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História

Último navio para o Brasil

História de: Josef Zucha
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 23/06/2001

Sinopse

Josef conta como a Primeira Guerra Mundial interferiu totalmente na vida de sua família. Aos treze anos ficou órfão. Relembra como começou a trabalhar num escritório de seguros de agricultura, o importante era conhecer todos os lugares do mundo onde se pode comprar e quais são as qualidades das matérias primas daquelas partes do mundo, como aprendeu a comprar e vender, por todas as cidades e países que passou em busca de matéria prima e como foi se fixar no Brasil, mais precisamente no bairro de Perdizes.

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História completa

P/1 – Boa tarde senhor Josef Zucha, diga o seu nome completo, o local e a data de seu nascimento.

 

R – O meu nome é Josef Zucha nascido na localidade Zlesice, no antigo Reino da Boêmia que fazia parte do antigo Império Austro-Húngaro.

 

P/1 – Agora conte pra nós de como era a sua vida lá.

 

R – Logo depois do meu nascimento, surgiu a Primeira Guerra Mundial. Uma guerra mundial muda a vida de todo mundo. O meu pai, naquela época, tinha uns 25 anos, então teria que servir no exército, mas infelizmente voltou gravemente ferido com o pulmão perfurado por bala. O meu pai foi ainda com (Bosfon?), da nossa terra para Viena, onde continuou o estudo e trabalhou. Foi tão esforçado e inteligente que logo se formou um bom acabador de serviços de construção civil. Lá mesmo em Viena ele casou com minha mãe e resolveram voltar para a Boêmia e comprar aí, na região onde nasceram, uma antiga estalagem e hospedagem que eram usadas nos tempos antigos para os transportadores de outras terras, por meio de cavalos e carros. Naturalmente que não existia um caminhão, automóvel. Então havia essas estalagens e hospedagens como paradeiro no caminho. O meu pai reformou tudo neste (sevelo?) imóvel, além da estalagem, ele abriu também um restaurante. Tudo ia muito bem, comprou terras para o cultivo e tudo ia muito bem, mas veio a guerra. Essa guerra modificou totalmente a vida da minha família. Eu era ainda um menino, não percebia tanto o drama da vida. Mas com o pai doente, a minha mãe também ficou doente. A história de minha mãe está ligada com a direção do restaurante, porque naquela época ainda não havia geladeira, e o gelo era trazido e distribuído. Mas num verão muito quente, foi minha mãe que teve que descarregar muitas vezes a carga de gelo, porque os outros estavam na colheita, no verão.

 

P/1 – Eu quero entender uma coisa, o seu pai voltou da guerra doente. E o que aconteceu com ele?

 

R – Bom, apesar da doença, ele se esforçava pra adquirir tudo que se podia comprar para um restaurante, porque havia muita falta. Só os agricultores mais ricos podiam vender. Naturalmente vendiam carros. Então o trabalho dele era procurar arranjar o fornecimento para os clientes, a comida.

 

P/1 – Então o seu pai se recuperou da...

 

R – Ele não se recuperou totalmente, mas a desgraça veio ainda maior com a chegada da gripe espanhola, essa gripe pegou ele e eu. Nós dois fomos internados no hospital. Ele ficou lá seis semanas e eu um mês. Eu, quando voltei, fiquei pouco tempo em casa e depois fui para a escola onde acharam que era impossível eu andar porque já tinha dado como morto. Morria tanta gente que não era novidade morrer mais um. Mas o meu pai voltou do hospital doente e uns quinze dias depois faleceu em casa. Dia seis de janeiro de 1919.

 

P/1 – E sua mãe?

 

R – A minha mãe, apesar de saúde deficiente, tocou o restaurante para frente porque éramos cinco filhos, todos muito pequenos. Ela simplesmente tinha que lutar para sobreviver.

 

P/1 – Então agora, quando foi e porque o senhor imigrou para o Brasil?

 

R – Bom, pelo desejo do meu pai e da minha mãe, devia herdar o patrimônio, o restaurante e as terras, como único filho homem. Mas a morte prematura do pai e da mãe, que faleceu em 1926, nesta época eu tinha só treze anos quando ficamos totalmente órfãos. E isso não dava para eu assumir. Eu ainda estava estudando, então a solução era a filha mais velha casar, e ela assumir. Mas acontece que o marido de minha irmã não tinha bastante recursos para levar para frente o restaurante, então a outra irmã mais moça casou com um homem que tinha dinheiro. E eu vou me virar, vou lutar para pagar, para achar uma outra ocupação. Logo achei um lugar num escritório de seguros de agricultura. Comecei logo a trabalhar. Comprei uma bicicleta e procurava aqueles agricultores por aí, alguns conhecidos e comecei a ganhar comissão, dinheirinho.

 

P/1 – Fazendo o que? Vendendo seguros?

 

R – Vendendo seguro.

 

P/1 – Que idade o senhor tinha?

 

R – Eu tinha dezesseis anos.

 

P/1 – E o senhor vendia seguro?

 

R – Vendia seguro.

 

P/2 – Isso ainda em (Sleftize?), sua cidade?

 

R – Sim, mas o escritório era em outra cidade, onde eu ia geralmente de bicicleta. Bem, eu procurei, ao mesmo tempo, uma possibilidade de estudar. Como lá não tinha essa possibilidade, um dia eu tive uma grande sorte [em] saber que um empresário em Morávia, ou seja, outro reino, que desenvolveu muito a sua indústria. Era um grande progressista, ele teve a ideia de abrir escolas técnicas na indústria para estudar e trabalhar. Para isso ele fez um vestibular em diversas regiões, isso já na Nova República. Na nossa região compareceram mais ou menos oitenta interessados, mas só três foram admitidos, só três foram aprovados.

 

P/1 – Então tiveram oitenta pessoas pedindo vaga?

 

R – Vaga nessa escola e só três foram aprovados. Naturalmente isso para mim significaria uma grande possibilidade de desenvolver melhor, porque o dono da seguradora disse: “Não vai embora, veja, você começou moço, daqui a trinta e tantos anos o senhor pode se aposentar aqui. Vai ter vida muito mais tranquila.” Para mim era muito mais interessante continuar meus estudos. Bom, o estudo tinha duas fases: Primeira só técnica e a segunda comercial. Esta escola comercial me ajudou muito, porque aprendi línguas, aprendi maneiras de comprar e vender, conhecer as leis.

 

P/1 – Senhor Zuca, conte uma coisa que o senhor aprendeu a respeito de vender. De comprar e vender. O que essa escola dizia para o senhor.

 

R – Bom, para comprar, o que interessava a firma era conhecer bem todas as matérias primas necessárias à indústria, que eram muitas. Então eu além de ensino na classe, fazia estágios, classificando as matéria primas, anotando tudo.

 

P/1 – Era uma indústria de que?

 

R – Múltipla. Era uma indústria que podia fabricar de agulha até aeronave, até o avião, porque de fato faziam de tudo. Em princípio começou como fábrica de calçados, e se formou como a maior fábrica da Europa.

 

P/1 – A maior fábrica de calçados da Europa?

 

R – Era a maior.

 

P/1 – Senhor Zuca, tem algumas dessas lições que o senhor aprendeu na sua escola que o senhor lembra, alguma coisa que o senhor aprendeu, que lhe vem à mente, que algum professor lhe falou? Alguma expressão, como comprar, como vender?

 

R - Como comprar dependia do conhecimento profundo das matérias primas, era básico. E a habilidade de comprar dependia do que se aprendeu na escola e nas leituras, porque quando eu terminei o curso, assumi a direção de uma sessão de uma determinada matéria prima. O diretor da sessão, porque era uma direção grande, tinha uns trinta diretores. O diretor desta sessão começou a me mandar para outras cidades onde tinha curtumes e fornecedores para eu ir avaliar, classificar e aprovar o preço. Mas como me dei bem, um dia a firma me mandou bem longe, para Hamburgo, que é um porto marítimo no norte da Alemanha. Lá eu fui encarregado de receber os carregamentos vindos de navio e fazer o mesmo trabalho, classificar e naturalmente promover as reclamações.

 

P/1 – Eu quero entender uma coisa. Quando o senhor disse que se deu bem, o que isso quer dizer. O que o senhor quer dizer com isso?

 

R – O meu trabalho foi bem aceito.

 

P/1 – E o que o senhor fazia?

 

R – Onde?

 

P/1 – Na empresa, naquela sessão.

 

R – Naquela sessão, o importante era conhecer todos os lugares do mundo onde se pode comprar e quais são as qualidades das matérias primas daquelas partes do mundo. Para isso tínhamos a disposição de uma coisa que chamava Cardex, não sei se isso é conhecido por vocês, porque isso existia bem nos tempos quando não tinha outros meios de registrar. Cardex era [para] guardar memórias por meio de uns cartões que eram arquivados em umas pastinhas dentro dos armários. Arquivos por meios de cartões. A minha obrigação era, naturalmente, ler todos os jornais estrangeiros referentes aos negócios, matéria prima.

 

P/1 – Aí o senhor estava dizendo que foi para Hamburgo.

 

R – Sim, fui para Hamburgo ficar uma temporada para receber, classificar e eventualmente fazer reclamações, quando necessárias, e entregava os materiais para outras sessões que embarcavam para as fábricas no interior da Europa.

 

P/2 – Senhor Zuca, voltando um pouco, eu queria saber como era a cidade onde o senhor nasceu.

 

R – A cidade era muito pequena, onde eu nasci. Muito pequena. Mas [um] lugar muito vantajoso porque, vantajoso para uns porque moramos à margem de uma estrada imperial dos tempos antigos, quando não havia ainda ferrovia. Praticamente esta hospedagem era fora da cidade. Na cidade não tinha lugar para abrigar todo mundo, era cidade pequena.

 

P/1 – O senhor se lembra de alguma comida que sua mãe costumava fazer que o senhor gostava muito?

 

R – Bom, as comidas muito apreciadas de minha mãe era, em primeiro lugar, de carne dos animais silvestres. Depois minha mãe sabia fazer os knedlíky que é desconhecido aqui. Uma massa redonda cozida cheia de pequenos pedacinhos de pão bem temperado, depois era servida cortada em fatias. Isso para acompanhar as carnes. Agora as carnes da nossa própria manutenção, era carne suína, principalmente. Se pendurava nas chaminés para defumar com fogo, especial de diversas frutinhas, pegava um gosto muito bom. Era diferente o verão e o inverno, naquelas montanhas atingia vinte, trinta [graus]. Eu fiquei uma vez trabalhando naqueles armazéns com 35 abaixo de zero. Lembro bem que quando voltava para casa, do serviço, quando tirava o macacão ficava de pé, tão duro, congelado.

 

P/1 – A roupa, o macacão?

 

R – O macacão ficava de pé, apenas congelado. É diferente a alimentação [no] verão [e a] alimentação [no] inverno. Porque no inverno pode comer qualquer gordura que não faz mal, como os esquimós que comem gordura a vida inteira e não tem problemas com o coração.

 

P/1 – E que tipo de comida que o senhor comia no inverno?

 

R – No inverno era ________. Não lembro o nome. Era diariamente usado. Até aqui se come, em formas de bolas, folhas bem apertadas que crescem assim em forma de bola.

 

P/1 – Repolho?

 

R – Repolho! Repolho que era muito apreciado, quando o repolho era muito bem temperado. Repolho e carne defumada era o principal.

 

P/2 – E como era sua vida como criança?

 

R – Estamos voltando muito.

 

P/2 – Um pouquinho só.

 

R – Minha vida como criança, não tinha nada de criança, porque devido a situação, com sete anos eu já estava ajudando e cada ano que passava, com mais e mais trabalho. Acontece que a necessidade nos obrigava, eu levantava às quatro horas da madrugada, como faço até hoje. Às quatro horas da madrugada entrava no estábulo para ver a situação. Limpava as vacas e na primavera, verão e outono levava para o pasto às cinco horas, voltava às sete para me preparar para ir para a escola, que começava às oito. Onde que tem vida de criança? A necessidade obrigava, depois da guerra continuou essa vida difícil. Ninguém considerou, é um pecado, uma escravidão de crianças no mundo. Era natural que a criança trabalhasse, mas nunca podia faltar na escola. Se falta um dia, então o responsável é chamado para explicar.

 

P/2 – Que língua vocês falavam?

 

R – Tcheco e depois aprendemos outras.

 

P/1 – Sim, mas a língua de casa era tcheco?

 

R – É.

 

P/1 – Agora senhor Zuca, indo para frente, quando e porque o senhor imigrou para o Brasil?

 

R – Como eu já disse eu não imigrei. Foi a firma, conforme o meu desenvolvimento, a minha aptidão me mandaram primeiro para os países vizinhos, depois para a Europa toda, acabei na Espanha, aprendi um pouco de espanhol. Um dia a firma resolveu: “o senhor vai para o Brasil”. “Fazer o que?”, “pesquisar e comprar”. Isso foi a grande pesquisa e compra.

 

P/1 – Sim, o senhor já tinha ouvido falar do Brasil, como foi isso. A firma falou: “O senhor vai para o Brasil”, como foi essa história?

 

R – Já se conhecia, já tinha gente aqui da firma que faziam compras, não faziam pesquisas, faziam compras. Já se sabia alguma coisa do Brasil, já sabíamos que os couros eram os piores do mundo, mas talvez os mais baratos porque o couro brasileiro, exceto o Rio Grande do Sul, a danificação de somente carrapato. Ele, Marajó e Pantanal são os únicos lugares onde o couro era bom, o restante era muito ruim. Mas barato e valia a pena recortar no uso na fábrica, recortar tudo o que era defeito e jogar fora. Mas o Brasil já era grande e já tinha muita quantidade para vender. A nossa firma era a maior exportadora e compradora de couros brasileiros.

 

P/1 – Quando o senhor chegou no Brasil?

 

R – Eu devo [ter] chegado aqui em 1932 com direção ao Pantanal. Mas houve aqui no Brasil uma levante contra Getúlio Vargas, houve aqui uma guerra. Eu já tinha tudo preparado para viajar, mas o cônsul brasileiro disse: “O senhor não vai chegar ao Pantanal porque o território do Estado de São Paulo está todo em guerra. O senhor não atravessa lá”. “Mas nós precisamos”, “a não ser se o senhor conseguir uma carteirinha de jornalista”, “mas como eu não sou jornalista?” “Mas o senhor já teve alguma atividade jornalística quando estudante? Escrevia alguma coisa?” “Sim”. O encarregado desse setor de passaporte comunicou que conseguiu, mas com grande atraso, conseguiu, para mim, a carteirinha, mas no fim o diretor disse: “Olha, já mudamos de programação, não vai mais para o Pantanal, vai para a Argentina”. Então embarquei com o navio Cap Arcona, na época o mais luxuoso e fui para a Argentina. Parando aqui em Santos por um tempinho, chegamos à Argentina. Fiquei um ano pesquisando e comprando. Minhas viagens iam até os Andes ou para o Sul até as Províncias geladas e até o Norte, para conhecer bem as qualidades de couro, de lã, algodão da Argentina. Mas um dia recebi um curto telegrama que se chamava Telecable, dizendo: “Zuca, viagem para Cacequi, Rio Grande do Sul e faça compras de couros pesados”. Não conhecia nada aqui, mas tomei um avião fabuloso, um hidroavião que saia de Buenos Aires pulando cada pequeno porto até chegar a cidade do Rio Grande, muito interessante essas paradas por lá. Lá, já me esperava um amigo nosso, um cônsul francês que também foi comunicado, eu tive um recebimento muito bom até a junta comercial, a Associação dos Comerciantes fez um jantar, tudo muito bonito, eu segui para Cacequi.

 

P/1 – Só um pouquinho, que ano o senhor chegou no Brasil?

 

R – Em 1935.

 

P/1 – E nesse jantar da Associação, que foi oferecido ao senhor, o que o senhor comeu?

 

R – Isso eu não lembro.

 

R – Comida muito boa, mas como eles me bombardeavam com perguntas, eu esqueci. No dia seguinte eu comi, eu me lembro até hoje, porque esse cônsul francês me levou para um restaurante para macarronada, que eu não conhecia antes. Macarronada na nossa terra não existia. Macarronada muito gostosa, bem temperada. No fim ele que pagou, mas eu perguntei porque era de meu interesse. Cinco mil réis para os dois, fiz o cálculo com o peso argentino. É barato, para esse tipo de restaurante é barato, porque era um restaurante de luxo. Isso foi a primeira comida, agora durante a viagem era bastante acidentada , sabe? Interessante que o trem, à noite, parava para os passageiros irem dormir no hotel para continuar a viagem no dia seguinte. Isso para mim era novidade, não viajávamos durante a noite. Então dia seguinte cheguei a Cacequi.

Cacequi é um importante cruzamento de linhas ferroviárias. Estranhei porque me mandaram a Cacequi, olhei a planta, é porque Cacequi era uma casa com dois, círculos na planta, dava muita importância. Apesar que é um lugar perdido do resto. Couros pesados aqui, onde eu vou comprar? Não comprei nada lá. Então comprei a viagem com volta. Parei em diversas cidades no Sul, a mais importante depois do Rio Grande, é Pelotas, é isso. Pelotas tem um grande frigorífico que faz charque lá. Muito bem, o que eu vou fazer com charque, eu queria couros. Então dali embarquei pelo Lago dos Patos até voltar para Porto Alegre, mandei um telegrama que nada comprei, fora da época. “O que devo fazer?” Resposta depois de uns dias veio: “Vai para Santos, aguarde a chegada do diretor Malota”. Bom, isso eu fiz, viajei bem de navio, confortável, esperei. E agora, porque esse diretor veio? Porque era tão importante mandar um diretor? E ele me contou: “Zuca, você sabe que nossas empresas estão em grande desenvolvimento, já temos 36 fábricas no estrangeiro, não é? Até Índia, nós vamos precisar [de] muita matéria prima e há sempre tanta dificuldade de achar e de negociar, o melhor seria ter nossas bases em grandes países, nossas bases de cultivo, preparo de matéria prima. Então você tem que ver onde, aqui no Brasil, e o que. Como se podia começar com essas bases”. Bom, já conheci alguma coisa, então eu sugeri: “Para árvores taninas, a melhor região é o sul de Mato Grosso e para couro, nós já sabemos, é o Pantanal, para borracha é o Amazonas”, “Então vamos para lá.”

 

P/1 – Foram para onde?

 

R – Fomos de trem, muito vagaroso, depois de dois dias chegamos a Porto Esperança. Lá em Porto Esperança...

 

P/1 – Onde é Porto Esperança?

 

R – Porto Esperança é o final da ferrovia que fica às margens do rio Paraguai, Mato Grosso. Do outro lado é Porto Soares, uns trinta quilômetros é Bolívia. São dois portos: Porto Esperança e atravessar o rio é Puorto Soares. Lá tivemos que pernoitar em Porto Esperança, de manhã cedo andamos pela margem do rio, eu vi muito peixe no chão e curioso eu peguei um pau e mexi com um peixe porque vi que tinha dente, peixe abriu a boca e quebrou o pau. Era piranha. O pescador que me observava ali falou: “Você é ombre di suerte” “Porque?” “Se tivesse mexido como dedo, perderia o dedo”.

 

P/1 – As piranhas estavam fora d’água?

 

R – Vivem horas e horas fora d’água, foram jogadas, foram pescadas e jogadas fora porque se dava muito pouco valor a peixe de piranha, apesar de ser ótimo peixe para sopa.

 

P/2 – E o senhor não imaginava um peixe com dentes, assim?

 

R – Não, ainda mais um peixe que quebra o pau.

 

P/1 – Era pequeno ou grande?

 

R – O tamanho do peixe? Não, era pequeno, uns 25 a trinta centímetros. Chatinho assim.

 

P/1 – E o senhor foi mexer com o pau, poderia ter...

 

R – Podia ter perdido o dedo, mas naquela época, tinha tanto peixe grande...

 

P/2 – O senhor trabalhou aqui no Brasil até 1938, não?

 

R – É, justamente, três anos e pouco.

 

P/1 – Senhor Zuca, conta para a gente, de uma maneira abreviada, como foi esses seus primeiros três anos aqui no Brasil. E o senhor já contou que chegou a Porto Esperança com esse diretor e que o senhor encontrou a piranha pela primeira vez. Mas como foi para o senhor chegar ao Brasil, comer a comida do Brasil, falar português, qual foi a palavra em português que o senhor não sabia que foi uma passagem engraçada no seu aprendizado de português?

 

R – Que me faltou a palavra? Isso me aconteceu só em Cuiabá quando cheguei para falar com o gerente do Banco do Brasil. Devo contar?

 

P/1-2 – Sim.

 

R – Era minha maneira de conhecer o mundo comercial, ter bom contato com os diretores, os gerentes dos bancos. Assim como foi na Europa, foi na Argentina, agora quando precisei alugar um armazém em Cuiabá, fui pra falar com o gerente do banco: “O senhor não conhece alguém que tem um armazém para alugar?” só que eu falei: “O senhor não tem um armazém para alquilar?” “Armazém para alquilar?” Ele me olhou: “Eu não sei o que o senhor está querendo, não entendo a sua língua.” “Um armazém para alquilar?” “Não sei”. Eu lembro: “Um armazém para alugar” “Ah, o senhor quer um armazém para alugar?” Então foi alguma...

 

P/1 – E onde o senhor aprendeu a falar português?

 

R – O português, pelo caminho e pelo livro.

 

P/1 – Quando o senhor chegou ao Brasil, o senhor já falava português?

 

R – Não, não falava nada. Falava espanhol.

 

P/1 –E as pessoas lhe entendiam?

 

R – Entendiam. Gente de boa vontade entende, até gosta. Pelo menos naquele tempo gostava. Agora este gerente do Banco do Brasil foi um malcriado pelo menos, né. Porque lá, naquelas terras, tem muito boliviano e com certeza já ouviu falar sobre armazém ou alquilar. Armazenar é tão parecido com armazém que podia, mas isso já é...

 

P/1 –2 – E depois, o senhor estava em Mato Grosso e foi para onde?

 

R – Eu estava em Porto Esperança, daí no dia seguinte pegamos uma lancha que nos levou para Corumbá. Em Corumbá conhecemos a cidade e os arredores e conversamos muito e o diretor resolveu que não precisava estar mais lá e voltou para a Europa. E eu podia pegar um hidroavião para ir à Cuiabá ou uma lancha. Eu peguei uma lancha mascate que pelo caminho, pelo rio faz vendas e algumas compras do que precisam. Saímos dia primeiro de dezembro de 35 e chegamos em Cuiabá em 24 de dezembro, levamos 24 dias. No dia de Natal, com este calor, porque Cuiabá é a cidade mais quente do Brasil, pode observar quantas vezes é apontado na TV como maior, maior que Teresina. É o mais apontado sempre.

 

P/2 – É, 42, 43 graus.

 

R – Cuiabá, Rio de Janeiro, parece incrível, lugares tão perto e é tão quente, Teresina é ultimamente, o novo estado de Tocantins, Palmas. Não é a cidade mais quente do Brasil, não. É mais agradável porque é rodeado de muita mata, antigamente, verde de abaixar a temperatura.

 

P/2 – Em Cuiabá também tinha muito verde, não?

 

R – Não, o chão era calcáreo, muito calcáreo. Tinha águas.

 

P/1 – Conte para mim como era que o senhor se aproximava de alguém que tivesse uma matéria prima. Como era um dos seus negócios. Como foi a primeira vez que o senhor negociou matéria prima no Brasil?

 

R – No Brasil eu já vinha preparado, já sabia o que tinha aqui, inclusive os lugares conhecidos.

 

P/1 – Eu sei, mas como era o trato de achar pessoas, falar com a pessoa, teve algum fornecedor que virou seu amigo? Com era isso?

 

R – Bom, o primeiro encontro no Pantanal foi na charcada de São Jorge. São Jorge pertencia a um homem muito rico, coronel que criava muito gado e secava a carne, exportava carne seca para a Europa e outros países.

 

P/1 – O senhor lembra do nome do coronel?

 

R - Eu não lembro, isso já faz setenta anos. Na minha primeira viagem que eu fiz, minha primeira compra foi na charqueada deste coronel. Ele vivia mais tempo em São Paulo do que lá. Ele me contou a mansão que tinha lá, era gente muito rica. Agora, lugar que nunca vou esquecer é a crueldade daquela gente do Pantanal e daqueles que viajam. Imagine que nesta charqueada…

 

P/1 - Desculpa, charqueada o senhor quer dizer fazenda?

 

R - … Em Porto São Jorge e lá em ___________ abastecer com carne. Então o dono da lancha comprou um boi trazido amarrado no tronco da árvore e o pessoal ia com faca para cortar, mas não conseguiam porque o boi pulava muito. Então disse o outro: “Ah, então cega ele, ele não vai ver você”. Então ele pegou um pau e cegou os olhos dele. Eu considerei uma maneira muito brutal. Isso aconteceu naquele ponto que eu já falei. Então seguimos a viagem, parando naqueles portinhos. Já me parecia interminável, eu falei para o dono do barco: “Me diga uma coisa, quanto tempo falta para chegar em Cuiabá?” Ele pensou um pouco e disse: “Umas setenta voltas” “Como setenta voltas, eu perguntei quantos...” “Aqui nós calculamos pelas voltas, que o rio tem muita volta, no Pantanal.

 

P/2 – As voltas são as curvas?

 

R – É, curvas, ele falou voltas. Depois ele me perguntou: “Me diga uma coisa, será que eu poderia ir com o meu barco até a sua terra?” Eu pensei: “o seu barco poderia descer o Rio Paraguai até o Rio da Plata e desembarcar ou em Buenos Aires ou em Montevidéu”, “mas onde fica isso?” “Fica no Sul”. Muito ignorante se não sabia nem... “E depois?” “Depois teria que pegar outro navio marítimo” “Não, eu gostaria de ir com o meu navio até lá” “Isso não dá, seu barquinho é muito...” Isso eu nunca vou me esquecer.

 

P/1 – Como era o barco dele, era uma lancha?

 

R – Uma lancha, chatinha, pouco lugar. Então chegamos a Cuiabá.

 

P/1 – Chegamos faz tempo já.

 

R – No dia de Natal e eu fui me acomodar na Praça de Cuiabá, tinha um hoteleco. Mas eu nunca conheci um hotel da praça com quartos separados só até a altura de homem. Não tinha, me parece esquisito, não tem muito. Mais tarde encontrei uma grande casa não habitada que tinha um grande quintal nos fundos. Lá estabeleci nossa primeira base para nossas atividades. Aí, perguntando, coloquei um cartaz, não um cartaz, uma placa escrita na parede mesmo, o nome da firma, Compra e paga bem, uma coisa assim. E assim, devagarzinho alguns vinham do sertão para nos vender couro, peles... Devo continuar?

 

P/1 – Sim, mas me diga o nome da firma.

 

R – A firma, a matriz era BÁT, BAT com acento no A. Coloquei o nome do diretor que veio comigo – Adalberto (Sousek?), era o diretor da divisão.

 

P/1 – Aí vocês compraram terras também ou vocês só alugaram aquela casa? Quando que o senhor chega a São Paulo?

 

R – Como que é?

 

P/1 – Vocês investiram em terras? E quando é que o senhor chega a São Paulo?

 

R – Eram muitas viagens pelo interior, pelo sertão primeiro. A maior compra de terras que eu fiz foi nas margens do Alto do Rio São Lourenço que é nas fronteiras com o Pantanal, rio que divide a terra firme e alagada, fui muito recomendado, se estabeleceu lá um paraguaio, mas sem documento de aquisição. Eu gostei muito do lugar porque era um branco alto que é raro naquelas regiões do Pantanal. Era um branco alto, bonito, mata bonita. De um lado Pantanal e de outro lado terras devolutas. Conhece a palavra devoluto? Terra devoluta era terra do governo, propriedade do governo que vendia essas terras muito barato. Só que lá ninguém se interessou porque tinha pouca gente. E eu comprei dois mil hectares por mil réis o hectare. Só para demarcar o sujeito agrimensor, um alemão pediu dois reais por hectare. Mas como o sujeito era um bebedor, nós levamos três caixas de cachaça, ele bebeu essas três caixas de cachaça durante a medição, mas miserável, ele estava tão bêbado, que na planta, depois de somadas as medidas, deu somente 879. Xinguei ele, quis matar ele, eu quis dois mil e o senhor mediu 879, quando podia medir muito mais, porque eu paguei ao governo na base de dois mil. Então lá foi a primeira noite que eu conheci uma onça, acontece que eu resolvi plantar, lugar muito bom. Resolvi plantar, mas quem vai plantar? Lá na aldeia dos índios Bororos, Aldeia Santa Isabel, acho que tem gente que pode aproveitar para plantio, para derrubada e plantio. Muito bem, ele trouxe uns cinquenta índios Bororos. Primeiro dia, segundo dia ia tudo bem, estavam derrubando, logo depois alguns índios desapareceram, cada vez menos até no fim ficarem vinte mulheres índias. Quem plantam são as vinte mulheres. Índio não queria saber de trabalho pesado, de derrubar. Então um dia ficamos lá atrasados com quem, com um descendente de Bororo, que era guia do Marechal Rondon, que acompanhava Marechal Rondon na construção da linha telegráfica de Campo Grande até Manaus. Foi uma epopéia, porque levou o Marechal Rondon e dez mil  soldados dos quais a maior parte morreu naquelas matas. Morreu por causa das cobras, de doenças, de malária...

 

P/2 – E os índios, porque os índios sumiram?

 

R – Porque índio não trabalhava naquela época, até hoje ele gosta da pesca e da caça, isso ele gosta muito.

 

P/2 – E a onça?

 

R – A onça, um dia atrasou... Atrasou e deixou o pessoal, este Bororo, porque morava do outro lado do rio, “Nós já vamos e o senhor?”, “Eu vou ficar aqui”, “Onde?” “Naquele galpãozinho”. Tinha um galpãozinho onde se guardava umas ferramentas. “Eu vou pernoitar”, “Olha, aqui tem muita onça”, mas o galpãozinho era... Ora nós dormimos muito ouvimos barulho, a onça queria entrar. “E agora, Josef?” tremendo. A onça, de madrugada se cansou. Viu que era difícil entrar, apesar de arrancar...

 

P/2 – A onça queria te comer?

 

R – É. A onça na madrugada, já saindo o sol, foi embora.

 

P/1 – O senhor dormiu?

 

R – Não, como que podia, estava tremendo de medo, um pedaço de onça, puxa vida. Antigamente aquilo era cheio de onças, mas cheio.

 

P/1 – E aí, no dia seguinte, como que foi?

 

R – Dia seguinte o pessoal veio, perguntou e eu banquei o herói.

 

P/1 – O senhor falou que tinha enxotado a onça?

 

R - (risos) Não sei o que é, mas o pior foi na medição. Então para medir dois mil hectares é muita caminhada. À tarde foi decidido: “Nós vamos pernoitar aqui no mato”. Nós éramos seis, três vão ficar dormindo, três vão ficar vigiando. Na segunda noite a maioria ficou bêbado, eu não bebi, eu adormeci. Depois da meia noite eu ouvi um barulho estranho no mato. Eu gritei: “Amâncio, Amâncio”. Amâncio nem respondia, adormecido. Mas um outro ouviu e eu falei: “Parece que tem algum bicho”, “Ah, tinha, tinha uma onça, mas já foi embora”. No terceiro dia chegamos às margens do rio, de volta. Nós saímos da margem, fizemos a linha dos fundos, ele deveria ir em linha reta para o rio, mas como bêbado ele não desenhou bem o rio, [ao] invés de ir direto, ele foi para lá, acompanhando o rio. Por isso que demoramos três dias. Cada aventura.

 

P/1 – Conta para nós uma das mais importantes viagens. A que mais lhe marcou, aqui no Brasil.

 

R – Eu pensei em viagem lá pela zona do Pantanal. Uma viagem que lembro bem é a viagem de Cuiabá para Poconé daí para Porto… Ai, como é o Porto? Outra viagem seria...

 

P/2 – Senhor Zuca, conta essa viagem de Corumbá até Poconé. Porque ela foi tão interessante?

 

R – Não, de Cuiabá. Esta viagem era de Cuiabá até Cáceres, São Luiz de Cáceres, era no rio Paraguai. De Cuiabá para lá tinha que atravessar o Pantanal, então escolhi o tempo de seca, porque no tempo de chuva era muito difícil. Bom, nessa viagem saindo de Cuiabá, no fim do dia paramos numa localidade que me surpreendeu. Fui andando cheio de porcos pela aldeia, pernoitamos lá e o dono parece que era o cacique da aldeia disse para mim: “Sabe que as nossas bananas são as melhores do mundo?”, “São boas as bananas, mas o senhor já viajou pelo mundo?”, “Não, nunca saí daqui”, “Mas como o senhor sabe que são as melhores do mundo?”, “Eu gosto, são boas bananas”, “Sim, são boas, mas não são as melhores do mundo”. Ele ficou bravo comigo. Bom, viajamos, chegamos a Poconé, que naqueles tempos era uma aldeia misteriosa, porque o chão era todo de metais, naquela época ninguém prestava atenção, só recentemente nos últimos... Era tão interessante pisar no chão de metais. Hoje está tudo explorado, tudo arrasado, não existe mais. Procura de ouro, procura de outros metais, arrasaram. Uma aldeia tão bonita…

No dia seguinte saímos e no fim da tarde tivemos que acampar. Acampamos no limite de uma mata, já no mato. Ah, nós fizemos um grande favor para duas moças que em Cuiabá eram professoras e deviam assumir em São Luiz de Cáceres. Pediram muito para levar junto. Bom, no fim concordei, mas no meio da noite um terrível barulho no mato, e as moças gritando. Um animal passou rente de nós e foi embora. Como era muito escuro eu não vi, mas o guia falou que pelo barulho deveria ser uma anta. Dia seguinte, pelos conhecimentos das marcas, de fato duas antas, mas que fizeram tanto barulho que as duas moças ficaram simplesmente daquele jeito.

 

P/2 – Senhor Zuca, vamos adiantar um pouco. A gente já sabe que o senhor ficou no Brasil até 1938. E porque o senhor resolveu voltar para a Europa?

 

R – Acontece que um dia, de madrugada, eu ouvi na rádio, pegando de Buenos Aires, e mais tarde também, nas rádios de Filipinas, as notícias que o Hitler estava ameaçando a Tchecoslováquia, gritando que vai arrasar essa terra, se os tchecos não cederem a parte dos Sudetos. A parte dos Sudetos era terras onde os tchecos chegaram 1.600 anos antes, naquela época de mudança de nações. Acontece que os mongóis, todos os mongóis que viveram no século, que iam para o oeste, conseguiram conquistar vários territórios da Ásia, das planícies russas, etc, e diante disso, os habitantes das estepes, eslavos, foram mudando para oeste. Uma destas chegou até o coração da Europa, um lugar muito bonito, cheio de mata, cercado de montanhas, então o povo ficou lá, se instalou naquelas terras. Não tinha ninguém morando lá. Os germânicos ficaram para o norte, os romanos para o sul, os visigodos para oeste. Aquelas terras ficaram totalmente livres, e lá se estabeleceu o povo tcheco.

 

P/2 – Mas e o Hitler com isso?

 

R – Isso aconteceu no ano quatrocentos, mais ou menos. O Hitler queria as terras para ele, as terras ocupadas pelos imigrantes alemães. Desde mil anos atrás vinham os alemães para se estabelecer naquelas fronteiras.

 

P/2 – Nos Sudetos?

 

R – Chamados Sudetos.

 

P/2 – Mas assim, o Hitler tinha essa desculpa para invadir, daí ele invadiu ou ia invadir? E o senhor simplesmente saiu do Mato Grosso e voltou para a Europa?

 

R - Não, eu saí antes, diante desta notícia da rádio, eu matutei, matutei e disse: “O que eu estou fazendo aqui, se minha pátria está ameaçada?” Então resolvi voltar para me alistar como todos os bons tchecos fizeram.

 

P/2 – E quando o senhor chegou na Tchecoslováquia, o Hitler já estava lá?

 

R – Não. Não estava lá, mas sempre gritando. Entretanto as potências estavam negociando com Hitler, mas nós fomos traídos pela França. Porque pela França? Porque no fim da Primeira Guerra Mundial, a França, para se defender no futuro, ela fez um trato militar com a Tchecoslováquia. Tchecoslováquia do lado oposto da Alemanha que ________ Alemanha entre a Tchecoslováquia e a França.

 

P/2 – Mas o senhor chegou lá e foi para o exército tcheco, era o exército ou era uma guerrilha?

 

R - Exército ou o que?

 

P/2 - Ou a guerrilha? Não, o senhor pegou em armas?

 

P/1 - O senhor chegou a pegar nas armas?

 

R – Não, aconteceu o seguinte. Eu fui me alistar e me disse o oficial: “O senhor não tem nenhum preparo, o senhor não pode simplesmente ser convocado, o senhor viveu toda a mocidade no estrangeiro. O senhor não tem preparo, o senhor precisa primeiro ter exercícios, o senhor aguarde, o senhor vai ser chamado”. Mas eu não fui chamado, eu fui visitar, cheguei até as fronteiras para visitas nas trincheiras, o meu tio... Porque me foi bem descrito onde encontrar ele. Não havia ainda guerra, mas eu cheguei naquelas trincheiras, fiquei lá uma noite, porque não podia ficar mais. Então todo mundo preparado com armas, para defender a pátria, mas entretanto nas negociações nós fomos vendidos, simplesmente a França negou de nos defender. Inglaterra...

 

P/2 – E quando os alemães entraram vocês lutaram contra os alemães?

 

R – Não, lutamos, mas foi individualmente, não como exército. Individualmente morreu muita gente, principalmente na...

 

P/1 – E porque não lutaram como exército?

 

R – O exército devia ser retirado. Foi feito um contrato entre, um acordo entre França, Inglaterra e Itália.

 

P/2 – Era impossível resistir?

 

R – Era impossível. Imagine, como resistir contra... Os tchecos eram dez milhões, alemães oitenta. O exército alemão já estava sendo preparado há dez anos. Eles tinham tudo nas mãos. Eles ocuparam a Áustria em poucos dias. A Áustria também não queria, primeiro pensava em resistir, não resistiu e Hitler entrou e pronto.

 

P/2 – Quando Hitler entrou na Tchecoslováquia o senhor ainda estava lá?

 

R – Sim, ainda estava lá na firma dirigindo uma sessão antiga de...

 

P/2 – O senhor viu os exércitos e tudo?

 

R – Bom, eu, quando cheguei, e depois de falar com os diretores, contar a eles o que aconteceu, eu fui residir na cidade de Otrokovice, onde eram os depósitos de matérias primas e um escritório antigo. Mais ou menos vinte quilômetros da cidade matriz. Lá eu aluguei um quarto num hotel esplendor, luxuoso da firma. Um dia, de madrugada, houve muito barulho, levanto, olho da janela e lá estava o exército alemão todo, ocupando arredores.

 

P/2 – O senhor disse que quando o senhor viu estava o exército alemão inteiro.

 

R – Cheios de soldados com canhões, com tanques, tudo cercado. Acabou todo o protetorado, porque primeiro acordo era fazer o chamado protetorado, que a Alemanha vai proteger a Tchecoslováquia, mas isso foi em outubro. Em 29 de fevereiro do ano de 39, entrou o exército de todos os lados. De norte, sul, leste e oeste, de todos os lados entraram com soldados. Porque a República Tcheca era o coração da Europa e ficava cercado de todos os lados, pela Alemanha, compreende? E nós lá no meio. Acabou. Acabou o protetorado, agora é ocupação mesmo. Mas a vida continua, a fábrica produzia, nós tratando de conseguir reservas de alimentos. Fiquei lá até junho. Em junho me chamou o diretor da divisão, Doutor Malota me chamou: “venha cá” e logo fui lá, fechou o gabinete e contou pra mim: “Olha, a nossa situação está ruim. Daqui pra frente precisamos pensar mais no futuro, o que vamos fazer. Nós resolvemos mandar para fora algumas pessoas para administrar e dirigir as filiais no exterior, sempre com referência nas matérias primas, porque as fábricas tinham as suas direções dirigidas de Londres. O senhor assume a direção da América do Sul, o (Fuka?) assume territórios asiáticos e o (Dvorak?) assume África. Sempre digo, com referência às matérias primas. Porém, me disse, acontece que o pessoal de fora está mandando embarques de matérias primas, essa matéria prima não pode chegar nas mãos dos alemães. Você lá fora deve sustar e mandar esses embarques em lugares seguros. Por exemplo, lugares seguros seriam os países nórdicos, o que eles estavam muito enganados. Alemanha avançou, não é. Mais seguro seria no Círculo Polar, na cidade de Bergman. Para lá eles não vão chegar (risos). Fantasia não! E eu imediatamente tinha que sair. O carimbo no passaporte permitindo... “Isso nós arranjamos, isso nós arranjamos, amanhã tem que sair”. De fato, no dia seguinte, recebi passaporte carimbado pelos alemães. Naturalmente tudo isso custa dinheiro. Dois dias depois estive desembarcando em Holanda. Lá começou meu trabalho, o que podia fazer, o que era possível, o que era impossível, paciência. Mas embarquei muitos couros lá em Bergman, no Círculo Polar. O que ficou no outro ramo, na Holanda, tudo ficou perdido logo depois. Bom, isso foi no fim de junho. 29 de julho do mesmo ano, Hitler invadiu a Polônia com aquela famosa “Blitz Crick”.

 

P/2 – Aí começou a Guerra de verdade.

 

R – Britz é fogo, arrasou com a Polônia, mas arrasou em poucos dias. Polônia ficou arrasada e o tempo... Ah, diante da invasão da Polônia, a Inglaterra e a França declararam guerra à Alemanha, só depois da invasão da Polônia.

 

P/2 – E nesse dia o senhor estava onde?

 

R – Sempre em Rotterdam. Rotterdam que depois ficou bombardeada, destruída com aviões alemães.

P/2 – O tal do último navio que o senhor pegou, foi de Rotterdam para onde?

 

R – De Rotterdam para o Brasil. É o seguinte, eu tive boas ligações com diretor da grande viagem marítima, quero dizer. Tem outra palavra para isso.

 

P/2 – Companhia?

 

R – Companhia de navios grande, se chamava Room American Zuid. Zuid, em holandês, quer dizer sul. Eu tinha bons relacionamentos, porque? Porque ele era de origem, falava muito bem tcheco e simplesmente se tornou um bom amigo. Até no Natal ele fez jantar, ele era sozinho, não tinha família. Numa noite de fevereiro, era sete de fevereiro, ele me telefonou; “Josef, nós estamos mandando para fora o último navio para salvar, vai vazio, vai só levar duzentas toneladas de cimento como rastro e vai ter duas ou três famílias judias, se você quiser aproveitar, é a última chance, mas você tem que estar lá hoje a meia noite, no porto”. Puxa, como eu corri. Eu cheguei lá a meia noite no porto, até hoje eu lembro, um relógio grande marcando também a temperatura, vinte abaixo de zero, muito frio. Bom, recebi sopa quente, tudo muito bem, instruções de como devo pôr os salva-vidas e como as outras eram mulheres judias, um velhinho, todos deviam dormir com salva vidas. Eu não dormi muito pensando o que eu ia falar para os ingleses. Na madrugada, atravessando o canal da mancha, já vimos navios afundando por meio daquelas minas magnéticas que o navio feito de ferro...

 

P/1 – Bom, Senhor Zuca, só para finalizar essa parte, o senhor disse que estava no último navio, saindo de Rotterdam e pensando no que o senhor ia falar para os ingleses. O senhor estava vendo navios serem afundados pelas minas.

 

R – O navio saiu depois da meia noite e os poucos passageiros, que eram um casal de judeus muito velhos e uma senhora com duas crianças, portanto, comigo ao total de cinco passageiros só. Naturalmente, nesta noite ninguém não dormiu pensando nos perigos que nos esperam no mar, naquela época os alemães estavam dominando os mares com suas minas magnéticas, que era o pior inimigo no início. Tinham navios de guerra por toda à parte, mas os ingleses também estavam lá vigiando. De madrugada, avistamos muitos navios meio afundados ou para afundar. Chegou e subiu a bordo uma equipe de ingleses para vistoriar o navio. Chegou a minha vez, o que eu vou falar para eles? Mas foi muito fácil, porque o passaporte comprovava que eu sou tcheco e que eu estou indo para o Brasil para trabalhar lá. Muito bem, nossa viagem continuou, felizmente não encontramos uma mina por perto. O perigo cessou, o capitão falou: “Daqui para frente não precisam ter medo.” Isso foi no golfo, esqueci o nome.

 

P/1 – Então a viagem foi tranquila e agradável?

 

R – Só quando chegamos em Santos, a temperatura no fim de fevereiro era muito alta, 42 graus marcou no porto. Eu esqueci de mencionar que no dia quinze de fevereiro já no mar o capitão descobriu que eu nasci no dia quinze de fevereiro, então ofereceu um almoço especial. O salão era muito pequeno porque era destinado só para os oficiais e era navio de carga, mas almoçamos sempre junto com o capitão. Nos dias frios, ainda foi servido sempre o Consommé bem quente. Depois já não era necessário, já fazia calor. Ele mandou tocar um disco, eu gostei muito, mas era música, para mim, desconhecida. Peguei o disco e estava escrito em tcheco, chamado Skoda Lásky, traduzido Baile de Chopp. Todo dia eu ouvia barulho de Chopp, porque era uma música nova, muito alegre. Chegando em Santos, fomos diretamente para o Hotel chamado Santos, no centro muito bom, encontrei lá um casal de patrícios que fazia parte, mas acontece que aquele calor, de repente do frio de vinte abaixo [de zero], me deixou meio doente. Incômodo intestinal foi uns dias ruins. Depois fomos, junto com aquele casal, alguma casa para morar em São Vicente. Achamos uma casa com grande quintal e nunca esqueço que num domingo, descansando embaixo de uma árvore, de repente caiu um fruto, para mim desconhecido, era jaca.

 

P/1 – O senhor estava descansando debaixo de uma árvore de jaca?

 

R – De jaca. Ela espatifou no chão. Mas felizmente tinham outros frutos.

 

P/1 – O senhor ficou assustado quando viu a jaca caindo no chão?

 

R – Como?

 

P/1 – O que o senhor sentiu quando viu a jaca cair no chão?

 

R – Susto, porque fez um grande barulho e eu meio adormecido, mas tudo bem.

 

P/2 – O senhor comeu a jaca?

 

R – Comi, gostoso. O que mais gostei [é] aquela fruta de pão.

 

P/1 – Ah, fruta do conde?

 

P/2 – Não, é outra coisa.

 

P/1 – Pinha?

 

R – Não, fruta de pão. A praia era distante, quinhentos metros ou mais. O quintal muito bom. Eu ocupei um chalé dentro deste jardim. O casal me levou para Ilha Porchat, uma maravilha naqueles tempos, admirei a riqueza da flora, fantástico. Naquela época não tinha uma estrada pra automóveis, só as trilhas e um caminho de pedras, mas gostei muito da Ilha Porchat, pena que aquela beleza se perdeu, ocupado com edifícios, é muita pena.

 

P/1 – Senhor Zuca, conta uma coisa para mim, o senhor morou em Santos?

 

R – Nos primeiros morei lá até que...

 

P/1 – E o senhor comia o que lá?

 

R – A comida era muito variada, porque almoçávamos no Hotel Santos, comida muito variada. Agora café da manhã era na pensão, muito boa a pensão, naquela chácara.

 

P/1 – Que pensão, que chácara?

 

R – Aquela chácara que tinha um grande quintal e que era longe da praia. Éramos poucos os moradores, o casal e eu, de vez em quando visitas. Mas muito agradável e barato, pagava doze mil réis por dia.

 

P/1 – E quando é que o senhor veio morar em São Paulo?

 

R – Em São Paulo fui morar dois meses depois, porque a filial de Santos foi fechada, devido a situação, falta de atividades antigas. Fui morar no Hotel City, que era hotel novo, perto do Parque da Estação da Luz, Parque da Luz, Estação da Luz. Se morava muito bem, eu infelizmente aluguei dois quartos que depois ficaram unidos, porque eu levei parte do escritório para continuar futuras atividades. Depois eu me mudei para uma pensão de uma viúva na Barão de Itapetininga, esquina com Praça da República.

 

P/1 – Como era o centro de São Paulo naquela época, comparado com o da Europa. Como era para o senhor, estar no Brasil?

 

R – São Paulo não era muito diferente da Europa. Naquela época, São Paulo era tranquilo, limpinho. Imagine, no verão, à noite, passavam carros de pipa para lavar as ruas e para refrescar, tudo agradável. Ficamos no escritório da Rua Líbero Badaró. Daí que começou o trabalho, porque chegou fugitivo da França, um dos diretores que dirigia a fábrica na França chegou com novidades. A firma BÁT, um riquíssimo dono de transporte marítimo comprou treze fazendas que tinha aqui pela linha sorocabana, atravessando o Rio Paraná, entrando no Mato Grosso do Sul. É um negócio interessante, caminho por onde vinham as boiadas do Mato Grosso do Sul para serem abatidos no Estado de São Paulo, principalmente no Estado de São Paulo. Eles mantinham essas fazendas, principalmente no Mato Grosso do Sul como descanso dessas boiadas. Alimentação e descanso. As boiadas ficavam nessas fazendas pastando e depois de alguns dias continuando a viagem até chegar a Porto Epitácio no rio Paraná. Daí o gado foi embarcado nos trens para São Paulo. Então tinha essas treze fazendas, além de negócios de armazém, somando todas estas listas davam uma área de 492 mil hectares. Chegando este diretor da divisão, ele elaborou um plano para a futura base de criação para obter os couros, porque a ideia era essa: o Hitler não vai ganhar esta guerra, ela pode demorar quatro ou dez anos, mas ele não vai ganhar. De fato, a guerra acabou em praticamente seis anos. A ideia era ótima, imagine criar gado numa área somada de 492 mil hectares.

 

P/2 – Senhor Zuca, desculpa, o trabalho do senhor era mais no interior ou na capital mesmo?

 

R – Mais interior. Eu era destinado como inspetor de todas as fazendas, de toda a navegação que a firma tinha pelo rio Paraná de Porto Juquiá até Foz do Iguaçu, transportando não somente cargas, mas principalmente os turistas. Então como inspetor, devia estar a par do que acontece em todos esses lugares, nas treze fazendas, nas plantações nas cidades de Martinópolis e Indiana e outros pela Sorocabana.

 

P/2 – Eu queria saber mais da sua vida pessoal, como era essa coisa do senhor viajar?

 

R – Minha vida pessoal era bastante simples, como solteiro. Viajava, fazia relatórios e vinha para São Paulo a cada quinze dias para trocar ideias.

 

P/1 – Onde o senhor estava morando em São Paulo nessa época?

 

R – Eu já falei, naquela época das fazendas eu estava morando na Barão de Itapetininga, esquina com Ipiranga que estava terminando a construção. O melhor prefeito de São Paulo, de toda a vida, o Prestes Maia estava reformulando o centro da cidade.

 

P/1 – Como era um dia em São Paulo pro senhor, tinha algum lugar que o senhor frequentava, que conhecia o garçom?

 

R – Sempre quando eu podia, saia para fora. Um dos lugares mais visitados era o Parque da Água Branca porque neste parque estava instalada a Secretaria de Agricultura. Naquela época se falou de uma árvore de muito futuro no Brasil, era o eucalipto, trazido da Austrália. E o governo de São Paulo, através da Secretaria da Agricultura, plantou milhões de sementes, principalmente no horto florestal, então isso foi bom para a nossa companhia que devia, no início, na linha Sorocabana, em Mato Grosso, e muitas vezes as locomotivas não tinham mais lenha para continuar viagem, estavam correndo por fora, porque infelizmente as árvores foram cortadas para lenha e falta depois para as locomotivas. Então o plano era este: plantar um milhão de eucaliptos desde a cidade de Martinópolis até a cidade de Tibiriçá.

 

P/1 – Só para entender, quando o senhor falou que sempre ia para fora, ia para o Parque da Água Branca, porque o Parque da Água Branca era fora da cidade naquela época?

 

R – Não, o Parque, na época, já era bastante integrado na cidade, depois que ele foi aumentado, com a compra das terras da Burchard, aumentou para dezoito mil hectares, que foi infelizmente diminuindo, cedendo terras para repartições como de turismo, etc. Voltando a Secretaria de Agricultura, o secretário era filho do Senador da República Vergueiro, paulista muito conhecido.

 

P/2 – Senhor Zuca, porque o senhor ia passear no Parque da Água Branca?

 

R – Primeiro que no Parque eu tratava do fornecimento das mudinhas, eram pequenas mudinhas que embarcamos em centenas de vagões lá para a Sorocabana.

 

P/1 – O senhor era responsável pela importação de eucalipto para o Brasil?

 

R – Eu não, o eucalipto ficou conhecido, não sei como, mas a Secretaria de Agricultura começou o plantio por meio das sementes.

 

P/1 – Como era a sua vida em São Paulo com a comunidade tcheca? O senhor conhecia muita gente?

 

R – Eu não tive muito tempo para visitar esta sociedade, só quando fiquei livre destes encargos, naqueles tempos os sócios da sociedade, antigos imigrantes do século passado, geralmente gente humilde que saiam da Tchecoslováquia para procurar vida melhor, mas encontraram vida dura, mas alguns se destacaram, em 1875 fundaram esta sociedade. 1895.

 

P/1 – Então ta.

 

R – Espera, espera...

 

P/1 – Então Senhor Zuca, as datas agora não são tão importantes, eu estou querendo descobrir como era seu dia-a-dia. O seu cotidiano. Então, o senhor conhecia os tchecos de São Paulo ou não conhecia?

 

R – Eu conhecia os tchecos, quando podia eu visitava, apesar que o primeiro encontro não foi muito agradável. Uma noite, quando cheguei pela primeira vez, todo mundo já bebendo cerveja e aparece um de uma empresa rica, o que queria fazer aqui? Eu aceitei um chopp e fui embora.

 

P/1 – Apareceu um de uma empresa rica, como assim?

 

R – Eu, da firma BÁT fui considerado um homem rico.

 

P/1 – E perguntaram...

 

R – Estavam todos meio tocados e eu não conversei muito, só mais tarde fui procurado para ajudar, mas depois quando já fiquei em São Paulo, já trabalhei muito lá pela sociedade. O fato é que recebi uma carta um tempo atrás, que os únicos sócios... Somos só três que receberam diploma de sócios honorários, só três. Tinha mais dois já falecidos, sobre isso tenho, sobre as atividades da sociedade tenho um livro datilografado, onde descrevem também minha atividade e depois recebi a...

 

P/1 – Quando o senhor se desligou da empresa, o senhor mencionou no seu depoimento anterior que abriu uma pequena fábrica.

 

R – Era uma pequena fábrica porque tínhamos muito pouco dinheiro.

 

P/1 – Conta pra nós, rapidinho, como foi essa fábrica, como foi essa ideia de criar essa fábrica?

 

R – Bom, a ideia da fábrica, no início, quando nós saímos da empresa, naturalmente pensamos numa nova ocupação, o patrício disse: “Olha, não me quer como sócio, gostaria muito”. Começamos os dois. Como tínhamos certas possibilidades de importar tecido da Inglaterra, começamos com esta importação pretendendo, além de vender tecidos, também fabricar capas para mulheres, de moda. Mas infelizmente esse negócio acabou logo porque a Inglaterra proibiu a exportação de tecidos que precisavam para os soldados. Bom, começamos a procurar outra atividade, nós alugamos um apartamento na Avenida Ipiranga que tinha três dormitórios e um salãozinho e de um dos dormitórios fizemos escritório. Um domingo eu li o jornal Estadão, seção oportunidades e chamou atenção “Vende-se uma fábrica de palha de aço”, na rua Santo Antônio, número 740 e tantos. Eu falei para o meu sócio que estava junto: “Leia esta página de novo, o que achou?” “Não achei nada” “E o que você acha deste anúncio?” “Interessante, vamos lá amanhã, na segunda feira”. Era uma fábrica tão diminuta que não sei, deviam chamar fábrica, ou oficina, produzia palha de aço, mas num sistema muito rudimentar. O homem falou que precisava mudar para a praia porque sofria do coração, mas depois eu soube que estava quebrado, que precisava vender. Compramos, não pechinchamos muito, compramos, metade a vista, metade a prazo. O meu sócio que era mais técnico ficou na fábrica e eu na rua. Quer dizer, o que era meu: comprar e vender.

 

P/1 – Tá. O que o senhor sempre fez, comprou e vendeu.

 

R – Sempre isso.

 

P/1 – Como era sua relação, o senhor já conhecia os vendedores? As pessoas pra quem o senhor ia vender?

 

R – Não, não conhecia ninguém. Primeiro entrei na parte de lojas da... Bairro dos cerealistas, chama lá. Mas além de cereais, compra e vende tudo, de alimentação principalmente. Comecei a vender lá, naturalmente tinha que falar muito porque tinha concorrentes e desenvolvia as vendas, contratei rapazes na porta do Jornal Popular, Diário Popular que era no centro da cidade, sempre procurava meninos de algum preparo. E assim procurava formar um pequeno grupo para a fábrica que deveria aumentar, e comecei a viajar. De novo viajar o Brasil todo. Viajando, viajando e meu sócio sempre me dando parabéns quando voltava com as encomendas, com pedidos. Estava ansioso de aumentar a produção, precisavam de pedidos. Eu ficava semanas e semanas lá fora. Como faltava dinheiro, muitas vezes dormia na praça pública, nos bancos.

P/1 – Porque o senhor não tinha dinheiro?

 

R – Não tinha dinheiro, para eu ganhar dinheiro para viagens e para comida, comprava bugigangas aqui na cidade e enchia a mala para vender bugigangas... É a minha esposa?

 

P/1 – A gente tem que acabar.

 

R – Na Rua Santo Antônio, mudamos para a Rua Sete de Abril, perto da Estação Roosevelt, mas alugado. Desenvolvemos artigos sempre novos, novos até atingir seiscentos artigos. Meu sócio infelizmente faleceu em 59, com 59 de idade porque nasceu em primeiro de janeiro de 1901, infelizmente, porque foi uma pessoa que me fez falta. Mas eu continuei, mudei para o Bairro de Belém, mais tarde comprei a fábrica que estava alugando, comprei, era grande 1575 já era fábrica, já era coisa grande.

 

P/1 – O senhor estava contando pra gente que o senhor vendia badulaques.

 

R – Eu tinha que vender para pagar minha viagem. Eu ficava semanas, isso pagou e quando não tinha dinheiro dormia no banco.

 

P/2 – Senhor Zuca, o senhor namorava muito?

 

R – Olha, eu não namorava ninguém nos primeiros anos de atividade até que em 44 encontrei na Represa de Guarapiranga, num restaurante onde ia almoçar - é que eu tinha um pequeno veleiro - eu cheguei até lá e ouvi falar tcheco e comecei a conversar. E tinha uma mocinha com eles, e se tornou simplesmente namoro e em 46 o casamento.

 

P/1 – O senhor nunca pensou em voltar pra Europa? Voltar para a Tchecoslováquia?

 

R – Eu ia, estava planejado, porque gostava muito da Tchecoslováquia, e já estava tudo combinado que o meu sócio vai ficar no Brasil e eu vou abrir filial Brasil - Tchecoslováquia lá. Acontece que quando terminou a guerra em 45, nós conseguimos importar para o Brasil, 45 vagões de batatas para semente, porque a batata perdeu a qualidade que se renovava somente com novas sementes de fora. Hoje talvez já tenham outra, mas antigamente a semente tinha que ser importada. E nós conseguimos importar 45 vagões cheio de batata. Tudo muito bem aceito, só um que depois, foi o dono do supermercado, aquele famoso até hoje, o primeiro em São Paulo, como se chama?

 

P/1 - Pão de açúcar?

 

R - Hã?

 

P/1 - Não importa.

 

R - Este veio até a fábrica e falou: “Eu não fico com essa semente. Eu vi a bordo do navio e está tudo brotado.” “Mas que bom que está brotando, o senhor achou ruim, essa batata é para semente, se vem brotada melhor, pior seria sem broto.” “Não fico, eu não compro batata para plantar, só para comer.” E assim nós ficamos com um vagão de batata para distribuir, para consumir. E depois aumentamos contatos entre o Brasil e Tchecoslováquia. Primeira exportação do Brasil para a Tchecoslováquia, era óleo de menta. Naquela época muito procurado para diversas finalidades, na Tchecoslováquia e de lá nós importamos outros produtos, intercâmbio que estávamos desenvolvendo. Então foi decidido, o (Diva?) devia ficar aqui no Brasil, que ele estava com a esposa, morando muito bem e eu vou para lá. Escrevi para o meu tio: “Compre algum terreno no seu bairro”. Ele comprou, comprou tijolos, etc. Era para começar lá. Mas em 48 chegou o comunismo. Acabou nosso projeto, totalmente. Primeiro, nós não vamos apoiar comunistas, nós não vamos trabalhar com comunistas. E como os comunistas planejavam, né.

 

P/2 – Eu quero fazer duas perguntas para o senhor bem rápido. A primeira pergunta é a seguinte: o senhor tem algum sonho? Alguma coisa que o senhor queira realizar?

 

R – Sonho? Já perdi todos os sonhos, o último sonho que eu tinha como presidente da Associação Amigos do Bairro, arborizar este bairro, mas apesar de minha luta, apesar de grandes progressos, no Parque da Água Branca, no que se refere ao plantio, perdi toda a ilusão porque 90% dos que podem plantar são ignorantes, eles não sabem o que significa uma árvore, que o homem precisa. Imagina se a Escola Batista... Já em 92 eu fiz um projeto para plantio de noventa árvores, “Agora não vamos gastar dinheiro”. Mesmo assim eu plantei, com ajuda de professores, uma dúzia e o diretor, tão ignorante, que não acha necessidade. As calçadas estão secas, nós aqui dentro plantamos.

 

P/2 – Como chama esta Associação?

 

R – A Sociedade Amigos de Perdizes.

 

P/2 – Há quanto tempo o senhor está nesta associação?

 

R – Desde que eu fundei a Associação em 88.

 

P/2 – O senhor que fundou a Associação?

 

R – Eu que fundei, eu tenho toda a documentação, foi o presidente, depois presidente honorário, infelizmente caiu nas mãos de políticos.

 

P/2 – E hoje o senhor está fora da Associação?

 

R – Não estou fora porque sou presidente honorário e ao mesmo tempo faço certa publicidade para eles, falo sobre necessidade de ter uma boa Associação aqui, para melhorar o nível de vida. Estou disposto de ajudar algum elemento que estaria disponível para trabalhar, ele e os outros em conjunto, porque este pessoal que está lá agora que entrou por meios de...

 

P/2 – Em que ano o senhor mudou para esse bairro?

 

R – Para Perdizes em 81.

 

P/1 – O bairro mudou muito desde 1981?

 

R – Pouco, somente o crescimento de prédios. De resto piorou, porque piorou? Porque só se cortam árvores, corta quintal, se destrói jardim, fica cimento e pedra.

 

P/1 – Deixa eu lhe perguntar uma coisa, porque o senhor se preocupa tanto com as árvores?

 

R – Porque o meu pai já se preocupava e lá na minha terra, nossa terra antiga tem cinquenta/55% coberto de verde. Aqui, o Estado de São Paulo tem 2,5%, mas o homem para ter uma vida mais sadia precisa de quatro árvores para purificar o ar. E já comprovei que a quantidade de árvores diminui até 8%, oito graus de temperatura, além da beleza, tem essas vantagens práticas. Lutei muito e fui traído.

 

P/2 – Senhor Zuca o que ficou para o senhor da tradição tcheca? Comida, dança...

 

R – Não, isso infelizmente não participo mais da vida da sociedade.

 

P/1 – Não, pro senhor. Na sua vida cotidiana, tem alguma tradição que tenha ficado?

 

R – Enquanto minha esposa estava melhor de saúde ela fazia pratos fabulosos, que eu sempre digo, um dia vamos voltar àqueles ______________, as comidas... Se eu tivesse três anos a menos eu iria abrir um restaurante tcheco para o povo conhecer, não comer sempre a mesma coisa. Todo dia eu como arroz e feijão, todo dia. O primeiro prato do dia são cereais, sempre, já calculado. Duas de feijão, uma de arroz, duas de fibras. Todo dia, eu sofro, comida brasileira. Para umas eu já gosto, para outras... Eu espero que minha esposa fique melhor...

 

P/1 – O senhor não sabe a receita de nenhum prato, sabe?

 

R – Para falar hoje, não. Um dia quem sabe encontro nos papéis receita de comida saborosa. Quer dizer, cada nação tem nação... A senhora não acha... Nas quintas e sábados não temos a feijoada? Naturalmente muita feijoada não é tão boa como deve ser, mas a feijoada é um prato muito bem... Quem pode, eu não posso porque contém muita gordura, como muita comida tcheca não posso já... Na Argentina não tem o puchero que eu gostava demais.

 

P/1 – O que o senhor gostaria de deixar gravado, um pensamento da sua história de vida?

 

R – Eu teria que compor um pouco, eu não posso acrescentar, eu escrevi ...

 

P/1 – Nós vamos levar então.

 

P/2 – Eu tenho uma última pergunta. O que o senhor achou de ter dado essa entrevista?

 

R – O que achei? De um lado é bom falar do passado porque o brasileiro esquece muito de apreciar o passado. Não gostaria de aparecer lá como um bajulador ou um que se quer expor, acho que não estou me expondo nem como bajulador. Eu sou muito franco sobre crítica. Eu vou lhe dizer uma coisa, apesar de tudo parece incrível que o Brasil hoje está melhor que a Argentina, nos meus tempos dos anos trinta, a Argentina era dez vezes mais importante. Hoje, naturalmente critico que temos cinquenta milhões de gente abaixo da pobreza, todos podiam viver melhor... Cinquenta milhões de gente abaixo da pobreza é muito triste. Para melhorar a vida do povo brasileiro seria mais honestidade, porque muitos recursos são levados para fora para depositar lá fora. Lá tem muito mais dinheiro que o Brasil tem aqui dentro.

 

P/1 – Nós queríamos agradecer pelo seu tempo, lhe pedir desculpas por ter ficado tanto tempo, lhe agradecer pela sua entrevista. Muito obrigado.

 

R – Se precisarem de mais um acrescento podem me telefonar, não é tudo o que eu podia falar. Tem muito mais...

 

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