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História

Tudo a rigor

História de: Roberto Vicente Frizzo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/07/2005

Sinopse

Infância em São Paulo. Descrição da casa, do bairro, da cidade e dos costumes. Formação acadêmica. Inauguração do Frevo na Rua Oscar Freire e o projeto arquitetônico. Inovações nos produtos comercializados. Inauguração do Frevo e da casa de chá Augusto's. Início do trabalho com o padrasto. Aquisição de lanchonete e inauguração da loja Tudo para Rigor. Perfil do consumidor. Abertura de nova loja de aluguel de roupas e sociedade em agência de turismo. A abertura do Frevo no Shopping Iguatemi e perfil do consumidor. A Rua Augusta e a importância do bom atendimento.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO Meu nome é Roberto Vicente Frizzo. Nasci em São Paulo, capital, em 29 de maio de 1945. Meu pai, Vicente Frizzo, nasceu aqui em São Paulo. Minha mãe, Ruth Frizzo, nasceu em Campinas. SÃO PAULO ANTIGA – ACLIMAÇÃO Na infância morei na Aclimação. Era um bairro que já na ocasião reunia certas características: parecia uma cidade do interior, todo mundo se conhecia. Até os velórios eram em casa. Então você praticamente ia de casa em casa dizendo quem era quem, sabendo de tudo. No sentido de origem de bairro efetivamente e de hábitos de uma época, é justo dizer que eu sou da Aclimação. Naquele tempo tinha uma grande concentração de casas de uma classe média alta, ascendente, principalmente italianos, o pessoal da Mooca que, a bordo de um crescimento econômico, acabavam se transportando lá pra Aclimação. As avenidas eram largas, era um bairro moderno e perto do Centro. Tinha casas muito bonitas, casas grandes, mais ou menos como é o Morumbi hoje – num segundo tempo, anos depois, a burguesia acabou migrando pro Morumbi. A Aclimação foi um pouco fruto do mesmo processo numa época anterior. Tanto é que, a tentativa da prefeitura, na época, de resolver um pouco do transporte urbano fazendo micro-ônibus, os primeiros foram para a Aclimação. Os primeiros trólebus elétricos também foram pra Aclimação. E também o asfalto, a luz de mercúrio, o papa-fila: tudo o que vinha de novidade a prefeitura punha sempre na Aclimação. Também, ficava a 15 minutos do Centro. Na outra alça, ali pela Brahma, atingia-se a Paulista, até então um Centro que também estava emergente, começando ser a Paulista que é hoje. As mulheres usavam tailleur e os homens, paletó e gravata. Era uma outra São Paulo! Então a Aclimação era um estômago ali, ligado ao Centro Velho, como a Sé etc., e em minutos também estava ligado à parte alta da Paulista. Tinha também o Tênis Clube, que aglutinava. Tinha o Jardim da Aclimação. Eu só não cheguei a pegar o Zoológico, peguei o fim dele, mas também era um momento de área verde, de área lazer, estas incipientes até no próprio Ibirapuera. Na Aclimação aquilo já era uma característica. E as pessoas se conheciam! Era um tempo, não se pode esquecer, em que a pessoa saía de casa pra trabalhar de ônibus, tinha pouquíssimos automóveis na cidade. O cidadão trabalhava, na hora do almoço tomava o ônibus e vinha pra casa, almoçava com a família. Saía, tomava ônibus, voltava pro trabalho. Às 6 horas estava todo o mundo em casa. Então, era um bairro com muita característica de cidade do interior. GRAVAÇÃO DOS FILMES DO MAZZAROPI Nessa altura tinha um castelo, que era o castelo do Kowarick, do Lanifícios Kowarick. Era, efetivamente, uma quadra expressiva e um castelo. Quando moleque eu cheguei a testemunhar filmes do Mazzaropi gravados lá. Vi o Mazzaropi fazendo “Lago Polidoro”, filme em que ele era vendedor de algodão e de pipoca e salvou um menino de um atropelamento. Então a Aclimação também já era usada até como cenário de filmes. SÃO PAULO ANTIGA – ACLIMAÇÃO – CONDOMÍNIO KOWARICK Quando o conde Kowarick morreu, uma incorporadora comprou aquela área do castelo e construiu um conjunto de prédios em ferradura com uma quadra e playground. Foi uma das primeiras experiências desse tipo de moradia, até então tida como uma coisa moderna, uma coisa de primeiro mundo. Eram oito prédios e eu acabei me mudando pra lá. E o Kowarick acabou sendo uma ilha dentro da própria Aclimação, como se fossem duas cidades rivais do interior. Pra namorar uma menina do Kowarick, pra quem era de fora, tinha o mesmo processo de ser espancado como em qualquer cidade do interior, aquelas rivalidades. Então morar no Kowarick me deu outro momento de sociabilidade. INDÚSTRIA AUTOMOBILÍSTICA Nesta época estava começando também a indústria automobilística. Vieram muitos estrangeiros preparar a nossa mão-de-obra aqui: americanos para fazer a Ford e a Willys, franceses pra fazer a Simca. E quando viram aquele projeto de vida com piscina e tudo, coisa que eles estavam habituados porque era muito comum para eles, optaram por morar lá. SÃO PAULO ANTIGA – ACLIMAÇÃO – CONDOMÍNIO KOWARICK O Faria Lima, que foi prefeito de São Paulo, morou lá. O Jânio quadros ia jantar lá. Moravam muitos deputados, muitos cônsules, muito americano, dinamarqueses. Os estrangeiros chegavam e achavam ótimo aquilo tudo porque era uma proposta com a qual eles estavam habituados a viver. INFÂNCIA Isso fez a gente aprender inglês desde moleque. Eu tinha um amigo americano que o pai trabalhava na Willys. Além de a gente experimentar os primeiros Aero Willys e as primeiras peruas porque ele era meio piloto de prova. E a gente tinha um pacto: eu falava só em inglês com ele e ele me respondia só em português, uma forma dos dois se prepararem na língua um do outro. Também os primeiros namoros, os primeiros bailinhos, aconteciam lá. Todo sábado, no meio de 264 apartamentos, tinha festinha. Então eu conservo amigos de 30, 40 anos atrás porque foi uma coisa que me sedimentou muito. Tinha a missa no Santo Agostinho todo o domingo, o bailinho no sábado, o futebol direto ali na quadra e tudo isso marcou muito a minha infância. Posso dizer que consegui ter em São Paulo quase que uma infância de cidade do interior. Nessa altura eu estudava no Mackenzie e descia a Aclimação à pé. Naquela época uma criança de 11, 12 anos, podia ter a sua chave de casa, ir pra escola e tomar ônibus sozinha. A cidade não era violenta como é hoje. SÃO PAULO ANTIGA – ACLIMAÇÃO A sede do Comitê do PSP, do velho Adhemar de Barros, ficava ali na Avenida Aclimação. E você era recebido! Eu, moleque, chegava lá: "Fica aí, e tal". Quer dizer, tinha um carinho porque era uma outra cidade. Eles queriam mesmo é que a gente chegasse em casa e dissesse que aquilo era ótimo, que tinha sido super bem recebido no comitê, para provocar os votos dos pais até. Então era uma cidade que dava pra você ter esse tipo de cuidado com todo o mundo. A migração ainda era uma coisa muito contida na Aclimação. E o bairro era sempre muito bem servido de infraestrutura. Eu tinha telefone e, na época, deram o apelido de gincana. Isso porque você tinha que tirar do gancho e ficar três horas esperando a telefonista te atender. INFÂNCIA Vi a primeira transmissão de televisão: a TV Tupi inaugurando com Frei Mogica. Eu era moleque e, na rua de casa, um vizinho tinha uma televisão. Minha avó e meus tios também moravam lá na Aclimação, então era a família toda ali junto, com acesso a pé de uma casa para outra. SÃO PAULO ANTIGA – ACLIMAÇÃO Também tinha uma boa feira ali na Aclimação, cheia de excelentes produtos: a boa manteiga, a boa azeitona e aquela freguesia. Depois da feira, no sábado, eu saía e era tudo paralelepípedo. Então eu achava muitas moedas que as mulheres, na hora de fazer o troco, deixavam cair ali no meio dos paralelepípedos. E assim, eu e a molecada salvávamos nosso sorvete, nosso doce na padaria. Não tínhamos uma vida abundante econômica e financeiramente, mas na verdade, mesmo com pouco, todo o mundo conseguia viver dentro de um padrão. Até porque, por exemplo, um homem tinha apenas um terno e ele não precisava de mais do que um. Ele se formava, casava e era enterrado com aquele terno (risos). A moda não tinha esse dinamismo de hoje, do tipo: "Você ainda está com essa sandalinha do ano passado, que não tem a fivelinha XPTO? Que absurdo! Veja sua vizinha, que sandália linda a dela!" Naquele tempo você tinha as coisas que precisava e elas eram altamente duráveis! As relações de família também eram mais duráveis. Um enterro, por exemplo, era uma tragédia! Hoje a viúva vai de bermuda vermelha: "Pô, mas tá demorando, vou perder o jantar não sei onde..." (risos). Naquele tempo, pra tirar um caixão de dentro de uma casa era uma luta! A viúva agarrava, todo mundo se descabelava. Chorava até quem não tinha nada a ver com isso. Mas também era uma coisa meio pactuada que aquilo tinha que ser um drama incrível. De repente o pessoal começou a ter moto, depois automóvel. A moçadinha toda tinha automóvel. Não era um bairro de fortunas, apesar de existirem grandes fortunas que gostavam do bairro e tinham casas bonitams. Era um bairro que tinha uma coisa homogênea, não tinha grandes disparidades de classe social. Quem não tinha fortuna tinha pelo menos cargo, prestígio, como uma marca mesmo, um carimbo a nível de vida. Então a Aclimação foi um bairro que me marcou porque eu tive tudo isso de sociológico que estava acontecendo. Tenho amigos até hoje e a gente faz reuniões da turma, um vai convidando o outro. Outro dia mesmo teve uma super reunião com um bando da Aclimação. EDUCAÇÃO O Mackenzie estava ainda muito próximo da Igreja, que é a entidade mantenedora. Eu comecei na Escolinha Americana, que era uma gracinha, com um prédio todo em estilo colonial inglês, todo de tijolinho. A miss Mary, a diretora, fazia pausa pra ir pro culto e ia todo o mundo. No culto, Mr. Peter Baker, presidente do Mackenzie na época, dizia: "Por que se pegarmos uma pedra e soltarmos ela cai na chão?" O culto era de igreja protestante e cantávamos muito hino americano. Tínhamos aula de caligrafia, na época. Se pegar toda uma geração de mackenzistas da minha geração, eu reconheço pela letra. Às vezes eu estou numa das lojas em algum dos meus negócios e vejo o cara preenchendo uma ficha: "Você fez Mackenzie?" (risos). A letra "q", por exemplo, parecia um número dois, era um "q" aberto. Eu tinha feito o primário no Meira, lá na Padre João Manuel onde hoje é o prédio da Sabesp, do lado do Lávine. Eu terminei meu primário no Meira, e fui pro Mackenzie na quinta série da admissão, então só fiz um ano de Escolinha Americana, por isso eu não tenho essa caligrafia de lá. Mas quem foi alfabetizado naquela fase no Mackenzie, tem uma letra inconfundível. De lá fui pro ginásio do Mackenzie, onde eu fiz até segunda série, e depois fui pro Paes Leme, que era uma experiência também dita como inovadora, para a época. O Paes Leme ficava numa esquina da Rua Augusta com a Paulista, num prédio supermoderno pra época onde hoje é o Banco Safra. Tinha piscina de água quente e orientadora psicológica, cheia de modismos e de modernismos, o que acabou transformando o Paes Leme num reduto de moleque problema de outros colégios. Isso porque eles tinham feito aquele investimento, tinham feito uma escola grande ali naquela esquina e acabaram topando aceitar matrícula de todo o mundo. E lógico que, a bordo disso, todo pai que não sabia mais o que fazer com seu diabrete, enfiou lá no Paes Leme. Mas era uma escola muito gostosa, também. O Wilsinho Fittipaldi era meu colega de classe. O Emerson ia com o carro do pai buscar o irmão, ainda menor e sem carta, ali na esquina de manhã. Então foi uma escola gostosa de conviver, mais liberal, mais aberta. Além do mais pra mim, que vinha do Mackenzie meio que prensado ainda naquele conservadorismo da própria igreja. Então, pegar uma escola mais solta e com os famosos da época...(risos). Não só teve a coincidência do Wilsinho ter sido colega de classe, como também o caso de um professor que, na época, acabou matando o namorado de uma aluna. Ele era meu professor, Lonoto, um caso extremamente famoso. O casal foi preso e foram absolvidos os dois, mas acabaram morrendo de câncer. Depois a família vendeu o colégio pro Safra. Então eu terminei meu ginásio no Paes Leme e voltei pro Mackenzie pra fazer o científico, como era naquele tempo, mas só cursei um ano porque obviamente eu não tinha nenhuma tendência pra exatas e me compliquei todo. Eu não entendia absolutamente nada do que falavam de química e física. Pra mim, tudo aquilo era uma bruxaria. Então saí de lá de novo e fui fazer o colegial clássico. Anos depois voltei pro Mackenzie na Faculdade de Direito. Tempos depois eu ainda entrei na USP, em Administração, e depois fiz minha pós-graduação na PUC. Aí eu lecionei na PUC e então voltei pro comércio, que era uma coisa que também me atraía. E era meio incompatível querer fazer uma carreira universitária e, ao mesmo tempo, tocar negócios. Para uma carreira universitária você tem que se abstrair de tudo, e estudar mestrado, e doutorado, e livre-docência, e tese. Tem que se trancar em livro. É até muito esquisito pensar que, com o meu temperamento, eu ainda ter feito pós-graduação, ter dado aula. Mas, como todo o geminiano, eu tenho que estar no mínimo tocando uns cinco instrumentos ao mesmo tempo sob pena morrer de tédio (risos). FAMÍLIA – SEPARAÇÃO DOS PAIS Meus pais se separaram quando eu tinha uns quatro anos de idade e, depois de algum tempo, minha mãe se casou de novo. E isso, na época, era uma coisa meio de marciano, ou seja, mulher desquitada era um marciano, verde e com antena. E filho de desquitada, marcianinho! O mundo não estava muito que preparado pra nada disso. Hoje, por exemplo, eu vejo minhas filhas dizendo: "Ah, fulana passou o fim de semana com o pai, agora não está morando com o pai, foi morar com a mãe..." Teve uma época, inclusive, que esse tipo comentário era tão forte lá em casa que eu fale: "Se vocês quiserem a gente se separa! Desculpe se a gente está atrapalhando a educação de vocês estando casado, se a gente está transformando vocês num problema. Não precisa ir pro analista, a gente pode fingir que se separou, vocês podem dizer pra todo o mundo que a gente também separou!" (risos). Porque hoje isso é comum à grande maioria quase, mas naquele tempo eu tinha a nítida impressão de que era só eu. Então, em dia das mães: "Peça para o papai dinheiro para trazer rosas para sua mãe." Eu ia pedir pra quem? Ninguém dizia pra quem eu tinha que pedir. Então isso era um alto grilo, uma coisa mal resolvida naquele momento. Depois minha mãe acabou conhecendo o meu padrasto, se casaram e, apesar das resistências minha e dele, uma hora nós acabamos nos conquistando e hoje, na verdade, ele é meu pai. Estamos juntos há 40 anos. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL DO PAI – BANCO Meu padrasto trabalhava no Banco Comércio e Indústria e começou um projeto, naquela altura, de construir um posto de gasolina, ele e o sócio. O posto dele seria naquele triângulo onde é um jardim hoje, na Ipiranga com a Araújo. Ele conseguiu a liberação da tal construção com o prefeito – acho que era o Paulo Lauro. Quando o posto estava com um metro do chão e ele enterrando tudo o que ele não tinha ali, a obra foi toda embargada e eles perderam tudo. Então ele ficou como uma pessoa que hoje ganha um salário mínimo, 70 reais, mas devendo 2 mil. Ele veio do interior e morava numa pensão. Mas teve que mudar de lá porque ele gostava de fumar e, morando ali, precisava tomar duas conduções e não poderia comprar cigarro. Então ele teve que abrir mão da pensão predileta e ir pra uma pensão pior pra conseguir continuar fumando. Os colegas dele, no banco, diziam que cortavam o fósforo no meio com gillete pra acender duas vezes com o mesmo palito de fósforo. Ou seja, eles estavam todos vendendo o almoço pra comprar a janta. Então, ele não era uma pessoa de posses. E agora tinha ficado com essa dívida que comprometia empréstimos, quantias etc. Então ele conseguiu uma autorização no banco, no Comércio e Indústria, do Quartim Barbosa, naquele tempo que o banqueiro ficava no banco: "Boa tarde, como vai!", tempo em que banqueiro te recebia. Então ele conseguiu com eles uma autorização pra entrar e sair a hora que ele quisesse, desde que o serviço dele ficasse pronto. E, que coisa maluca, o patrão concordou com aquilo. Dessa forma ele fazia conciliação de cheque do interior, naquele tempo, ticando aquelas fitas quilométricas. Depois, pra conseguir ter um extra e saldar os compromissos que ele teve com aquele fracasso, ele começou a trabalhar com construção com um amigo engenheiro. A companhia tinha engenheiros que faziam os projetos e ele acompanhava, fazia. O cara assinava a planta e ele ia se virando. Aí teve uma greve, ataque de CUT da época, ele era do Sindicato dos Bancários foi mandado embora. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL DO PAI – BAR DAS FOLHAS Ele então montou a torrefação, ali pela Praça Princesa Isabel, com um tio que era prefeito lá de Taquaritinga. Esse tio tinha o café lá e mandava pra cá. Meu padrasto entrou como sócio de capital-trabalho. Aí a gente andava de Kombi e todo mundo cheirava café o tempo todo. Quantas e quantas noites eu não vim com eles pra fazer as conferências das contas. E aquilo tudo era no braço. Eu ficava brincando naquela sacaria de café que, pra mim, era um mundo meio mágico. Aquilo de noite, aquela praça, tudo tinha uma coisa meio de bruxa. Ficar pulando por aqueles sacos, pilhas irregulares, tinha uma coisa meio de castelo, de forte, de fortaleza, altas viagens na minha imaginação. Com essa torrefação ele fornecia pro bar interno das Folhas, ali na Barão de Limeira, que tinha um concessionário, o Café Pioneiro: "De janeiro a janeiro o Café Pioneiro é sempre o primeiro." E ele fornecia o tal do Café Pioneiro pras Folhas. Aí o concessionário saiu porque eles não estavam contentes com o serviço do camarada, e ofereceram pra ele. Acho que viram o empenho dele de trabalhar, a presença dele nos negócios. Ele falou: "Bom, não sou do ramo. Ficar no meio de jornalistas... Aquilo é uma raça já contestatória, de briga, já tem aquela energia, já tem aquele pique da própria profissão". Mas aceitou. Deu uma reformada na lanchonete que ficava onde era um dos andares ali do prédio das Folhas, e esta foi a primeira experiência dele no ramo de restaurante. E eu ficava com ele noites e noites a vistar fichas de café, uma por uma. Porque era um começo difícil e estava se jogando tudo ou nada. Então, tinha mesmo que se cuidar e ficar assinando fichinha de café pra ninguém te roubar, pra não ser usada duas vezes. Era tudo muito empírico, a coisa era feita ali no sofrimento, ali no errar e fazer de novo. O Bar das Folhas foi indo e ele comprou um outro que tinha na região das moças de vida difícil. Chamava “O Bairrada”. Eu era um molecote e lembro que empurrou-se um armário daqueles, de estantes, que punham garrafa, todo de madeira. E aquilo era uma imundície, dava pavor de ficar perto! Em outra reforma, outro ajuste naquele bar, ele levou os funcionários do Folhas para ajudar. E os funcionários que tinham se destacado de alguma maneira lá ele levou pra gerenciar aquele outro negócio. Ele então acabou saindo da Folha e fechou com um sócio, um amigo dele de juventude, de cursinho, que era de uma família rica, ao contrário dele. Foi então que surgiu a ideia de montar uma casa na Zona Sul que, nessa época, estava começando a acontecer. SÃO PAULO ANTIGA – ZONA SUL E CENTRO Tudo de chique ou que você precisava ir, como um teatro, era tudo no centro da cidade: Barão, Ipiranga, São João, cinema, Art Palácio, Cine Ipiranga, Cine Paissandu. E não só lazer, como também os bons restaurantes. Tudo ficava no Centro. Mas já tinha alguma coisa, meio incipiente ainda, ali pro lado da Alameda Santos, perto da Cubatão. Ali onde já tinha o Miami, o Bambi, meio que começando alguns restaurantes de comida árabe na região. Talvez já tivesse alguma coisa também ali na Plamplona, como aquela pizzaria Camelo, mas não posso afirmar. Então as pessoas começaram a perceber que quem quisesse comer e estivesse ali no Jardim Paulista, Jardim Paulistano, Jardim América, todo o mundo tinha que se deslocar até o Centro pra fazer um programa e pra poder comer. Então começaram a surgir esse locais na Zona Sul, para que as pessoas não precisassem se descolar até o Centro. A Rua Augusta ainda era muito residencial. Tinha bonde, paralelepípedo e muita casa de gente morando mesmo, mas já havendo alguma transformação, como o surgimento de algumas lojinhas. Foi então que surgiu o prédio do Cine Paulista, naquela esquina com a Oscar Freire. Nesse prédio nasceu o Hot Dog. Ao lado, tinha uma doceria, Caramel, que era muito bonita, com balcões de madeira entalhada que pareciam gôndolas venezianas. Os caramelos vinham de Niterói, de Petrópolis, eram famosos. Uma barbearia também se instalou ali. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL DO PAI – FREVO Então um dia ele alugou aquela loja pra fazer o Frevo e nos levou pra ver. A impressão que eu tenho é que era um domingo, aquela coisa quando ninguém está trabalhando e ninguém tem aula. Você olhava pela rua, um monte de casas antigas ali naquela ladeirona da Augusta. Bonde passando e naquela esquina com a Oscar Freire, um deserto! Não tinha nada, só aquele prédio novinho que aguardava a inauguração do cinema. Era desolador. Dava uma nítida impressão de suicídio: o cara querer instalar uma lanchonete que não era nem na rua onde passava todo mundo, era na viradinha... Minha mãe era uma pessoa sempre muito preocupada. Ela era uma mulher muito valente pra tudo, mas pra se instalar a nível de comércio ela era muito medrosa. Tanto é que ela nunca quis saber de nada a respeito. Ela olhou aquilo: "Ah, que gozado, um armazém!" Abriu a porta, entramos: "O que é que o senhor vai fazer aqui?" "Vou fazer uma lanchonete." E aí começaram aquele projeto. O engraçado é que na época era Bull-Dog, Dog-Dog, Yorksheirer. A ideia dos caras era usar uma série de coisas americanas e meu padrasto, que nessa altura, sempre foi meio nacionalista: "Por que essa tendência de em tudo ter que colocar nome com coisa de gringo? Tem que ter o nome de uma coisa bem brasileira. Por que não um nome bem brasileiro?" E aí surgiu a história do Frevo. O decorador que cuidou da parte arquitetônica – eu não posso afirmar se ele era um arquiteto – tinha uma loja de instalações comerciais e decoração, acho que em Santos, chamada Cobal. A ideia era aproveitar o nome e fazer o que os americanos chamam de Restaurant Theme, ou seja, transformar o ambiente do restaurante naquilo que tem relação com o nome. E eu tenho o atrevimento de afirmar que talvez o Frevo tenha sido a primeira experiência nesse sentido, a primeira casa tema aqui em São Paulo. O Frevo era uma palhocinha, uma casinha. Assim como os americanos fazem lá: Victory Station, você entra e é um trem ou um pedaço da estação. Naquela altura estava chegando no Brasil, ou tinha chegado há pouco tempo, o Odriozola, um artista plástico espanhol que foi Sala da Bienal e ganhou milhões de prêmios. E aqueles bonecos que tem na parede do Frevo, aquelas figuras dançando em metal e tudo o mais, foram feitos pelo Odriozola, por isso que eles têm uma graça. E eles resistem bem! Nestes quase 40 anos do Frevo eles foram classificados como "Oh, que sucesso" até "puxa, que coisa cafona" ou ainda "Ó, que kitsch". Pode ter mudado de nome, mas você olha pro boneco e ele não te cansa. E então com bonecos, palmeiras, coqueiros, casinhas de caboclos, sapé, esteirinha... Foi com essa decoração que o Frevo abriu. PARCERIA COM A KIBON A essa altura, a Kibon estava trazendo novas maneiras de tentar comercializar o seu sorvete, que não fossem com aqueles carrinhos que andavam por São Paulo, com aqueles caras todos de branco. Eles queriam aumentar o consumo do sorvete, mas entrando numa linha de frapê, milk shake, sundae, banana split etc. Ou seja, queriam mostrar para o consumidor que aquele sorvete podia ser consumido de outras maneiras que não só picolés. Então eles lançaram a linha tijolo: Sorvex Kibon. Em alguma casas que estavam abrindo na ocasião eles davam a geladeira, davam os sorvetes que começaram a vir naquelas embalagens, cartuchos, latas, receituários. E foi um confeiteiro suíço pra copa do Frevo. Ele usava aquele chapéu de chefe de cozinha e aquele receituário da Kibon, com mapas e diagramas pra fazer. Como confeiteiro, ele trouxe alguns cacoetes com ele. Um deles era a história do pão-de-ló. Quando ele tirava o bolo da forma, sempre sobrava aquela borda que era excluída na hora de acertar. O confeiteiro gostava de esfarelar aquilo e fazer uma farofa para decorar as taças. Mas ao se misturar aquilo com a calda quente ou o marshmelow, a farofa encharcava, empapava. Aí meu pai sacou a história: "Ter uma farofa pode ser uma coisa legal, mas não é isso ainda. Teria que ser uma farofa que resistisse melhor a essa imersão no meio desses cremes todos. E seria legal ser uma farofa com coisas brasileiras, com alguma semente brasileira, alguma coisa brasileira." Aí ficaram meses xeretando fórmulas de uma farofa ideal e hoje temos o clássico “O Capricho” do Frevo, com aquela nossa farofa famosa. A receita é um segredo militar! Nem meus filhos e minha mulher sabem. É meio fórmula da Coca-Cola (risos). O beirute é a coluna sobre a qual repousa a fama da casa. Na verdade posso ter a ousadia de dizer que fizemos a primeira farofa, mas não posso dizer que fizemos o primeiro Beirute porque não foi. CONCORRÊNCIA Na verdade tinha o Bambi, do outro lado da rua, que era uma casinha de coisas sírias, esfihas. Então, algum dia alguém chegou e pediu: "Mas não dá pra fazer um bauru nesse pão, aí?" Porque o beirute tradicional, ortodoxo, era na verdade um bauru feito no pão sírio. Então, isso realmente nasceu lá. Mas o cara não tinha muita ideia disso. Ele simplesmente fez um bauru no pão que ele tinha lá e virou uma tradição. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL DO PAI – FREVO Nós depois ampliamos muito o cardápio de beirutes, como o beirute salada. Acho que hoje dificilmente alguém tenha a coleção de beirutes que nós desfilamos na passarela da alimentação. Então todo o pessoal chique ia lá comer. E outra coisa que o Frevo foi um pouco inédito foi no chamado PF. O serviço não era à francesa, então começaram a ir aquelas madames de casacos de peles e comer "PF". E o PF, na época, era uma coisa depreciativa: ver aquele prato pronto, prato feito, de cidade. E lá vinham os grã-finos comerem um strogonoff "PF" (risos). Tinha filé à cubana, filé com mostarda, mas tudo vindo pronto no teu prato, como um PF colocado na frente de um trabalhador. E era uma mentalidade na época: você ia pro teatro, saía chiquérrimo e depois ia comer fora, que era considerado um programa chique. Não era essa coisa de hoje que você come fora por praticidade ou por falta de tempo: era um programa! ABERTURA DA SEGUNDA LOJA Uns dois anos depois nasceu o Frevo II, do outro lado da Paulista, na Rua Augusta. Na verdade uma quadra abaixo da Paulista, quase esquina com a Luís Coelho. E ele nasceu de uma proposta um pouco diferente. Era o que estava acontecendo com o Hot-Dog, de se comer salsicha na caixinha, batatinhas fritas, hamburger, cheeseburger e o cheese-especial, que era o cheeseburger com o tal do molhinho dentro. Mas era em pé! As pessoas comiam em pé. Então a ideia foi: por que não pegarmos e fazermos a mesma coisa com um serviço de banquinhos? Balcão longo, aquela parte de copa pra ampliar um pouquinho esses sucos e refrigerantes, fazer então um milk shake... Então, do modelo do Frevo da Oscar Freire foi feito na Augusta a parte da copa, alguma coisa de cozinha muito mais enxuta e umas mesinhas em cima. Mas era uma coisinha muito contida. Embaixo um balcão. A ideia era ter uma casa como o Hot-Dog, só que pra pessoa comer sentada. E eu também enxergo isso como um verdadeiro antecessor dessas casas que existem hoje como Joaquim's e outras casas de hamburger e lanchonetes. Então essa história de comer aquilo em pratinhos, mini pratinhos e ficar bem à vontade no balcão, naquele tempo não acontecia e o Frevinho, como chamamos o Frevo II, foi provavelmente a primeira experiência assim. As coisas que a gente fazia era muito de intuição de negócios, sem pretensão, mas que acabaram sendo formadoras de uma escola, de uma tendência e outras casas seguiram. ABERTURA DA TERCEIRA LOJA E num terceiro momento a gente acabou montando mais uma casa na Augusta, entre as outras duas. Na verdade mais próxima do Frevo da Oscar Freire, que foi o Augusto's. Era um salão muito grande. No Augusto's ideia era fazer um Fasano confeitaria, que existia na época, não o Fasano que a gente vê hoje. Na época o Fasano era uma casa de chá, serviço de prata, bolos, tortas, onde as madames iam tomar o seu chá de tarde. E queríamos isso lá na Rua Augusta. Mas furou. Quer dizer, a casa ficou linda, um sucesso, foi muito engraçado. Mas depois de um tempo furou por causa de localização, por causa da escada que descia... Alguns erros intrínsecos do negócio. Então resolvemos transformar essa casa no Galpão, que era uma churrascaria. O Rodeio estava começando muito bem lá, assim como o Dinho's, o Fuad . O Flamingo que ele tinha ali entre o Paes Leme e o Frevinho tinha sido vendido pelo Dinho's. Eles acabaram comprando uma casa ali na Alameda Santos, onde é o Dinho's hoje. E de conversas meu pai disse pra ele: "Você tem espaço aqui que eu não tenho lá. Você pode trazer a churrasqueira pra frente, sua grelha na cara do público. Faça isso, trás sua grelha pra frente, isso comercialmente vai ser importante." Nós não tínhamos como fazer isso porque a loja do Galpão era uma loja que você descia uma escada pra entrar, então não tinha uma sobreloja e não teria como assar a carne ali na frente. Mas a ideia do meu pai foi acatada e ele acabou fazendo uma coisa que durante muito tempo caracterizou as churrascarias: todo o mundo põe a grelha logo na entrada. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL – FREVO É nesse momento que eu entro pra trabalhar com o meu pai, começando com um estágio no Frevo. Eu tinha meio que resolvido largar de estudar e ia trabalhar num outro lugar mas ele disse:, "Bobagem você ir. Vamos trabalhar juntos!." Aí eu comecei no Frevo. Acordava logo cedinho e lá ia eu provar o molho ao sugo logo às 7 horas da manhã. Todo mundo imagina que deva ser uma coisa fantástica, mas você tomar o seu café da manhã e depois tomar uma colherada de molho ao sugo pra saber se está legal... E fazia outras coisas como cronometrar o tempo de saída de sanduíche, ou melho, o tempo do pedido do cliente até a comida chegar na mesa. E sempre com aquelas coisas de pai e filho. Quando eu estava lá, chegava no tempo. Se ele encostasse lá eventualmente na hora do almoço, atrasava tudo porque sempre na hora que está quem não devia é que os problemas acontecem. E fui aprendendo muita coisa nessa época. Depois fizemos uma reforma no Frevinho e foi quando resolvemos acabar com esse esquema de balcão embaixo. Abaixamos aquele teto e começamos a aproximar mais do tema do Frevo da Oscar Freire, como igualar os cardápios. Eu participei ativamente dessa reforma, chegando até a ir buscar aqueles eucaliptos, comprar coisas... Fiquei muito envolvido com a obra. E quando terminou, era eu que tomava conta. Meu pai é engraçado: quando te entrega, entrega mesmo! Ele chama a gerência, e fala: “De hoje em diante é com ele.”. E se os caras forem perguntar alguma coisa pra ele, ele fala: "Eu não disse que é com ele? Digam para ele." Isso é curioso porque ele é um cara que faz aquilo com muito carinho, com muita dedicação e tem uma condição de entregar infernal pro meu gosto de moleque, na época. Porque eu comecei a contestar umas coisas no Galpão e ele falou: "Ótimo, de amanhã em diante ficas com o Galpão também, tomas conta de tudo!". TRAJETÓRIA PROFISSIONAL – GALPÃO Então eu fiquei um pouco no Galpão e já tinha feito esse estágio lá pelo Frevo. E eles não perdoavam: ligavam 7 horas da manhã no domingo pra dizer que o leite não tinha sido entregue, sendo que eu tinha ido dormir às 6. E eu tinha que sair! "A Granja taí?", que era aquele litro de leite tipo A, o litrão com um beição, que vinha com aquela cartolina, amarelinho. Pra você tirar o leite tinha dois dedos de gordura, era uma coisa! Um leite delicioso. "A Granja taí?" "Não, vai na Casa Branca". Ficava a 300 metros do Frevo, mas eles me faziam sair da Aclimação pra ir buscar um daqueles engradados de ferro com os litros de leite. Era uma judiação! Era pra tomar conta, vai tomar conta! Então eu fiz um estágio lá também pelo Galpão, tinha feito aquela reforma no Frevinho e esses foram o meu primeiro mergulho nos negócios. EDUCAÇÃO – PSICOSSOCIOLOGIA E DIREITO Depois voltei a estudar e me afastei daquilo tudo. Entrei na faculdade, estudei fora. Fiz psicossociologia na Sorbonne, voltei, peguei Paris em 67/68, Cohn-Bendit, toda aquela universidade ocupada, todo aquele conflito de estudante com polícia. Peguei uma fase bonita até, tratando-se de fato histórico, que foi todo aquele movimento revolucionário estudantil francês. Voltei bonzinho e fui estudar na Faculdade de Direito. Então um dia, com versando com meu pai num domingo livre, em casa... Eu sou filho único, então, só nós três ali meio que morgando, começou essa história de negócio pra lá, negócio pra cá: "Esse negócio de ficar rico é um negócio absolutamente burro, qualquer um fica, é um problema só de mentalizar nesse sentido de fazer um esforço..." Aí ficamos meio nessa discussão e no fim eu acabei saindo desse domingo pra montar uma lanchonete. Quem mandou puxar assunto? TRAJETÓRIA PROFISSIONAL – DOGÃO E fui montar uma lanchonete no Centro, ali perto do Fórum, no comecinho da Conselheiro Furtado. Fiz também com um projeto do Sílvio Openhart. Era uma lanchonete no centro da cidade, mas com cara de Zona Sul. Aço, pedra mineira, o projeto era uma gracinha. Assim fiz o Dogão, que foi inaugurado mais ou menos em 1970. Foi uma coisa muito gratificante durante todo o período em que estive lá, até o momento que eu acabei me desfazendo porque não tinha mais nada a ver com o meu programa de vida. Certa vez tinha uma festa a rigor. Minha mãe queria ir, mas meu pai não. Então ela foi alugar um smoking pra ele numa locadora que tinha ali pela Tietê. Pra tirar as medidas, ela levou um terno dele. Então ela conseguiu convencê-lo a ir na festa com o tal do smoking. Na devolução, ela falou pra ele: "Pelo menos você vai pra Augusta, teus negócios são pra lá, eu estou aqui na Aclimação,. Passa lá pela Tietê e deixa, pelo menos devolve." E ele foi devolver. Naquele tempo em que ele ficou ali pra devolver, ficou observando pessoas devolvendo e pessoas retirando. Ele deu uma somada, viu a tabela de preços, fez uma média, multiplicou pelas cabeças e pensou: "Sabe que isto pode ser um bom negócio?" E começou a puxar o assunto com o cara que trabalhava lá: "O senhor que é o dono?" "Não, sou empregado." "O negócio aqui é bom, tem sempre esse movimento?" Eles não vendiam nada, era uma tinturaria que tinha se transformado numa locadora meio por acidente. E com roupa tudo comprada ali na Estação da Luz: roupa velha, toda usada. Era o esquema da época, não estavam fazendo nada certo ou errado: estavam fazendo o que eles estavam fazendo! Não vendiam camisa, gravata, nada. Os caras tinham uma meia dúzia de gravatas prateadas pra quebrar um galho de quem era padrinho de casamento. "O senhor quer almoçar comigo um dia desses pra nós falarmos mais à vontade?" Ele acabou marcando um encontro com um dos funcionários de lá e depois veio pra mim com essa história de alugar roupas: "O homem está querendo vender lá." Eu achei meio pândega, a princípio, porque era uma coisa estranha, né? E ele falou: "Vamos comprar essa loja desse cara aí. Comprar pra você." Eu já estava com a minha lanchonete lá, bem quieto. Mas já estava noivinho, pensando em casar... Eu praticamente inaugurei o Dogão e fiquei noivo em setembro de 70. Então fomos lá falar com o proprietário na ocasião, que pediu um preço absurdo. Era aquele modelo "quero vender mas não quero". Se tem gente querendo saber quanto vale as suas coisas, as coisas estão sempre meio à venda, mas não estão de fato. E nós continuamos a desenvolver a ideia. Eu fui pro carnaval no Rio, despedida de solteiro porque eu ia casar no ano seguinte, peguei meu smoking e saí pra comprar uma camisa, uma gravata bonita. Não achei nada no comércio e fui trocando ideias com ele: "Você não acha que uma casa dessas tinha que ter uma super seção de vendas, com coisas incríveis, com borboletas, trazer novidades?" Aí viajamos, fomos ver fora, vi Casa Martins em Buenos Aires, e Mosan Broden em Londres, e era tudo meio ruim: antigas, tradicionais, mas sem nenhum toque de contemporâneo na história. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL – TUDO PARA RIGOR Aí começamos a procurar um ponto e surgiu a história da Melo Alves, que era uma rua meio próxima da Rebouças, próxima da Augusta. Porque tinha um hábito: o cara ia ter um alto constrangimento de ser visto entrando numa loja de aluguel de roupa. Esse era o ponto do qual a gente partia. Então tinha que ser um lugar central, de fácil acesso, mas não que mostrasse que o cidadão estava sendo visto alugando roupa. Pedimos o primeiro projeto para o João Grass, que também era um super artista plástico, prêmio Bienal etc.. Era ele quem tinha feito o projeto da Old England, esquina da Augusta, que era todo clássico, inglês. Então ele fez um projeto pra nós meio naquele estilo, o que nos mostrou que, comercialmente, não seria legal. Seria inibitório pra uma classe menos favorecida chegar lá e encontrar uma Old England pra alugar roupa. Então pegamos o Sílvio Openhart de novo, que fez um projeto mais enxuto e mais moderno pra casa e compramos um imóvel na Melo Alves, que era uma casa de uma família que estava se mudando. A Melo Alves ainda era basicamente de casas. A essa altura peguei um escritório de artes pra fazer todo o desenvolvimento do logo, toda a papelaria, todas as notas fiscais, fichas... Tudo feito com um certo cuidado. Até campanha no jornal feita com um certo suspense: "Tudo para rigor, o que será?" Uma coisa assim meio de manutenção de curiosidade por um tempo. Então foi uma loja que foi feita com todo o investimento que tinha direito e com roupa toda nova e com uma lavanderia. Montamos uma lavanderia completa, uma alfaiataria completa e um estoque de roupa ridículo em termos de números Se formos pensar no que eu tenho hoje, mas que na época já era uma ousadia perto do que os outros tinham. Inauguramos em maio de 1971 uma casa que abriu caminho pra tudo o que veio depois. É difícil você passar num canto que não tenha uma loja de aluguel de roupa. Na verdade essa nova visão da loja de aluguel de roupa começou com a Tudo para Rigor. Por fim acabamos comprando o terreno em volta ali e ampliamos o estacionamento, que já estava ficando infernal. A loja foi inaugurada em maio e em junho eu me casei. Aí já entrei como sócio. Saí um pouco do restaurante, deixei lá os sócios-gerentes, o que talvez tenha sido outra coisa em que a gente também foi pioneiro: a distribuição do lucro entre os funcionários. Isso era um coisa que vinha meio em cima dos sonhos socialistas do meu pai, desde aquele tempo do sindicato que ele manteve a pureza disso tudo e coisas nas quais ele acredita realmente até hoje. Então, todos os nossos gerentes são participantes do resultado da firma. É um pessoal que realmente veste a camisa, é um pessoal que é dono, tão dono quanto a gente. Muitos deles donos mesmo, com contrato social e tudo. Então tinha o time lá jogando, estava tudo redondinho, de vez em quando você ia lá, acertava uma coisinha ou outra, um detalhe, mas a coisa estava andando. E nós fomos pra experiência da roupa onde ficamos. Mas aí fomos apanhar tudo de novo... PRODUTOS Ninguém nunca tinha mexido com roupa: acertar sistema de medidas, acertar sistema pra tudo aquilo, mapear aquilo tudo. E o que aconteceu:? Eu, como aluguei, abri a loja e casei 30 dias depois, zarpei uns 60 dias de lua-de-mel. E tudo aquilo ficou caótico! Porque se a gente esperava um movimento de 10 clientes, vieram 100! Então, tudo o que eu tinha comprado pra boutique, como abotoadura, camisa, suspensórios, etc, achando que ía demorar 180 dias pra vender, vendeu em 15! E a indústria não tinha muita condição, na época, de entregar camisa rapidinho. Tudo ia demorar 40 dias. Então foi ficando meio caótico. As roupas que nós achamos: "Imagine, que exagero! Nós temos três vezes mais roupa que os outros", acabou em minutos. Quer dizer, o consumidor percebeu que tinha encontrado realmente uma loja com roupas todas novas, super bem instalada, limpa, com lavanderia e uma máquina bactericida que eu fiquei desenvolvendo junto com um cientista maluco que eu conheci na ocasião (risos). Era uma coisa meio que por aspersão do líquido em forma gasosa, criamos uma máquina bactericida de largo espectro bactericida pra toda a roupa que voltava da locação. Isso porque nós tínhamos que vencer todas as resistências que eventualmente o consumidor tivesse pra esse hábito novo de alugar a roupa. E realmente está aí. CLIENTES Hoje a Tudo para Rigor é grife. Eu tive uma divisão muito grande. Como líder no mercado, toda a concorrência que foi surgindo ataca mais o líder: eu tenho 90, o outro tem 10, ele vai perder um, eu vou perder 10. Mas eu fiquei com um creme de clientela de gente. Gente que está efetivamente acostumada lá. E lá eu encontro o dono do Banco Real, o Valentim Diniz, o Jarbas Passarinho, o governador, o vice-governador, o presidente do Tribunal de Justiça, gente que você nem pode imaginar! Gente que você acha que tem o smoking dele. Lá eu recebo telefonema do Unibanco do Rio, que o embaixador Walter Moreira Salles estava vindo pra São Paulo, vai precisar de um fraque, se eu posso deixar a loja aberta até ele chegar... E sem contar deputados, vereadores... Outro dia estava aquele que foi ministro, dono do Banco da Bahia, Banco Econômico, o Calmon de Sá... Então, é um lugar muito agradável de se ficar. O Ferreira Neto, quando fazia aquele programa dele na televisão, ainda no tempo da TV Record, ele foi lá atrás de uma camisa que ele precisava de golinha de diplomata pra um almirante do Rio, amigo dele, que tinha pedido. Ele falou: "Pô, pra montar o meu programa, eu vou ficar aqui, meu! É muito melhor!" Porque ele encontrou algumas pessoas: "Ministro, uma entrevista... Seu secretário... Aqui é ótimo, pra agendar meu programa! Eu não preciso ficar andando atrás deles, eles vêm pra cá que eu marco, faço a agenda da semana. E a começar por você, que vai lá, vai levar os caras pra desfilar a roupa e dizer o que é que é aluguel de roupa." (risos). Então, teve muito disso, muito pessoal artista: Raul Cortez, que é amigo meu, e todo o mundo que precisa de smoking acaba caindo lá. Jogador de futebol também. Então acontece de tudo. Dá um público muito gostoso e o pessoal está indo lá pra festa! Sempre pra festa. Então é muito agradável trabalhar lá, ficar lá. NOVAS LOJAS Depois dessa loja fizemos a outra lá na Juscelino, a Só Rigor, que era uma unidade compacta, querendo fazer uma outra versão. A ideia era até multiplicar, franquear, fazer alguma coisa do tipo, então fomos ver como é que funcionava uma menor. Então demos uma parada de fazer mais alguma coisa e ficamos administrando isso tudo que já tínhamos. Aí perdi minha mãe e meu padrasto, de certa forma, ficou algum tempo muito descompensado e acabou se afastando praticamente de tudo, largando tudo comigo mesmo. Quando ele se estruturou de novo, voltou por prazer e hoje a gente faz muita coisa junto: trabalha, troca muita ideia. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL – PALMEIRAS A nível de satisfação pessoal, fui diretor do Palmeiras 12 anos. Palmeirense que sou, cheguei a fazer carreira dentro do clube, hoje sou presidenciável no clube. Por quatro anos fui diretor administrativo que, depois do presidente, era quem governava o clube. Viajei muito com o Palmeiras, com delegação, cheguei a ser um pouco diretor de futebol: fui pra Alemanha comprar o goleiro da seleção alemã, o Shumacker, que vinha com problemas na Alemanha por causa daquele livro onde ele denunciou o dopping no futebol. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL – DIRETORIAS Também fui diretor do Centro Cultural São Paulo por três anos no mandato do Jânio Quadros. Nessa época acumulava a diretoria do Centro Cultural, diretoria do Palmeiras, diretor social do Automóvel Clube, que ficava ali pela Nove de Julho com a Brasil, e tesouraria da Associação dos Antigos Alunos do Mackenzie. E tudo isso com os outros negócios andando. Eu fui me permitindo ter certas coisas em momentos que me davam muito prazer. O Mackenzie, por exemplo, é uma lembrança forte e tenho um grato orgulho de minha filha, hoje, estar no quarto ano de Direito lá. É muito gostoso saber que tem uma sucessora dentro da família. A segunda filha está fazendo Marketing, lá no Mackenzie também. Então o Mackenzie é forte pra mim. Assim como no Automóvel Clube tinha bons amigos, como o Palmeiras é a minha paixão e o Centro Cultural foi uma experiência de vida pública traumática. Porque eu vinha da iniciativa privada, onde a coisa é ágil. A coisa quando chega em mim, nas minhas empresas, não tem mais pra quem virar e perguntar. Se os gerentes já não conseguiram filtrar, se passou por todos os filtros possíveis, quando chega até a mim eu tenho que falar: "É A ou B, ou é preto ou é branco." Mas dentro do serviço público é infernal, aquilo! Cansei de pôr dinheiro do meu bolso pra comprar coisas cretinas que estavam parando toda a máquina, toda a gráfica, tudo por causa de um parafuso que precisava verba, empenho, finanças. “Dá dez mil réis, vai comprar o parafuso!” Mas esse choque foi bom, isso me aumentou, me fez crescer, me fez ter uma visão diferente do que é ter disciplina. Eu não me conformava era de assinar um metro e meio de processo "Arquive-se"! Eles me faziam perder o meu dia, a nível de atividades possíveis de serem desenvolvidas, pra ficar assinando "Arquive-se"! Mas na verdade aquilo não pode simplesmente ir pra um arquivo sem que alguém assine. Porque se não, o que será que vai parar dentro desse arquivo se não tiver a tal da disciplina? Então isso me fez também ver muita coisa. E acabou servindo até para rever certas coisas depois na volta pra empresa. Aí, logo depois que saí do Centro Cultural, de Palmeiras e isso tudo, acabei indo pra agência. E tendo esse estágio na agência, um outro mundo de negócios, uma outra forma de comerciar, uma outra realidade, vendo uma coisa que eu via de fora, agora vendo de dentro, também foi muito interessante. E essa convivência com a colônia japonesa... Apesar de nascido no Brasil, nossa sociedade é estruturalmente japonesa, é muito criativa. Nós nos estimulamos reciprocamente de uma maneira formidável: ele com o temperamento dele, eu no meu jeito italiano, no final das contas houve um eixo. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL – FREVO SHOPPING IGUATEMI Por outro lado, essa área de expansão de Frevos, de lojas ou qualquer coisa, ficou meio congelada. Até que agora, há uns dois anos, eu fui procurado pelo Shopping Iguatemi porque o Carlos Jereissati, que era cliente do Frevo e vai lá sempre que está em São Paulo, mais a mulher dele, insistiram que tinha uma loja que eles queriam que fizesse um Frevo. Eu fui muito refratário, não queria. Pedimos umas coisas que nos parecia que eles jamais dariam eles deram e acabamos inaugurando um Frevo com uma decoração revisitada, mas tudo dentro do mesmo tema. Para nós foi quase como começar de novo, por exemplo, indo atrás de um novo fornecedor de fornos (porque se ligasse pro do Frevo de 1956 com certeza o telefone não era mais o mesmo ou não estaria no mesmo endereço). Copiar aqueles bonecos foi um drama, eu tive que encontrar alguém que tirou aquilo em arame e depois levar aquele arame e fotos pra um serralheiro amigo meu. Eu fui com o meu sócio, Carlos Alberto Kalil, que era da Fiorucci,. Trabalhar em shopping é infernal! Foi outra experiência que eu não tinha tido na vida! Mil restrições de horário, de cheiros, de colas, de barulhos, então a obra foi quase toda feita de madrugada. Eu estou num lugar que não é uma praça de alimentação, não é nada, então não tinha precedentes. Tive que trazer o gás, lá da Faria Lima, tive que levar o ar condicionado pra fora do shopping, os dutos de gordura, tudo lá pra fora. Então foi também muito estimulante, muito gostoso, mas foi uma gincana, na verdade, fazer esse Frevo. Até mesmo depois, na seleção de mão-de-obra, de imprimir ritmo pro serviço, passar as características de Frevo, aquilo tudo foi muito lutado. Mas foi muito gostoso. O bom é que resgatou muita clientela que tinha mudado lá pra baixo, pra aquelas cercanias do Shopping Iguatemi, praqueles prédios todos que levantaram ali e que já não tinham mais muita coragem de ir pra Oscar Freire pelo comodismo, dificuldade de estacionar etc. E o Frevo do Shopping Iguatemi é a única casa que fica aberta até duas da manhã – o shopping fecha, mas o Frevo fica aberto, com acesso no estacionamento coberto, com segurança. Você pode chegar cheio de joias, não precisa tirar o rádio do teu carro. Isso fez surgir uma central que hoje funciona no Itaim, onde algumas coisas já são preparadas pras três casas e pela manhã a kombi distribui entre elas. Mas temos estrutura para umas 10 casas porque a ideia é continuar franqueando. Talvez não o Frevo como é hoje, mas unidades compactas. Sou procurado por muita gente com interesse de franquear, não só em capital, como no entorno até Campinas, Ribeirão, cidades boas. Vamos ver como é que podemos resolver isso. Mas a menina nos olhos de todo mundo continua sendo o Frevo da Oscar Freire, com uma clientela de nível internacional. E todos têm um carinho. Você pega o romance da Maria de Lourdes Teixeira, está lá o Frevo. Você pega livro da vida do Zé Carlos Patt, está lá o Frevo. Você pega a Adriana Galisteu, falando do Senna, tá lá o Frevo. Outro dia eles até gravaram lá pro Video Show da Globo, com a Adriana contando que vinha lá com o Aírton e que ele adorava a casa. O irmão dele está sempre lá. O Jô, no programa da Família Trapo, ele e o filho do Renato Corte Real, um dia jogando figurinha: "Quem perder paga um milk shake do Frevo." SÃO PAULO ANTIGA – RUA AUGUSTA Então hoje, pra falar da história urbana de São Paulo, não tem muito como não passar pelo Frevo pra essa geração que viveu nesse eixo. A Rua Augusta passou por uma fase onde ela era o pólo de toda a insurreição de uma juventude. As roletas russas na Rua Augusta, a geração transviada, aquela história de lambreta e suéter nas costas. Quando inaugurou o Cine Paulista com “O Balanço das Horas”, Bill Haley e seus Cometas, e aquilo tudo, o pessoal dançando nos corredores do cinema, puseram fogo nas cortinas. Então toda aquela geração que fez a revolução da camisa vermelha, que saiu do terno cinza, que deixou o cabelo crescer, aquilo tudo ferveu e fermentou e virou vinho ali, em torno da Rua Augusta. A Rua Augusta foi o grande eixo disso tudo acontecendo naquela época e o pessoal dos Jardins preservava o Frevo. A moçada, a juventude dos Jardins, tinha brigas históricas porque vinha mocidade de outros bairros frequentar o Frevo e, para eles, aquilo era meio que preservado: "Aqui é nosso, não é pra chegar!" E teve uma época de prostituição de alto bordo também a querer frequentar o Frevo pra captação de clientes. Elas iam de Romiseta, então seriam hoje o equivalente à turma do Café Photô. CLIENTES Então essa turma de alto bordo começou a querer ir lá fazer uma captação de clientela. E pra manter isso, quer dizer, pra não permitir que houvesse uma deformação da casa e possível perda da clientela, chegou a ter que se pegar até muita gente pelo pescoço lá e não permitir muito tráfego entre mesas. E se sentava uma que você via que a intenção dela era essa, ficava ali só pra tomar uma Coca-cola (que na época custava mil reais), não tinha nada que proibisse. Então a manutenção desse status de uma casa de família é que fez com que ela sobrevivesse há tanto tempo. Se tivesse deixado desencaminhar essa clientela, perdesse esse pique... Foi bem difícil manter isso numa rua que fervia. Depois teve a fase dos motoqueiros. O Frevo teve de ficar muito tempo sem chope. Chegava uma certa hora a gente suspendia o chope pra evitar aquela aglutinação de motoqueiros que também estavam criando inibição pro cliente da casa. O cara chega com uma namorada, uma noiva, chega com a mulher, chega com a filha e ter que passar por aquele bando de motoqueiro tomando chope na calçada, atravessando com copo. Chegou um momento que o Frevo teve que trabalhar meio como McDonald's, com milk shake, com vitamina. Então o Frevo estava no termômetro daquilo tudo, mas também foi palco de coisas excelentes e até hoje tem gente muito interessante que frequenta. É um lugar muito gostoso de estar. E aquela geração já cresceu. Outro dia entrou lá um camarada que sentou lá na juventude e hoje ele vai com a mulher e com os filhos já todos moços. Eu falo pra ele de vez em quando: "Você lembra das tuas gracinhas? Se eu não te pusesse pra fora naquele tempo hoje você não estaria vindo aqui com a sua mulher e com seus filhos, porque provavelmente a casa teria se deteriorado de uma tal maneira, né?.” Eu fiz uma reforma na cozinha faz uns 30, 40 dias e a casa ficou fechada uns 10 dias. E os clientes iam lá olhar! Eles batiam na porta, queriam ver o que estávamos fazendo: "Mas não mexeu no boneco, né? Não vai mexer no banquinho..." É uma coisa meio que tombada pelo patrimônio histórico da clientela (risos). Acho que o que exatamente fascina no comércio é isso: é o que você acaba se apegando. Por exemplo o meu turn-over lá de funcionários é muito pequeno. Tanto é que os gerentes que estão lá estão há tantos anos. O Tião, que está na foto de inauguração de 1956, foi presenteado com umas cotas da loja do shopping, por reconhecimento destes 40 anos conosco. Hoje ele é sócio. O bom é que quem vê ele lá já sabe que é filial e não franquia. Na loja da Oscar Freire ainda perguntam dele e alguns vão visitar ele lá no shopping. A ligação dele com o Frevo e com a clientela é muito forte! REFLEXÕES SOBRE A ENTREVISTA Participar desse projeto é uma coisa que me emociona. A gente faz uma vida tentando deixar alguma coisa, deixar um legado. Gostaria que tudo isso que eu falei aqui consiga valer de alguma coisa para quem estiver lendo ou ouvindo, quero que seja útil pra alguém. Útil no sentido de continuar o que tivesse fazendo, útil pra de repente despertar pra alguma coisa. Hoje esse depoimento é uma emoção só minha, mas ficaria universal se alguém pudesse usar tudo isso pra alguma coisa.

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