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História

Tudo pela família

História de: Irene Maimone da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Nesta entrevista, realizada em 1999, D. Irene nos conta sobre sua infância, sua vida em Campo Grande e as dificuldades de adaptação que passou ao vir morar em São Paulo para que os filhos pudessem fazer faculdade.   

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História completa

 

P/1 - Dona Irene, eu gostaria que a senhora falasse um pouquinho da sua vida. No início, na infância. Onde a senhora nasceu? A escola, como foi?

 

R - Bom, eu tive uma infância acho que privilegiada, maravilhosa, como foi a minha vida toda e... Sou nascida em Santos. Fui para Campo Grande, Mato Grosso com meus pais quando tinha dois meses de idade e lá fiquei até me casar, viajando sempre pra São Paulo, Rio, mas fiquei até me casar e onde nasceram meus filhos.

Meus pais foram... Apesar que minha mãe era vinte anos mais moça que meu pai, mas viveram numa harmonia, numa felicidade que até é emocionante lembrar. Fizeram uma família muito unida; nós somos, graças a Deus, muito unidos e lá conquistamos muita amizade. Hoje é uma cidade que tem como lembrança ruas com o nome de meu pai, tem alguma homenagem ainda prestada... Eu guardo de Campo Grande…

Agora tem quase trinta anos que eu moro em São Paulo porque meus filhos precisaram vir pra fazer faculdade, que naquela época não tinha em Campo Grande. Resolvemos fazer uma mudança, pra não ficar dois aqui, dois lá, então viemos com eles. Eles fizeram Engenharia, fizeram no Mackenzie, fizeram também na Getúlio Vargas, segunda faculdade, estudaram o mais que puderam, línguas, se prepararam, casaram. Minhas noras são especiais, tenho dois netos. O mais novo casou-se antes, logo depois de formado; assim que se preparou, que estava em condições, ele se casou, e eles esperaram um certo tempo pra ter filho porque queriam viajar. Mas hoje têm um filho com 21 anos que estuda, que está pra se formar no Mackenzie também, de engenheiro. Esse meu filho mora em Campo Grande, Mato Grosso.

O primeiro, que é mais velho, casou-se bem depois, ficou estudando, estudando, se preparando. Hoje ele tem uma menina que vai fazer agora, esse mês, nove anos. O mais velho tem uma filha menina de nove anos e o mais novo tem um menino de 21 anos.

Nossa família é muito reduzida, mas é uma família muito unida. Meus filhos foram criados, não sei… Eles parece que engrenaram mais na educação antiga, têm um respeito muito grande pelo pai, pela mãe e por tudo. É tudo “meu pai”, “minha mãe”, é um apego muito grande. Então eu sou… Apesar de que a gente diz “não [pode] elogiar família, os filhos”, mas esses meus filhos merecem.

Eles não foram do tempo que a juventude mudou, alterou muito. Eles já têm idade, um tem cinquenta e poucos anos. Quer dizer que eles não seguiram aquela transformação que teve, que a rapaziada ficou mais independente, se soltou. Teve uma época melhor, mas meus filhos conservaram parece que uma educação antiga, que até hoje nós fazemos tudo pra que... Até minha nora, [digo] “me chame de você”, mas não há jeito, é senhora; uma atenção com o pai que é... Então nesse ponto eu considero a vida uma maravilha. Por mais que a gente tenha passado de tudo um pouco, como todas as pessoas -  acho que passam, não é? - nunca passamos necessidades, sempre tivemos uma vida... Eu agradeço a Deus porque chegamos a essa idade com saúde com união, isso eu acho muito importante.

Isso é a lembrança que eu tenho de Campo Grande, muita coisa do tempo de infância, muitas passagens. Quando chegamos em Campo Grande era uma cidade em formação ainda. Era muito assim, havia muita dificuldade, muita deficiência, até mesmo de transporte. Não havia a linha aérea, era só trem,  com dificuldades, mas hoje a gente vê uma cidade linda, maravilhosa, grande, cheia de faculdade, cheia de clubes, cheia de tudo que é confortável, então a gente fica compensado com isso, não é?

 

P/1 - Dona Irene, eu queria que a senhora falasse um pouquinho como era a sua casa em Campo Grande na infância.

 

R - A minha casa? (riso) Quando chegamos em Campo Grande, meu pai comprou um terreno. Nesse terreno ele mandou construir uma casa de esquina. Era uma casa muito grande e naquele tempo, como meu pai era italiano e minha mãe, paulista, eles levaram para uma cidade em formação, como estou falando, uma ideia mais avançada, de uma casa melhor: tudo mais embutido, cheia de revestimento, acabamento… Então quando a casa que nós... Quando chegamos foi alugada uma casa pra poder ter o começo, aí quando ele comprou o terreno, fez a casa, nós estávamos entusiasmados. Já estava no fim de ‘coisa’, aí o exército foi falar com o meu pai que queria alugar a casa porque não tinha casa pro general, e era uma das melhores casas de Campo Grande que tinha sido construída. Então ele queria requisitar, alugar, mas pra ser sede do general. Ficamos um pouco revoltadas, achávamos que não, estávamos nos preparando para entrar na nossa casal, como é que papai ia ceder? Então meu pai respondeu: “Eu sou italiano e não posso lançar ordens nem exigir nada. Eu vou ceder porque eu respeito, porque eu sou italiano e estou em terra estranha. Tenho que seguir o que me aparecer pela frente.”

Ele era uma pessoa assim, muito 100%. Graças a Deus, muito honesto. Assim [a casa] ficou como sede do general, que era uma das grandes autoridades naquela cidade. [Não] era o prefeito porque Campo Grande não era capital, era interior; depois passou a capital. Foi um acontecimento essa nossa casa construída, muito bem acabada, mas nós não fomos pra lá.

 

P/1 - Que ano era isso?

 

R - Bom, eu sou muito ruim pra guardar datas. (risos) Eu acho que eu devia ter uns seis pra sete anos.

 

P/1 - A senhora nasceu em que ano?

 

R - 1917. Sabe, então...

 

P/1 - Voltando, e a casa da senhora?

 

R - A nossa casa… Fomos mudando, porque aí [foi] quando meu pai desocupou [a casa] na Avenida Afonso Pena, que era a principal. Nós morávamos, logo que chegamos na Rua 14 de Julho, que era a rua do comércio de Campo Grande, depois passamos...

Meu pai tinha a indústria dele e ele fez a rede de água de Campo Grande toda. Campo Grande não era calçada naquele tempo e mudamos porque que vagou o Grupo Escolar que era na Afonso Pena. Era um colégio grande [e] mudou-se pra mais adiante da avenida, então meu pai alugou essa casa que era o Grupo Escolar, bem grande, na Avenida Afonso Pena. E lá nós ficamos até aparecer essa compra da casa definitiva onde nós viemos morar, casar, também na Afonso Pena. Meu pai comprou essa propriedade que também era uma esquina, Afonso Pena com a [Avenida] Calógeras e ali nós casamos, ali nasceram os últimos dos meus irmãos, os mais novos.

Tivemos uma vida numa casa muito simples, grande, porque lá em Campo Grande era tudo muito simples, naquele tempo tempo não tinha condições de você fazer tudo muito estofadinho, muito cetinzinho porque era terra vermelha; tinha muita poeira, não era calçado. Por isso que eu digo: a gente já passou por tudo na vida, não é? Viajava de trem, às vezes a água era de poço. Quando eu era pequeninha, tinha que coar, tinha que ferver, tinha que fazer aquele problema todo, então houve essas coisas na nossa vida.

Mas sempre tive um pai que nos deu tudo. Estudamos música, eu e a minha irmã, tinha piano da melhor qualidade, tinha violino, tinha uma casa muito alegre. Tinha uma mãe preta que ficou cinco anos na nossa família, que a minha mãe fazia respeitar como mãe preta; foi especial também, [foi] com o marido e ficaram lá em casa. Meus irmãos estudaram no Rio porque era mais fácil pro homem se ausentar do que pra filha mulher. Era tudo muito longe, tudo muito difícil pra mãe ter contato, era muito difícil condução, então a gente ficava restrita no estudo que tinha na época lá. Meus irmãos foram pro Rio, se formaram, fizeram tudo isso. Os que restam até hoje, nos unimos muito então a gente tem uma lembrança muito bonita da vida, né?

Quando eu me casei, conheci meu marido que foi inaugurar um hospital lá, foi nomeado. Nos conhecemos lá e nos casamos. Tivemos dois filhos, aí ficamos lá porque ele ficou servindo. Ele não era militar, mas foi convocado pela guerra naquele tempo e ficou servindo no hospital. Ficou uns vinte anos servindo no Hospital até a ocasião de os meninos precisarem de faculdade. Resolvemos vir pra cá.

Pra cá ele também exerceu a profissão até atingir a idade limite que é a aposentadoria. Hoje está aposentado; trabalhou aqui em São Paulo no hospital, no Estado, e assim nós estamos vivendo felicíssimos num apartamento próprio aqui em São Paulo. Acho que não tem grandes altos e baixos. Uma vida normal, feliz, sem muita alteração.

Já fomos pro Rio. Lá a gente aproveitou pra fazer cursos, eu, meu marido, sempre assim com... No mais a minha vida é cuidar dele agora, porque ficamos sozinhos, e ele cuidar de mim. (risos)

 

P/1 - Como a senhora conheceu seu marido?

 

R- Meu marido, quando chegou em Campo Grande, até foi com Getúlio Vargas naquela ocasião porque era para inaugurar um hospital. Eu estava no Rio de Janeiro, tinha passado com meu irmão mais velho, estava casado. Eu era mocinha, estava passando seis meses no Rio de Janeiro. Quando cheguei em Campo Grande minha mãe disse assim: “Vieram umas moças aqui porque tem o baile, a festa de São João. Vai ter o baile, [é] pra você ir.” Eu falei: “Não, eu não vou, não. Eu estou [há] seis meses fora, desligada, não vou ao clube.” Minha mãe disse: “Não! Vai!” Eu fui e quando cheguei lá já tinham ensaiado, porque era um grupo de quadrilha.

Eu não o conhecia. Quando vi [foi] dançando a quadrilha, já no baile de São João. (risos) Aí nós nos conhecemos, fomos namorando. Naquele tempo se namorava muito diferente. Tinha uma vez por semana, encontrava, tinha horários. Dormia-se cedo porque era interior, era uma vida diferente.

Nos conhecemos, nos casamos e depois meus pais faleceram. Eles foram sempre muito unidos. Interessante porque minha irmã, que é dois anos mais velha que eu, casou-se antes e a outra que mora no Rio… Essa mais velha mora em Campo Grande, Mato Grosso, e hoje é viúva. A que mora no Rio, que é oito ou dez anos mais moça que eu, porque tem irmãos no meio, ela também é viúva, mas acontece que os genros se uniam que pareciam irmãos! Meu marido lembra dos outros dois casados com minhas irmãs, os outros dois meus cunhados, como irmãos. Um consultava o outro, o outro consultava o outro, quer dizer… Uma coisa que eu não estou exagerando, uma coisa real. Foi muito boa essa parte familiar minha, foi muito feliz. Então [é] só o que tem que contar, não sei se tem mais alguma coisa...

 

P/1 - Quando a senhora conheceu o seu marido. Vocês ficaram namorando...

 

R- Ficamos namorando… Namoramos um certo tempo porque ele estava recém-formado. Ele alugou um consultório até fazer um pezinho de meia.

 

P/1 - Ele já era médico?

 

R - Já, porque ele foi nomeado já pro Hospital. Tivemos que demorar um certo  tempo pra casar porque ele teve que fazer um meio de vida, não é? Tudo muito bem. Manteve a casa com todo conforto, com tudo. Sempre viajamos nas férias, conhecemos o Brasil inteiro, Argentina. Não fomos muito pro estrangeiro, mas Argentina, Paraguai, essa parte toda. Ele gostava muito de viajar. Até quando chegava a folhinha do ano ele já marcava, fazia o calendário das viagens ali. Eu dizia: “Você tem carretilha nos pés.” Ele dizia: “Eu gosto.”

A gente viajou muito, levava sempre os filhos. Depois minha sogra veio morar comigo, da Bahia também. Foi a primeira viagem que ela fez, que saiu da Bahia e daí ela faleceu aqui em São Paulo. Ele perdeu o pai quando tinha quatro anos de idade, era muito criança. Então a nossa vida foi assim. Tem alguma outra coisa?

 

P/1 - Tem um tempinho, temos que conversar algumas coisas, sim. A senhora falou sobre o namoro naquela época. Como era o namoro naquela época? Como seu pai via o seu namoro? Como era isso?

 

R- Olha, foi também... Quando eu comecei a namorar com meu marido, nós freqüentávamos o clube e eu tinha um irmão... Eu sendo a quarta filha, eu tinha dois irmãos mais velhos, depois uma irmã, aí eu vinha a ser a quarta. Os dois primeiros eram homens, então era com eles que nós íamos ao baile, ao clube - quando eles não estavam no Rio estudando.

Quando nos conhecemos, eu lembro [de] um detalhe muito engraçado. O meu irmão que estava no baile dizia assim: “Olha”, porque médico em Campo Grande era raro; chegar um médico lá, solteiro principalmente, [era] muito raro. Quando ele chegou a Campo Grande foi muito querido porque era um rapaz que já tinha um título, já estava formado, podia casar, e médico não era fácil. Lá eram mais oficiais do exército porque tinha região militar.

Quando nós começamos a namorar, o meu irmão via que ele dançava comigo, então até fazia uma coisa engraçada. (risos) Vê como se era cuidada, não era só pai e mãe que cuidava dos filhos, não. Os irmãos estavam em cima, viu? Então ele chegava e dizia assim: “O doutorzinho está dançando muito com você. Cuidado porque você não sabe se ele tem noiva por lá, se ele tem mulher, [se é] casado por lá e vem aqui pra Campo Grande assim, cai de repente aqui. Então precisa tomar cuidado.” (risos) Meu irmão pegava no pé mesmo. Ele dizia assim: “Cuidado porque você não sabe se ele tem noiva. Se ele namora com você, depois vai casar lá.” Então a gente tinha um certo cuidado mesmo, sabe? Era tudo assim de longe, sem muita intimidade, sem aproximar muito. Sempre pensando: “De fato, quem vem casar aqui em Campo Grande, saindo da Bahia, de São Paulo?” Da Bahia ele ficou em São Paulo um pouco, como assistente do professor aqui, então depois foi pra Campo Grande. Quer dizer, aí nós começamos o namoro.

Namorava assim, ele era mais evoluído porque tinha saído da Bahia, do Rio; eu estava lá em Campo Grande. Ele dizia: “Mas vocês não saem toda noite, depois do jantar, pra dar uma volta?” “Não, senhor.” Ele estranhava: “Mas não sai aqui pra andar na avenida, que é uma beleza? A Avenida Afonso Pena, não sai pra dar uma volta?” Dizia: “Não. Tem dia certo.” O regulamento mesmo era ir à missa, missa das dez aos domingos, e tinha dia certo. A gente saía... Naquele tempo tinha o relógio numa encruzilhada da Rua 14 com a Avenida Afonso Pena, era aquele relógio muito grande que ‘coisa’ assim no meio, era sincronizado, a gente ouvia música. Quando era dia de sair, a mamãe dizia assim: “Vocês não tomam mais do que um prato de sopa de pressa…” A música a gente ouvia lá de casa, então era Carmen Miranda cantando aquelas músicas.

E a gente saía, tinha aquele footing, aquela coisa bonita, aqueles passeios de moça, moço na rua principal, que era a uma quadra da minha casa. A gente ia passeava, ficava ali. Ali eram os namorinhos, mas tinha hora certa pra voltar. Quando era nove horas encerrava tudo; hoje quando é nove horas ninguém nem está saindo. A rapaziada está saindo às onze horas! Eu vejo pelo meu neto: até chegar, tomar banho, jantar, juntar turma, quando sai já são onze horas. Naquele tempo não, era tudo mais cedo.

Quando ele propôs que queria ficar noivo ele nunca tinha visto e conhecido meu pai e minha mãe. Eu falei assim: “Agora como é que eu vou chegar? Tem que falar [pra] papai e mamãe.” Mas eles eram muito comunicativos, então [era] fácil a gente dialogar. Falei; meu pai e minha mãe [responderam]: “Ué, se você gostar, deixa que ele venha fazer o pedido.” E ele foi, ele até pediu prum amigo que morava com ele, que fez o pedido de casamento, daí foram, meus pais disseram.... Isso foi num sábado, que ele fez o pedido de casamento. Meu pai disse pro rapaz que foi fazer: “Então vocês venham amanhã almoçar aqui.”

Era domingo. Foi a primeira entrada com a minha mãe - meu pai já com uma resposta - pra ter uma resposta se casava ou não, se aceitava o noivado. Meu pai disse: “Se vocês se gostarem, pra mim, se você tiver uma situação de poder manter uma família, vocês se gostando, eu estou de pleno acordo.” Bom, concordou, ficamos noivos.

Depois ele começou a estranhar a comida do hotel. Eles tinham uma casa, morava [com] esse amigo, mas faziam refeição no hotel. Meu pai disse assim: “Então você passa a almoçar aqui.” Esse foi um pouco trabalhoso pra mim porque você sabe o que é receber noivo na hora do almoço, toda de cachinho no cabelo… Foi uma união muito… Um coração muito aberto, as portas muito abertas. Não houve aquela pressão, porque às vezes há. “Você precisa abrir os olhos, vê lá com quem você vai casar! Não pode não sei o quê.” Meus pais foram muito abertos, então foi uma... Por isso talvez a família seja assim, unida. Os três maridos das três filhas são completamente diferentes e se uniram, [a] mesma coisa que irmãos. Pessoas estranhas... O meu marido [era] da Bahia, o outro, o Abel era de Sergipe, e o outro era carioca, da outra minha irmã que mora no Rio. Ele servia lá em Campo Grande como oficial da Aeronáutica, esse que era carioca. Quer dizer, foi uma coisa assim muito… Eu digo assim que amo a vida, acho tudo bonito, mas tenho motivo. Não foi riqueza que fez a felicidade. Foi acho que mesmo… Tinha um alicerce, uma educação, uma maneira de vida muito correta, sabe? Então eu eu agradeço a Deus [por] tudo que tenho, tudo que foi de bom. Tenho muita saudade dos meus pais, que foram essas pessoas que eu já citei, a minha sogra também, tive muita ternura por ela porque perdeu o marido muito moça. Então a gente teve de Deus toda aquela ternura mesmo. (risos) Não é? Isso que eu acho que foi a felicidade muito grande.

Não tivemos assim na família doença muito grave, não teve situação financeira grave, não teve certos desastres, coisas que às vezes pode acontecer. Hoje é muito comum, mas na minha família, graças a Deus até hoje, é por isso que eu continuo amando a vida maravilhosamente. (risos)

 

P/1 - Dona Irene, voltando um pouquinho à sua época de namoro, a senhora encontrava o seu namorado, o seu Armando, só nos clubes ou é porque a senhora disse que ele não conhecia os seus pais?

 

R - Pois é. Depois do pedido de casamento ele ficou frequentando à noite lá em casa. Ele chegava às oito e saía às dez. E ficava com a família inteira ali na sala, conversando. Nem entrava na sala de visitas já entrava na sala de jantar, que era uma mesa muito grande, e ali ficava todo mundo. Ele frequentou depois de noivo, regularmente. Ia lá, ficava em casa, a gente ficava conversando. Quando era 10 horas, naquele tempo, saía. Levamos o nosso tempo de noivado, mas também nos encontrávamos no almoço porque ele vinha almoçar, que o meu pai ofereceu logo. Também uma casa de tanta gente, tanta coisa, vem mais um, não é? (risos)

 

P/1 - Também a senhora, com dez irmãos...

 

R - Dez irmãos, pois é, exatamente. Depois a casa da minha mãe… Eles foram padrinhos de muitas pessoas em Campo Grande, de batismo, de casamento. Minha mãe era uma pessoa também que olhava muito pela pobreza, então vinha um pedir leite pra mamadeira, vinha outro pedir não sei o quê. Graças a Deus, naquele tempo havia muita fartura, sabe? Em Campo Grande havia - não era só na nossa casa, [era] quase geral, todos viviam com muito... Nessa parte, embora fosse um estado muito distante de grandes recursos, tinha tudo muito farto. Começaram a formar aquelas fazendas, muito doce, muito queijo, sabe? Foi uma coisa muito boa. Hoje em dia tudo pesadinho, controladinho, é tudo na ponta do lápis, mas antigamente era tudo de sobrar. Foi assim, pelo menos é o que eu me lembro. (risos)

 

P/1 - A senhora falou algumas vezes já do seu pai. Seu pai italiano vem para o Brasil. A senhora sabe a situação? Como seu pai veio para o Brasil? Por que?

 

R - Não sei, não. Eu sei que… Naquele tempo também, a gente, apesar que a minha mãe dizia sempre: “O seu pai conta a história da vida.” Italiano gosta de conversa comprida, mesmo. “Seu pai conta a história da vida. Vocês nunca podem negar a idade ou coisa porque seu pai conta o dia de cada um. Porque quando tem amigos, uma roda, ele conta: fulano nasceu em tal dia, tal hora.” E a gente achava graça. Minha mãe dizia: “Vocês não podem enganar a idade pra ninguém, porque seu pai sabe tudo na ponta da língua. Ele lembra tudo.”

Naquele tempo a gente não prestava muita atenção nesse negócio de exterior, como é que desenvolviam essas viagens, mas meu pai veio com os pais e umas irmãs dele, uns irmãos - eles também eram um número de irmãos, uns sete ou oito. Eles vieram para o Brasil, sendo que naquele tempo parece que os meus avós viajaram e uma das irmãs do meu pai era nascida na França. Falava muito italiano, se entrosou, mas ela era nascida na França, numa viagem dos meus avós. E depois vieram aqui pro Brasil, o meu pai acho que tinha uns oito anos de idade. Depois ele voltou de rapaz; ele até fez um curso de metais pra ter essa oficina, essa indústria que ele teve.

 

P/1 - De metalurgia.

 

R -  É, ele fez um curso na Itália e daí foi pra Campo Grande, quase que sendo um dos fundadores da cidade. (risos) Porque [quando] chegou, a cidade era muito precária, estava em começo ainda, né?

 

P/1 - Ele voltou à Itália?

 

R - Não, ele voltou depois de rapaz. Aí estudou, fez o curso da especialidade que ele gostava e foi convidado pelo… Meus pais casaram em Santos. Eles saíram de Santos a convite do governador de Mato Grosso porque a cidade precisava ser canalizada, ter a rede de água, não tinha. Meu pai naquele tempo foi e montou uma oficina que lidava com um número grande de empregados, de coisas... Foi a convite que nós descobrimos Campo Grande. Foi muito bom e lá eles têm os túmulos. Estão sepultados lá, quer dizer essa é a... Todo o percurso que eu lembro.

 

P/1 - E sua mãe?

 

R - A minha mãe nasceu em Pederneiras. Minha avó chamava-se Irene, tinha o meu nome e a outra, minha irmã mais velha, tem o nome da minha avó paterna. Eu tenho o nome da minha avó materna. E a minha mãe foi uma pessoa... Vinte anos mais nova que o meu pai; meu pai já se casou meio madurão. Foi uma esposa especial, tanto que depois que eu já estava casada... Meu marido é médico, ele mesmo dizia que o meu pai faleceu assim como um passarinho, sem ter uma doença declarada, nada. Diz que foi uma queda de pressão, um negócio que ele teve, mas estava beirando os noventa anos. E a minha mãe, ele dizia, o meu marido: “Sua mãe vai falecer em seguida porque é demais agarrada com seu pai.” Quer dizer, não parecia que tinha uma diferença de idade grande. Ela dizia que quando tinha se casado vinham pessoas pra tratar de serviços com o meu pai. “O pai da senhora está aí?” Depois passaram a dizer o marido, daqui a pouco vão perguntar se é o filho. (risos) Porque a mulher vai se entrosando na casa, ficando dona de casa, criando filho, engordando um pouco, todas essas coisas, então a minha mãe perdeu também o pai… Não, eu já tinha nascido quando faleceu o pai da minha mãe. A minha avó Irene me amava muito, me deixou muito crochê, muita coisa. Olha, eu me lembro mais ou menos... (risos)

 

P/1 - Dona Irene, eu gostaria de voltar lá na sua infância, lembrar um pouquinho da sua época de escola. Como a foi a entrada da senhora na escola, a relação familiar com os seus irmãos quando era criança? A senhora citou também que tinha uma mãe preta, não é?

 

R - Pois é. Quando começamos a estudar no colégio das freiras, Colégio Nossa Senhora Auxiliadora… Naquele tempo, pra falar a verdade, tinha o Pestalozzi, hoje até a construção desse colégio é Colégio Dom Bosco, colégio dos padres.

Naquele tempo eu tinha seis anos de idade. Mamãe matriculou a gente no Pestalozzi. Eu ia com a minha irmã e aconteceu uma coisa quando eu estudava lá. Era depois do almoço, eu e a minha irmã chegamos um pouquinho antes e tinha um pátio calçado no meio do colégio. Peguei onde tinha a calçadinha, que tinha as aulas aqui… Comecei a me balançar numa cadeira de balanço e a cadeira virou; eu bati com a cabeça no meio-fio da calçadinha que tinha e tive meningite. Naquele tempo, meningite, o Brasil inteiro ficava sabendo, porque era uma doença que precisava [de] isolamento - lá em Campo Grande não tinha isolamento. Tive que parar de estudar. Eu tinha seis anos e naquele tempo pegava só com sete anos, a escola, mas o professor de lá disse: “Ela quer vir com a irmã, senão fica chorando.” Aí fui, foi quando eu tive meningite. Meu pai fez uma junta médica, o médico que me tratou foi muito competente, o clínico. Depois que eu estava bem - fiquei paralítica de meio corpo por um certo tempo - meu pai me trouxe aqui em São Paulo; elogiaram muito os médicos de Campo Grande. Nesse tempo foi aberto o colégio das freiras. As freiras foram pra lá pra instalar o colégio, aí nós passamos para o colégio das freiras, que eu posso dizer que foi o meu começo de estudo. Naquele tempo o colégio das freiras era só até ginásio porque não tinha faculdade lá, então os filhos homens geralmente vinham pra São Paulo, Rio, mas as filhas mulheres era muito difícil, mesmo porque era preocupante, não é? Era uma viagem muito longa. Pôr filha moça numa pensão, na casa de quem? A gente mesmo não queria sair às vezes, então tinha que tomar professor particular.

Minha mãe dizia que a maior herança que ela queria deixar era cultura, instrução pros filhos, educação, estudo. Começamos a fazer música [no] colégio das irmãs, que foi um colégio até hoje maravilhoso. Não sei se ainda tem, mas era conservatório reconhecido de música. Estudamos, depois punham professor particular em casa pra ir melhorando cada vez mais e ficamos nisso. Meus irmãos não, estudaram, foram pro Rio, os que quiseram e puderam.

Eu me lembro assim de muita coisa boa no tempo da… Tem um detalhe que eu achava muito engraçado, outro dia conversando com meu marido. A minha irmã mais velha dois anos do que eu era da mesma classe. Ela brincava muito com as freiras, e as freiras diziam assim: “Você não está copiando!” Ela era altinha, eu era mais baixa. “Você não está copiando aqui, não está tomando aula!” Ela dizia assim: “Pra que duas da mesma casa?” (risos) Daí quando eu chegava… Ela era folgada. Quando nós íamos fazer prova, ela dizia assim: “Irene, me dá o caderno!” (risos) Eu ia estudar. Era muito engraçado.

Ela foi muito dedicada à música, é uma pessoa muito boa. Hoje está viúva, com bastante idade porque tem dois anos a mais do que eu. Ela foi uma benfeitora: tudo que ela pode ajudar, tudo que ela pode fazer, tudo que ela fez… Meu cunhado também foi uma pessoa maravilhosa.

Tem muita coisa da infância, é tudo muito encantador...

 

P/1 - E a escola da senhora? Quanto tempo, até que ano a senhora estudou? A senhora se formou lá?

 

R - Não, eu fiquei...

 

P/1 - A senhora ficou até que série lá?

 

R - Nós estudamos até... Fizemos secundário porque era o único que tinha lá, não tinha mais. E daí nós fizemos... Tinha professor em casa.

 

P/1 - A partir daí?

 

R - A partir daí, mas continuava a estudar música. Música tinha curso de conservatório completo, não é? Então foi tudo no limite.

 

P/1 - E a vida na escola? Como era a escola, o que se fazia?

 

R - O colégio das irmãs… É tudo muito diferente de hoje. A construção gigantesca, linda, com uma igreja colossal. Era internato e externato. Tinha os dormitórios, o refeitório. Uma construção maravilhosa, grande, foi um melhoramento mesmo, até pra cidade.

Tinha a exposição de trabalhos artesanais no fim do ano, mas era uma exposição que vinha autoridade. Coisa muito bem montada. Tinha teatro - a gente tocava, representava no palco. A igreja muito linda do colégio. Tinha as quermesses, de vez em quando com a gente com fantasia. E as freiras eram vestidas de preto; naquele tempo o hábito era pesado, [eram] irmãs salesianas e a maioria era estrangeira - irmãs francesas, italianas, mas falando bem o português, bem preparadas.

As irmãs assim foram muito... Naquele tempo até corria um: “Eu não ponho minha filha num colégio das irmãs...” Era um colégio que selecionava muito, mas era um colégio que tinha gente que dizia: “Ah! Eu não ponho porque as freiras vão incutir pra ficar carola, ficar não sei quê...” Não, eu tenho uma lembrança linda do colégio das freiras, das minhas professoras, elas foram amigas, foram mães, foram pessoas muito interessadas na educação. Foi uma coisa muito linda. Eu tenho uma lembrança imensa. Eu gostaria que essas crianças de hoje tivessem essas freiras, essas pessoas que cuidavam, que zelavam tanto, educavam, viu? É uma lembrança que eu tenho muito grande, muito boa do meu colégio, das minhas colegas e de tudo que foi.

Eu me lembro de Campo Grande assim, das viagens que a gente fazia. Meu pai era muito amigo dos filhos. Quando era férias, ele chegava na hora do almoço - ele gostava muito de viagem. Ele chegava na hora do almoço [e]  dizia assim: “Quem é que quer ir comigo?” Já convidava os filhos. Minha mãe não era toda viagem que podia vir, só vinha de vez quando ver os meus avós, os irmãos dela em Santos. Mas meu pai convidava os filhos. Teve uma vez que ele trouxe um meu irmão com quatro anos de idade... O resto não podia vir porque estava estudando na ocasião, então ele trouxe meu irmão com quatro anos de idade. A família dele morava em São Paulo, então tinha quem olhasse também, não é? Minha mãe ficou muito inquieta: “Mas como é que você vai levar seu filho com quatro anos de idade, que precisa um cuidado especial, tudo diferente?” Ele disse: “Pode deixar comigo.” Pois olhe, ele o trouxe de dia com os filhos acompanhando, lidando, chamando...

Ele foi uma pessoa muito fácil da gente lidar. Sabia ser autoridade, mas era uma autoridade suave, carinhosa, assim ele exercia a autoridade de pai. (risos)

A nossa mãe preta que nós falamos apareceu na casa dos meus pais quando eu tinha dois meses de idade, foi quando chegamos em Campo Grande. Ela tinha ido de Minas, nem sei como ela foi parar lá em Campo Grande. Ela vinha dos escravos ainda, aquela sobra, e foi pra nossa casa, não sei por obra de quem. Mamãe com aquela criançada, com aquela casa grande também, que meu pai tinha alugado, naquele tempo, viu aquela moça e disse assim, mas... Mamãe foi uma pessoa muito cuidadosa na parte da higiene, ela cuidava muito, né? Ela dizia assim: “Como é que eu vou pegar essa moça? Mas também dispensar, ela está falando que não tem onde ficar!” Então aceitou. Embora com todo o cuidado, com toda precaução porque a gente não conhecia, veio de fora, assim sem mais nem menos. E não sabia nem dizer a descendência, nada.

Ela dizia que era Maria Francisca, não tinha outro nome, outro sobrenome, então a gente ficava assim meio desconfiada, meio cuidando. Mas foi uma pessoa que logo, logo minha mãe disse: “Essa tem que se entrosar na família porque é uma pessoa digna, boa, sofrida.” E assim ela ficou. Depois ela arranjou um companheiro, um marido, que meus pais aceitaram, e assim foi ficando lá em casa...

Até que era engraçado porque quando vinha uma pessoa de cor lá em casa, alguma menina brincar com a gente (risos)... Ela era bem negra mesmo, não era dessas negras magrinhas, ela era daquelas bem rechonchudas, de lenço na cabeça. Ela não queria que aparecesse o cabelo de negro, ela punha lencinho na cabeça. Quando vinha uma pretinha em casa, ela dizia assim: “Cuidado! Não vai brincar, não porque se pegar piolho, piolho de negro não acaba nunca!” Quer dizer, ela tinha complexo com ela própria, pra defender a gente, você viu como ela era? Então mamãe dizia: “Não tem nada disso de negro, de nada, não.”

Tinha uma amiga da minha mãe que tinha pego uma criança pra criar, uma menina... Ela era branca, mas pegou a menina preta e criou essa menina assim. Então trazia lá em casa e era uma beleza, a menina, nossa! A gente repartia boneca, brincava. Então ela dizia assim: “Negro não casa de véu e grinalda, vocês não vão não sei o quê.” Quer dizer, ela cuidava de uma parte que era dela porque ela era de cor também, não é?

Depois que nós acostumamos tanto com ela, porque ela faleceu muito depois dos meus pais, eu não aceito quando falam de pessoa de cor na minha frente.  Não, eu não aceito! Eu me revolto, não, eu tenho prova! Não pode, uma pessoa vem dizer… Sem cultura, desnutrida como chegou lá em casa, uma pessoa sem nada, sem um amparo, como é que soube ser gente, ser direita, ser uma pessoa maravilhosa como ela foi! Então quer dizer assim, eu sempre... Quando estão falando de uma pessoa de cor, que hoje em dia existe ingratidão, sempre existiu, né? Quando falam eu fico quieta, até na hora em que eu posso dizer: “Olha, porque vocês não tiveram essa felicidade de conhecer uma pessoa tão serviçal, tão prestativa, tão materna, viu? Eu conheci, então não vamos generalizar, não. Gente ruim tem branco, loiro, tem de todo jeito e gente boa tem negro, tem mestiço, tem de todo jeito.” Então a minha vida foi assim um misto de tudo que… Esse apanhado que a gente lembra. Foi muito bonito!

 

P/1 - E a saída da senhora de Campo Grande? Quando a senhora saiu de Campo Grande a senhora veio pra onde?

 

R - Agora, essa mudança total com a família?

 

P/1 - Quando a senhora se casou...

 

R - Quando meus filhos terminaram o estudo lá, que lá tinha aquele estudo limitado, tinham que vir pra faculdade. E lá não tinha faculdade, então nós ficamos pensando: “Os meninos vão pra onde?” Propusemos a eles: “Vocês querem Rio ou São Paulo?” “Não, vamos pra São Paulo porque Rio tem praia, a gente vai se desviando um pouquinho do estudo, é melhor ir pra São Paulo.” Deixamos pra eles escolherem. Eles resolveram São Paulo. Daí ficamos pensando assim… Primeiro fizemos o cálculo, você tem que fazer um cálculo de tudo, de orçamento familiar, tem que fazer um cálculo das viagens que você poderá fazer, dos imprevistos; fizemos todo esse apanhado, estava tudo certinho. Vamos telefonar - naquele tempo que eles faziam faculdade já tinha telefone interurbano. Vamos telefonar tantas vezes, se estiver doente a gente vai - aí já tinha avião. Chegamos numa conclusão que era melhor vir, mudar de uma vez os quatro pra cá, pra dar uma assistência maior e tudo. E de fato viemos. Foi muito bom porque aqui o campo de estudo aqui era muito maior, os meninos aproveitaram muito mais, fizeram tudo que puderam. E meu marido foi transferido pro hospital daqui, quer dizer que a vida normalizou do mesmo jeito. Alugamos um apartamento de chegada. Depois, com calma, compramos o nosso apartamento. Foi uma compra muito boa porque é desses apartamentos de cômodos grande, cozinha grande, muito bom. [Era] Recém-construído, nós fomos os primeiros. O apartamento não era habitado, novinho, em construção. Nós já compramos pronto, mas é um apartamento muito bom. Então eu tenho a impressão, falando em meu nome direto, [que] tudo que tem me aparecido tem sido melhor. (risos)

 

P/1 - Em que ano a senhora veio pra São Paulo?

 

R - Nós viemos em que ano pra São Paulo, Armando? Foi em 63. Foi quando os meninos entraram, foram felizes no exame. Até o diretor do Mackenzie elogiou porque o preparo lá em Campo Grande, que era interior ainda, era um estudo muito bom. Eles passaram nas duas faculdades. Foi aí que começou. Ficamos ali perto do Mackenzie, morando. Depois compramos aqui em Pinheiros - ali dizem que é Jardim América; não é, está numa divisa. Compramos um apartamento muito bom. Ter pais bons, marido e filhos bons e ter uma casa própria (risos), eu acho que a gente está completo.

 

P/1 - E como era viver na cidade de São Paulo, a senhora vindo de uma cidade muito diferente? Como a senhora sentia essa diferença?

 

R - Muito diferente. Quando eu cheguei em São Paulo… Lá em Campo Grande, como eu falei, eu fui criada no começo da cidade, em desenvolvimento, então era quase uma família. Toda a população de lá era uma família, sabe? Todos se conheciam, a população não era grande, mas aí, a gente... Agora me perdi...

 

P/1 - A chegada em São Paulo.

 

R - Quando eu cheguei em São Paulo eu estranhei muito, porque nós não éramos sócios de clube. Lá em Campo Grande nós pertencíamos ao melhor clube, levava meus filhos, sempre tiravam prêmio de fantasia, primeiro prêmio; a gente vivia naquele ambiente, muito gostoso. Um ambiente, pra falar a verdade, de um certo requinte, de um certo luxo, porque Campo Grande foi muito luxento depois que foi asfaltado, veio toda aquela melhora.

Campo Grande era uma terra que corria muito dinheiro, muito fazendeiro, muito gado; foi uma terra rica. Então os clubes eram… Vinham pessoas se vestir em São Paulo, no Rio, comprar toalete, teve uma época muito boa, mesmo. Nós frequentávamos tudo aquilo; quando chegamos, corta tudo, vem de mudança. Não tinha pra quem dizer bom dia! Era uma coisa muito estranha.

Alugamos um apartamento muito bonzinho, mas que ficava perto do estudo dos meninos porque meu marido dizia assim: “Eu já rodei muito por São Paulo.” Quando se formou ele ficou um pouco aqui como assistente do professor, então ele estava já bem conhecido [de] São Paulo. Ele disse: “Eu prefiro ficar perto da faculdade, pelos meninos, por causa do trânsito.” Alugamos um apartamento bom e ali ficamos. E eu não tinha... O apartamento que agradou não era de frente, era de fundos, quer dizer, você já fica meio isolado. Eu saía, ia pro supermercado, eu estranhava. Eu via... Ali perto da igreja da Consolação tem aquela bifurquilha, que vem carro pra tudo que é canto; eu ficava tonta, eu não sabia, tinha hora em que eu ficava com taquicardia, com medo, foi uma mudança assim, muito diferente. Mas devagarzinho, devagarzinho, olha...

Por sorte o Armando tinha sido assistente do professor Dr. Madeira. Quando ele foi pra Campo Grande e nós casamos, ele convidou o casal pra ser nosso padrinho de casamento, que morava aqui. Ele era radicado aqui, paulista. Eles foram para ser padrinhos de nosso casamento e nós ficamos lá, mas sempre [nos] correspondendo. Quando a gente vinha pra São Paulo eles nos tiravam do hotel, ficávamos na casa do doutor, que era uma mansão lá no Pacaembu. Quer dizer, a amizade foi continuando. Então esse casal nos abriu caminho. Ele disse assim: “Você vai indo pro hospital continuar o seu serviço, né?” Ele foi transferido pro hospital daqui. “Mas é meio expediente. Na outra metade do expediente você vai pro meu consultório, que está com a porta aberta pra você.” [Meu marido] Já tinha sido assistente dele no tempo de solteiro. Ficou um pouco nesse consultório e ficamos viajando; ele ia fazer inspeção em tal hospital e nós íamos junto. Até nos deram chave de apartamento no Guarujá, aquele conforto todo, em Santos e até em Campos do Jordão, [uma] casa. Ficamos como irmãos, tinha chave pra gente ir, ia com eles. Pra mim isso foi uma válvula [de escape] porque foi um apoio muito grande que nós recebemos. Hoje ele é falecido, e a esposa dele… Eu digo sempre a Armando: “O que precisar, que eu puder fazer, não tem o que pague.” Porque eu não tinha pra quem dizer bom dia! Encontrei essa família, nos recebendo assim.

Quando mobiliei minha casa eu disse: “Nós queremos comprar mobília.” Ela disse assim: “Eu levo vocês.” Ela dirigia o carro. Fomos. Naquele tempo tinha a casa Paschoal Bianco. Mobiliamos a nossa casa. Nunca houve necessidade financeira de um ocupar o outro, não havia essa necessidade, mas a amizade era uma coisa muito forte, foi muito útil pra nós, até hoje. Ela está viúva, está morando em Santo Amaro, mas somos irmãs; eu não esqueço nunca desse bem que nós recebemos. Eu já [os] conhecia porque eles foram nossos padrinhos de casamento lá em Campo Grande, então foi um começo. Fora disso era uma solidão, embora estivesse numa multidão tão grande de gente. Nós vivíamos bem dizer em solidão, porque não conhecia ninguém. Foi uma mudança brusca. Mas como eu digo que sempre as portas se abriram, até essa parte foi muito boa, muito bonita.

Hoje não, hoje eu rodo São Paulo. Nós temos um círculo de amizade muito grande, graças a Deus. Tem um detalhe importante aqui: por incrível que pareça, dizem que o paulista é meio seco, meio retraído, não é muito comunicativo. Eu tenho uma impressão completamente diferente! Tive há pouco tempo uma gripe muito forte e falando com as amigas que telefonam sempre. A minha igreja tem um círculo colosso de pessoas mais ou menos da minha idade, mais novas um pouco, mas tudo da terceira idade, então aquilo formou uma família, mesmo. Então, telefonando: “Eu nem posso falar.” Eu falava do telefone lá do meu criado-mudo. “Eu nem estou podendo falar porque estou com gripe.” Você sabe que mandavam almoço, prontinho! Eu dizia “não”... Ainda falam que paulista é pessoa que não é muito comunicativa, mas olha! Nós só temos bem pra falar daqui. Tudo foi muito bom, graças a Deus. A gente tem alguma passagem preocupante como essa mudança nossa, como [se] separar da família, dos irmãos, mas coisa grave, marcante demais, nós não tivemos. Eu estou no fim da vida, mas vou deixar essa vida com saudade. (risos)

 

P/1 - Dona Irene, a senhora falou bastante que sua chegada aqui em São Paulo foi uma vida de muita solidão, por falta de amizades, de relacionamento. Na parte do lazer, a senhora se divertia, tinha em algum lugar aqui em São Paulo que a senhora frequentava buscando lazer?

 

R - Quando nós ficamos... Inclusive ficamos no apartamento de fundo porque o apartamento era muito bom, mas [era] o único que estava vago e ficava perto da faculdade, então tinha que ser aquele! Quer dizer, ficou mais isolado, você não tinha uma janela, não tinha nada pra ver o movimento.

Teve esse casal que nos levava, nós viajávamos muito com eles. Nós fomos pro Sul, pro Brasil viajamos muito porque eles estavam… Não sei se eles também gostavam da companhia, só os dois de carro pra lá e pra cá e avião, mas sempre a gente dava um jeito de sair. Eles tinham casa em Campos do Jordão, tinham casa em Santos, moravam aqui em São Paulo, então a gente saia muito. Apesar de que numa dessas saídas, às vezes a gente ficava… Mas a gente precisa conhecer de tudo na vida, um pouco da boa vida e um pouco do sofrimento.

Meu marido tem o curso, ele é leprologista também e o Dr. Madeira era chefe do serviço da lepra aqui em São Paulo. A gente visitava leprosários, pro interior, naquele tempo. Hoje não, está muito civilizado [o tratamento para] esses doentes, parece que os leprosários fecharam até. Mas é uma coisa que a gente precisa conhecer, pra gente ter uma formação humana, pra gente conhecer o mundo, todos os valores. A gente precisa muito de ver tudo isso.

Tem uma outra passagem que me convidaram... Tinha essa minha madrinha de casamento, a irmã dela era esposa do ministro, da… Secretário da Justiça, então eles me convidaram: “Você quer?” Porque eu gosto muito de artesanato, faço muita coisa. Tudo que me aparece, o que eu não aprendi, eu crio, mas eu faço, gosto. “Você quer ir dar umas aulas lá na...” Naquele tempo tinha aberto, lá no Carandiru, o presídio, como é que chama? Casa de Detenção do Carandiru, novinha. “Você quer ir? Só que não é remunerado. Você quer ir como, como...?”

 

P/1 - Voluntário?

 

R- É voluntária. “Pois não, eu vou.” Vinha o carro lá do palácio, três vezes, parece que, por semana. Eu ia. Lá tinha umas professoras que ensinavam as presidiárias, mas eu ensinava as professoras. [O que] As professoras [ensinavam] era trabalho fraco, só paninho de prato, essas coisas. Aí eu vi outra miséria humana, foi lá naquele Carandiru, naquela casa, viu? Vi coisa que não é pra gente manter, manter vaidade, manter luxo, manter ilusão muito grande, fantasia, porque a gente fica completamente…

Porque eu achei que pior do que doença é um presídio. Sabe o que é ver tudo com um bracinho de fora na janela, porque não se prende nem passarinho. O ser humano não foi feito pra ser preso, é obrigado. Mas é muito doído, é muito triste, viu? E eu presenciei isso, só que não deu pra ficar mais porque quando muda a política sai tudo, renova tudo. Mudou o governador, mudou tudo, então saiu o Secretário da Justiça, todo mundo tem que se afastar.

Foi quando eu saí que saiu todo o grupo porque mudou, entregou pro outro governador, mas eu passei por coisas encantadoras, coisas emocionantes, tristes. Acho que é um preparo para a vida.

Frequentei também o Hospital Anchieta. Tenho um problema de coluna e eu ia fazer um exercício lá, uma fisioterapia, quando houve aquele incêndio daqueles prédios aqui do... Foram dois prédios, Joelma e Andraus. Ah! O que eu vi de gente queimada, fraturas e queimaduras de alto grau, terceiro grau! É uma coisa que eu digo, não sei porque a gente tem que assistir, acompanhar tanta tragédia, tanta coisa. Não era banditismo como é hoje, mas são coisas que aparecem na vida e que a gente vê, são passagens dolorosas às vezes, não é? Então eu sou uma pessoa muito vivida, muito vivida em todos os setores. (risos)

 

P/1 - A senhora falou em igreja. A senhora frequenta uma igreja?

 

R - Frequento. É outra graça de Deus, eu ser cristã. Eu digo sempre. Deus me fez cristã, meus pais eram católicos. Ninguém foi católico [com] exagero, chegou a ser carola, mas a nossa obrigação, cristã, a gente procura cumprir, não é? Eu digo sempre que tenho uma graça de Deus muito grande, que… Eu digo [que] não é uma religião católica fanática. Eu acho normal, então frequento a missa aos domingos, seguir a lei de Deus porque temos uma lei, nós temos tudo. Eu respeito muito e dou graças a Deus ter sido cristã. Sou batizada, de uma família religiosa, igreja católica. Respeito toda religião, inclusive já conheço alguma coisa porque sou uma pessoa curiosa, eu gosto de saber. Tenho amigas espíritas, tenho amigas de outra religião, mas ninguém interfere na opinião de ninguém. Então vivemos muito bem, são outros conhecimentos também. Na minha igreja nós já estamos habituados com nosso padre, nosso amigo, acompanhamos todo o desenvolvimento, ajudamos em tudo que a gente pode. Então é também outra atividade, outro convívio, é muito bom. Eu gosto muito.

Meu filho mais novo ficou cinco anos aqui casado, trabalhando numa firma de arquitetura de alto luxo. Ele estava bem preparado, então foi pra Campo Grande porque a família da minha nora era de lá. Eles se conheciam do tempo de criança, vieram a se casar. É filha de uma minha amiga, até, a minha nora. Ele mora em Campo Grande.

O outro, que é um ano mais velho, mora aqui em São Paulo. Ainda hoje me ligou de manhã, eles foram pra Atibaia. Esse tem a filha de nove anos, já é um senhor de 54  anos. Ele é muito atencioso, nós até demos uma procuração. Ele faz tudo pra nós, traz tudo na mão. Eu acho que se fosse uma filha mulher, que a mulher [é] mais adequada assim a [ser] dona de casa, esses detalhes… Mas ele desempenha tudo que nós precisamos e insiste: “Mãe, a senhora foi fazer exame de sangue?” “Não.” “Então eu vou levar a senhora.” “Não, você não tem tempo, meu filho, eu vou.” “Não pode, mãe. Tem que ir, então eu compro os remédios, me dá a receita.” Ele leva tudo na mão. Ele me leva todo sábado no supermercado, fazemos aquela compra maior. Verdade que de vez em quando tem que ir numa padaria, uma coisa que eu até que acho bom eu ir, mas ele não larga, ele não deixa. É uma pessoa que nos dá assistência completa.

Nós estamos tranquilos nessa parte. As noras [são] muito boas, as netas [são] um encanto! São uma neta e um neto. Um de 21 anos e a menina, que vai fazer nove esse mês ainda. Então é assim.

 

P/1 - Dona Irene, pelo que a senhora nos contou, a senhora veio pra São Paulo em 63. Em 64 estoura todo aquele movimento político, regime militar. Como a senhora viu isso? Como a senhora vivenciou esse período, inclusive, sendo uma mãe bastante preocupada, com dois filhos universitários?

 

R - Exatamente. Foi um tempo quente. (risos) Como a gente usa dizer. Foi um tempo quente, mas o meu marido sempre orientou muito os filhos pra se afastarem de tudo e qualquer assim... Greve, barulho. Aquele regime militar também, foi uma coisa que nós tomamos muito cuidado, mas que não alterou muito nossa vida. Lá no Mackenzie, naquele tempo, tinha umas rixas com a faculdade lá de Filosofia, faziam de vez em quando... Mas nós criamos os filhos assim: “Não participem de nada que seja prejudicial!” Eles, graças a Deus, seguiram, fizeram tudo. Então nós ultrapassamos aquilo sem grandes, sem sentir muito, sabe? Tudo que acontecia a gente [se] preocupava.

A faculdade era sempre muito agitada, mesmo naquele tempo, mas os meus meninos [ficavam] caladinhos, quietinhos, sem participar, sem nada. Ultrapassaram esse tempo, sabe? Eles não foram desse tempo de calça de bainha desfiada e cabelo comprido. Eles foram quadradinhos. Tudo aparadinho, limpinho, passado a ferro, sapato bem limpo. (risos) Foram criados assim. Até meu marido disse assim: “Quando eles se formarem, vamos mandar esses meninos viajar porque estão muito agarrados conosco, estão muito...Vamos soltar um pouco.” Mas a gente queria soltar dentro de uma responsabilidade, porque meu marido dizia assim: “Enquanto vocês estiverem sob a minha responsabilidade, vocês vão andar mais ou menos como eu quero porque eu sou responsável. Depois, quando vocês ficarem emancipados, maiores, aí vocês vão responder pelos atos. Mas por enquanto andem muito direitinho.”

Foi uma coisa excelente. Nunca usamos... Pancada em filho? Repreensão agressiva, ofensiva, que marque, que deixe uma lembrança? Nunca existiu na nossa casa. Eu digo assim: eu não queria ser sensível como eu sou. Eu não acho isso uma virtude, nem uma grande qualidade. Eu acho que a pessoa deve ser mais forte, eu sou muito sensível. Acho que a pessoa tem que saber lidar um com o outro. Qualquer palavra meio áspera machuca, não está bem. Então não sei se foi nesse ambiente que nós criamos meus filhos, que eles são uma coisa! As próprias esposas deles, as minhas noras dizem assim: “Igual a esses dois irmãos...” (risos) Nunca brigaram em casa, nunca teve uma coisa, agarrados, unidos. Esse que mora aqui, hoje mesmo ele disse: “Eu quis falar com o Alex, mas não o encontrei em casa.” Ele telefona todo dia: “Mamãe, a senhora ligou? Mamãe, a senhora viu?” Um dá uma assistência pro outro tão grande que a minha nora lá de Campo Grande, que é casada com o mais novo, diz assim.

Eles chamam o Gerson de Dá. Não sei porque o mais novo começou a chamar o mais velho de Dá. Até hoje eu digo: “É porque você tirava as coisas dele, porque pra chamar de Dá, você tirava decerto as coisas quando era pequeno.” Então a minha nora diz assim: “O Dá está aí, dona Irene?” Eu digo assim: “Por que?” “Ah! eu queria perguntar uma coisa pra ele.” Quer dizer, parece pai! O irmão, que tem um ano mais novo, consulta tudo o irmão, consulta o pai. A nora também tem esse respeito, sabe?

Quando eles se formaram, eles estavam solteiros, aí... Graças a Deus, porque o meu marido diz assim: “Quando eles se formarem a gente vai ter que dar um empurrãozinho, tem que pedir pra alguém se tem uma colocação...” Naquele tempo [se] falava muito em... Pegar esses medalhões, esses cartuchos, essa gente de poder, pra gente ver se arranjava um emprego. A gente fazia essa ideia. Quando eles se formaram surgiu tanto telefonema lá em casa, convidando os meninos pra emprego! Quer dizer, nós não mexemos uma palha. Por intermédio da faculdade, do Mackenzie, telefonavam.  E eu dizia: “Não vai, meu filho. Não sobe nesses prédios, sem saber quem é que está chamando.” (risos) Eu tinha medo. Eu dizia: “Mas como é que telefonam aqui dizendo pra você ir tal hora, lá? Cuidado, meu filho.” “Mãe, mas tem que ir.” “Não, meu filho.” Você sabe que arranjaram uns empregos que foram ótimos? Eles foram… Mas durante isso, teve um dia que eu nunca esqueço. O mais velho estava tomando banho e o mais novo da porta do corredor, do banheiro falava com ele: “Escuta, eu fui lá. Ele diz que paga tanto.” “O outro lá do chuveiro respondia assim: “Não! Tá pouco. Não aceita não que tá pouco.” Aí consultava o outro. Aí meu marido um dia chegou pros dois e disse:“ Escuta! Vocês estão começando por onde eu estou acabando. As propostas que vocês estão recebendo são muito boas.” Quer dizer, eu estou contando esse detalhe pra ver como um consultava o outro,  orientava o outro. Era tudo assim. Uma coisa muito… Graças a Deus, está até hoje. Deus queira que continue porque um dia que a gente faltar vão sobrar os quatro e eu quero que as minhas noras continuem assim unidas, que não tenham um aborrecimento que possa melindrar, que não tenha nada porque elas se dão bem. A minha nora que mora em Campo Grande batizou a filha dessa outra, da outra minha nora, minha neta. Ela é madrinha e o padrinho é da parte da minha nora. A madrinha é da parte do pai e o padrinho da menina é da parte da mãe, então misturou as duas famílias. Quero que, se Deus quiser, que prossiga assim quando a gente faltar, que eles continuem nessa união porque é um consolo, uma tranquilidade, sabe? A gente sabe que se um precisar o outro desaperta, se outro precisar o outro está amparando, muito bom. Já não está na hora?

 

P/1 - A senhora possui uma neta?

 

R - Tenho. Que vai fazer nove anos esse mês.

 

P/1 - Como que a senhora vê... A senhora está falando de todo um século, não é? Como a senhora vê o futuro dessa menina?

 

R - Eu vejo um futuro muito diferente porque já é a minha terceira geração. Não tem condição, nem mais ou menos de... Tanto que um dia.... Ela dorme todo sábado lá em casa. Eu acho que é um aconchego pra mim porque o meu filho, pra unir mais a família... Tem vezes que nem eles têm muito programa, mas: “Vai dormir com a vovó.” Ela vem todo sábado, dorme lá em casa e eles vão fazer um programinha de noite.   

Então... O que eu estava lembrando de falar com ela? Pra mim ela foi assim… Eu sempre fui muito feminina, gostava muito de boneca. Fui ter a neta depois de grande idade, né? Ela apareceu numa hora que quando eu a vejo na cama e ela diz: “Você dorme comigo?” - é ela que dorme comigo, mas ela diz assim - “Você dorme comigo, né, vó?” Ela quer pegar na minha mão. Eu fico olhando e dizendo: “Como a gente não perde um filho. Dizem que casando um filho, [se] perde o filho. Nós ganhamos porque olha ela aqui, é filha dele. É ele que está aí, metade dele aí.” Então eu fico olhando e digo assim: “Mas que felicidade, dormindo comigo.” Quer dizer, a ausência dele não foi muito brusca porque a menina veio, todo sábado fica com a gente, dorme, passa o dia todo com a gente. Muito nossa amiga, muito educadinha, muito boa... [É especial mesmo. Foi outra conquista na minha vida, que apareceu a menina, ainda em tempo. (risos) Eu faço fantasia pra ela, compro presente, agrado de todo jeito. Ela merece, é uma menina...

O rapaz também, que é mais moderninho, dessa geração [de] agora, diferente. [É] Completamente ajuizado. Saiu ao pai, ao tio, ao avô, saiu tudo direitinho. Ele é… Hoje até ele deve estar… Ele é do Mackenzie, mas é do vôlei. Eles saíram para um jogo, acho que foi lá em Santa Catarina que eles iam. É um menino muito especial também. Não teve esse negócio de cabeludo, nada disso, foi muito bom. Eu não sou contra esse modernismo que houve, não sou contra. Foi uma evolução da juventude, foi uma coisa diferente, não é? Isso não depõe contra ninguém, mas meus meninos não foram desse tempo. E a minha neta, eu vejo pra ela um futuro porque hoje ela é minha professora. Ela entende de negócio de computador, de tudo que não foi do meu tempo. Chega a ser minha professora. Então eu digo: “Vou ficar quietinha, porque essa aqui...” E de fato ela é muito aplicada, é uma menina que... Eu digo, o futuro dela é tão diferente que eu vejo, que não vou competir. Daqui a pouco ela é minha professora.

 

P/1 - Falando na sua neta, eu sei porque eu vi um depoimento seu, a senhora deu um presente a ela quando ela nasceu, feito pela senhora. Conte um pouquinho pra nós.

 

R - A minha nora estava almoçando lá em casa com o meu filho… Ela engravidou... Eles vinham almoçar sempre que podiam, mais aos sábados, porque a minha nora é engenheira também. Ela disse assim: “Sabe. Dona Irene, eu fui em todas essas casas de enfeite de Natal, de aniversário de criança, mas eu não queria fazer com aquilo porque é toda a mesma montagem: isopor, aquele plástico, aqueles castelos, aqueles mesmo desenhos, muito repetitivo. Eu queria uma coisa que fosse uma surpresa, uma coisa diferente. A senhora podia fazer?” Ah! Eu falei que perdi sono com aquilo, com aquele pedido porque eu faço artesanato, faço o que eu quero; vou criando, ninguém impõe nada. Ensino lá pra terceira idade, lá pra minha... Ensino grátis: levo meu material, ninguém paga nada, mesmo que as pessoas idosas não façam, mas elas gostam de assistir eu fazer, sabe? Eu já acho isso uma terapia, uma tarde boa da gente passar. Bom, aí a minha nora disse assim: “A senhora não quer fazer?” Eu pensei: “Meu Deus, o que eu vou fazer?” Eles moravam num apartamento com um salão muito grande de festa, muito bonito. Ela disse: “Pra enfeitar o salão, é aniversário dela. A gente quer fazer uma festa.” Mas naquilo mesmo que eu fiquei um pouco desnorteada, um pouco assustada, passou, me veio a ideia. Falei: agora a melhor coisa é eu sair, preparar o material, comprar e começar porque senão... Pra poder fazer com calma.

Fiz uma decoração, ainda tenho lá em casa alguma coisa guardada, muita coisa eu dei até pra igreja. Fiz uma decoração - eu tenho as fotografias, todas as paredes. Fiz um crioulinho, negrinho com bonezinho, com a perninha cruzada tocando, pus violão na mão dele, ele tocando violão, e a negrinha de roupinha com várias cores, cabelinho bem arrepiadinho com os lacinhos aqui e cantando. E ainda pus as músicas voando. Música mesmo, aqueles… Que eu comprei na casa dos enfeites na parede pra mostrar que eles estavam cantando e tocando. Comprei o violão. Depois eu fui pondo em cada pedaço de parede conforme… Eu pus a pureza, tem a menina toda de branco com babadinho cor de rosa, com cabelinho louro com tercinho na mão. Depois eu coloquei a invejosa. A invejosa é um negócio, está com os olhos assim... Mas tudo feito a mão. Fiz a intelectual com o livro aberto, lendo. Aí meu filho veio, eles não estavam sabendo, não viam e ele disse assim: “A senhora está fazendo boneca? A senhora fez alguma libanesinha?” Eles são sírios, libaneses, né? Eu não tinha feito. A família da minha nora é de família síria. O meu filho falou brincando, né? “A senhora fez alguma libanesa aí pra eu pôr na parede? A senhora está fazendo as bonecas?” “Ah! você lembrou.”

Fiz uma libanesa com uma touca, como se fosse um toucado todo em verde claro com dourado, e ela está com uma caixa na mão com jóias caindo, então ela era a riqueza. Aquela saia, muito linda. E dos dois lados as pajens, duas vestidas iguais. Uma com a fartura que era o trigo, a cesta cheia daquele trigo. Outra com a cestinha cheia de frutas, sabe? Mas eu não me lembro até agora pra contar. Tinha uma figura de cada coisa.

Depois eu comprei na casa dos enfeites de aniversário, eles fazem uns troncos de árvore pintado de isopor, aí eu coloquei as bolas coloridas, então essas bonecas ficavam assim: o teto era as árvores, elas ficavam embaixo das bolas, como se fosse embaixo da árvore. Foi uma decoração muito linda.

Pra essa neta eu tenho feito muita coisa bonita: primeira fantasia no clube, primeira coisa... Agora fiz um álbum pra ela. Entreguei no dia... Álbum eu digo assim, de figurinha, como se fosse criança. Está tão bonito! É um álbum grande com figuras que eu gosto muito de colecionar. Toda figura que eu acho bonita eu gosto de guardar, então fiz e dei pra ela no Dia da Ecologia, não tem o Dia Mundial da Ecologia? É um livro...

 

P/1 - Dia 4 de outubro, é o Dia da Ecologia.

 

R - Exatamente. Eu dei pra ela naquele dia. Quer dizer, não escapa uma data que eu não faça um presente adequado pra ocasião. É tudo pra ela ter a lembrança.  Primeiro eu pus a bandeira brasileira, Nossa Senhora da Aparecida, e a palavra Brasil, na primeira folha, porque Nossa Senhora é a padroeira do Brasil, a nossa bandeira, depois veio a fotografia. Mas eu não pedi pra eles, fui no meu arquivo de fotografia, peguei a fotografia do pai dela e pus. O primeiro quadro é a fotografia do pai dela e tem a legenda, mas não é nada manuscrito, é tudo com palavras já tiradas de revista, já impresso. Do pai dela diz assim: “Mostre a seu filho a riqueza da ecologia, do mundo”, uma frase assim. Onde tem uma moça, uma figura muito bonita com as galinhas, pinto que está escrito: “Nosso sítio, meu sítio”. Eu pus na carinha da moça a foto dela, tão bem adaptada que você pensa que ela toda é aquela, mas não. Eu colei no rosto da outra figura o retratinho dela; está com aquele chapeuzinho de renda e está com... O álbum está lindo! Então o que foi possível fazer até agora.

Eu acho que está na hora de ir embora. Não pode encerrar?

 

P/1 - Eu queria fazer uma última pergunta pra senhora. A senhora tem algum sonho?

 

R - Sonho? (risos) Ah! Sonho todo mundo tem, eu acho. Não é possível viver sem sonhar. (risos) Mas o sonho é muito relativo em parte, porque querer mais o quê? Querer saúde, que a vida prossiga pra todo mundo muito boa. Gostaria de ainda assistir um mundo melhor, um mundo mais fraterno. Nosso Brasil sofreu ultimamente um baque bem grande, não é? Um mundo inteiro está passando por uma crise. Mas esse sonho eu gostaria e gostaria muito que não existisse miséria. Podia existir pobreza porque nós precisamos de níveis. Nós precisamos do carvoeiro, nós precisamos do engraxate, nós precisamos do padeiro, nós precisamos de toda classe, de espécie de serviço. Um precisa do outro. Então eu acho que isso é por escala. Deus já fez bem feito, não é? Não pode todo mundo ser doutor. Mas a miséria... Você ter um nível de escala está certo... Um vai servindo o outro, o outro vai servindo o outro e aí está o desenvolvimento, não é? Aí está o progresso, porque se todo mundo fosse uma coisa só, não dava. Tem que ter desigualdade de classe, isso eu aceito. Mas miséria, fome, como nós estamos vendo. Necessidade? Pessoa sem dente, sem saber escrever, sem saber escrever o nome, mora no meio da chuva, no barraco... Isso é um sonho que eu queria ver realizado. Pelo menos num nível melhor. Ser pobre, mas não miserável. Isso eu penso muito. Mas não depende de mim, não é?

 

P/1 - E o que a senhora achou dessa experiência da senhora estar nos contando a sua vida?

 

R - Quando eu fui convidada pra vir aqui... Nós temos o costume assim de não... De ser meio retraído, de precisar primeiro, tomar conhecimento do que se trata, pra gente participar, sabe? E eu não sabia. Eu falei: “O que será, meu Deus, que eu vou fazer?” Às vezes a gente vai num lugar -  não estou me referindo àqui, tanto que eu estou espontânea, falando tudo o que me perguntam, mas às vezes a gente vai falar num lugar [e] complica alguma pessoa, fala o que não deve. O que eu vou fazer, porque eu não sabia, sabe? Eu não sei se falei com você ou com a outra moça: “Mas do que se trata?” Ela disse: “Ah! não sei o quê.” Mas não dá pra explicar bem, né? Diante do convite que me foi feito, me telefonaram e tudo, depositou toda minha confiança. Eu vim feliz da vida, me considerando importante. (risos) Agradeço muito, viu?

 

P/1 - Muito obrigada.

 

P/2- Obrigado.

 

R - Nada.

 

 

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