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História

Trouxe para o Brasil o sistema de refeição-convênio

História de: Abram Szajman
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/07/2005

Sinopse

Identificação. Vinda da família para o Brasil. Atividade dos pais e a casa no Bom Retiro. As dificuldades na época da Guerra e o trabalho do pai. As escolas e o primeiro emprego. O serviço militar no CPOR. Análise da imigração no Brasil. As brincadeiras. Definição de sua personalidade. A decisão de seguir seu caminho. O primeiro carro que comprou. A corretora de valores e a indústria têxtil. O sistema de refeição-convênio e as outras atividades do Grupo VR. A relação com o pai. O envolvimento com as entidades ligadas ao comércio e as atividades desempenhadas. Sonhos e homenagem do CPOR. Importância da entrevista.

História completa

IDENTIFICAÇÃO Meu nome é Abram Szajman, eu nasci em São Paulo no dia 20 de julho de 1939. Meu pai era Szaja Szajman, minha mãe Chaja Mindla Szajman, ambos nascidos na Polônia, em pequenos lugarejos, cidades que talvez até não existam mais no mapa. Eu não sei as origens dos avós maternos nem paternos. É uma coisa um pouco complicada de se explicar, mas com o holocausto e a imigração, as famílias desapareceram, pouco se tinha de informação. Em casa mesmo a família evitava comentar a respeito de antepassados. INFÂNCIA Meu pai nasceu em 1904. Com 28 anos casou-se veio para o Brasil, quando todo o mundo sabia que a capital latino-americana era Buenos Aires. Eles devem ter ouvido falar de algum parente que tinha vindo para cá que existia um lugar no mundo que era São Paulo. Desembarcaram no porto de Santos, sem falar língua, sem ter qualquer possibilidade de contato e acabaram vindo para cá. É a mesma coisa que hoje, talvez, a gente aqui no Brasil falar em se mudar para o Zimbábue, uma coisa inimaginável. Meu pai e minha mãe eram pessoas que trabalhavam na confecção de roupas, aprenderam isso na infância, juventude. E quando desceram na estação da Luz, acabaram vindo para o Bom Retiro, que era onde havia uma concentração de proteção, onde existiam outros que também imigraram vieram procurar um espaço novo, um protegendo o outro, até pela questão da língua. No início, trabalhavam para outros que tinham vindo antes e já estavam mais estabelecidos, tinham confecção, já vendiam roupa. Minha mãe como costureira, meu pai como trabalhador de máquina, também de costura. Em cerca de 1953, eles tiveram a possibilidade de comprar as máquinas e começaram a desenvolver a mesma atividade já em caráter próprio. Eles não trabalhavam mais na fábrica da pessoa, tinham as máquinas em casa, mas faziam o trabalho por mão-de-obra para essas fábricas. A gente morava na Rua Ribeiro de Lima. Naquela época, existiam muitos italianos que moravam no Bom Retiro, que foi um bairro que trouxe a primeira imigração. Em frente à nossa casa morava a família Solito, que trabalhava com laticínios e tinha um negócio de queijo. Eles traziam queijo do exterior e de Minas. Depois nós fomos morar na Rua da Graça, no final da guerra, eu me lembro ainda que tinha, ainda, o toque de recolher e precisava entrar em fila para comprar pão. Mas na frente da nossa casa tinha uma padaria muito grande, Padaria Savoy, que era de uma família também de imigrantes italianos. Meu pai era amigo do dono da padaria, não precisava ficar na fila para comprar pão. A gente morava todo o mundo num quarto só, tinha a fabricazinha do meu pai, tinha uma cozinha, tinha um quintal grande, e tinha um banheiro lá embaixo. Em 1957, o meu pai conseguiu iniciar o negócio próprio e costurava para ele mesmo. Começou a comprar pano, costurar casacos e tal. Eu tinha uns 14 anos e ajudava a vender, fazia nota fiscal. Aí nós nos mudamos para uma casa melhorzinha, na Rua Silva Pinto. Na parte superior tinha dois quartos, uma sala, tinha uma cozinha e banheiro. A parte de baixo virou a fabriqueta do meu pai. Ele tinha lá a mesa de corte, as máquinas de costura e a passadeira. Ele era muito preocupado com as pessoas, com quanto ganhavam, como viviam, ele não tinha essas pretensões todas de querer ter um grande negócio. Depois nós mudamos para a Rua Três Rios, em 1960, onde ele tinha também uma pequena fábrica e trabalhou até o começo dos anos setenta. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL Naquela época, logo depois da guerra, como a família era pobre, imigrante, a gente estudava em escola pública. Todos os que moravam no Bom Retiro, que eram filhos de imigrantes, estudavam em grupo escolar, que era uma coisa muito importante, muito limpa. As escolas não eram o que são hoje. Em 1946 eu frequentava o grupo escolar na Avenida Tiradentes, na esquina da Estação da Luz, hoje Pinacoteca do Estado. Era o Grupo Escolar Prudente de Morais, que pegou fogo. Aí eu saí da escola, meus pais trabalhavam fora e eles não queriam que eu ficasse muito na rua, então me puseram para trabalhar com um tio que era um imigrante anterior e já tinha mais condições. Ele tinha uma pequena malharia. Eu ficava lá trabalhando como um office-boy, eu ia ao banco, depois eu ia à Cooperativa Popular do Bom Retiro, que hoje já não existe mais, eu ficava na loja e eu ajudava a fazer pacote. Eu sempre estudei de dia, na verdade eu trabalhava meio período. Trabalhei durante todos esses anos e fui estudar contabilidade na Escola de Comércio Alvares Penteado, que era lá no Largo São Francisco. SÃO PAULO ANTIGA A história do Bom Retiro a gente pode verificar que aconteceu na época da imigração italiana. Os pais eram os trabalhadores, tinham os seus negócios, importavam algumas coisa da, moravam lá dentro do estabelecimento ou em cima na sobreloja. Os filhos estudavam e, é claro, depois a obrigação era se formar doutor, todo imigrante queria que seu filho virasse doutor. Os filhos dos primeiros imigrantes italianos viraram realmente doutores, não havia sucessão nos negócios dos pais, assim foi abrindo espaço no próprio Bom Retiro para os primeiros imigrantes da Polônia, Rússia e Ucrânia. Aí aconteceu a terceira leva de imigração, que é a imigração coreana, que ocupou a mesma coisa. Os judeus deixaram espaço, os pais ficaram velhos, os filhos não quiseram ocupar, os coreanos chegaram na década de 70 e se repetiu a história. Os filhos estudando, no fim das contas, alguém vai ocupar esse espaço de novo porque os filhos vão virar doutores e os pais não vão ter sucessores. Naquela época, a vida em São Paulo era muito mais tranquila. O Bom Retiro era um bairro de classe média baixa, a gente jogava bola na rua, tinha uns campos de futebol no final da várzea. Tinha os clubes da coletividade judaica, antes da fundação do Estado de Israel, eram uns movimentos partidários, de grupos partidários. A gente participava muito das brincadeiras que tinham lá, a gente jogava ping-pong, botão, mas era uma coisa muito muito fechada, porque as pessoas todas se conheciam. Na rua José Paulino passava o bonde que ia até o Largo São Bento. Já com 12, 13 anos, a gente se atrevia a ir para cidade e chocava os bondes, porque ninguém pagava o bonde naquela idade. Eles eram abertos, a gente entrava neles e quando o cobrador vinha a gente ia para o lado de lá, no fim não pagava. Então a gente vinha sempre para a cidade, comia cachorro-quente na Avenida São João. Hoje a coisa é muito difícil. Nossos filhos têm uma vida muito mais para dentro, antigamente a vida era para fora, a gente ficava na rua e brincava, brigava, fazia tudo o que tinha direito. Eu não nadei no rio Tietê porque eu não sei nadar até hoje. Mas eu me lembro bem de quando eu tinha uns oito anos, eu descia para ir nesse campo de futebol para jogar bola e logo atrás já era o rio, não existia marginal, nada. O Clube Tietê tinha um deck onde eram colocados os barcos, naquela época o rio era limpo, a gente ia lá para catar peixe, tinha lambari. A loja do meu tio era uma pequena malharia. O pessoal vinha muito do interior para comprar na capital, descia na Estação da Luz e comprava no Bom Retiro, que era o lugar mais próximo. Então tinha que separar essa mercadoria por tamanhos, cores, tinha todo um trabalho de empacotar. A atividade começava cedo, depois que eu já tinha me formado eu ainda continuei trabalhando lá e a gente começava a trabalhar às 7h, com o pessoal do interior já há tempos esperando a loja abrir. Eu acho que aí que começou a me aguçar um sentido de comércio, como é que as pessoas se conhecem, negociam. Talvez tenha sido a visão dos meus pais, que mesmo sem informações, cultura e conhecimento sabiam que tinham que formar os filhos. É um mérito muito grande dos pais de imigrantes que sabiam das dificuldades, porque sofreram tudo isso na carne, e queriam que os filhos tivessem condições melhores. Uns foram doutores, outros não. No meu caso, virei comerciante. FORMAS DE PAGAMENTO Naquela época existia muita confiança, como aquela história da caderneta da mercearia, da quitanda etc. O sujeito ia na quitanda, comprava e anotava. Então na loja era a mesma coisa, se vendia para lojas maiores, então fazia a duplicata, punha em cobrança no banco ou ia lá no vencimento cobrar da loja. Quando era no interior, eram pessoas que já tinham um certo contato. No começo, a pessoa tinha que pagar, depois ia criando aquela confiança e criando um crédito aberto. Levava a mercadoria, quando voltava trazia dinheiro. Levava mais mercadoria, voltava, trazia dinheiro e levava mais mercadoria. Era uma coisa contínua. E foi assim que a atividade foi prosperando, porque a partir dos pagamentos certos, no dia combinado, a pessoa ia comprando. TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO Eu fui acompanhando um progresso natural da atividade da pequena lojinha que foi crescendo e as ambições também. Ele não podia ficar fechadinho só naquela atividade, ele foi se envolvendo em outras coisas, ele começou a fazer umas importações. Eu me lembro que numa época ele importava geladeiras dos Estados Unidos. Era GE, trazia 200 geladeiras de cada vez. Depois, numa outra época, além de geladeira ele começou a trazer cristal da Boêmia. Agora está melhorando um pouco, mas precisava de autorização de importação. O Brasil tinha pouca reserva, então para arrumar uma guia de importação era uma coisa muito complicada, tinha que ter tradição, e ele foi criando uma de tal modo que uns certos anos depois ele virou um grande importador. O negócio cresceu mais e aí ele foi construir imóveis, apartamentos, era o início de uma fase de condomínio. No próprio Bom Retiro construiu uns dois ou três prédios, depois, na Avenida Angélica. Aí eu me envolvi também nesse tipo de atividade, eu me desenvolvi e cresci dentro da estrutura dele que foi crescendo. Os filhos dele não trabalhavam, acabaram só estudando. Fui aprendendo os truques que ele ensinava, porque ele era meu professor. Então eu acabei sendo um aluno exemplar, nunca consegui ultrapassar o mestre, mas acabei aprendendo muito daquilo que ele pôde me transmitir, trabalhei muitos anos com ele, até que os filhos se formaram. O negócio tinha o nome dele, Kupfer e Companhia. Aí eu abri espaço, saí, deixei os filhos assumirem e fui procurar outros caminhos. Eu me casei em 1968, então eu saí de lá em 1966. Fui trabalhar nessa sociedade, uma corretora de valores. Minha esposa, Cecília Cecília Zaclis, também era de família de imigrantes no Bom Retiro. O avô materno dela era o Henrique Golonbek, um fabricante de roupas de uma imigração antes, ele já tinha um prédio, talvez ele fosse a pessoa que construiu o primeiro prédio no Bom Retiro, de dois andares. E no lado do pai da minha mulher era a família Zaclis, fabricantes de calçados, de botas. Eles já tinham saído do Bom Retiro e ido procurar fazer as botas em frente ao quartel do exército, que era na Rua Conselheiro Crispiniano. A clientela toda era muito grande, era o pessoal que andava a cavalo no exército, então tinha muitos militares que faziam botas e o pessoal que montava a cavalo na Hípica etc. Eu nunca pensei em trabalhar com o meu pai porque ele trabalhava para fora. Depois é que ele comprou duas, três máquinas e aí costurava numa máquina, minha mãe numa outra ajudava, e tinha mais uma funcionária. Então eu não tinha o espaço para fazer qualquer coisa lá. O que eu fazia era aquilo que eu aprendi a fazer com o meu tio, eu era o escriba dele. Eu controlava o talonário de nota fiscal quando ele precisava vender, ele vendia para lojas maiores. Eu me lembro que um grande cliente dele, que virou um grande amigo meu depois, era o Bernardo Goldfarb, da loja Marisa. O meu pai fazia casacos, era uma época que fazia frio em São Paulo e no Brasil, coisa que não existe mais. Vendia muito para fora de São Paulo e tinha uma clientela muito grande em Curitiba, em Ponta Grossa e tinha o pessoal em Santa Catarina. Então tinha que fazer transportadora, tinha caixas, precisava escrever nas caixas para transportar e eu fazia tudo isso depois do meu trabalho.. Com o meu tio, eu me lembro que nós construímos alguns armazéns grandes para locação, quer dizer, tinha uma perspectiva diferente do que eu poderia ter com o meu pai. Meu pai tinha um negócio muito pequeno, muito limitado dentro das ambições dele, ele era pouco ambicioso, ele era uma pessoa que tinha uns conceitos de vida diferente, não estava muito interessado em ser o maior rico do mundo. Queria viver a vida dele, então eu não tinha espaço lá, a minha ambição era um pouco maior que essa. Eu imaginava que eu precisava crescer. Eu me lembro que eu trabalhava com esse meu tio, eu juntava, eu não gastava nada. Eu comia em casa, a comida era de graça, roupa também era de graça e eu juntava aquele dinheirinho que eu ganhava. Então eu abri uma caderneta de poupança, que não era poupança, mas caderneta de conta corrente, nessa Cooperativa de Crédito Popular do Bom Retiro. Naquela época não tinha indústria automobilística brasileira, os carros eram importados, tinha os Mércuris, os Chevrolets, essa coisa toda. A Volkswagen, em 1959, ia começar a montar, trazer os primeiros carros. Aí eu tinha essa caderneta de poupança, fui numa revendedora de automóveis na avenida Duque de Caxias, chamava Sabrico, e me inscrevi para comprar um carro, dos primeiros que iam sair como fabricação brasileira. Paguei 496 mil cruzeiros, comprei um Volkswagen, era amarelinho meio esverdeado. Meu pai foi contra, mas depois ele começou a aceitar, o dinheiro era meu. E foi um abuso mesmo comprar um carro sem ter nada. Mas logo depois eu continuei ganhando um dinheirinho. Esse meu tio meu construía, eu vendia um apartamento e ganhava uma comissãozinha, assim fui juntando mais dinheiro. Aí eu comprei um apartamento em Santos que, depois, acabei vendendo para minha irmã, quase passei para ela. Aí eu comprei um apartamento no Guarujá. Quando eu já estava fora do negócio do meu tio, fui para uma corretora de valores. Eu tinha uma certa atração pelo mercado de ações, eu consegui ganhar um pouco de dinheiro nesse mercado e saí antes de 1971, quando houve uma grande queda da bolsa, não sei porque. Acho que Deus me ajudou e eu vendi tudo o que eu tinha em ações. Mas fiz uma coisa errada: vendi tudo, peguei o dinheiro e comprei uma fábrica. Foi quando eu entrei num ramo que eu nunca deveria ter entrado, porque eu não sou industrial. Eu nasci no comércio, eu nasci atrás de um balcão, com conhecimento zero do que é fabricado. Quando eu virei industrial, não me dei bem. Mas não foi nada que não pudesse ser superado. Era uma malharia e confecção, tinha tinturaria, tinha todo um conjunto muito grande, tinha mais de 600 funcionários. Era Eneiri S.A. Indústria Têxtil, uma fábrica importante, o prédio tinha 6.500 metros quadrados, era uma coisa bastante grande para a época, que foi dura porque a gente precisava de capital, que andava meio difícil. Nós não tínhamos condição de exportar porque o mercado interno estava deprimido e o internacional é muito concorrido. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL – VALE-REFEIÇÃO A falta de experiência fez com que eu também saísse disso e voltasse para a bolsa, atividade que eu conhecia um pouco e fui tendo sucesso, juntando mais dinheiro etc., até chegar em 1977, quando eu constituí um outro negócio meu, novo, que não tinha no Brasil, que foi uma empresa de refeição-convênio que a gente conhece como Vale-Refeição. Aconteceu por acaso, porque tinha uma francesa que veio para o Brasil e queria introduzir essa coisa. Mas ninguém conhecia, era uma novidade, era uma coisa que tinha na Europa. Nós começamos juntos, numa saleta na Avenida Paulista. Para explicar para o restaurante que ele ia receber um papelzinho e depois de tantos dias ele ia receber o pagamento, que ele tinha que confiar, explicar na empresa que ela podia comprar um papelzinho, dar para o trabalhador e que esse trabalhador ia num restaurante que ia aceitar o papel para dar comida para ele, foi uma coisa desafiadora. A atividade era novidade, tinha só um concorrente que era uma multinacional francesa que veio dez meses antes. O Ministério do Trabalho começou a se interessar e começaram a obter informações da gente. Mas para o negócio se ampliar de uma maneira bastante importante, precisaria ter algum incentivo para dar para o trabalhador, aí criaram uma dando à empresa o direito de poder lançar duas vezes o custo da comida até um limite de 5% do imposto de renda a pagar etc. Como o governo se interessou nisso e a lei aprovada no Congresso Nacional, começou a crescer a atividade, as empresas começaram a receber essa informação, e a coisa foi se ampliando. A empresa hoje tem 18 anos, começamos com uma refeição e hoje estamos vendendo, por dia, 1 milhão e 600 mil, em cerca de 245 mil estabelecimentos credenciados em todos os estados do Brasil. É uma coisa que representa um ganho muito importante ao trabalhador. E para o próprio estabelecimento também, porque sem esse sistema, que envolve oito milhões de refeições por dia, e muito concentradas na hora do almoço, esses estabelecimentos iam ter muito problema de sobrevivência. Foi uma atividade que se desenvolveu muito e, em cima dessa atividade central, fomos investindo em outros ramos. Afinal, quem nasceu no Bom Retiro não pode ficar parado, esperando vender só alguma coisinha. É como eu sempre digo: eu não posso reclamar da vida porque saí da Rua José Paulino e cheguei no espigão da Avenida Paulista. Hoje somos um grupo, Grupo VR, que atua nesse ramo de refeição-convênio, vale-transporte, turismo, nós temos um banco múltiplo, nós temos participações em outras grandes empresas brasileiras, nós participamos de grandes conglomerados financeiros. Estamos entrando na área de seguro-saúde, quer dizer, nós diversificamos bastante, hoje temos 1.200 funcionários diretos FEDERAÇÃO DO COMÉRCIO Na escola, a gente participava dos grêmios todos, desde o grupo escolar, e, depois, da vida comunitária. Eu trabalhei na Hebraica, uma associação muito importante, fui secretário, depois fiquei envolvido no sindicalismo comercial por causa das minhas origens e acabei indo parar na Federação do Comércio em 1968. Comecei uma vidinha de diretor adjunto. Eu ia lá de vez em quando, no segundo ano eu comecei a ir todo o dia e há 26 anos na Federação do Comércio poucas vezes eu me lembro de não ter ido. fui diretor adjunto, depois virei tesoureiro da Federação do Comércio, fui conselheiro do Senac, fui conselheiro do Sesc e em 1984 acabei virando presidente. A Federação do Comércio, quando eu assumi, tinha 80 sindicatos, de atacadistas, varejistas, comércio armazenador, turismo e especialidades e agentes autônomos. Hoje nós temos 137 sindicatos. Nós formamos 280 mil alunos por ano, qualificando melhor essas pessoas. Nos últimos anos eu fui eleito também presidente do Sebrae, que é o Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequena Empresa no Estado de São Paulo, que é uma entidade voltada para apoiar o desenvolvimento da microempresa, que é uma coisa muito complicada no Brasil. Criaram o Sebrae exatamente para desenvolver esse pequeno, para ele não morrer no primeiro ano, porque 80% das microempresas no Brasil morrem nesse período. Dos meus companheiros, tenho tido o prazer e a confiança. Eles me reelegeram, devem estar analisando que meu trabalho é bom, senão eu não estaria lá esses anos todos. É um trabalho duro, árduo, quase um sacerdócio, porque é um envolvimento 24 horas por dia. Eu acho que para ser presidente dessas entidades, primeiro a pessoa precisa ser despojada. Segundo, eu acho que a pessoa tem que ter essa função como uma obrigação gostosa, porque se levar para o sentido de ser uma obrigação mesmo é muito complicado, só pode ser feito como eu faço e como os outros que passaram lá devem ter feito, no sentido de saber que está ajudando o outro, fazendo alguma coisa para melhorar o comércio, melhorar a formação profissional do trabalhador, melhorar o trabalhador na parte esportiva, na parte cultural e na parte social. E em terceiro lugar, a pessoa precisa ser muito forte no sentido de poder falar aquilo que realmente tem que ser dito, não pode sofrer coerção psicológica, ter medo de enfrentar determinadas autoridades. FAMÍLIA Meu pai faleceu há exatos nove anos, em 1985. Ele era muito reservado, ele não falava para mim mas eu sei pelos amigos dele que me contavam como ele se sentia orgulhoso de mim. Se saía algo no jornal, ele levava para os amigos lerem. meu ele era muito reservado, muito severo nas coisas, talvez ele achasse que eu estava fazendo nada mais que a obrigação, que eu tinha que fazer isso mesmo que eu estava fazendo, tinha que cumprir os meus objetivos. Mas os meus objetivos eu cumpria dentro de uma rotina, eu tenho uma vida muito regular porque eu tenho uma família bem constituída, então ajuda muito ter as origens, ter uma família boa e ter encontrado a mulher certa. Eu sou casado há 26 anos e meio. Então há uma certa tranquilidade de poder ir fazendo coisas, não tem uma complicação familiar crie problemas . Qual é o meu limite? Eu não tenho limite, limite é até onde as coisas devem acontecer. Elas vão acontecendo. Eu sou sempre um explorador, onde eu ando eu quero sempre criar alguma coisa nova, introduzir um conceito novo, reformular. Também é importante você ter gente de confiança que te ajuda, que tem ideias. Há o limite da sabedoria, então você começa a explorar o outro, eu acho que eu sei onde é o meu limite de saber as coisas e onde eu começo a usar o outro para me ajudar. FUNÇÃO SOCIAL DO COMÉRCIO A partir da hora que eu crio um emprego, eu estou dando um emprego para uma pessoa que está precisando trabalhar e essa pessoa vai produzir alguma coisa que vai ser vendida por uma outra e que vai gerar um outro emprego, quer dizer, eu estou fazendo alguma coisa que vai ajudar a constituir um país diferente. Tem muito problema social que precisa ser resolvido com investimento. Eu sou uma pessoa que investe naquilo que eu acredito, que é o trabalho. Eu estou investindo e acreditando no desenvolvimento e com isso eu estou criando uma situação para um futuro melhor. Então eu quero que o pessoal que não pode jogar bola na rua, não pode empinar papagaio possa ter essa oportunidade, de um dia não ter medo de sair na rua à noite. Eu saía na rua à noite, eu ia à pé para cidade, não tinha problema. Eu acho que eu estou criando uma coisa diferente que é para melhorar a situação social do Brasil, e é isso que eu quero fazer. Não tem limite, o limite é o céu. SERVIÇO MILITAR Eu servi o CPOR, Centro de Preparação de Oficiais da Reserva, e eu era do serviço de intendência. Tinha artilharia, tinha cavalaria, tinha infantaria, tinha serviço de engenharia e serviço de intendência. Eu, como estava na área de comércio, queria fazer intendência. E foi uma besteira, porque no primeiro dia de aula no quartel, chegou um coronel bravo e falou que todos os dias nós teríamos aula de equitação. Ele sumiu e três dias depois foi transferido. Viu como Deus me ajuda? Nunca tinha andado a cavalo na minha vida, aí eu fiquei dois anos lá. Eu saí e nunca mais voltei. Passaram-se trinta anos e um general muito amigo meu, General Lee, que inda estava no comando do Estado-Maior aqui em São Paulo me ligou e disse: "O que é que você está fazendo?" Eu estava no escritório, vendo minhas coisas. Ele falou: "Olha, eu vou passar com o meu carro, manda teu chofer vir atrás." Aí fomos atrás e ele parou na bica do quartel. Estava tudo igual, não tinha mudado nada, mesmo porque o exército não tem dinheiro nem para reformar o prédio. Cheguei lá, todo o exército, 500 alunos, todos os oficiais, professores me fizeram uma homenagem de aluno. Leram o meu curriculum, todos os alunos formados cantaram o Hino Nacional, depois cantaram o hino do CPOR. Tive que fazer discurso para os jovens. Foi um negócio interessante porque, depois de 30 anos, acabei voltando no quartel e sendo homenageado. Depois fizeram um almoço, foi uma coisa bonita. Quero voltar daqui a 30 anos. REFLEXÕES SOBRE A ENTREVISTA Eu acho bom as pessoas poderem deixar armazenadas algumas coisas que aconteceram na vida, transmitir essas informações para os outros, principalmente para os mais jovens. Todo mundo acha que foi tudo muito fácil, mas não foi fácil nada, as coisas foram duras. Aconteceram com trabalho, com esforço, com perseverança. As pessoas precisam saber que trabalhando a gente consegue as coisas, mesmo sendo pobre. Os pobres têm a mesma oportunidade, talvez mais do que os ricos. Quando a gente começa a contar história, quando começa a falar do Bom Retiro, está deixando um pouco de 40 ou 50 anos de história de um país. Não sei se tudo o que a gente contou aqui tem muito valor, se, no futuro, quando alguém verificar e analisar essa história pode até dar risada, achar que foi alguma coisa meio surreal o cara que saiu do Bom Retiro e começou a trabalhar com dez anos de idade. Então tem uma história, a preservação da identidade e da cultura é uma coisa muito importante para ser transmitida e para ser guardada. Para mim foi muito bom, muito importante eu poder estar aqui, poder falar dessa experiência que eu tive, deixar marcado que as coisas aconteceram, as coisas foram feitas, as coisas estão sendo feitas e as coisas ainda vão acontecer porque todos nós estamos envolvidos em alguma coisa para frente e o mundo só caminha por causa disso: essa combustão do mundo, essa vontade de fazer alguma coisa e a vontade de perseverança.

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