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História

Tudo começou como voluntário

História de: Adamo da Silva
Autor:
Publicado em: 15/05/2020

Sinopse

Criado só por mulheres sem ter pai, Adamo da Silva buscou alternativas de melhoria de vida, formou-se em informática e viu a oportunidade no CDI. Primeiro foi fotógrafo para depois iniciar o trabalho como coordenador. Viajou constantemente a trabalho para o interior, ensinando e coordenando, na região do Pará, como as EICs poderiam ser escolas de informática sustentáveis, se tornando, assim, o modelo para o CDI central.

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História completa

P/1- Adamo, boa tarde.

 

R- Boa tarde.

 

P/1- Você poderia começar falando seu nome completo, local e data de nascimento? Por favor.

 

R- Meu nome é Adamo da Silva, nasci em Brasília, Distrito Federal, no dia 12 de fevereiro de 1977, tenho 27 anos.

 

P/1- Perfeito. E Adamo, você poderia contar para gente um pouco da tua trajetória até entrar no CDI [Comitê de Desenvolvimento da Informática]?

 

R- Posso, sim. Bem, a trajetória, nascido em família de renda baixa, né? Com a visão de sempre crescer, de acordo com as possibilidades financeiras da família, criado por mulheres, não tive a participação de pai. E com o objetivo de sempre crescer e ajudar a família ao qual me criei. Estudei em escolas públicas, nunca estudei em uma escola particular, e até então sempre com esse mesmo objetivo, de que por mais que seja uma escola pública, é uma escola que tem dado bons resultados em nosso município, nosso estado. Bons amigos, sempre diferenciando daqueles de amizades diferenciais que caminhos sempre tortuosos nos levam, por vontade de trabalhar pela comunidade, apesar de que isso veio a ser descartado durante o colégio, durante o trabalho de teatro, porque eu fiz teatro. E aí, aos poucos isso foi acontecendo, porque eu sempre fui tímido. Mas eu lembro que na época de colégio, tinha uma professora que trabalhava redação, e nessa aula de redação ela fazia teatro também, então quem queria estudar redação, ficava na sala, quem queria teatro, ia para outra sala, para ganhar ponto, e eu ia para outra sala ganhar ponto, e acabei fazendo teatro, não é? Primeiro personagem era um personagem que não falava. 

 

P/1/2- [riso]

 

R- Para variar era um personagem que não falava.

 

P/1- Bastante adequado.

 

R- É. Era de uma árvore.

 

P/2- [riso]

 

R- Na época em 1992, pela ECO 92 [Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e o Desenvolvimento], então se fazia muito essas atividades pelo meio ambiente, e aí eu fui chamado, convidado para fundar um grupo de teatro, e daí por diante ingressei na atividade na comunidade, fiz vários papéis na comunidade. E depois, devido a alguns problemas em termos de família, falecimento de um membro muito querido de família, nós nos separamos da família, eu e minha mãe nos separamos do resto da família. Morei em um outro bairro de Belém durante um ano e alguns meses, nessa trajetória. E aí, retornamos de novo, a história nos fez retornar para o mesmo local de origem, onde tudo começou, onde a família sempre esteve enraizada, mas sempre com o intuito de crescer, de derrubar as barreiras, uma coisa que eu trouxe, por exemplo para o CDI é isso, as barreiras elas sempre vão acontecer, vão aparecer, nós temos que ter forças para derrubá-las, né? Quanto mais difícil, é melhor o gostinho quando a gente derruba, então, a trajetória familiar, história de vida é meio assim.

 

P/1- Qual é a sua formação?

 

R- A minha formação, como eu falava anteriormente, eu não queria me formar em eletrônica, me formei por percalços da vida, né? Então, eu fiz prova para a escola técnica, para passar em informática, mas não consegui. E as escolas estaduais do Estado do Pará já haviam começado as aulas, e através de um conhecido dentro da Escola Técnica, nós conseguimos uma vaga, mas só tinha vaga para eletrônica. Tudo bem, fiz um acordo com a minha mãe de que enquanto eu passasse em Eletrônica, eu ficaria, mas se eu reprovasse um ano, eu faria prova para Processamento de Dados, para Informática. E aí, caí na besteira de formar, né? De acabar quatro anos de curso técnico em eletrônica, me formei em eletrônica, mas a informática sempre na mente, devido ao que a informática possibilita para um ser humano, né, para aqueles que têm uma grande vontade e tem alguns outros que têm necessidade de fazer isso, é necessário na vida. E devido a esse caminho todo nós tivemos assim, um período na família de que a minha mãe parou de trabalhar e através de um recurso que ela tinha da indenização, ela me deu para que eu fizesse o curso de informática, na época era 120 reais, e aí eu fiz o curso de informática.

 

P/1- Onde?

 

R- No CIEE [Centro de Integração Empresa-Escola] em Belém, era um intensivo de um mês, e através desse intensivo, 6 meses depois, eu consegui emprego na área de informática, mas eu não entrei na empresa para trabalhar com computador especificamente, eu entrei na empresa porque um amigo que trabalhava na mesma, ele atuava tirando foto, com máquina digital, essas Mavikas, e não gostava muito da tarefa de bater foto, ele queria trabalhar só com o computador, e aí, em conversas paralelas antes eu disse: “se conseguir a vaga pra mim, lá, eu vou lá bater foto.” Nunca tinha batido foto na vida, entendeu?

 

P/2- [riso]

 

R- Vamos lá, ele se animou com isso, falou com o patrão da empresa que hoje é uma parceira do nosso projeto aqui em Belém, entrei na empresa para bater foto, e comecei a mexer em um programa de imagem da empresa, que eu nunca tinha visto na vida, mas eles me ensinaram e comecei a trabalhar com informática, dentro da empresa também, não só com bater foto, e aprendi dois softwares diferenciados do que eu já tinha trabalhado, tinha aprendido. Os que me ensinaram saíram e eu fiquei sendo responsável pelo setor, né? Foram três anos e meio na mesma empresa, isso foi muito produtivo para o crescimento dentro da empresa, mas nunca retendo a informação só para mim, sempre passando a informação para os colegas que entravam na empresa, também. Então, é uma coisa que é demorada, para gente crescer é bem demorado, mesmo né? Principalmente, quando você tem poucos recursos, seja no estudo ou no dia-a-dia, porque a gente fala e ouve muito hoje em dia, se falar que é para entrar numa empresa tem que ter QI, é Quem Indique, então, existe emprego? Existe, mas só que indique as pessoas. Então foi o que aconteceu comigo, me indicaram e eu entrei, porque o mercado está cheio de profissionais, né? Profissionais bem capacitados e profissionais mal capacitados, mas foi assim que aconteceu, estar sempre com a idéia de crescimento, a vida bem cansada. Eu lembro que quando eu entrei na empresa, eu saía para trabalhar e eu passei três a quatro meses sem almoçar, porque eu morava ainda num bairro distante, né?  Para chegar lá era de ônibus ida e volta, para ir era uma hora, e para voltar também uma hora, então sair para o almoço, duas horas de almoço, era ir lá, chegar, tomar a benção e voltar. Então foram quatro meses sem almoçar, fazendo lanche e estudando porque tinha a escola técnica ainda, foi bem cansativo, mas produtivo.

 

P/2- Daí você já passou para o CDI dessa empresa?

 

R- Ainda durante a empresa, eu já atuava na comunidade, falei do teatro agora, então tem uma ligação bem interessante quando eu fazia teatro, fui embora para outro bairro, né? E a história nos trouxe de volta, mas isso bem devagar, e os amigos ao qual eu tinha feito na escola, que trabalhamos no teatro, um deles foi coordenador de teatro na paróquia, na comunidade e me convidou a fazer de novo teatro, nisso eu estava fora do teatro há dois anos, aí voltei para a comunidade, para fazer teatro na comunidade, e o padre da comunidade conversava muito comigo e sabia que eu trabalhava com informática, né? E ele conhecia o Alcir, e o Alcir tinha essa idéia de ter informática para a comunidade, e aí ele conhecia o Rodrigo, aí tiveram uma conversa lá. Até então eu estava no meio da comunidade trabalhando com teatro, né, e nada de informática e o Laor que é o padre, em conversa com o Alcir ficou sabendo da ideia do Alcir de criar a primeira escola para trabalhar com informática e me indicou, de novo Quem Indique, né? E aí me indicou e nós tivemos a primeira conversa para aconteceram as coisas. 

 

P/1- Como foi essa conversa?

 

R- Eu lembro que foi em um sábado ou um domingo, o Alcir foi na comunidade na paróquia, né, a área paroquial é bem grande. Eu fui lá para essa reunião com o Alcir, e o Alcir me falou de toda a proposta pedagógica do CDI, a ideia de informática para a comunidade, trabalhar cidadania, eu lembro perfeitamente que ele perguntou se isso ia dar certo, se eu achava que ia dar certo, eu falei: “Informática vai dar certo, a comunidade quer isso. ” Porque eu já tinha visto a minha trajetória de querer fazer o curso e devido o custo alto não ter o poder aquisitivo para pagar, né? Então, na época em 2000, a proposta era de 5 a 15 reais, o que não mudou desde 1995, desde a criação do CDI. Eu digo: “Não, isso vai dar certo, para o curso que eu fiz que era 120 reais, de 5 a 15 reais para a comunidade, com certeza, ia dar certo” E aí, comecei a fazer a pesquisa, né? Até então fui convidado não para coordenar, nada disso, só convidado para atuar voluntariamente, comecei a fazer a pesquisa na comunidade das pessoas que tinham identificação de como atuar como educador, pode perguntar, e conseguimos na época três voluntários, além de mim, né, que já tinham conhecimento de informática. Começamos as inscrições, já tínhamos uma sala, que na proposta do CDI essa sala seria de laboratório para exames de linha e a paróquia a gente tinha conseguido recursos financeiros para comprar o equipamento, e com a proposta ela já serviu para a informática. 

 

P/2- Que bairro era isso?

 

R- No Conjunto Providência. 

 

P/1- Esse seria a primeira EIC[Escola de Informática e Cidadania]?

 

R- Essa seria a primeira EIC.

 

P/1-  E você? O contato que o Alcir teve com você, qual era esse? O que que ele esperava de você? Que que ele queria de você?

 

R- Ele esperava que eu o ajudasse, né? A primeira frase que ele falou foi: “Que você coordene, tente ver as pessoas. ” Mas assim, nunca imaginava que eu seria o coordenador, imaginava que eu ia dar um apoio como educador, devido ao conhecimento que eu já tinha. 

 

P/1- Sim.

 

R- Mas a coisa foi mesmo com a proporção de coordenar a escola, e eu também dei aula, né? Então fui o primeiro educador, o primeiro coordenador da Escola de Informática e Cidadania da Providência. 

 

P/1- Isso foi em que ano?

 

R- Em 2000, tá? Então, abriram as inscrições para a comunidade. A comunidade sempre que tem uma proposta dessa ela imagina que não presta, coisa muito barata, isso tem alguma coisa errada. Eu lembro que faltavam três dias, não, quatro dias para começar o curso e nós não tínhamos alcançado o número de alunos que imaginávamos, nós não tínhamos nem a metade. Nem a metade! O que que essa comunidade imagina?

 

P/1- Quantos alunos eram? Que vocês tinham?

 

R- Nós tínhamos 30 alunos, mas a gente tinha aberto vaga para 110 pessoas, né?  Daí eu ficava direto em contato por telefone com as pessoas. Por que eu trabalhava, a cabeça estava voltada na comunidade, o trabalho eu pouco lembrava, então ligava, orientava eles e ficava sábado e domingo fazendo inscrição, divulgamos nas missas e aí o que foi mais incrível, é que no dia nós estávamos com 100 vagas preenchidas e durante a semana que começou o curso o resto foi preenchido. Isso foi muito positivo e então a primeira turma, a escola foi inaugurada no dia 28, aliás, no dia 27 que foi no sábado e no dia 29 uma segunda foi quando começou as aulas. 

 

P/2- E como era o grupo que somou essas 100 pessoas.

 

R- De adolescentes em diante. Por que? Foram abertas as inscrições...

 

P/2- Mas a maioria eram adolescentes?

 

R- A maioria adolescente, né? De 13 anos, foi aberta as inscrições com essa ideia de 13 anos para cima, né? Mas nós tínhamos pessoas de 40 anos, 45, 50 anos, eu tenho até uma foto para mostrar para vocês.

 

P/1- E todos da região?

 

R- Todos da comunidade.

 

P/1- Da comunidade?

 

R- Todos da comunidade.

 

P/1- Isso era condição?

 

R- É. O Bairro de Malmecans, ele tem vários conjuntos próximos, o da Providência, o Pró-morar, o Santos Dumont, que a comunidade lá conhece como da Baixada, comunidade bem pobre mesmo, o pessoal é considerado paupérrimo na comunidade. O conjunto Marexi, né? Então, eram esses conjuntos que ficam em torno, hoje tem o Paraíso dos Pássaros que é um projeto do Governo do Estado. Então, nós na primeira turma dos 110, formamos 82, para início foi um resultado muito positivo, né? Porque é uma coisa nova, trabalhar projetos sociais com a comunidade. Até então, quando eles se inscrevem, até hoje isso acontece, eles querem informática, só informática, aí fala de projetos sociais, de ele ter uma visão crítica da coisa: “O que é isso? Que coisa nova que é essa? Eu tenho o poder de falar? ”  Que até então a escola formal, você ali recebendo as instruções você não fala nada, só se estiver com dúvidas, e a escola de informática te dá essa outra visão, ela possibilita que você fale, dê idéias, que você veja os problemas que tem na sua comunidade e trabalhe dentro da sala de informática. 

 

P/2- Você recebeu alguma formação para ser educador?

 

R- Eu recebi orientações do Alceu, que tinha orientações da matriz, né? Porque até então, como primeira escola, ficaria muito difícil de receber capacitação de coordenador, capacitação de educador. Mas o Alceu me passou todo o material necessário, em CD, em disquete. Eu li todo o material, as apostilas, li tudo que era sobre o CDI, eu sabia tudo sobre.

 

P/1- E isso foi em 28 de maio de 2000?

 

R- Que a escola inaugurou, 27 de maio e dia 29 começou.

 

P/1- Ou seja, foi o período anterior à formalização da proposta?

 

R- De conversa.

 

P/1- A proposta político pedagógica do CDI.

 

R- É.

 

P/1- Como era? Como que foi passado a questão da cidadania, da pedagogia, mesmo? Já tinha algo formalizado dessa forma? Como é que foi?

 

R- Do Pará, né, você está se referindo?

 

P/1- No caso, no seu caso. 

 

R- Isso. No meu caso o Alcir, quando ele passou a informação, né, ele me informou em primeira instância que a comunidade trabalharia com o equipamento, com noções de cidadania, né? E a informática associada à cidadania, direitos, deveres, problemas da comunidade, e me passou o material. Como eu falei eu li todo o material e comecei a entender, até então não tinha visto nada, né? Comecei a ler, estudar o material e passar as ideias para os educadores, essa idéia de trabalhar a informática com a cidadania, trabalhar com assuntos como drogas e vários assuntos abordados. Isso no início é claro que é sempre difícil, porque é uma coisa nova, ninguém imaginava como é que a coisa, e os resultados foram aparecendo, as pessoas dando as suas idéias, as pessoas mudando a visão do que é, tentando mudar realmente, fazer com que o errado se tornasse certo, né, preparando documentos, formalizando ofícios, então já despertou isso foi um avanço. Os educadores começaram a ver a importância deles dentro da comunidade, porque até então quando você vem de fora, a comunidade é assim, pelo menos no Pará, eu não sei em outros estados, mas acontece assim, se vem alguém de fora eles dizem: “Poxa esse é o cara, esse aí é o que entende mais”, então quando é da comunidade é tudo diferente: “será que ele sabe alguma coisa? ”  Então isso aí já foi uma novidade, pessoas da comunidade educando as outras pessoas, eles se sentiram, assim, valorizados, né, por atuar dentro da escola, de receber a sua ajuda de custo de acordo com o que entra de mensalidades e passando a informação, crescendo, e a comunidade valorizando ele, chamando ele de professor na rua: “Professor, tal”. Aí já convida para ir conversar, para algumas coisas como para consertar um equipamento, para instalar um software, ou aluno que compra um computador já chama: “Professor, me dê umas orientações lá em casa e tal? ” Então isso foi muito gratificante e desafiador para gente, porque até então os resultados vinham dali. Então, teve uma aluna que conseguiu emprego logo no primeiro módulo de Windows, a Telemar funcionava em Belém, a central de atendimento dela funcionava em Belém, e essa aluna conseguiu emprego porque ela já tinha noções de informática, do Windows, e eu lembro que ela ia parar o curso, né, o curso era de segunda a sexta, ela ia parar o curso porque tinha que trabalhar, e eu disse: “Não, você não pode parar, negativo, não pode deixar essa barreira impedir. ” E eu dei aula para ela sábado, domingo e feriado para acabar os cursos, Word e Excel. Ela continuou na empresa, a empresa saiu, a parte de atendimento via telefone saiu de Belém, foi para Fortaleza, eu acho. E até então, ela entrou nas empresas terceirizadas, hoje ela é uma auxiliar administrativa, né? Mas não são méritos meus, são méritos dela que quis continuar, eu só fiz ceder o meu tempo para educá-la pelo contexto de informática, passar algumas noções de cidadania, como ela se portar dentro do emprego dela, que eu já via isso, também na empresa e tinha aprendido bastante. Então, isso foi muito gratificante e isso foi bom para a gente, porque o projeto também pedia isso, pessoas que consigam emprego, e essa aluna conseguiu porque a proposta do CDI dizia que através desse conhecimento da informática alguém pudesse galgar algo no mercado de trabalho. Isso foi permitido também, outros já conseguiram essa façanha. Mas os primeiros resultados, assim, ficam bem marcantes.

 

P/1- E como você chegou a ser coordenador de projeto do CDI?

 

R- Hoje estou dentro da equipe, já remunerado, né? Na época já atuando na coordenação da escola como educador também, sempre fui convidado pela diretoria do CDI a participar de reuniões da diretoria, a ir em inaugurações, ficamos, assim como referência, qualquer outra comunidade que quisesse abrir uma escola vai lá na Providência, a pessoa é essa, eles já têm o conhecimento. Então foi daí que continuei a trabalhar, voluntariamente, porque dentre a nossa idéia é que coordenador de escola não receba, e eu não visava mesmo o recurso, atuei anos voluntariamente e hoje ainda voluntariamente, porque a gente diz que 8 horas de serviço é a parte remunerada, a partir daí é voluntário. Porque às vezes a gente sai 10 horas da noite, viaja, feriado está trabalhando, né? Então sempre a referência éramos nós, a diretoria depositou essa confiança, não só em mim, mas como na equipe que trabalhava comigo e que hoje já são outros educadores. E apareceu a oportunidade, a primeira oportunidade que apareceu na realidade foi para coordenador pedagógico, o Bruno, né? E, devido à pouca possibilidade de fazer uma universidade, porque os cursos são muito caros, lembro que eu estava almoçando esse dia e o Alceu me ligou, tinha chegado da empresa e fui almoçar, e o Alceu me liga falando da oportunidade, que um parceiro que tinha possibilitado isso, né? Eu disse assim: “Olha, assim, no momento eu não vejo viabilidade. ” Primeiro porque eu estou, eu estava com um ano de empresa, e eu não queria deixar a empresa assim, e era o certo pelo duvidoso, podemos dizer assim. E aí, eu disse: “Olha, mas tem o Bruno, que já é voluntário nosso”, já atuava como voluntário da gente. E aí eu disse: “Mas tem o Bruno e ele tem a formação acadêmica, está dentro da universidade, do Cesupa [Centro Educacional do Pará], e eu acho que é uma boa pedida”. E houve o convite ao Bruno e até hoje ele é nosso coordenador pedagógico. Mas continuei trabalhando sem galgar nenhuma função dentro das coordenações, num patamar mais alto dentro do CDI, e ano passado apareceu uma nova oportunidade, né, como assistente de projetos dentro do CDI, e aí sim, dessa vez eu vi que era a hora de ingressar dentro da proposta. Enfim, é uma coisa que a gente gosta de trabalhar, com comunidade, é estar ali no dia-a-dia, ver aquilo que eu fiz desde o início e passar essa minha experiência para eles, não só para coordenador, para educador, tá? E me colocando às vezes no lugar do educador, porque eu sempre fui assim, para nós educadores darmos uma boa aula, vamos ver o que o educador está pensando, aliás, o que que o aluno está pensando, mas vamos ver como é que nós pensávamos quando estávamos naquela cadeira? Então é ver isso e trabalhar, porque o aluno quer uma boa aula, ele quer um educador que participe com ele, não seja só aquele educador que está no quadro, passando informação e pronto. Então, isso foi muito importante e aí apareceu a oportunidade e eu conversei na empresa, convenci o chefe a me liberar porque era o responsável pelo setor, foi uma conversa bem amigável, pois ele já sabia que eu trabalhava como voluntário no projeto CDI. Consegui fazer com que a empresa fosse nossa parceira e a empresa, ela cede vaga para estagiários e chega até a contratar alunos das nossas escolas. Então, há um ano e meio atrás, eu era assistente e o Ronald era o coordenador de projetos, e aí apareceu uma oportunidade para esposa dele de emprego lá no Rio e família iria se deslocar, ele também foi e conseguiu junto à matriz, junto com Rodrigo, essa possibilidade de atuar dentro da matriz, e aí eu aproveitei a oportunidade que me foi dada de ser coordenador. Até então me perguntaram se eu poderia ser coordenador, eu disse: “Tudo bem, sem problema nenhum”.

 

P/2- Que tipo de demanda chegava no início? Quer dizer, quem é que procurava o CDI, quem que queria abrir EIC? Como é que era? Porque no fundo caía para você.

 

R- Para mim.

 

P/2- Então, entender um pouco esse início.

 

R- A comunidade até hoje é focada de uma maneira, o CDI sempre teve receio de fazer uma divulgação. “Vamos divulgar nosso trabalho? Vamos. ”  Porque existem dois focos para divulgar, divulgar um trabalho e tentar atrair um empresário para investir num projeto social, mas acontece sempre o inverso. Quem vem atrás da gente são as comunidades para criar escolas, né? Então, assim que funcionava, sempre as comunidades, coordenador de um centro comunitário, padre de uma paróquia, porque a gente começou a funcionar dentro de uma área paroquial, e o padre de lá já indicava os outros, tá? A gente tem uma atuação forte dentro da área, e também igrejas evangélicas, né, os centros comunitários, como eu falei, e vinham atrás, aí eu ia dizer para eles, eu que passava as informações: “Olha, o processo é esse, você tem que ter o espaço físico, você tem que indicar as pessoas da própria comunidade, os educadores, que tenham pelo menos o conhecimento básico de informática; mas se eles não tiverem a gente vai capacitar”.  Então, partia das diretrizes do projeto que Alceu já havia me entregue, realmente, já repassado para as futuras escolas a doação dos equipamentos, as apostilas, o local, como fazer, todo o processo é dado a eles. Então, eles ficavam, porque até então algumas comunidades ficavam interessadas: “Mas, assim, como é que vai ser feito essa escola e de onde vem o computador? São novos? ”  Aí, quando você diz: “não, já são computadores usados. ” Porque a imaginação do povo é que o novo funciona melhor do que o velho, né? Mas o velho vai funcionar da mesma maneira, talvez ele não seja tão veloz, mas ele vai funcionar da mesma forma, Windows, Word, Excel, Power Point, e eu lembro que os computadores que nós tivemos, quando nós tínhamos que dar aula de Power Point, eu tinha que desinstalar o Excel, porque o espaço no HD não suportava, né? Desinstala Excel, instala o Power Point, aí vem uma próxima turma e vamos chegar no Excel, desinstala o Power Point, instala o Excel. Então, nunca vi problemas, né? E o recurso que entrava devido à auto sustentabilidade que o CDI fala deu certo na Providência, nós nunca avisávamos o CDI, assim, é claro que na primeira semana os equipamentos, mas eles também eram bem defasados, mas deu início. Eles apresentaram muitos problemas, mas depois disso não ligava para o CDI não, o recurso que nós tínhamos chamávamos o técnico para ele consertar, e aí resolvia o problema, sempre a sustentabilidade foi mantida e tudo que o CDI matriz falava deu certo com a primeira escola. É o projeto piloto, né? Então se desse errado, talvez não existisse essa escola, mas graças a Deus deu tudo certo, mérito de toda a comunidade, toda uma equipe que trabalhou para isso, desde o aluno, a equipe docente, porque sem isso não aconteceria. Eu digo para as escolas até hoje que se não tem educador, não tem aula, se não tem coordenador para coordenador uma equipe, também não tem aula e se não tem aluno, não tem aula. Então, somos uma equipe os três o coordenador, os educadores e os alunos. Então, as comunidades sempre procuravam a escola com essa novidade: “Vão doar equipamento, né, de graça? ”.  E quando você falava a proposta, eles vão entender o que é que eles vão trabalhar, mas até hoje aparece assim, desde os vários municípios, até os bairros em Belém.

 

P/1- E quando você assumiu a coordenação regional que estágio estava o CDI?  Como que estava o processo do CDI?

 

R- A coordenação de projetos?

 

P/1- De projetos, isso. Regional, a nível Pará.

 

R- O CDI evoluiu muito, a gente considera que o CDI Pará evoluiu, não sei se o Bruno comentou ontem, né? Mas quando nós começamos a funcionar nós funcionávamos dentro de uma sala em uma casa, era uma cadeira do computador, melhor dizendo assim, porque o Bruno era a pessoa que estava sendo remunerada pelo parceiro, né? Mas quando iniciamos o CDI a atividade, era o Alcir lá na empresa que ele trabalhava que me ligava e resolvia os assuntos, mas o CDI mesmo, o estágio começou ali, com o Bruno no computador e aí, depois evoluímos para uma sala, né? E hoje nós estamos com um espaço muito maior e a equipe, a parceria Phillips, no passado nos proporcionou aumentar a nossa equipe, até então nós tínhamos o coordenador pedagógico e com a renovação de parceria da Vale, que é o Bruno, possibilitou um assistente pedagógico e a parceria Phillips proporcionou o coordenador de projetos e um assistente de projetos. Poxa, crescemos consideravelmente e aí começamos a trabalhar mais intensivamente com as escolas, né? Então, toda a minha experiência com a Providência, com as escolas que nós íamos criando, nós começamos a elaborar mais materiais para trabalhar com as escolas, a gente teve uma evolução muito grande e no encontro, nós percebemos essa evolução tão grande que nós fomos convidados pela matriz no ano passado a apresentar o modelo de sustentabilidade da escola para toda a rede CDI. Para a gente isso foi assim, um auge imenso, porque até então, a gente trabalhava aqui, tínhamos os nossos modelos de sustentabilidade, dando certo para cá e para ali. Algumas caíam, mas a gente sempre orientando como é que deveria ser, mas aí teve o encontro regional aqui, das escolas, nós mostramos para coordenadora de projetos, na época era a Raquel Veiga, tá? Dissemos para ela como era o trabalho, e ela viu através das palestras que as escolas deram certo. E fomos convidados a apresentar para rede, né, todos os CDIs do Brasil e de fora do Brasil, então para a gente um estágio sempre alto. Existem momentos que às vezes você recua um pouco, mas às vezes é melhor recuar, dar um passo atrás e depois dar um outro passo à frente, eu não digo nem dois, mas sempre ter isso, sempre dar o passo à frente com o pé no chão, muito viajado, estar nas nuvens eu acho que isso não é muito real. Então eu vejo o CDI hoje como uma equipe que se esforça muito para trabalhar, para a gente não tem feriado, a gente trabalha, por isso que eu falo que as 8 horas de trabalho é remunerado, o resto é voluntário. Então a gente viaja, às vezes passa 15 dias viajando pelo interior do estado, de manhã, de tarde e de noite, a última viagem que nós fizemos, passamos dois dias fora, a gente acabou uma atividade 10 e meia da noite, a hora que a gente foi jantar, que vai tomar banho e tal, eu e Bruno estávamos aqui próximos. Então, eu vejo que está num estágio positivo, não está no intermediário, está positivo. Precisa crescer mais? Precisa, mas o que que vai possibilitar isso? Eu acho que o que vai possibilitar isso são as parcerias, porque a coordenação de projetos sociais é remunerada através de um parceiro que é a Phillips, a equipe pedagógica é remunerada através da parceria Fundação Vale, né? A outra coordenadora de pedagógico, que é a Teodora, é remunerada através de uma parceria local, que é o Brás, e assim vai. Se nós não tivermos esses parceiros, eu vejo que é muito difícil ter pessoas 24 horas com a cabeça voltada para as escolas. A qualquer momento, o celular está disponível para eles ligarem a hora que eles quiserem, mandar e-mail, não é restrito, assim, não só no CDI não, me ligam fim-de-semana, as vezes ligam sábado, domingo, feriado, já me ligaram até dia de finados: “A gente está com um problema aqui, que a gente abriu a escola para a comunidade, deu problema no computador, como é que eu resolvo? ” Então, a gente está à inteira disposição das escolas para o que der e vier. 

 

P/1- Você falou desse acompanhamento, vocês viajam pelo interior do estado, né? Você poderia contar algum caso, alguma experiência de viagem dessas? Como vocês fazem para acessar as comunidades mais distantes? Porque o Pará, afinal de contas é um estado de dimensões de um país, né? Como poderia contar alguma história, algum caso.

 

R- Olha, tem vários casos. Mas pegar assim, uma viagem que eu já fiz para o interior, tem uma história, é o seguinte; tinha uma entrega de certificados na escola de Paraopeba, né? Na EIC Cimetal e o Bruno estava muito atarefado aqui em Belém e eu estava gripado nesse dia, muito gripado mesmo, e aí tinha que entregar os certificados para os alunos, eles convidaram a gente com antecedência, e estava com esse imprevisto, o Bruno me liga, se eu poderia fazer um favor para ele, né? “Faço, depende, onde”. Aí ele: “Tu vais bem ali para mim? ”. Bem ali vou. “O que tu queres? ”  “Ah, vai lá em Paraopeba para mim? ”

 

P/1- Quantos quilômetros?

 

R- Olha, eu acho que são, porque pra São Geraldo são 750, eu creio que são uns 500, 600 quilômetros. 

 

P/1- Perfeito.

 

R- Está, essa faixa de quilometragem e isso de tarde, de manhã, e quando foi de tarde, ele desistiu: “Não, está muito gripado, bobagem”. Aí, eu muito gripado retornei para casa e ele me liga as 7 da noite e as 9 horas da noite eu estava viajando para Paraopeba [riso]

 

P/2- Para cumprir essa...

 

R- Para cumprir a tarefa, nós não poderíamos deixar a escola sem a nossa presença lá. Então, a viagem é bem cansativa, de ônibus. 

 

P/2- De ônibus?

 

R- De ônibus. Então, o Bruno me deu as coordenadas, olha você vai daqui, pega o ônibus aqui, desce em Marabá, né? Em Marabá você vai pegar uma van que vai para Paraopeba. E chegando em Paraopeba, você procura a escola. 

 

P/2- Certo.

 

R- Perfeitamente. Segui todo o trajeto, chegando lá peguei ainda o mototáxi para Paraopeba, para ir à escola ainda.

 

P/2- Chegou que horas lá?

 

R- No outro dia, são 12 horas de viagem. 

 

P/2- Nossa Senhora.

 

R- 12 Horas dentro de ônibus, van. Mas foi muito positivo, para essas escolas quando o CDI está presente, principalmente no interior é valorização, o CDI está aqui a proposta que a gente fala para comunidade está aqui, o coordenador, o assistente, então independente de quem vá daqui, é alguém do CDI, então as histórias são muito interessantes. Eu já viajei daqui e voltei para aqui, já fiz um acompanhamento de 15 dias, fui em Marabá, para Paraopeba de novo, fui pra Canaã dos Carajás, aí fiz o retorno em Marabá fui no quilômetro 7 que existe lá, visitar as escolas, fazer o acompanhamento, então tem escola que você visita, mas não imagina que ali funciona uma escola, de tão simples que é, né? Mas quando você entra, as pessoas sempre dispostas a ouvir o que você tem a dizer, sempre dispostas a colaborar com você porque o CDI proporciona que elas também falem, eu acho que esse é o grande diferencial, elas têm essa possibilidade de somar junto com a gente as idéias delas, porque a realidade local de cada comunidade, o que deu certo aqui, talvez dê certo em outro local, o problema de um local, talvez alguém já tenha passado por aqui e conseguiu solucionar. Como foi? Eles dizem para gente e a gente vai e repassa para outra escola, e isso é uma soma de idéias, uma soma de resultados, né? E já indica para a escola, não vão cair nesse erro, porque a escola X já caiu nesse erro.

 

P/2- Assim, uma EIC, por exemplo, no quilômetro 7, como tu diz, da...

 

R- De Marabá.

 

P/2- De Marabá e uma EIC na beira de rio, numa região de beira de rio assim, quer dizer, que diferença que tem?

 

R- Diferença eu acho que a distância.

 

P/1/2- [riso]

 

R- Entre uma escola e a outra, porque ambas são carentes, né? Tanto a da beira do rio, como a do quilômetro 7, ou de Marabá, mas às vezes a infraestrutura é diferenciada. 

 

P/2- Certo.

 

R- Né? Mas a carência é a mesma da comunidade.

 

P/2- Carência da população?

 

R- A carência da população é a mesma, a informática é uma novidade, né? Muitos alunos nunca viram o computador e você leva aquela oportunidade para eles, eu já diria que existe uma diferença entre o interior e a capital. 

 

P/2- Certo.

 

R- Né? Uma diferença entre o interior e a capital, até mesmo para a captação de recursos locais eles conseguem no interior mais apoio de uma padaria, de uma gráfica, de uma mercearia do que na capital. Eles são envolvidos de uma maneira diferente, parece que eles entendem mais a proposta no interior do que na capital, apesar que todos entendem a proposta da mesma maneira, mas no interior quando a gente chega, parece que é uma forma diferenciada de como eles trabalham e eles envolvem muito mais a comunidades. Por que? Aí tem um porquê. Porque no interior eles não estão andando de ônibus, né, eles andam de van para um lado e para o outro, mas está focado ali na comunidade dele, só que na capital os alunos estudam em escolas públicas, pegam ônibus, o tempo não está totalmente ligado ali no bairro dele, vai fazer um curso fora, o coordenador e assim por diante, então o tempo dessas pessoas também conta muito, acho que é o diferencial, o tempo dessas pessoas, a dedicação, mas ambas, independente da capital ou do interior, todas se dedicam igualmente. É muito bom. 

 

P/2- Você falou sobre a sustentabilidade às EICs, que você apresentou. Você poderia falar um pouco sobre isso, para ficar registrado?

 

R- Posso, a proposta do CDI é que dos 100% de recursos que entram, 50% seja rateado entre os educadores. 40% para manutenção da EIC, na compra de material didático, na compra de papel, tinta e etc., 10% para manutenção dos computadores, né? E quando eu ouvi a proposta pela primeira vez, eu segui ali, aquela linha, aquela risca daquela proposta, e realmente é viável. Nós temos escolas hoje que cobram 5 reais e tem escola que cobra 15 reais, isso é de acordo com a realidade local, o CDI não vai lá e diz: “olha, vocês têm que cobrar 10. ” Negativo, eles avaliam, eles fazem uma pesquisa na comunidade deles e vê qual é o valor que vai ser cobrado ali, mas o modelo de sustentabilidade é a escola, o coordenador e sua equipe verem que tem possibilidade do empreendedorismo, porque é empreendedorismo social uma EIC, porque o recurso que entra ela vai estar vendo a possibilidade de comprar mais um computador, de comprar um scanner, né, de comprar um teclado, um mouse, um estabilizador, um filtro de linha, uma impressora. Lá na Providência, com recurso da EIC nós compramos um ar-condicionado logo no início, né? Com o recurso das matrículas que entraram, nós compramos um ar-condicionado. No segundo mês, nós compramos uma impressora, com recursos só da escola, que era as mensalidades e as matrículas, então a escola sempre sobreviveu com o recurso das mensalidades. 

 

P/2- Mas isso se aplica a todas, à maioria das EICs do Pará? 

 

R- A maioria das EICs consegue manter essa sustentabilidade, agora existem EICs que devido à realidade local, não é possível, né? Tem escola que o que entra é o que sai, para pagar a energia elétrica, água, então tem escola que pela realidade local, o que entra é o que sai, mas elas continuam aplicando a proposta político pedagógica independente das suas dificuldades financeiras, mas elas tentam. E aí elas correm atrás da parceria, né? Que é a parceria da padaria, poder ajudar sendo padrinho de uma escola, de um aluno, sendo padrinho de dois, três e ela minimizar os custos. Então a nossa orientação é sempre mostrar para as escolas que elas têm que gastar com o que realmente é importante, e não ter um custo com coisas desnecessárias, por isso que quando a gente capacita o coordenador, a gente dá uma noção para ele, o que que ele deve gastar, né, com que que ele deve gastar, o que que ele já vai ter de custo. Por experiência a gente já sabe que ele terá um custo com apostila, que ele vai ter custo com energia elétrica do mês, né, com o material de divulgação, com xerox, então ele já vai ter que separar ali o recurso necessário para a sobrevivência da escola, já prevendo que ele vai ter recurso talvez para manter a escola por um mês, porque a gente sempre dá a idéia para ele assim; se a escola, os alunos fizerem uma greve, não pagarem mensalidade, como que a escola vai funcionar? Precisa ter recurso em caixa, né? Então, sempre tem essa visão de que precisamos captar recursos e gastar com que é necessário, mas sempre mantendo a qualidade da escola, né? Qualidade do funcionamento, o educador recebendo a sua ajuda de custo, porque ele também é um voluntário. Ajuda de custo para que ele se sinta motivado a estar ali também, então a sustentabilidade ela vem se mantendo em boa parte das Escolas de Informática e Cidadania do Pará. Tem escola que consegue apoio da prefeitura, na área de Macarena, muitos dos coordenadores lá conseguem com que a prefeitura pague a bolsa do educador, então é um recurso que ela já economiza, que ela capta daqui e ela já não paga o educador, porque o órgão X vai pagar o educador, então já é economia, ela já está investindo em outras coisas, entendeu? 

 

P/2- E o que seria específico aqui do modelo que vocês criaram? Quer dizer que vocês fizeram uma apresentação na rede CDI, né? Quer dizer que foi uma experiência que foi desenvolvida aqui mesmo, no Pará, diferente dos outros, nessa proposta de sustentabilidade? Porque esse é um princípio até da franquia social? Quer dizer que permeia toda, tem a relação de constituição de uma EIC, né?

 

R- É que a fórmula é bem simples, né? Porque até então a gente diz para o coordenador que se ele sabe gerenciar a casa dele, ele vai conseguir gerenciar a escola, então o mais simples é o resultado, o que a gente sempre orientou, e é o que a gente apresentou lá na matriz, é que é possível ser auto sustentável sim, então com uma mensalidade de 15 reais, por exemplo, a escola vai ter que destinar os 50% aos gastos fixos, mas só que as escolas normalmente, ela não fazem isso, e algumas seguem muito à risca, então acho que a nossa orientação não deve ser seguir muito à risca, é ter cuidado com o que você tem, os equipamentos, ter essa previsão, aí entra o planejamento financeiro, o que que eu vou gastar? Ah, eu vou gastar com apostila, eu vou gastar com energia, são as despesas fixas, né? Despesas, energia elétrica, a água, o telefone, aquelas que têm telefone, os educadores, a despesa fixa, então já sei que o recurso é X. O que que eu pretendo que entre? Y. Então eu vou ter aqui, provavelmente, um valor X de saldo, e esse valor X de saldo que vai somando, porque o diferencial de tudo está na matrícula, né?

 

P/2- Como assim?

 

R- A matrícula, quando você vai se inscrever para um curso, nós orientamos a todas as escolas que ela cobre uma matrícula, essa matrícula é um reforço de caixa, ela não tem o direcionamento de 40% para cá, 30 para ali, 10 para ali, é um reforço no caixa, então quando entra esse recurso da matrícula, ela já vai ver a questão da apostila, né, então ela já gastou aqui, e quando vem o valor das mensalidades, pronto, é um recurso a mais, entendeu? Que já fica para o caixa e ela só paga aqueles valores fixos. Então da primeira mensalidade o valor, o que entrou de matrícula, ela já pagou antecipado e sempre fica algo no caixa, né? Então se nós formos avaliar aqui 100 alunos a 15 reais dá 1500 reais, então 1500 reais e aí dá para pagar luz, dá para pagar todas as despesas fixas, que em média numa EIC ela gasta hoje com energia elétrica uns 170, dependendo do número de máquinas, apostilas deve estar gastando hoje com a EIC uns 300 a 400 reais, sem conta telefônica.

 

P/2- Por mês?

 

R- Por mês, uns 300 reais.

 

P/2- Incluindo o educador junto?

 

R- Uns 400 reais, incluindo o educador.

 

P/2- 100 Alunos mais ou menos?

 

R- Uma média de 100 alunos, porque tem a inadimplência e esse valor da matrícula que entrou aqui já cobre a inadimplência, porque na nossa proposta a gente não dispensa o aluno porque ele deixou de pagar a mensalidade.

 

P/2- Sim.

 

R- Ele pode ter tido vários problemas que o impediram disso. Então, por exemplo na Providência a gente tinha ao final de um curso, aluno que não tinha pago nem a matrícula. Por que não é: “Ó, você só vai estudar se você pagar. ” Não, negativo, sempre com a idéia de economizar daqui a energia elétrica, a orientação para os educadores é desligar sempre todos os interruptores, a chave geral, né? Computador que não está sendo utilizado está desligado realmente, não está ligado, papel ter sempre o controle, mas é o controle financeiro, não é controlar as coisas demasiadamente, é uma forma de que você vê que os seus custos diminuem bastante. E a gente pegou...

 

P/2- Diga.

 

R- A gente pegou um exemplo com eles bem interessante, que foi ali o apagão, né? As pessoas tinham que usar a energia elétrica, né? E...

 

P/2- O apagão no Brasil?

 

R- O apagão. 

 

P/2- ___________.

 

R- Exatamente. Usar energia elétrica para as suas casas. Está, tudo bem, e tinha que economizar, então nós víamos as reportagens pelo Brasil todo e no Pará que você conseguia ter a sua iluminação e economizar, e sentia onde? No bolso. A mesma coisa acontece dentro de uma EIC, né? Se eu vou usar papel erroneamente, eu estou perdendo dinheiro, se desde a caneta piloto que o educador está dando aula, ele dá aula com a caneta piloto destampada, o ar-condicionado vai fazer com que resseque ali a caneta piloto, então ele já vai ter um custo a mais com uma caneta piloto, o uso correto dos equipamentos, porque não é sempre que os equipamentos dão defeito, né? A gente orienta que o educador tenha essa consciência de estar orientando bem o aluno. Então aqueles 10% que eu não gasto no mês já é reforço de caixa. Você entendeu? 

 

P/2- Entendo.

 

R- A economia da energia elétrica, como tem, então como eu estava falando, desde o o aluno, o educador ter essa ciência de como usar a caneta piloto, os alunos desligarem corretamente os computadores. Então o computador não está dando problema, então eu estou economizando dinheiro. Então se eu estou usando corretamente e adequadamente todo o meu material didático, as apostilas e etc, então eu estou economizando dinheiro. E aí o dinheiro já serve para fazer investimento. Então se eu tenho mais um computador, eu tenho mais dinheiro em caixa. E com isso, a economia me possibilita a dar oportunidade àquelas pessoas que não podem pagar. Porque dentre a proposta, existem alunos que é dada aquela bolsa integral, ou parcial, de acordo com a possibilidade, né? Então, a economia possibilita isso, de eu manter aquele aluno dentro de sala. E a Providência sempre conseguiu, e consegue até hoje, se manter com recursos próprios das mensalidades. Então a grande questão para rede era isso. Mas como a escola consegue? Com a sua própria mensalidade, pagar todos os seus custos, entendeu? 

 

P/2- E foi essa experiência que vocês levaram?

 

R- Foi isso que nós levamos para eles, né? Nada assim de “Oh! ” Porque até então é difícil para as escolas. Como eu estou te falando, tem escola que o que entra é o que sai, ela não consegue investir nela, mas ela conseguiu honrar com os seus compromissos, né? Porque a realidade local dela lhe diz isso. Então, existem por exemplo, escolas que estão cobrando 5 reais, mas tem aluno inadimplente. Aí, ele vai atrás de uma parceria aqui, uma parceria ali, para cobrir aquele recurso, tem gráfica que já está apoiando a escola, que ela está dando dinheiro para eles comprarem a apostila, que é a reprografia, né? Então através da parceria com o Cesupa, uma xerox hoje, para uma escola do interior, sai 0,023 centavos. É quase 3 centavos uma xerox, é só para ele manter o custo dele lá, então é um preço baixíssimo.

 

P/2- Baixíssimo.

 

R- Né? Eu não sei se em São Paulo a xerox está a 5 centavos, mas aqui em Belém não se encontra mais xerox a 5 centavos, então uma xerox para eles é quase 3 centavos, né? E eles economizam. Então o aluno que vai desistindo, olha outra economia, tem aluno que desiste por vários motivos, conseguiu emprego, vai embora, ou não quer mesmo estudar, então aquela apostila ele já segura, e quando vier o próximo curso, ele já não vai precisar solicitar 50 apostilas. Se 3 desistiram, ele já tem 3, então já são 47, né? Porque com as 3 dele soma 50, isso já é uma economia, já é dinheiro que ele não vai estar gastando ali. Você está entendendo, então? 

 

P/2- Então, quer dizer, conforme você está dizendo, a sustentabilidade, ela é uma questão de gestão.

 

R- Gestão.

 

P/2- Um, de planejamento?

 

R- Planejamento financeiro.

 

P/2- Dois, de gestão?

 

R- Exato.

 

P/2- E talvez, uma coisa também, seria a articulação de parcerias, né? 

 

R- Articulação de parcerias.

 

P/2- Esse seria o terceiro tripé, talvez, dessa sustentabilidade?

 

R- Porque a parceria possibilita isso, se eu tenho o comerciante que está investindo no papel, está dando uma resma de papel por mês. Então é, aqui em Belém está em média 11 reais, então é 11 reais que eu economizo e 11 reais é quase uma mensalidade para uma escola que está cobrando 15, mas para uma escola que está cobrando 10, já é uma mensalidade de um inadimplente e ainda economiza 1 real. Se é de 5 reais, ele está possibilitando que dois inadimplentes estudem e ainda está economizando 1 real. Você está entendendo? Então se tem um parceiro aqui que está dando caneta piloto, ele vai economizando, ao invés de estar gastando com a caneta piloto, ele está economizando e já vendo onde vai fazer o investimento, né? Que ele vai estar fazendo investimento comprando um mouse novo, que aquele deu defeito, as vezes eles ligam para a gente, o CDI tem e manda para ele o mouse, manda o teclado, né? Mas ele mostra sustentabilidade dele, para ele andar com as próprias pernas, então os trabalhos também, que entram recurso, fazer, digitar um currículo, cobrar um valor X, imprimir para comunidade.

 

P/2- Vocês têm casos de EICs que fazem isso?

 

R- Temos casos de EICs sim. Tem caso de EIC que está com Internet agora, então eles acessam, em Belém está mais ou menos 3 reais hora o comercial, para escolas eles cobram 1,50 real na escola. Então, a comunidade prefere ir na escola acessar que num outro local, que é muito mais barato, eu diria que já vem, que é para somar com o que entra das mensalidades para pagar o Velox, ou o provedor. Então é possível isso, que é recurso que vai entrando e quanto mais entrar é melhor para eles. Tem EIC que já conseguiu comprar computador, está investindo, tem EIC que tem o seu próprio uniforme. Tem EIC que consegue a cada um ano comprar um computador, cada ano comprar impressora. Porque eles têm que estar preparados, a qualquer momento pode dar problema no computador, e aí? Liga para o CDI: “CDI, vocês têm computador aí? ” “Olha, infelizmente nós não temos. ” Vai parar o trabalho? Não. Tem dinheiro em caixa? Então vamos comprar.

 

P/2- Agora essa sustentabilidade, ela não depende muito também, quer dizer, do quadro institucional em que está inserida uma EIC? Quer dizer, assim, se é uma organização mais estruturada, com mais estoque, com mais acúmulo, não uma...

 

R- Não vejo por esse lado. Porque existem escolas por exemplo que a entidade ela assume toda essa responsabilidade. Não, energia elétrica é por nossa conta, tinta da impressora é por nossa conta. Então, tudo que entra é lucro. 

 

P/2- É para ela?

 

R- Mas tem escola que não, o que entra, aquela sala de informática ali como é, tudo que entra ela paga. O exemplo que eu estou te dando da Providência, né, como outras que tem aí, tudo que é custeado naquela sala de informática, tudo que ela vai gastar ali, é ali. Ela tem o próprio registro dela, de energia elétrica, o telefone dela, né, tudo ali. Então, o que entra, ela paga. A entidade não arca com 1 centavo, e às vezes ela, ainda fazia doação para a entidade. É, e eu tenho tudo registrado por isso. E eu tinha um caixa, porque quando eu entrei como coordenador de projetos do CDI, comecei a trabalhar pelo CDI, eu tive que me afastar como coordenador da EIC, pela ética.

 

P/2- Certo, claro.

 

R- Então eu lembro que na época, eu deixei em caixa mais de 2 mil reais. Em caixa, né? Fora uma doação que a escola vinha fazendo para a paróquia, para os trabalhos sociais, para completar os projetos sociais da paróquia, ainda conseguia fazer essa doação. Então em caixa nós deixamos positivo mais de 2 mil reais, né? Tem escola aí, no interior, que está com 700 em caixa, está com mil reais, 300 reais, 200 reais, mas tem dinheiro em caixa, então isso demonstra sua sustentabilidade, que ela consegue pagar os seus custos e ter dinheiro em caixa. Pode dar uma pausinha? Até quando o monitor, né, porque a idéia é de que ela faça o investimento. Quanto mais ela investir na qualidade, melhor para ela. E a comunidade vai vendo isso e vai gostando.

 

P/2- Está bom, então vamos fazer uma pausinha agora?

 

R- E a gente retorna depois.

 

P/2- Está certo.

 

R- Eu acho que eu falei muito, né?

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