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História

Um acaso na ponte

História de: Sebastião Augusto de Freitas
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/08/2011

Sinopse

Sebastião, também conhecido como Tião Paineira, é um grande contador de causos. Conta sobre sua infância na cidade de Tiradentes (MG), de sua vida simples e da presença marcante de seu pai e seu avô, de quem acabou herdando a profissão de oleiro e o gosto por contar boas histórias. Sebastião lembra saudoso de como conheceu sua esposa, grande companheira da sua vida, com quem ficou cinquenta e nove anos casado e teve nove filhos, dez netos e uma bisneta. Ele também conta que ainda trabalha, fazendo cerca de quatrocentos passarinhos de barro por semana. 

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História completa

P/1 – Então Seu Tião, eu vou começar perguntando, eu sei que o senhor já me falou... Seu nome completo, sua data de nascimento e o local onde o senhor nasceu.

 

R – Pois é. Em vinte e três de abril de 1928.

 

P/1 – E qual o seu nome completo?

 

R – Sebastião Augusto de Freitas.

 

P/1 – E em que cidade o senhor nasceu?

 

R – Em Tiradentes. Cidade velha e histórica.

P/1 – Está certo.

 

R – Eu nasci e me criei lá, mas eu casei na cidade vizinha de Barroso.

 

P/1 – Vamos começar um pouquinho antes. Como é que se chamavam seus pais?

 

R – Meu pai assinava Paineira. José Paineira Filho. Que o vovô quando nasceu trouxe apelido. Mas o vovô era José Augusto de Freitas. Meu pai colocou o apelido. José Paineira Filho.

 

P/1 – Por isso o senhor é Freitas.

 

R – É. Mas aí no decorrer dos anos eles colocaram o apelido. Porque o meu bisavô tinha uma big de uma árvore de paineira no quintal dele. E não era turista não. Tiradentes era uma solidão. Um paradeiro.

 

P/1 – Tudo isso em Tiradentes?

 

R – Tiradentes. No município de Tiradentes. Distância de Tiradentes lá, indo para lá de Barroso acho que uns sete quilômetros.

 

P/1 – Chamava Barroso?

 

R – Não. Barroso é onde eu casei. De Tiradentes a Barroso são trinta quilômetros.

 

P/1 – Ah, então era antes. E como chamava esse lugar onde tinha paineira?

 

R – Era um lugar denominado Colégio. Não era colégio nada. Lugar de lavoura. Denominado Colégio. E nas Vertentes do Evas. Lá todo território tem um nome, quase todo lugar é assim mesmo. Aí o vovô era José Paineira Filho. Mas o apelido foram os tropeiros que “pôs” no meu bisavô, que trabalhava com cerâmica. Pote, pia, vaso, panela, bulhão de guardar doce, botija de por a cachaça...E cada família, um herdeiro vem herdando a profissão.

 

P/1 – Entendi. Então o senhor é o herdeiro da sua geração.

 

R – Eu sou herdeiro do meu pai que assinava a firma do vovô. José Paineira Filho. Não pôs a firma de Freitas não. Aí eu nasci e pôs Sebastião Augusto de Freitas.

 

P/1 – Ele pegou o sobrenome de volta. O sobrenome do pai de volta.

 

R – Do bisavô. Que era Joaquim de Freitas. Aí o meu pai pôs o nome do meu bisavô.

 

P/1 – E a sua bisavó. Como chamava?

 

R – Ela chamava Vicença e trazia o sobrenome do marido. Vicenza de Freitas. Ela era índia. Era naniquinha. Pequetita e andava agachadinha. Mas noventa e quatro anos. E tinha um totó de cabelo desse tamanho. Estava surda, mas não estava caducando não, a era ideia boa.

 

P/1 – O senhor conheceu. Conviveu com ela?

 

R – Eu cheguei a conhecer. O meu bisavô morreu primeiro do que ela. Deixou-a nova, viúva. E no decorrer dos anos ela ficou de idade. Morava com um filho solteirão. Que não casou e tomava conta da mãe dele. Da bisavó minha.

 

P/1 – Esse era o seu tio-avô.

 

R – É. Aí a gente a encontrava com ela: “Benção, vovó.” E ela gritava: “Para sempre.” E um dia eu falei com o meu pai: “Eu não vou tomar mais a benção dessa velha mais não.” “Mas não vai por quê?” “É porque ela não fala ‘Deus te abençoe’, pai.”  Ela só fala: “Para sempre.” “Oh, meu filho. Seja compreendido. É para sempre Deus abençoar meu filho.” “Ah, então está bom.” Mas aí, ouve a esperta só: tem uma colônia de netos, bisnetos, tataranetos. Ela dentro de uns quarenta minutos, também não parava não. Visitava um, visitava outro. Era esperta mesmo. Estava meio surda. Mas a memória boa. Agora meu bisavô morreu novo. Bem novo.

 

P/1 – E o seu avô?

 

R – Meu avô Paineira?

 

P/1 – É.

 

R – Esse foi até os oitenta e quatro. Tem hora que eu fico meio pressionado. Que o nosso povo bateu os oitenta e dois, oitenta e quatro, oitenta e três. Aí eles viajam para a cidade de pés juntos. Aí não é bom para a saúde não, né? (risos).

 

P/1 – Não. E a sua avó desse avô?

 

R – A senhora fala do lado da minha mãe?

 

P/1 – Não. Do lado do seu pai mesmo. A esposa desse avô.

 

R – Chamava Antônia. Tratava-a de Tonica. A mãe do meu pai, né? Casada com vovô. Ela vivia...

 

P/1 – Também era da região?

 

R – É, ela vivia muito bem. Os dois numa maravilha. Combinavam demais. Meu pai também era um pai amigo. Pai bom. Nunca judiou com nós não. Pobre na verdade, mas dava o carinho. E também tem uma coisa. Nunca passamos da hora de almoçar e nem de jantar. Na casa de pobre há tempo e a hora, sabe. Então eu também carreguei esse lema. Casei e adquiri aquele colosso de filhos. Mas não tenho remorso não.  Não levo para a sepultura pecado. Nunca judiei com eles. Posso morrer sem confessar. Nunca judiei com eles não. Dou é conselho. Os dedos são tudo de uma mão só, mas não são iguais. Tem hora que a gente tem que chamar algum deles no conselho. Tenho um lá que é meio neurótico. Meio nervoso. E é o mais velho deles. Aí costuma ficar meio...Junta com alguns companheiros e levanta a pedra do moinho e começa a fazer arte, né. “Ô, cuidado, viu, meu filho? Se vai devagar com o andor que o santo é de barro. Cria juízo. Olha, meu filho. Nesse partido que você lá vai, pode um dia dar errado. E se cair nas penas da lei. A justiça ouve, mas não enxerga. Tem um pano amarrado no olho.” É ou não é?

 

P/1 – É verdade.

 

R – Aí ele fica assim meio espantado. Depois ele vai lá dentro e fala: “Ô pai, o senhor está certo. Eu vou emendar de vida.”. “Pois é, meu filho. Eu estou falando porque eu gosto de você. Eu te estimo. Daqui uns tempos eu morro e vocês ficam tudo por aí. Precisa combinar com os outros. Parar de maltratar os outros.” Aí ele manera. Manera mesmo viu. Trabalhador. Só a senhora vendo. Ele põe a vassoura para a prefeitura lá. Ele sai de madrugada. Tem uma cachorrinha que vai com ele. Companhia. Quando é sete horas da manhã está lá na prefeitura com um monte de vassouras. Trabalhador mesmo.

 

P/1 – Entendi. E irmãos? Quantos irmãos o senhor tinha?

 

R – Ah, meus irmãos eram sete. Foram morrendo. Acho que só restam dois, a caçula e eu. Eu sou o mais velho dos sete.

 

P/1 – O senhor é o mais velho?

 

R – Dos sete sou eu. E a caçula. Já deve estar com uns sessenta anos já. Ela, né? Os outros morreram há tempos.

 

P/1 – E como era a sua casa de infância? O senhor começou a contar um pouco.

 

R – A minha casa?

 

P/1 – É.

 

R – Era uma casa popular, mas tinha as coisas.

 

P/1 – Como era o funcionamento? Quem exercia a autoridade? Era o seu pai?

 

R – Era o meu pai. Mas o pai também era muito bom. Dava muitos conselhos. Em tempo de geada eles estavam esquentando o fogo. Na cozinha tinha uma pedra grande assim. Acendia o fogo ali. Lá fora estava aquela geada e eles ficavam contando as histórias. Em roda do fogo. Esquentando o fogo. Aí contava aquele colosso de história. Onde tem umas histórias que o vovô contava e eu ria muito. Eu era o neto mais velho. Eu devia de estar com uns quatorze anos. Os outros eram tudo meio. Aí ele deitava. Noite de luar, o céu estrelado. Ele deitava no meio do terreiro. Vovó muito caprichosa, terreiro tudo limpinho. Aí ele deitava no meio do terreiro. O chapéu velho da balaga e quebrava ele na testa. “Agora vou contar umas histórias para vocês”. “Então conta vovô, conta vovô!”. Aí ele começava. Tem diversas histórias, né.

 

P/1 – O senhor lembra uma?  

 

R – Lembro.

 

P/1 – Então conta.

 

R – Tem uma de São Pedro com Nosso Senhor viajando pelo mundo.

 

P/1 – Ontem foi dia de São Pedro.

 

R – Pois é. Pode contar essa?

 

P/1 – Claro.

 

R – Pois é, São Pedro. Nosso Senhor escolheu no meio dos doze apóstolos São Pedro para viajar com ele pelo mundo. Para mostrar os bons corações e os maus. Porque Nosso Senhor sabia de tudo. Tinha um poder infinito. Aí, no primeiro dia fez as mochilas. Viajou, viajou, viajou. Quando foi lá para as cinco horas da tarde, nosso Senhor, São Pedro, muito cansado, os pés inchados de andar. Mas era uma teimosia que só vendo. Aí passou arraial. Passou cidade. Depois caiu na casa de roça. Uma aqui e outra lá trás do morro, né. Aí São Pedro falou: “A primeira casa que tiver aí nós iremos pousar.” Os pés inchados de andar. Com fome. Aí quando veio apareceu uma casinha de quatro cômodos. E a dona estava esperando para ganhar um vindouro qualquer hora, né. Aí São Pedro embirrou ali: “Nós vamos pousar aqui.” “Não, Pedro. Vamos andar mais. A dona está esperando para ganhar neném. Qualquer hora aí. Nós vai estorvar eles. A casa é pequena.” “Ah, não...Eu não aguento mais viajar. Eu quero descansar. É aqui mesmo.” A dona tinha um coração muito bom, né. Chegou lá e bateu à porta. Aí veio a dona da casa. “Dona, a senhora tem um agasalho do sereno para nós dar até amanhã?” “Tenho. Não é de primeira, mas é de bom coração.” “Ah, então está ótimo. E um resto de janta?” “A janta agora mesmo está pronta. Meu marido chega lá pelas cinco horas e eu aproveito e aumento a mão nas verduras. No feijão, no angu.” Aí Nosso Senhor falou: “E o seu marido? Que horas que ele chega?” “Ele chega lá pelas seis horas. É um escravo. Trabalha com o fazendeiro. Talvez você passou lá”. O fazendeiro tinha desfeiteado deles. Que São Pedro pediu uma sobra de jantar e um agasalho de sereno. E o fazendeiro, ele debruçado na janela, chapéu aba larga. Estilo fazendeiro. E soberbo, malcriado. São Pedro gritou lá da porteira: “Dá licença, patrão.” Aí virou o fazendeiro: “O que que há? Fala daí mesmo.” Casca grossa. Aí São Pedro rasgou o verbo: “O senhor tem uma sobra de jantar para nos dar e um agasalho de sereno até amanhã?” Fazendeiro olhou por baixo da aba do chapéu e disse: “Nada disso eu posso fazer. Sobra de janta já dei para os porcos. Agasalho do sereno não te dou porque eu não te conheço. Não sei quem tu és.” Aí tinha um pomar de laranja docinho que era para dar para os nobres. Do nível dele. E tinha quatro pés de laranja azeda, de curar ressaca. Que era para dar para os pobres. Aí São Pedro: “Ô, moço. Dá pelo menos umas laranjas.” Aí ele falou assim: “Apanha atrás do paiol.” Tinha quatro pés de laranja azeda, de curar ressaca. “Apanha atrás do paiol, mas não enche a sacola, não. São Pedro apanhou meia dúzia daquelas laranjas grandes. Laranja da branca. Comendo aquele bagaço. Estava com muita fome, coitado. Aí Nosso Senhor: “Pedro, vamos embora. Larga esse homem para lá. Daqui a três quilômetros ainda é a fazenda dele, o terreno é dele. Nós temos um um avergonhado lá com a mulher e os filhos que faz gosto. Civilizado, educado, meigo. Nós vamos para lá.” Aí São Pedro chupou bastante laranja. Animou. E no intervalo dos três quilômetros tinha um córrego e era dia de domingo. Aí quando eles lá vão passando na ponte, Nosso Senhor falou: “Pedro. Vamos tomar uma água ali. Descansar um bocado.” E tinha uma dona lavando roupa. Batendo com a roupa na pedra. De domingo. Nosso Senhor excomungou a dona. E São Pedro azedou. “Senhor. O Senhor não tem coração, não.  Essa pobre dessa dona. Sabe lá se ela está lavando a roupa de vestir amanhã.” “Pedro, faz o que eu mando e guardo o que tu sabes. Essa dona durante a semana, seis dias na semana que eu dou para trabalhar, ela está andando à toa pelas casas dos vizinhos. Levando notícias ruins. Caçando encrenca. E ela está excomungada. E não será do meu reino.” Aí São Pedro ‘engerizou’ e sentou numa laje de pedra. Na beira do córrego, para descansar, né. Aí Nosso Senhor falou: “Pedro, vamos embora. Essa pedra aí está infectada.” “Infectada por quê?” “Porque tem cem anos que sentou um lázaro nessa pedra.” São Pedro ainda gozou dele: “Mas como o Senhor é bobo. Cem anos. Quanta chuva e quanto sereno. Quanta geada.” “Pedro, levanta daí, Pedro. O micróbio é vivo. Ele permanece.” Aí São Pedro saiu meio ‘engerizado’. Parou com os assuntos e foi embora, com a barba acompanhando Nosso Senhor. Aí quando chegou ao fim da reta apareceu uma casa de adubo. Uma casa grande até. Era de um agregado do fazendeiro. Tinha um colosso de filhos. Tudo sofredor. Chegava ao fim do mês o fazendeiro pagava uma lambuja. Muitos filhos e a maioria pequetitos. Mas aí chegou lá e bateu à porta. E veio a dona. “Boa tarde, dona. A senhora tem uma sobra de jantar para nos dar, um agasalho de sereno até amanhã?” “Tem. Eu fiz a janta, todo mundo já jantou. Separei a do marido e sobrou. Arroz, feijão, angu, verdura. Mas eu vou mandar pegar um franguinho para fazer um molho pardo. Uma mistura. Aí, vou molhar a boca.” “Seu marido chega tarde?” “Coitado, é um sofredor. Escravo. De tarde está rachando lenha para a patroa. Tratando de porco. Chega no fim do mês paga uma lambuja com lágrima no olho e dor no coração. Meus filhos já dessa idade. Quatorze anos. Não sabem o que é um par de sapatos. Precisa de uma vitamina e não tem. Mas a esperança que eu trago no meu coração é que Deus tarda, mas não falta.” Aí São Pedro deu uma sovacada no Senhor. “Ô, até o homem é bom. Vamos ter dó deles.” “Calma, Pedro. De amanhã em diante vai lavar em água de rosas. Mas por enquanto vamos ficar quietos. Deixa o marido dela chegar. Bater um papo com ele.” E quando foi seis horas da tarde o marido dela chegou. Parecia com um jeca tatu. E um bruto de um feixe de lenha, a roupa toda rota. A voz trêmula e o olho fundo de tanto sofrer, de tanto trabalhar. Aí Nosso Senhor conversando com São Pedro lá no quarto. Aí a mulher combinava muito com o marido. Era unha com a carne. Quando o marido chegou, jogou aquele feixe de lenha e ela foi encontrar com ele na porta da cozinha. “Marido, precisei dar pousada para dois viajantes, andantes. Fiquei com dó.” O pé inchado de andar. Sofredor. “Fez muito bem, mulher.” O homem era bom. “Vamos ter dó desse povo, que às vezes algum dia Nosso Senhor pode ter dó de nós também.” Aí São Pedro escutou dentro do quarto e deu uma esbarrada: “Aí, ô. Até o homem é bom. Faz milagre com ele.” “Calma, Pedro. No final dessa história vocês vão rir até não aguentar mais”. Aí tomou banho e jantou. “Será que eles estão dormindo?” “Não. Até poucos momentos eles estavam gorgulhando no quarto.” “Vou lá conhecer esses homens.” Chegou lá e era São Pedro e Nosso Senhor. Aí chegou e cumprimentou eles e começou a contar os cavaquinhos da vida. Para os dois. Depois que ele contou bastante o sacrifício aí Nosso Senhor falou assim: “Sabe com quem que você está conversando?” “Não. Saberei agora.” “É com Jesus Cristo. O Rei dos Reis.” Ele dobrou os joelhos e colocou as mãos. “Bendito seja o nome do Senhor.” Aí o Homem falou: “Está abençoado e um dia estará comigo no meu reino. E você não vai trabalhar para aquele perverso mais não. Na divisa dele com o outro fazendeiro não tem uma big de uma árvore?” “Tem.” “Que quatro homens de braços abertos não abraçam o tronco da árvore?” “Tem.” É lá que eu vou te dar uma sorte. Você tem uma sacola aí?” Ele falou: “Tem, tem uma cafanga de carregar fubá em dia de chuva para não molhar”. Nosso Senhor falou: “Está bom. Você leve ela.” Aí quando o dia começou a clarear, despediu-se: “Vamos para lá.” “Podemos ir.” Aí uma hora talhava e outra hora dava volta. Num instante chegou lá na divisa de um fazendeiro com o outro, onde tinha a árvore. Aí Nosso Senhor falou assim: “Você chega ao pé daquela árvore ali e fala três vezes: ‘Abre, condeira que me conderá.’ Vai abrir uma porta. E lá dentro do tronco da árvore é oco. E lá nasce ouro, diamantes, brilhantes à vontade. É oco. Você entra lá. Você Fala: ‘Abre, condeira que me conderá.’ Abre a porta e depois ela fecha. Tem uma penca de maçãs maduras cheirosas. Você não come não. É tudo do demônio para pegar o seu patrão. Aquele covarde. E tem um papagaio cantando bonito. Você não dá ouvido não. Isso tudo é do demônio. É para entreter o seu patrão para esquecer o nome da condeira. E o seu patrão é muito enciumado. Amanhã você vai levar, hoje.” Chegava em casa meio-dia e ia à cidade grande. Vendia o minério e arrumava um dinheiro satisfatório. Conforme aconteceu. Chegou em casa e falou para a mulher: “Você arruma a minha roupa que eu vou à cidade grande vender essas minerais. Essas pedras preciosas. Arrumar dinheiro satisfatório para nós. Que nós temos sofrido muito. Os dois combinavam muito, né. Ela arrumou o terno dele. Passou. Passou a mão naquela sacola de ouro e brilhante. Brilhava brilhante, diamante e foi vender na cidade grande. Arrumou um dinheirão. Aí, quando tirou medida na sola dos pés das crianças. Dos filhos e tudo. Comprar sapatinho novo. Eles ficaram tão alegres com o sapatinho novo que eles calçaram o sapato e ficaram olhando para os pés e virando roda feito peru. (Risos) Aí, quando foram duas horas, duas e meia da tarde, o patrão, o fazendeiro malcriado, foi lá saber porquê que ele não foi trabalhar. Aí nessa hora tratou a dona de comadre. “Ô, Comadre. Cadê o compadre? Não foi trabalhar hoje?” Não foi mesmo, não. Está certo aqueles dois homens que pediram pousada e você negou. Era São Pedro e Nosso Senhor. Aí ele virou. Ignorante na voz de matuto: “Mas aquilo era São Pedro e Nosso Senhor?” “É. Eles mesmos.” Aí trouxe aquela dinheirama. Cereais de primeira. Calçadinhos para os filhos. Aí mudou de vida. Com aquele dinheiro não precisava trabalhar mais para ele. E o fazendeiro sentado lá: “Ô, compadre. Mas tem muito com aquela inveja. Porque tem gente que é ganancioso por dinheiro. Quanto mais tem, mais quer.” “Compadre. Mas tem muito ouro mesmo? Brilhante, diamante?” “Ah, compadre. É um mistério divino. Quanto mais tira, mais nasce. Mas tem uma penca de maçãs maduras que é do demônio. Não pode comer não. Viu, compadre?” “Não vou mexer, não. Eu quero o minério. Dá para carregar nos burros? Nos caixotes?” “Dá.” Colocou os camaradas para correr. “Vai pegar os burros. É para dar tantas viagens, para fazer estoque.” Aí o compadre falou: “Mas tem umas palavras para falar na hora de entrar lá na árvore?” “Na hora nós falamos. Você me ensina?” “Ensino.” Aí chegou lá. Carregou os carros de bois. Não, os burros, os caixotes....Carregou. Aí o compadre viu aquela penca de maçã madura. Cheirosa. “Ah. Vou comer uma fruta dessas. Estou com fome.” Era instrução do demônio. Para esquecer o nome da condeira. Se não falasse o nome dela não abria. Aí minha filha. Veio o diabo e tudo. Ele entra lá. Comeu a maçã. Olhou o papagaio cantando bonito ficou pateta. Até abriu a boca e ficou olhando o papagaio cantar. Pronto. Esqueceu o nome dela. Senão falasse o nome dela não abria. Aí vieram os demônios tudo. Miúdos e gigantes. Cada um com um garfo. “Eu frito. Eu asso. Eu frito. Eu asso.” O homem ficou doido lá dentro do tronco da árvore. “Abre tigela. Abre pipoca. Abre bolacha. De que jeito. Saiu preso lá dentro e acabou a história”. (Risos)

 

P/1 – Muito bem...Vamos voltar aí na vida. Escuta, depois...O senhor estava me falando que tinha sete irmãos. E vocês foram para a escola?

 

R – Fomos. Mas tem uns que pelejou. Pelejou.

 

P/1 – Era ali perto mesmo da sua casa?

 

R – É. Não aprendeu grandes coisas não. Outros aprenderam bem.

 

P/1 – E o senhor?

 

R – Eu não tinha tempo de estudar não. Estudei até o terceiro ano primário, porque meu pai adoeceu. Ficou enfermo. Nove meses enfermo. Ele tinha uma ferida daqui a cá. A perna dele era inchada. Coitado do meu pai. Adoeceu. A ferida não sarou. Ela recolheu e atacou ele por dentro. Aí o meu pai ficou enfermo e o doutor o desenganou. Falou: “Olha, Zé. Você vai morrer em casa. Seu caso não tem cura não.” E um curador de remédio de raiz curou o meu pai. Ele ainda viveu quarenta anos. E minha mãe tinha um talento. Morena, ruiva. Conversava e nós escutávamos. Na passagem da idade ela pifou. Morreu. É muito triste esse mundo, a senhora acredita...E o que Deus marcou para a gente passar, a gente passa mesmo.

 

P/1 – Aí depois o senhor falou que quando saiu da escola o senhor começou a trabalhar.

 

R – Eu saí da escola que o pai ficou internado em uma Santa Casa nove meses.

 

P/1 – Foi nessa época.

 

R – É. Então eu era o filho mais velho. Fiquei com dó dos outros que eram pequetitos. Empreguei numa cerâmica para ganhar cinco mil réis por dia. No tempo dos mil réis. Trinta mil réis por semana. Mas dava para fazer uma compra, minha filha. Fazer fartura. Aí depois Nosso Senhor curou meu pai e aí o meu pai falou: “Meu filho. Você vai voltar para escola?” Eu fiquei com vergonha. Já tinha bigodinho, né. Eu não vou para escola mais não.

 

P/1 – Quantos anos o senhor tinha?

 

R – Eu já estava com catorze anos. Tive sarampo. A réstia do sarampo ia me matando. Sofri muito, mas depois Nosso Senhor ajudou. Aí foi triste. A minha mãe morreu na menopausa. Passagem de idade, né. A minha mãe tinha um talento. Era uma morena alaranjada. Ela conversava e de longe escutava. E reclamando umas pieguices com meu pai. E o meu pai leva num médico e não descobre. Leva no outro e não descobre. E aí o meu pai um dia falou: “Ana, você com essa cor boa desse jeito, reclamando um caminhão de macacu. Que negócio é esse?” “Ai, Zé. O que está no saco o dono que sabe”. Aí levou num médico velho. Doutor Aristóteles ele chamava. Era médico da ferrovia da estrada de ferro.” Mas o doutor era danado. Chegou lá e fez todos os exames nela e falou: “Ela está com lesão no coração.” No dia que ela amanhecer mais alegre e mais disposta, esse dia ela vai morrer. Dito e feito. E eu estava casadinho de novo. Eu não tinha nem um filho. Era eu e minha mulher.

 

P/1 – O senhor já tinha casado?

 

R – Eu já tinha casado, mas morava lá por perto. Aí o doutor fez exame do escarro dela que deu lesão no coração. Que o dia que ela amanhecesse bem alegre e disposta, esse dia ela ia morrer. E não deu outra, viu. Teve um dia que ela amanheceu cantando, torrando café. O café era torrado em casa. Socando até arroz. Disposta, cantando. Lembrando dos bailes que já foi e dos namorados que já teve. A minha mulher me chamou: “Não precisa ficar alegre, não. Você viu o que o doutor falou.” Chamava um neto, dava um beijo nele e depois dava um tapa na nádega dele. Aí minha mulher falou: “Está do jeito que o doutor falou.” E dito e feito. Quando foi quatro horas da tarde ela deu à alma a Deus. Aí meu irmão subiu chorando com a boca afora: “Tião, corre lá em casa. Minha mãe está morrendo.” Cheguei lá. Ela estava acabando de dar o derradeiro suspiro. E gorda, corada. Foi perder a cor na hora que foi na sepultura. Ah, minha filha, esse mundo é muito triste.

 

P/1 – Seu Tião, com quantos anos o senhor conheceu a sua esposa?

 

R – A minha dona? Eu estava com uns dezoito anos. Namoramos um ano e seis meses.

 

P/1 – E como o senhor a conheceu?

 

R – Eu conheci que eu não estava trabalhando de oleiro, não. E foi por causa de uma namorada, que eu tinha em Tiradentes.

 

P/1 – Então conta da primeira namorada.

 

R – Pois é. Ela era uma moreninha muita bonitinha. Muito boa. Bonitinha mesmo. E eu não era ‘criançudo’, não. Esperava ela dar um toque primeiro. Que o homem ganhar o nome de ‘criançudo’ é muito feio. Aí a menina agradou de mim. Namoramos uns seis meses mais ou menos. Aí ia lá para a casa dela e batia um papo até nove da noite. Aí meu pai: “Você abre os olhos que nessa estrada de ferro é assombrado. Aparece uma assombração.” Falei: “Ah! Assombração nada. O senhor não quer que eu a namore.” “Meu filho, para falar a verdade com você, eu não quero mesmo não. Porque as irmãs dela todas chifram os maridos.  E se ela chifrar você, meu filho, eu morro apaixonado. Porque você é abençoado. Você ajudou a criar seus irmãos. Meu filho, larga essa namorada pra lá.” Falei: “Meu pai. Eu vou deixar de namorar ela, mas em Tiradentes eu não fico, não.” Aí acompanhei uma turma de estradas de rodagem. Fui trabalhar numa dessas. Ganhava um dinheiro bom.

 

P/1 – Foi trabalhar onde?

 

R – Pra lá de Barbacena. Num lugar chamado Mantiqueira. Tirando pedra na serra para fazer calçamento nas estradas. Um feitor muito bom. Era um português nanico, mas ele era boa pessoa. Ele não fala igual nós: “Vai lá, ide lá.” Aí estava trabalhando lá e por lá eu fiquei uns oito meses. Quando foi um dia o ônibus jogou uma carta. Aí o feitor estava lá na curva da estrada. Apanhou a carta e gritou: “Mineiro, essa carta é pra tu.” Aí levei um susto. Ai meu Deus. O que será? Abri a carta para ler. Era para vir urgente que minha mãe estava nas últimas. Que choque que eu levei. Ah, meu Deus. Eu prometi que não ia mais a Tiradentes, mas agora eu tenho que ir. Tenho que ver minha mãe. Aí o feitor me deu uma guia para passar em Barbacena, no escritório e pegar meus pagamentos. Que estavam atrasados três meses. Quando o ordenado em Tiradentes era dez e oitocentos. Lá eu ganhava dezessete livre. E uma turma boa de rir. Ainda trouxe dinheiro para dar a meu pai. A doença da minha mãe. Pneumonia dupla. Aí trouxe dinheiro para dar a meu pai. E meu pai reclamando da vida, que a olaria no tempo das águas, a mercadoria não secava. Os tropeiros esperando mercadoria. Mas não tinha jeito de queimar. Chuva, chuva, chuva.  Aí meu pai clamou que eu cheguei. Ainda dei volta por detrás da casa. Na porta da cozinha tinha um buraco. Aquela madeira de pinho dá umas brocas, né? E eu vendo eles lá. Minha mãe reclamando com ele: “Ora pois, Zezé. Ela já estava melhor. Você foi encrencar com o seu filho por causa do namoro. Ah Zezé. Você pintou. Está nosso filho jogado pelo mundo. Eu não sei se está bem ou se está mal.” A lágrima desceu. Aí eu fiquei com dó. Eu estava com uma capa escura. Chapéu velho de palha, mas estava com um bornal de dinheiro assim. Recebi três pagamentos. Era livre de despesas. Até nem queria voltar para Tiradentes mais. A outra foi pelejando até achar meu endereço.

 

P/1 – A moça?

 

R – A moça. Ela chamava Vicentina. Era uma moreninha muito bonitinha.

 

P/1 – A ex-namorada com quem o senhor desmanchou?

 

R – A ex-namorada. É. Aí meu pai: “Você não vai voltar mais para lá não.” E minha mãe: “Meu filho, pelo amor de Deus. Você tem emprego aí. Você é inteligente. Você sabe trabalhar no serviço do seu pai. Os tropeiros estão querendo mercadoria meu filho.” “Ah, mãe...Eu gostava daquela menina e o meu pai colocou obstáculos. Eu não fico aqui mais não”. Depois o velho falou comigo: “Meu filho, você me perdoa?” Falei: “Perdoo, pai.”  “Você casa com quem você quiser, viu meu filho. Mas avisado você foi.” Eu falei: “Pai, aquele aviso do senhor não serve de base não. As irmãs dela que casou, os maridos são preguiçosos. Se elas quiserem almoçar e jantar, elas têm de lavar roupa para os outros. E os homens esquentando no sol. Cada baita homem preguiçoso. E um homem trabalhador, que põe o pão de cada dia dentro de casa, o vestuário e o remédio, sabe tratar a esposa com carinho e amor, ela não o abandona não.” “É, meu filho. Você me perdoa? Volta para cá.” E o português me esperando. Lá o feitor. Eu cozinhava para eles. Fazia aquela sopa de português.

 

P/1 – Que sopa de português?

 

R – Sopa de português é assim: cozinha o pé de porco, mistura batata, cenoura, beterraba. E uma couve rasgada. É uma sopa. Eles comem que lambuzam até a barba. (Risos)

 

P/1 – Eu não sabia que era assim sopa de português. E aí? Ele pediu desculpas...

 

R – Eu não casei com ela não. “Não, pai. O senhor já pôs obstáculos.” Um dia, por falta de sorte, encontrei com ela. Quando ela me viu, a lágrima desceu. Mas honestamente. É minha arma limpa para Deus. Eu mesmo dei conselho para ela. “Você arruma um namorado que gosta de você. Eu gosto de você, mas meu pai está pondo encrenca. Você arranja um namorado que goste de você. De corpo e alma e casa com ele. E dá estima nele.” “Ah, Não. Eu queria casar com você. Já visto que você não me quer, também não quero. Enquanto você for solteiro, eu também sou.” No dia que eu estava vestidinho de noivo para ir para a cidade vizinha casar. Você acredita que ela chegou para se despedir de mim? Ah, o coração doeu. Falei: “Meu Deus do céu!” Os pais não devem entrar em namoro de filho. Deixa eles casarem com quem eles querem. Apesar de serem mais velhos e ver primeiro que a gente, mas pensando bem, para isso tem o verso do povo antigo, né. Como é que é, meu Deus do céu? Um verso até bonito. “Corre água cristalina/Debaixo do frio chão/Não há gosto nesse mundo/Que acaba sem paixão.” É um verso verdadeiro, né? Tem outro verso. Ah. A gente quando novo canta muito. Copia moda. Depois a gente vai ficando no fim da vida.

 

P/1 – Mais e aí, seu Tião. Como o senhor conheceu a Dona Maria?

 

R – A Maria?

 

P/1 – Foi logo depois dessa?

 

R – Quando eu larguei o serviço de oleiro. Aí eu fui trabalhar na cidade de Barbacena, lá nós tínhamos o alojamento.

 

P/1 – Daí o senhor voltou?

 

R – Aí nós recebemos um telefonema um dia, que a Ponte do Barroso, uma cidade que tem para cá, tinha caído. E tinha mesmo. O trânsito estava parado. E telefonaram para o feitor. Aí tinha um caminhão Ford 1929.

 

P/1 – Que era o português ainda?

 

R – Era o português. Ele era bom demais. Tratava os mineiros aleijados: “O Aleijado. Junta aí a ‘furamenta’”. Ferramenta era ‘furamenta’. E vamos lá. “Recebi um comunicado que a ponte lá está quebrada. Está parado o trânsito”. Aí nós viemos. Dezessete companheiros, né. Tinha o cozinheiro, tinha tudo. Cozinheiro cozinhava muito bem. Mas era bom demais. Aí comecei a namorar essa, que eu casei com ela. Eles tinham um sitiozinho. De vez em quando...Eles moravam distante do comércio três quilômetros.

 

P/1 – E o senhor?

 

R – Eu também.

 

P/1 – Mais ou menos uns três quilômetros?

 

R – Não. Eu tinha uns dois quilômetros só. Era mais perto lá do comércio. Aí ela foi com a mãe dela. Ela com um balaio de ovos. Tinham um sítio, né. Queijo, frango. Todo sábado ela ia com a mãe dela. Ela era muito bonitinha. Aí eu estava ajudando pôr madeira na ponte. Consertar as pilastras da ponte.

 

P/1 – Dessa que tinha caído?

 

R – É. Aí ela passou perto de mim e me deu uma olhada satisfatória. Ela era muito bonitinha. Aí falei: “Ah, meu Deus do céu. Acho que vou amarrar meu burro por aqui mesmo”. (Risos) Passou para lá. Vendeu os ovos, Vendeu os frangos. Fez compras. E quando ela voltou. Eu vi. Era uma distância de uns duzentos metros. Eu fui encostando por um lado assim. Para ficar mais longe da turma né. Você acredita que ela chegou perto de mim. Ela, a sogra andando na frente. A futura sogra, né. Aí ela chegou: “Moço, de onde você é?” “Sou da cidade vizinha. Aqui de Tiradentes.” “E você tem namorada?” Falei: “Não. Por hora não.” Mas tinha. Para passar tempo eu tinha. “Vai passear lá em casa.” Falei: “Ai, ai, ai. Acho que eu vou amarrar meu burro é por aqui mesmo.” (Risos)

 

(troca de fita)

 

P/1 – O senhor estava contando que ela falou para ir à casa.

 

R – “Vai ter um batizado da irmã minha. Você podia ir lá. É um prazer”. Falei: “Menina. Eu não marco o dia com você não. Mas às vezes um dia eu posso aparecer por lá.” “Você não tem namorada?” Eu falei: “Não. Por horas não. Mas eu pretendo. A hora que eu achar uma menina que gosta de mim, de corpo e alma, é capaz de eu casar.” Ela fez um sorriso bonito né. Cabelo pretinho. Era uma morena cor de jambo maduro. E eu falei: “Meu Deus do céu. Que há de ser de mim agora?”. Mas no dia que ela marcou para eu ir lá, eu não fui não.

 

P/1 – Não?

 

R – Fui no outro dia. Num dia de sábado. Tomei meu banho. Tinha uns fiapos de barba. Raspei aquilo.

 

P/1 – Quantos anos o senhor tinha?

 

R – Eu gostava de andar bem arrumadinho. Terno feito por alfaiate. Casadinho no corpo. Tinha bons dentes. Tinha boa vista. Era alguma coisa. Mas aí, minha filha, eu não fui não. Na outra semana eu fui. Ah. Que alegria que ela ficou. Aí cheguei lá. ”Você não veio no dia. Nós fizemos uma festinha aí. O meu prazer era que você estivesse junto.” Falei: “Não, mas eu já vi você. Estou satisfeito. Estou contente.” Aí ela me investigando de todo jeito. “Mas você não tem namorada?” Falei: “Não. Por horas não. Quem sabe lá se vai dar uma tinta nós dois.” E não teve jeito de eu ‘escapulir’ depois. Eu a namorei um ano e seis meses. Depois a velha, a mãe dela, começou a me chegar para frente. Eu falei: “Meu Deus.”

 

P/1 – Como chamava a mãe dela?

 

R – Eugênia. Aí: “Meu filho, estamos precisando fazer esse casamento de vocês. Namoro de vocês está muito enrabichado. Depois para acontecer um imprevisto. Deus me livre e guarde. E minha filha fica falada. Vocês estão com um namoro muito…” Mas, perante o Deus, eu a respeitava, né. Aí eu acompanhava a lei sagrada. Até sou religioso. Tenho fé em Deus. Descendo de certas coisas né. Mas aí um dia a velha estava nervosa. “Nós temos que dar um jeito nesse casamento”. Eu falei: “A demora é eu ouvir da boca dela, se ela gosta de mim de corpo e alma.”

 

P/1 – Que ela ainda não tinha falado?

 

R – É. “Mas da senhora não. A senhora pode dizer que estou gostando dela, mas não é ela que falou. Eu quero que ela mesma fale comigo que gosta de mim”. Ela falou: “Mas é claro que eu gosto de você. Se eu não gostasse de você, não estava nesses agarro não.” Falei: “Então eu levo em consideração. Fico muito contente. E vamos ver. Mas olhe, eu sou de família pobre. Lá um dia nós poderemos passar um aperto na vida. E pode você arrepender. E depois querer me fazer pouco caso. Eu sou pobre de dinheiro e rico de energia.” “Ah, não...Eu gosto de você.” E gostava mesmo. Quando ela estava perto de mim, ela estava cheia de vida. Eu percebia, né. Ela falava meu nome com vontade. (Risos)

 

P/1 – Como era?

 

R – O dia que ela morreu me deu uma paixão. Angústia. Ah, que tristeza. Depressão. Os médicos falaram.

 

P/1 – Muitos anos juntos.

 

R – Ah. Cinquenta e nove anos juntos. Faltando um ano para fazer a bodas de diamante.

 

P/1 – São bodas de diamante quando faz 60?

 

R – Quando eu fui ao Rio de Janeiro, levei ela. Tem retrato nosso no pé do Cristo. Eu ia a São João Del Rei quatro, cinco vezes ao mês. Ela ia também. Todo lugar que eu ia, ela ia também. É. Gostava muito da gente. E teve um dia que falei: “Você pintou. Você casou comigo. Sou pobre. Não tenho nada bonito, nem bom para te dar.” “Ih, não fala assim, senão você está gravando a Deus. Eu gosto de você, só.” Eu falei: “Graças a Deus.”

 

P/1 – E como foi o casamento?

 

R – Graças a Deus. Casei. Morei lá uns tempos, mas era empregado. E ganhava pouco. Mas antes de casar, falei com ela.

 

P/1 – Vocês foram morar onde?

 

R – Na terra dela fiquei lá um mês e pouco. Trabalhando de empregado. Para ganhar salário mínimo. Aí um dia falei: “Eu estou aqui de dó de você. Mas esse negócio de salário mínimo, minha filha. Daqui um bocado vêm os filhos, vêm os trabalhos da vida. Você pode se arrepender até.” “Não. Eu gosto de você. E outra. Eu acompanho você para qualquer lugar. Onde você for eu vou.” Falei: “Graças a Deus.” Aí vim. Meu pai falou: “Estou passando aperto por causa de mercadoria. Vem tropeiro aí e volta vazio. Para comprar os artesanatos.” Aí topei a trabalhar. Fiz uma olaria para mim. Sentei o meu torno. São João Del Rei também colaborou. Ajudou a tratar dos barrigudinhos muito tempo. Loja né. Comprava cem vasinhos, duzentos vasinhos. A Flora Limpa em Belo Horizonte. Trabalhei uns seis meses para eles. Tudo que eu pude fazer eu fiz.

 

P/1 – Desde aquela época o senhor sempre trabalhou de oleiro?

 

R – É. E não abandonei mais não, porque quando a gente pegava um dinheirinho mais regular...Porque é triste o salário. É muito triste. Pode ser trabalhador do jeito que for. Mas é aquela marchinha, né. Já a gente trabalhando por conta da gente, numa profissão. Você resolve trabalhar de noite. Até dez horas da noite. Ganha um dia satisfatório. E ganha. Machuca o corpo, mas ganha um trocado.

 

P/1 – O que o senhor começou fazendo?

 

R – De tudo. Moringa, panela, vaso. De tudo que eu fazia, vendia.

 

P/1 – E quem ensinou. O senhor estava contando que quem ensinou?

 

R – Foi meu pai. É. Meu pai aprendeu com vovô. Vovô com bisavô. Vem de geração, né?

 

P/1 – O senhor já é a quarta geração de oleiro.

 

R – É. Meu filho passou para a quinta.

 

P1 – Seu filho sabe fazer também?

 

R – Ah. Sabe fazer. E ele é vigia de hotel. Tem duas folgas por semana.

 

P/1 – O que trabalha no Solar?

 

R – É, Solar da Ponte. E ele tem duas folgas por semana. E naquelas duas folgas ele faz vasos. Cada panela bonita, de fazer feijoada. Com tampa. A tampa bem casada. Faz subia. Faz tudo quanto há. Trabalhador, ele. Ao invés de descansar.

 

P/1 – Aí o senhor foi morar lá. Começaram a nascer os filhos?

 

R – Aí começou. O primeiro gorou. Depois começarem a vir aqueles gafanhotos. Um atrás do outro.

 

P/1 – Quantos filhos o senhor tem? (Risos)

 

R – Eu tenho até vergonha de falar, minha filha. São nove.

 

P/1 – Nove...

 

R – Nove. Mas eles são muito bons. Os casados, os solteiros. Todos são bons. Dia de domingo lá em casa é uma festa. Eles vão almoçar lá em casa. Tem uma que mora em São João Del Rei. Ficou viúva nova. Agora que ela arrumou outro companheiro. Ela já tem uma menina com dezenove anos. Está estudando vestibular. Eles são estudiosos.

 

P/1 – Quantos netos o senhor tem?

 

R – São dez.

 

P/1 – E já tem bisnetos?

 

R – Essa que está comigo aí. Ela já está estudando. Está terminando os estudos já. A outra se quiser ser uma professora já pode. Mas ideia boa eles têm. Mas eu vou falar uma verdade com a senhora… Esse mundo, pensando bem… A vida é um romance. Enquanto a pessoa está nova, na flor da mocidade, tudo está bom. Mas a pessoa vai chegando num certo ponto. As forças vão acabando. A memória fica cansada. Ainda a vista fraca. Uma só. Vou te contar um bocado. Não é jiló não, mas é amargo.

 

P/1 – E aquela história boa que o senhor queria contar? Conta então.

 

R – A historinha que eu ia contar para a senhora é de um padre. Tinha um arraial. Arraial quer dizer lugar pequeno. E tinha uma igreja. E a missa todo dia era às sete horas da manhã. Aos domingos. Durante a semana não tinha missa. E tinha um baita de um cemitério. E tinha morrido um inquilino, e aí o coveiro foi lá fazer a sepultura. Quando estava chegando, o padre mais o sacristão ali por perto. Quando foi chegando ao fundo da sepultura achou um corpo de defunto, uma caveira. Aí chamou o padre. O padre chamou o sacristão: “Filho, pega essa caveira e guarda lá na casa das armas.” “Padre, enterra isso, padre. Isso é porcaria.” “Não. Pelo contrário. Daqui uns cinco meses, a hora que ela estiver sequinha. E para eu pregar um sermão para os fiéis. Para os ouvintes. Do passado, presente e o futuro.” “Padre, isso não dá certo não.” “Faz o que eu mando. Aí guardou e ficou sequinha. E esse marimbondo bravo. Do rabo vermelho. Fez uma caixinha dentro do coco. E era tempo de geada. Estavam emboladinho. Aquele bravo mesmo, doloroso. O padre chamou o sacristão. Na hora da missa, a igreja cheia de gente. Tempo da seca. Tempo de geada. Sete horas da manhã, a igreja estava lotada. E tinha uma senhora de idade, velha, que ficava ajoelhada debaixo do púlpito. Apreciando o padre pregar o sermão. De vez em quando dava uma mastigada. A velha. Aí o padre está lá em cima: “Prezados ouvintes, caríssimos irmãos. Vocês estão vendo essa caveira?” “Estamos, sim senhor.” “De quem será que foi, meus irmãos?  Às vezes foi de um parente. Às vezes foi de uma pessoa benfeitora. Que só fez o bem nesse mundo. Está com Jesus”. Foi sacudindo e o marimbondo foi abrindo a asa. “E às vezes meu irmão, por coincidência foi de um vadio. De um malfeitor. Onde estará essa alma, meus irmãos? E sacudia. Os marimbondos estavam inchando.” “Às vezes, meus irmãos. Por acaso foi de um perverso. De uma pessoa ordinária. Está no inferno. Está com o diabo”. Ah. O marimbondo cravou nele o ferrão na palma da mão do padre. Ele a soltou lá de cima, e ainda deu força nela. Pegou na cabeça da velha lá embaixo. A velha esticou o pescoço e arregalou os olhos. “A caveira é da voz, excomungado. A caveira é da voz, excomungado.” (Risos) Tinha outra também muito bonitinha.

 

P/ 1 – O senhor gosta de contar histórias?

 

R – Eu distraía muito.

 

P/1 – Que nem seu avô?

 

R – Nas fogueiras de São João. Era convidado. Mas eu já esqueci muitas histórias.

 

P/1 – Ah. Era? Como que é? Eu não sei

 

R – Era convidado. Fogueira de São João?

 

P/1 – Sim.

 

R – A senhora não sabe o que é não?

 

P/1 – Não, sei o que é fogueira de São João, mas não sabia que as pessoas iam contar histórias em volta da fogueira. E era convidado.

 

R – Era convidado, era. Porque a maioria do povo fica esquentando o fogo. Nas madrugadas, né. E o contador de histórias está ali ‘tererê, lelelê’.

 

P/1 – Eu não sabia que eles chamam o contador.

 

R – Passavam as horas tranquilas.

 

P/1 – E chamavam o senhor para contar as histórias?

 

R – Chamavam. Aí eu chegava lá. Aí as velhas riam. Os velhos riam. As crianças riam. As moças riam e era aquela farra. Mas então tem outra também. Essa dizia o vovô, que foi verdade. Foi acontecido de um velho, um velho fazendeiro. Fazendeirão. Tinha uns trinta alqueires de terra e ficou viúvo. E ficou apaixonado uns tempos. Tristão. E o agregado dele tinha a filha mais velha. Bonita toda a vida. Aí um dia ele deu a idéia de dar um passeio na casa do agregado. Ele nunca tinha ido lá por causa do outro ser pobre né. Aí chegou lá e a moça era lindona. E ele não tirava os olhos da moça. Mas a moça não podia nem sonhar que ele estava com confiança com ela. Aí, todo sábado lá vai o velho. Terno de casimira Aurora. Colete. Relógio folheado a ouro. Num perfume. Quente com a moça. Aí quando foi um dia chamou o pai da menina. “Olha. Escuta. Você podia falar.” Lá ele. “Você podia falar com essa menina, se ela não quer casar comigo. Estou pronto para casar com ela. Eu passo o gado no nome dela. Os teres.” Aí o pai interessado nos teres. Queria ver a filha bem de vida né. Falou: “Eu vou falar com ela. Hoje mesmo ainda falo.” “Então você fala com ela.” Mas o velho estava com setenta e cinco anos. Igual a gente assim. Custando firmar o corpo né. Aí depois que o fazendeiro foi embora. Ele chamou a filha: “Minha filha. Tem uma notícia boa para te dar pai.” “Que notícia é essa, pai?” “Seu Moisés quer casar com você.” “Deus me livre, papai. Eu não quero não, papai.” “Minha filha. Você está jogando a sorte fora. Você vai ficar milionária.” “Ih, papai. Deus me livre. Não quero não. Quero casar com um moço que seja pobre, mas do meu gosto. Definitivamente, papai. Eu não quero.” Aí quando é no outro sábado lá vai o fazendeiro. Perfumado. Bem arrumado, mas já estava meio ‘catramba’, né. E não tirava o olho da moça. Ela já estava ciente, que ele dava confiança com ela. Mais ‘enjerizada’ ela ficava. Aí quando foi um dia o fazendeiro falou com o pai da menina: “Escuta. Porque você não faz aí uma festa daqui quinze dias. Às vezes até lá ela resolve. Mas ela tomou uma birra com o tal velho. E tinha razão.  Menina linda né. Um velho patife. Aí quando foi no dia do jantar. Convidou aquele colosso de gente. E o velho chegando dinheiro. Festa de pompa né, de gala. Ah, minha filha. Quando chega na hora. Esse povaréu todo. A casa cheia. Tudo quanto era bom. Aí o pai fez lá um discurso: “Meus caros amigos, todos que estão presentes. Esse jantar aqui hoje é uma homenagem a minha filhinha, que vai dar a mãozinha dela em casamento ao Senhor Moisés. Não é, minha filha?”. “ Ih, papai. Não quero não. Passo longe”. “Porque você não quer minha filha? Você vai ficar bem de vida”. “Papai, não quero por isso: quando o velho vai sentar, ele faz ‘Ai!’. Quando ele vai levantar, ele faz ‘Upa!’. E eu não me julgo”. Deu um estrimilique no velho. O velho caiu para trás. Morreu e acabou a história. (Risos)

 

P/1 – Seu Tião, hoje em dia o que o senhor faz?

 

R – Eu trabalho ainda no barro, minha filha. Umas horas no dia.

 

P/1 – E como funciona, o senhor trabalha sozinho ou trabalha com esse seu filho?

 

R – Eu tenho a minha olaria, né. Meu filho também trabalha nas horas vagas.

 

P/1 – E como acontece o trabalho?

 

R – Acontece que o barro nós tiramos lá por perto mesmo. Paga só o caminhão para puxar.

 

P/1 – E quem é que tira?

 

R – O prefeito empresta a máquina. Aquela de escavadeira. Empresta o caminhão.

 

P/1 – Mas é muito barro então que é retirado?

 

R – Eu sou muito estimado, minha filha. Sou muito estimado. E não sou político, não. Nós temos uma amizade.

 

P/1 – Mas é muito barro que tira de lá?

 

R – Não. Não é não, minha filha. Uns três caminhõezinhos de barro dão para trabalhar um ano. Que as peças são fininhas né. As peças são fininhas. Mas eu vendo mais é assobio. Trabalho mais é sentado. Tem freguês de Belo Horizonte.

 

P/1 – Mas o senhor trabalha no torno?

 

R – Trabalho no torno de vez em quando. Às vezes vou trabalhando. Quando é lá pelo meio-dia, as cadeiras estão doendo. As pernas doendo. Aí eu pego uma pelota de barro assim. Sento e ponho no tamborete, ligo a televisão. Fico assistindo a televisão e fazendo assobio. Ainda faço uns quatrocentos por semana.

 

P/1 – Quatrocentos?

 

R – Quatrocentos. Na casa de pobre dá para viver, né? Serve.

 

P/1 – Ah, pensei quatrocentas peças.

 

R – Não. Quatrocentos assobios. Faço por semana. Depois eu dou ‘esquemadinho’. Pintadinho. Bonitinho mesmo.

 

P/1 – São quatrocentas peças mesmo que o senhor faz?

 

R – São quatrocentos passarinhos que eu faço. É manual. Eu fiz lá para o pessoal ver. Ainda assobie na hora. Na hora que eu acabei de fazer, eu assobiei.

 

P/1 – E é sempre o mesmo passarinho ou são vários passarinhos diferentes?

 

R – Não, faço de quatro qualidades.

 

P/1 – E cada um tem um som diferente?

 

R – É. A senhora é inteligente, gostei de ver. Tem o assobio menor. Se souber assobiar nele, remete até ao inhambu. Faz assim “trummm” com a língua. Aquele sai “trummmm”. Sai direitinho. E tem num outro grande assim. A barriga dele é maior. Ele arremeda as pombas: fogo apagou, fogo apagou. É a mesma voz. Não é senhora? Eu fiz lá para eles verem. Trouxe barro lá de casa. Pelotinha de barro. E tem outro que parece um peixe. Que é uma flauta. Ainda toquei umas musiquinhas para eles verem. Eu sou copiador de moda, minha filha. Mas eu tinha um tio que sabia fazer.

 

P/1 – Quem te ensinou a fazer esses passarinhos?

 

R – Foi um tio meu. Ele quem ensinou. Ele já morreu.

 

P/1 – Irmão do seu pai?

 

R – Irmão do meu pai.

 

P/1 – E ele fazia isso para viver?

 

R – Ele foi casar na Bahia. Falava com o vovô: “Papai, eu vou casar na Bahia.” “Meu filho, aqui tem tanta moça boa, de boa família. Para que você quer casar na Bahia?” “Papai, eu quero casar com uma baiana.” E foi mesmo. Quando fez uns oito meses, ele chegou com a baiana. Mas era bonitona. Cantava bonitos os dois, minha filha. Não comia sem carne e sem peixe. Passava bem. Mas não adquiriu filho não. Só tinha uma menina de criação. Mas a baiana era linda. E que voz bonita. Os dois cantavam bonito. Só a senhora vendo. Ele morreu primeiro.

 

P/1 – E ele que fazia os passarinhos?

 

R – Ele que fazia.

 

P/1 – E onde que ele aprendeu?

 

R – Ah, minha filha. Eu não sei se foi com os índios. Me parece que sim.

 

P/1 – Lá em Minas?

 

R – Lá em Minas Gerais. E com essa, minha filha. Não deu para ficar nobre não, mas eu criei uma baita de uma família. O pão de cada dia numa casa de pobre. A tempo e a hora. Sem dar prejuízo aos outros. Conta de farmácia pagando, pagando, pagando. Ah, minha filha. Mas quando a minha mulher teve vinte e um anos doente.

 

P/1 – Nossa. O que ela tinha?

 

R – Eles todos têm diabetes. A família toda. Além da diabete ainda deu, teve que por três pontes de safena. Eu tinha uma hora que eu tinha um dó. Doutor me chamou lá no canto. “O caso da sua dona não está bom não. Acho que ela tem que colocar umas pontes de safena. Ela tem diabetes. Ainda arrumou as guias para trazer ela para Belo Horizonte. O Hospital Felício Rocho. Chegou lá e os professores examinaram e falaram: “Difícil. De fato ele está certo. Tem que ser operada mesmo.” Peguei com Nosso Senhor. Dobrei os joelhos no chão e perdi o perdão dos pecados e da ignorância. Por pensamento, palavras e obras. Para a gente pegar a indulgência de Deus tem que pedir perdão dos pecados. Que todo mundo tem pecado, minha filha. Um por tal maneira, outro por outra, mas que tem, tem. A gente nesse mundo. Por isso que benzo um destroncado. Pessoa de vez em quando está com a junta inchada assim. Chega lá em casa. “Seu Tião, fazendo até vômito de dor.” “Seu Tião, pelo amor de Deus. Tem dó de mim. Benze esse pé para mim. Com São Cosme e São Damião.” E na reza ainda diz assim: “Um era médico e outro cirurgião. E a sagrada paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. Arranja um patuá de linha.” Aí amarra a linha cruzada no novelo de algodão. Uma crua, né. E põe outra linha na agulha, mas não pode dar nó não. Aí primeiro você fala assim. Pede o perdão das ignorâncias, pensamentos. Palavras e obras. Me coloca em ato de graça. E põe virtude nessa benzeção. A senhora conhece a reza. Aí começa. Reza um Pai Nosso. Três Aves Maria. Um Salve Rainha. E oferece para São Cosme e São Damião. Um era médico, outro cirurgião. Para curar essa pessoa que está sofrendo. Ah, minha filha, daí quarenta minutos o freguês está dando o ar da graça. É mesmo.

 

P/1 – E o senhor faz isso faz tempos? Essas rezas?

 

R – Aprendi com a vovó.

 

P/1 – Aprendeu com a avó, mãe da sua mãe?

 

R – Do meu pai.

 

P/1 – O senhor conviveu mais com os seus avôs paternos? Com a família do seu pai?

 

R – É. É isso mesmo. Com vovô. Meu avô também trabalhava no barro. Era um artista meio porco. Fazia as coisas meio tocadas. Mas vendia tudo. E outra. Ele também era meio preguiçoso. Ele queimava uma fornada e ficava vendendo aquilo no varejo. Não vendia barato não. Mas enquanto tivesse umas dez peças, ele ficava sentado. Não é igual à gente, afobado. Queima uma fornada, já vê, já está queimando outra.

 

P/1 – Fora os assobios, que mais o senhor faz?

 

R – Ih, minha filha. Eu faço tanta coisa. Panelinha de comer feijoada. Aquela tigelinha com duas orelhas, assim. Os restaurantes compram cinquenta, sessenta. Ia para todo lado. Todo lado. Vai para Belo Horizonte. Vai para Barbacena. Vai para Juiz de Fora. Eu sou muito conhecido. Mas o dano é a idade minha. Se eu trabalhar muito, de noite o corpo dói, né? Faz ‘alembrar’ até do pai João. Pai João estava com uma dor no peito...Chorando, gemendo. Aí os filhos perguntando por que ele estava gemendo: “Ai meu filho. É meu coração que dói. (risos). Ah, meu filho. É o coração que dói”. Tem muita história dos pretos velhos. Eu posso contar?

 

P/1 – Pode.

 

R – Tinha um fazendeiro. Tinha sessenta escravos. Essa história é muito bonita. Até termina com padre, com igreja. Mas ela é muito bonita mesmo. Aí, tinha sessenta escravos. E ele tinha um que nunca foi no tronco. Nunca apanhou não, era obediente, era humilde. Mas ele era o gerente. Que gerenciava os outros. Ele era o Carreiro. Carreava com dez bois. E os bois eram de estima. Na argola do chifre do boi tinha uma ‘cabacinha’ de ouro. No tempo que o ouro era barato. Quer dizer que ali era um distintivo. O boi não era de negócio. Se tivesse a cabacinha de ouro no chifre aquilo era de estima. Dez bois amarelos, com chifre, apareado. Levantava cedo. Ele era o administrador. Administrava os companheiros: “Ô, fulano. Vai capinar o cafezal. Beltrano, vai cortar cana. Sicrano, vai tirar o leite. Fulano, vai cuidar da chácara e das laranjeiras.” Ele era o administrador e gerenciava. Aí a dona dele já tinha sete filhinhos. Pequeninos. E quando foi num dia. Estava ameaçando chuva. E ele com uns dez carros de milho na roça se molhasse ia mofar. O patrão falou: “Moisés, (ele chamava Moisés), você vai e fica esperto. Chama seis companheiros para ajudar a carregar o carro. Aquele milho, hoje tem que dormir no paiol. Está armando chuva.” Aí arrumou seis companheiros. E puxa milho daqui e puxa milho dali. Quando foi cinco horas da tarde terminou. Acabou. Estava cansado. Soltando os bois para ir para o pasto. E a mulher dele esperando para ganhar o oitavo criolinho. Aquela turma. Igual pássaro preto. Aquela turma. Tudo sentadinho na beira do barranco e ela esperando para ganhar mais uma. Aí o Carreiro Moisés estava soltando os bois. E deu desejo de comer um pedaço de carne de boi do cabeceado. E era do patrão dele. O patrão não era de brincadeira não. Boi de estima. Moisés, eu quero comer um pedaço de carne desse boi. “Não, Mulher. Eu vou ao arraial.” Cidade pequena é arraial. “Eu vou e compro carne de primeira para você. E você não vai fazer isso não.” “Eu não quero carne de arraial não. Eu quero desse boi aí.” Estava de desejo. “Ih, mulher. Mas esse boi é de estima. É do patrão.” Nhonho me leva no tronco e me bate. “Não, Moisés. Eu vou te ensinar uma maneira que ninguém vai te bater não. Você corta os dois mocotós de trás dos pés do boi e risca na barranca do rio. E amanhã você vai contar para o patrão que o boi morreu rolado na ribanceira. Caiu no rio.” “É mulher, mas mentira tem perna curta. Nhonho vai descobrir. “Que nada. Não vai descobrir nada.” E ele era muito católico. E toda primeira sexta-feira ele ia comungar. Confessar. E o padre era caxias de fazendeiro, porque o fazendeiro dava um dinheiro satisfatório. Dava um porco para o leilão. Dava um bezerro. Um dinheiro mais volumoso. Aí o outro era pobre, coitado, escravo. Não tinha um recurso bom para dar. Quando foi um dia, estava meio fraco da idéia. Estava capinando roça na queimada. Aqueles tocos de queimada. Desse tamanho. De tarde ele vestiu um paletó de casemira no toco. “Faço de conta que isso daqui é o seu padre.” Ajoelhou ao pé do toco e contou os pecados para o toco. O toco é um ser morto. Não fala né. Aí chegou em casa. “Vou confessar na igreja. No seu Padre de verdade. Falou com a mulher: “Mulher. Você passa meu roupa”. Minha roupa é meu roupa. “Que eu vou confessar na igreja hoje”. E foi lá para igreja. Os pés muito pretos. O pé criado à lei da natureza. Um bruto dum pé. Pretinho. Aquele terno branquinho, alvejado. E aqueles pés pretos. E lá vai ele com aqueles calcanhares grandes. Aí. Chegou lá na igreja e entrou na fila da confissão. Mas triste, com a mão no rosto, analisando o caso. O que podia resultar. E tinha um molequinho de rua, um rapazinho de uns doze anos. Que gostava muito dele e era caixa do segredo dele. Podia falar qualquer segredo dele, que ele não contava para ninguém. E viu o Moisés tristonho, lá na fila da confissão. “Moisés”, chamou ele. “Vem cá. Atravessou dentro da igreja e foi lá. E contou ao moleque de rua o que tinha feito. Que enganou o patrão. Que estava com remorso. Que pregou mentira. Que o boi morreu afogado na ribanceira. ”E estou com medo do padre me dar uma penitência.” “Olha. Esse padre aí é caxias do fazendeiro, capaz de querer condenar você. E é capaz do patrão querer levar você para o tronco, e vai acabar com você. Ao invés de você falar. Se ele aceitar e der penitência dez Aves Maria, dez Santa Maria e dez Pais Nosso é sinal que ele está de bons namoros com você. Mas se ele falar que você tem que publicar, você está encravado. E esse padre é mal.” Aí ele ficou nervoso e o moleque de rua falou assim: “Ao invés de você falar que você matou o boi para a mulher matar o desejo, você vai falar que toca criança de cabelo anelado e do olho azul que está dentro da igreja é filho do padre”. Ah, minha filha. Mas deu um fuá dos diabos. Você acredita?

 

P/1 – E como que acaba?

 

R – E voltou para a fila. Lá vai, lá vai. Chegou ao confessionário. O padre: “Ajoelha. Quanto tempo tem que não confessa?” “Ah, seu padre. Tem cinco meses.” “Porque não tem confessado mais amiúde?” “Ah sabe, seu padre. Eu tenho um pecado grave para contar para o senhor.” “Que pecado é esse? Fala logo.” “Mas o senhor tem que dar uma penitência. Dez Aves Maria. Dez Santa Maria.” Aí o padre: “Mas você fez isso?” “Fiz seu padre. Aconteceu mesmo. A mulher estava com desejo. Esperando para ganhar criolinho. E eu matei o boi de estimação do patrão. E preguei mentira nele, falei que o boi morreu afogado no rio. Risquei com o pé do boi no barranco e ele acreditou. Agora a consciência está pesada.” “ Você tem que publicar esse pecado na hora da missa.” “Não. O Nhonho está lá na missa. Ele me leva para o tronco e me bate.” “Não faz mal de você apanhar não. Seu corpo tem que ser castigado para a sua alma ganhar salvação.” (Risos). É criatura, Nossa Senhora. Mas deu um fuá dos diabos. Aí confessou. “Agora o senhor vai me dar a penitência, seu padre?” “Não. Você tem que publicar esse pecado”. Mas o moleque de rua já tinha enfiado na ideia do velho. Do preto o que ele ia gritar. Quando chegou na hora do sermão na missa. Aí o padre: “Prezados ouvintes. Caríssimos irmãos. Todos que estão presentes nessa igreja para escutar o que esse preto fala aí. É verdade. Foi acontecido: “Fala, Moisés.” Ele: “Posso falar seu padre?” “Pode. Fala logo.” Isso foi acontecido mesmo. Pensando que ele ia falar a história do boi, mas o moleque de rua já tinha outra enfiado na cabeça dele: “Pode falar, seu padre?” “Pode. Fala logo.” “Senhores e senhoras”... Não falava senhorita. Falava seorita. “Senhores, senhoras e seoritas. Todos que está presentes nessa igreja. Pode falar seu padre?” “Pode falar. Desata.” “Toda criança de cabelo anelado e olho azul que estão dentro dessa igreja são filhos do padre.” “Ô seu excomungado, eu não mandei você falar isso não”. “Mas você falou”. Aí as mulheres começaram a chorar. O meu tem cabelo anelado e olho azul, mas não é filho de padre não. É do pai dele. Que o pai dele também tem. Aí os pais de família caçando o cocorinho da igreja. O padre fechou o ministério e caiu na sarongue e acabou a história. (Risos)

 

P/1 – Se safou. Escuta. Deixa perguntar uma coisa para o senhor. Hoje. quais são as coisas mais importantes para o senhor?

 

R – Ah, minha filha, são os netos, né. Todo lado que eu vou tem um neto comigo. Uma neta. E tem as pessoas de amizade também. Bato um papo com uma. Bato um papo com outra. E vai passando. Eu já achei casamento, minha filha. Tenho uma concunhada. Ela é viúva. E ela não é feia não. Ela é jeitosa. Ela tem a coragem de falar: “O, Tião, casa comigo?” Eu falei: “Não, minha filha. Porque casar e morrer é uma vez só. Não quero não”. E no fim da minha vida, Deus vai ter piedade de mim. Que faz falta faz.

 

P/1 – Com quem o senhor mora hoje, seu Tião?

 

R – Eu moro na mesma casa. A casa é grande. Tem oito cômodos.

 

P/1 – E o senhor têm filhos morando com o senhor?

 

R – Tem. Tem quatro solteiros. São muito obedientes. Amorosos. Às vezes a gente atrasa de chegar de algum lugar: “Pai, o senhor demorou. O senhor está passando bem, pai?” Tem dia que a boca está ruim. E a gente não quer comer. “Pai, come mais um bocadinho. Senão o senhor morre e não vai aguentar.” Ah, eles gostam muito de mim, minha filha. Também nunca dei um beliscão num filho. Só dava conselhos. Conselho dava toda hora. Eles são muito bons. A netaiada tudo bom. Tem bisneta que já tem namorado.

 

P/1 – O senhor já tem bisneta namorando?

 

R – Tem. Está com catorze anos, e é bonita. É coruja da avó, mas é bonita. É mesmo. E está na oitava série. Eles são inteligentes.

 

P/1 – Seu Tião, quais são os seus sonhos hoje?

 

R – Sobre o que minha filha?

 

P/1 – Não sei. Com o que o senhor sonha hoje? O que o senhor espera? Sonho de desejo.

 

R – Ah, minha filha. Eu penso em Nosso Senhor nas minhas orações. Para dar uma saúde. Casar mais eu. Uma companhia faz falta. A casa que não tem uma dona é igual uma igreja que não tem santo. Faz o trono, mas não tem a imagem dentro dela. Fico lembrando, deitado. Os outros filhos estão dormindo e eu estou lá. Vira para um lado e vira para outro. Eu a estimava muito...Ah, ela era muito divertida. Teve um dia... Até as meninas eram daqui de São Paulo. Tinha uns sessenta meninos lá. Eu fiquei umas cinco horas de relógio. Brincando com os meninos. Mexendo com o barro. Contando histórias para eles. Eles eram muito chiques. Meninos e meninas. Tudo. Aí depois, quando vieram embora, a minha mulher pôs um pedaço de broa na mão. A canequinha de café e de bengala, coitada. E tem uma subidinha assim. E tem um topo mais alto. Quando eu a vi gritou: “Tião, encontra comigo aqui.” Era para levar café para mim com broa. Eu falei: “Coitada, Maria. Eu ia descer para lá agora”. “Olha. Vou te dar um conselho. Você já trabalhou muito. Vai tomar um banho e vai descansar. Esse mundo não é nosso.” Eu trouxe um café para você aqui e trouxe a tesourinha para você podar minhas unhas.

 

P/1 – O senhor cortava as unhas dela?

 

R – É. Podava as unhas dela. Quem dava banho nela era só eu. Não deixava uma filha dar banho nela. “Mãe, deixa dar banho?” Filha casada. Que já é avó. “Deixa dar banho na senhora?” “Não. É o seu pai.” Fazia dó. Brincava muito com ela. Você que está certo. Deus Nosso Senhor deixou. É do princípio do mundo. O Adão. Não pode ser mais de uma Eva. Senão é pecado. Deixou uma companhia para um. E um companhia para outro. É o que eu sempre falo. Até para as professoras eu falo. Eu falo: “Gente, namoro é necessário.” Às vezes a pessoa namora com três, quatro. Para casar com uma. Mas tem que pôr bem sentido se ela fala o nome da pessoa com amor. Puxado no dom da inspiração. Pode casar que dá uma tinta. Mas se falar o nome com ar de café margoso. Da boca pra fora, casca fora. Porque daí o casamento dura três anos, quatro anos. Quando vê filho de um lado. Pai para outro. Mãe para outro. Vira um paletó rasgado. (Risos) Agora se falar com amor no coração mesmo. Dá aquela respirada gostosa de falar o seu nome, você não precisa ter medo não. E não ganha nada.

 

P/1 – Seu Tião. Como foi contar a sua história hoje?

 

R – Senhora?

 

P/1 – Se o senhor gostou de contar a história da vida do senhor. O que o senhor achou de contar a sua história hoje?

 

R – Para as senhoras? É porque eu depositei uma consideração. Achei suficiente para saber da minha história. Elas são inofensivas. Não ofende ninguém. Graças a Deus. Nem na moral, nem no físico. Não ofende ninguém as histórias. Pelo contrário. Até distrai um bocado né? Mas na mesma hora que a gente está contando, tem hora que a gente fica meio acanhado. Mas que distrai, distrai.

 

P/1 – O senhor fica acanhado? Eu não percebi. O senhor disfarçou bem.

 

R – Fica, minha filha. Tem hora que a gente acanha um bocado. Que a gente não estudou. Por exemplo, um vestibular. Terceiro ano primário antigo. Às vezes a gente pensa que está agradando e às vezes a gente está desagradando.

 

P/1 – O senhor quer falar mais alguma coisa?

 

R – A senhora quer que eu fale mais histórias?

 

P/1 – Não. Acho que a gente pode ir terminando.

 

R – A senhora que sabe. Eu sou ordenança do povo. Da senhora, dela.

 

P/1 – Não é por isso. A gente pode ficar o dia inteiro. Mas gente desliga e continua. Obrigada seu Tião por ter vindo até aqui contar a história da sua vida.

 

R – Criatura, a hora que a senhor ver que é hora de ir embora a gente vai.

 

P/1 – O senhor está cansado também?

 

R – Não digo cansado. A gente não trabalhou. Não fez esforço nenhum.

 

P/1 – Mas falar cansa também.

 

R – Cansa mesmo.

 

P/1 – Obrigada.

 

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