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História de: Marinez Vieira de Araujo Lima
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/10/2019

Sinopse

Em seu relato, Marinez Vieira Araújo Lima relembra momentos marcantes de sua vida tais como: sua infância no interior e a relação conturbada com sua mãe, fala sobre seu casamento e também cita o momento em que seu filho sofreu um derrame vascular. Por fim, fala sobre a dificuldade que teve em aceitar que sua mãe precisava de seus cuidados na idade mais avançada, pois como foi criada sem carinho, não conseguia passar carinho também.

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História completa

P/1- A senhora poderia falar seu nome, data e local de nascimento pra gente?

 

R - Marinez Vieira de Araújo Lima, nascida em Sorocaba, em 4 do outubro de 1939.

 

P/1 - Nome e local de nascimento dos ´pais.

 

R- Henrique Vieira, nascido em Franca e Benedita Maria Aparecida, nascida em Mogi Mirim.

 

P/1 - Os avós, nome e local de nascimento.

 

R- Avô paterno...Eu esqueci o nome do meu avô...

 

P/1 - Tudo bem.

 

R- Acho que nem lembro o nome do meu avô, o da minha vó eu lembro.

 

P/1- Então pode falar.

 

R- Avó paterna, Maria Manuela Vieira.

 

P/1- Onde ela nasceu você sabe?

 

R- Ela nasceu em Queluz, agora avó materna, Augusta Maria de Jesus nascida em Mogi Mirim também.

 

P/1- Dona Maria, a senhora poderia falar um pouquinho de como era a sua família?

 

R- A gente, minha família e meus pais, né?

 

P/1- Isso, sua casa, como que é?

 

R - Uma casinha simples, em um bairro afastado de Sorocaba que chamava Vila Barão, foi a casa que eu nasci, meu pai militar, minha mãe cozinheira. É isso...

 

P/1- Quantos irmãos você tem?

 

R- Dois irmãos...Não, são três, eu sou a caçula, os dois irmãos bem mais velhos, a diferença do mais velho é de dez anos e a do segundo, oito anos.

 

P/1- E como que era esse bairro que vocês moravam?

 

R- Era bem pobrezinha, bem pobrezinha mesmo, poucas casas, não tinha luz, tinha água, água de poço, nem asfalto, não tinha pavimentação nenhuma, não tinha nada, bem simplesinha de interior mesmo, fogão de lenha, casa... Piso de tijolo, não tinha forro, as portas não se usavam chaves, nada, era trinquinho, as janelinhas era com tramela, nem sei se você sabe o que é tramela né?

 

P/1- Sim.

 

R- Era assim, coisa bem simples, tínhamos criação, tinha porco, tinha galinha, no quintal, tinha forno pra fazer o pão, era assim a nossa vida...

 

P/1- E, como que era a educação?

 

R- Educação bem severa.

 

P/1- Era diferenciada para você que é mulher? Da dos outros dois.

R- Era, bem diferente sim.

 

P/1- Como que era?

 

R-Era bem diferenciada pra mim que era mulher, não podia nada, tudo era proibido, a maneira de sentar, de conversar, eu não podia ficar saindo na casa de ninguém, com ninguém a não ser meus pais e meus irmãos porque eu era menina, eu tinha que ficar em casa, cuidando dos afazeres da casa.

 

P/1- Você que cuidava da casa?

 

R- Eu que cuidava, eu comecei a cuidar dos da casa com oito anos, com oito anos eu já cozinhava porque os dois trabalhavam, meus irmãos também trabalhavam, eu cozinhava e lavava, meu pai se aposentou muito cedo da Polícia Militar, por invalidez.

 

P/1- Aconteceu alguma coisa?

 

R- Ele tinha muitas varizes e tinha úlcera, então ele foi aposentado, mas mesmo assim ele trabalhava, na Companhia Nacional de Estamparia em Sorocaba.

 

P/1- Ele fazia o que?

 

R- Ele trabalhava como pedreiro na Companhia Nacional de Estamparia, então eu tinha que levar almoço, para ele e para meus irmãos.

 

P/1- Com oito anos?

 

R- Com oito anos.

 

P/1- Seus irmãos também trabalhavam?

 

R- Meus irmãos também trabalhavam

 

P/1- E assim... A sua família tinha algum plano futuro para você, para vocês?

 

R- A minha mãe tentou né? Eu fiz o grupo escolar, até a quarta série, depois ela me colocou na Escola Profissional em Sorocaba, mas não deu para dar continuidade, porque, o irmão do meu pai que morava no Paraná, a esposa ficou com problema mental, eles tinham cinco filhos, e eles vieram para nossa casa, então foi loucura total, aí atrapalhou não deu para eu continuar na escola profissional, não deu nada.

 

P/1 - Essa escola profissional...

 

R- Escola Técnica profissional de Sorocaba Federal, uma escola muito boa. E eu fiz o vestibulinho, né? Agora que fala vestibulinho, antigamente nem sei como falava, mas eu passei, e fiz a primeira série, e a escola técnica era assim, na parte da manhã era o ginásio, e na parte da tarde era o curso profissionalizante. As meninas eram bordado, essas coisas assim, costura, e os rapazinhos era mecânica

 

P/1- Você concluiu até a quarta série do primário e quando foi ingressar nesse colégio técnico...

 

R- É quando foi para ingressar na escola técnica tinha 12 anos, mas não continuei. Porque depois...

 

P/1- Chegou a frequentar?

 

R- Cheguei

 

P/1- Por quanto tempo?

 

R- O primeiro ano só, cheguei a frequentar, depois tive que parar, aconteceu um acidente com meu irmão, mataram, assassinaram ele. Meu irmão tinha 19 anos, aí piorou as coisas ne? Porque aí minha mãe resolveu vim do interior para cá porque se aborreceu do lugar, não quis ficar mais pra lá, ai nós viemos para cá para São Paulo, mas já era uma infinidade de gente, que ai já tinha minha avó, meus primos, minha tia, minha mãe teve que interna-la aqui no Franco da Rocha, ai ela melhorou, depois ela voltou, minha vida foi sempre assim.

 

P- Sempre (ela?) com você?

 

R- Aí quando ela foi para o Franco da Rocha, melhorou, aí deram um prazo de sessenta dias para ver como que ela ficava dentro de casa, se tudo ia bem. Meu tio a levou de novo para o Paraná, junto com as crianças, mas chegou lá, ele abandonou ela, e ela ficou doente outra vez, mas só que ela não voltou com a gente, aí ele internou ela em Curitiba, e voltaram as crianças, ai a gente já estava aqui em São Paulo.

 

P/1- E lá em Sorocaba, quando vocês eram crianças, quais eram as brincadeiras de vocês?

 

R- As brincadeiras da gente, quando a gente tinha tempo, era subir na árvore, balançar na árvore, na escola eu pulava muita corda, eu brincava mesmo era no recreio da escola, correr, brincar de pular corda na escola, esse dai era meu brinquedinho...

 

P/1- Tinha brincadeira diferente para menino e para menina ou todo mundo brincava junto?

 

R- Não, os meninos não brincavam com as meninas não, era separado, tinha o... Como que é? Como que fala a pessoa que tomava conta do pátio da escola?

 

P/1- Inspetor de aluno.

 

R- É, como se fosse assim um inspetor de aluno, antigamente era diferente, até me lembro o nome dele, era Valentim, o nome eu lembro, e ele ficava tomando conta para os meninos não brincar junto com as meninas, as meninas tinham que brincar separado dos meninos.

 

P/1- Tem alguma coisa que te marcou?

 

R- Tem sim, quando eu fiz o primeiro e o segundo ano, num grupo escolar, depois no terceiro ano,  a minha mãe cismou de colocar a gente em um colégio de freira, Colégio Santa Escolástica em Sorocaba, eu e a minha prima, mas a gente não estava interna, estava externa, e depois a minha mãe soube que o colégio tinha um internato para as meninas, e as meninas ficavam internas até os 18 anos e já saia professora, era uma coisa assim. A minha mãe foi conversar com a madre superior, que ela queria deixar eu e minha prima interna para quando saísse de lá, para sair formada, aí a freira disse que não podia, por causa da cor, internas não. A minha prima é bem mais clara que eu, só que ela tinha o cabelo bem pixainho, e ela ainda frisou bem "ela até que dava, porque ela é mais clarinha, mas o cabelo é que estraga".

 

P/1- Não podia?

 

R- Não podia, foi só isso só, que marcou um pouco, mas em referência a cor e essas coisas, foi só isso aí que eu passei, só nessa fase de infância que marcou porque a gente gostaria, né.

 

P/1- Era uma coisa que vocês estavam querendo?

 

R- Era uma coisa que a gente estava querendo porque era uma boa pra nós, porque em casa a gente só trabalhava, então a gente achava que ia...Agora que eu acho que não ia ser uma boa ir para o colégio, mas naquela época para mim, eu acho que ia ser um céu, que eu ia me livrar daquilo, de sair correndo da escola, chegar em casa e correr, levar marmita e levar... Que mudava os turnos, uma semana das 6 às 14 e outra das 14 às 22, então, às vezes, eu tinha que levar janta, então tinha que sair correndo, isso para mim era uma tortura, ter que fazer o serviço de casa, então se eu ficasse interna, para mim ia ser uma glória, mas eu fui barrada, então aquilo marcou bastante. Que minha mãe sempre foi muito severa, meu pai bebia muito, mas é uma coisa impressionante, meu pai bebia muito, e até era uma pessoa grosseira, mas eu me entrosava melhor com meu pai, do que com a minha mãe, é impressionante, e ele era uma pessoa que chegava em casa bêbado, eu não sei, eu me relacionava melhor com ele que com minha mãe, eu sempre tive muito medo da minha mãe.

 

P/1- Ela batia?

 

R- Quando minha mãe chegava perto de mim eu estremecia, eu sempre tive muito medo dela, ela era muito severa.

 

P/1 - Seu pai era a pessoa que você tinha mais proximidade?

 

R- Tinha, com toda a bebedeira dele, e com a grosseria, ele era grosseiro com ela, mas comigo não.

 

P/1- Ele não batia?

 

R- Não.

 

P/1 - E os outros irmãos? Também?

 

R- Com meus outros irmãos ele já era um pouquinho mais durão, mas também não chegava a ser agressivo, mas era mesmo com a minha mãe, e eu com meu pai, me entrosava melhor, e gozado que minha mãe que era mais responsável, ela trabalhava duro, ela tinha mais responsabilidade que ele, que meu pai era bem largadão, mas é interessante.

 

P/1- Dai vocês saíram lá de Sorocaba, vieram para cá, e você chegou a trabalhar fora?

 

R- Trabalhei, quando eu cheguei aqui eu tinha quatorze anos, ai eu fui trabalhar em uma olaria, ali perto da antiga estação do Cantareira, ali perto da Rua São Caetano, perto do liceu de artes e ofícios, ali era a estação de trem que fazia o percurso de Cantareira a Guarulhos, e eu trabalhei ali, em uma travessia na Rua Rui Barbosa. Comecei em uma olaria, foi ali que comecei a trabalhar, e eu aprendi a profissão de (riquilinista?), trabalhei muitos anos como (riquilinista?).

 

P/1- E aí você se casou?

 

R- A sim, com catorze anos eu comecei a trabalhar, a andar no trenzinho de Cantareira, aí conheci meu marido.

 

P/1- No trenzinho?

 

R- No trenzinho, que agora é metrô... Eu tinha catorze anos e ele tinha dezenove, meu primeiro namorado, meu pai ia me levar na estação todo dia de manhã, e eu estava namorando dentro do trem.

 

P/34- E quantos filhos você teve?

 

R- Três.

 

P/1- Então conta um pouquinho pra gente do casamento.

 

R- Meu casamento foi uma boa, foi ótimo, excelente, graças a Deus, deu certo, foi uma coisa que deu certo, foi a trinta e quatro anos e parece que foi ontem, a gente vive...Às vezes, as pessoas não acreditam quando eu falo, mas nós dois vivemos como se tivéssemos casado ontem, você entende? É uma coisa bonita, depois...Eu com catorze anos o conheci, casei com dezessete, eu me emociono por causa do meu filho, com vinte...Não, que vinte? Com dezoito para dezenove eu tive meu primeiro filho, o Paulo, depois com...

 

P/1- Paulo Henrique?

 

R- Paulo Henrique... Ele ta com um problema muito sério, ele está com problema de medula, então quando eu falo nele eu me emociono muito. E depois com... Eu tive o Paulo com dezoito para dezenove, e depois com vinte e um tive o Luiz, depois de dez anos eu tive a Adriana, ai veio a minha princesinha, mas foi muito bom porque... Cuida muito bem, depois com a experiência que eu tive da minha criação, então eu fiz de tudo para não criar os meus filhos como eu fui criada, sem... Eu criei o meu filho com muita liberdade, principalmente comigo, a conversar sobre tudo, é importante e deu certo, é, desculpa...

 

P- Sinta-se à vontade.

 

R- É só lembrar do Paulo e eu...

 

P/1- A senhora quer falar sobre ele?

 

R- Precisa né, então, estava tudo correndo bem, mas a quatro anos atrás meu filho começou a paralisar a perna, e só agora depois de três anos e meio de luta, que descobriram que ele teve um derrame (vascular?) na coluna, e agora nós estamos na luta ele tem três filhos, eu tenho cinco netos. O Luiz...A Adriana (...?) dez anos, mas o Paulo foi o primeiro a casar, a Adriana está a três anos agora, ela tem uma menininha com alguns meses, e o Luiz casou faz, está com 32 anos, e tem um menininho com onze meses, então eu tenho cinco netos. A única coisa que está agora mesmo pesando para nós, a nossa família, é a saúde do meu filho, se não fosse isso...

 

P/1- Mas assim, com o descobrimento da doença...

 

R- Com o descobrimento a gente está mais tranquilo, porque o meu... Diz que tem tratamento, porque até agora ele não sabia nada, mesmo ele já tendo feito ressonância duas vezes, agora ele fez a terceira que acusou o problema, e o neuro disse que tem tratamento, e ele esta aguardando uma vaga no Hospital das Clínicas, para fazer uma angioplastia, que já é o começo do tratamento, agora a gente está mais tranquilo.

 

P/1 - Que bom né.

 

R- É, graças a Deus, a gente está mais tranquilo, mas é uma coisa que a gente começa com muito amor, com muito carinho, você entende? Quando eu conheci meu marido, quando a gente se casou, quando a gente planejou o Paulo, aquela coisa toda, então a gente lembra, são coisas fortes né, quando nasceu minha primeira netinha que é filha do Paulo, é difícil, mas tirando isso graças a Deus estamos aqui  para dar força para ele porque ele precisa de todo o apoio, e justamente ele é o mais agarrado com a gente.

 

P/1- Ele mora aqui em São Paulo?

 

R- Ele mora em Pirituba, aqui em São Paulo, e ele é o filho mais agarrado com a gente, o Luiz não,  ele já foi mais liberal, o Luiz logo que começou a faculdade já foi para uma república, já ficou cuidando da vida dele, ele já é mais soltão, então...A Adriana também, ela ja é...Eu criei eles soltos porque criar os filhos, o filho não é pra gente, têm mais é que dar orientação nos primeiros passos, depois eles tem que se virar né.

 

P/1 - E assim, a senhora trabalhou na malharia, como é que foi a sua atividade que você exerceu, exerce hoje?

 

R- Depois de tudo e da malharia?

 

P- Isso, o que você exerceu a maior parte do tempo.

 

R- Até quando as crianças não estavam em idade para ir para a escola, eu trabalhava fora, depois quando eles começaram a atingir idade escolar, ai eu comecei a trabalhar mais perto de casa, ai eu fazia de tudo, eu fazia doce e vendia, fazia bolo para aniversário, fazia faxina, fazia de tudo um pouco, contanto que fosse ali perto de casa, para poder estar sempre dando atenção ali para eles, e foi assim. Agora eu não trabalho mais.

 

P/1- E hoje? Quais são as suas preocupações?

 

R- Hoje eu cuido da casa e o teatro.

 

P/1- Então, fala um pouquinho pra gente sobre o teatro.

 

R- Hoje, eu cuido da casa e como eu comecei a ficar com problema de pressão, muito forte e eu queria que controlasse, e como meu marido tirou carteirinha de beneficiário do SESC, ai ele falou "Vai, vê se faz alguma coisa, faz um yoga, faz alguma coisa para distrair um pouquinho", porque eu tenho ainda minha mãe, tenho meus problemas, então como sou muito apegada com a família, muito preocupada, ai eu comecei a frequentar, eu frequentava yoga, mas eu queria... Eu sempre gostei desse negócio de representar, eu sempre gostei, mesmo nas minhas brincadeiras, no serviço, na hora de almoço, eu brincava com as colegas de brincar, de representar uma coisa ou outra. Aí eu estava um dia saindo do yoga, e vi uma plaquinha, aula de teatro para terceira idade, aí eu olhei...

 

P/1- Quando isso mais ou menos?

 

R- Isso foi em 83/84, eu passei e fui me informar tudo, e fiz minha inscrição, mas só que não foi para a frente, o grupo não deu certo, não tinha professor para ensinar e todo mundo...

 

P/1- Não tinha uma pecinha, nada?

 

R- Não teve um apoio ou coisa assim, e parou, ai um belo dia, eu ia descendo na Marechal, desci do ônibus e encontrei um amigo que começou a fazer teatro lá também, ai ele falou assim para mim "Marines vem para cá, vem aqui no fórum, faz a sua inscrição que está tendo teatro aqui e você gosta muito né", ai eu fui, com a terceira idade, comecei o laboratório, vai daqui vai dali, e começou a montar uns esquetes pequenininhos, ai fizemos um trabalho chamado Retalhos, que foi bem e também nos apresentamos na Funart, nos apresentamos dois dias seguidos, foi bom. Aí foi, ficamos ensaiando até que ele montou essa peça maior, de três atos A espanta gato e a gente não pensava que ia dar algum resultado, a gente nunca acha que vai, porque a gente nunca acha que vai, a gente achava que a peça era chata. E quando surgiu essa oportunidade de participar no festival da (Cepama?).

 

P/1- Com essa peça?

 

R- Com essa peça, A espanta gato, ai ele estreou, o Roberto que escreveu a peça, e nós tínhamos que concorrer com vinte e nove grupos de adultos, e tinha se não me engano mais oito com peças infantis. E cada grupo tinha que participar de um laboratório de oito horas por semana, eu ia sábado e domingo com a (Miria Muniz?) lá no Centro Cultural, nós... para podermos participar do festival, foi bom o laboratório também, eu participei do laboratório e foi muito bom, e depois foi a nossa apresentação em julho.

 

P/1- E quando que você entrou no fórum que te levou ao Espanta Gato?

 

R- Eu entrei no fórum em 84/85, mas nós fomos ensaiar o Espanta Gato por agora, faz mais ou menos um ano, porque assim entra elemento, sai, então não da, dificulta muito para o professor montar o trabalho, porque uns começam outros desistem, quando ta entrosando ai desmonta, é aquela coisa...

 

P/1- Quantas pessoas tem o grupo?

 

R- O grupo tem dezoito componentes, mas ele tem dois elencos, porque não dava para encaixar todo mundo.

 

P/58- E esse pessoal que está no Espanta Gatos é o mesmo pessoal que participou do Retalhos?

 

R- Tem alguns que são, mas tem alguns que não, porque muita gente saiu, aí tem elementos novos.

 

P/1- Quem é o diretor de vocês?

 

R- Roberto Marcondes Machado, ele tem (26?) anos, então nós fomos participar do festival, ele falou que é bom uma experiência nova, mesmo que não fosse ganhar, e se a gente ganhasse ia ter três dias de apresentação.

 

P/1- Foi quando esse festival?

 

R- Foi em julho, do dia 1 ao dia 9 de julho, nós apresentamos no dia 4 de julho, foi a nossa apresentação, com comissão julgadora, depois nós ganhamos acho que mais três dias em cartaz, mas eu não esperava que fossemos ganhar.

 

P/1 - Inclusive você tem um certificado né?

 

R - Sim, inclusive de melhor atriz do (espetáculo?)

 

P/1- E o que é para você fazer parte do grupo e ser a melhor atriz?

 

R- Para mim foi bom, foi bom demais, eu me empenho muito, eu me esforço bastante, porque eu gosto muito, eu faço o que eu posso, depois que eu estou lá no palco eu me solto, acho que eu me torno outra pessoa, sei lá, não é essa Marines que está aqui, eu incorporo o personagem mesmo, com tudo, então para mim é uma glória. E assim, pra mim  isso foi a recompensa, esse prêmio de tudo que eu passei até agora, a minha infância, a luta de cada dia, as lutas que tive que vencer, o trabalho, e então, para mim foi assim, sempre que eu estava envolvida com meus filhos, com a luta do meu esposo, para a gente conseguir uma casa, para isso e aquilo, aquela coisa do dia a dia, essa questão dos filhos, de formar os filhos, de ter uma profissão. Então eu esqueci de mim completamente, e eu só fui dar conta disso quando eu comecei no teatro, tomar consciência de mim mesma.

 

P/1- Conta um pouco pra mim como é com seu marido e seus filhos tendo você como a estrela.

 

R- Eles me dão a maior força, eles curtem bastante, vão assistir as peças, nossa meu marido faz questão de mandar filmar, e aquela loucura sabe, de fotografar, é aquela loucura, eles gostam, eles dão a maior força mesmo, mais ainda o Luiz Carlos, que me da a maior força mesmo, ele que sempre foi o assim, de chegar em mim e falar "Véia que isso, você tem que viver, vai viver sua vida" sabe, então pra mim foi a recompensa de tudo isso, e quando eu comecei a frequentar o teatro, eu comecei a deixar as minhas neuras, porque eu tinha muito complexo, eu era tímida, então eu sofria muito com isso, eu passei a vida sem tomar conhecimento de muita coisa boa por causa disso, dessa coisa que eu já trazia desde criança,  essa criação muito fechada, muito...

 

P/1- (E a sua?) mãe é viva?

 

R- É, minha mãe é viva

 

P/1 -E como que ela te vê como atriz? Porque você teve uma educação bem rígida.

 

R- Ela demonstra que ela gosta que aconteça, mas ela tem ciúme das minhas amigas do teatro, porque eu nunca pude ter amigas, na minha mocidade eu não podia ter amigas, ela dizia que amigo não presta, eu não podia, eu não podia nem levar minhas amigas do serviço para a casa, então agora eu sinto, porque as minhas amigas telefonam para elas para me deixar recado, ela tem ciúme, ela fica enciumada.

 

P/1 -  E ela foi ver a sua apresentação?

 

R- Foi, ela vai, mas eu sei que no fundo quando eu recebi o troféu,  quando foi de manhã a primeira pessoa que eu quis falar era ela, que eu tinha ido ver o resultado e que tinha ganho um troféu, ela falou assim "está parecendo o seu pai, vai encher o peito de medalha" foi assim, curta e grossa, mas vai indo, vai assim, eu tenho ela viva ainda.

 

P/67- Você participa de alguma associação, reunião de alguma religião?

 

R- Eu sou espírita, mas eu não participo de reuniões de espírita, nada, eu não vou em centros nem nada, é eu e eu mesma.

 

P/1- Você lê algum livro? Alguma coisa?

 

R- Eu leio bastante, e eu tenho um lema comigo, que eu tentei ir nos lugares assim, mas eu não me adapto, eu entendo bastante as (...?) os (...?),a religião, acredito tudo, mas é uma coisa que eu acho que assim...eu, eu mesma no meu jeito, no meu sistema, não frequento lugar nenhum.

 

P/1 - Hoje você mora com quem?

 

R- Meu esposo, meus filhos estão cada um no seu cantinho, todos casaram.

 

P/1- E quais são as pessoas que convivem com você? Que são mais próximas?

 

R- Mais próxima? Meu irmão, minha mãe que são mais próximos no dia a dia, que eles não moram comigo, mas eu estou em contato toda hora, meus filhos é mais de fim de semana. Porque minha filha mora em Campinas, o Luiz mora no Centro, e o Paulo mora em Pirituba, então fica difícil.

 

P/71- E como que você descreve o seu dia a dia pra gente?

 

R- O meu dia a dia, loucura.

 

P/1 - Conta um pouquinho.

 

R- O dia a dia é uma loucura, porque eu vivo decorando peça, então eu pego os (..?) coloco em cima da pia, e vou lavando a louça e lendo o texto, fico arrumando a casa e me olhando no espelho e fazendo gestos,  é assim meu dia a dia, e é isso, faço o meu serviço de rotina, e de manhã eu tenho um grupinho que a gente faz caminhada, cinco horas eu levanto.

 

P/1 - É de terceira idade esse grupo?

 

R- Não, são vizinhos, e a gente faz caminhada, as vezes da 05:30 até as 06:30 da manhã, as vezes das cinco até as seis, e caminha uma hora pelo bairro.

 

P/1- Todos os dias?

 

R- Todos os dias, ai eu chego, já passo na padaria, pego meu pão, já arrumo o cafézinho do meu esposo, ai ele vai trabalhar, porque ele aposentou, ele trabalhou 35 anos, já faz oito anos que está aposentado, mas continua trabalhando, então eu preparo o cafezinho pra ele, e ele vai para o serviço.

 

P/1- Ele continua trabalhando de que?

 

R- Ele estava no Parque da Aeronáutica, ele é funcionário federal, ele é projetista, agora ele trabalha em uma firma ali perto do Anhembi, mas é tudo a mesma coisa.

 

P/1 -O que ele faz?

 

R- Projetista

 

P/1- E o que você acha que mais se transformou na sua vida?

 

R- O que mais transformou a minha vida foi esse baque do meu filho, é isso.

 

P/1- E se tivesse que mudar hoje, alguma coisa, a senhora mudaria na sua vida, a história de vida.

 

R- Se tivesse que mudar? Não, não mudaria.

 

P/1- E qual foi a coisa que mais te marcou durante a sua vida?

 

R- Difícil falar...

 

P/1- Se não souber responder tudo bem.

 

R- Eu respondo, sem problema, a coisa na vida que mais me marcou, foi agora, quando a minha mãe começou a precisar de mim, eu levei um choque, porque eu não queria corresponder, mas no meu íntimo, não que eu demonstrasse, no meu íntimo, então aquilo me chocou bastante, porque ela sempre foi muito autoritária, muito mandona, muito independente, então eu jamais pensava que ela um dia ia precisar de mim, mas isso é coisa da cabeça né, porque a gente imagina isso.

 

P/1 - Mas isso marcou.

 

R- Marcou, porque ela começou a precisar de mim, a depender de mim, não totalmente, mas de mim e dos meus cuidados, mas eu... Na minha cabeça, eu tinha vontade de fazer com ela, tudo que ela fazia comigo quando eu era criança.

 

P/1- Ela está com algum problema de saúde?

 

R- Ela tem problema de saúde, então foi fogo sabe, começou a vir na minha mente essas loucuras, e eu não falava, eu to comentando com vocês agora, mas é duro trabalhar com isso.

 

P/1- Mas você tinha que aceitar né?

 

R- Eu tinha que aceitar, queria ajudar, ela precisando, mas você sabe que a presença da mãe é muito forte em uma criança, marca muito a vida da gente, para mim pelo menos foi assim, marca muito, tanto quando se é em uma fase positiva, quando é em uma negativa, e para mim foi muito negativo, se eu for contar a história vamos ficar aqui a noite inteira, porque a minha mãe, ela assim... Tinham coisas que ela fazia que eram absurdas, que não dava para entender, o procedimento dela, não sei se porque ela sofria com meu pai, ela descontava na gente, eu não sei o que que era, então foram coisas que marcaram, mas no decorrer do tempo eu não senti, eu fui vivendo, mas depois, agora quando ela precisou de mim, foi sabe como um retorno, ai parece que ela é a criança e eu sou a mãe, inverteu o papel. Foi impressionante, mas eu levei um baque menina, para segurar aquela barra, ela ainda pergunta "porque que você não tem paciência comigo?", porque mesmo eu fazendo, acompanhando, e levo, e vou a gente deixa transparecer, mesmo na expressão. É difícil eu conseguir... Porque ela criou a gente muito na .... Até de dar um beijo, um abraço, afagar, qualquer coisa, nunca tinha, então a distância, quando eu falo para você que meu pai bebia, era grosseiro e tudo, eu beijava meu pai, meu pai ficou velhinho, e a gente se abraçava, eu afagava meu pai, com a minha mãe eu não consegui chegar.

 

P/1- Mas que bom que ela pode contar com você, né?

 

R- E ainda assim mesmo ela pode contar comigo, agora hoje eu estou aprendendo a conviver com isso, hoje eu estou melhorando, mas que foi um baque foi, quando ela começou a precisar de mim eu queria ser mãe dela e descontar, é fogo viu, porque eu nunca pude com ela, até a pouco tempo, eu nunca pude com ela, ela era terrível, então agora eu queria descontar  e quando ela teima comigo, eu queria pegar o chinelinho,  é gozado como o papel inverte ne, mas isso ai, que me marcou bastante, me chocou bastante.

 

P/1- E qual é o seu maior sonho?

 

R- Meu maior sonho é antes de morrer, eu ainda quero pisar em um palco para valer, e nem que seja meu último desenho, um suspirinho ali, o meu maior sonho é esse mesmo.

 

P/1 - Você teria alguma coisa para falar para as gerações futuras, para os jovens, uma mensagem?

 

R- Pros jovens...É a barra dos jovens está pesada, a mensagem que eu teria para eles, é nunca abrir mão da liberdade, da sua liberdade, liberdade de agir, de pensar, nunca ser submisso a nada, sempre com muita coragem, com muita força, viver, essa é minha mensagem para os jovens.

 

P/1 - E assim, esse pouco tempo que você ficou aqui, como que foi para você estar falando, como é que você se sentiu?

 

R- Eu me senti bem, foi bom, foi ótimo, é bom a gente falar da gente, foi bom, foi ótimo.

 

P- Então está bom, muito obrigado.

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