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História de: Anella Catapano Scarpelle
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/12/2014

Sinopse

Anella é uma senhora italiana de 97 anos que contou sua história ao Museu da Pessoa. Em seu depoimento ela conta que nasceu nos Estados Unidos e que viveu parte da infância na Itália. Com excelente memória, ela recorda a viagem de vinda para o Brasil, as descobertas das frutas brasileiras e os primeiros contatos com a cidade de São Paulo. Lembra-se das revoluções de 24 e de 32, da Segunda Guerra Mundial e a escassez de alimentos durante estes períodos. Recorda-se das brincadeiras de infância, das escolas em que estudou e do primeiro emprego como pespontadeira numa fábrica de meias. Conta sobre como conheceu seu marido e as dificuldades que a família enfrentou para criar os cinco filhos. Recorda a morte da mãe e do marido, que faleceu em seus braços. Finaliza o depoimento falando dos onze netos e treze bisnetos.

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História completa

Meu nome é Anella Catapano Scarpelle. Nasci em 25 de julho de 1917. Nasci nos Estados Unidos da América do Norte, em Connecticut. Meu pai é Antonio Catapano, minha mãe Magdalena Scapa Catapano. Eles nasceram na Itália, Nápoles. Meu pai era negociante. Ele comprava, vendia, comprava e vendia, comprava e vendia. Minha mãe era dona de casa. Ele era uma pessoa muito correta, corretíssima. Um pouco nervoso. Minha mãe era mais calma, muito caseira, muito passiva. Eu lembro de todos irmãos que ficaram vivos, pois vários morreram ainda criança, só que eu fui a penúltima. Quer dizer, eu lembro só da última que era pequenininha, os outros todos foram acima de mim.  A minha avó, mãe do meu pai, chamava-se Anella.

Eu lembro da casa da Itália, quando voltamos novamente pra Itália, mas dos Estados Unidos só me lembro de uma senhora, que era muito frio e tinha neve e ela usava um gorro verde. Acho que ela me pegava no colo. Eu tenho fotografia, não dessa senhora, eu tenho a fotografia minha de seis meses, mais ou menos. Eu me lembro disso só, dos Estados Unidos só me lembro disso. Nos Estados Unidos? Até três anos. Primeiro voltou meu pai para a a Itália. Meu pai me deixou com três meses, quando eu tinha três meses de nascida meu pai foi negociar outra vez pra Itália e ficamos nós. Ficamos minha mãe, meu dois irmãos que já eram moços, já tinham seu 18, 19 anos. Porque quando eu nasci um deles tinha 17 anos e o outro tinha 16.  Eles estavam trabalhando lá e ficou minha irmã Antônia e eu, com três meses. Ele foi pra Itália e demorou bastante tempo pra voltar. Quando chegou eu já tinha meus quatro anos mais ou menos. Depois quando eu tinha cinco anos mais ou menos, cinco anos e meio, meu pai resolveu vir pro Brasil, pela segunda vez. Voltou a vir pro Brasil e eu me lembro que ele vendeu tudo, a casa da Itália eu lembro. Lembro que meu pai vendeu tudo e daí nós vínhamos pra vir pegar o navio, não sei se era perto, não lembro direito, eu sei que era Nápoles e pegar o navio, não sei a distância, não lembro da distância. E passávamos por umas lojas que tinham vitrines, tinha umas bonecas grandes, bonitas.  Nós chegamos primeiro no Rio, no Rio de Janeiro, parece que deu uma parada, ficou uns dias parado. Conhecemos laranja-bahia que na Itália não tinha laranja-bahia e ficamos conhecendo a laranja-bahia, uma laranja grande e bonita, né? Ficamos dias no Rio e depois o navio seguiu pra Santos.  Quando nós chegamos no Brasil nós fomos morar com eles nos primeiros dias, primeiros 15 dias moramos na casa dele. A casa era assim, de Rua Augusta com Alameda Jaú, mas o terreno era grande, então ele construiu um sobrado no fundo do lado da Alameda Jaú. Meu pai alugou dele o sobrado na Alameda Jaú enquanto ele, meu pai, comprou o terreno aqui no Jabaquara, na Rua Ibituruna e começou a construir.

Eu brincava que nem as brincadeiras que a minha bisneta brinca agora. Ciranda cirandinha, ela brinca disso. Brinca de pega-pega, de esconde-esconde, essas brincadeiras.  Isso foi na escola que eu brincava. Antes de ir pra escola. Eu fui pra escola, meu pai me pôs na escola com nove anos, muito tarde. Quer dizer, essa brincadeira já era na escola. Eu fui pra escola com nove anos porque meu pai foi morar lá perto do zoológico, lá na Água Funda e ele alugou um, como chama, um empório, armazém. Abriu um empório e nesse entremeio ele mandou construir lá na Rua Ibituruna mais dois quartos e cozinha, depois daquele dois quartos e cozinha mandou construir mais dois. E continuava trabalhando no empório. E depois ele mandou construir mais um quarto grande e cozinha, no mesmo terreno.  Alugava e recebia os aluguéis.

Eu sstudei. Eu queria ser professora, mas meu pai, além de tudo o que ele tinha, ele achava que não tinha necessidade de eu estudar mais. Estudei até o quarto ano sem terminar, que era primeiro, segundo, terceiro, eu estava na metade do quarto ano. Meu pai achou que tinha que me tirar da escola para eu ir trabalhar. A professora gostava muito de mim, eu era muito aplicada, Português principalmente, e a professora veio na minha casa, foi pedir pro meu pai: “Não tire a sua filha da escola porque a sua filha tem muito futuro e ela é muito aplicada” “Não, ela vai trabalhar. Precisa trabalhar, precisa aprender o trabalho”. Tá certo, me ensinou o trabalho. Eu agradeço meu pai que ele me ensinou o trabalho, não estudei. A professora ficou pra lá. Fui trabalhar numa fábrica de meia. Eu tinha 13 anos, não tinha 14 anos completos. Minha irmã já estava trabalhando na fábrica de meia, ela tinha três anos a mais que eu, e eu fui trabalhar na fábrica de meia. Era pespontadeira. É a fábrica de meia Fênix. O salário eu dava pro meu pai e meu pai me dava mil réis. Naquele tempo era mil réis? Eram mil réis. Eu fui juntando aquele mil réis. Depois meu pai dizia pra mim: “Dá pra mim que eu te guardo, porque senão você perde”. Eu dava pra ele e ele guardava. E a minha irmã a mesma coisa, minha irmã também dava o ordenado pra ele. Depois meu pai faleceu. Consegui juntar 30 mil réis, mas estava com meu pai. Depois eu fiquei mocinha, eu tinha 15 anos quando meu pai ficou doente, teve derrame cerebral.  Tinha os aluguéis das casas que estavam alugadas. Morreu o pai? Quem vai mandar é o filho homem. Então ela pegava todos os aluguéis e levava pra ele. Depois ele mandava mantimento, mandava coisas para nós. Daí eu casei.  Tinha dezenove anos. Eu já conhecia o meu marido porque ele era irmão do meu cunhado.  Namorei durante cinco anos. Era um abraço, de vez em quando uns beijinhos. Namoro antigamente era assim. Marcamos a data, foi dia 25 de junho de 1936. E marcamos a data, correu os 40 dias, fui eu e meu marido, fomos no cartório. E naquele tempo precisava assinatura da mãe, do pai ou do irmão mais velho, porque eu era menor de idade, tinha 19 anos. Meu irmão comprou primeiro a parte da minha irmã por uma mixaria, dois contos de réis. Depois ele foi lá no meu irmão, onde meu irmão morava e falou: “Olha, você vai vender sua parte porque sua irmã já vendeu”, meu irmão vendeu também a parte dele. Diz que foi dois contos de réis, eu não vi, eles falaram que venderam por dois contos de réis. Ficou eu e meu irmão Giuseppe que estava nos Estados Unidos. Eu tinha casado. Fui morar em um quarto, um quarto só, não tinha cozinha, não tinha nada, tinha o terraço. Compramos um fogãozinho desse pequeno, não era fogão, era feito de lata de querosene, lata de, como é que chama essas latas de 20 litros? Lá se vendia esse fogão que era uma boca só. E fomos morar lá naquele quarto. Ficamos nesse quarto uns meses, acho que uns seis meses ficamos nesse quarto. Minha cunhada, irmã do meu marido, morava na Alameda Jaú. Ela falou: “Vem morar comigo”, e eu fui morar com ela. Tinha um quarto a mais, um quarto dela. Eu estava grávida, porque eu fiquei grávida quando eu fui morar na Alameda Jaú, fiquei grávida. Casei no 36, a primeira filha nasceu no 37.

Meu marido, ele era empreiteiro de pintura. No começo ele trabalhava de pintor, depois ele ficou sendo empreiteiro, ele tinha empregados e ganhava dinheiro. Eu pus meus filhos, desde ela que ela tinha três anos de idade, eu pus ela numa escola, onde eu morava lá no fim do Jabaquara lá, pra lá da garagem do Jabaquara, que era uma casa que eu tinha comprado, com muito sacrifício comprei essa casa. Meu marido foi mandado embora, entraram em acordo, uma mixaria, demos lá pra casa, eu tive que mudar e fui morar outra vez num daqueles quartos do começo de casada. Eu tinha a Nelly, tinha a Janete e tinha nascido a Marília e a Marlene, tinha as quatro filhas. A Marlene era de colo, tinha acho que uns seis meses, só não tinha ainda o menino. Fomos morar tudo lá e minha mãe veio morar comigo. Tudo num quarto só. Minha mãe ficou muito doente na casa da minha irmã, veio embora pra minha casa. Veio pra minha casa onde eu tinha um quarto lá, fiquei com um quarto só. Saí do quarto pequeno e fiquei com o quarto grande. O quarto pequeno foi alugado, aquele que comprou as partes alugou o quarto pequeno. Minha mãe ficou doente, ficou na minha casa e depois meu irmão pôs ela no Hospital das Clínicas. Ela ficou no Hospital das Clínicas e depois foi pra casa do meu irmão e depois minha cunhada trouxe ela pra minha casa. A minha mãe ficou em coma na terça-feira, terça, quarta, quinta, sexta, no sábado ela faleceu. Num Sábado de Aleluia.

Meus filhos continuavam estudando em escola paga. A minha filha tirou o diploma no Colégio Santa Amália. Ela não quis estudar mais, ela estudou até tirar o diploma, a mais velha. Depois ela quis ir em Inglês-Português, foi no Inglês-Português pago. Depois Foi estudar Comércio, também pago. Depois a Janete também desistiu de estudar, não quis estudar mais, teve o diploma de quarto ano, não quis estudar mais. Os que quiseram estudar, estudaram, os que não quiseram, paciência.

E eu tinha que fazer as coisas, a limpeza da casa, tudo, de noite. E de dia meu marido ia trabalhar de empreiteiro, e eu ficava no bar. O que eu passava no bar. É difícil ficar num bar porque vêm bêbados, vem gente sem educação. Eu era nova ainda, eu tinha 40 e poucos anos, recebia cantadas, eu fazia de conta que não entendia nada, pra poder ficar no bar. O bar era nosso. Mas como meu marido não era do ramo não dava lucro. As crianças vinham durante o dia comprar um litro de leite que não dá lucro nenhum, pão, leite. Eu enchia a mão das crianças de bala. Eu enchia de bala a mão das crianças, cada um que vinha comprar leite e pão, e vinham comprar só leite e pão, porque depois, de noite que era o mais bravo que meu marido ficava, que ganhava-se um pouco. Mas ele não era do ramo, não deu lucro nenhum. Então não deu lucro nenhum e vendemos o bar e fomos morar na mesma rua, Rua Iguatemi, só que numa casa alugada. E lá nessa casa alugada casou minha filha Marlene, que era a quarta filha. A primeira é ela, a segunda é a Janete, a terceira é a Marília que se formou. Mas ela tinha que esperar, ela foi nomeada Procuradora do Estado, só que tinha que esperar o número dela, porque fez um concurso, prestou concurso, então tinha que esperar chegar o número dela, porque eram vários que ganharam. E quando chegou o número dela, o pai já tinha falecido. Meu marido já tinha falecido quando chegou o número dela. A Marlene casou e nessa época ele tinha ganhado muito dinheiro porque daí ele tinha muitos empregados, que a vida deu aquela reviravolta, sabe? A vida é essa, uma vez vem de um jeito, outra vez vem de outro. Ele ganhou muito dinheiro e eu economizava sempre. Não era de jantar fora, não era de festa, de teatro, cinema. Não. Era só criar filhos. E ele também. Criar filhos e dar do bom e do melhor pros filhos. Então ele ganhou muito dinheiro, juntou esse dinheiro. A minha filha Marlene casou, fizemos uma festa.

O meu marido ficou doente. Deu que ele tinha câncer no pulmão. O pneumologista falou: “Olha, melhor de tudo é chamar o que está mais perto”, então chamaram os que estavam mais perto, vieram dois ou três em casa. Ficamos na sala, ele estava no quarto, fomos pra sala fazer uma reunião pra ver o que a gente vai fazer. Eles se reuniram, os médicos, e acharam que ele tinha que ser hospitalizado, no Hospital Iguatemi. Eu entrei no quarto e falei pra ele, falei: “Olha, os médicos estão achando que você tem que ser internado no hospital”, ele falou: “No hospital eu não vou” “Tá bom. Você não quer ir, não vai”. Por que ia mandar ele pro hospital contra a vontade, já estava bem mal, já estava sabendo o que ele tinha. Eu falei pra eles: “Olha, papai não quer ir pro hospital” “Tá bom, então fica aqui”. Falei assim pra ele: “Olha, você não quer ir pro hospital, mas eu vou lá nos médicos, vou conversar e ver o que está precisando pra trazer aqui em casa”, que o médico tinha falado que precisava de um oxigênio. Eu falei: “Tudo bem”, fui lá, mandei vir o oxigênio. Veio aquele tubo de oxigênio, pôs do lado dele, que a hora que ele passasse mal ligasse o oxigênio. Mas quem diz de deixar o oxigênio lá? Ele não deixou. Ele falou: “Tira isso daqui!”, levamos pro quarto delas. Passou uma semana, ele estava muito mal. Mas ainda na última noite ele ainda ficou assim, ele era muito forte. Ele ainda ficou assistindo televisão até dez horas da noite, ainda conseguiu deitar, deitou. Quando foi de madrugada eu acho que era uma hora, duas horas da madrugada, deu aquele acesso e daquele acesso a Nelly com o meu filho, meu filho já estava mocinho, já tinha 20 anos. Dava pra ir a pé, que era um quarteirão lá no hospital. Foram correndo, meu filho perdeu o chinelo na rua, chegou lá descalço. Foram buscar o médico. E a minha filha Marília foi de madrugada, saiu lá fora e foi chamar uma vizinha, a vizinha não escutava, que era do outro quintal. A vizinha não escutava, demorou pra escutar. Era de madrugada, um perigo, ela uma moça, ela tinha 27 anos, que ela se formou com 26. Foi lá chamar a vizinha, a vizinha não escutava, depois ela escutou e veio. Eu gritando feito uma desesperada, com ele no colo. Porque ele caiu no meu colo. Vou te contar um caso que você vai se admirar. Eu estava com vestido que estava muito calor, era mês de novembro, foi dia quatro de novembro. Vai fazer 46 anos. Ele estava com 56. Eu estava com um vestido bem surrado. Meio esbranquiçado. Estava muito calor, eu estava com aquele vestido. Ele caiu nos meus braços e foi morrendo, morrendo, eu gritando. Sozinha! Hoje tenho onze netos, onze netos. Maravilhosos todos eles, todos. São treze bisnetos.

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