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História

Tudo pela família

História de: Maria Cleude Oliveira Alves
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/01/2021

Sinopse

Infância cheia de regras no Maranhão. Casamento precoce para ganhar liberdade. Mudança para São Paulo. Dificuldades no casamento. Filhos. Saúde Mental. Fibromialgia. Luta. Família.

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História completa

A minha infância sempre foi muito atarefada, sempre tive muitas tarefas, porque eu era mais velha e, na verdade, ajudei a minha mãe a criar meus irmãos, então eu não tive brincadeiras. Se você me perguntar “’Você brincou de boneca?”. “Você brincou de casinha?”. Não. Eu tinha vontade, mas não tinha tempo.

Minha mãe era muito rígida e eu também era muito jovem, que eu casei muito nova e não tenho muito o que te contar de festa, não. Festas mais assim, que chamavam de vesperal, porque era a tarde. Essas, eu ainda frequentei algumas, mas festas mesmo, carnaval, porque lá no lugar que a gente morava tinha um carnaval afamado, eu ia, mas tipo meia-noite já tinha que voltar pra casa. Minha mãe não dava muita liberdade, não. E eu me casei muito nova, não tive tempo de aproveitar. Minha irmã casou mais velha e aí ela aproveitou mais, mas eu casei muito jovem, eu não aproveitei muito não.

Comecei namorar muito cedo, sempre fui muito precoce. Me casei adolescente ainda, e, na verdade, se você me perguntar: “Por que que você casou?”. Não sei, não vou saber te responder, mas eu acho... Hoje eu já consigo entender um pouco melhor, que eu me casei para sair de perto da minha mãe. Não que eu tenha raiva dela, eu vou todo ano visitar, eu tenho carinho, mas, na época, era isso, eu casei para sair de perto dela e eu achava que se eu casasse seria melhor pra mim.  

Me veio na cabeça assim: “Se eu me casar minha mãe vai parar de me encher o saco, vou ser dona de mim, ninguém mais vai me mandar fazer nada, eu não vou ter responsabilidade de tarefas de casa, de... Eu vou poder ir em festa”. Então pensei um monte de coisa, olha a cabeça de uma adolescente, né? Que casando você vai se libertar de tudo e de todos, então você vai viver a sua vida, porque você já é casada. Pensei tudo errado, mas aí ele pediu a minha mão pro meu pai.

Só pra você ter uma ideia, a minha mãe era de uma tal forma que a primeira vez que eu menstruei eu não pude contar pra ela. Não contei, ela nunca perguntou.

Na minha mente, eu ia me casar para me livrar daquele... Deixa eu ver como é que eu vou falar, daquela posse que minha mãe tinha sobre mim, de me manter dentro de casa, de não poder sair, de não poder namorar, de não poder ir em festa. Então, quando eu me casei, eu imaginei: “Nossa, agora eu vou poder fazer tudo o que eu não fazia antes”, ir em banho lá em igarapé, que as meninas iam em banhos lá que durava um domingo inteiro e aprontavam um monte, e eu falava: “Nossa, minha mãe nunca deixa eu ir”, mas eu fui algumas vezes, escondida. Então aquilo era muito bom, e eu imaginava: “Depois que eu casar eu vou em todos”, e não é isso que acontece, não foi isso que aconteceu. Então eu me frustrei muito. Primeiro que eu me frustrei porque não era nada daquilo que eu pensava, que eu ia poder aproveitar a vida, e, [segundo], que eu deixei de ser obediente à minha mãe pra ser obediente a uma pessoa que não tinha nada a ver comigo e não era nada daquilo que imaginei.

[Depois de tentar me separar no começo], eu coloquei na minha cabeça: já que eu tinha casado eu ia construir uma família e lutei.

Eu tive uma sogra que foi muito bacana comigo e a minha mãe também depois se tornou mais amiga, depois de ser vó, porque a minha filha foi a primeira neta dela, então depois de eu ter minha filha, de ser mãe, e ela ser vó, ela ficou uma pessoa melhor de conversar, me ajudou bastante com a minha filha.

Não sei se porque meu marido teve uma criação diferente dos homens atuais, ele não me ajudava, ele nunca me ajudou, nem me ajudava com a educação dos filhos e nem me ajudava com as tarefas de casa porque para ele trabalhar e ganhar o nosso sustento, já era o suficiente, não tinha que se preocupar com mais nada. Eu sempre fiz questão da minha parte, da minha tarefa, eu fazer e cumprir direitinho, então ele não tinha preocupação nenhuma com a educação dos filhos, com as tarefas de casa, eu fazia tudo isso sozinha, sempre fiz.

O meu marido nunca deu um banho no filho, nunca trocou uma fralda, eu não vou dizer que ele nunca levou no pediatra porque com as duas mais novas já foi um pouco diferente, ele algumas vezes me acompanhou no pediatra porque uma foi muito próxima da outra, então era muito difícil de levar as duas ao mesmo tempo.

[Apesar das dificuldades que passei], eu simplesmente coloquei na minha cabeça que o pai ia ter que ajudar a criar até o fim e que, mesmo o casamento não sendo aquela maravilha que eu imaginava, eu ia ter que leva-lo até o fim. E isso eu fiz. Passei por muitas... como eu vou falar... muita coisa que eu achava que eu não era capaz, mas passei de boa. Por eles.

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