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História

Um acidente, uma mudança radical

História de: Damaris Germana Roberto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/01/2021

Sinopse

Infância feliz ao lado da família. Acidente que tira a vida de sua mãe e irmã. Mudança radical de sua vida. Igreja. Racismo. Encontro com o movimento negro. Casamento. Filhos. Realização de ver seus filhos formados na USP.

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História completa

Sempre gostei muito de estudar, então era aquela coisa, lá em casa a mamãe sempre dava um jeito de estar passando as coisas para nós. No primeiro dia, eu fui bela e feliz para a escola. Eu lembro até o nome da minha primeira professora, Nilza. Foi gostoso demais entrar na escola. Foi gostoso entrar na escola, foi gostoso começar a ler, porque quando nós começávamos a ler, nós ganhávamos um livro. E ganhar um livro, queria dizer que você tinha cumprido uma etapa. Foi tudo muito bom. Lembro perfeitamente da minha escola, da minha felicidade em ir para a escola e de tudo que aconteceu lá.

[Mais tarde], eu saí da escola da Vila Gustavo e fui para uma na Vila Brasil mesmo, que se chamava Escolas Agrupadas do Jardim Brasil. Qual foi o diferencial dessa escola? A minha professora negra, dona Maria Tereza. Era muito bom ver aquela professora lá. Eu ainda não tinha nem ideia do que viria a ser essa luta de empoderamento da mulher negra, mas ter a professora Maria Tereza naquela época como minha professora, fez toda diferença. Ela era uma professora muito atenciosa.

Minha irmã faleceu em um acidente. Minha mãe sempre foi uma pessoa de ajudar as outras pessoas, e não só a nossa família. A minha prima havia feito uma cirurgia, e na época morava perto da estação Ana Rosa, do metrô. Minha mãe foi lá fazer o curativo, porque ela não conseguia fazer sozinha, levou meu irmão Eli e minha irmã Dorcas, e deixou em casa eu e o Silas, porque meu pai estava fazendo Madureza nessa época (que depois se chamou de Supletivo e hoje é Educação de Adultos). Na volta, desse curativo que minha mãe foi fazer, elas foram atropeladas. Minha mãe morreu na hora do acidente, meu irmão Eli não sofreu nenhum arranhão, e minha irmã Dorcas morreu também, mas assim, um dia depois da minha mãe. Nós fizemos o sepultamento das duas no terceiro dia. Minha mãe faleceu na quarta, minha irmã na quinta, e na sexta nós fizemos o sepultamento das duas.

Nessa semana de maio, do falecimento da minha mãe e da minha irmã, também foi o falecimento da minha bisavó, então foi uma semana muito, muito triste para nós. A minha bisavó estava internada, teve derrame, ficou lá internada, e, enfim, nós sabíamos que ela poderia voltar para casa, mas que também poderia falecer, e ela faleceu no dia 12 de maio. No dia 13 de maio, nós enterramos a minha bisavó, e ela morreu com 112 anos. E, na quarta-feira, foi a minha mãe, na quinta-feira foi minha irmã, e na sexta-feira o sepultamento das duas, então imagina, foi como se tivesse passado um rolo compressor em cima de mim.

É sempre aquela história, porque as pessoas sempre cobraram muito das mulheres, uma cobrança horrorosa. Às pessoas começaram, apesar também de todo o carinho do meu pai, a me colocar como a mulher responsável pela casa e pelos meus irmãos, por conta de eu ser a mais velha.

Todas as pessoas na minha época que eram mais velhas, tinham essa responsabilidade. Só que ela foi potencializada, e eu tinha só 15 anos. Eu tinha recém terminado o meu Ginásio, que era como se chamava o Ensino Fundamental. Foi ruim, porque aí começou a minha saga, porque até então era tudo alegria na minha infância e na minha pré-adolescência - que nem tinha essa divisão. Minha infância foi maravilhosa, mas a partir dos meus 15 anos, comecei a ter uma carga muito grande.

Começou com o que? Começou com o fato de que precisei parar de estudar. Naquele desejo de entrar no colegial, eu fiquei para trás. Eu vi meus irmãos  entrando. Ficou para trás, e por que? Porque eu tinha que dar conta das coisas de casa, eu era levada ao médico e comecei a levar as pessoas ao médico, os tratamentos que meus irmãos faziam, meu pai me ensinou como chegar nos lugares, e eu comecei a levar. Como ele iria faltar no serviço para levar? Não tinha como, era eu. Veio a sobrecarga e eu comecei uma trajetória difícil, mas tudo serviu de aprendizado.

Como já falei, sou cristã protestante e sempre frequentei a igreja Presbiteriana, então tinha as coisas da mocidade daquela igreja... Como posso dizer? Eu quero ser verdadeira, sem ser grossa. Você esbarra na história do racismo institucional… E tem! Se existe um lugar que tem racismo institucional, é dentro das igrejas, sejam elas quais forem. Eu esbarrei muito nisso, até chegar em uma época em que eu estava em um congresso e ouvi uma pessoa dizer que… Eu ouvi mesmo, estava literalmente atrás de onde estava sendo comentado. Era uma época em que teria eleição para uma nova diretoria, e alguém estranhou o meu nome não estar em nenhuma das chapas que iriam concorrer. E aí, eu escutei uma pessoa que não vou citar o nome, porque é viva ainda… Homem branco, lógico, isso eu preciso falar. "Mas e cadê a Damaris?", "Não, a Damaris, não. A Damaris não terminou o colegial, a Damaris é mulher, e está fora dos padrões da juventude atual", e eu estava bem atrás. Só que em tudo isso, ninguém viu porque eu não tinha concluído o meu colegial, ninguém viu a minha história de vida. E não é que não soubesse, não viu mesmo! Não viu a minha história lá naquela semana horrorosa, do quanto doeu, tudo foi passado.

A partir daquele momento, eu comecei a enxergar a história de que eu seria sempre colocada para trás. Foi bom e ao mesmo tempo, foi decepcionante. Por outro lado, eu consegui forças… Porque assim, eu tropeço (risos), levanto, caio, sorrio e começo de novo. Eu descobri o que nesse tempo? A existência do movimento negro. Eu descobri, porque descobri jovens, e um grupo de estudantes negros que iriam fazer um congresso em São Paulo. Foi dito, e lá estava eu. Lá eu descobri pessoas negras, estudantes, e cada vez que era descoberto que um não tinha escolaridade, puxavam para que ele viesse, completasse de onde parou e fosse à caminhada. Então, facilitou essa capacidade de diálogo que eu tinha com a juventude e me alegrou estar no meio desse novo grupo. Também foi difícil. Por que foi difícil a caminhada neste grupo? Hoje têm grupos de negros até em partidos, enfim, mas não naquela época, era só no movimento social. E não era comum uma negra protestante no movimento, mas eu consegui ficar e tenho amigos daquela época até hoje. Foi lá que eles impulsionaram a caminhada de cada um, para sobreviver e ter um futuro diferente. Eu voltei pela primeira vez a estudar. Voltei, e depois acabei parando, porque casei, e optei por parar. Depois, só voltei aos 50 anos, como te disse.

Nessa caminhada de juventude, foi que conseguimos sonhar as coisas que estamos vivendo hoje. Sonhamos com um número maior de - isso no final na década de 1980, em 1988, 1989 - de negros estudando.
E aí, quem estava por trás de nós? Os nossos familiares. "Se nós tivermos filhos, vamos conseguir colocá-los aí? Pode ser que sim, mas vai ser difícil, então vamos lutar para que eles consigam estudar e entrem em universidades públicas". Esse movimento hoje que você vê dentro das universidades, que em quase todas elas tem o grupo de jovens negros e o núcleo dos negros, fazendo a coisa da política pública acontecer lá dentro, nós fizemos antes, só que fizemos de fora para dentro, sonhando que um dia tivesse de dentro para fora, e tudo isso aconteceu. Nós sonhávamos que os nossos filhos pudessem entrar na universidade pública. Eu tenho muito orgulho de dizer que tenho um filho formado pela Universidade Federal de Pelotas, e uma filha formada pela USP.

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