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História

Tudo se transforma, inclusive o ser humano

História de: Camille Consuegra Bordon Carletti de Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/11/2014

Sinopse

Camille nasceu em São Paulo e cresceu numa família tranquila, em um condomínio da Lapa, cercada de amigos com quem brincava na rua sem saída do seu prédio. Teve uma infância e adolescência bem vividas, sem "pular nenhuma etapa". Após terminar o ensino médio, optou por fazer o curso de Serviço Social, enquanto os amigos escolhiam carreiras como direito, administração e comunicação. A depoente atribui a sua escolha ao desejo de trabalhar com o outro e poder ser um agente transformador na vida das pessoas. Depois de passar por muitas experiências profissionais, foi na Reciclázaro que se encontrou no trabalho de gestão junto às cooperativas de coleta seletiva.

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História completa

Camille Consuegra Bordon Carletti, eu nasci no dia 22 de dezembro de 1973, aqui em São Paulo. A minha mãe chama Antônia Consuegra Munhoz Carletti, ela nasceu no dia 22 de março de 1953, nasceu na Argélia. Ela tem a nacionalidade espanhola... Naturalidade... Ela nasceu na Argélia quando era colônia da França, e ela é naturalizada espanhola. O meu pai chama Reinaldo Bordon Carletti, ele nasceu no dia quatro de dezembro, mas eu não sei o ano, aqui em São Paulo também. A parte do meu pai é italiana e a parte da minha mãe é espanhola. Minha mãe nasceu na Argélia por causa da guerra. O meu avô foi pra Argélia por causa de guerra, conflito, tal. Por isso que eles vieram para o Brasil também. Por isso que minha mãe veio para o Brasil. Mas a família toda da minha mãe é espanhola; e a do meu pai, italiana. A minha mãe trabalha numa empresa de eventos e o meu pai é representante comercial. A minha mãe foi mãe muito jovem, a minha mãe e meu pai. Foram pais jovens. Então nós somos três irmãos: eu, eu tenho um irmão mais velho e um mais novo. E assim, eu acho que a vida antigamente era mais simples. Era menos correria, o cotidiano era um cotidiano que a mãe era mãe dentro de casa, o pai saía pra trabalhar. Minha mãe começou a trabalhar depois que a gente já saiu de casa. O meu pai sempre foi o provedor da família. Então a minha infância, ou minha educação, ela teve sempre a base familiar e minha mãe muito presente. E eles sempre foram muito liberais. Dentro de casa é uma casa muito democrática, todo mundo se respeita, cada um tem a sua opinião, existe muito diálogo lá dentro. Isso é legal, porque apesar de a minha mãe ter sido uma mãe e meu pai ter sido um pai muito jovem, eles sempre respeitaram o nosso ponto de vista e nunca colocaram a verdade deles como sendo verdade absoluta, então é legal. A minha mãe quando teve meu irmão, ela tinha 19 anos, e meu pai, acredito que 21. Vinte e um, 22. São outros tempos.

Eu morava em prédio, então eu cresci num prédio onde esse prédio ficava numa rua sem saída e tinha muitas crianças. Tanto é que essas crianças, hoje todos adultos, nós somos amigos até hoje. Os meus laços da infância permanecem até hoje na vida adulta. Isso é muito legal. Era um prédio que tinha toda a infraestrutura, então a gente tinha piscina, quadra, sei lá, parquinho. Então a gente tinha muita atividade, a gente brincava muito dentro do prédio e na rua também, porque pelo fato de ser rua sem saída e a violência ser menor, é uma rua que só tinha prédio. Então as crianças, além das crianças do meu prédio, tinha as crianças dos outros prédios. Então era muito divertido. Não existia videogame, então a nossa brincadeira era com bicicleta, era polícia e ladrão, era queimada, era com bola, com... Enfim, na piscina. Foi muito legal. Eu tive uma infância que foi muito privilegiada em todos os sentidos, de poder aproveitar todas as fases... Eu realmente fui uma pessoa que eu aproveitei a minha infância até os 15 anos. Eu era um moleque. Eu jogava futebol, eu era a dona da bola, sabe aquelas coisas? A bola era minha, então eu jogava futebol, eu batia figurinha, jogava bolinha de gude, pulava elástico e isso eu não tinha preocupação de namorar, eu tinha preocupação em me divertir e em estudar. Era esse o nosso compromisso. Eu acho que eu não pulei nenhuma etapa na minha vida. Nem eu e nem todos os meus amigos, nem os meus irmãos, então isso foi muito legal, porque até hoje a gente mantém os vínculos e tem muita história pra contar: “Ah, lembra daquela vez que a gente tava brincando, sei lá, de polícia e cidade”. A gente brincava de cidade, de bicicleta. Então tinha o banco, tinha a parte onde era estacionamento das bicicletas, aí a gente ia pra garagem. Todas as crianças, todos os meus amigos a gente tinha bicicleta, então aquele dia um era da polícia, o outro era o dono do banco, o outro era, sei lá, o dono do supermercado. A gente tinha dinheiro, que eram as folhas das árvores, e tinha que fazer compras na padaria, ia lá e pagar. Era divertido. Eu gostava.

Eu sempre estudei em escola estadual, escola do governo. Eu nunca estudei em escola particular. Na verdade, quando eu saí do primário, meu pai me colocou numa escola particular, só que aí eu não queria, porque era uma escola muito conservadora, quem estudava naquela escola eram as... Eu fui para o colegial, só que quem estava estudando no colegial já estava junto desde o primário, então eu tava inserida dentro de um espaço que não fazia parte do meu habitat natural. Então eu passei muito mal e aí eu fui pra escola onde todo mundo que estudou comigo foi. Mas a escola foi um período também que foi muito bom. Primeiro, assim, existia também todo o respeito com o professor, eu entrava na escola, eu tinha que cantar o hino, tinha a fileira, as filas que se faziam das salas e aí a gente cantava o hino. Respeitava o professor. Quando o professor entrava na sala, eu lembro que eu tinha que levantar, porque o professor era realmente uma autoridade, existia o respeito. Independente de ser escola estadual, ou escola particular, existia esse respeito. Mas também foi um lugar onde eu também fiz novos vínculos de amizade, além de ter tido toda a base dos meus estudos. Eu me lembro da tia Elza, que é a mãe de uma amiga nossa, que também morou no mesmo prédio que a gente, ela trabalhava na secretaria da escola e eu me lembro dela rodando as provas no mimeógrafo, aquele cheiro de álcool. Eu lembro muito da cantina, da sala de aula. Da sala de aula, assim, nada de especial mesmo, mas dos momentos onde todo mundo tá junto confraternizando alguma coisa, ou de passagem, essas coisas... Eu me lembro de tomar vacina na escola, eu não sei se existe hoje. Aplicação de flúor na escola, eu também não sei se tem isso hoje. Eram algumas coisas que existiam na minha época, que hoje talvez tenham se perdido ou não tenham valor.

Eu só fui pensar na minha vida profissional, realmente, no colegial, e no fim do colegial mesmo. Antes eu não pensava. Eu tinha outras coisas pra pensar. Eu tinha que pensar naquela... Eu sempre vivi o hoje, entendeu? Esse negócio de fica planejando, programando, projetando, é óbvio que hoje eu tenho as minhas ambições e eu sei que eu preciso ter alguma segurança no futuro, mas naquela época eu não tinha esse conceito que eu vejo que muita gente tem, muitos adolescentes: “Não, eu quero fazer isso, eu to estudando pra isso, porque no futuro eu quero ser tal coisa, quero estar em tal lugar”. Eu não tinha essa visão. E aí no colegial, quando a gente começou a pensar em vestibular, aí eu fiquei pensando o que eu poderia fazer. E eu sempre pensei em trabalhar com pessoas. Eu nunca me imaginei trabalhando dentro de um escritório, em frente a um computador, ou naquele trabalho quadradinho, sabe, burocrático. E aí eu fui buscar informação e aí eu vi o curso de Serviço Social, na verdade, que ninguém falava, ninguém sabia, tanto é que quando eu falei na minha casa: “Ah, eu vou fazer Serviço Social.” Minha mãe falou: “Ué, mas o que é isso?”. Porque todo mundo fazia Direito, Administração, Comunicação, esse era o auge na minha época. “Ah, eu vou fazer Comunicação, vou fazer Direito, vou fazer Administração.” E eu vou fazer Serviço Social, totalmente diferente.  

Eu fui pesquisando, e de acordo com o que eu fui lendo, eu fui vendo que eu me identificava, porque era realmente isso que eu queria fazer, trabalhar com pessoas. E aí o que significa trabalhar com pessoas? Estar em contato com essas pessoas, fazer o que por essas pessoas, entendeu? Eu acho que eu sempre pensei, quer dizer, na verdade, inconscientemente, em ser um agente transformador em relação a alguma situação dessas pessoas, entendeu? E aí eu acho que a minha profissão, quer dizer, eu tenho certeza que a minha profissão me permite isso.

Durante a faculdade eu trabalhei no Iprem e depois tive duas experiências profissionais fora da área, até que teve uma hora que eu falei: “Chega, não quero mais trabalhar aqui”. E eu comecei a buscar cursos pra entender como funcionava o Terceiro Setor. Porque eu falei: “Bom, já trabalhei no poder público e não é isso que eu quero. Já fui dona de uma empresa e também não é isso que eu quero. Trabalhei numa empresa privada e percebi que o lucro, infelizmente, não é repartido para as pessoas. Poxa, também não é isso que eu quero. Eu quero trabalhar, fazer meu trabalho bem feito e também ser remunerada de acordo com o que eu faço, porque existe a compensação de tudo isso, é o natural”. E eu via que deixava muito a desejar. Eu entendo, infelizmente ou felizmente, eu sou uma pessoa que busco compreender muita coisa, que naquela época era aquilo e ponto, mas aquilo e ponto não tava mais me satisfazendo. Aí eu comecei a buscar então o Terceiro Setor. Eu falei, gente, o Terceiro Setor talvez o fato de ser uma organização não governamental sem fins lucrativos, o que vai acontecer? Aquilo que você pensar ou tiver trabalhando vai ser revertido pro seu trabalho, entendeu? Não to falando Camille, eu to falando trabalho. E aí eu comecei a buscar cursos e fui fazer cursos pra entender o Terceiro Setor. Na escola que eu trabalhava, o padre José Carlos Espínola, que é o fundador da Reciclázaro, ele estudava. E aí uma vez eu falei pra ele: “Eu sou assistente social e quero voltar pra minha área”. Aí ele falou: “Vai lá conversar com o RH”. Aí lá vou eu conversar com o RH. Fui lá e falei: “Olha, o Padre José Carlos Espínola me mandou aqui conversar com vocês pra entender o trabalho e tal”. Só que o padre José Carlos Espínola mandava todo mundo conversar (risos). Só fui entender isso depois também. Falei: “Esse padre é fogo mesmo”. E aí eu comecei a trabalhar na Reciclázaro.

Então, e aí eu sou uma pessoa que vou e fico buscando sarna pra me coçar. Sou mais do que pró-ativa. Quando eu comecei a trabalhar na sede da Associação Reciclázaro, eu fazia o trabalho social da cooperativa, que não era cooperativa, da Recicla Butantã. E uma das atividades que a gente desenvolveu foi a constituição jurídica dessa cooperativa, foi a formalização dela. E aí eu fui entender um pouco as pessoas que estavam trabalhando lá e entender um pouco o processo como um todo. O que é uma cooperativa? O que trabalha uma cooperativa? Quais são as condições que uma cooperativa tem que ter pra desenvolver um bom trabalho? E quem trabalhava comigo, quer dizer, na cooperativa também, era o João, que continua trabalhando na Reciclázaro. Porque assim, quando o padre José Carlos alugou a casa do lado da igreja ele começou a fazer, imagina 18 anos atrás, uma campanha de educação ambiental na comunidade, na Vila Romana, na Lapa, Perdizes, Pompéia tudo, pra que as pessoas, os paroquianos, ou a comunidade, independente de ir à igreja ou não, levassem material reciclável pra igreja. Esse material, ele disponibilizava pra cooperativa, que na época era uma comunidade produtiva, era um projeto da associação Reciclázaro, que a Reciclázaro administrava. Aí a igreja começou a receber muito material reciclável, então a gente tinha um trabalho de logística de caminhões intenso pra levar esse material para o espaço pra ele ser trabalhado. O João trabalhava com isso. Aí eu fui entendendo como funcionava a cooperativa e fui dando umas sugestões: “Olha, e se a gente fizer assim? E se fizer assado?”. E naturalmente a Reciclázaro foi me absorvendo pra esse cargo que eu ocupo hoje. Hoje eu coordeno projetos e projetos ligados à área de coleta seletiva. Então a Recicla Butantã se constituiu juridicamente, a gente teve um trabalho lá dentro de organização, organização de produção, o falar “não”. Porque assim, “ah, você tá doando, então eu sou obrigada a aceitar”. Você não é obrigada a aceitar. Às vezes, o que não tem mais utilidade pra mim não necessariamente vai ter utilidade pra você. Então o fato de eu doar não significa que você tenha a obrigação de aceitar. Então comecei a mostrar esses pontos que a cooperativa deveria ter pra começar a gerir o lugar, a empresa, a empresa delas. A cooperativa é uma empresa. Então não visa o lucro, mas é de lá que sai o sustento de 20 pessoas, 30 pessoas. Então como que é a minha postura profissional? Então eu fui trabalhando isso. E a partir daí, da experiência que a gente teve com a Recicla Butantã e com toda trajetória também, porque hoje a Reciclázaro, a Associação Reciclázaro é referência quando se fala de coleta seletiva. As pessoas ligam pra saber onde pode encaminhar o material, que cooperativa aceita, que cooperativa não aceita. Então essa essência nunca foi perdida. O padre José Carlos fala uma coisa, “que tudo se transforma, inclusive o ser humano”. E o nosso trabalho é esse, é o de transformação, e estar em constante transformação. Através dessa experiência da Recicla Butantã surgiram novas possibilidades e novos projetos, e aí o nosso trabalho foi ampliando. Então apesar de ser assistente social, hoje eu coordeno projetos, mas eu tenho uma visão totalmente social. Pra mim, as pessoas que fazem parte das cooperativas têm uma importância muito maior, muito maior, eu to muito mais preocupada no bem estar do ser humano, porque eu sei que se eles têm uma qualidade bacana pra desenvolver o trabalho que eles assumiram, tudo vai funcionar.

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