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História

Tudo passa.

História de: Gabriel Grandi
Autor: Gabriel Grandi
Publicado em: 26/04/2022

Sinopse

Uma história sobre autoconhecimento e descoberta. O encontro do primeiro amor, e uma desilusão amorosa que me ensinou diversas lições.

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História completa

Era junho de 2019, eu estava apenas começando meu 2°ano do ensino médio com meus 16 anos. Sempre estudei na mesma escola desde os meus 5 anos de idade. A famosa ‘’fazendinha’’ como chamávamos. Conhecia todos e todos me conheciam. Eu não era o tipo de cara que se enfiava em algum tipo de grupo e não se misturava. Eu queria fazer amizades o tempo todo, sendo sempre simpático até com quem eu não conhecia.

 Eu vivia bem, mesmo com algumas desilusões amorosas do passado, tudo parecia correr tranquilo. Sem muitas preocupações eu seguia minha vida. Mas quando eu menos esperava, uma menina mais velha, do 3°ano veio correndo para mim, me contar uma notícia que mudaria minha vida para sempre.

Ela veio com um sorriso de uma ponta à outra. Me chamou para conversar em um canto meio escondido de todo mundo, como se fosse contar um segredo de estado nunca antes contado. Depois de eu ficar muito ansioso para ela falar logo, ela se acalmou e disse. ‘’Tenho uma amiga minha interessada em você’’. Eu fiquei muito curioso, obviamente perguntei quem era e ela me disse. Era uma garota que eu sempre achei muito bonita, sempre muito simpática e simples. Nunca tivemos muito contato, conversamos poucas vezes, mas todos sempre tiveram a visão dela como a ‘’nerd’’ e 'certinha'' da escola.

 Esta menina estava em um namoro há pelo menos 3 anos e com isso, eu nunca pude fazer nada a respeito do meu interesse por ela. Mas quando soube da notícia que acabava de receber e que ela havia terminado, tudo mudou dentro de mim. Fiquei muito animado e logo querendo puxar algum assunto com ela. Mas como eu iria fazer isso? Não tínhamos o mesmo grupo de amigos e nunca havíamos conversado sequer uma vez na vida. Foi aí que em alguma tarde, eu estava na sala de convivência da escola, jogando damas com alguns amigos. Ela entrou na sala com mais alguns colegas e ficou por lá. Tinham várias cadeiras na sala, e ela se sentou justamente na cadeira que estava do meu lado. Depois de algum tempo de silêncio ensurdecedor, eu consegui criar coragem e perguntar para ela ‘’Quer jogar?’’

Ela aceitou e eu não conseguia disfarçar a felicidade na minha cara. Qualquer coisa que ela dissesse eu soltava um sorriso tão frouxo, que minhas bochechas começaram a doer. Enquanto a gente jogava, estava claro o quão envergonhados nós estávamos pelo jeito que conversávamos. De qualquer maneira, no fim da partida eu ganhei e não parava de falar o quanto eu era melhor que ela dando várias risadas. O dia tinha sido bom e eu sabia que a partir dali as coisas seriam positivas. Peguei o número dela e me despedi, desejando uma boa viagem, já que ela iria para um passeio com a escola por 3 dias.

Foram 3 longos dias. No lugar onde ela estava, mal tinha sinal, então não conseguimos conversar muito. Finalmente quando ela voltou pra casa, tivemos a oportunidade de conversar um pouco, ficando horas e horas só jogando conversa fora. Não víamos a hora de a semana começar para nos vermos de novo na escola. Dessa forma começamos uma rotina. Nos víamos na escola todas as manhãs, conversávamos timidamente, chegávamos em casa e conversávamos o dia inteiro. Foi assim, até que chegasse a tão esperada festa junina da escola.

Havíamos combinado de ficarmos juntos lá. Eu já tinha esquematizado tudo, conversei com um amigo meu que ia ficar comandando a prisão da festa junina e disse a ele para prenderem justamente eu e ela. Dei um dinheirinho pra ele um dia antes da festa acontecer. Disse que só iríamos poder ir para a prisão depois de todas as gincanas passarem. Obviamente, todas as gincanas tinham que demorar muito, só fazendo minha ansiedade aumentar. Eu já tinha imaginado milhões de possibilidades com ela. Só queria sair dali e ir direto para a prisão.

Depois de longas 2 horas de gincana, finalmente tive tempo de ir para a prisão. Corri para achar meu amigo e falei para ele prender nós dois. Enquanto eu o esperava chamar ela para nos prender, a ansiedade só aumentava cada vez mais. Quando eu vi, ele estava vindo com ela, lá ao fundo. Ele estava segurando-a pelo braço, como se fosse realmente um policial e ela uma fugitiva. Me pegou pelo braço do mesmo jeito e nos levou até a prisão. Curiosamente, tinham mais alguns casais lá que tiveram a mesma ideia que eu. Várias pessoas se beijando, um clima um pouco estranho. 

Encostamos em um canto meio afastado e nos beijamos. Ali eu senti algo diferente. Algo bom. Algo dentro de mim dizia que aquilo não era normal. Consigo me lembrar exatamente das sensações que tive naquele momento. Tudo estava tão leve. Eu só queria ficar ali o resto da noite. E foi exatamente o que fizemos. Quem pagava para entrar na prisão só poderia ficar alguns minutos. Fizemos questão de sair da prisão, pegar mais dinheiro só para ficarmos mais tempo juntos. Já era tarde e precisávamos ir para casa. Fomos para a saída e nos despedimos. Sabíamos pelo olhar um do outro que tudo que acabara de acontecer tinha sido intenso e muito positivo para os dois.

A partir daí a história fica cada vez melhor. A gente foi se aproximando cada vez mais, conversando todos os dias e agora já não estávamos mais tão tímidos na escola. A gente arranjava alguma desculpa para ficarmos juntos no intervalo da escola, nem que fosse por 2 minutinhos só. As coisas iam bem, e pela primeira vez na minha vida eu conseguia ter uma perspectiva de futuro com alguém ao meu lado. A gente se entendia em cada olhar, em cada conversa, em cada brincadeira. Nada ali faltava.

Estávamos tão bem um com o outro e com nossa relação, que no dia 30 de agosto, quando os dois já não conseguiam mais esconder, ela olhou no fundo dos meus olhos e disse um sincero ‘’Te amo’’. Bom, nesse momento é difícil de descrever em palavras o que eu realmente senti. Eu acho que não se pode, nem deve descrever algo que só pode ser sentido. É a coisa mais funda que o ser humano pode sentir. É algo que te deixa na sua melhor versão, deixando os seus dias melhores. Sua vida muda, e nunca mais será a mesma após sentir esse sentimento pela primeira vez. O amor.

Eu fui para casa com sorriso de uma ponta à outra, sem vergonha de demonstrar a felicidade que eu sentia. Só conseguia pensar que finalmente eu estava sentindo amor. Depois de anos escutando o quão frio eu era, o quão cabeça dura e sem sentimentos. Finalmente eu tive a chance de ser alguém que sempre pude ser, mas que de certa forma estava oculto aqui dentro. Tudo correu perfeitamente bem. Eu não tinha o que reclamar, não tinha perspectiva alguma de que algo poderia dar errado. Esse foi meu erro.

13 de setembro havia chegado. Por mais que você que lê essa história, não acredite em superstições ou coisas mais ‘’místicas’’, curiosamente era uma sexta-feira 13. Uma festa de alguns colegas da escola ia acontecer e eu não poderia ir, mas ela iria. Eu estava com um sentimento ruim sobre isso, não conseguia saber o motivo exato, mas algo me incomodava, e muito. Acompanhei ela até a casa dela e me despedi com um pesar na voz. Mandei-a se cuidar e tomar cuidado na festa à noite.

Fui para casa e dormi antes que toda aquela aflição me consumisse. Como sou um cara que não consegue dormir até tarde, acordei às 7:00 da manhã. Era uma manhã de sábado calma e tranquila, minha mãe tinha acabado de fazer o café e aquele cheiro bom entrava pelas minhas narinas. Fazia frio e eu só queria me enfiar em algum casaco e ir direto para o computador. Faço exatamente isso e me aconchego na cadeira do escritório. Coloco meu café na mesa, pego meu celular e me deparo com a pior mensagem que poderia ter recebido.

Era meu amigo. Ele tinha mandado 3 mensagens de voz às 2 da manhã, justamente no horário da festa que ela tinha ido. Ele me contou com muita tristeza, que ela havia ficado com outro garoto lá na festa. Como eu iria acreditar nisso? Como acreditar que após duas semanas dela dizer que me amava, iria fazer isso. Não conseguia imaginar e nem entender o real motivo daquilo acontecer. Eu só conseguia chorar e pensar na mentira que eu acabava de viver. Chorava baixinho para que minha mãe não percebesse e viesse perguntar o que estava acontecendo. Eu só queria ficar sozinho sem conversar com ninguém. 

Algumas horas depois recebo uma mensagem no celular, era ela. Veio se desculpando, dizendo que não sabia o porquê de ter feito o que fez. Que estava arrependida e queria fazer diferente. É o que todas as pessoas que percebem, o que acabara de fazer dizem não é mesmo? Eu não estava bem para responder e nem queria. A minha única vontade era ficar sozinho sem ninguém. Após algumas horas, minha família percebeu minha ausência e queria saber o motivo. Eu dizia que não era nada e que logo ia passar.

Após longos dias evitando-a na escola e não respondendo ela no celular, chegou o dia 18 de setembro. Nesse dia, mal sabia eu, mas ela já havia conversado com um amigo meu sobre toda a situação que ela tinha criado e ele a incentivou a vir conversar comigo, e foi exatamente assim que ela fez. Estava no horário da saída e praticamente todos já tinham ido embora, a escola estava vazia. Ela me chamou de canto, quase sem conseguir olhar nos meus olhos. Sentamos em uma cadeira meio sozinhos, ela olhou pra mim e começou a falar.

Ela dizia que não sabia o motivo de ter feito o que tinha feito, e que se sentia muito arrependida de ter quebrado meu coração. De acordo com ela, o sentimento que eu tinha por ela era muito recíproco e que no momento da festa ela agiu sem pensar, e nas consequências que aquilo iria trazer para ela. Enquanto ela ia falando, eu só ia escutando e observando cada expressão de insegurança e desconforto que ela transmitia. De certa forma, todo aquele discurso dela atingiu meu coração e foi difícil de esconder a minha vontade de esquecer tudo que tinha acontecido 1 semana atrás e reatar tudo o que tínhamos construído. E adivinha? Foi exatamente o que eu fiz.

Não pude resistir a contradição do meu coração com meu cérebro, era impossível resistir à vontade que eu tinha de perdoar ela. Antes de dizer qualquer coisa, respirei bem fundo e olhei para ela. Percebi nos olhos dela, que ela imaginava que eu ia terminar tudo ali mesmo e não dar uma segunda chance. Mas quando ela escutou tudo o que disse para ela, toda aquela aparência de medo e tristeza, mudou para uma de alegria e esperança.

Confesso que foi difícil seguir como se nada tivesse acontecido. Muitas inseguranças. Muitos medos. Eu queria passar por cima de tudo isso para poder ter ela ao meu lado e sentir tudo que eu havia sentido até ali com ela. Com o tempo, de alguma maneira, fui reafirmando a confiança que um dia eu tive nela e as coisas pareciam caminhar para a normalidade. Mesmo que às vezes eu ficasse muito triste lembrando de tudo que ela mentiu para mim e do que havia feito comigo.

Os meses foram passando e as coisas pareciam estáveis. Ela brincava em vários momentos com frases do tipo: ‘’Nossa que vontade de ser pedida em namoro’’. Sempre deu várias indiretas, mas eu não sentia que estava no momento certo para isso acontecer. O ano foi acabando e os alunos foram entrando de férias. Eu, como péssimo aluno que fui, peguei vários exames finais na escola e tive que ficar mais algumas semanas na escola estudando para as provas. Ela sempre me acompanhava e acordava cedo só para vir comigo estudar, sempre foi muito estudiosa e sabia ensinar muito bem.

Mesmo com muito medo de reprovar nas provas, graças a ela, tudo correu bem e eu consegui passar com nota de sobra na maioria das matérias. As coisas iam bem e estávamos felizes. As férias estavam chegando e nós dois iríamos viajar, cada um com sua família. Foi então que em um domingo do dia 22 de dezembro, decidimos ir para a Avenida Paulista, na qual fecham a avenida inteira para as pessoas andarem livremente. E foi exatamente nesse dia que eu tive a ideia de pedi-la em namoro.

Comprei uma rosa de plástico no dia passado e guardei na minha mochila de uma forma escondida, dentro da minha blusa. Com um frio na barriga enorme, e muita ansiedade, peguei o metrô e fui em direção à paulista. Mais uma vez estava tendo aquela sensação de que o tempo não passava, que o metrô estava devagar e que nunca iria chegar até o destino. Eu suava demais, e não sabia se era de nervosismo ou do calor extremo que fazia naquele dia.

Finalmente cheguei e encontrei com ela. Nos cumprimentamos como se fosse somente mais um dia normal. Mal sabia ela que em algumas horas, tudo que ela estava querendo há vários meses finalmente iria acontecer. A tarde foi passando, andamos por muito tempo, bebemos e comemos várias coisas. A gente conversou de diversas coisas, estávamos sem nenhuma preocupação, só queríamos curtir o momento sem brechas para tristeza. De qualquer maneira, a noite ia caindo e eu estava ficando sem tempo para fazer logo o pedido, foi aí que chegamos até a casa das rosas.

Eu ''despretensioso'' falei para entrarmos e darmos uma voltinha lá por dentro. Entramos e estava muito vazio, a maioria das pessoas já tinham ido embora. Eu nunca tinha ido até lá, mesmo que o espaço fosse pequeno, era perfeito para o pedido que eu tanto tinha idealizado. Tinham várias e várias flores que combinavam um pouco com o momento que estava prestes a acontecer. Andamos mais um pouco e chegamos até uma muretinha que dava para sentar e ficar um pouco isolados conversando. Eu pensei comigo mesmo que se eu não aproveitasse aquela oportunidade e fizesse o pedido logo, teríamos de voltar para casa e eu ainda não tinha feito o pedido. Eu estava tremendo, mas me recompus, tomei coragem, tirei a flor escondida dentro da bolsa, olhei para ela com os olhos meio lacrimejando e falei ‘’Namora comigo?

Foi nesse momento que eu finalmente entendi o que queria dizer com ‘’as coisas ficarem em câmera lenta. Tudo parecia ter parado por alguns segundos, eu conseguia sentir cada mínima parte do corpo, tudo parecia intenso e vivo. Enquanto eu ficava sozinho nessas sensações, ela soltou um sorriso imenso, olhou pra mim e disse que aceita muito, me abraçando e me enchendo de beijos. Confesso que ali talvez tenha sido o dia mais feliz da minha vida, consigo sentir tudo, como se estivesse vivendo aquele momento agora.

Voltei pra casa, dei a notícia para meus pais que tudo tinha corrido bem e eles ficaram muito felizes. Me abraçaram e deram os parabéns para nós dois. Não tive nem muito tempo para comemorar pois já teria que viajar logo no dia seguinte. Deitei a cabeça no travesseiro e fiquei recordando todo o dia que eu tinha tido e o quão maravilhoso tinha sido. Mais uma vez, eu estava feliz.

De qualquer maneira, nós dois viajamos, ela para um canto, eu para outro. Estávamos tranquilos curtindo o Natal e o ano novo, sempre conversando por mensagens, dizendo o quanto estávamos com saudade um do outro e que não víamos a hora de nos reencontrar. Tudo corria bem, até que certo dia, estava na casa dos meus tios e comecei a sentir coisas estranhas. Comecei a ficar mal por nenhum motivo aparente. Eu estava muito triste, procurando o motivo, mas não conseguia pensar em nada. Tudo isso aconteceu por algumas horas até eu perceber que estava eu estava triste e esquisito especificamente com ela e com as outras pessoas estava tranquilo.

Eu dizia para ela o que eu estava sentindo, perguntando para ela se algo havia acontecido para nós dois conversarmos. Ela dizia que estava tudo bem e que também não entendi o porquê de eu estar daquela forma. Alguns dias se passaram e aquela sensação ainda existia dentro de mim, parecia que nada que eu tentasse fazer resolveria aquilo. Foram longos dias de um desânimo ao conversar com ela, que foram diminuindo após uma semana. As nossas viagens estavam terminando e tínhamos combinado de comemorar nosso 1 mês de namoro no mesmo lugar aonde tínhamos ido para eu pedi-la em namoro, a paulista.

Dia 22 de janeiro de 2020, fomos para a paulista nos reencontrar depois de exatamente 1 mês sem nos vermos. Observando atualmente, é até estranho pensar que meu primeiro mês de namoro foi à distância. As coisas pareciam normais e estávamos conversando sobre milhões de coisas sem problema algum, até chegarmos em um assunto delicado. Eu comentei com ela que se um dia eu traísse alguma pessoa, ou fizesse algo de muito ruim para ela, eu não me aguentaria e teria de contar para a pessoa, não conseguiria omitir aquilo. Perguntei para ela o que ela faria e ela ficou em completo silêncio. Olhei para ela e ela parecia meio desconfortável. Ela não conseguiu esconder que alguma coisa naquele assunto, deixava ela com vontade de desaparecer dali. Eu claramente fiquei muito mal e nada à vontade. O dia depois dessa conversa foi muito ruim, era um completo silêncio em todos os lugares que íamos. E foi exatamente assim que o dia acabou. Nos despedimos como se fossemos dois estranhos e fomos para casa.

Nossa história começa a se complicar mais aí. Ficamos distantes um do outro, com conversas superficiais sem muita intimidade ao que me parecia. Nada estava bem, tudo estava estranho. No meio de todo esse caos, um amigo meu me chama para tomar sorvete com ele em sua casa. Pensei comigo mesmo ‘’finalmente vou ter algum momento de paz e relaxar’’. Mal sabia eu o que estava por vir.

Era um dia de semana e eu tinha combinado com ele de nos encontrarmos após minha aula acabar. Era quase 15h e estava quase chegando na casa dele. Cheguei lá, cumprimentei ele e ficamos no sofá colocando os assuntos em dia. Ficamos bons minutos conversando, o assunto estava bom, mas ele olha para mim e diz ‘’mano precisamos conversar’’. Meu coração começou a acelerar e sabia que algo de muito ruim estava prestes a acontecer.

Ele veio e se sentou mais próximo de mim. Perguntou se eu lembrava da viagem que ela tinha feito no Natal. Eu disse que lembrava e perguntei o porquê de ele estar me questionando isso. Ele disse ‘’então, ela acabou ficando com um garoto lá’’.

Como? Pela segunda vez? Era impossível de acreditar que aquilo estava acontecendo novamente na minha vida. Mesmo perdoando. Mesmo dando uma nova chance, tendo que reestabelecer toda confiança que um dia eu já havia perdido. Como alguém podia fazer a mesma coisa com outra pessoa, sabendo o tanto que ela sofreu e ficou mal por sua causa. Nada disso entrava na minha cabeça. Não conseguia acreditar que era real.

Chorei desesperadamente, pois enquanto eu estava mal sem sequer saber o motivo (pelo menos até então), ela estava lá, fazendo o que fez. Perguntei para ele um pouco mais sobre a história e ele disse que tinha quase certeza de que isso tinha acontecido e claramente o que eu fiz? Acreditei no ‘’quase’’.

Fui para casa muito triste, sem falar e responder nenhuma mensagem dela no celular. Contei para uma amiga minha sobre a história toda, me ofereceu a casa dela para eu poder conversar a sós e tentar resolver toda essa situação com minha namorada. Foram as únicas coisas que eu falei para ela esse dia ‘’amanhã vamos conversar a sós’’, e dormi.

No dia seguinte novamente aquela sensação de que o tempo não passava. Tudo parecia levar uma eternidade para acontecer e eu só conseguia pensar no que falar e como tudo isso iria terminar. Peguei as chaves com a minha amiga e fui para o apartamento. Ela já tinha me liberado na portaria e eu poderia subir. Peguei o elevador, apertei o andar dela e subi. Eu estava sozinho na casa por enquanto e estava esperando para poder falar com minha namorada. Ela demorou um pouquinho para chegar, mas logo chegou. Bateu na porta e eu andei até ela para abrir. Quando abri, soltei um ‘’oi’’ baixo. Ela fez o mesmo e se sentou no sofá. Fechei a porta e fiquei de pé na frente dela.

Olhei para ele e perguntei se era verdade o que tinham me contado. Ela parou um pouco, olhou para mim e disse ‘’eu sabia que era isso’’. Eu com uma dúvida gigante perguntei como ela sabia. Ela me respondeu que era a única opção e que podia explicar. Ela começou falando que ele só tinha dado em cima dela e que ela ficou negando várias vezes. Que eles eram só amigos e que nada que tinham me contado era verdade. Depois de muita choradeira e de muita conversa, acreditei no que ela me disse após me ver chorando e falar olhando no fundo dos meus olhos.

A semana se passou e eu perguntava para o meu amigo mais informações sobre a história que ele havia me contado. Ele repetia sempre a mesma coisa e falava que ia procurar saber a verdade de tudo isso. Um certo dia ele me chama, mostrando uma conversa de um amigo dele, comprovando que tudo aquilo tinha acontecido. Salvei a conversa

Era fevereiro e o carnaval estava apenas começando, eu e ela fomos para as ruas curtir tudo o que podíamos. Foram 5 dias de festa seguidos, sendo os 3 primeiros muito bons e eu quase não pensava em nada que pudesse me deixar para baixo. Mas os últimos dois foram péssimos, só conseguia lembrar de tudo o que haviam me contado, sem saber o que era verdade e o que não era. No dia 24 de fevereiro, eu já não aguentava mais mentiras.

Fomos para um bloco de rua de carnaval esse dia, eu acabei bebendo demais e fiquei muito mal. Meu irmão e ela me ajudaram a melhorar e conseguir pelo menos ficar de pé. O dia já estava anoitecendo e precisávamos voltar para casa. Pegamos o metrô e eu fui com ela para a estação dela, somente nós dois. Estávamos quase chegando na estação, peguei meu celular e mostrei a conversa que eu tinha salvo. Ela olhou com uma cara de assustada, parecia não saber o que dizer, ficando calada. O trem chegou. Descemos. Encostamos em um canto e perguntei para ela se era real. Ela ia negar quando eu, com lágrimas nos olhos perguntei mais uma vez se era real. Ela não conseguiu mentir mais uma vez e confirmou que tudo aquilo era verdade.

Após vários meses passando por diversos problemas de confiança e ter tido um dia complicado, falei coisas para ela que me arrependo até hoje. Falei coisas que nenhuma pessoa, independente do que quer que tenham feito, merecem ouvir. Eu não queria olhar mais no rosto dela e voltei para casa muito abalado, tão abalado que ao chegar em casa meu pai e meu irmão queriam saber o que tinha acontecido a todo custo, e eu não conseguia falar. Só queria deitar e dormir para sempre

.

No dia seguinte me deparo mais uma vez com muitas mensagens dela, eu ignorei todas por semanas. Não queria nunca mais saber dela. Os dias eram péssimos, eu não tinha ânimo para fazer nada, só queria ficar na cama o dia inteiro. Eu achava que tudo isso não poderia ficar pior, mas ficou. Algumas semanas depois, anunciaram na TV que um vírus estava contagiando o mundo todo e que teriam de decretar pandemia global. Era a última coisa que eu queria, eu precisava sair e distrair minha cabeça, ficar em casa, me enchendo de pensamentos negativos só iria piorar minha situação que já era ruim.

Era maio de 2020 e a pandemia já estava acontecendo há algum tempo. Um dia fui dormir e acabei sonhando com ela. Foi um sonho esquisito e muito real. Em algumas conversas com uma amiga minha que também é amiga da minha ex-namorada, ela me contou sobre um sonho que ela havia tido e era exatamente igual ao que eu tinha tido e isso me deixou muito assustado. Pensar que estávamos sendo ‘’observados’’ por forças de outro mundo. E se você se pergunta o que aconteceu depois. Bom, estamos até hoje sem conversar, cada um seguindo suas vidas. Às vezes tenho algumas notícias dela, mas nada tão próximo como um dia já foi.

Bom, com uma história cheia de detalhes, eu tentei transmitir para você meu caro leitor, um texto de autoconhecimento, no qual um garoto que era tido como o rapaz ‘’sem sentimentos’’, consegue se conhecer e perceber que não há rótulos que possam ser postos para as pessoas, que elas serão assim para o resto de suas vidas. Um texto que mostra que não se pode ser dependente emocional de ninguém em sua vida, e que quem realmente importa no fim de tudo é você. Espero que você tenha tido um pouco de inspiração, e quem sabe algum dia não escreva um texto gigante igual o meu.

 

 

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