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Tudo tem um objetivo

História de: Gustavo
Autor:
Publicado em: 26/07/2019

Sinopse

Filho de pai alcoólatra que batia nele e em seus irmãos, Gustavo foi enviado para um abrigo quando tinha dois anos de idade. Ficou junto dos irmãos por cinco anos e depois, gradualmente, foram sendo separados e enviados para diferentes instituições. Apanhou no orfanato em que vivia e também sofreu preconceito em algumas escolas. Teve diversos pais sociais e começou a trabalhar aos treze anos a fim de comprar suas próprias coisas. Conheceu o projeto ViraVida e conseguiu um emprego como educador na mesma chácara onde foi acolhido quando criança, ajudando as crianças de sete a catorze anos. Um de seus maiores sonhos é continuar trabalhando para poder morar junto com os seus irmãos, o que lhe traria muita felicidade.

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História completa

Eu não lembro muita coisa de quando era pequeno. O meu pai era alcoólatra, batia em mim e em todos os meus irmãos. Os vizinhos fizeram uma denúncia e nós fomos mandados para o Conselho Tutelar. Com dois anos de idade, fui mandado para um abrigo. 

 

Ficamos durante cinco anos em uma casa com outras sete crianças. Era um espaço muito grande e eles falaram que estava dando muito prejuízo, aí foram separando todos os meus irmãos. Fui com meus dois irmãos mais velhos para um abrigo e depois para outro, um abrigo de adolescentes. Fiquei sozinho lá.

 

Eu me lembro do orfanato que eu fiquei. Foi um tempo horrível, qualquer coisinha eles já queriam bater. Eu apanhei bastante. Quando eu era menor, eu urinava na cama. Eles me colocavam num banheiro cheio de azulejo e eu ficava lá a noite inteira, passava o maior frio.

 

Muitas vezes eu me apegava a algum pai social e, de repente, eles saíam. Ainda bem que pelo menos tinha todos os meus irmãos. Depois que resolveram nos separar, que os meus irmãos foram saindo do abrigo e eu fui ficando sozinho, eu não tinha contato com eles. Eu fui ficando mais velho e podia sair sozinho dos abrigos, podia visitá-los a hora que eu quisesse. Eu estava morando em uma chácara nessa época, lugar onde trabalho hoje. Lá você estuda e, no final de semana, férias. Muitas coisas que não tem numa casa, lá tem: cancha de futebol, sala de jogos, sala de TV.  Você pode ir para a casa da sua mãe, eles têm um acompanhamento junto com a família. As oportunidades de lá são bem melhores, lá eu consegui fazer o curso do projeto ViraVida.

 

Quando eu ia para algum colégio, sempre tinha alguém do abrigo junto. Geralmente ficava todo mundo junto, mas tiveram escolas em que a convivência era ruim. Falavam: “Você não tem pai, não tem mãe e mora em orfanato.” Em outros colégios, não. Eles aceitavam e falavam: “Como é lá? Posso ir conhecer?”

 

Eu nunca pensei em fugir de abrigo nenhum. Eu não conhecia a minha família, ia fugir para onde? Ia para a rua passar frio? Eu, não. Sempre pensei: melhor aqui do que na rua. Eu olhava o pessoal descalço, catando papel no meio da rua, e falava: “Isso não é para mim. Eu prefiro ficar no abrigo mesmo.”

 

Conhecer a minha mãe foi como conhecer uma pessoa estranha, porque eu tive vários pais sociais. Eu convivia com pessoas diferentes e ela foi mais uma pessoa que eu conheci. Quando a vi não senti nada, mesmo; mas agora eu já gosto mais dela do que antes. Eu sempre pensei: “O que passou, passou.” Nunca me interessei pelo passado, eu não ligava muito para isso. Quando eu estava com ela, ela fazia tudo para mim e eu comecei a gostar. Tinha uma relação boa, não brigava muito com ela. Eu sou o terceiro mais velho, mas sou o mais responsável. Os meus irmãos mais velhos trabalham e fazem tudo, mas geralmente quem resolve os problemas da casa sou eu. 

 

Eu comecei a trabalhar com treze anos, quando morava num abrigo, ajudando a entregar jornais. Eu recebia 25 reais por semana mas ganhava muitos presentes. Saí daquele abrigo e fui para um abrigo de adolescentes, onde comecei a fazer guarda mirim. Também trabalhei por dois anos no supermercado BIG, com carteira registrada. O que me motivou foi poder comprar as minhas coisas e ter tudo o que eu queria comprar. 



Comecei a trabalhar na chácara e surgiu um projeto onde eu ganhava passagem e uma bolsa para fazer o curso. Fiquei um ano e meio e depois eu vim para o projeto ViraVida. O Fernando, que é o coordenador da chácara, falou que ia abrir vaga para um curso de Auxiliar Administrativo e Produção Industrial. Ele ia selecionar alguns piás da chácara e perguntou para mim se eu queria. Eu falei: “Não sei, estou fazendo outro curso.” E ele: “Vai ser bom para você.” Falei: “Beleza.” Fui com mais uns quatro piás da chácara e nós começamos a fazer o curso.

 

Desde o começo do curso, eu entrei com o pensamento de que vim aqui para aprender. Eu era bastante tímido no começo, depois que eu fui conhecendo as pessoas fui falando mais. Quando tinha alguma coisa para fazer os professores começaram a me chamar para ajudar com a turma, a falar com o pessoal – um espírito de liderança. Eu sempre conseguia falar com todo mundo. Acho que isso foi mais desenvolvido no projeto. Antes eu não tinha expectativa de vida: qual faculdade iria fazer... No projeto eu consegui. Eu quero fazer Serviço Social, Administração e continuar trabalhando na chácara. 

 

Eu adoro o meu trabalho. Eu trabalho lá há um ano e muitas vezes fico orgulhoso de mim mesmo, porque as crianças vêm falar comigo. Quando tenho um problema, ao chegar lá esqueço tudo. Também tem bastante realidade parecida com a minha lá. Um menino me perguntou: “O que aconteceu no seu rosto?” Eu falei: “Meu pai fez isso. Ele chegou bêbado em casa, quebrou uma garrafa e jogou na minha cara.” Ele perguntou: “Nossa! E você tem raiva do teu pai?” Eu falei: “Não, passado é passado.” E ele: “Se fosse eu já tinha matado meu pai. Queria ser que nem você e não sentir raiva.” Eu falei: “Você vai aprender.”

 

Eu cuido das crianças de sete a catorze anos, e tem bastante criança que perdeu a noção do brincar. Eles querem ser adultos. Tem uns meninos lá que moravam com traficantes e que carregavam armas, drogas. Tem história de menino que viu a mãe sendo morta. Tem três irmãos que foram expulsos da casa deles porque tinha um traficante que queria que eles trabalhassem para ele e eles falaram não. O traficante batia neles e tiveram de sair de casa por causa que estavam sofrendo ameaça. 

 

Quando se é educador é preciso conversar com todas as crianças. Quando chega algum menino novo, para não dar intriga com os outros meninos, eu chego e converso com ele: “Você quer brincar? Vamos brincar juntos.” Eles sempre ficam junto comigo, depois os piás veem que ele está junto com o educador e vêm brincar. Ele então começa a se dar bem com o pessoal. Às vezes dá briga, mas é normal. São muitas crianças. Sinto que a chácara é um lugar que me ajudou e onde hoje eu posso ajudar também.

 

Hoje moro com a minha namorada. A minha casa é pequena, mas se eu mudar de novo, pretendo alugar uma maior no ano que vem. Eu falei com o meu irmão para tirar ele da chácara. Ele falou que esse ano quer terminar os estudos. Ano que vem, talvez no começo do ano, consigo levar ele para morar comigo.

 

Eu sou participante do Protagonismo Juvenil, um grupo de pessoas que se reúne para fazer o bem. Sempre quando tem alguma coisa eu represento o curso. Sexta-feira teve um seminário estadual do ViraVida e eu apresentei, fui o mestre de cerimônia. Nós fazemos visitas onde contamos histórias para as crianças, desenhamos, conversamos e até fazemos esculturas de balão.  

 

Meu sonho é continuar trabalhando na chácara como educador, fazer faculdade de Administração e Serviço Social, continuar ajudando a minha família e tirar o meu irmão do abrigo. Eu queria ter um bom trabalho e reunir todos os meus irmãos para morarmos juntos, felizes para sempre. Tudo na vida, quando você começa, tem que ter um objetivo. Eu comecei o ViraVida com o objetivo de terminar o curso e ter uma profissão melhor.

 

Quando você vê a realidade dos outros percebe que a sua não é tudo aquilo. Você vê que o seu problema é pequeno perto da realidade dos outros e isso motiva a fazer coisas novas, a aprender. A gente passa por cima dos obstáculos e ‘já era’.


Nesta entrevista foram utilizados nomes fantasia para preservar a identidade da imagem dos entrevistados. A entrevista na íntegra bem como a identidade dos entrevistados tem veiculação restrita e qualquer uso deve respeitar a confidencialidade destas informações.
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