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História

Um amigo de longa data: Vladimir Herzog

História de: Luiz Weis
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 23/06/2020

Sinopse

Em seu depoimento, Luiz Weis relembra momentos marcantes da vida e morte de Vladimir Herzog, de quem Luiz foi amigo desde a adolescência, fala sobre a mudança de posicionamento politico de Vladimir após cobrir a passagem de Sartre no Brasil, aborda também o cotidiano dos jornalistas após a morte de Herzog.

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História completa

Bancos escolares

Que ele tinha feito ginásio no outro [colégio] Roosevelt, no São Joaquim, e veio fazer o colegial, isto é, científico, e eu no clássico, no ginásio do estado à noite. Estudávamos à noite, eu trabalhava num banco de dia, no Banco de São Paulo, que não existe mais, mas era também um prédio lindo que virou Secretaria de Turismo, justamente no largo Almeida Prado, Antônio Prado ou Almeida Prado. Era todo art nouveau, era uma coisa maravilhosa, e acho que foi conservado. Mas o que virou? Virou que eu tive um professor de Filosofia – ah, sim, você tinha Filosofia no terceiro ano do colegial, no terceiro ano do clássico, imagino que tinha também no terceiro ano do científico. Ele chamava Mário – ele chamava porque morreu, morreu jovem; chamava Mário Leônidas Casanova, trabalhava, era filósofo, era professor de Filosofia formado pela USP, a paixão dele era samba e ele escrevia sobre isso, ele trabalhava no [jornal] “Estado de S. Paulo”. Este cidadão foi responsável por duas coisas em minha vida e na vida do Vlado. Fomos os dois fazer Filosofia – havia uma diferença de um ou dois anos, ele estava um ano na minha frente. [Fiz] vestibular, minha primeira vez que entrei na faculdade não foi em Ciências Sociais, foi em Filosofia, e graças ao Mário Casanova eu pisei pela primeira vez no “Estado de S. Paulo”, na redação, ele tinha indicado: “Vocês vão lá, me procurem que eu apresento vocês ao chefe de reportagem”, que era o Perseu Abramo. A segunda coisa ficou para o resto da vida; a Filosofia dançou logo, eu larguei, não era minha praia, definitivamente não era. Eu logo de cara tive aquele choque cultural, eu não sei como é hoje, mas era brutal o choque entre o colégio e a faculdade. Eu nunca tinha ouvido falar em trabalho de aproveitamento na minha vida, aí chega o [José Arthur] Giannotti, no primeiro dia, e diz: “Bom, trabalho de aproveitamento!”. Ele ensinava Lógica, era um terror, um terror, ele achava que a gente ia passar 24 horas estudando não Filosofia, [mas] Lógica. E aí veio um professor de Filosofia Grega, todos pré-socráticos, a gente tinha [não entendia] direito, e enquanto isso eu estava começando no jornal, o contraste, a paixão. Eu desisti, eu abandonei o curso de Filosofia e voltei, aconselhado pela irmã do Dirceu Brisola, que era uma moça pela qual muitos tiveram grandes paixões, Vera Brisola, que não sei o que é feito dela, e ela insistia muito comigo: “Sai dessa coisa de Filosofia, vem para as Ciências Sociais”. E o Perseu Abramo: “Olha, faz faculdade, vai lá, Ciências Sociais é uma boa, faça isso, faz, mas não fica só em jornal”. Aí eu voltei, mas eu acho que a cronologia está escorrendo pelos dedos.

 

Cerco fechado

R- Espera um pouco, estamos falando de caças diferentes. Uma era a caça [havida] depois da eleição de 1974 e do esmagamento da luta armada, da resistência armada: a ditadura voltou-se contra o Partido Comunista porque isso fazia parte daquele conflito que opunha o [general] Sylvio Frota ao Golbery e ao Geisel. A ideia da ultradireita era mostrar que havia um conluio entre MDB, Igreja e o Partido Comunista, o que tinha dado na vitória eleitoral [da oposição] de 1974. Então, há duas caças. Aí começa uma caça aos comunistas, e aos jornalistas comunistas. E o primeiro nome que me vem, e que sofreu horrores, horrores: Marco Antonio Coelho. E a outra caça que começou contra o jornalismo da TV Cultura, com aquele pústula do Cláudio Marques escrevendo no “Shopping News”, e aquele outro pústula, aquele deputado Wadih Helu, na Assembleia Legislativa, da Arena. Enfim, denunciavam que aquele era um ninho de comunistas, porque tinham passado um documentário sobre o Vietnã. Essa história toda, não acho que eu preciso entrar em detalhes, porque ela é mais do que conhecida e tal.

No plano pessoal, nesse momento, eu tomei duas iniciativas de comum acordo com o Vlado. Numa, eu fui ao “Estadão” e levei o problema para o diretor de redação, na época era o Fernando Pedreira. “Olha, sabe, vocês precisam atentar para o que está acontecendo, nós estamos sendo vítimas de uma caça às bruxas, não tem nada, estamos fazendo jornalismo dentro [das regras do jogo], estamos tentando fazer um trabalho decente, mas não é um ninho de subversão, não é nada.” E eu fiz uma segunda coisa, que eu preciso contar antes um pequeno episódio. O Vlado, numa tentativa com a qual eu compartilhei: “Vamos fazer uma série, vamos fazer um pouco de média com o governo federal”. Então, pela primeira vez, foi uma equipe da TV Cultura, aliás, não foi uma equipe, fui só eu, porque não tinha dinheiro, nós íamos usar imagens da TV Educativa de Pernambuco para cobrir um evento qualquer do Geisel. Era a inauguração de uma coisa ligada a petróleo, me lembro que estava o Shigeaki Ueki, que era nosso ministro de Minas e Energia, e foi lá que eu conheci o Humberto Esmeraldo [Barreto], que era o secretário de Imprensa da Presidência, o filho adotivo do Geisel. Quando a coisa começou a ficar preta aqui em São Paulo, eu tive uma ideia e disse: “Vlado, eu vou para lá, vou para o palácio [do Planalto]. Vou falar com o Humberto Esmeraldo para ele levar para o governo”. E fui, fui recebido, contei a história a ele. Ah, sim, apareceu um general também: a primeira coisa que esse cara fez foi pegar meu nome, RG, filiação, data de nascimento, porque queria checar a ficha. Mas, enquanto isso, até expliquei, apontei lá para o Humberto: “Olha, está acontecendo isso e isso e isso, todo domingo esse Cláudio Marques está escrevendo, e coisa, mas nada é verdade, nós não somos... tal tal tal, tal tal tal”. “Não se preocupe, isso é” – como é que é a expressão? – “isso é coisa paroquial, não tem nada. Volta lá, vai para o seu trabalho, não tem problema nenhum.” Quer dizer, a TV Cultura e seu jornalismo não estavam sob ameaça, era uma coisa paroquial. Assim ele desqualificou o problema, não dava importância. “Vai trabalhar”.

Paroquial, né, amigo? Pouco depois, era secretário da Cultura o José Mindlin, quando nós fomos chamados, o Vlado e eu, pelo Mindlin, mais contrafeito, mais constrangido do que se possa imaginar, ele diz: “Nós estamos com um problema. O SNI verificou” – eu não sei se ele falou, mas, enfim, verificou, não sei se era o SNI – “que você é dirigente sindical, você é indemissível, tem estabilidade, e chegou-se à conclusão que a TV Cultura não pode, dadas as circunstâncias, não pode ter, ainda mais numa função de seu segundo homem do jornalismo, o redator-chefe dos telejornais, um dirigente sindical.” Então era para eu me demitir. Eu me demiti, uma coisa traumática para mim. Era a ideia de eu ser o boi de piranha; eu seria, mais nada. Aí eu fui para a “Veja”, pedi emprego na “Veja” e me deram emprego. O chefe de reportagem era o Luiz Cláudio Cunha, um sujeito formidável, falou com o Mino Carta, que era o diretor [de redação], e fui trabalhar na editoria de Política, [cujos] editores eram o Marcos Sá Corrêa e o Almyr Gajardoni. Eu estava na noite lá quando vieram pegar o Vlado, na TV Cultura. Na mesma noite, eu estava morando sozinho na época, com uma empregada, por sorte eu estava no fechamento, aqueles fechamentos horrorosos da “Veja”, que terminavam quatro, cinco da manhã. Aí toca o meu telefone, e eu já sabia que o Vlado tinha sido procurado na TV Cultura e que tinham feito um acerto para que ele se apresentasse na manhã seguinte, 25 de outubro, no sábado. E àquela época já tinham sido presos todos os meus amigos, quer dizer, o [Paulo] Markun, o George Duque-Estrada, o Anthony de Cristo, o Rodolfo Konder, enfim, todos jornalistas que efetivamente formavam uma basesinha do Partido , cuja importância era zero à esquerda. Nós nos limitávamos a receber o [jornal] “Voz Operária”, conversar um pouco e tocar a vida. Era uma coisa pouco mais que nominal. E na sexta-feira de madrugada, estou lá trabalhando, a empregada me liga e diz: “Olha, vieram umas pessoas aqui, disseram que acharam seus documentos, perguntaram pelo senhor, vieram entregar os seus documentos que o senhor perdeu”. Falei: “Tudo bem, faz uma coisa, você é de Minas, não é? Então vai embora, vai ver sua família, tira uma semana, vai embora assim que amanhecer”. E aí, bom, eu voltei para casa acompanhado de pessoas para ver se tinha algum problema, mas só para trocar de roupa. [Era na] rua Ministro Rocha Azevedo, morava numa vila, entre a Oscar Freire e a Lorena, do lado esquerdo de quem sobe. Essa vila existe até hoje, ao lado do que é hoje o supermercado Pão de Açúcar. Eu não fiquei lá, peguei minhas coisas e fui para a casa de um amigo, onde fiquei.

Lembro-me que no meio da noite, de sábado para domingo, eu estava com tranquilizantes, estava meio grogue, mas eu vi, sabia que era de madrugada, eu vi tocando a campainha, gente chegando, falei: “Pô me acharam aqui, dane-se”. Eu sei que apaguei na hora. De manhã, quando eu acordo, meu amigo está lá, é um publicitário, ele olha para mim: “Ô Weis, você vai ter que ser muito forte agora. Mataram o Vlado”. E aquele barulho todo de madrugada era gente que tinha vindo contar. Bom, a história, a partir daí, [era] mais um motivo para eu continuar fora de circulação. Eu acho desnecessário falar das emoções, é um tanto quanto óbvio, como é que você fica: você fica aterrorizado pelo que possa acontecer contigo. Você fica querendo comer o fígado de todo mundo, lógico, uns filhos da puta, e evidentemente você pensa no teu melhor amigo, porra, nos filhos, no Ivo, no André, na Clarice que foi tua colega de classe e a quem você apresentou para o Vlado. É um impacto, é o dia mais trágico da minha vida. Nada que se compara, lógico.

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