com o meu pai.

 

P/2 – Como você descreveria o seu pai e a sua mãe?

 

R – Olha, minha mãe é uma pessoa muito dedicada, trabalhadora, meu pai também. Era meio grosso, meio rude, mas era um cara muito simpático, bom com as pessoas, atendia muito bem as pessoas e era muito humilde, na minha concepção.

 

P/1 – E sua mãe?

 

R – Minha mãe também, minha mãe é uma pessoa muito dada, a principio, ela era evangélica, desde que eu me conheço por gente, ela era da Igreja Assembleia de Deus e, portanto, eu sempre via minha mãe fazendo o bem para as pessoas.

 

P/2 – Quais eram os principais costumes da sua família?

 

R – Na verdade, na época em que eu nasci a gente não tinha costumes como nós temos hoje, de ir ao cinema, ao teatro e comer uma pizza, o que nós fazíamos muito era pescar, porque nós morávamos na Ilha de Coco, aqui no Município de São Geraldo do Pará e o que nós fazíamos muito, realmente, era pescar. Essa era a nossa diversão.

 

P/1 – Quando você era criança, você começou a trabalhar ou não, só estudar ou só brincar?

 

R – Como nós morávamos na roça, eu comecei a trabalhar muito cedo, ia para a roça capinar. Depois que eu comecei a estudar, eu vim morar aqui na cidade, morar com a minha tia chamada Laide de Miranda, já falecida, e aos finais de semana eu voltava para Ilha de Coco, onde nós morávamos. Eu brincava e trabalhava ao mesmo tempo, porque a minha diversão, realmente, era andar de canoa, né, andar nas praias ali embaixo, no rio, no pedral e pescar. Pescar era a minha diversão.

 

P/2 – Isso te atrapalhou na sua vida escolar?

 

R – Não. Eu estudava normalmente, né, aí depois minha mãe mudou para cá, ficou só o meu pai lá na roça, nós mudamos aqui para a cidade, a casa até hoje é a mesma casa que nós tínhamos naquela época e não me atrapalhou em nada, simplesmente, eu tinha uma vida diferenciada, porque estudava e finais de semana eu voltava para chácara, eu acho que isso é normal para toda criança.

 

P/1 – Seu pai continuou lá, né?

 

R – Sim, meu pai continuou morando lá e depois, meu pai começou a trabalhar com vendas de produtos lá na… daqui até Araguatins, daqui até Marabá com um barco que ele construiu lá mesmo, na chácara, ele tinha um estaleiro lá e chegou a construir um barco e então ele mudou de profissão, aí ele começou a trabalhar vendendo produtos na beira do rio como querosene, facão, botina para os moradores de um lado e outro do rio. Aí, me distanciou um pouco mais do meu pai porque eu só o via de mês em mês.

 

P/1 – Ele ia passando a margem toda do rio vendendo?

 

R – Sim, ele trabalhava de um lado e outro do rio. Naquela época, nós não tínhamos transporte aqui em Xambioá, o transporte era o fluvial, então ele se utilizou dessa coisa para ganhar dinheiro, para ganhar a vida e como ele era farmacêutico, ele cuidava das pessoas também ao longo do rio, as pessoas doentes o procuravam, ele medicava. Então, era assim a vida do meu velho.

 

P/1 – Levava remédio, também?

 

R – Sim, levava remédio, aplicava e trazia as pessoas doentes para a cidade, né?

 

P/1 – Ele tinha formação como farmacêutico ou já era… na época não precisava?

 

R – Não, meu pai… ele veio para cá, ele fazia Medicina, fez até o segundo ano de Medicina em Belém, essa é a informação que eu tenho da minha mãe. E quando surgiu o garimpo, ele ficou impressionado com aquilo, largou a faculdade e veio trabalhar no garimpo. E aí, ele começou a prestar serviço de medicina para o pessoal que precisava muito na época, muitas pessoas doentes, daí ele começou a aplicar medicamento e bom, então, enfim, o cara que tinha conhecimento naquela época era um médico aqui, né?

 

P/2 – E os seus irmãos?

 

R – Olha, da minha mãe eu sou filho único, eu sou filho único.

 

P/1 – Agora, Rui, seu pai quando tinha fazenda, ele também vendia os produtos?

 

R – Olha, o que nós vendíamos lá era mais o coco babaçu que era extraído lá no local e o que nós tínhamos lá era cupu, laranja, coisas assim e a gente trazia finais de semana para vender aqui na cidade, banana, né? Então essas coisas eram mias comuns de nós vendermos aqui. Era pouca coisa, nós não tínhamos gado, gado era só para o consumo. O leite era só para o consumo, pouca coisa. Mas o forte mesmo era a compra e a venda que ele fazia, quando as pessoas não tinham dinheiro para pagar, ele recebia em coco babaçu, castanha, pele de animais, porque ele revendia aqui em Xambioá.

 

P/1 – Rui, e você disse que começou a estudar aqui, né, quando você veio para a cidade?

 

R – Sim, foi.

 

P/1 – Que idade você tinha quando você veio para a cidade?

 

R – Eu tinha seis anos. Comecei estudar nesse período, seis para sete anos. Fiquei até os dez anos aqui em Xambioá e como eu era meio peralta, naquele tempo, a gente dizia que o garoto era peralta e aí, tinha um colégio em Araguacema adventista que era um semi-internato. Como eu não podia ir e voltar, eu fiquei interno no colégio por três anos, nesse colégio. Colégio Adventista, eu fiquei por três anos lá, estudando no colégio e trabalhando. Você aprendia a fazer pão, a fazer tijolo, você fazia horta e estudava. Ou período da tarde, ou o período da manhã. No período em que você estava estudando, tranquilo. No outro período, você ia trabalhar. Era assim a minha vida até os 12 anos de idade.

 

P/1 – Você tinha o quê? Uns nove anos quando foi para esse colégio?

 

R – Sim, eu tinha nove anos quando eu fui para lá.

 

P/1 – E aprendia trabalhando?

 

R – Aprendia trabalhando, você fazia horta, trabalhava com olaria, porque a gente tinha que construir o colégio, o colégio estava em formação, então o meio que eles acharam de nos ensinar foi mostrando como é que se fazia. Então, eu aprendi a fazer tijolo, amassar e tudo e fazer horta também, pão e pescar. Nós tínhamos tarefas, os garotos lá no colégio, nós éramos 75 garotos, nós tínhamos tarefas diárias, por exemplo, à tarde, alguém varria o pátio de um lado, de outro, limpava os banheiros, então era assim, foi uma infância de trabalho. Eu sempre trabalhei.

 

P/1 – E tinha histórias, assim, essa escola? Você lembra de alguma história que até hoje, quando lembra do colégio, vem essa história na cabeça?

 

R – O colégio me trouxe assim, muita… hoje, me traz muitas recordações, porque nós encontramos um grupo dos ex-alunos na internet, então, nós estamos entrando sempre em contato, nós conversamos muito sobre o que acontecia, né? Uma história que me marcou muito foi que… algumas coisas marcaram, mas uma assim, mais interessante. Nós estávamos tomando banho um dia à tarde, todo mundo e chegou o Lourival com a canoa cheia de… Lourival era um aluno também e ele era o pescador da quinzena. Ele e o Erasto e o Erasto é de São Paulo, e aí, eles chegaram e jogaram a linha 100, 200, próximo a gente e todo mundo banhando, umas 30, 40 crianças banhando e aí, começou aquela linha a sair com a boia, eles correram atrás e pegaram um Pirarara que deu mais de dois metros, Pirarara ali próximo a gente, provavelmente, podia pegar uma criança daquela, então isso me marcou muito. A outra coisa que me marcou foi que nós estávamos tomando banho num rio e eu pulei de uma árvore e bati o pé no chão e fui esporado por uma arraia. Quando eu gritei que tinha sido esporado, não ficou ninguém dentro da água, todo mundo correu e eu fiquei sozinho e aí, não podia sair da água, porque quando você sai da água, a esporada entra ar, pega ar e você começa a doer o seu pé, aí não para mais. Eu fiquei dentro da água por duas horas esperando esquentarem a água para botar no pé e tal. Isso marcou muito.

 

P/2 – E essa esporada da arraia deixou sequelas?

 

R – Não. Eu passei algum tempo com problema, porque depois de dois meses, eu vim a comer ovo. No dia que eu comi ovo, no mesmo dia, deu um ____00:10:24____ no meu pé. Tava sarado e eu fui alertado pra não comer ovo, peixe de couro, carne de porco. Na verdade, no colégio, nós não comíamos porco, carne de porco. Adventista não come. E nesse dia, eu comi o ovo no almoço e quando foi de tarde, eu já tava com o pé inchado e realmente, eu quase perdi o meu pé, mas deu tudo certo, fiz um tratamento legal, no colégio, nós tínhamos enfermeiros e foi feito um tratamento de raspagem, normal. Passou uns três meses aí na espora. Mas eu achei até legal porque eu parei de trabalhar (risos), eu não ia trabalhar, entendeu? Podia pisar em carvão, bosta de galinha, essas coisas, coco de galinha. Então, você era encostado, ficava só ali sentado.

 

P/1 –  E o banho era sempre no rio?

 

R – Sempre no rio. Banho era no rio, bem próximo do alojamento, então, todo mundo ia, tinha o tambor próximo do alojamento, você lavava os pés para entrar no alojamento. Era bem severo, lá.

 

P/2 – E na escola, assim, teve um professor que te marcou?

 

R – Olha, eu gostava de todos os professores. Como eu era muito peralta, às vezes, eu ficava de castigo na escola. No Grupo Escolar José Bonifácio aqui em Xambioá e a minha tia era porteira e merendeira do colégio, então, eles me deixavam trancado na sala (risos). Eu pulava a janela. A janela era bem alta, naquele tempo era muito alta e caía lá do lado das freiras, do lado da… hoje, é uma pista que foi feita, mas antigamente, era o quintal das freiras. A gente pulava e eu saía do quintal das freiras e batia na porta do colégio e tava solto, né? Então, aquilo pra mim era uma grande vantagem. Mas a pessoa que me marcou muito, assim, no meu colégio, foi a Dona Ione Leite, ela foi minha professora, eu tava na terceira série, quarta série para quinta e ela foi a minha professora que me marcou. Eu gostava muito dela, era uma pessoa muito bacana, comigo, principalmente.

 

P/1 – Agora, você fala que era peralta e bastante, mas o que você fazia que era…

 

R – Era brigão, por exemplo, nós tínhamos o recreio e jogava bola e naquele tempo tinha uma tal de bruta, se o cara te desse uma bruta, você ia revidar, aí pronto, a pancadaria começava no pátio do colégio. Então por isso que eu era peralta, era considerado brigão e tal, entendeu? Mas era coisa de criança, né, você tinha dez, 12, 13 anos, por aí. E nove anos, sei lá, mais ou menos até nove anos eu estive nesse colégio. Então foi isso, mas foi uma infância muito gostosa. O que eu gostava muito de fazer aqui quando eu era criança nas minhas brincadeiras, depois que eu mudei da roça para cá era jogar finca aqui na beira rio, tinha um pé de manga, dois pés de manga na beira rio, jogar finca, peteca e pião. A gente passava o dia fazendo isso quando não estava na escola. Então, era muito divertido que hoje não tem mais esse tipo de brincadeira, né, pião, peteca e finca. Eu era campeão de finca. Você jogava finca estio e pevê. Estio, você pega na ponta da finca e joga ela e ela cai em pé e pevê, quando você pega aquela partezinha de cima dela e joga ela simplesmente apontando. Então, são dois tipos de jogar finca. Era muito gostoso, foi uma infância, assim, muito divertida.

 

P/2 – Como que você ia para a escola?

 

R – Tranquilo, bem arrumado, minha mãe primava para que eu fosse bem vestido, né? O colégio tinha uniforme, padrão, naquele tempo não se podia entrar de bermuda no colégio, era com a roupa bem alinhada, os sapatos bem alinhados, cabelo cortado. Quando você chegava no colégio, você tinha que cantar o hino nacional, né? Esse, eu acho que deveria existir até hoje, porque é o respeito à pátria. Então, não temos mais esse tipo de cidadania.

 

P/1 – Você morava perto da escola?

 

R – Eu moro na mesma casa, era uns 600 metros.

 

P/1 – Ia a pé?

 

R – A pé, tranquilo, tranquilo.

 

P/2 – E qual foi o seu primeiro namoro?

 

R – Complicado, hein (risos). Complicado. Rapas, deixa eu ver… bom, meu primeiro namoro foi… ela já é falecida, cara, bom mas enfim, Gorete, ela era muito bonita assim, e tal, gostava de jogar bola com sei lá, queimada, essas coisas e me interessei por ela, pelo jeito dela, assim, forte e tal. Era bem esperta e começamos a flertar e eu sei que foi muito bacana, eu ia para a casa da Dona Mudoca, lá, pra gente contar história, ouvir o pessoal contar história à noite e ela ia sempre porque era amiga da Dona Mudoca e lá, a gente… foi o primeiro beijo. Então (risos)…

 

P/1 – Inesquecível?

 

R – Inesquecível. Foi bacana. Aí ficamos namorando até eu ir embora para Brasília, quando eu fui embora, terminou o namoro e ela veio a se casar com outra pessoa.

 

P/1 – Vocês eram de idades próximas?

 

R – Sim, idades próximas.

 

P/2 – Aqui na cidade, o que você fazia para se divertir durante a noite?

 

P/1 – Quando já jovem.

 

R – Quando eu retornei do colégio de Araguacema, aos 12 anos, eu continuei morando aqui com a minha mãe e o meu pai na Ilha de Coco, ai eu já ia de canoa sozinho, voltava pra Ilha de Coco remando. Tem alguns canais… eu aprendi com o meu pai, e aprendi a pescar também, tinha algumas selas, alguns lugares e eu fazia tudo que qualquer menino da minha idade fazia.

 

P/1 – Pra se divertir, assim?

 

R – Aí nesse período, eu já tinha 14 anos, aproximadamente, 13, 14 anos, nós tínhamos o Quentão. Quentão… era Bar e Sorveteria Leo e o Quentão ali, próximo ao hoje onde é o Armazém Paraíba e a Sorveteria Leo onde é a Feira Coberta, ali em frente de onde é o Senai. Esses eram os lugares que a gente se divertia, quando ali estava ruim, não tinha muita gente, a gente vinha pra cá e também tinha o Cine ____00:16:59____, nós tínhamos cinema aqui na cidade e esse cinema, quando dava seis e meia, sete horas, tinha um amplificador lá no alto do cinema, ele anunciava que ia ter um filme tal e aí, a garotada ficava animada. Naquela época, ou era filme de bang-bang ou era filme de karatê que a gente gostava.

 

P/2 – E os seus pais, eles aceitavam as suas saídas?

 

R – Tranquilo, meu pai era tranquilo, ele era meio rígido com horário, ele gostava das coisas certinhas, se ele dissesse que não podia sair, não podia, se ele dissesse que tava liberado, tava liberado. Mas não tinha problema.

 

P/1 – E o quê que ele não deixava fazer? Tinha alguma coisa, assim, que os meninos não podiam fazer?

 

R – Eu me recordo de uma coisa que até hoje eu nunca esqueci, eu catava lasca também, lasca é cristal aqui na beira do rio, antigamente, a gente fazia isso, cavando ali a beira rio, a gente tirava muita lasca e revendia essa lasca, você limpava na beira rio, quebrava direitinho, deixava ela de primeira e ia vender ali no seu Tiago. E um dia, eu encontrei uma bola e nós jogávamos bola ali em frente à loja Araguaia, hoje Supermercado Araguaia, ali era gramadinho, bacana. E eu achei uma bola dentro do rio, dentro do esgoto que tinha ali do Posto Dico, tinha um posto chamado Posto do Dico e eu encontrei uma bola e lavei essa bola bem lavada e levei para casa, meu pai tava na roça. Quando ele chegou de tarde, eu tô jogando com essa bola na parede, batendo com os pés nela lá e tal, e ele perguntou onde eu tinha encontrado aquela bola e quem tinha me dado a bola. Eu falei que tinha achado na beira rio, ele falou: “Vai e joga no mesmo lugar, não é sua”, aí eu falei: “pai, mas eu achei essa bola lá”, aí ele: “Ei tô te mandando, vai lá levar e joga lá que ela não é sua”, aí eu voltei, joguei a bola, tinha uma garotada lá brincando, quando eu joguei a bola, os caras pegaram a bola e foram brincar com a bola. Bom, em suma, quando eu voltei, eu levei uma surra porque eu contestei com ele que eu tinha encontrado a bola, então, ele não aceitava você contestar, entendeu? Se por acaso, ele tivesse conversando com alguém, duas pessoas e eu passasse no meio, aí já era problemas. Ele não aceitava esse tipo de comportamento, tinha que parar, dar bom dia ou boa tarde e pedir permissão para passar, esse era o critério dele. Então, era isso.

 

P/2 – E assim, você teve amigos na sua adolescência?

 

R – Sim, eu tive alguns amigos, sim, um amigo que eu não esqueci até hoje, que nunca mais eu vi, chamava-se Lindomar, nunca mais eu vi. Bom, eu fui embora daqui aos 15 anos de idade de Xambioá e dessa data até hoje eu nunca mais o encontrei. Tinha o Orlando que agora, eu encontrei com o Orlando, da Dona Neuza e tal, mas… tinha o Divino, tinham muitos amigos aqui. Amigos assim, que nós podíamos pecar, o Verossi, o Everi e muitos outros que… esses eu te digo que nós éramos amigos, assim, mesmo de sair para pescar, passarinhar, naquela época, você podia passarinhar, né, matar Majuriti para comer assado, hoje você não pode fazer isso. Mas naquela época, nós fazíamos. E esses eram os meus amigos que eu saía.

 

P/1 – Você disse que foi para Brasília com 15 anos.

 

R – Sim, aos 15 anos de idade.

 

P/1 – Por quê que você mudou?

 

R – Bom, a minha ida para Brasília aconteceu da seguinte forma, em 1972 foi o inicio da Guerrilha do Araguaia e nesse período, o meu pai vendia e trazia pessoas, né, no barco dele pra cá e levava e trazia, era um taxi flutuante e ele carregava o Osvaldão, esse pessoal que fazia parte da guerrilha. Moravam lá embaixo em Santa Isabel, ele trazia pra cá. Meu pai foi detido quando o pessoal do Exército chegou, algumas pessoas foram detidas, etc. e aí, detiveram um cidadão, eu não vou citar o nome dele e esse cidadão disse que quem era amigo dos terroristas era o meu pai. E o meu pai nesse período tinha ido para Marabá, eu me recordo muito bem que ele tinha feito essa viagem para Marabá. De Marabá, ele foi até Itaguatinga, Santo Antônio que se chama Itaguatinga, onde a mãe dele morava, a vó Jardilina. Ao retornar, ele parou em Marabá e estava jogando num bar quando ele foi abordado pelo pessoal do Exército. Ele foi abordado e os caras entraram todo mundo armado, cercaram o bar em que ele estava na beira do rio, motor parado na beira rio e tinha um bar que ele almoçava e tal, e jogando sinuca e o pessoal perguntou: “Quem é Lourival Moura?”, e ele respondeu: “Sou eu”, e eles disseram que ele teria que os acompanhar, aí ele perguntou por que e eles disseram que ele seria interrogado, ele tinha sido denunciado por ajudar os terroristas. Ele acompanhou o pessoal. Aí, meu pai já tinha uma segunda mulher em Marabá e nós não tínhamos conhecimento, nem eu tinha, nem a minha mãe tinha conhecimento, ele tinha uma pessoa lá, nessas idas e vindas, ele arrumou uma pessoa lá, teve um caso com essa pessoa e tinha duas filhas, já, nesse período. Ele passou na casa dessa pessoa, falou que tava sendo levado pelo Exército e trouxeram o meu pai aqui para Xambioá e daqui, levaram ele para Brasília. Ele ficou alguns dias sendo interrogado em Brasília e voltaram com ele aqui para Xambioá, aí ele chegou numa quarta-feira aqui. Aí, desceram com o meu pai na base, de avião, no búfalo e vieram com o meu pai até a entrada da cidade, ali onde é o Vietnã, era uma antiga zona de baixo meretriz e na ponte, eles desceram o meu pai e vieram com ele, escoltando ele, apresentando para a cidade como se fosse uma presa, né, andando na cidade, passaram na porta da minha casa com ele preso, ele andando, dois soldados de lado e dois atrás e eu na porta de casa não pude falar com ele, que eles não deixaram e seguiram com ele para a delegacia. Aí, eu tinha 15 anos de idade na época, fui até a delegacia, sempre atrás dos caras. E entraram com ele na delegacia, prenderam ele lá e tal, conversaram uns dez, 15 minutos e foram embora no jipe do Exército. E eu fui até o delegado falar com ele, naquela época, o delegado era o Marra, Sargento Marra. E ele me disse o seguinte: “Olha, eu não posso deixar você falar com o seu pai, você tem que ir lá na base falar com o Capitão Magalhães ou Capitão Gomes”, e eu ouvi o meu pai dizer lá de dentro: “Não vai, não vai na base Ruiderval, não vai na base”. Nesse interim, quando eu me apresentei para o Marra, que eu falei que era filho do Lourival, ele falou: “Então quer dizer que você é o terroristinha, filho do terrorista que tá preso?”, e eu fui, assim mesmo, eu fui para a base. Aí cheguei lá, já me levaram para a barraca dos oficiais, me interrogaram até de noite, o azar que eu dei na minha vida, me interrogaram até de noite, me trouxeram em casa, colocaram a minha bicicleta que eu tinha, que eu tava na bicicleta do Donato, colocaram em cima do carro e trouxeram. No outro dia cedo, eles me levaram para a base de novo para me interrogar, eu passei sendo interrogado por três dias. No sábado, eu conversando com eles lá na base, mas nunca me bateram, só me interrogando, mas aquilo era uma tortura, né?

 

P/1 – O quê que eles perguntavam?

 

R – Perguntavam de quem o meu pai era amigo, sempre as mesmas perguntas, se meu pai era da Arena ou do MDB, eu dizia que o meu pai era da Arena, dizia que meu pai era amigo de fulano, Seu Manuel Matos e tal, Manuel Pinho, que era prefeito na época e insistentemente, eles perguntavam se o meu pai era do MDB ou da Arena e pra me confundir. Perguntavam se eu era amigo do Osvaldão, quantas vezes o Osvaldão tinha ido na minha casa. E eu falei que o Osvaldão descia porque morava lá embaixo, a gente não conhecia o Osvaldão, pra mim, era uma pessoa comum que morava na roça. E se ele já tinha ido na minha casa, eu falei que já, conhecia? Conhecia. Como eu conhecia o Seu Euzébio que morava lá na Santa Cruz, como eu conhecia o Seu Joaquim Borges que mora na Santa Cruz até hoje, o Seu Felipe que morava lá perto, seu Zé Moura, Seu Zé Leda e muitos outros que moravam na região, então para mim, era um morador comum. Nunca associei ele como uma pessoa violenta, ou algo parecido. Então, acontece que eles me disseram que o meu pai seria liberto na segunda-feira. Isso foi no sábado, aí no domingo, eu fui para a delegacia à noite, eu ficava sempre na calçada da delegacia. Na delegacia, tinha uma janela que dava acesso para a rua e eu ficava sentado na janela e meu pai no lado de dentro e eu na calçada do lado de fora conversando com ele. E quem levou a rede com cordas fui eu, eu levei doce de jaca que ele pediu, ele gostava muito, minha mãe fez um doce de jaca e eu levei para ele. E os caras não pegavam, eu levei cigarro, fosforo…

 

P/1 – A rede para deitar?

 

R – Para deitar. E aí, no domingo, quando deu 11 horas da noite, o motor apagava, tinha um motor de luz que apagava exatamente às 11 horas da noite. Quinze pras onze, esse motor dava um primeiro sinal para que você pudesse se preparar que dali a 15 minutos, o motor estava apagando. Aí, deu um sinal, acabou a missa, às dez horas, eu sentado lá, alguns amigos vieram falar comigo e foram embora e eu permaneci lá sentado conversando com o meu pai, normal, como que tava e tal, ele dizendo que era inocente, que não tinha nada a ver com ninguém e tal. E quando o motor deu o sinal, ele falou: “Ruiderval, vai para casa, que já é tarde”, eu dei a benção para ele e fui embora. Aí, cheguei, tomei um banho, deitei, lá para às duas horas da manhã, minha mãe acordou sobressaltada e me chamou: “Ruiderval”, aí eu acordei: “O que foi mãe?” “Seu pai morreu” “Mãe, acabei de falar com o meu pai” “Seu pai tá morto, ele me visitou agora, ele veio falar comigo e ele não conseguia falar comigo’, e ela não dormiu mais. Cinco horas da manhã chegou um cidadão por nome Edgar, o cara que trabalhava no motor de luz me chamando, aí minha mãe perguntou o que ele queria, ele falou que o Geovan lá do bar Quentão tava me chamando. Minha mãe: “De manhã ele fala com ele” “Não, mas ele quer falar com ele agora”, aí ela levantou de camisola e falou: “Eu vou lá também”, e nós saímos e o cara sempre dizendo: “Não rapaz, isso já aconteceu comigo, fica tranquilo”, e a minha mãe: “O quê que aconteceu contigo? Por que você tá falando isso comigo?”, aí quando eu sai da ladeira lá de casa, subindo a ladeira, eu vi aquele monte de carro do Exército, aí minha mãe: “Seu pai morreu”. Aí, nós chegamos até onde estava os caras, tava o Marra, o Capitão Magalhães, o Capitão Gomes, minha tia já estava lá na porta, porque o Quentão fica em frente a casa da minha tia, minha tia Laide, e ela já estava chorando lá e tal. Quando eu cheguei, o Capitão colocou a mão o meu ombro e o Marra veio na minha frente e falou: “Garoto, seu pai morreu”, aí eu dei um safanão no Marra e sai correndo para o rumo da delegacia, aí os caras entraram no jipe pra tentar me pegar. Como naquela época, a rua era só cascalho, os carros tinham uma dificuldade e eu cheguei na delegacia. Antes de entrar na delegacia, que eu tentei entrar na delegacia, tinha um soldado do Exército na porta e me deu uma pancada com um pau nas costas e eu cai. Quando eu cai, eu levantei com um cascalho na mão e joguei nele, ele para se proteger, colocou a mão no rosto e eu entrei na delegacia. E ao entrar na delegacia, você entrava numa sala e entrava à direita e tinha a cela. Quando eu virei à direita, o PM não tocou a mão em mim, era o Queixinho e o Manuel Soldado que estavam lá na época, não tocaram a mão em mim, daí eu entrei, quando eu entrei que eu abri a porta, eu vi a rede dependurada de um lado e o meu pai enforcado do outro lado da corda. Aí, eu olhei, ele tava todo despido, aí suspendi o corpo dele, quando suspendi, já veio outra pessoa atrás de mim que era o Donato e o Edgar, já tiraram a corda do pescoço dele e colocamos ele no chão. E colocamos ele fora, ele tava todo ___00:30:46_____, todo cheio de manchar roxas. E enfim, chegou o Capitão Magalhaes, outros caras, aí falaram pra mim o seguinte: “Garoto, se você quiser tomar conta do corpo, você pode providenciar o sepultamento”, falei: “Não, quando eu queria falar com o meu pai, vocês não deixaram, ele era incomunicável, agora vocês cuidem do sepultamento dele”, eu me recordo muito bem disso e sai dali. Aí, sai dali, a dentadura dele tinha caído, tirei a dentadura dele, botei no bolso, peguei a sapatilha que tava lá, sapatilha marrom, que depois, eu continuei a usar a sapatilha do meu pai por muito tempo e fui para casa. Minha mãe foi pra casa também. Nesse interim, minha mãe já tinha ido no Seu Cicero, que era uma pessoa que morava aqui, para mandar fazer o caixão. Aí, ele estava fazendo o caixão, fizeram o caixão direitinho, eu passei na casa do Seu Raimundinho, Raimundo Martins que tinha uma loja e era compadre do meu pai e falei pra ele que o meu pai tinha morrido, bati na porta lá de madrugada, ele acordou, aí já liberou uma roupa para o meu pai, né, uma roupa nova lá, calça, camisa, meia e eu levei, eu sei que foi feito os preparativos do sepultamento. E aí, eles disseram pra gente fazer o sepultamento aqui, eu falei: “Não, já que vocês descobriram que ele tem outra família, minha mãe não quis mais que ele fosse sepultado aqui”, então minha mãe não aceitou mais ele a partir daquele momento, entendeu? Ela: “Já que ele tem outra família, que ele vá ser sepultado em Marabá”. E aí, no outro dia cedo, não houve aula, porque eu estudava no Grupo, meu pai tinha falecido e tal, estava sendo velado na delegacia, eles não queriam… o pessoal do Exército cercou a delegacia, não estava deixando ninguém entrar, colocaram uma fita amarela, eu quebrei essa fita, entrei e chamei meus colegas de aula para verem o meu pai e foi assim que nós conseguimos entrar, eu arrebentei a fita e nós entramos. Mais ou menos, dez horas da manhã, eles pegaram o corpo, trouxeram um outro caixão de Marabá, um ataúde de vidro, com a tampa de vidro, colocaram o corpo, deixaram o outro que a minha mãe tinha mandado fazer lá na delegacia e colocaram o corpo no jipe e levaram para a base e eu fui no jipe até na base. Colocaram o caixão no helicóptero e perguntaram se eu queria ir para Marabá e eu falei que não. Aí, desci, só ajudei a colocar o caixão e eles levaram o caixão com o corpo para Marabá e eu fiquei aqui. Então, essa foi uma parte muito dura. Mas enfim, eu tive que superar…

 

P/1 – Só voltando, Rui, e eles não deram a mínima explicação?

 

R – Não. Não, eles disseram que foi suicídio, meu pai tava praticamente com o joelho encostado no chão, né, e eles disseram que o meu pai tinha se suicidado, só que no dia, no mesmo dia em que eu tirei a corda, eu percebi que a corda não era a mesma corda que eu tinha levado para ele da rede, era uma corda mais fina. Algum tempo depois, em depoimento na OAB Paulista, lá com o Idibal Pivetta que era o presidente da OAB, eu fiz esse depoimento e disse para o Idibal Pivetta, na época, que a corda não era a mesma corda e sim, uma corda fina e lisa, que depois eu servindo o Exército, percebi que era a mesma corda que tava no pescoço do meu pai, quer dizer, ele foi assassinado em algum lugar e levado para lá, eles não tiveram o cuidado de tirar a corda do pescoço dele. E dependuraram ele na escapula com a mesma corda que ele foi assassinado. Enfim, em 1973, eu vou te explicar porquê que eu fui para Brasília, aí eu tive muitos problemas no colégio, hoje se fala… quando se manga de alguém, antigamente era mangar de alguém, caçoar de alguém, hoje não, hoje chama bullying e eu sofri muito bullying nessa época. Me chamavam de filho de terrorista, e aí, eu caía no cacete com os caras, chamava no canto e entrava na porrada, não tinha história. E aí, eu falei: “Mãe, eu vou embora daqui”. Em 1973, minha mãe providenciou minhas roupas, uma malinha de Duratex, uma rede e um tênis e eu fui para Brasília. Mas nesse período, eu já trabalhava na Mercelinense descarregando os motores que vinham com madeira lá da Marcelinense, jogava ali em frente ao Araguaia e carregava os caminhões. Eu tinha 14, 15 anos nessa época, eu já trabalhava. E eu comprei o meu primeiro tênis com o dinheiro do meu trabalho e foi com esse tênis que eu levei pra Brasília juntamente com a sapatilha que eu peguei do meu pai lá, a sapatilha marrom, um sapatinho marrom baixo que eu gostava. Então, em 1973 eu fui para Brasília, cheguei julho de 1973, não, março de 1973, ainda tinha 15 anos de idade. Aí desci na rodoviária de Brasília, sozinho, cachorro caindo de mudança e fiquei perambulando.

 

P/1 – Você não conhecia ninguém lá?

 

R – Não.

 

P/2 – E tinha dinheiro?

 

R – Minha mãe arranjou algum dinheiro pra mim, né, e eu fui. Com esse dinheiro, minha tia… levei duas latas de fritos, né, uma de farofa de porco e outra de galinha, eu levei, quando o pessoal parava pra comer, eu pegava a minha latinha e saía do ônibus e ia comer, entendeu? Bom, enfim, aí eu cheguei em Brasília, fiquei rodando na rodoviária que tinha soldado para todo lado naquela época, era por causa da ditadura militar, então, soldado do Exército, Marinha e Aeronáutica era muito lá naquela rodoviária e eu andando pra cá e para lá com aquela malinha. Aí não tinha onde ir, fui no banheiro lá da rodoviária e aí, conversei com o rapaz que trabalhava à noite, porque eu tava dormindo na rodoviária, aí conversei com o rapaz se eu podia dormir num banheiro daqueles e tinha um banheiro grande lá, lavou o banheiro, eu ajudei ele a lavar o banheiro e eu passei a dormir naquele banheiro, que era o banheiro dos deficientes e aí, eu arranjei uns plásticos lá, umas caixas, a gente forrava direitinho e ele fechava. Como ele trabalhava à noite inteira, seis horas ele tinha que levantar, porque o fluxo de pessoas começava às seis horas na rodoviária e tinham cadeirantes que começavam a chegar cedo e eu tinha que levantar. Um frio violento aquela época em Brasília, quase morri. Então essa foi a minha vida. Pra comer o que eu fazia? Tinha o Rodoprato, que era um restaurante na rodoviária, alguns outros restaurantes lá perto e eu ia lavar panela pra almoçar, dormia e na hora de, duas e meia, três horas, eu ia para o restaurante pedir para eu lavar panela pra poder comer e isso eu fiquei fazendo por muito tempo. Dois meses, aproximadamente. Aí, um dia, o rapaz que cuidava lá dos banheiros perguntou se eu podia trabalhar de servente de pedreiro, falei: “Trabalho” “Lá naquele prédio ali, tá precisando”, estava construindo o Ministério das Minas e Energias e nesse período que eu fiquei perambulando na rodoviária, tirei identidade, CPF, fotos 3x4, do lambe-lambe, lá e tal, acharam bacana o cara lá, eu tirei minhas fotos e fui lá nessa empresa que era da Encol, só que a Azteca que era uma empresa que era uma engenharia tava precisando de servente a contador e eu fui e o cara da Azteca me contratou como servente. Aí, eu falei pra ele que não tinha onde morar, aí comecei a morar no próprio alojamento lá no Ministério, próximo a rodoviária. Aí, melhorou, aí eu já tinha onde morar e trabalhava durante o dia todo. Pra mim foi um sacrifício, porque eu nunca tinha trabalhado com esse tipo de coisa e eu era o rotador da betoneira, eu era o cara que mexia com a betoneira. A mão inchada e tal. Um belo dia, faltou um apontador, como nós medíamos madeira para colocar os caminhões, eu sabia medir um caminhão de madeira. Aí, o mestre João que era o encarregado geral da obra tocou a campainha, juntou todo mundo lá e tal, naquela época, chegava em Brasília dez caminhões por dia de nordestinos para trabalhar na construção. E aí, ele perguntou quem sabia medir madeira? “Eu”, aí eu levantei o braço, aí: “Vem cá, meça aquele caminhão lá”, aí eu fui lá: “Oito metros”, ele: “Tá certo e aquela areia, vai lá”, mesmo processo, fui lá e medi a areia, beleza: “A partir de agora, você é apontador, vai lá, pega o crachá de apontador, já fui, já mudei de história, já tinha uma mesazinha, já melhorou, aí passei a ser apontador da empresa Azteca. Aí não ia mais para o canteiro de obra, só ia anotar o pessoal que fazia serão e eu fazia serão até dez horas, comecei a ganhar melhor um pouquinho, eu sei que eu trabalhei de 1973 até 1975 lá nessa obra. Por quê que eu sai em 1975? Eu tinha que me alistar, me alistei no Exército e fui chamado para servir. Em 1975, eu fui servir no 30º Grupo de Artilharia e Campanha no 32º GAC em Brasília e fui designado para servir na Bateria de Comando, Bateria antiaérea e eu fiquei um ano, menos de um ano, porque eu tive problemas, quando eles descobriram que eu era filho do Lourival Moura, aí eu tive problemas com o oficial da AMAN que era o Capitão Rocha Braga, Tenente Rocha Braga, ele me desafiou e eu falei para ele que se ele mexesse comigo, eu ia atirar nele e tal. Isso lá no estande de tiros, aí me transferiram de Quartel e eu fiquei dez meses, dez meses e alguns dias, eu sai na primeira baixa do Exército exatamente por causa dessa incidente porque o meu pai tinha sido morto na Guerrilha do Araguaia. Então, eu já tive alguns problemas assim, no meu serviço também depois e ai, dei baixa do Exército e fui para o Rio de Janeiro. Peguei um ônibus lá e fui para o Rio de Janeiro sozinho. Já estava com 18 anos, 19, minha mãe morando aqui e eu tentando sobreviver, né, de tudo que tinha acontecido comigo aqui. Mas nesse período que eu trabalhava lá no Ministério, eu vinha aqui para Xambioá, eu retornei aqui para Xambioá, era muito difícil a gente vir naquela época, porque não tinha [a Rodovia] Belém–Brasília completa, ela tinha alguns trechos e outros era estrada de chão, então, você passava uma semana, quase, viajando de Brasília aqui. E essa foi a minha infância. Bom, parte da minha juventude e até aos 20 anos, trabalhando no Rio de Janeiro, eu fiquei de 1976 a 1978 no Rio de janeiro.

 

P/1 – Trabalhando em que, Rui?

 

R – Cheguei no Rio de Janeiro, desci na Praça Tiradentes, aí sai andando com a mochila nas costas, naquele tempo, eu tinha uma mochila grande, tudo dentro da mochila, naquele tempo, você ia para a… aprendi a fazer mocassim, e tal, eu fazia uma coisa hippie, eu mesmo fazia meus mocassins… 

 

P/1 – Aprendeu como, Rui?

 

R – Com os hippies lá em Brasília, lá perto da torre, a gente ia pra lá, tinha os hippies e eles ensinavam a gente fazer de pneu e eu fiz os meus próprios mocassins. E aí, quando eu cheguei no Rio, eu desci e sai andando, aí fui no Café Central, tomei um café, fiquei impressionado com aquele… a estátua que tinha no Rio de Janeiro de Tiradentes naquele cavalo e aí, sai andando e aí, uma empresa, uma obra em construção. Aí, eu encostei na obra e vi: “Precisa-se de servente, apontador…”, tinha minha carteira, tudo direitinho. Aí, bati na porta lá, o cara me atendeu, aí eu falei: “Rapaz, estão precisando de apontador?”, o cara: “Tô”, falei: “Trabalhei de apontador assim, assim…”, ele: “Entra ai”, aí eu entrei, mostrei a carteira, ele: “Beleza”, me levou num engenheiro, o engenheiro: “Pode começar agora?”, eu falei: “Agora”, aí ele disse: “Você mora onde?” “Aqui na obra” “Esse mesmo que nós precisamos”, comecei a trabalhar e a morar na obra, eles me deram um quartozinho lá de apontador, o apontador mais antigo não ficava na obra, só ficava durante o dia. Aí, eu comecei a dormir lá no quarto dos apontadores e comer na obra e dormir, e ali, comecei me entrosar de noite por ali no teatro e foi essa a minha vida. Aí, eu fiquei de 1976 a 1978.

 

P/1 – E você ia de um lugar para outro assim, sem conhecer ninguém?

 

R – Sem conhecer nada.

 

P/2 – E a sua mãe?

 

R – Minha mãe permaneceu aqui.

 

P/1 – Como ela se sentia?

 

R – Aí, minha mãe nesse período passou a ser lavadeira, porque nós perdemos a nossa propriedade. Quando nesse período, o Exército ficou aqui, nesse período de 1972 a 1975, eu fui embora porque nós perdemos a propriedade. Quando eu descia para pescar, ou descia para chegar até ali, os caras vinham de helicóptero e mandava você voltar. Então, era meio complicado, eles atiravam nessa beira de rio toda aqui, eles tomavam a arma do pessoal e jogavam no meio do rio as armas, atiravam de .50 no pedral, então quer dizer, era um problema sério você andar por aí e ser alvejado. Quando você, às vezes, ia descendo, os caras paravam o helicóptero baixinho e mandavam você voltar, aconteceu comigo diversas vezes. Minha mãe desistiu, nunca mais foi para lá, era só eu e ela, o quê que ela ia fazer numa roça daquelas? Perdemos tudo. Nós não fomos indenizados porque a propriedade não era do meu pai, nós éramos… naquela época, você cercava um pedaço e dizia: “Aqui é meu”, quando o INCRA chegou é que ele, realmente, fez todo um trabalho de passar documentação e tal. Quem morava no outro lado da propriedade do meu pai chamava-se Seu Noleto. E quando o meu pai faleceu, Seu Noleto simplesmente, tirou a cerca que fazia divisa nossa de 16 alqueires e emendou com a terra dele, que chegava até o pé da serra. E depois, ele vendeu para os Claras que hoje, continuam com a propriedade. E nós perdemos tudo isso. E eu desgostei e fui embora daqui exatamente por causa disso. Minha mãe permaneceu aqui, coitada, fazendo serviço de lavar roupa, lavava roupa para o Manuel Dias, para o Raimundo Dias, para algumas pessoas, enfim, e eu não podia mandar dinheiro para ela, que eu não tinha como, que para falar com a minha mãe aqui, eu tinha que ligar, marcar um horário lá no posto telefônico para ela ir para o posto, para atender, era muito complicado, só tinha um telefone para toda cidade. Para você ligar aqui para alguém era complicado. Tinha um rapaz de bicicleta que ia avisar a pessoa, não era nem moto, era bicicleta, ia avisar a pessoa que tal hora o filho ou o parente ia ligar lá no telefone. E a pessoa chegava lá e ficava esperando você ligar.

 

P/1 – E como que você voltou para cá?

 

R – Então, 1978 eu tava no Rio, nesse período, eu não cortei cabelo, eu não tirei barba, eu fiz um promessa de só tirar quando retornasse para cá, para minha região ou para Brasília. Em 1978, eu pedi a conta lá da… que era na Alberto Odebrecht lá. Eu pedi conta na Alberto Odebrecht, eu recebi todo o dinheiro e vim para Brasília. Aí, quando eu cheguei em Brasília, eu já tinha alguns amigos morando lá, já daqui morando lá em Brasília e dentre eles, era o Daniel Alves, filho do Pastor Jonas que era daqui e eu peguei o endereço dele, me passaram o endereço dele e aí, eu fui para lá. Cheguei, ele tava tirando a barba, ele era garçom e eu cheguei umas duas horas da tarde, ele estava preparando, porque ele ia lá para a boate, ele trabalhava lá na boate, ele era garçom e quando eu cheguei ele tava tirando a barba, eu falei: “Daniel Alves”, ele virou e falou: “Sou eu mesmo, mas quem é você?”, eu falei: “Você não me conhece?”, barbudo, cabeludo, aí ele falou: “Não, não te conheço”, eu falei: “Rapaz, sou o Rui”, quando eu falei que era o Rui, ele quase me derruba. Ele me abraçou e tal, fomos conversar, ele tomou um banho, eu tomei um banho, também. Ele morava numa república, morava ele, o irmão dele, o Enoc e o Zé. Tinha mais um pessoal de Minas, ele era amigo de todo mundo, me apresentou logo para todo mundo, aí: “Vai ficar comigo aqui”, aí eu já passei a ser morador daquela república. E aí ele falou: “Vamos cortar essa barba, esse cabelo”, não sei o que e tal, falei: “Vamos”, aí quando nós saímos, eu passei em frente ao Quartel do Corpo de Bombeiros e da Polícia Militar, uma fila enorme fazendo inscrição, aí eu fiz a minha inscrição, peguei o papelzinho, paguei no banco e fui lá e fiz a inscrição, tanto para PM como para o Corpo de Bombeiros. Aí tirei a barba, direitinho. Aí mudou todo o visual, mudou visual, aí foram marcadas as provas da polícia e do Corpo de Bombeiros, eu fiz as duas, passei na prova. Eu tinha na época, levado um livro daqui “Da admissão ao ginásio”, como eu… naquela época, como você saía na quarta série, hoje você tem até a nona, né, antigamente não, você saía da quarta e entrava na quinta e na sétima pra você ir para o ginásio, era o ginasial, até o oitavo, nona, né? Você tinha que fazer essa admissão para entrar no ginásio e aquele livro era muito bom, tinha tudo ali, equação de segundo grau, tinha tudo. E eu carreguei aquele livro comigo. Sempre estava estudando naquele livro. E quando eu peguei o Edital do concurso, tanto da polícia, como do Corpo de Bombeiros, só tinha coisa que tinha naquele livro e eu estudava direto e passei, enfim. Aí, fui convocado no Bombeiro mais rápido, fiz as provas escritas, passei, aí veio a prova de Educação Física, passei, natação, subida de corda, bom enfim, e exames médicos. Eu passei. Eu tinha naquela época, como nós não tínhamos dentista aqui, eu extrai três dentes, se eu tivesse extraído quatro dentes, eu não passava, então eu tinha esse problema, eu tinha extraído três. Raimundinho dentista quase me matava naquele negócio de extrair dentes. Eu falo pra ele hoje, ele ri, mas tinha que sentar no seu feijão pra poder tirar um dente, né? Porque eu era… não deixava, ficava com o rosto inchado, minha mãe mandava tirar o dente: “Vai no Raimundinho arrancar esse dente”, era cruel. Enfim, eu fiz as provas e fiquei esperando ser chamado no Corpo de Bombeiros. Eu passei quase dois anos para ser chamado, para entrar no Corpo de Bombeiros, porque eu não tinha QI – Quem Indique, né? E muita gente do Rio estava vindo pra cá, porque como o Corpo de Bombeiros é oriundo do Rio de janeiro, muita gente do Rio de Janeiro vem para Brasília e trazia sobrinho, tal, e “quem indique” tava mandando todo mundo, eu não tinha quem me indicasse, fiquei aguardando a minha vez. Aí um dia, eu tava na república, comecei a trabalhar, trabalhava numa loja de bolsas, eu vi: “Precisa-se de vendedores”, eu nunca tinha trabalhado com esse tipo de material, conversei com o cara e ele falou: “Não, você pode trabalhar comigo, amanhã  cedo você vem aqui pra gente fazer o teste”, aí eu fui e passei no teste, era em Taguatinga, aí eu fiquei dois meses em Taguatinga, eu fui campeão de vendas, tinham quatro vendedores na loja, era muito grande a loja e eu fui campeão de vendas nesses dois meses. E eles tinham outra loja no Plano Piloto, me levou para o Plano Piloto e eu fiquei sozinho como vendedor no Plano Piloto.  Ganhei dinheiro, trabalhei e aí, comecei a morar sozinho. Bom enfim, aí fui chamado para entrar no Corpo de Bombeiros, primeiro de outubro de 1979, porque eu encontrei um cidadão nesse condomínio, nesse cortiço que eu morava, ele era superintendente do Corpo de Bombeiros, como ele morava numa cidade próxima e meio distante… próxima a Brasília, mas distante do Quartel, ele alugava um quarto só para trocar de roupa, chegava, deixava a roupa e tal, aí fazia lá alguma coisa que ele queria fazer, deixava nesse quarto e ele me viu um dia com a inscrição na mão, aí: “Mas você não é fulano?” “Sou”, Superintendente Brain, ele era do Rio de Janeiro, aí ele falou: “Eu vou te colocar, vou arrumar para você entrar agora, porque senão, você só vai entrar em 1980”, aí foi lá, mexeu com os pauzinhos, sei que me chamaram dia primeiro de outubro de 1979. Uma turma de 60 pessoas e eu tava no meio dessa turma. Agradeço ele profundamente por isso, agradeci…

 

P/1 – E você ficou trabalhando como Bombeiro até aposentar?

 

R – Sim. Eu entrei em 1979 e fiquei até 2009. Então, quer dizer, fiquei 30 anos, dois meses e sete dias.

 

P/1 – Onde? Em Brasília ou aqui?

 

R – Brasília.

 

P/1 – Sempre os 30 anos lá?

 

R – Sim, os 30 anos lá.

 

P/1 – Servindo lá?

 

R – Sim. Mas aí quando eu entrei no Corpo de Bombeiros, minha mãe ficou satisfeita, ela disse que não queria que eu entrasse na PM e tal, porque a ideia que se tinha da Polícia Militar é uma polícia violenta, até porque nós morávamos aqui e eu fui testemunha ocular de alguém ser preso pela polícia e chegar, correr da polícia, os caras atiraram na frente das pessoas, a gente via muito isso acontecer, matavam as pessoas por legitima defesa. Então, isso acontecia, naquele tempo. Hoje não, não acontece mais. Mas enfim, minha mãe tinha toda uma aversão até porque meu pai tinha morrido numa guerrilha e ela tinha aversão a policiais, ela: “Não, você pode entrar de bombeiro, na polícia não’, porque eu fui chamado também para a polícia, só que eu já estava no Corpo de Bombeiros, quando eu fui chamado em dezembro, eu já era recruta no Corpo de Bombeiros, eu tava saindo de um recrutamento, vou entrar em outro? Não vou. Então, eu já tava terminando, eram seis meses, já tava com dois, então eu falei: “Não, vou ficar por aqui”, e permaneci no Corpo de Bombeiros. Minhas primeiras férias, eu vim passar aqui em Xambioá com minha mãe. Nesse tempo, eu tava namorando uma menina lá em Brasília que foi minha primeira esposa, eu tenho dois filhos com ela. Hoje, o Robson tem 33 anos e o Shaumon tem 31, 32. Enfim, eu vim passear, aí foi tudo bem, aí quando eu entrei no Corpo de Bombeiros, eu já mandava um salário mínimo pra minha mãe, naquela época, eu pedi para ela parar de mexer com lavagem de roupas e mandava para ela todo mês o salariozinho dela e tinha uma loja aqui da Isa, que naquele tempo ela fazia as compras de 70 reais por mês. Aí, ela já estava aposentada, né, em 1979 ela se aposentou, 1978 ela se aposentou, tinha a aposentadoriazinha dela e eu mandava mais um salário. Naquela época, o salário era uma mixaria, era 120 reais, eu recordo muito bem, eu tenho todos os carnês que eu mandava, porque a gente mandava pelo Correios, então você tinha que ficar com o recibo e eu mandava pra ela. E na loja lá, da Isa, do Seu Anísio, ela tinha uma despesa de 70 reais por mês. Enfim, então ela começou a melhorar, aí ela parou… fazia porque não queria ficar parada, às vezes, tinha alguém que levava a roupa, aí ela fazia, mas não era coisa de ser a faxina mais dela, entendeu? Graças a Deus, mudou muito.

 

P/2 – Como que você conheceu a sua esposa?

 

R – Cara, a minha primeira esposa foi os seguinte, eu tava em Taguatinga, tinha uma boate chamada Papagaios, que era onde os jovens se encontravam naquela época e naquela época, tinha matinê aos domingos na boate e nós estávamos lá na boate na matinê. Eu conheci ela com uma turma de amigas, irmãs e tal. Aí, eu chamei ela para dançar e nós fomos dançando e tal, aí marcamos para outro dia dessa semana, aí combinamos de nos encontrar, aí ficamos juntos e tal, aí ela começou a ir… aí, nesse tempo, eu já estava morando no apartamento, tinha alugado um apartamento em cima das Lojas Americanas no centro de Taguatinga e ela ia para lá, ficava comigo, fazia almoço e tal, aí pronto, começou assim. E fiquei casado por 20 anos com ela, morei um período, ficamos casados por 20 anos, viemos a nos separar…

 

P/1 – Tudo lá, né?

 

R – Tudo em Brasília, meus filhos são de lá, nasceram no Hospital das Forças Armadas, lá no centro de Brasília e tive a vida mais ou menos tranquila. Trabalhei muito, trabalhava no Corpo de Bombeiros, aí montei uma empresa de representação da Disbrave, eu vendia carro para a Disbrave, aí montei outra representação na Prodente, montei dois escritórios de odontologia na cidade satélite, cidade do entorno de Brasília, que era 50 quilômetros, eu montei dois consultórios de odontologia. Aí, comecei a trabalhar minha vida, ganhar dinheiro, entendeu?

 

P/1 – Lá?

 

R – Lá, tudo lá.

 

P/1 – Com comércio, então?

 

R – Comércio e sempre ajudando a minha mãe. Todo mês de julho eu tava aqui, dezembro, então, melhorou…

 

P/1 – E podia trabalhar como Bombeiro e também ter as atividades?

 

R – Eu trabalhava um dia e folgava dois, então, nos dois dias que eu estava de folga, eu tinha essas outras atividades, entendeu, nunca fiquei parado esperando o dinheiro… no Corpo de Bombeiros, nós ganhávamos realmente bem, naquela época, nós ganhávamos 22 salários mínimos, então quer dizer, era um bom salário para a época, né, era soldado, logo eu fui a cabo, aí melhorou, né, eu entrei em 1979, em 1985 eu fui a Cabo, então já melhorou bastante. Depois, eu tive alguns problemas com o Comandante lá do Corpo de Bombeiros lá, que eu fundei a Associação dos Bombeiros, que era proibido na época, porque nós vivíamos na época de repressão, de ditadura e aquele resquício da ditadura acompanhou o Corpo de Bombeiros por muito tempo num período longo da história e eu fui o primeiro cidadão a fundar uma associação do Corpo de Bombeiros no Distrito Federal e eu fui perseguido muito por isso, fui tirado do curso de sargento em 1978 por isso, poderia ser oficial superior hoje, não sou exatamente por isso, fui tirado do curso aleatoriamente. Então quer dizer, quando fundei a associação, Coronel Carlos Alberto do Nascimento me perseguiu demais, me transferiu para dez quartéis num prazo de seis meses, o que é improvável para qualquer militar, ser transferido de um quartel para outro num período tão curto período de tempo e isso aconteceu comigo, exatamente, por eu fundar a Associação dos Cabos e Soldados do Corpo de Bombeiros.

 

P/1 – E foi para frente a Associação?

 

R – Sim, nós funcionamos até 2000, aí eu não quis mais, fui a sargento, deixei a Associação, passei para outros amigos, mas realmente, aí abriu-se o leque de Associações do Corpo de Bombeiros, eu recebi uma homenagem de… hoje, ele é deputado distrital em Brasília, através de uma associação. Nesse período, saí como candidato a deputado distrital pelo Prona, que eu deveria ter saído pelo PT, que na época, o PT era muito forte em Brasília e o Genuíno me disse o seguinte, como eu conhecia o Genuíno daqui, de Xambioá, eu fui falar com o Genuíno lá na época do Congresso Nacional, me apresentei como filho do Lourival Moura, ele me recebeu muito bem, na época, ele disse que se eu quisesse entrar na justiça para receber uma indenização pela morte do meu pai, ele iria depor ao meu favor, o que ele realmente fez. Enfim, ele me disse que se eu quisesse sair como deputado distrital, que ele iria me apoiar, foi besteira não ter aceito. Aí, eu conheci uma pessoa lá que eu chamava ela de tia e tal, era uma pessoa muito boa comigo, eu fui pela cabeça dela e sai pelo Prona. O Prona não tinha assim, uma estrutura eleitoral em Brasília. E eu sai candidato pelo Prona e não fui eleito, mas outra pessoa que saiu no meu lugar pelo PT, que era da Polícia Militar que também estava junto comigo na associação foi eleito e ele não tinha o apoio do Genuíno e naquela época, se eu tivesse saído, realmente, eu teria sido eleito deputado distrital.

 

P/1 – E como você veio pra cá de volta? Você disse que ficou 20 anos casado, como foi a sua volta para Xambioá, que nós estamos daqui a pouco, terminando…

 

R – Minha volta para Xambioá foi assim, como eu fiquei 30 anos, eu tive um conhecimento bom de vida, eu trabalhei no Corpo de Bombeiros por esse tempo e trabalhei por um aspecto social do Corpo de Bombeiros. Eu fui designado para trabalhar com a vice-governadora Arlete Sampaio na época do Cristóvão Buarque, eu fui designado para trabalhar na Câmara dos Deputados como assessor parlamentar do Corpo de Bombeiros, tudo que saísse sobre o militarismo, a gente tinha que colher aquelas informações e passar para o comando dentro de um documento e aí, surgiu no Corpo de Bombeiros, a ideia de fazer o bombeiro mirim, que foi implantado no Corpo de Bombeiros, era época do Coronel Oscar e saiu, enfim, essa programação e eu fiz parte desse grupo que trabalhou com o bombeiro mirim. Nós tínhamos cinco mil jovens de sete a 14 anos, e em torno de três mil pessoas da melhor idade. Então, foi um programa, um projeto social do Corpo de Bombeiros com um público do Distrito Federal e eu fiz parte desse grupo que trabalhou com essas pessoas. Trabalhei com implantação no Recanto das Emas com 300 crianças e 200 adultos. Eu era o responsável pelo projeto do Recanto das Emas na área de administrar o projeto em si no Recanto. Então, eu fiquei lá por três anos dentro do projeto e depois, eu sai porque é cansativo, né, eu voltei para o Quartel, porque a gente tava próximo de ir para a reserva, então eu tenho tudo isso em disquete, como é que funciona, como é que você monta, como é que você faz o procedimento do dia a dia e eu trouxe isso aqui para Xambioá e eu falei para a minha esposa… aí sim, eu separei em 2000 e comecei a vir aqui para Xambioá e conheci uma menina que hoje é minha esposa. Era uma garota na época muito bonita, a Ana Lúcia, professora, mais conhecida como Professora Ana Lucia, ela tinha 19, 20 anos e começamos a conversar e…

 

PAUSA

 

P/1 – Aí, a Ana você conheceu e se encantou?

 

R – Me encantei, né? E na época, ela era solteira, não tava namorando com ninguém, na verdade, aí eu comecei a me aproximar dela, muito difícil pra gente começar, porque ela escorregadia, não deixava a gente se aproximar direito, tal. Fui a Brasília, voltei no outro mês. Em 1996, minha mãe faleceu em Brasília. Eu vim, busquei minha mãe aqui doente, ela foi de avião comigo e alguns dias depois, ela faleceu e eu trouxe o corpo para ser sepultado aqui e foi onde eu comecei me aproximar mais da Ana e a gente começou a conversar e tal, mas eu já estava separado e começamos a namorar e ela foi a Brasília e eu vinha. Acontece que o pai dela veio a falecer em 2002 e ela fazia faculdade em Araguaína de História, quando ela terminou a faculdade, eu perguntei se ela queria ir para Brasília e ela aceitou e começamos a morar juntos. Somos casados hoje no civil, fui divorciado por muito tempo, casamos no civil e temos um filho de nove anos, Nicolas, lindo, maravilhoso. Enfim, eu vim com a intensão de trazer alguns projetos para ajudar a minha comunidade, eu só voltei… eu posso voltar para Brasília, eu tenho casa lá, mas eu gosto disso aqui, onde as pessoas precisam de um incentivo, mas eu acho que eu não fui compreendido no meu modo de ser, o meu jeito de ser, talvez, eu não tenha sido… passado uma mensagem do que eu queria trazer. Enfim, sai a candidato a vereador, perdi, não ganhei, mas não é por ter perdido que eu deixei de tentar fazer alguma coisa, tentei fazer com o IDAAV, fui presidente do IDAAV, que é uma ONG não governamental, Instituto para o Desenvolvimento do Araguaia Amigos da Vida e dentro dessa ONG, nós começamos a fazer um trabalho dentro das escolas, mostrar para as pessoas a fundamentação da preservação do meio ambiente, principalmente nas praias, a retirada de areia, eu tive problema com pessoas tirando areia na praia do Murici, na praia da Gaivota, então quer dizer, você começa a ter inimigos nesse ramo, porque as pessoas dizem isso também, só que elas não sabem que elas têm que preservar o meio ambiente para que ela tenha também como ganhar dinheiro e ela pode não tirar na areia da praia, pode tirar no leito do rio, outros lugares. Então quer dizer, para você colocar isso na cabeça das pessoas é muito difícil e começa a ter inimizades. Enfim, daí eu parei de trabalhar nesse sentido, fizemos aqui arborização da rua que hoje é o Colégio Malinski, trabalhei ali com aquelas árvores, plantamos as árvores ali na época em que a Dona Ione era prefeita através da minha ONG, hoje só tem algumas árvores e eu coloquei vigia ali para não deixar as pessoas arrancar aquelas árvores. Eu cansei de ficar à noite sentado em bancos ali para não deixar os garotos que ficavam brincando arrancar aquelas árvores, tem algumas hoje lá, não tem? Pouquíssimas.

 

P/1 – Rui, quando você veio para cá, você já tinha se aposentado do Exército?

 

R – Sim. Eu já era… já tinha passado para a reserva, eu fui para a reserva em maio, junho de 2009. Julho de 2009 eu já estava morando aqui. Então quer dizer, eu…

 

P/1 – E não saiu mais daqui? Continuou…

 

R – Não, não saí mais daqui, continuo morando aqui, mas eu tenho uma previsão agora, quando o Nicolas começar outra fase de colégio, nós vamos voltar para Brasília. A pretensão minha e da Ana voltarmos com ele, até porque eu quero que ele ingresse no colégio militar, que nós temos um colégio militar lá em Brasília do Corpo de Bombeiros que foi considerado pelo MEC lá em Brasília, o número um em educação. Então, eu quero que o Nicolas tenha essa educação. E eu acho primordial você ter respeito e hierarquia, disciplina nesse sentido, né, de vida, porque é um grande ensinamento o colégio militar.  Eu gosto de Xambioá, adoro isso aqui, essa foi a minha vida, andar no pedral, pescar, viver aqui, daqui para Ilha de Coco, eu sei cada pedra que tem daqui pra lá, eu coloquei nome em algumas pedras, Cansa Braço, tem a Pedra do Cansa Braço, que fui eu que coloquei, Pedra da Corvina, Pedra da Pacu São Pedro, então quer dizer, Pedra do Jau, eu conheço tudo isso aí, Carrera Comprida, Tortim, então quer dizer, eu conheço tudo isso aqui, isso aqui foi a minha infância, gosto disso, adoro esse rio, aqui é um rio que é uma dádiva de Deus que proporciona muita gente, o pão do dia a dia, a sua família, sustenta muita gente até hoje. Pena, a grande pena e o que eu sinto muito é que as pessoas não respeitam o rio, não respeitam o período de Piracema, os caras que recebem o dinheiro hoje pode ser feito uma denuncia nesse sentido, mas o governo não faz nada para inibir essa pesca predatória na época da Piracema e as pessoas que recebem esse incentivo, alguns continuam a pescar nesse período que é um desastre e a gente não pode ficar batendo forte porque se cria mais uma gama de inimigos por causa disso. Então quer dizer, as pessoas, realmente, elas não têm o discernimento do que é bom ou o que é ruim, eu acho que deveriam ter. Mas enfim, Xambioá é um lugar bom de se viver, um lugar pacífico, pacato, pessoas boas, pessoas que têm um coração muito grande, são prestativas. Hoje, nós já temos assim, um fluxo muito grande de drogas que pode ser combatido, pode ser revertido, mas é complicado.

 

P/1 – Rui, só pra gente fechar, você falou do Genuíno, só para fechar inclusive com o tema do Araguaia, você falou do Genuíno, você conhecia essas pessoas frequentavam a sua casa?

 

R – Na verdade, o Genuíno, quando ele veio para cá, a história dele começou em Fortaleza, ele era líder sindical na faculdade de Filosofia e ele foi perseguido e o PCDB achou por bem traze-lo para cá, na época que o João Amazonas era o líder e o Genuíno foi trazido para cá, só que quando ele chegou aqui, o Exército já estava na região, não como Exército, mas disfarçado, já tinham pessoas do Exército, tinham cidadãos aqui que eu não me retorno, se não me fala a memória, você deve saber, ele vendia alho aqui em Xambioá e ele era tenente do Exército, ele já estava trabalhando na região, conhecendo as pessoas. E nesse período, o Genuíno foi lá para baixo, ali, onde era o lado do Osvaldão e ele foi pego… foi o primeiro camarada a ser pego na guerrilha, então ele não teve tempo de visitar ninguém, não teve tempo de conhecer quase nada aqui, ele foi por acaso, que a polícia militar o prendeu. Aí depois disso que o pessoal do Exército chegou para cá. Aí, ele foi preso…

 

P/1 – Ele nem veio para fazer parte da guerrilha?

 

R – Ele? Ele veio para fazer parte dos acampamentos…

 

P/1 – Do movimento?

 

R – Do movimento. Ele veio se escondendo lá de Fortaleza, onde ele estava sendo procurado lá, né, então, ele já veio para se esconder realmente aqui, porque eles achavam que aqui era um lugar legal, era uma mata virgem. Isso aqui tudo era uma mata, você olhava, você não via nada. Então, quando nós íamos a São Geraldo a cavalo ou a pé, a mata era escura, cinco horas da tarde era noite dentro da mata, era muito escuro, então…

 

P/1 – E o Osvaldão? Você chegou a ver alguma vez?

 

R – Conheci o Osvaldão, ele ia na minha casa, chegou a ir na minha casa…

 

P/1 – Ele não era morador daqui?

 

R – Não.

 

P/1 – Ele era de fora, de onde ele era?

 

R – Ele era de Minas Gerais, só que ele trabalhava no Rio de Janeiro, ele foi das Forças Armadas, do Exército, era boxeador, foi para Cuba, Tchecoslováquia fazer curso e tal e depois, veio para cá.

 

P/1 – O quê que você lembra dele, apesar de você…

 

R – Um cara muito simpático, grande, bem grande, eu era pirralho, eu ficava no joelho dele, praticamente, ele era bem grande, forte, muito forte, os dentes perfeitos, eu achava legal quando ele sorria, a dentição dele era muito clara, muito bonita. E era um cara muito bom, era um cara tranquilo, nunca vi o Osvaldão bravo com ninguém…

 

P/1 – Mas ele convivia aqui com as pessoas?

 

R – Sim, convivia muito.

 

P/1 – Além da casa do seu pai, ele ia em outras casas?

 

R – Lugar que ele ficava quando ele vinha aqui era lá no Pedrinho Baiano, hoje, tem as Avoadeiras ali, ali em frente era uma pensão da Dona Rosinha e do Pedrinho Baiano, se não me falha a memória, Rosa e Pedrinho baiano, né? E ele ficava geralmente naquela pensão, mas quando ele vinha ou subia com o meu pai ou com o Joaquim Borges. Quando o meu pai não estava ou porque meu pai ficava em Marabá ou algum lugar ali na roça, ele já subia direto, já ia para o hotel, ali e de vez em quando, ele saía daqui, viajava, não sei para onde ele ia, se ele ia para São Paulo, não sei para onde, mas ele passava algum tempo fora, depois retornava. Ia para Gambeleira que era o lugar que eles ficavam.

 

P/1 – Você lembra de alguma conversa dele, mais para…

 

R – Não.

 

P/1 – Para saber se você lembra do jeito que ele era, o jeito que ele falava…

 

R – Olha, como naquele tempo, eu não podia participar de conversa de adulto, menino não podia participar da conversa de adulto, quando nós chegávamos perto de adultos: “Por favor, retire-se”, então era assim que a criança era tratada naquele tempo, não participava da conversa de adulto.

 

P/1 – Lembra da imagem da pessoa?

 

R – Só da imagem dele, de conversar pouco com a gente, conversa dele era pegar a gente, colocar no barco e tal, tirar, ajudar, por exemplo, se nós chegávamos lá em casa e tinha que descarregar alguma coisa, era o primeiro a ajudar, né? Então, o que eu me lembro dele era isso. Ele conversava muito com o meu pai, por exemplo, eu fui umas duas vezes até Itaguatins, com o meu pai de férias e cheguei a vê-lo no barco até na Gambeleira, lá na Santa Cruz, por ali, ele descia naquela região, mas ele ficava conversando com o meu pai lá no toldo que é a guardiola onde pilota o barco, no leme. Meu pai ficava no leme e eles ficavam lá conversando e eu não podia participar da conversa, então quer dizer, hoje é tudo diferente, né?

 

P/1 – E o contato dele com o seu pai era principalmente por causa do transporte?

 

R – Do transporte, era o que eu achava, né, hoje se diz que o meu pai participou ativamente da guerrilha, ajudava realmente, ativamente o pessoal da guerrilha e eu não acredito nessa versão até porque tem que provar para que eu acredite nisso. Saiu um dado interessante aí de um jornalista que o meu pai foi preso na cozinha do Exército aqui na base de Xambioá tentando envenenar, pelo conhecimento químico dele que ele tinha, envenenar a comida dos soldados. Ora, é muita loucura o cara pensar isso, cinco mil homens aqui na base, meu pai passar despercebido até a cozinha? É brincadeira! Como? Quer dizer, não tem lógica. Isso não entra na minha cabeça, não funciona. Então, quer dizer, meu pai foi preso pelo simples fato de ser o camarada que tentava ganhar a vida transportando pessoas e vendendo alimentos, gêneros alimentícios e gêneros de um modo geral nas comunidades ribeirinhas. Então, meu pai foi preso por isso. Na época, tinham cinco mil homens, meu pai jamais teria condições de adentrar num acampamento daqueles. Se você tivesse na época aqui, você tinha que saber a dificuldade de ir para o acampamento ali, na base, era muito difícil. Para você chegar no buracão que era chamado onde você colocava os presos, você não chegava perto do buracão, você não chegava. Os caras lá dentro, no sol quente com arame farpado, você não ia até lá próximo do buracão, não tinha condições.

 

P/1 – Eles prendiam as pessoas ali?

 

R – Sim, prendiam as pessoas ali. Então, você não ia no buracão. O que você ia era até a barraca dos oficiais para ser interrogado que foi o meu caso. Enfim, entrei na Justiça pelo o que eu sofri, recebi uma indenização, sou anistiado político por isso, recebo alguma coisa do governo por ter sofrido o que eu sofri na época com 15 anos de idade. Quem me anistiou foi Eduardo Cardozo em nome da Presidente da República e eu entrei na Justiça tem muito tempo e a indenização do meu pai eu ainda não recebi, até porque eu achei irrisória, o que o meu pai perdeu, o que eu perdi em relação à morte do meu pai e a minha mãe perdeu, aí eu recorri na esfera federal e não na esfera de anistia política, então estou aguardando ser anistiado político pela esfera federal, que é outro valor, estamos contestando valor, o Estado Brasileiro já entrou com duas causas protelando essa minha petição, nós estamos na terceira instância e eu espero que eles paguem agora. Não podia deixar passar batido, até porque o conhecimento que eu tenho hoje, eu acho que você não tem que deixar os seus direitos, você tem que correr atrás dos seus direitos, seus direitos são adquiridos, é você que conquista. Então isso você não pode deixar passar batido. E eu fui anistiado, eu, Ruiderval Miranda Moura sou anistiado político pelo o que eu sofri na época da guerrilha, ok?

 

P/1 – Rui, a gente tá terminando, você quer falar mais alguma (corte no áudio) agora no final pra gente concluir, deixar registrado?

 

R – Não, eu queria dizer assim, que fui um cidadão, fui um garoto, uma criança, um garoto que sofreu muito na vida. Hoje, as pessoas acham que eu sou arrogante, que eu sou prepotente, mas não sabem o que eu sofri e o que eu sofri para ser o que eu sou e ter o que eu tenho. Eu digo assim, que o homem tem que buscar aquilo que ele quer, ele tem que ser aquilo que ele é e não o que os outros falam que ele é. Eu me decepcionei muito com as pessoas de Xambioá, não com todas, com algumas, até por me julgarem, mas não me conhecem. Eu acho que antes de você julgar alguém, você tem que conhecer aquela pessoa para saber o tamanho do seu coração, da bondade ou da maldade do coração dessa pessoa, se realmente aquilo que você pensa ou não, para que você o julgue. Aí quando você tiver realmente algo concreto sobre aquela pessoa é que você deve defini-lo como ser humano do bem ou do mal. Então, e uma crítica, talvez, que eu faça com algumas pessoas daqui da minha cidade e tenho respeito por todos, tenho respeito por todos. Gosto muito de ser… por isso que ainda estou morando aqui, porque pela minha esposa, nós tínhamos voltado para Brasília, mas como eu tenho raízes aqui, meus avós foram sepultados aqui, minha mãe, minhas tias, né, então eu estou com raízes fincadas aqui. Gosto muito disso aqui. Mesmo que eu volte de onde eu vim, eu vou continuar vindo aqui de ano em ano, para passar o mês de julho, para ficar as minhas férias aqui com o meu filho, porque eu adoro isso aqui, eu pesco muito com ele, ando com ele de lancha, vou pescar ali no pedral ali com ele e digo para ele: “Seu pai conhece tudo isso aqui, seu avô conhecia como ninguém isso aqui e isso é a sua vida. O que eu tenho aqui é seu. Quando você tiver adulto, faça disso bons frutos, porque eu lutei para conseguir o que eu tenho”, então eu só gostaria também de dizer a você que para mim, a minha mãe foi muito forte, quando ela tomou a decisão de não querer sepultar o meu pai aqui, até porque enfim, ela foi enganada por muito tempo e quando ela descobriu, ela caiu na realidade, porquê que o meu pai demorava muitos dias em Marabá, pra subir com o barco, voltar. Então, quando ela caiu na real, ali, que ela soube que o meu pai tinha uma outra família em Marabá, hoje, eu vejo, que ela foi muito forte e depois, o pessoal do Exército veio querendo vender o barco, ele tinha uma farmácia em Marabá, não em Marabá, em São Domingos que é onde a família dele mora, eles se comprometeram com ela para ir lá e vender e trazer e repartir, ela falou: “Não quero nada dele, acabou”. Pra mim, foi uma lição de vida da minha mãe, muito forte, entendeu, e um grande exemplo, grande exemplo de mulher, uma mulher guerreira que tentou me dar o melhor e graças a Deus, eu consegui sobreviver também de tudo que eu sofri, de tudo que eu passei, porque talvez, tudo está escrito nas estrelas, mas Deus faz tudo certo, escreve certo em linhas tortas. Então, o que aconteceu comigo já estava previsto, né, e hoje eu sou um sobrevivente da história. Agradeço a você também por estar me dando essa oportunidade de contar essa história da minha vida e as pessoas que me apoiaram, minha tia Laide que foi a grande incentivadora da minha saída daqui de Xambioá também, junto com a minha mãe, e toda minha família, família de um modo geral. Hoje, os meus filhos que me adoram, moram em Brasília e para não fugir a regra, eu tive dois filhos fora do casamento, hoje, minha filha é medica outro é engenheiro e enfim, a gente tá aí, eu já tenho uma família grande ao meu redor.

 

P/1 – Muito bom. Pra nós também, muito obrigada pela sua história, não é João Manuel? A gente aprendeu muito, né? Você quer falar para ela alguma coisa? Que a gente já terminou. Quer perguntar alguma coisa?

 

P/2 – Não, gostaria só de falar… assim, como você disse, você ainda voltou para Xambioá, isso quer dizer que os seus sonhos por aqui não morreram, não?

 

R – Jovem, eu te digo assim, agora mesmo eu estava falando com vocês, eu tenho um projeto para Xambioá tendo em vista ainda o fogo das Olimpíadas, eu vi aquele jovem pobre que mora na margem do rio, ganhou três medalhas nas Olimpíadas com canoagem. E a Nossa ONG continua ativa aqui em Xambioá, IDAAV – Instituto do Desenvolvimento do Araguaia Amigos da Vida e ele é bem abrangente e ela está em pleno funcionamento, até por isso, eu sou presidente do conselho municipal de assistência social através da nossa ONG, eu sou voluntário para você ver o tanto que eu gosto de Xambioá, eu sou voluntário no conselho municipal há quatro anos, trabalho ajudando as pessoas, fiscalizando os gastos das verbas públicas, para que essas verbas não sejam destinadas para as coisas que não são realmente para que ela veio. Faço parte do conselho com vocês, este conselho que você pertence, faço parte do conselho antidrogas, então quer dizer, eu tenho que tentar trazer para Xambioá algo que seja bom, benéfico para a comunidade, eu gosto disso aqui, então como eu te disse, através da minha ONG, eu ainda quero trazer a canoagem para Xambioá, eu quero colocar jovens aqui de Xambioá e jovens de São Geraldo que eu sei que têm um potencial grande, principalmente, aqueles que gostam de pescar, que sabem remar que vão trazer, realmente, um incentivo muito grande para os outros jovens. Eu vejo que a nossa juventude, hoje, precisa de um socorro, a juventude grita por alguma coisa pra fazer alguma coisa e não tem. Então, eu quero tentar dar mais essa oportunidade, me dedicar um pouco mais se nós conseguirmos aí verba para isso, ok? Quero trazer a canoagem para Xambioá através da nossa ONG e com a participação de todos, claro, todos que puderem ajudar serão bem-vindos. Tem uma chácara aqui que se chama Cinzeiro e lá, nós estaremos dispostos a acolher esses jovens que irão participar, se possível for, dessa escola de canoagem lá. Vamos fazer estaleiro, vamos fazer local para guardar o material, local para fazer Educação Física, local para fazer os remos, porque lá nós temos lugar para remar, então quer dizer, é lá que eu quero fazer isso. Tá certo?

 

P/1 – Muito bem…

 

R – Eu não estou desistindo do povo de Xambioá, não estou desistindo da minha cidade. A gente fica frustrado, mas isso pode passar, com um novo incentivo, você volta à tona novamente. Eu preciso me doar para que as pessoas aprendam a se doarem também, tá certo?

 

P/1 – Muito bom. Fechamos bem, né? (risos) Obrigada Rui pela sua história, foi muito bom.

 

R – Estou à disposição.

 

FINAL DA ENTREVISTA

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