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História

Tudo vem pra fortalecer

História de: Claudia Mayu Konuma
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/02/2021

Sinopse

Nasceu em São Paulo. Até os 4 anos só falava japonês. Filha do meio entre 3 irmãs. Depois que um brigou com a irmã por um brinquedo e ele quebrou, aprendeu a compartilhar. Lembra das comidas típicas japonesas que a família comia. Teve uma educação bem japonesa, mais fria e menos afetuosa. Chegar em SP foi um impacto muito grande. Como não tinha muitos amigos, estudava. Aproximava-se dos amigos que precisavam de ajuda. Era autodidata na pintura. A mãe fez um bolo quando menstruou pela primeira vez. Conta como acabou de forma violenta o primeiro casamento. Relacionamentos abusivos. Diagnóstico de câncer de mama. Fez quimioterapia. Mudou a alimentação. Vive com a filha. Fazem escotismo. Trabalha com gestão de pessoas no Hospital da Clínicas em São Paulo.

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História completa

Eu tenho mais duas irmãs, a mais velha e a mais nova, a gente tem dois anos de diferença entre uma e outra. No Japão a gente tem uma referência, um costume de homenagear, comemorar, os três, os cinco e os sete anos de idade de meninas, por exemplo, sempre essa diferença. Então eles sempre mantinham essa… quando a gente fez aniversário de três, cinco e sete anos a gente tinha até o vestidinho costurado pela minha mãe, da mesma cor, todo igualzinho, todo bonitinho, tenho até uma foto, eu acho que eu até trouxe essa foto. Mas é um momento assim do costume né, e na época tinha muito a referência da mãe ser a dona de casa, ela costurava tudo, ela enfim... fazia tudo em casa, além da comida, da organização da casa, até a roupa, hoje não tem mais nada como uma obrigação ou um costume. Além disso, tem várias referências assim de ritos japoneses que a gente celebrava, tinha também, eu não vou saber de datas exatamente, mas tinha um momento no ano que a gente tinha que pegar grãos de soja crus e atirar por cima do telhado da casa que dizia que isso era pra espantar os onis, como se fossem diabos na cultura japonesa. Também tinha... toda noite a gente tinha que rezar uma oração budista antes de dormir, tinha o ano novo japonês, a gente praticamente não comemorava o natal, o natal era o momento de presentear as crianças, então eles gostavam da fantasia do papai noel, de escrever cartas, e aí a gente descobria os presentes debaixo da arvorezinha de natal, mas não com o sentido cristão, mas com o sentido mais talvez comercial mesmo, mas era divertido. O ano novo sim, e aí não é o réveillon, mas o ano novo, o dia primeiro de janeiro era comemorado, e o momento de reunir toda a família. Então sempre, ainda hoje, a gente reúne toda a família no dia primeiro de janeiro, e eles fazem um revezamento entre a minha mãe e os irmãos de onde vai ser o local de encontro da família. Então é sempre divertido, dependendo de quem tá promovendo, rola um amigo secreto da família, ou é só comemoração, comida, e é muita comida, é muita coisa mesmo, então é muito interessante que apesar da gente levar comida a gente volta com comida pra casa, não sei da onde né... parece que multiplica, parece que, não sei o que acontece, volta com um monte de comida e fica comendo a comida do ano novo durante a semana. Lembro uma especificamente, na verdade os presentes de aniversário que eu e a minha irmã a gente tinha que dividir praticamente tudo ou era tudo igual... como era perto da páscoa, era comum a gente ganhar ovos de páscoa, então não tinha páscoa, a gente era budista mesmo, então tudo bem, não ia ter chocolate de outra forma. Mas teve um presente de aniversário que era um fogãozinho com franguinho assado lá que ficava girando, mas que ficava na tomada, né. Naquele dia a gente resolveu que as duas queriam brincar ao mesmo tempo com aquele brinquedo, mas uma queria o frango e a outra o fogão. E aí a gente começou a puxar e quebrou o brinquedo no mesmo dia e depois disso aprendemos a compartilhar de outra forma, então sem essa, senão não vai ter brinquedo para nenhuma das duas. No terceiro casamento, eu tive o diagnóstico do câncer, ele estava lá pra ouvir, ele entendeu todas as recomendações lá. Participou de tudo lá, da cirurgia, participou de quase todas as partes dos momentos, mas também durante a quimioterapia, porque a quimioterapia é um processo longo, quanto mais você toma, pior você fica, você não vê melhoria, é muito na base da fé mesmo. Mesmo que a pessoa não tenha fé, ela acredita pelo menos na medicina, mesmo que ela não tenha religião né, que eu quero dizer. Então é muito estranho porque a gente toma um remédio para deixar de sentir aquele sintoma, daquela dor, e vai melhorando aos poucos. Agora, a quimioterapia, ela vem e já tira o seu brilho da tua pele, o cabelo cai, os pelos do teu rosto inteiro caem, do teu corpo inteiro caem, as unhas podem também cair, fica tudo roxo, a língua, a boca fica com uma sensação de jornal, tudo que a gente come fica com gosto de jornal, tudo fica com sensação de jornal. Muitas pessoas têm problemas aí de vômito, de não conseguir comer mais nada por causa disso. Eu não tive esse problema na parte da alimentação, mas assim, foi um momento que eu falei, não vou mais ingerir açúcar, não vou mais ingerir álcool, porque nunca mais quero ter essa doença, não vou mais comer carne, não vou mais tomar derivados de leite, a não ser que sejam orgânicos, porque tem muito tóxico na nossa alimentação. Esse ar que eu respiro já é suficientemente podre, já é o suficiente pra minha vida. E aí comecei a mudar tudo de alimentação, nesse relacionamento ele, pelo menos isso, ele teve abertura de fazer essa mudança, né, não posso reclamar disso. Então a gente fez uma mudança radical na alimentação, praticamente vegano em casa, mas a gente ainda mantém o peixe e os ovos, se forem orgânicos. Agora que eu comecei a participar de comemorações pelo menos tomando um pouco de vinho, por exemplo, mas até então não, mas eu não compro mais álcool, pra eu consumir em casa não. Se tiver um bolo com açúcar na festa, eu vou pegar uma fatia pequena, mas eu não vou fazer um bolo cheio de açúcar. Eu aprendi a fazer as receitas sem açúcar, sem farinha de trigo, sem essas coisas, a alimentação muito branca é prejudicial. Então aprendi a cuidar, tô tentando ensinar pra minha filha, pra que ela também não tenha o pesadelo na vida dela, até porque o meu pai faleceu de câncer de pâncreas, que também é uma coisa assim, uma hora você tá bem, outra hora você já era. Então assim, acaba sendo muita informação que talvez pra uma criança é, começa a dar um medo que isso aconteça com ela também, então é bom dar instrumentos, mecanismos de como se virar pra não chegar a isso, ou se chegar, saber sobreviver a isso. Eu acho que questão de doenças, acho que essa questão assim de você ter uma visão de propósito “eu estou aqui para, o que eu quero para a minha vida e para os outros, inclusive, por que estou gravando isso?” É pra poder dizer pras pessoas que apesar de toda merda que possa acontecer com você, você pode ter algum propósito, algo que a gente possa fazer pelo outro. Então hoje, inclusive, é lógico que a gente não faz isso tudo sozinha, mas quando você está doente, é você que está doente, o seu corpo que adoeceu. Sempre existe uma rede de pessoas. Por mais que não sejam do seu íntimo, da sua casa, então por exemplo o pessoal da minha equipe, né. Eu tenho 70 pessoas na minha equipe. Essas pessoas, cada uma delas ajudou, me ajudou a não, filtrando problemas, por exemplo. Naquela época, durante o meu tratamento, as pessoas seguraram muito assim, tentaram resolver todo tipo de problema, o que criou um crescimento nelas também, isso é uma coisa boa. E cada uma delas também tinha os seus problemas pessoais com seus familiares, mães, pais e tal, e isso não impediu que elas também fizessem a parte delas ajudando. Então é uma rede, né. Quando a gente fala de um problema que aconteceu com a gente, que gerou problemas que depois você entende a explicação, mas depois que já aconteceu tudo errado. Depois que você separou três vezes na sua vida e falou "putz, não tem nada certo”, aí olha pra trás e fala “poxa, mas eu tô aqui, se eu to podendo fazer isso aqui é porque tudo isso aconteceu”. E poder abraçar tudo isso que aconteceu pra poder passar pro outro uma esperança de que pode ser melhor, de que isso tudo vem pra fortalecer você mesmo e as pessoas que convivem com você.

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