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Tudo no seu tempo

História de: Zulmiro Aparecido Pagliatto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/02/2021

Sinopse

Nasceu em Campinas, em 1957, em uma fazenda. Ascendência italiana, avós maternos vieram da Itália. Aos 13 anos a família se muda para cidade, idade que Zulmiro começa a trabalhar. Entrou na White Martins em 1978 na parte de enchimento de cilindro. Ao surgir a oportunidade de se tornar mecânico, Zulmiro volta a estudar, na Escola Líder. Auditorias. Casado, três filhas. Pesca e igreja.

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História completa

P/1 – Seja bem-vindo ao Museu da Pessoa, senhor Zulmiro Pagliatto.



R – Obrigado.



P/1 – Primeiramente muito obrigada por se dispor a vir até aqui, doar um pouquinho do seu tempo. Para começar a entrevista, senhor Zulmiro, eu ia pedir para o senhor falar o nome completo, a data e o local de nascimento.



R – Zulmiro Aparecido Pagliatto, nascido dia 5 cinco de abril de 1957, em Campinas, interior de São Paulo.



P/1 – Qual o nome dos seus pais?



R –  Arcênio Pagliatto e Leontina de Almeida Pagliatto.



P/1 – O sobrenome já diz que é italiano.



R – Italiano.



P/1 – Seus pais são italianos? Seus avôs?



R – Meus avós vieram da Itália.



P/1 – Qual o nome dos seus avôs?



R – Perpétua de Almeida e o meu avô Carlito de Almeida.



P/1 – Isso por parte… 



R – … Por parte da minha mãe. Agora, por parte do meu pai, no momento eu não lembro, não.



P/1 – E o senhor sabe um pouquinho a história dos seus avós maternos, de onde eles eram na Itália, o que eles faziam?



R – Sei que meu avô quando veio para cá, segundo minha avó, era bem de vida lá, até porque trouxe muito dinheiro, comprou algumas propriedades em Pedreira e depois sumiu de vista, nunca mais. Ninguém sabe como morreu. Porque depois que ele teve filhos, quem cuidou da minha avó foi o filho mais velho, da minha mãe também e mais dois irmãos que ela teve. O marido simplesmente sumiu, nunca mais o viram. Inclusive o que ele comprou aqui na cidade de Pedreira, que é interior do estado de São Paulo, ela perdeu tudo. Ele era, vamos dizer assim, uma pessoa bem analfabeta. Geralmente quem cuidava de todos os negócios era o marido, então acabou perdendo tudo que  tinha. Ficaram numa fazenda trabalhando, ela fazia algumas coisas para ajudar na despesa da casa e um padrinho meu, até que é falecido, que era o mais velho, cuidou dos outros até cada um tomar o seu rumo.



P/1 – Eram quantos filhos?



R – Ele tinha quatro filhos. Era uma filha e três filhos.



P/1 – A filha é a tua mãe.



R – É minha mãe.



P/1 – E ela nasceu também em Pedreira?



R – Ela nasceu em Pedreira. Quando vieram de lá da Itália só vieram os dois, de lá para cá. Até vieram de navio, ela contava até para gente que vieram de navio. Muito tempo para chegar ao Brasil.



P/1 – E lá eles cuidavam de terra também.



R – Ele cuidava de terra e tinha plantação lá. Não sei, eu não lembro, era pequeno quando ela falava nisso aí. Não sei o porquê deles saíram de lá e virem para cá. Mas eu sei que venderam tudo que tinham lá e vieram embora para o Brasil.



P/1 – Interessante. E aí tua mãe, então, cresceu em Pedreira também.



R – Cresceu em Pedreira.



P/1 – E depois, como ela conheceu o teu pai, o senhor sabe?



R – Olha, eu sei que esse padrinho meu veio morar numa fazenda que era onde o meu pai morava, e depois de um tempo morando lá, os dois acho que começaram a se gostar até que se casaram. Que é uma fazenda também, que não está tão longe do centro de Campinas, chama-se Fazenda São José, onde eles se conheceram e se casaram.



P/1 – E eles trabalhavam na fazenda?



R – Trabalhavam. Minha mãe, na época, também trabalhava na fazenda, mas, assim, cuidando mais a parte de lavoura, essas coisas, porque a fazenda tinha muita lavoura. E esse padrinho meu, a minha avó também, trabalhavam na mesma fazenda cuidando de lavoura, porque a fazenda tinha gado e muita plantação. Era uma fazenda grande. Essa fazenda até era de uma pessoa bem conhecida, faleceu há um tempo. É o José Bonifácio Coutinho Nogueira. Faleceu há uns anos, tinha bastante fazenda, e eles trabalhavam nessa fazenda.



P/1 – E aí eles casaram?



R – Aí eles casaram.



P/1 – O senhor nasceu nessa fazenda?



R – Eu nasci nesta fazenda. Quando eu tinha 13 anos de idade a gente saiu dessa fazenda. Aí a gente já veio para cidade, porque, o que acontece? Foi uma época que as fazendas começaram a parar um pouco com agricultura. Essas coisas. Muitas fazendas foram deixando disso, aí lá ficou só com gado. E meu pai já estava resolvendo sair de lá, aí ele veio para cidade.



P/1 – Mas o senhor viveu lá por 12 anos?



R – Doze anos.



P/1 – O que o senhor se lembra dessa fazenda?



R – Ah, era muito gostoso lá, viu? Quer dizer, eu vivi toda minha adolescência lá. Fazenda bem gostosa, quer dizer, você podia ficar mais à vontade, tanque para nadar, para pescar, que inclusive é o que eu gosto de fazer muito. Foi um negócio assim, uma infância bem gostosa. Fazenda geralmente tem muitas pessoas, não tem… Todos são amigos uns dos outros, todo mundo se conhece ali, sabe os familiares, todos se conhecem. Principalmente quando chega final de ano, Natal, coisas assim, e Ano Novo, geralmente a fazenda lá fazia uma comemoração entre as pessoas que moravam ali, que era uma coisa bem gostosa, uma coisa que a gente… Hoje é diferente. Até nas empresas hoje tá mudando, não tá tendo isso. Mas era bem gostoso o lugar.



P/1 – Vocês moravam… Várias casas perto, como era?



R – É. Lá era colônia. Tinha dois grupos de colônia onde as casas eram tudo geminadas e a gente morava numa casa assim. Uma casa até bem grande, acho que eram cinco cômodos mais um banheiro. Tem mais uma irmã também que nasceu nessa fazenda. Eu tenho um irmão que já nasceu mais para cidade, mas a irmã também nasceu, porque ela tem um ano de diferença de idade minha. Então, era um negócio, assim, bem gostoso. E quando chegou a época de estudar eu morava na fazenda, e outra fazenda próxima da que eu morava tinha escola. E aí a gente ia dessa fazenda para outra, para escola. Aí estudei até a quarta série do primário nessa fazenda. Aí depois a gente já… Depois de 13 anos a gente veio para cidade e eu continuei os estudos na cidade. Aí a gente mudou também para cidade, mas assim, a gente mudou num local que já é bem longe. Quer dizer, hoje esse lugar já virou uma cidade, mas na época não, que isso já faz uns 40 e poucos anos. Então, era um bairro, assim, distante da cidade, não tinha água encanada, não tinha luz, era água de poço, lamparina.



P/1 – Na fazenda também não tinha?



R – Na fazenda tinha. Não tinha água encanada, mas tinha luz. Água, assim, era encanada, mas tinha uma caixa e várias torneiras onde as pessoas iam buscar água ali, entendeu? Porque era água de mina também, sem tratamento também, sem nada, mas naquela época valia tudo.



P/1 – E aí vocês foram para cidade. Qual é o nome do bairro em Campinas? Lembra?



R – Jardim Santa Cândida.



P/1 – E como foi essa mudança?



R – Para mim e para minha irmã foi um negócio bem difícil, porque você tá acostumado numa fazenda onde você tem uma liberdade de sair a rua, correr, brincar com os amigos. Quer dizer, quando você muda num lugar na cidade, o seu espaço para sair é menor. Quando você vem da fazenda e vai para cidade, isso torna as coisas mais complicadas, você não tem aquela liberdade. Como a gente fazia em fazenda, você podia ficar brincando até tarde da noite. Quer dizer, e os pais eles tinham medo. Mesmo sendo um bairro muito sossegado, sabe? Então, começou a escurecer a gente já tinha que vir para casa. Porque os pais tinham certo medo, porque nem todas as pessoas da vizinhança você conhecia. Aí com o tempo você vai conhecendo as pessoas, você vai saber quem é e não é bom, quem serve para sua amizade, quem não serve. E foi assim.



P/1 – Da fazenda, veio mais gente, ou não? Só vocês.



R – Olha, quando a gente mudou de lá vieram duas famílias que mudaram num outro bairro que depois a gente mudou para esse bairro também. Mas como os filhos deles já eram bem maiores que a gente, então o nosso contato com eles já era mais difícil, era mais contato, assim, entre meu pai, minha mãe e os familiares deles que vieram, por causa da diferença de idade. Era muita, você não tinha muito contato. E eles já vieram bem mais idosos também.



P/1 – E as colônias acabaram?



R – Estive lá agora não faz muito tempo, na colônia não mora mais ninguém. Porque a fazenda… Dizer que não mora ninguém, mora. Mas se eu não me engano, eu estive lá, até tem uma pessoa lá que mora na fazenda que é daquela época, mas tinham só três famílias morando lá. Porque essa fazenda agora cuida só de gado de corte. Antigamente tinha gado leiteiro. Inclusive aquele leite São Quirino, o leite da granja, era fabricado lá. Acho que a maioria das pessoas já chegou a ver esse leite da granja tipo A, era fabricado lá. Aí acabou com todo o gado de ordenha, gado leiteiro, acabou com tudo, agora é só gado de corte que tem lá. Quando tem gado de corte necessita de bem menos funcionários. Então, lá deve ter umas três famílias só que tomam conta o resto acabou tudo. Aquelas colônias lá, uma parte das colônias eles desmancharam. Então, ficou uma fazenda bem abandonada, em vista do que era quando eu nasci lá. Hoje é um negócio bem abandonado.



P/1 – E o senhor sabe das outras fazendas ali da região? Também aconteceu isso?



R – O dono dessa fazenda, naquela região ali tem sete fazendas. Todas  são só para gado de corte. Tudo que ele tinha ali de gado leiteiro acabou. Plantação, ele tinha fazenda lá que só fazia plantação. Acabou com tudo. Hoje você vê aqueles lugares lá, tem fazenda dele hoje lá que é tudo cana. Inclusive ele é dono de uma usina, se eu consigo lembrar o nome da usina… Usina Ester, que é ali para o lado de Cosmópolis, ele é dono dali. Então, essa Usina Ester produz álcool para carro e o local ali tudo é essa plantação de cana. Algumas dessas fazendas que ele tinha nessa região que eu morava, ele também fez isso. Quer dizer, arou tudo, acabou com todo o pasto que tinha, e hoje é plantação de cana. Inclusive uma parte da fazenda que eu morava é plantação de cana. Uma parte tem gado, ele foi emendando, porque as fazendas dele são quase tudo emendada uma na outra. Então, a parte que deu para ser cana ele colocou cana e a outra parte tem gado.



P/1 – Mas o seu pai, quando vocês foram para cidade, não foi mais mexer com isso?



R – Não. Aí meu pai mudou completamente o que ele fazia, foi trabalhar numa firma de material de construção. Ele trabalhava num caminhão fazendo entrega de material de construção, no Taquaral.



P/1 – E vocês o ajudavam? O que vocês faziam nessa época?



R – Na época a gente não trabalhava. Depois que eu comecei a trabalhar com 13 anos, eu entrei numa sapataria. Aí eu trabalhei na sapataria um ano, um ano e pouquinho na sapataria. Aí ajudava em casa também. E a minha mãe trabalhava num outro… Perto da fazenda onde eu morava tinha uma fábrica de papelão e ela arrumou serviço nessa fábrica de papelão e trabalhava nessa fábrica. Porque quando a gente veio para cidade, a gente não pagava aluguel, aí a gente começou a pagar aluguel. Quer dizer, aí a coisa já fica mais difícil, você tem toda a despesa de casa e tem mais o aluguel. Então, minha mãe também começou a trabalhar, e logo eu comecei a trabalhar e começava a estudar à noite. Muitas vezes minha irmã ficava até sozinha em casa, na época ela devia ter uns 12 anos, mais ou menos. E eu trabalhei nessa sapataria um ano e pouco. Depois eu saí dessa sapataria e entrei numa firma que chamava Ibras CBO, que ela fazia seringa, essa seringa de injeção, e fazia equipamentos cirúrgicos. E eu trabalhei nessa parte de seringa, até eram aquelas seringas de vidro. Eu trabalhei ali quatro anos e seis meses nessa firma.



P/1 – Dos 14, mais ou menos, até os 18.



R – Aí eu saí de lá. Quatorze anos, 14 e pouquinho eu entrei lá. E depois a minha irmã também entrou nessa mesma firma. Trabalhei quatro anos e seis meses lá, eu saí de lá depois, porque eu queria mudar, a chefia gostava muito de mim, mas eu queria mudar o ramo que estava. Esse padrinho meu, o mesmo que é irmão da minha mãe, me chamou para trabalhar com ele, que ele trabalhava com construção, essas coisas assim, sabe? Me chamou para trabalhar com ele. Aí eu trabalhei um tempo com ele, depois em 1978 eu entrei na White Martins.



P/1 – O senhor ficou quanto tempo, mais ou menos, em construção?



R – Eu acho que fiquei, mais ou menos, um ano e pouquinho.



P/1 – Aí o senhor falou que voltou a estudar enquanto trabalhava, foi na fábrica de seringa?



R – Não. Voltei a estudar quando estava já na White Martins, depois de um tempo.



P/1 – Aí o senhor fez… 



R – … Eu fiz supletivo. A quinta, sexta, sétima e oitava série.



P/1 – Certo.



R – Trabalhando na White, fiquei dez meses num setor depois mudei de setor. Esse setor que eu fui, eu fiquei mais cinco meses, que é um setor de manutenção de cilíndro. Depois eu fui… Aí o chefe regional, como eu sempre gostei de mecânica, ofereceu para mim se eu queria ser o mecânico da White Martins, só que eu tinha que estudar. Foi quando eu fiz o supletivo em dois anos e depois eu fiz mais dois cursos, três cursos. Eu fiz tornearia, fiz controle de medida e fiz mecânica geral.



P/1 – Isso no Senai [Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial]?



R – Não. Eu fiz na Escola Líder.



P/1 – Fazia à noite.



R-  Fazia à noite. Saía do serviço e ia para lá. Porque, o que acontece? Depois que eu passei para mecânico, a gente começou a viajar bastante. Porque a gente assumiu mais seis unidades, então o que acontece? Tinha semana que eu perdia a semana toda de aula. Aí quando eu ia à aula tinha que correr atrás das pessoas para pegar matéria, para estudar para prova, o negócio foi complicando. Então, eu vejo assim, eu não tive um estudo mais… Até uma faculdade mesmo, talvez por causa da viagem. Quando você viaja muito é difícil você conseguir conciliar as duas coisas, fica complicado. O que acontece? Ou você se sustenta ou você sustenta a escola. E você precisa se sustentar, não é? Eu já ajudava também meu pai, minha mãe, porque minha mãe já não trabalhava. Meu pai já estava com certa idade, trabalhava menos. Arrumou outro serviço que trabalhava à noite de guarda numa firma, depois  começou a trabalhar num supermercado. Trabalhou uns dez anos num supermercado, fazia a guarda noturna do mercado. Até, inclusive, ele faleceu nesse mercado, trabalhando.



P/1 – Você tinha quantos anos nessa época?



R – Olha, puxa, acho que faz mais ou menos uns vinte anos. Não. Uns quinze anos. Uns quinze anos, porque minha filha já estava com 7 anos quando ele faleceu.



P/1 – Vocês receberam a notícia em casa.



R – É. Ele trabalhava à noite, quando foi de madrugada o patrão dele veio em casa e falou que ele tinha tido um problema, que estava no hospital. E aí esperou a gente se aprontar, fomos para o hospital. Quando chegou lá a gente conversou com o médico, o médico disse: “Olha, ele já chegou aqui morto.” Teve derrame cerebral fulminante, matou na hora. Ele tomava remédio para pressão, e quem toma remédio para pressão tem que tomar todo dia e naquele dia ele não tomou, foi quando a pressão dele foi lá para cima e aí não teve o que fazer.



P/1 – Sua mãe ainda é viva?



R – Minha mãe é viva. Tem 74 anos, mas, assim, não tem estudo. Mas aonde você falar para ela ir, mesmo com a idade que tem, ela vai perguntando e vai embora. Ela é muito assim, sabe? Não é aquela pessoa que tem medo de sair, então ela é completamente diferente. Mora numa cidade perto de Campinas, Jaguariúna. Mora com um irmão meu, tem a casinha dela separada, mas mora no mesmo terreno do meu irmão.



P/1 – E esse seu irmão já nasceu em Campinas?



R – Em Campinas.



P/1 – Enquanto você trabalhava na… 



R – … Temos treze anos de diferença de idade. Eu já trabalhava… Eu já estava  trabalhando na White, eu estava entrando na White quando ele nasceu, porque ele tem 33 anos, e faz 33 que eu trabalho na White. Então, eu tava entrando na White Martins quando ele nasceu. Até nasceu numa chácara que meu pai comprou depois que a gente saiu do aluguel. Depois que a gente veio da fazenda… Era uma chacrinha bem pequena, bem simples e foi ali que ele nasceu.



P/1 – Aí vocês voltaram a mexer com terra.



R – É. E a gente viveu ali nessa chácara 27 anos. A gente ficou ali. Depois de 27 anos meu pai faleceu e a gente ficou ali acho que mais uns dois anos. Aí minha mãe queria vender a chácara. Ela falava assim: “Ah, não, eu quero vender a chácara em vida, quero dividir com os filhos, tal”. Aí vendeu. Eu estava construindo uma casa, até era um sobrado, eu nem fui morar no sobrado, porque não tava pronta. Eu fui para uma casa no fundo da casa do meu sogro. Na frente da casa do meu sogro tinha uma casa vendendo, que era de um cunhado meu. Meu cunhado me ofereceu, eu falei: “Ah, eu não tenho tanto dinheiro assim, mas eu tenho uma parte”. Aí meu sogro falou assim: “Quanto você tem?” Falei a quantia. Ele falou: “Eu te empresto o resto para você pagar.” Falei: “Ah, tudo bem então.” Aí eu comprei a casa dele, que é essa chácara onde eu moro até hoje. Já faz uns 13 anos que eu moro ali, 13 para 14 anos. Que é já saída de Campinas, mas um lugarzinho gostoso. Minhas filhas já nasceram também nessa chácara. 



P/1 – O senhor sempre gostou de terra, não é?



R – Ah, sim. Com certeza.



P/1 – Como que… Voltando um pouquinho, o que o senhor lembra, assim, quando criança, depois quando adolescente quando foi para Campinas, dos passatempos, das brincadeiras, da escola nessa primeira fase?



R – Olha, na época da minha adolescência, era aquele jogo de pião que hoje ninguém nem vê falar mais nisso, mas isso era uma disputa que tinha na escola. Bolinha também era uma disputa. Minha mãe até brigava muito comigo porque saía da escola, em vez de vir embora para casa ficava jogando bolinha. Era esse passatempo que tinha. E nadar. Porque lá tinha muito tanque, então o que acontece? O divertimento lá eram essas coisas. Era nadar… Até a gente vê hoje com a educação nas escolas, não tem mais, por exemplo, o que eu fazia na época. Você caçar passarinho com estilingue. Quer dizer, hoje as escolas ensinam os jovens a não fazerem isso. Na minha época não tinha nada disso, então qualquer um da minha idade, é muito difícil alguém que não fez isso. Se não fizesse isso ele não tava no meio da turma. Foi uma infância… Foi mais ou menos isso aí.



P/1 – E da escola, o senhor lembra alguma coisa?



R – A escola eu lembro, assim, eu lembro as professoras, muito amigas mesmo, sabe? Eu lembro que eu tinha até bastante facilidade, eu brincava até com as professoras porque tinha facilidade que hoje eu não tenho mais, eu não sei o porquê, mas acho que é… Sabe quando você faz uma coisa, você fica bom naquilo. Eu tinha uma facilidade em Matemática, que eu não tenho hoje. Eu sempre fui ruim de Português. Ruim não. Eu fui péssimo de Português, mas outras matérias, História, essas coisas, eu era muito bom. Matemática mesmo a professora passava alguma coisa na lousa, ela ia escrevendo na lousa, eu ia escrevendo e assim que ela acabava de escrever, eu falava para ela assim: “Eu já sei qual é o resultado.” Ela falava: “Não é possível.” Eu falava: “Sei.” E ela: “Então, não fala e faz o seu dever.” Aí ela vinha no meu caderno para olhar, para saber se eu já tinha feito. Ela falava: “Não é possível. Você tem uma inteligência fora do normal.” Até inclusive quando eu fiz o quarto ano do primário, a professora do quarto ano queria me levar para morar junto com ela. Ela morava ali… Em Campinas tem o campo da Ponte Preta, ela morava perto do campo da Ponte Preta, dona Terezinha é o nome dela. Nova ela, sabe? Ela foi até em casa pedir para meus pais, para me deixar ir para casa dela que ela pagava os estudos para mim, porque ela achava, assim, que era um desperdício eu ficar na fazenda. Mas nem pai, nem mãe, jamais iam deixar. Meu pai e minha mãe falaram: “Não, de jeito nenhum. O único filho que eu tenho. Não. Não pode, não. De jeito nenhum.” E eu queria ir, sabe? Ela veio duas vezes em casa pedir para meus pais. Meus pais: “Não.” Porque era por fase, era o primeiro ano, o segundo, terceiro e o quarto. Era só até a quarta série, depois já tinha que ir para cidade. Aí fiquei mais um tempão sem estudar, fiquei um tempão mais morando ali na fazenda. Quer dizer, meu pai  tinha pouquinho estudo, minha mãe não tinha estudo nenhum. Então eles ficaram, assim, com medo de deixar os filhos saírem para cidade, sabe? Que é uma coisa que hoje eu vejo assim, a pessoa não estuda porque não quer, a facilidade é demais, muita facilidade. Mas na minha época era bem mais difícil. Bem mais difícil, porque, por exemplo, para sair da fazenda para cidade eu tinha que andar uns 30 minutos a pé, para tomar um ônibus que vinha de manhã às sete horas numa outra fazenda, e voltava só cinco horas da tarde. Quer dizer, eu teria que ficar o dia todo fora de casa. Então, para o meu pai e a minha mãe aquilo lá era um absurdo, não tinha conversa. E não só meu pai e  minha mãe. Ninguém daquelas pessoas que moravam ali na fazenda não saía  para estudar, porque os pais não queriam. Então, o que acontece? Muitas vezes a gente arrumava algum servicinho para fazer lá, ou então cuidava que meu pai tinha uma horta também, ele criava porco. Ficava cuidando. Galinha. Ficava cuidando das coisas para ele enquanto ele trabalhava. Então, o estudo meu foi pouco, mas porque você… Só quando a gente veio para cidade, já num certo tempo também, com dificuldade, aí que a gente começou a estudar, mas foi pouco. Eu acho que eu fui um pouquinho preguiçoso para o estudo. Hoje eu vejo, hoje eu cobro das minhas filhas que eu perdi o meu tempo, entendeu? Quer dizer, que depois que eu comecei a trabalhar, até comecei a viajar muito, você já não tinha mais tempo para estudar. Porque se você vai viajar, você fica uma semana fora, quando você volta as matérias já estão lá na frente. Como você vai conseguir acompanhar? Fica difícil.



P/1 – Mas nesse período em que o senhor trabalhou, desde cedo, o senhor já imaginava, o senhor sonhava em trabalhar com alguma outra coisa?



R – Olha, eu sempre pensei, assim, em ter uma oficina mecânica de carro. Inclusive meu irmão é mecânico de carro. Mas eu sempre tive vontade de ter uma oficina mecânica de carro, mas assim, eu nunca tive uma oportunidade, faltou uma oportunidade. Não é que faltou uma oportunidade, é que quando eu entrei para White Martins, quando eu trabalhei nessa firma anterior, Ibras CBO, meu salário não era um salário ruim. Quando eu entrei na White Martins o meu salário, puxa, foi um salário assim… Imagina, assim, você ganhar… Só para você imaginar, você ganhar 1000 reais e você entrar numa firma já ganhando 3500. É muita diferença, não é? Então, daí eu dei uma acomodada nisso daí de ter uma oficina, porque o salário… Quando eu falava para os meus amigos quanto eu ganhava, eles não acreditavam. Eles falavam: “Só acredito se você mostrar seu holerite.” Porque na época a White Martins na região nossa lá era uma das firmas… Ela e a Bosch eram as firmas que pagavam melhor. Então, quem trabalhava na White Martins tinha um privilégio. E hora extra você podia fazer muita, quer dizer, você entrava na firma o próprio chefe já dizia: “Você pode fazer hora extra? Se você puder fazer hora extra eu te contrato, senão, não.” Porque tinha muito serviço e pouca gente. Então, o que acontece? Quando chegava ao fim do mês você tinha um salário assim, que… Sabe? Aí você fala: “para que eu vou sair daqui?” Não é? Os benefícios que a White Martins dá hoje para você e dava no passado… Era muito, entendeu? Você não ia encontrar em lugar nenhum. Por isso você vê tantos funcionários na White com tanto tempo de casa. Porque as pessoas não tinham interesse em sair.



P/1 – E como foi essa sua… O senhor saiu da Ibras e foi para White Martins?



R – Então, foi um negócio até bem estranho. Tinha um colega meu que arrumou serviço na White Martins, aí eu ia sempre a casa dele. Quando eu cheguei um dia lá, depois de duas semanas ele trabalhando na White Martins, ele falou para mim assim: “Zulmiro, eu não vou trabalhar mais na White Martins, não.” E eu não estava empregado. Estava fazendo uns bicos com   meu padrinho. Aí ele falou assim: “Eu não vou mais trabalhar na White Martins, não. Você não quer ir em meu lugar, não?” Eu falei: “Onde é o escritório?” Aí ele falou. Na segunda-feira eu fui. Eu cheguei lá no escritório, falei: “Olha, estou aqui procurando emprego, tal.” Aí o rapaz do escritório falou: “Não, mas  o quadro está completo.” Eu falei: “Não, tem um rapaz que trabalha aqui que não vai trabalhar mais.” O Laércio. Eu falei: “O Laércio não mais vir trabalhar, não, ele trabalhou só até sexta-feira.” “Sério?” “É.” Aí ele falou para eu vir. E naquela época era fácil arrumar serviço, tinha muito serviço, muito mesmo. Naquela época só ficava desempregado quem queria, entendeu? Porque o escritório era na cidade e a fábrica no bairro. Aí ele me deu o endereço da fábrica e falou: “Vai lá e conversa com fulano.” Eu fui. Cheguei lá, procurei, era até russo o nome dele, ele falou: “O rapaz não vai vir mais, não?” Eu falei: “Não.” Aí ele me mostrou qual era o serviço. Ele falou: “O que você acha?” Falou o salário, um salário muito bom: “Você quer o serviço?” Eu falei: “Ah, depende, se vocês me quiserem.” “Então, volta lá e faz os exames.” Fiz os exames que tinha para fazer. Isso na segunda-feira. Na quarta-feira eu já comecei a trabalhar. Fui na segunda-feira de manhã, aí ele já deu o negócio para eu fazer exame. Saí dali, fui fazer o exame, terça-feira eu peguei os resultados dos exames, na quarta-feira depois do almoço eu já estava trabalhando. Fazendo o horário do meio-dia às dez da noite. Já começando a fazer duas horas extras, porque o horário era duas da tarde. E assim fui. Eu fiquei dez meses na parte do… Fiquei dez meses nessa profissão, que era parte de enchimento de cilindro. Depois tinha uma vaga para outro setor, na conservação de cilindro, aí eu fiquei mais cinco anos. Depois surgiu para as mecânicas. Aí eu fui para mecânica onde eu estou até hoje. Houve dois anos também que eu fiquei de operador, sabe, que é um serviço onde você fica… É operador de um gerador, onde gera para fazer o acetileno. Porque a White Martins tinha acabado com a mecânica. O que acontece? São Paulo sozinho não conseguia dar assistência para todas as unidades, aí começamos a fazer a manutenção de novo. Só que aí a gente não era mecânico, só depois de um tempo que a gente voltou a ser mecânico novamente.



P/1 – Entendi. Mas vamos voltar na questão de quando o senhor entrou. O senhor era responsável pelo enchimento de cilindros, né?



R – É.



P/1 – Conta para gente um pouquinho desse seu primeiro cargo, como era.



P/2 – Quando você entrou na White?



R – Em 15 de fevereiro de 1978, 1978. Isso aí é… Você faz o enchimento dos cilindros. Quer dizer, os cilindros vêm da rua no caminhão, vazios. Você faz uma inspeção neles para ver se eles estão em condições de uso e você faz o enchimento deles.



P/1 – E esse enchimento é o quê? Por um… 



R – … É uma bomba. Tem uns chicotes que você conecta nele por porca, e uma bomba comprime, que na época lá era só oxigênio, ela comprime o oxigênio para dentro do cilindro. Porque quando a bomba comprime o oxigênio ele está na forma líquida, depois ele passa pelos vaporizadores e se  transforma em gás que vai para dentro dos cilindros, porque daí ocupa menos espaço.



P/1 – Certo.



P/2 – Você falou que quando você entrou na White tinha muito emprego na tua região. Quais outras empresas que ofereciam mão de obra na tua área, assim, e que trabalham com isso?



R – Olha, minha área era uma área, assim, eu fazia qualquer coisa. Mas eu tive condições de entrar na Bosch, na Clark, entendeu? Porque bastava você ter alguém lá dentro que era fácil entrar, e eu tinha parentes nessas firmas. Na Singer,  oje nem tem mais, que fazia máquinas de costura. Tinha facilidade para entrar nessas firmas, porque como você é uma pessoa nova, e naquela época as firmas queriam muito, precisavam muito de mão de obra. É diferente de hoje que é uma mão de obra mais qualificada. Hoje exigem Engenharia, exigem um monte de coisa, mas na realidade quem faz a coisa acontecer é aquele um que muitas vezes não tem Engenharia, nada, que está fazendo o negócio acontecer. Mas eu tive a oportunidade de entrar nessas firmas. Quando eu tava trabalhando na White Martins, depois de um tempo, até tem uma pessoa, colega meu, que era chefe na Clark, ele queria que eu fosse trabalhar lá. Até arrumou para eu fazer entrevista lá, tudo, mas eu só não fui por causa do salário. O salário e os benefícios que a White tinha. O salário era um pouco maior que lá e os benefícios que eu tinha na White eram bem maiores que lá. As pessoas costumavam dizer que a White Martins era uma segunda mãe. Eu não digo, assim, que hoje não é gostoso trabalhar na White Martins, é gostoso, mas era muito melhor. Há tempos atrás era muito melhor. Acho que o dinheiro…  Tinha mais dinheiro. O dinheiro na White era com mais facilidade. Inclusive na época que a White Martins era da Union Carbide, e depois a Praxair comprou. Aí até uma época foi bem, mas agora a gente vê o estado que está os Estados Unidos, meio em decadência, então como é uma firma americana, o que acontece? Tem que mandar dinheiro para lá. Quer dizer, fica mais difícil para você trabalhar. Para quem dá manutenção você sabe o que precisa gastar. Você pede para gastar, porque precisa fazer a manutenção: “Não, segura mais, dá para tocar mais um pouquinho.” Sabe? Então fica um negócio, começa a ficar um negócio meio estressante, porque quem acostumou…  É que nem quando a pessoa tem bastante dinheiro, você vai a uma loja, vê uma coisa para comprar, você compara não tá nem preocupado. Que dizer, quando o dinheiro tá mais curto aí você fala: “Puxa vida, será que eu posso comprar isso?” Você fica naquela dificuldade.



P/1 – E essa facilidade econômica, o senhor presenciou aqui na época de enchimento de cilindro, depois em conservador de cilindro também?



R – Não. Nessa época aí tinha facilidade. Essa dificuldade começou agora, depois da crise agora que os Estados Unidos tiveram. Então, aí que as coisas foram ficando mais difíceis. A gente vê todas as firmas americanas que estão hoje instaladas no Brasil estão com essa dificuldade. Todas as firmas da Europa, a gente vê por reportagem como está o estado da Europa, muitos lugares, muitos países estão passando certa dificuldade. Então, todas as firmas estão enxugando funcionário, procurando tirar um monte de benefícios que tem. Mas isso é de pouco tempo para cá, faz pouco tempo. Antes não, o negócio era bem diferente.



P/1 – Mas depois, voltando para tua trajetória, você foi responsável pelo enchimento de cilindros nessa época, assim, vamos dizer que tinha essa abundância de recursos, fase de industrialização… 



R – … Eu não era responsável, eu fazia o enchimento, porque a gente na época era quatro, cinco funcionários que tinha nessa área. Dois trabalhavam na parte da tarde e dois na parte da noite. Um geralmente ficava cobrindo férias e quando não cobria férias ou tava num horário, ou tava no outro, dependendo do serviço. Mas nessa época era uma época boa, uma época bem mais fácil de trabalhar.



P/1 – E depois o senhor foi como conservador de cilindro.



R – Conservador de cilindro.



P/1 – O que mudou aí? Quais  eram as funções?



R – A função daí é você… Os cilindros para enchimento você faz um teste hidrostático nele, que na época você fazia isso só a cada cinco anos. Quer dizer, hoje já mudou, tem cilindro que você faz com cinco anos, tem cilindro que você faz com dez anos. Dependendo da fabricação do cilindro você faz um teste hidrostático nele. Quer dizer, você tira a válvula do cilindro, coloca água dentro dele, depois coloca uma conexão, aí tem uma bomba que bombeia a água dentro do cilindro numa pressão para ver se resiste àquela pressão por uma expansão elástica e permanente. Porque na hora que você coloca o cilindro nele, ele vai fazer um movimento do material e aí esse movimento, quando você tirar a pressão, ele tem que voltar nessa mesma elasticidade que ele tem. E dependendo se ele não voltar como é para voltar, que você tem uma tabela, ele está condenado. Aí é cortado, sucateado. Quer dizer, se ele está bom, aí ele vai para mais cinco anos. Você carimba nele mais cinco anos para ele estar no mercado, mais cinco anos enchendo.



P/1 – Quanto tempo, mais ou menos… Dá para estipular quanto tempo o cilindro de oxigênio dura?



R – Olha, ele não tem assim uma… Você vê, por exemplo, tem cilindro lá que quando eu entrei na White Martins tava enchendo já e enche até hoje. É porque, o que acontece? A cada cinco anos você faz um teste nele, quando você faz o teste você tira a válvula do cilindro, olha dentro dele. Então, o que acontece? Se ele não tá com…  Porque ele é ferro, um aço. Se ele não tá corroído dentro, se por fora está em perfeito estado e ele aguenta a pressão e faz o movimento de expansão, depois o contrário, se voltar ao normal, o que acontece? Este cilindro está apto para encher novamente. Aí ele vai encher mais cinco anos. Depois de mais cinco anos ele vai voltar novamente, você vai fazer tudo outra vez nele. Mas o que acontece? Todas as vezes que ele for encher, você olha para ver como estão as condições externas dele. Porque tem muitas vezes que o cilindro é condenado, porque tem um pingo de solda, outro porque sofreu uma amassadura, outros porque esvazia muitas vezes em alguma firma de produtos químicos, abrasivos. Se o cilindro fica encostado perto de algum ácido, alguma coisa assim, começa a enferrujar. Quer dizer, o que acontece? Então todos os cilindros têm que ter uma inspeção visual antes de serem cheios. A pessoa olha o cilindro de baixo para cima para ver se ele está em condições de encher. Quer dizer, esse cilindro, por exemplo, que muitas vezes fica perto de algum produto abrasivo, ele virá para filial todo enferrujado, aí geralmente vai passar uma lixa, vai fazer uma pintura nele. Mas o que acontece? Muitas vezes aquele produto atacou o aço dele e com o tempo aquilo lá vai começar a enferrujar muito. O que acontece? Você tem, nas normas que a White Martins _____, uma profundidade daquela ferrugem que pode estar no aço, entendeu? Dependendo da profundidade você tem que tirar esse cilindro e condenar. Mas se o cilindro não sofrer nada disso ele será cheio até uma hora quando você colocar no teste hidrostático e… Entendeu?: “Ah, não, esse aqui não tem mais condições.” Fora disso ele vai enchendo. Não tem, assim, um tempo de vida útil. Quer dizer, ele será condenado  dependendo da situação que você…  Dependendo de como ele tá. Porque,  muitas vezes, vem cilindro até novo, foi para o cliente, aí quando chegou lá, falta de cuidado, muitas vezes levou para algum lugar alto o cilindro caiu, amassou. Quer dizer, um cilindro novo já condenou. Aí tem outro que tem 30 anos e está lá ainda. Funciona mais ou menos assim. É que nem aquelas garrafas de vidro que eram retornáveis. Quer dizer, não tem um tempo de durabilidade, enquanto ela não quebrar, lava, coloca o produto dentro e vai para os mercados. Só quando ela quebrar mesmo, ou trincar a boquinha dela, alguma coisa assim que será destruída para fazer outra, mas fora disso… 



P/1 – … Porque nesses cilindros é só oxigênio.



R – É. Porque, o que acontece? Hoje a White enche um monte de tipo de gases. Agora, por exemplo, oxigênio, todos os cilindros novos que vêm para White, geralmente ela coloca o oxigênio primeiro. A não ser, por exemplo, que a fábrica mande cilindro já com outra pintura para outro gás novo, que hoje geralmente ele faz isso. Mas antigamente, o que acontece? Pegava os cilindros novos, colocava para oxigênio e tirava aqueles mais usados para outros gases. Porque o cilindro de oxigênio era o cilindro que tinha mais rotatividade. Isso há tempos atrás, porque hoje tem tipo de gases que tem mais rotatividade que o oxigênio. Porque com a tecnologia, hoje você, assim, por exemplo, você vai numa oficina mecânica, há tempos um cara precisava fazer uma solda num painel de um carro, ele ia fazer com que? Com um maçarico. Tinha que desmontar o painel todinho do carro para fazer, muitas vezes, um pinguinho de solda. Por que? Pegava fogo. Hoje, com as máquinas TIG [Tungsten Inert Gas] e MIG [Metal Inert Gas] o cara vai lá, só afasta algumas coisinhas do painel e dá um pontinho de solda. Antigamente, se o cara fosse fazer isso ele botava fogo no painel do carro, um monte de tecido, um monte de espuma, tudo que tem ali, fio, um monte de coisas. Hoje é muito mais fácil, a tecnologia. E o que acontece? Para isso ele já não usa o oxigênio, ele já usa misturas que usam CO2 e argônio, ou mistura que usa só argônio, misturas que só usam CO2, máquinas que só usam CO2, entendeu?



P/2 – O que vocês fazem com os cilindros que não podem mais serem usados?



R – Geralmente chama uma firma, ela corta e sucateia. Aí ela vende para sucata.



P/1 – Ah, vende para sucata. Entendi. É basicamente um serviço de segurança mesmo, de conservador de cilindro.



R – Isso. E o próprio operador de enchimento, o diário é ele que faz. Porque, o que acontece? O cilindro chega, ele olha a data do teste do cilindro, se o teste está vencido, ele leva para se fazer a conservação. Se o cilindro não está vencido, ele olha mais algumas coisas que ele tem que olhar no cilindro, essa inspeção visual, aí coloca para encher.



P/1 – Se ele tiver vencido, passa por aquele processo.



R – Passa por esse processo de fazer o teste hidrostático no cilindro.



P/1 – Entendi.



R – Que é uma camisa de água, onde coloca o cilindro cheio de água lá dentro também, fecha a tampa e coloca pressão nele.



P/1 – Aqui em São Paulo é só em Campinas que se faz esse controle?



R – Não. Quase todas as unidades dela têm esse sistema do teste hidrostático. Por exemplo, agora Osasco começou faz uns dois meses mais ou menos. A White Martins importou uma máquina que faz por ultrassom. Então aquele serviço que fazia, quer dizer, a região São Paulo não vai acabar o teste hidrostático comum que a gente tinha antigamente, mas será feito muito pouco. Porque São Paulo instalou em Osasco uma máquina que faz o teste hidrostático por ultrassom, então você já não precisa mais tirar a válvula do cilindro e ela faz o teste… Como eu podia explicar? Ela tem uns sensores…   Que a tecnologia faz isso hoje, o cilindro vai rodando dentro da água e um sensor vai passando nele e vai medindo o aparelho do cilindro e o que ele tem de problema, se ele tem alguma trinca, alguma amassadura, algum pingo de solda, se está faltando material. Porque antes, é um negócio até muito interessante, eu estive lá agora há um tempo até vendo como funciona. Eles pegam um cilindro de amostra e colocam todos esses defeitos nele. É tudo computadorizado. A máquina registra todos esses problemas que esse cilindro de amostra tem. Aí o que acontece? Ela fica assim, vamos dizer, ela guarda na memória dela todos esses problemas. Aí você coloca outro cilindro, se algum desses problemas aparecerem ela o recusa. Quer dizer, se ele tiver um pingo de solda esse cilindro vai rodando e ela vai olhando, aí quando chegou naquilo ali ela vai falar: “Olha, esse cilindro tem um pingo de solda. Esse cilindro tem uma amassadura. Esse cilindro está faltando material.” Um negócio, assim, bem interessante, sabe?



P/1 – Continuando então, senhor Zulmiro, o senhor estava contando um pouquinho do trabalho de enchimento e conservador de cilindro. E o senhor ficou nesse trabalho por cinco anos, não é?



R – Cinco anos.



P/1 – E depois como o senhor foi transferido para mecânico?



R – Então, porque aí nesse trabalho do teste hidrostático nós ficamos em duas pessoas, aí arrumou mais um, que surgiu a vaga e eu fui para essa área também junto com outro rapaz que fazia o teste hidrostático. Na outra firma que eu trabalhei, eu trabalhava na produção, mas assim, lá fazia uns serviços que exigiam a parte mecânica. Como eu gostava muito de mecânica então, na White Martins, como toda mecânica naquela época era feita pela central que na época era em Piratininga, Jardim Piratininga aqui em São Paulo, ali para o lado de Osasco, então o que acontece? Tinham muitas coisinhas que aconteciam lá na unidade que tinham que ficar esperando um mecânico vir para resolver. Naquela época não era tão rígido como é hoje. Hoje você tem que trabalhar sobre normas, com cuidado, um negócio que não tinha naquela época, mas era bem diferente. Então muitas coisas eu falava: “Ah, isso eu sei fazer.” Aí o encarregado falava: “Zulmiro, você faz?” “Faço.” Eu pegava e ia fazer. Ele me tirava da minha função para eu fazer aquilo lá. Quer dizer, na época eu soldava, já soldava solda elétrica, então eu tinha certa facilidade para essas coisas, sabe? E aí qualquer coisa que acontecia… Você vê que bomba de água na época, porque tinha fábrica também de acetileno, então tinha muita bomba para mandar água. Então, bomba d’água geralmente dá problema em rolamento, em retentor, então, o que acontece? Quando a bomba dava um problema, muitas vezes tinha que parar a fábrica para esperar alguém vir de São Paulo. Aí o chefe falava assim: “Olha, Zulmiro, poxa vida, a bomba deu um problema lá, tal. Vai ter que esperar São Paulo.” Falava: “Não, mas isso aí eu faço.” Aí eu fazia o que? Ele pegava dinheiro, dava o dinheiro para mim, eu tomava o ônibus, ia à cidade, comprava o que tinha que comprar, voltava de ônibus para fazer o reparo. Aí ele já falava para mim assim: “Zulmiro, veja o reparo para outras bombas também, já deixa alguma coisa de estoque, porque a hora que quebra não precisa ir à cidade, você já arruma rápido.” E aí foi. Eu fiquei nisso daí, mais ou menos, uns três anos. Coisas assim, que eu conseguia resolver, eu resolvia. Depois de três anos mais ou menos, teve uma gerência regional que determinou o seguinte: “Todas as unidades grandes têm que ter um mecânico.” Eles iam ajustar um mecânico. Quando ele foi a unidade de Campinas, a gerência falou que não queria que ajustasse um mecânico:  “Temos o  Zulmiro. Se ele for para central e aprender lá, para nós é muito mais vantagem, ele já está acostumado com tudo aqui.” Aí disseram que tudo bem. Eu não tinha um curso de mecânica. Aí que eu fui estudar, fazer um curso de mecânica, mas eu fui para central que era em Piratininga. Eu fiz vários treinamentos ali, onde tinha compressor para comprimir o acetileno, bomba criogênica para comprimir oxigênio, outros gases. Fiz o curso, ficava uma semana lá, o rapaz desmontando a bomba, eu vendo como fazia tal. Quer dizer, eu comecei fazendo na unidade de Campinas. Toda aquela mecânica que a central tinha que vir fazer ali, eu fazia. Muitas vezes tinha que trocar algum rolamento de bomba, você precisava de uma prensa, alguma coisa assim. Era um serviço mais complicado mais bruto. Um serviço muito difícil de acontecer. Então, esse serviço a central mandava uma bomba nova, eu colocava no lugar, pegava essa uma que estava estragada e mandava para lá  consertar. Mas todo aquele serviço corriqueiro, vamos dizer, que mais acontecia, eu já fazia tudo na unidade. Quer dizer, eu pedia peças, já tinha um estoque de peças, entendeu? Aí quando você via que a bomba já tava começando a ficar ruim, o compressor ficando ruim, você fazia uma programação. Como se trabalha geralmente a semana toda, essa programação você fazia geralmente… Se fosse um acetileno, o acetileno a gente ligava para a  fábrica geralmente na segunda-feira à tarde, a gente fazia no decorrer do dia. Agora, quando era para alta pressão a gente fazia no sábado, por quê no sábado? Porque se fazia uma programação, a gente já estava por dentro  acompanhando os equipamentos. Eu tomava conta só de Campinas. Arrumaram mais um mecânico, passaram para gente tomar conta de mais cinco unidades. Depois ficamos com Campinas e uma unidade que fechou há um tempo atrás, que era Sorocaba, que enchia só oxigênio. A gente ficou com Bauru, Londrina, Campo Grande e Cuiabá. A White tinha uma retirada de hidrogênio numa firma chamada (Uniroi?), ali em Rio Claro, interior de São Paulo. Dávamos  manutenção nesses lugares todos. Que era assim, a gente fazia uma preventiva. Quando você ia para uma unidade dessas, você ia lá, ficava uma semana. Já sabia como estava o estado da unidade, então você levava tudo. Muitas vezes a bomba já estava há um tempo trabalhado, você ia lá, já levava uma nova e colocava no lugar. Trazia para unidade de Campinas e fazia uma reforma nela, deixava nova. Porque muitas vezes você ia precisar dela num outro lugar. Então, a gente trabalhava muito desse jeito, com previsão das coisas que iam acontecer. Para essas unidades que a gente ia também, a gente tinha contato lá com a chefia, tudo. Então, antes de ir a gente já ligava: “Olha, a gente tá indo para aí o mês que vem. O que você precisa?” “Olha, tal coisa não está muito boa, era bom vocês verem.”  A gente já saía equipado para chegar lá e trocar o que tivesse ruim. A não ser que quebrasse alguma coisa, vamos dizer, você podia colocar alguma coisa lá e com o tempo, antes de você ter marcado uma previsão para ir lá, desse problema. Aí você saía já de emergência e ia lá para consertar. Ficamos uns 13 anos, mais ou menos, nessa correria, de lá para cá, de cá para lá. Depois de 13 anos, mais ou menos,  teve um projeto que eu não sei quem lançou de não precisar mais de mecânico nas unidades. Fui ser operador de acetileno, que trabalha no gerador para fazer o acetileno. Fiquei lá mais ou menos uns dois anos. Só que daí o que aconteceu? Quando quebrava alguma coisa tinha que esperar a central vir, aí meu chefe falava: “Poxa vida, eu tenho um mecânico aqui, tenho que esperar eles virem.” Passado uns dois anos mais ou menos, ele falou: “Vamos fazer o seguinte, eu vou colocar outro lá de operador e o Zulmiro vai ficar de mecânico mesmo.” Ele  falou com as chefias se podia ser isso, porque é um problema, a unidade nossa é grande: “Toda vez eu fico duas, três horas esperando a central chegar aqui e resolver o meu problema, sendo que tenho um mecânico aqui e muitas vezes em uma hora ele resolve o problema para mim.” Aí eu fiquei desse jeito um tempo. Depois de um tempo eles mudaram. Acharam que na unidade tinha que ter um mecânico. Eu fiquei de mecânico em Campinas mais uns pares de anos. Meu chefe criou uma região porque, por exemplo, na região São Paulo, como eu falei que são nove unidades, tem três mecânicos em Osasco, um mecânico em Diadema e um mecânico em Sertãozinho. O de Sertãozinho é terceirizado. O de Sertãozinho dá apoio em Uberlândia e eu fico em Campinas e dou apoio em Bauru. Só que quando tem auditoria ou algum serviço muito grande, como eu sou regional eu me desloco de Campinas para dar um apoio nesse lugar. Você vai ficando muito tempo na empresa, então você fica por dentro de tudo, aí o que acontece? Nessas auditorias que tem fora da minha região, as pessoas solicitam, entendeu? O meu chefe, quando a pessoa solicita vem falar para mim se posso, se dá para eu ir ou não. Geralmente a gente vai. Quer dizer, a gente está sempre viajando, no ano retrasado, eu fui até para Argentina, por quê? A White Martins há um tempo criou um grupo do corporativo. Esse grupo dá assistência no Brasil e na América do Sul. Como lá na Argentina eles estavam… Um desses do Brasil aqui foi para Argentina e eles iam ter uma auditoria lá, aí ele falou para o gerente lá se ele queria uma ajuda do Brasil, que tinha um mecânico aqui que estava por dentro de norma, tudo mais, que se ele quisesse mandava para lá. Ele falou que queria. Fiquei 22 dias lá. Até eles gostaram muito. Já era para ter voltado mais duas vezes. O ano passado eles iam ter uma auditoria numa outra unidade deles lá, só que tava tendo auditoria em Osasco e eu tava dando suporte, meu chefe não deixou ir. E o ano passado teve auditoria em Diadema, eu tava em Diadema e eles iam ter auditoria em outra unidade, porque lá tem o regional também. Não teve jeito de me liberarem. Eu não sei também se ia querer ir, não. É um lugar muito gostoso, fui bem apoiado, bem recebido, mas você tem bastante dificuldade. Porque tem argentino que você entende, depende da região e tem uns que você não entende o que eles falam. Eles falam muito rápido. O jeito de conversarem é difícil. Eles tinham dificuldade para me entender, porque eles ficavam ali, falavam para eu falar devagar. E eu já falo até devagar, mas eles falavam para eu falar mais devagar, e eu falava para eles também falarem mais devagar. Foi até interessante lá, porque tinha  um paraguaio, e a língua paraguaia é bem fácil você entender. Tinha um paraguaio que trabalhava para uma empresa prestando serviço. Muitas vezes eu queria falar alguma coisa com algum argentino, eu não entendia. Eu falava para o paraguaio e o paraguaio falava para ele o que eu tava falando, e vice-versa. E aí assim, a gente vai viajando nesse mundão aí para todo lado enquanto… 



P/2 – … Você chegou a fazer algum curso de espanhol?



R – Não. Não, não. Eu fui lá com a cara, a coragem e a fé.



P/1 – Queria perguntar várias coisas nessa trajetória de mecânico. Quando o senhor começou, antes mesmo de fazer os cursos… 



R – … Preparatórios?



P/1 – Preparatórios. O senhor falou que arrumava algumas peças, de onde vinha esse conhecimento?



R – Você sabe que… Eu acho, assim, que eu sou um pouquinho inteligente para isso. Eu tenho uma facilidade, sabe? Para maquinário eu tenho uma facilidade, inclusive assim, porque acho que é o que as pessoas gostam de fazer. Então, por exemplo, se você gosta de computação, você aprende as coisas assim, não é? Então, eu tenho facilidade para isso, sabe? Se vejo alguém desmontando alguma coisa e montando, eu consigo pegar muito fácil, ou então assim, eu mesmo desmonto e eu tenho facilidade para guardar e procurar ver o que está causando o problema. Eu tenho essa facilidade. Acho que cada um tem um dom, uma coisa mais ou menos assim. Montagem, por exemplo, a gente está fazendo agora em Bauru uma montagem nova e a unidade de Campinas toda desde quando eu entrei montei tudo aquilo lá, porque era tudo completamente diferente. Tudo que tem lá tem a minha mão. Tenho facilidade com desenho, facilidade de visualizar as coisas depois de prontas. Por exemplo, você vê onde vai ficar tal coisa, onde vai passar a tubulação, sabe? O desenho mostra o básico para você, agora, o que você vai colocar no lugar, quer dizer, é completamente diferente. Mas eu consigo visualizar como vai ficar depois de pronto. Eu tenho essa facilidade. Então, o que acontece? Quando se tem essa facilidade você já sabe o que vai fazer. Chega num lugar, um galpão, precisa montar alguma coisa, você já começa olhar o galpão, vai olhando e já consegue visualizar como vai ficar. Muitas vezes eu brinco: “Puxa, ficou melhor do que eu tinha visto.” Então são coisas assim que a pessoa vai adquirindo, não é… O que acontece também? Com o tempo você vai adquirindo conhecimento. E assim, eu tenho um negócio comigo que tudo que você quer você consegue. Até uns tempos atrás, por exemplo, eu falava que a única coisa que eu sabia fazer era colocar a minha senha lá para saber o meu extrato do banco. Era a única coisa que eu sabia fazer, não sabia fazer mais nada. Eu nunca estudei computação. Eu, como já falei para você, tenho um pouquinho de dificuldade em Português. Português eu sou ruim mesmo, bem ruim. Eu escrevo muitas palavras erradas, mas isso não é um problema para mim, não. Quer dizer, há pouco tempo invoquei que eu tinha que aprender AutoCAD. Todas as vezes que eu ia às unidades, pegava os desenhos, atualizava daí tinha que chamar uma pessoa que trabalha com o CAD [Computer Aided Design]. Ficava vendo ele. Não achava difícil. Eu tenho um cunhado que dá aula disso, aí um dia eu fui a casa dele, falei que precisava aprender. Ele falou: “Zulmiro, é fácil. Isso é fácil, porque o que você vai usar aqui são uns dez comandos, o resto só se você for fazer coisa muito… Fabricar uma peça ou coisa assim. Para mexer em desenho com dez comandos só você já… ” Aí eu falei: “Quais são os dez comandos? Eu vou aprender isso daí.” Fui lá. Costumo escrever as coisas, porque quando é alguma assim meio difícil, se escrever eu não esqueço. Eu comecei escrever algumas coisas assim, tal, aí eu comecei a mexer nos desenhos. Quer dizer, hoje, quando eu vou às unidades e tem que mexer nisso, vou lá e mexo, já não tenho esse problema. Que nem agora, eu estive em Sertãozinho, uma semana. Tive que chamar o cadista para ele acertar o desenho. Não levei meu computador, mas o rapaz tinha um computador que tinha o AutoCAD. Peguei os desenhos eletrônicos e já… Entendeu? Quer dizer, aí você tem mais facilidade para… E você vai aprendendo também, vai se desenvolvendo. A White tem muitas normas, você vai lendo as normas e você vai… Toda a auditoria que tem você vai aprendendo as coisas.



P/1 – O senhor falou que participa das auditorias. Ainda nessa ideia de aprender, de ensinar, o senhor treina pessoas?



R – Olha, tem um rapaz em Campinas, todas as vezes que eu saio… Por exemplo, essa montagem que a gente estava fazendo em Bauru, levei o rapaz  para aprender… O cara que trabalha na parte do enchimento de cilindros, mas é um rapaz que já trabalhou em outras coisas, então sabe soldar. E assim, eu sou meio enjoado para serviço, eu gosto das coisas, assim, perfeito ninguém é, mas eu gosto das coisas meio perfeitas, sabe? Então é uma pessoa que eu me dou bem com ele, a gente sai junto para trabalhar, levo geralmente ele. Estou ensinando os segredos que a gente vai aprendendo. Um rapaz até novo, bem mais novo que eu. Está encaminhando. Quem sabe amanhã, depois, eu paro e ele continua a caminhada. E outras pessoas também, que a gente vai a outras unidades e a gente vai ensinando o que a gente… Outras pessoas bem mais novas, a gente vai fazer as coisas e muitas vezes as pessoas ligam… Estive em Salvador agora, e o mecânico que tem lá é novo, ele tinha um ano de White só, estivemos um mês e pouquinho juntos lá. Então, o que acontece hoje? Qualquer dúvida que ele tem ele liga: “Zulmiro, precisava fazer tal coisa, como eu faço? Que jeito que é?” Por telefone você vai falando. Como a pessoa já tem uma noção do que você está falando, quer dizer, é fácil: “Faça isso. Tenta fazer isso.” Entendeu? É um negócio gostoso.



P/1 – O senhor falou que passou aí por várias plantas, de Londrina a Campo Grande.



R – É.



P/1 – Dá para traçar algumas características, comparar essas plantas, sempre são gases diferentes, não é?



R – Não. Os gases são iguais. Essas unidades que eu falei para você, menos Londrina, Londrina na época tinha acetileno também, enchimento de acetileno, que é usina de acetileno, que é onde fabrica. Você sabe, o acetileno sai daquela pedrinha, do carbureto. Faz uma geração com água para retirar o carbureto. Londrina tinha usina de acetileno que fechou, faz um tempão já que fechou também. Porto Velho também tinha uma usina de acetileno pequena, Bauru também tinha uma usina de acetileno pequena, fechou. Quer dizer, hoje, acetileno poucos lugares têm. Tem em Diadema, tem em Sertãozinho, tem uma em Minas, Sapucaia do Sul, eu acho que é só.



P/1 – E o restante?



R – Fecharam muitas. No começo o forte era acetileno e oxigênio, mas com a tecnologia de hoje, quer dizer, não houve necessidade mais de ter acetileno. Então, hoje, é mais para corte, corte bruto, mais para alguns lugares que usam em fornos. Esses maquinários que chegaram hoje no mercado, que foram desenvolvidos no mercado, por exemplo, onde você vai fazer um corte com oxiacetileno e você vai fazer um corte com outra máquina, é muito mais perfeito. Quer dizer, antigamente a pessoa ia cortar uma chapa, cortava na oxiacetileno. Hoje já tem uma máquina, que corta chapa muito mais fácil. Quer dizer, a gente vê assim, até eu brinco com esse rapaz que trabalha junto comigo, eu falo para ele assim: “Poxa vida, tem vez que nós ficamos o mês inteiro sem usar uma serrinha de mão.” Tudo que você ia serrar, você usava uma serrinha de mão. Hoje não. Hoje você tem uma maquininha lá com um disquinho fininho que você faz um corte perfeito e muito mais rápido e menos cansativo, só precisa ter energia. Então, quer dizer, é muito mais fácil. O tempo que você ia cortar aí três, quatro chapas, se você gastasse uma hora, hoje você gasta, vamos dizer, dois minutos, entendeu? Então, o negócio é bem mais rápido. O mercado ajudou muito mais os profissionais. Requer muito menos. Por isso essas usinas de acetileno foram fechando. 



P/2 – E hoje a maior parte é de oxigênio?



R – O oxigênio hoje usa bastante, muito em hospital, tudo mais. A indústria usa muito. O argônio, por exemplo,  você faz uma solda num inox. Você usa uma solda elétrica, uma máquina TIG. Você derrete esse eletrodo inox com inox. Só que tem uma coisa, se você não tiver um gás, por exemplo, um argônio, ou uma mistura de argônio com CO2 jogando ali para tirar o oxigênio, aquela solda vai ficar contaminada. Com o que? Com o oxigênio. Aí o que acontece? Por exemplo, tem soldas que a pessoa solda e tem que ficar um negócio, assim, perfeito, não pode enferrujar. É que nem, por exemplo, os equipamentos feitos  de alumínio. Aqui é tudo imprensado, mas hoje faz solda em alumínio com alumínio, o que acontece? Se você não tivesse esses gases, a umidade que o oxigênio tem ia criar porosidade. Então, esse gás é injetado quando está fazendo aquela fundição do material, ele é injetado para expulsar o oxigênio para você ter uma solda perfeita. E aí a White foi desenvolvendo um monte de tipo de gases para todas essas coisas.



P/1 – Bom, hoje o senhor presta suporte para diferentes tipos, então, de planta?



R – Não. Mais alta pressão. Onde tem usina de acetileno é bem pouquinho. Eu fui, mais ou menos, uns 13 anos mecânico de acetileno, acetileno e alta pressão. Mas hoje eu fico mais só na alta pressão, que é a parte de oxigênio, nitrogênio, argônio, fora da planta de acetileno. Eu até ajudo, mas não é meu forte, não. Mas é uma coisa assim que eu aprendi também olhando, fui olhando o desenho, tal, estudei também um pouco. Quando eu vou preparar a unidade para auditoria, eu olho o que eles chamam de P&I [?] ou fluxograma da unidade. O desenho por onde passa a tubulação, daí tem que ter válvula de segurança. Então, eu pego o desenho e vou olhar se o que tem lá no campo, na fábrica, é o mesmo que está no desenho. Se o que está no desenho e lá no campo é o que a norma pede. Quando eu estou na unidade de Campinas eu cuido de todo o desenho da unidade de Campinas e a mecânica. Bauru é a mesma coisa, eu cuido de todo o desenho de Bauru e toda mecânica de Bauru. Então, o que acontece? Qualquer mudança que tem lá, que sou eu que faço a mudança, eu pego o desenho e atualizo. Tanto na de Campinas quanto na de Bauru para ficar sempre um negócio certinho, porque em auditoria eles querem que tudo esteja certo e para isso você tem que ler norma para ver se não mudaram as coisas. O que acontece? Tem o especialista da região. Ele vai, te orienta. Alguma coisa que você tem dúvida, você pergunta. Se ele não sabe vai se informar. Muitas coisas ele pergunta para gente. Quer dizer, é uma equipe que trabalha assim, para o bem-estar de todos, para manter o negócio bem em ordem. Apesar de que é difícil. É difícil. Você vê, para nove unidades terem a quantidade de mecânico que a gente tem, é difícil você manter todas as unidades atualizadinhas. Por isso que toda vez que tem auditoria é aquela correria, sabe? Aí desloca gente de um lugar, de outro lugar, um para fazer uma coisa, para fazer outra coisa, entendeu? Porque é difícil todo lugar estar perfeito.



P/1 – Eu sei que depende de caso para caso, mas quanto tempo mais ou menos, em média, seria uma auditoria, para preparar essa auditoria?



R – Essa auditoria que teve agora em Sertãozinho foi um mês. Eles avisam a auditoria 45 dias antes de ter. Aí nesses 45 dias a gente geralmente vai à unidade ver em que estado está. Aí começa a fazer o levantamento. Por exemplo, a gente foi… Como Sertãozinho já tem um mecânico lá, mesmo terceirizado, eu fui lá, eles já me deram os desenhos na mão para eu atualizá-los. Eu fiquei lá uma semana só que eu não levei… Eu tenho um computador, um notebook particular que tem o sistema AutoCAD nele. Aí me deram o desenho, eu já fui olhando o desenho, perguntei se iam chamar alguém para acertar o desenho: “Vamos.” Eu falei: “Ah, mas se tiver alguém que tenha  computador e o AutoCAD aí, eu já acerto.” Aí um rapaz lá tinha, falou: “Você acerta?” Falei: “Acerto.” Aí ele arrumou o computador particular dele, peguei os programas, coloquei lá e… Eletrônico, não é? Fui acertando  para ele. Quer dizer, daí eu já fui vendo também na parte de mecânica. Aí o que acontece? Porque eu costumo mais ou menos trabalhar assim, por exemplo, eu já vou vendo o que vai precisando e já vou relacionando, já vou pedindo. Por exemplo, eu estive em Salvador no começo do ano, a gente esteve lá no comecinho de janeiro. Na primeira semana depois do ano novo a gente foi para lá, mas eu fui duas semanas antes porque a unidade lá estava muito abandonada, muito ruim. Numa semana eu fiz todinho o levantamento do que ia precisar, em partes, mais ou menos. Porque se você exige torneiro, para fazer peças, precisa comprar tubulação, precisa comprar um monte de coisas. Aí eu deixei para o pessoal de lá providenciar tudo. Quando eu voltei lá, depois de 15 dias, quer dizer, parte das coisas que a gente tinha já preparado, que eles tinham preparado, eu já comecei a usar, quer dizer, lá eu não peguei os desenhos na mão. Sabe por que? Tinha muita coisa e lá a unidade é bem grande, então ela tem a parte de enchimento de alta pressão e uma usina de acetileno. O mecânico de lá é novo, ele ficou na parte de acetileno. Eu fiquei nessa outra parte. A gente contratou uns terceirizados, aí eu ia falando para o cara o que precisava fazer e soltando serviço, eles iam fazendo. Eu vou acompanhando e vou fazendo outras coisas também. Porque você tem um espaço de tempo bem curto para trabalhar e muitas vezes você chega numa unidade e tem muita coisa para fazer.



P/1 – E essas auditorias são da Praxair?



R – Por exemplo, quando nós falamos auditoria tipo A, é da Praxair. A que teve agora em Sertãozinho era da Praxair. E temos auditoria B, que é auditoria do Brasil mesmo, só que daí eles pegam assim, por exemplo, pessoas do Rio lá da matriz que vêm fazer auditoria. Outras vezes, pegam pessoas de outra região. Por exemplo, alguém lá do Sul para fazer uma região, aqui na região São Paulo. Mas é tudo assim, ele tem mais ou menos um… Como fala? Ô, meu Deus. É um… 



P/1 – … Exigências?



R – Não. É um… Ah, meu Deus. É mais ou menos assim, uma folha.



P/1 – Uma lista.



R – Uma lista com tudo que vão olhar, entendeu? Daí ele chega olha naquela lista ele não vem sem saber o que vai fazer. 



P/1 – O senhor já fez alguma auditoria desse tipo?



R – Não. Não. Eu só participo da… Só preparo.



P/1 – Prepara.



R – Só preparo. Mas eu nem queria isso, não.



P/1 – Por que?



R – Você precisa estar envolvido em mais coisas, você tem que ter um conhecimento… Não é conhecimento. O meu conhecimento eu acho que é suficiente para isso, mas eu vejo assim, o auditor tem uma responsabilidade maior, ele tem que responder pelo está fazendo. É mais ou menos julgar o que os outros estão fazendo. E para julgar o que os outros estão fazendo, ele tem que ter, pelo menos, a casa dele em ordem, e é o que muitas vezes não acontece. Então acho que é um negócio assim, que eu… Sei lá. Nunca me chamaram, não, se me chamassem não sei se ia aceitar, não. Eu acho assim, que é um negócio que tem que ter muita responsabilidade, porque se você auditar alguma coisa e amanhã, depois, acontecer alguma coisa, algum acidente, alguma coisa, vão dizer: “Mas por que você não viu aquilo?” Quer dizer, a gente vê assim, tem muitos auditores que são terríveis, eles olham tudo mesmo e eu acho que tem que olhar mesmo, porque é a responsabilidade dele. Quando ele dá uma nota boa para unidade, ele tem que sair dali consciente que realmente aquela unidade está boa. Porque não adianta nada ele dar nota boa e a unidade ter um monte de coisa errada. Apesar de que a gente já vai lá antes para preparar aquilo ali, para deixar a unidade boa.



P/1 – E esse trabalho vai muito de encontro com a ideia de segurança da White.



R – Sim. Muito. Principalmente isso as auditorias são focadas para a  segurança.



P/1 – E vocês tiveram algum curso de preparação nesse sentido?



R – Então, o que acontece? É aquilo, por exemplo, eu não tive curso, mas eu procuro ler as normas da White. As normas da White e as normas da Praxair. Porque eu vejo assim, tem pessoas que tem certa idade de empresa e se desatualizam: “Ah, eu já tenho tanto tempo  para quê eu vou esquentar a cabeça com isso?”. Não é? Só faz aquilo que ele faz e mais nada. Eu não. Eu procuro estar… Saiu uma coisa nova, eu quero estar inteirado não quero ser mais um. Não. Eu quero ser mais um e mais alguma coisa. Tem pessoa que acha que só é: “Ah, eu quero ser só um funcionário e mais nada.” Não. Eu procuro ler as normas, para estar por dentro, entendeu? Quando alguém fala alguma coisa, você poder falar: “Não. Isso aí não é assim. Ah, não, isso aí é assim.” Eu acho que é um negócio, assim, interessante. E isso é o que eu gosto de fazer. As pessoas muitas vezes dizem até que eu sou meio briguento. Mas não é. Sabe o que acontece? Eu aprendi assim: que as coisas têm que ser certas. Eu vejo assim, que todas as pessoas saem de casa com o objetivo de voltar novamente para casa e ele só não volta se ele fizer alguma coisa errada. Então eu sempre tenho essa coisa comigo. Na unidade as pessoas falam assim: “O Zulmiro é bravo.” Eu falo: “Não é que eu sou bravo.” Muitas vezes eu vejo uma pessoa fazendo uma coisa que pode causar um acidente, eu chego nela: “Por que você tá fazendo isso?” Ou: “Não faça isso.” Porque você tem que… Se você não falar e acontece alguma coisa, aí eu vou me sentir culpado: “Puxa, eu vi a pessoa fazendo uma coisa errada, não falei nada, olha lá, aconteceu. Não vou conseguir colocar minha cabeça no travesseiro e dormir sossegado, sendo que eu podia evitar.”



P/1 – E as plantas on site, as plantas para os clientes, também passam por esse mesmo processo de auditoria, ou tem alguma coisa diferente?



R – Olha, há uns tempinhos, eu não sei como está agora, mas, por exemplo, até hospitais estavam tendo auditorias da White Martins. E a indústria também. Porque não é simplesmente você chegar lá no hospital e colocar um gás para pessoa respirar, não saber as condições em que estão chegando lá. Uma coisa eu achei até interessante… A Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] que agora assumiu também esse negócio de gases, acredito que a partir do ano que vem deve dar auditoria também na White Martins. Porque a gente está vendo de uns meses para cá, por exemplo, que o oxigênio e outros gases medicinais estão sendo tratados como remédio. Eu não sei se você sabe disso, mas antigamente enchiam um cilindro medicinal, ia lá ao hospital, colocava lá. Hoje não. Ele tem que ir como uma bula, o cilindro pintadinho. A  Anvisa, como ela já esteve em Campinas, exigiu que algumas coisas não pudessem ser feitas mais daquele jeito. Os cilindros antigamente, o oxigênio industrial e medicinal eram cheios juntos, agora têm que ser cheios separados. Quer dizer, eu acho que isso daí cada vez vai ser um negócio mais… Vai estreitando mais. Porque a gente vai vendo assim, vai criando outra visão. Aí você tem um equipamento que enche oxigênio industrial, aí naquele mesmo equipamento você enche um oxigênio medicinal, você fala: “Por certo não poderia, teria que ser separado. Esse aqui enche com medicinal e esse enche com industrial, porque esse aqui vai lá para indústria, contamina com um monte de coisas, aí você pega um medicinal e coloca  lá.” Quer dizer, a gente mesmo começa a ter uma visão disso aí. Então, eu acredito que com pouco tempo a Anvisa vai começar a separar algumas coisas, mexer em algumas coisas. Quer dizer, eu não sei, eu ouvi dizer que em outras unidades concorrentes já tem isso. Enche separado, num lugar separado, num ambiente separado. Mas isso talvez ainda vá chegando a White, porque eles vão querendo mudar. Você vê. Há tempos não pintavam os cilindros, só pintavam quando estava muito ruim. Agora, por exemplo, cilindro de oxigênio medicinal tem que sair tudo pintadinho, não pode ter risco, todos tem que sair com sua bula. E isso gera um trabalho violento.



P/1 – Com certeza. Zulmiro, você tinha falado muito da questão dos desenhos. Como entra a questão da manutenção preventiva? 



R – A  White tem um programa chamado Seven Eye, onde você coloca a manutenção de todos os equipamentos. E o que acontece? Então, você determina qual é a periodicidade de manutenção de cada equipamento. Aí você tem as preventivas e tem as corretivas. Aquela que você, a prevenção quando vai dar manutenção e aquela corretiva, você não estava esperando que quebrasse, mas quebrou, é preciso consertar. Quer dizer, como tem tanto serviço nas regiões essa preventiva é difícil você conciliar. Porque numa preventiva, tem coisas que a gente não faz… Abrir a bomba… Essa bomba não é uma bomba de explodir, não, tá? É um equipamento que bombeia o líquido,  para dentro dos cilindros. Na norma você deve abrir essa bomba e ver como está o estado dela. Então, o que acontece? Muitas vezes a gente não faz isso, porque toda vez que abrir esse equipamento para ver como ele está, eu tenho que trocar tudo lá dentro. Como é um pistão que trabalha com anéis e trabalha com gaxeta, quando você abrir não vai mais conseguir colocar do jeito que estava, na mesma posição que estava. Aí se você montar ele vai vazar para tudo quanto é lado. Você tem que fazer o trabalho novamente, colocar tudo novo. Só que para você colocar isso aí novo não compensa gente, é muito caro. Então, o que a gente faz? A gente costuma fazer mais a corretiva, porque, o que acontece? Por exemplo, eu procuro ter, mais ou menos, o tempo de horas que o equipamento trabalha na minha área. Olho o tempo todo que ele está demorando em comprimir. Quando eu o coloquei novo, ele tava demorando cinquenta minutos para comprimir. Aí ele já está com mil horas trabalhadas. Está demorando sessenta minutos para comprimir. Aumentou dez minutos. Caiu o rendimento dez minutos. Dependendo não compensa mexer, porque eu vou gastar um dinheirão num equipamento que só perdeu dez minutos. Aí deixa ter um desgaste maior para quando ele tiver, por exemplo, uns quinze minutos, aí a própria chefia, o próprio operador vai falar: “Olha, Zulmiro, o equipamento está demorando muito tempo.” Aí a gente faz uma programação de desmontar e montar de novo aquele equipamento. Você pega aquele equipamento, tira as partes que estragaram, pega as partes novas e coloca novamente. Faz a montagem novamente. E aí coloca para funcionar. Aí você já vai ter um controle, não é? O  equipamento trabalhou 1500 horas para dar problema, quer dizer, eu tenho um controle dos equipamentos que estão lá, o tempo que ele tem de vida útil. Tem alguns que acontece assim, por exemplo, de repente quebram, mas é mais difícil. A gente tem isso aí, esse controle. A preventiva pede muitas vezes para desmontar. Mas não. Eu vou olhar como que está o equipamento e se não está na hora de desmontar, para que vou desmontar? Não tem necessidade… Então, a gente trabalha mais ou menos assim.



P/1 – E é nesse sentido que entra o projeto de assistência personalizada?



R – Não. Deixe-me voltar um pouquinho. A não ser, por exemplo, instrumentação, que daí tem um instrumentista, que aí ele faz calibração, por exemplo, de válvula de segurança, de pressostato, de termostato. Daí ele tem uma periodicidade para fazer isso, ele não pode fugir disso daí.



P/1 – Por que?



R – Porque são os equipamentos de segurança que estão tomando conta daquela bomba. Aquela bomba está comprimindo, mas lá na frente, na linha dela, ela tem um pressostato que tem que funcionar. A cada ano tem uma aferição para ver se está funcionando legalzinho. Existe uma válvula de segurança, tem que ser a cada dois anos. Porque já envolve segurança. Quer dizer, uma bomba funcionando, se ela parar de funcionar, simplesmente ela parou de funcionar, não vai envolver nada em segurança. É diferente desses equipamentos.



P/1 – Certo.



R – Aí esses têm que ser feita a preventiva neles.



P/1 – Mas aí não é da responsabilidade do senhor?



R – Não. Não é da minha área. Já é outra pessoa que faz isso, que é o instrumentista que faz isso.



P/1 – Certo. E também em todas as unidades.



R – Em todas as unidades.



P/1 – E no caso as personalizadas?



R – Como é?



P/1 – Os projetos de assistência personalizados? Tem projeto específico para cada unidade?



R – Geralmente não tem… Só quando há uma montagem nova, aí tem um projeto. Porque é assim, tem um projeto que vem e é montado. Muitas vezes a pessoa quer aumentar alguma coisa, aí já foge daquele projeto, entendeu? Aí já colocou alguma coisinha a mais aqui. No projeto não está aquilo, por exemplo, aí você abre o que nós falamos lá, um FGM [?]. É um gerenciamento daquilo que você colocou a mais para ver se aquilo ali não vai causar, não vai ter problema de segurança, problema de meio ambiente, problema que vai dificultar na operação daquele sistema que já estava pronto. Campinas, por exemplo, começou tendo uma usina de acetileno e uma unidade de enchimento de oxigênio. Hoje não tem mais usina de acetileno. Acho que a gente enche lá uns 25 tipos de gases diferentes, em misturas. Quer dizer, o projeto era para uma coisa, entendeu? Daí a pouquinho… Campinas tem condições de colocar mais um tanque para encher tal tipo de gás. O mercado de Campinas aumentou, o gás vem de outro lugar, existem condições de se produzir ali também, entendeu? Colocou outro tanque, foi aumentando, sabe? Que nem Bauru. Bauru só tinha oxigênio, só enchia oxigênio, muito tempo, aí o que acontece? Iam buscar os outros gases em Sertãozinho, a uns 250 quilômetros… Às vezes, ia fechar uma planta num lugar, uma unidade: “Vamos pegar aquele tanque lá e usar algum dos equipamentos que tem lá para  encher argônio aqui em Bauru?” “Ah, mas não. Por que só encher argônio? Vamos encher mistura também.” Quer dizer, amanhã ou depois, se o mercado ali começa a aumentar você tem que transportar muito cilindro. Compensa você ter um enchimento num local daquele tipo de gás, evita gasto com viagem, vai aumentando despesa, então compensa. Que daí ele vai suprir outro lugar mais perto.



P/1 – E essas plantas todas permitem esse… 



R – … Como é?



P/1 – Essas plantas permitem esse crescimento?



R – Ah, sim. Permitem. Aí vai ajeitando as coisas para fazer isso. Porque tem que colocar mais tanques de outros tipos de produtos para você fazer mistura.



P/1 – Mas o processo de obtenção está sempre… Tem em todas essas plantas, não é? O destilar, o separar os gases.



R – Onde separa os gases é numa outra unidade diferente, eles quando vêm para unidade de enchimento já vêm separados. Essa mistura é porque, por exemplo, você vai fazer um gás, você coloca uma quantidade de um gás e mais outra quantidade de outro gás para fazer uma mistura, dependendo o que o mercado vai precisar, do que o mercado solicita. Quer dizer, a White tem um centro que faz pesquisa, tipo de solda, como é o comportamento do material, que gás usaria. Então, daí ela vai trabalhando nisso aí. Ela vai soltando esse tipo para o mercado. Tem as pessoas que vão visitar as firmas e verificam o tipo de gás que a firma poderia usar, entendeu? Aí faz a negociação. Dependendo, por exemplo, Campinas. Campinas só enchia um tipo de gás. Osasco tinha que suprir tudo e Osasco não estava dando conta de suprir tudo, aí fazia o que? Levava um pouco de coisa lá para Campinas. Aí Campinas já começou a suprir, desafogou um pouco Osasco. Levava para Sertãozinho. De  Sertãozinho para  Bauru. Agora, por exemplo, tem alguns tipos de mistura em  Bauru que estão indo lá para Goiânia, para Porto Velho. Antes saía de Sertãozinho, mas Sertãozinho já não estava aguentando mais suprir aquele mercado. Começa a ter que aumentar equipamento, horas de serviço, tudo mais, então muitas vezes compensa pegar em outro lugar, porque o que acontece? Muitas vezes o caminhão chega lá, tem que ficar esperando encher. Quer dizer, se você tem outro lugar, muitas vezes a distância é a mesma, chegou ali, o que acontece? Tem menos ali, você já enche e consegue voltar mais rápido. Uma estratégia que ela vai usando.



P/1 – Zulmiro, sobre essa expansão das misturas na medida em que a demanda das indústrias vai aumentando. O teu exemplo foi de Bauru, não é? Que indústrias demandaram maiores misturas? 



R – Muitas usinas de açúcar. Usina de açúcar e álcool dá muita manutenção.  Essas usinas têm uma preventiva anual. Param, geralmente, uns três meses para fazer a manutenção. Nessa manutenção se investe muito em cilindro de vários tipos de gases. E outra usinas, outras fábricas que têm ido para lá. E a gente vê Sertãozinho mesmo. É uma cidade que tem crescido muito em usinas, ela já não estava suportando mais. Quer dizer, eles estavam fazendo três horários e não estavam suportando mais essa demanda. Todo equipamento tem uma produtividade. Se você tem três horários trabalhando e não tiver mais espaço para colocar mais produção, tem que desviar para algum lugar.

Que foi o que mais ou menos aconteceu em Campinas. Não tem mais condições de ter outros tipos de gases lá, a não ser outras misturas  dos tanques que ela tem lá mesmo. Porque não tem espaço mais na unidade. Então, tem que expandir isso aí para outras unidades. 



P/1 – Entendi.



R – Outras que produziam pouco fecharam. Uma aqui perto de Minas, em Varginha, fechou. Era uma unidade que enchia oxigênio, enchia bem pouquinho o oxigênio, aí para que manter uma unidade dessa aí funcionando? Então, compensa fechar. Aí fizeram o que? Um remanejamento. Fecharam,  mandaram um pouco mais para Contagem e os caminhões que ficavam mais perto vieram para Campinas. Por exemplo, tem um caminhão que fazia Poços de Caldas mais toda a região de lá. Vem pegar em Campinas todos os dias. Por exemplo, Taubaté. Taubaté também tinha uma unidade lá de enchimento, o que ela fazia? Ela enchia oxigênio e pegava as misturas de argônio, em Osasco, mas como em Osasco o movimento é muito grande, o caminhão atrasa. Começa faltar produto nos clientes. Aí fez o que? Fechou Taubaté e puxou para Campinas. Taubaté pega em Campinas todos os gases, menos gás especial. Tem alguns gases especiais vão direto para Taubaté, mas a maioria ele pega tudo em Campinas. Vem de Osasco para Campinas. Porque funciona assim, Osasco tem um caminhão que vem com gás especial para Campinas, aí Campinas ficou que nem um centro de distribuição. Tem um caminhão que pega de Campinas e manda para Sertãozinho. Sertãozinho distribui para Bauru e distribui para o resto, Goiânia, Campo Grande, Cuiabá. Sai já de Sertãozinho, mas é gás que saiu de Osasco, passou por Campinas, de Campinas foi para Sertãozinho e aí fez essa distribuição, lá em Sertãozinho. Quer dizer, aí já vem esse gás para Bauru e Bauru faz outra distribuição ali para toda a região dele ali.



P/1 – Vai criando uma rede, não é?



R – Isso. Vai fazendo uma rede. Quer dizer, tem gases também que hoje, por exemplo, Sertãozinho não enche, mas Campinas enche. Agora, o que acontece? Por exemplo, esses gases de Campinas estão conseguindo suprir Sertãozinho. Amanhã, depois, se Campinas não conseguir suprir Sertãozinho, o que acontece? Sertãozinho vai começar encher esses gases lá também. Eles  têm condições de encher lá, só que como Campinas está suprindo e a demanda dele de outros gases está muito grande, para fazer esse gás muitas vezes precisariam arrumar funcionário, talvez ele teria que estender um terceiro turno para produzir esse gás. Então muitas vezes não compensa, porque o que ele está usando não é tanto. Como ele tem um caminhão que vem todo dia em Campinas pegar, para que eu vou encher lá? Quer dizer, ele não tem tanta mão de obra, senão ele teria que colocar funcionário, aí muitas vezes o horário dele já não dá para fazer esse enchimento, ele começa a atrasar a entrega. Então a unidade que já tá fazendo isso, enquanto ela tiver conseguindo suprir, ele vai suprindo essa unidade.



P/1 – É um frequente cálculo então, de despesa, de rota.



R – Ah, sim. É. 



P/1 – E quem estabelece essa logística?



R – A White tem um setor disso aí, que faz essa logística. Ela tem alguém que  fica olhando isso aí. A região que necessita mais. Eu não sei, já é outra área. Por exemplo, Diadema parece que está tão pertinho de Osasco… Mas  toda mistura que… Diadema só enche oxigênio e é usina de acetileno. Só. Todos os outros tipos de gás ela pega em Osasco, só que o que acontece? Está tão grande o consumo… A demanda de Osasco é grande, não está conseguindo suprir Diadema. A gente já ouviu o ano retrasado, alguém dizendo assim, para talvez colocar um tanque de CO2 e um tanque de argônio em Diadema para   começar encher mistura lá também, porque senão Osasco vai indo, vai indo,  não consegue suprir a demanda. Porque a unidade tem um tamanho, aí você  põe cilindro, põe cilindro lá dentro, o que acontece? Daí a pouco o cara não consegue nem trabalhar mais lá. O cara faz um turno, faz dois turnos, aí já vai para o terceiro turno, que dizer, o seu gasto aumenta muito. Então muitas vezes compensa até montar um enchimento em outro lugar para tirar um pouco daquele lugar que está com muito gás, muito serviço. Por exemplo, você vai a Campinas, às seis horas da manhã, que é hora que começa entrar os caminhões… O último funcionário de Campinas vai embora a uma e meia da manhã. As quatro horas da tarde, a plataforma não vence, com todos os caminhões que estão ali. Se for para o terceiro turno, vai até uma hora da manhã. O Brasil, graças a Deus, está assim, parece que se expandindo tremendamente. A gente vê, a gente viaja bastante por aí, você vai vendo assim, que vai crescendo, só vê barracão sendo feito, indústria tal e vai abrindo. E isso tem… Vão usando gás, não é? Então vai ter que ir aumentando as coisas, senão… Eles vão colocando até bombas mais possantes. Mas chega uma hora não dá, porque tudo tem um limite. É o que fizeram, por exemplo, em Osasco e Campinas. Osasco principalmente. Colocaram uma bomba de oxigênio que enche uma quantidade de cilindro enorme em pouco tempo, mas tem uma coisa: os  equipamentos não foram projetados para isso. Então, não adianta você ter uma bomba que comprime muito gás  porque quando você enche, por exemplo, você tem que tomar conta de temperatura e velocidade. Você tem uma bomba que enche 60 cilindros numa hora. Aparece uma que enche esses mesmos 60 cilindros em 40 minutos, mas espera um pouquinho… Tem um limite de velocidade, porque tem inox na tubulação. Se for o oxigênio não pode. Você pode encher o cilindro com oxigênio até 54 graus de temperatura, não pode passar de 54 graus. Aí quando você enche muito rápido, a temperatura dele sobe muito, aí você tem que fazer o que? Tem que parar o enchimento, esperar o cilindro esfriar para depois você continuar enchendo. Porque é tudo… Como fala? É que nem uma receita de bolo, se você não colocar as coisas certinhas, lá na frente quando puser no forno lá para cozinhar, quem vai comer aquilo? Nem vai sair nada. É a mesma coisa na White, entendeu?



P/1 – Certo.



R – Tem isso. Campinas, por exemplo, colocou uma bomba maior para encher oxigênio, que ela enche muito mais rápido, aí não podia trabalhar com a bomba porque, o que acontece? Você tem um equipamento que chama vaporizador que vaporiza o gás e ele é de inox. Aí você tem um tanto de velocidade que o gás pode passar nesse equipamento. Se ele passar muito veloz lá dentro você pode ter um flash. Você tem que colocar mais um equipamento. Aí teve que colocar mais um equipamento. Como Bauru tinha um sobrando podia tirar um, tirou um de lá e trouxe para Campinas. Mas Campinas ficou no limite naquela bomba. Dá para colocar uma bomba mais rápida? Dá. Aí você coloca mais um vaporizador, aí você tem as válvulas lá na frente que entram para encherem os cilindros, e o que acontece? O orifício que vai passar o gás foi feito para uma velocidade, se você puser mais gás para passar lá ele não vai deixar, porque ele tem um diâmetro para passar certa quantidade. Não adianta você empurrar porque ele não vai passar mais do que aquilo. Não adianta a gente querer passar nós quatro naquela porta ali numa vez só que não vai ter jeito, ela foi projetada para passar um, até dois. Então funciona mais ou menos assim. Aí você tem que mexer num monte de coisa. Para mexer num monte dessas coisas, aumentar diâmetro, válvula, tudo mais, fica caro e muito caro.



P/1 – Mas aí até para baratear, como é essa reutilização de equipamentos? O senhor deu esse exemplo, tirou um de Sertãozinho, colocou em Campinas. Essas trocas são frequentes?



R – Não. Não. Isso aí foi um negócio por acaso. Campinas tinha uma bomba funcionando e essa bomba comprimia, demorava uma hora para encher sessenta cilindros. Como a demanda de Campinas é muito grande, acharam melhor colocar outra que enche mais. Só que tem uma coisa, quanto ela enche? O fabricante falou: “Ela enche 600 metros por hora.” Que dá 60 cilindros por hora. O fabricante falou isso daí, só que ela enche muito mais, ela enche 840 metros por hora. Aquela que estava enchendo seiscentos, aqueles equipamentos que eu falei para você, vaporizador, estavam no limite. Essa  outra bomba enchia muito mais. O fabricante falou que ela enchia uma coisa, só que ela enche muito mais. Se você não mexer no equipamento, você não pode usar a bomba. Se você usar a bomba, você pode causar um flash. Flash é uma explosão. Você pode causar uma explosão. E o pior que ela não avisa quando, porque o oxigênio tem isso, não avisa quando vai explodir. As pessoas falam assim, o oxigênio não pode ter contato com material, com óleo hidrocarboneto. Tudo que tem hidrocarboneto, o oxigênio não pode ter contato. Ele não pode ter contato, só que não é assim. Se, por exemplo, você abrir um cilindro no óleo, pode ser que não exploda. Por que? Só que ninguém sabe o  ponto de ignição quando vai ser. A temperatura ideal e a pressão ideal para acontecer. Porque envolve muito a temperatura do ambiente, da velocidade, do material por onde ele passa. Então você tem que trabalhar num negócio, assim, bem seguro. E isso tudo é baseado em outros acidentes que  aconteceram. Não se pode fazer isso. Aí vai colocando tudo em norma, porque é para… 



P/1 – … E aí fica esse trabalho, não é?



R – Fica esse trabalho.



P/1 – Imagina para o… 



R – … É. Não é fácil, não. É bem complicado.



P/1 – Zulmiro, eu ia perguntar os principais desafios, mas acho que o senhor já explicou para gente aqui. Tem algum caso, o senhor falou muito de Sertãozinho, Bauru. Alguma coisa apareceu de repente e tinha que resolver rápido?



R – O maior desafio foi ter ido para Argentina. Esse foi o maior desafio, porque é um país que você… Eu nunca saí do Brasil, então você ir para outro país é um desafio. Quando eu desci do avião falei: “O que eu tô fazendo aqui? O que eu vim fazer aqui?” Então foi um desafio para mim muito grande. Mas o resto assim… Outro desafio também foi Osasco. Porque Osasco eu conhecia assim de andar lá e ver como funciona. Mas, por exemplo, atualizar todos os desenhos de lá. Eu demorei cinco meses. Cinco meses! Eu ia na segunda-feira e voltava na sexta-feira. Lá é muito grande, é muito grande. Você pergunta para um funcionário, alguma coisa, ele ensina. Você vê até onde vai, aí ele fala para você: “Olha, dali para frente você tem que perguntar para fulano, que eu não sei como funciona dali para frente.” Sabe? E eu com os papéis na mão, os desenhos na mão, eu tinha que atualizar tudo, uma coisa que não era feito há muito tempo. Então, aquilo ali para mim foi um desafio. Muito grande mesmo. Vou te dizer se eu soubesse que era daquele jeito, eu acho que tinha falado: “Eu não vou.” Ah, tinha! Com certeza. Porque se for para você fazer um desenho daqui, você vê tudo aparente, tudo bem, é uma coisa. Lá não. Tem tubulação que entra por baixo da terra, tem tubulação que entra por cima do porão, tem tubulação que passa por dentro das paredes. A tubulação entra aqui, três, quatro, lá na frente sai duas e a outra foi para outro lado. Quer dizer, tem hora que você fica perdido: “Mas onde é que eu estou?” Se perguntar para um, ele fala assim: “Eu sei que o gás que vem para mim, vem daquela bomba lá e vem até naquela tubulação. Agora, ali, Zulmiro, eu não sei.” Muitas vezes você tem que abrir a válvula para ver onde está saindo o gás, se está vindo daquele mesmo lugar. Porque o desenho tem que falar tudo da onde vem, para onde vai, tudo certinho, não pode… Chega até aqui, daqui passa para cá e não está mostrando nada, sabe? Ali foi um desafio para mim. Um desafio mesmo. Mas o resto até que é fácil.



P/1 – Depois de 33 anos, não é?



R – É. Mais ou menos.



P/1 – Zulmiro, a gente falou muito a questão do trabalho, mas conta um pouquinho o seu cotidiano fora do trabalho. 



R – Fora do trabalho?



P/1 – Fala um pouco das suas filhas.



R – Bom, eu sou evangélico, eu frequento uma igreja faz uns 20, uns 30 anos, mais ou menos. Eu não posso dizer que eu era católico, porque eu não ia à igreja. Para mim a pessoa pode falar que é quando  requenta, então eu não era. Comecei a frequentar uma igreja evangélica, faz uns 30 anos, mais ou menos. Tive um grupo de jovens, porque eu gostava muito de música. Quando eu frequentava igreja evangélica, eu era muito fã de música, eu tinha uma facilidade. Mas o tempo vai passando, vocês vão chegar nisso e você vai perdendo essa facilidade. Eu tinha uma facilidade em aprender música. Se ouvisse uma música que eu gostava duas vezes eu já sabia de cor, tinha uma facilidade. E tem outra, quando demorava algumas palavras, alguma coisa meio difícil para eu entender, eu escrevia, sabe? Eu tenho facilidade para gravar as coisas escrevendo. Eu tenho dificuldade para lembrar nome de pessoa. Aí eu fui para igreja, faz tempo, lá nos anos 1980 eu tinha um grupo de jovens, entre moças e rapazes, nós chegamos a ter 56 jovens. Acho que você já viu um grupo de jovens assim, que louva a Deus. Um grupo de jovem muito bom, pessoas que tocavam, a gente fazia apresentação nas igrejas, um negócio muito gostoso. Sempre fui apaixonado por isso, eu sou um apaixonado de Jesus. E outra coisa que eu gosto de fazer muito é pescar. Pescar também é outro… Eu falo assim que eu gosto de fazer três coisas: trabalhar, pescar e ir à igreja. Pescaria também eu sou, assim, um fã, eu gosto muito. Eu estou meio sem tempo, mas faço… Eu vou para o Mato Grosso já faz uns 18 anos. Há um tempo, eu ia duas vezes por ano, depois eu comecei uma vez, agora tá até difícil. Mas eu vou uma vez por ano nas minhas férias. Minha esposa até fala assim: “você não vai para o Mato Grosso?” “Quem falou que eu não vou?” Teve um ano que eu falei para ela assim: “Ah, acho que eu não vou mais ao Mato Grosso, não.” Quando foi no outro ano ela me viu preparando as coisas, falou: “Você falou que não ia mais ao Mato Grosso?”  “Ah, eu falei que eu não ia, mas não é ainda agora.” Então gosto muito. Minha vida por fora é isso aí, é igreja, trabalho e pescar. Tenho bastante amizade, mas não sou assim, aquela pessoa de extravagância, não. E eu sempre fui assim. Eu não bebo, eu já não bebia. Não vou dizer que eu não bebia. Assim, se eu fosse num bar eu tomava um copo de cerveja para mim já era muito. Bom, hoje eu nem bebo, mas eu era muito fraquinho para bebida, sabe? Se eu tomasse um copo de cerveja, se eu partisse para o dois… Talvez vocês tomem muito mais cerveja, tomaram muito mais cerveja que eu, mas um copo de cerveja eu já não ficava legal. Eu acho que porque meu pai bebeu muito, porque meu pai bebia, meu irmão também bebe bastante. E eu já não sou disso. Depois mudei de religião também, aí eu parei mesmo.



P/1 – E a tua esposa te acompanha?



R – Ela é de outra igreja. Ela e minhas filhas são de outra igreja. Ela era da mesma igreja minha depois ela mudou, aí ela vai para um lugar com as filhas e eu vou para outro lugar.



P/1 – Que idade tem as filhas?



R – A mais velha tem 22, vai fazer 23. Uma tem 20 e a outra tem 18.



P/1 – E moram com senhor?



R – A mais velha é casada. Graças a Deus eu dei um apartamento para ela, aí ela tem um cantinho dela lá. Ela casou faz dois anos, dois anos e pouquinho, mas não tem filho também. Ela é nova e ele também é novo, e os dois não estão pensando tão já em ter um filho, não. Eu também não estou querendo ser avô.



P/1 – O  senhor não trabalha no final de semana?



R – Não. Você sabe que ultimamente eu estou trabalhando muito até final de semana. O outro final de semana eu trabalhei, esse não. Agora, o outro final de semana que vai vir agora eu já vou trabalhar. Mas tá bom. Não me queixo disso, não.



P/1 – Tem que marcar certinho a pescaria, hein?



R – Ah, com certeza. Com certeza. Março…  



P/1 – … Em março?



R – É quando eu saio de férias. Mas a gente tem assim, um negócio entre… Esse pessoal que a gente vai, são cinco pessoas. A gente já faz isso há uns 16 anos, 17 anos mais ou menos. Então é tudo de casa.



P/1 – E tem mais colegas da White ou não?



R – Que vão?



P/1 – Isso.



R – Então, tem um que aposentou que é daqui de Campinas. Daqui a gente vai para Fartura, uma cidadezinha que é divisa do Paraná, ali perto Piraju, Assis. E de lá de Fartura a gente sai, vai para o Mato Grosso, porque os outros amigos da gente são de lá. São umas histórias, a gente vai conhecendo as pessoas, pegando amizade, um convívio. Eles já vieram em casa, a gente já foi a casa deles, pousa lá na casa deles, sabe? Para ir e para voltar, também. Um negócio bem gostoso.



P/1 – Zulmiro, a gente está indo para o final da entrevista, eu queria perguntar para o senhor, desse tempo todo de White Martins, toda essa trajetória do senhor, qual foi seu maior aprendizado?



R – Meu maior aprendizado? Como eu poderia responder para você?



P/1 – Ou algum valor que o senhor aprendeu dentro da empresa.



R – Como eu poderia responder para você? Eu acho que, assim, a gente nunca deve se precipitar nas coisas, nas atitudes que a gente vai tomar. Porque eu fico pensando assim, se eu tivesse me precipitado nas atitudes, talvez eu não estivesse na White todo esse tempo. Porque sempre eu procurei ser amigo das pessoas, fazer a coisa certa para que a minha chefia nunca tivesse que falar: “Você errou ali.” Sabe? Então se eu não soubesse como fazer, eu ia procurar saber como devia ser feito. Eu sempre fui assim, eu nunca… Coisa que eu não sei fazer, eu já vou logo me metendo a fazer. Uma coisa que me ajudou muito. Não ter aquelas atitudes precipitadas. Tem um ditado que fala assim: “O precipitado como cru.” Então eu sempre tive essas coisas comigo. E respeito, eu respeito muito as pessoas. Se, por exemplo, eu falar bravo com alguma pessoa, daí a pouquinho eu estou lá pedindo desculpa. Eu acho, assim, que as pessoas muitas vezes não têm que… Por causa dos problemas da gente a pessoa ter que sofrer por causa daquilo. O problema da gente, muitas vezes problema particular, a gente tem que deixar em casa. Já chegam os problemas que a gente tem na firma, então melhor deixar em casa. Na hora que chega em casa você resolve. Mais ou menos isso.



P/1 – E na tua área, assim, da mecânica, o senhor falou muito aqui para gente, mas como o senhor enxerga o futuro da empresa nesse seguimento de mistura?



R – Olha, eu vejo assim, eu vou ser sincero, acho que está indo para um caminho muito ruim, sabe por quê? Porque não está tendo o que teve na minha época, preparação para as pessoas. Quer dizer, amanhã, depois, eu não estou na empresa mais, estou aposentado vai fazer 14 anos. Nós temos outro que está em Osasco, que tem 25 anos de White e aposentou agora esse mês, e acho que ele fica só até janeiro. Uma pessoa de um conhecimento tremendo, tremendo. Eu o admiro, um conhecimento violento. E não tem ninguém para substituir. Tinha outro em Diadema que era terceirizado, aí o mandaram embora. Entrou outro novo que até aprender o que ele aprendeu… Uma que vai ser meio difícil, porque não vai ter quem ensina. Aí a gente vai para o lado de Sertãozinho, é um também terceirizado. Trabalhou quase 30 anos na White, aposentou abriu uma firma, mas quanto tempo vai ficar? Entendeu? Quer dizer, e a gente não vê, assim, preparação para as pessoas novas.



P/1 – O senhor está preparando um, não é? Que o senhor contou.



R – É. Então, porque você vê um negócio assim… O que precisaria? O que acontece? Por exemplo, ele é um operador, quer dizer, tem coisas que eu não posso deixar fazer. E se acontecer alguma coisa? Até hoje ninguém falou para mim assim: “Zulmiro, ensina tal coisa para fulano e deixa fazer.” Quer dizer, hoje a responsabilidade é minha. Então o que acontece? É ruim, você vai ensinando a pessoa, mas teria que ter alguém para dizer: “Vai ensinando e vai deixando fazer eu que eu arco com a responsabilidade.” Agora, se eu deixo  fazer e acontecer alguma coisa… Porque eu não tenho nada escrito, aí vão dizer assim: “Mas por que você deixou fazer?” Eu falo assim por causa de vários exemplos que já aconteceram na White desse tipo, entendeu? Quer dizer, a pessoa estava fazendo uma coisa fora da função dele, aconteceu alguma coisa e disseram: “Mas por que você estava fazendo isso?” Fica difícil. Então, se você tivesse alguma coisa que dissesse escrito: “Deixa a pessoa fazer.” Quer dizer, se acontecer alguma coisa, tem alguém que vai ser responsável por aquilo, não é? Porque é aquele negócio, é uma área muito perigosa, muito perigosa. E outra, não avisa quando vai acontecer, entendeu? Não é que nem você chegar na tua casa, você abriu o bujão de gás, sente aquele cheirinho, aí você não pôs fogo, você fecha e fala: “Estava vazando gás.” Você percebeu. Por exemplo, alta pressão não avisa quando vai estourar. O oxigênio não avisa quando vai estourar. Só o acetileno você sabe que está com um cheirinho lá e está vazando. Mas dependendo também do material que você usa lá no acetileno, ele dá um flash e não avisa a hora que vai explodir. Então tem umas coisas que você tem que tomar um cuidado. Muitas vezes você tem que ser delicado. Lá em Salvador dois morreram, em 2002, por fazer a mesma coisa. Simplesmente o que eles fizeram foi uma tampa. A hora que estavam abrindo o gerador estava vazando o gás, aquela tampa desceu, bateu no chão, saiu uma faisquinha. Aí pum! Pegou fogo nos dois. Isso porque só estavam os dois lá, se tivesse mais gente tinha pegado fogo em mais gente. Então, são coisas assim que a gente vai vendo, que tem que tomar certo cuidado. Então para você falar assim… A gente que é mecânico antigo vê pessoas fazendo coisas, fala assim: “Eu não tenho coragem de fazer aquilo.” Sabe por quê? Porque muitas vezes aquela pessoa que está fazendo não presenciou alguma coisa que aconteceu. E com os anos de experiência a gente já presenciou. Mas eu acho que a White devia mudar, devia ter tipo uma… Que nem, quando eu aprendi, tinha alguém que instruía. Quer dizer, o que acontece? Você aprende também lá no campo, é trabalhando que você vai aprender, você trabalhando. Mas o que acontece? Eu era mecânico, então eu era uma pessoa que estava lá para fazer aquilo ali. É diferente de você pegar alguma pessoa que tem outra função e você falar: “Faça isso.” Aí ele faz aquilo, já pensou se acontece alguma coisa? Aí a esposa dele vai falar assim: “Mas o meu marido não fazia aquilo. Por que ele estava fazendo aquilo?” E alguém lá na companhia vai falar: “Uai, mas por que o cara estava fazendo aquilo lá se o serviço dele era tal coisa?” Porque hoje nós temos a nossa ST [?], que reza tudo que você pode fazer.



P/1 – Segurança do Trabalho, não é?



R – Na ST dessa pessoa não está lá que ele pode fazer tal coisa. Se fizer o próprio técnico de segurança vai pegar e vai falar: “Espera um pouco. Na ST desse rapaz não está que ele pode fazer isso aqui. Por que ele estava fazendo isso?” “Porque o Zulmiro mandou fazer.” Aí eu vou falar o que? Eu vou ter que ficar quietinho. Agora, se eu tivesse uma documentação por escrito: “Não, você pode deixar o rapaz fazer.” “Estava fazendo porque está aqui. Tem uma chefia que falou que ele pode fazer. Eu acompanhando, ele pode fazer.” Então nós que estamos na mecânica hoje a gente tem esse sentimento. Nós mesmos conversamos entre nós e falamos isso. O que acontece? Nós que estamos tanto tempo na empresa, quando nós vamos fazer alguma coisa que nós temos dúvida, um liga para o outro: “Olha, eu vou fazer tal coisa, você já fez alguma vez isso?” “Ah, eu já fiz.” “Como você fez?” Ou então aconteceu alguma coisa e você vai mexer em algum equipamento, e você nunca mexeu, um liga para o outro. A gente tem um relacionamento desse jeito.



P/1 – Uma troca de informação.



R – Troca de informação. Isso eu acho que é importante. Tem que ter uma troca de informação. Muitas vezes você passou por uma dificuldade que se a pessoa perguntar para você, você vai falar: “Olha, faça assim, assim. Porque se eu tivesse feito assim, assim, assim, eu não tinha sofrido tanto como eu sofri.” Não é? Quer dizer, muitas vezes também você podia dizer: “Ah, deixa ela, eu sofri, deixe-a sofrer também.” Não é? Mas muitas vezes você tem aquele coração amoroso e fala: “Não, eu sofri. Por que ela vai sofrer, minha amiga vai sofrer?” Não é?: “Vou ensinar e ela não vai precisar passar o que eu mesmo passei.”



P/1 – Organizar um aprendizado da experiência.



R – Um aprendizado. É.



P/1 – Que a sua trajetória foi muito em cima disso, não é? Aprender pela experiência.



R – O que acontece? Eu vejo assim, eu aprendi muitas coisas assim, bem dizer mesmo, na raça. Porque quando você tem um curso, por exemplo, que nem eu tive na central, você aprende o básico. O resto você vai aprender no dia a dia, são as coisas que vão acontecendo. É por isso que muitas vezes acontece alguma coisa você liga, o outro pergunta. Esse rapazinho mesmo lá de Salvador, novo, ele liga direto: “Zulmiro, eu vou fazer tal coisa, pode fazer assim? Não tem problema?” Então, eu acho interessante isso aí, a pessoa ser comunicativa. Não esperar acontecer para depois falar: “Puxa, eu fui fazer tal coisa, olha o que aconteceu.” Entendeu?



P/1 – Claro. Dentro dessa ideia de aprendizado, de falar da experiência, eu te pergunto, Zulmiro, o que o senhor achou desse projeto da White Martins estar contando a sua história a partir das experiências?



R – Acho legal. Legal. Eu só espero assim, que… Eu sei que várias pessoas vieram contar experiências. Acredito que deva gerar um livro, talvez seja entregue para todos os funcionários e os funcionários possam ler esse livro. Porque tem uma coisa, tem pessoas que não gostam de ler, recebem alguma coisa e não querem nem saber… Quer dizer, eu falei alguma coisinha de bom, outro falou alguma coisinha de bom, eu acredito que esse resumo todo que vocês vão fazer, vai sair uma coisa muito interessante. Uma coisa de muito aproveito para geração futura e para aqueles que vão continuar. Quer dizer, uma experiência de vida. Tanto tempo dentro de uma empresa, olha, não é fácil, não. Mais da metade da minha vida está ali dentro. Eu entrei com 20 anos, estou com 53. Quer dizer, eu construí toda a minha vida ali dentro, tudo que eu tenho saiu dali de dentro.



P/1 – E passar hoje por vários desses episódios, desde o começo?



R – Quem diria que eu iria estar aqui hoje falando. 



P/1 – Zulmiro, a gente só pode te agradecer. Obrigada por ter se disposto a vir aqui. Obrigada por contar a tua história, por ter se aberto para gente.



R –  Obrigado por vocês terem tempo para me ouvir falar tanto.



P/1 – Foi um prazer.



R – O prazer foi meu.



P/2 – Obrigada.



P/1 – Muito obrigada, Zulmiro.



--- FIM DA ENTREVISTA ---



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