Busca avançada



Criar

História

"Troquei uma bicicleta minha por duas guitarras"

História de: Cláudio Venturini
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/07/2005

Sinopse

Nesta entrevista, Cláudio Venturini nos conta suas lembranças de infância, suas primeiras referências musicais, a influência de seu irmão mais velho  e sua relação com o Clube da Esquina.

Tags

História completa

P/1- Oi, Cláudio. Eu gostaria que você começasse falando seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R- Luís Cláudio Venturini. Eu nasci aqui em Belo Horizonte, no dia quatorze de agosto de 1958.

 

P/1- E eu queria que você falasse o nome completo dos seus pais.

 

R- Meu pai chama Hugo Venturini e minha mãe, Dalila Vieira Venturini.

 

P/1- Eu queria que você falasse um pouquinho, rapidamente, sobre a sua infância e mais especificamente como a música apareceu na sua vida.

 

R- Eu me lembro de música quando eu tinha quatro anos de idade e meu irmão Flávio - ele é nove anos mais velho do que eu... Então naturalmente o Flávio, com essa idade, já tinha treze ou quatorze anos e já escutava muita coisa em casa. Eu tive contato com a música através disso. Eu lembro que ele escutava muito Beatles e eu adorava escutar Beatles também, então eu já comecei a já escutar uma boa qualidade de música ainda pequeno. 

Depois, a sequência foi o próprio Flávio que começou a tocar em bailes quando tinha lá seus dezoito anos, foi na época que ele fez exército com o Vermelho também. Nessa época, tinha um piano em casa; ele fazia aula de piano e eu fazia também, eu tinha nove anos. Comecei a fazer piano, mas eu não me dei muito bem com o piano porque eu não gostava de ler partitura. Eu enganava a professora porque ela punha a partitura e eu tocava de ouvido, até o dia que ela trocou a partitura e eu toquei a mesma música, aí foi [a] descoberta do meu golpe e eu desisti do piano. (risos) Depois é que eu achei o violão. O Flávio sempre tinha um violão em casa, então a música praticamente nasceu junto comigo, por conta de ter um irmão mais velho que já trabalhava com música.

 

P/1- E os seus pais, eles incentivaram?

 

R- Olha, mais ou menos. Na verdade, eu sempre fui aquele chamado CDF da minha turma. Eu gostava muito de estudar, gostava muito de ler, eu tinha muito livro em casa. Li a biblioteca do Senac quase inteira, eu lia o dia inteiro; eu gostava muito de eletrônica, desse tipo de coisa, mas gostava muito de música também. Então a tendência natural lá em casa era falar: “Não, o seu irmão é músico e você está querendo imitar o seu irmão.” Aquela coisa de irmão mais novo. “Não mexe com isso, não. A sua coisa é outra, você gosta de estudar.” Mas com o passar do tempo eles notaram que também o meu caminho era tocar, aí tudo bem, deram força também.

 

P/1- Mas como é que você descobriu essa de sair do piano, como você se interessou pelo violão?

 

R- Porque o pessoal tocava muito lá em casa. O Vermelho mudou pra minha casa, a minha mãe alugou um quarto pra ele quando ele saiu do CPOR [Centro de Preparação de Oficiais da Reserva] e ele e o Flávio ficavam fazendo música, tocando ali o tempo todo. Quando eles saíam, eles não me deixavam colocar a mão nos instrumentos, não. “Menino pequeno, vai quebrar!” 

Quando eles saíam pra fazer alguma coisa eu ia lá investigar, então tinha um violão lá que eu comecei a tocar. No começo, eu achava que quanto mais suave você pusesse a mão nele, melhor sairia o som e aí não sai som nenhum. Eu falei: “Que coisa estranha, a gente põe a mão devagar e não funciona.” Depois eu percebi que se pressionasse as cordas a coisa dava mais certo. 

Com o tempo, o instrumento mais barato que eu podia conseguir foi uma gaita. Tinha um outro amigo nosso que morava na casa, o Kimura, que tocava gaita com eles. Eu escutava e falava “Ah, isso aqui dá pra mim.” Comecei então, aprendi a gaita. Da gaita eu comprei uma flauta doce, que eram instrumentos fáceis de conseguir; comecei a tocar a flauta e depois é que eu fui pegar o violão. Mais tarde, eu troquei uma bicicleta minha por duas guitarras que eram horríveis: era uma Felpa e a outra eu nem lembro o que era. Eu sei que das duas eu fiz uma, tirei o que servia de uma e juntei na outra; o que sobrou eu botei duas rolimãs atrás e uma na frente (risos) e aí usava para descer a rua com a guitarrinha.

 

P/1- Como é que você ia em cima da guitarra?

 

R- Você senta onde se toca ali e no braço você tem a guia. Coloca uma madeira em frente e faz a guia; é aquela famosa de uma rolimã só na frente e duas atrás, é até um formato bem aerodinâmico. Pra você ver como a guitarra era ruim, o braço era tão grosso que conseguia aguentar isso. 

Foi muito engraçado, mas foi minha primeira guitarra. Eu gostava mais, achava a guitarra interessante - porque [tinha] aquela coisa de jovem mesmo, o violão era bacana, mas um som meio assim. Quando eu liguei pela primeira vez uma guitarra num gravador que a gente tinha lá - na verdade, acho que era um rádio, uma coisa assim -, a gente fez uma gambiarra. Eu estudava eletrônica e quando ligou a primeira vez, a distorção… Eu falei: “É isso! Isso aqui que é a maravilha de som.” 

Eu nunca gostei de música brasileira. Nessa época, eu não gostava de música brasileira de forma alguma. Escutava Beatles, Rolling Stones, Led Zeppelin, The Who, Deep Purple, só essas coisas. Eu só comecei a gostar de música brasileira justamente por causa do pessoal do Clube, porque foi quando o Flávio… Acho que ele começou a ouvir o disco Clube da Esquina e o disco do Lô, do tênis. Quando eu ouvi, eu falei: “Uai? Não é que tem algumas coisas no Brasil que são legais?” 

Eu não gostava muito dessa história de Bossa Nova. A música que se tocava no rádio, no Brasil naquela época… Ainda mais [quando] garoto, você tem uma tendência a contestar essas coisas. Eu não gostava, mas aí eu escutei o Milton e o Lô e falei: “Ah, isso é bom!” Aí comecei a ouvir aquilo.

P/2- E a relação com o Clube da Esquina, quando é que você começou a ter?

 

R- Com os caras mesmo, foi o Beto Guedes porque ele morava ali, acho que era na Rua Tupis, se não me engano. O Flávio e o Vermelho conheceram o Beto. Imediatamente, ele passou a ir muito pra minha casa, então eu escutava esses caras tocando ali o tempo todo, fazendo música. Eu me lembro quando o Beto gravou o primeiro disco, que nem foi o primeiro disco dele, foi aquele disco com o Novelli, com Toninho...

 

P/2- Danilo Caymmi. 

 

R- É, com o Danilo. Aquele primeiro disco, eu lembro deles ensaiando exaustivamente meses na minha casa. Eu sabia de cor, Belo Horror era uma das músicas, a outra eu nem me lembro agora. A música era enorme, tinha sei lá, quinze minutos, Belo Horror. Eu até achei muito estranho que eles foram pro Rio gravar esse disco e quando eles voltaram, eu escutei a música e falei: “Mas não era isso que vocês tocavam aqui não.” (risos) Diminuíram a música, a música ficou desse tamanho. Também não tinha cabimento, ia ser um disco inteiro. 

Eu conheci o Beto primeiro. O Lô eu conheci quando eu morava ali na Rua Rio Grande do Norte com Avenida Pasteur. Minha mãe tinha um pensionato onde moravam 42 mulheres e de homem era eu e meu pai só na casa. Naturalmente me colocaram para a garagem, porque nessa época eu já tinha uns treze, quatorze anos e não dava muito pra ficar por ali, adolescente, cheio de mulher na casa - todas estudantes de Medicina, por causa da faculdade que é ali do lado. Aí eu transformei essa garagem: além de eu dormir nela, eu fiz um estúdio como esse daqui. 

A gente colocou essas placas, eu comprei de uma rádio que faliu em Belo Horizonte; comprei todas aquelas plaquinhas e a gente tratou o som. O pessoal começou a ir lá, o Beto ia muito. Chegava lá e tinha uma mesa de ping-pong enorme, então a gente vivia jogando ping-pong e tocando - quer dizer, mais ele, eu começando ainda a tocar. Eu escutava o Beto, o Toninho Horta, o Tavinho Moura. Foi todo mundo lá, o Milton esteve lá, todas essas pessoas passavam por lá e ficavam muito. Primeiro, tinha uma plateia muito bonita, então o pessoal já se interessava porque era uma garagem que tinha tratamento sonoro; podia-se tocar, não tinha problema com barulho. Foi um lugar que marcou bastante, todo mundo se lembra da famosa garagem da Rio Grande do Norte. O Telo Borges era outro que aparecia lá e ele era da minha geração. Ele é um ano mais velho que eu, se não me engano, ou quase a mesma idade, então a gente tocava também algumas coisas ali enquanto os caras saiam pra fazer alguma outra coisa. [Ali] ficava cheio de instrumentos.

 

P/1- Só voltando um pouquinho no que você falou de ter uma plateia muito bonita...

 

R- Eram as meninas do pensionato. No fim de semana, elas ficavam por ali, ou então elas estavam estudando, porque o pessoal que estuda Medicina estuda muito, tem que ler muito. A galera naturalmente estava sempre tocando ali na garagem, era próximo e tinha um jardim no meio, então as meninas sempre vinham ver. Foi lá que o Beto conheceu a mulher dele, a Silvana, então muitos namoros saíram dali, muita gente se conheceu ali.

 

P/1- Ela era estudante também?

 

R - Não. Eu acho que ela não chegou a morar lá em casa, mas não sei por que. Acho que a Silvana conhecia alguém ali, uma das meninas, então eu lembro da Silvana lá em casa também. Muita gente passou - tinha umas americanas, era engraçado. Teve aquele Peace Corps, eles mandaram na época algumas meninas dos Estados Unidos pra fazer intercâmbio aqui no Brasil e ficaram lá em casa. Ea engraçadíssimo, as americanas não falavam nada de português e a gente não falava nada de inglês, então ficava uma comunicação muito divertida. Isso era um caldeirão bem interessante de gente diferente e muitos músicos.

 

P/1- Você até poderia afirmar que essa garagem ajudou a construir o Clube da Esquina?

 

R- Eu acho que o Clube da Esquina já existia, realmente. Eu acho que ela foi uma ponte também. A gente saía de lá e ia para a famosa [Rua] Paraisópolis com [Rua] Divinópolis; eu ia pra lá encontrar o Lô, encontrar o pessoal que estava sempre ali naquela esquina, tocando violão. Quando não estavam lá, eles vinham para a garagem, então eu acho que era um outro ponto da cidade que tinha mais ou menos o mesmo tipo de encontro. As pessoas se encontravam pra tocar.

 

P/2- E nessa garagem também que começou a se ensaiar o show Fio da Navalha, não é?

 

R- É, O Fio da Navalha. Isso foi interessante porque era chamado 25 de Dezembro e ninguém fazia show no dia 25 de dezembro. Eu não lembro de quem foi a ideia, acho que foi do Flávio, a ideia de se fazer o show no dia 25. A primeira impressão é que não daria certo, porque ninguém iria a um show desses. Mas o pessoal falou “Não, mas 25 todo mundo está aqui, 24 é que é a ceia e 25 é um dia bom.” Foi, ficou durante muitos anos e os ensaios eram lá. 

Pintava o Toninho Horta, até o Sirlan teve uma época lá, Tavinho Moura, quem mais? O Beto, o Lô… Tinha mais gente, Yuri Popoff, tinha uma galera. Eu era o técnico de som dessa turma porque eu fazia eletrônica. Além de estar como músico, eles achavam - e eu, logicamente, também achava - que eu não estava maduro suficiente para participar daquilo, mas eu operava o som deles. 

Dali a gente fez muitos Fios da Navalha e dali também saiu o primeiro disco do Beto Guedes, A Pagina do Relâmpago Elétrico. Eu também fiz o lançamento como técnico nesse disco, eu fiz uns trinta shows com o Beto acompanhando essa turma toda. 

O Fio da Navalha tem um detalhe: O Fio da Navalha não fez só Belo Horizonte. Teve um show famoso em Viçosa que eu acho que foi a maior vaia que essa turma já tomou na história deles. Devia ter umas cinco mil pessoas em um ginásio e tinha um jogo não sei de se basquete, uma final de basquete local que era depois do show. Aí você imagina, o Lô, o Beto. Era vaia, ninguém ouvia nada, ninguém conseguiu tocar nada. Sempre que eu vou lá eu falo: “É, aqui foi o único lugar que eu vi esses caras tomando vaia séria, foi aqui.”

 

P/2 - Cláudio, e o disco Clube da Esquina, como foi o impacto quando você ouviu?

R - Esse disco que pra mim realmente foi um impacto. Pra mim mudou, foi um divisor de águas na minha vida, porque eu não gostava de música brasileira, eu achava [que] música brasileira não tinha nada a ver. Quando eu escutei, foi uma música que eu nunca tinha escutado em lugar nenhum, nada parecido com aquilo; não se parecia com nada que era feito no Brasil e tinha uma qualidade enorme, era uma coisa pop. O Clube da Esquina tinha isso, de ser uma coisa inovadora realmente, então mexeu comigo mesmo, ali mudou o meu caminho totalmente. Se eu não tivesse escutado aquilo, talvez hoje eu estivesse tocando no Sepultura ou alguma coisa assim. (risos) Eu era um cara mais chegado para esse lado de guitarras distorcidas; ao ouvir aquilo é que eu percebi que as duas coisas poderiam caminhar juntas.

 

P/1- E tem alguma música em particular?

 

R - Eu gosto de Clube da Esquina 1, eu acho que é a que eu mais gosto delas. E do Milton, especificamente, eu me lembro que quando escutei aquele disco dele com aquele saxofonista o Wayne Shorter, eu me lembro quando escutei aquela música Tarde (canta): “Das sombras quero voltar...”  Aquela gravação, eu lembro que eu fiquei assim: “Nossa Senhora, que coisa séria isso.” Isso faz muito tempo, foi um dos primeiros discos [do] Milton, ele nem gravou aqui.

 

P/2 - Quando começou sua relação com os Borges de começar a compor?

 

R - O Lô foi um cara que me colocou, eu falo que [foi] o meu padrinho, na verdade. Embora meu irmão tenha me dado muita força, quem me colocou no meio foi o Lô. Porque o Lô vivia lá na minha casa, a gente tocava, mas sem muita... Era eu e o Paulinho Carvalho, que até vai vir aqui dar o depoimento dele. 

A gente ficava tocando sem compromisso, o Lô tinha acabado de lançar o disco do tênis; eu não sei porque ele cismou com o pessoal que ele tocava no Rio, ele estava achando que não estava legal e voltou para Belo Horizonte. 

A gente começava a tocar e ele foi me ensinando as músicas dele. Ele, pessoalmente, foi me passando uma por uma. Eu não sabia tocar aquelas músicas, ele me passou e me chamou pra tocar com ele. Eu tinha, sei lá, dezesseis para dezessete anos de idade; eu não tinha [me] formado, estava fazendo o segundo grau ainda, era muito novo realmente. 

Aí a gente começou a fazer shows: éramos eu, Paulinho Carvalho, o Mario Castelo, André Dequech, aquele grande pianista e violinista, e o Lô. A gente tinha uma banda e começamos a fazer shows, foram os primeiros shows da minha vida. Ele me chamou pra gravar o disco Via Láctea, que também foi a primeira gravação que eu fiz profissionalmente antes do 14 Bis - no 14 Bis eu já devia ter quase vinte anos quando a gente formou a banda. Mas antes disso a minha história era com o Lô. 

Nisso, o Flávio estava em São Paulo com O Terço, estava terminando O Terço e começando a fazer turnê com o Beto e o Milton. Foi quando o Milton gravou Nascente, que é daquele disco Clube da Esquina 2, que foi onde eles participaram mais ativamente, o Flávio e o Vermelho. Eu estava com o Lô, então eu acho que quando o Flávio chegou aqui já me achou trabalhando com o Lô. Eu falo que o meu padrinho, na verdade, é o Lô. (risos)

 

P/1 - Voltando um pouquinho ao Clube da Esquina, você falou do impacto do disco. E como movimento? Alguns músicos, teóricos, classificam como movimento musical mesmo o Clube da Esquina. O que você acha disso?

 

R - Eu acho que realmente é, porque ele difere de tudo. Se você for ouvir o que se fazia de música na época, não há parâmetros. O Milton falou um negócio que eu sempre ouvi ele falando, que eu acho muito bacana. Como ele morava em Três Pontas ele ouvia rádio, mas às vezes as coisas vinham meio assim, então ele criou uma maneira de tocar inusitada. Você vê o Milton tocando violão, você vê o Lô tocando piano; eles inventaram uma maneira de tocar muito própria, eles não tiveram uma escola: “Ah, vamos aprender assim, porque é assim que se toca”, não. O ouvido veio, eles foram chamando e aquilo deu uma identidade, uma originalidade ao movimento, que eu acho que é a grande a força dele. Juntou-se isso aos poetas, ao Marcinho, principalmente, que é um cara que escreveu coisas fantásticas. A letra de Clube da Esquina 1, por exemplo, eu adoro porque ela fala exatamente aquela história que o pessoal vivia ali na esquina e aquela noite em que o Brasil estava dentro dela, era uma resistência. Essa garagem, por exemplo, é um lado que a gente não fala e também da esquina lá dos Borges; nós éramos visitados pela polícia diuturnamente. A nossa garagem também, muita gente pulou muro lá pra escapar da polícia, do DOPS; eu cansei de ver isso, na minha casa a gente escondia o pessoal dentro dos quartos para não ser preso, rolava uma perseguição muito grande no Brasil. A música era à saída dessas pessoas e isso marcou muito.

 

P/1 - E na esquina mesmo? Quando vocês iam pra lá, saíam da garagem para esquina, o que vocês faziam? 

 

R - Ficava tocando violão a noite inteira, sempre, tomando cerveja - na época eu nem bebia direito. Ficava mais era tocando violão mesmo, ou na casa do Lô porque tinha o piano, ou na esquina. Eu fica muito vendo eles tocarem porque eu estava muito novo, estava começando, então ficava tentando aprender, vendo o Lô tocar. 

E era uma coisa muito democrática. O que eu sempre achei muito legal é que não tinha essa coisa de “fulano é mais novo, mais velho”. Não tinha muito isso, não. As pessoas estavam ali pra se divertir, jogar futebol… Coisa de garoto mesmo, jogar bola e tocar violão. Era o grande barato.

 

P/1 - Eu vou fazer uma pergunta que eu ainda não fiz pra ninguém. Qual o papel das mulheres no Clube da Esquina?

 

R - O papel das mulheres era fundamental. O pessoal estava sempre atrás das namoradas. No caso dessa garagem, era um point muito forte por conta disso. Imagine, era uma casa com 42 mulheres, que deviam ter, em média, dezessete, dezoito anos, entrando em faculdade. Muitas meninas bonitas, então todo mundo queria tocar também pra agradar as meninas e tentar arrumar alguma namorada. Não tenha dúvida que isso fazia muito parte da história. (risos)

 

P/2 - E o 14 Bis, como é que foi a formação?

 

R - O 14 veio disso aí. O Flávio saiu, começou a turnê com o Milton Nascimento, daquele disco em que gravou Nascente e o Beto. A Odeon convidou o Beto pra gravar um disco. Já existia… Na verdade, a história do 14 Bis era meio [que] o fio da navalha. Era pra ser o Beto, o Lô, aquela mistura toda. Eles tinham essa ideia de fazer uma banda, só que o Beto resolveu lançar um disco solo, A Página do Relâmpago Elétrico, e ali tem quase a formação do 14 Bis, porque quem gravou aquele disco foi o Vermelho, o Hely [Rodrigues] e o Flávio [Venturini]. Em grande parte das faixas, três [integrantes] do 14 Bis estavam ali, presentes. Só não estavam eu e o [Sérgio] Magrão.     

Convidaram o Flávio também pra gravar um disco na Odeon. O Flávio disse que não queria gravar um disco solo, ele queria fazer a banda. A Odeon não queria, falou que banda não dava certo, que no Brasil banda iria durar um ano e separar, que dava confusão. E realmente havia pouquíssimas bandas nessa época; tinha o Som Imaginário, que tinha feito com o Milton, e poucas outras coisas. Aí [ele] bateu o pé.

Lembro do Adail Lessa, foi um que deu força, e o próprio Milton, que deu o aval dele. Falou: ”Contrata os meninos, que vai ser legal e eu produzo.” Acho que foi uma coisa fundamental; quando a gravadora viu que o Milton ia produzir, então tudo bem. E ele produziu aquele primeiro disco.

Nós morávamos em São Paulo na época, e eu trabalhava com aluguel de equipamentos de som - eu, sempre mexendo com a técnica. Eu e o Vermelho, a gente alugava P.A. [public address] para shows. Fiz muitos shows, os mais malucos possíveis: Emilinha Borba, Isaurinha Garcia… Operei essas coisas todas em São Paulo. 

Gravamos esse primeiro disco em 79, com a produção do Milton. Ele nos premiou com uma música, na época ninguém conhecia. A gente já vinha fazendo shows cantando uma tal de “Helencounter”. O pessoal falava: “Que música é essa?” Era a Canção da América, hoje tão conhecida. A letra original, feita pelo [Fernando] Brant, era… Na época, acho que eles estavam em Los Angeles. O Bituca compôs e eles estavam com saudade daqui, então fizeram a música toda em inglês. E nós cantávamos nos shows sempre em inglês, mas pra gravação desse disco a gente falava: “Puxa vida, seria tão bom se tivesse a versão. E eles achavam, acho que o Milton e o Brant: “Não, não vai dar certo, a gente fez…” Acho que foi o Vermelho que ficou enchendo a paciência do Brant por muito tempo, uns três, quatro dias ligando: “Faz, faz…” Até que ele disse: “Então eu vou fazer pra esse disco.” 

Fez e virou esse hino, Canção da América, por conta disso. A gente conhece a letra original, ela existe. De vez em quando a gente canta uns pedacinhos. E a letra é parecida, só que é em inglês. 

 

P/2 - E as influências do 14 Bis?

 

R - São muito diferentes. Todos têm, acho, em comum: gostavam de Beatles, do Clube - todos, o Lô, do Beto e aquele núcleo, o Toninho. Fora isso, o Vermelho é um cara que gosta muito do lado clássico, de escutar música renascentista - é uma influência grande que ele tem. O Flávio já tem outras, diferentes; ele deve ter falado delas aqui. O Magrão é um cara que conviveu muito com o Luiz Gonzaga, o pai dele acho que tocava com o Gonzagão, com Jackson do Pandeiro, então é uma influência completamente diferente. Conheceu o Gonzaguinha quando era pequeno ainda. E eu era o mais roqueiro da turma. Como eu era o mais novo da turma - eu tenho uma média de oito, nove anos de diferença pro resto da banda - eu fui aquele que pegou mais o rock inglês, que gostava daquilo. 

Eu me lembro quando eles me colocaram no cinema pra ver Woodstock, em 72. Não podia entrar de jeito nenhum, eu tinha quatorze anos. Eu lembro que foi o Paulinho Carvalho mais um ator, fizeram aquele bololô na porta do cinema e entrei. Ali mudou completamente a minha percepção musical, porque eu já vinha escutando aquela turma toda. 

Quando eu vi o [Jimi] Hendrix fechando no final do Woodstock… Quando estão recolhendo o lixo, ele toca um blues, é uma coisa maravilhosa. No dia que eu escutei aquilo, eu falei: ”Eu quero ser guitarrista mesmo. Eu vou fazer isso na vida.” Foi ali que eu decidi.                                                     

 

P/1 - E o [rock] progressivo?

 

R - Progressivo muito por causa que naquela época se escutava muito, inclusive lá em casa; nessa garagem a gente passava dias analisando discos. Lembro de um cara que é muito bom nisso, impressionante, continua sendo, o Beto Guedes. Ele tem um ouvido que a gente fala que realmente é impressionante. O Beto escuta umas coisas e fala: “Bicho, essa nota aqui!” Você fala: “Que nota?” Você vai ouvir e está lá. 

A gente pegava aqueles discos do Genesis e era uma festa. “Saiu o disco novo do Genesis!” Tinha reunião em casa pra ouvir aquilo, então juntava todo mundo, era uma coisa sagrada; escutava-se aquilo vinte vezes, decorava aquilo. A Mahavishnu Orchestra também, do John McLaughlin, a gente analisava aquilo profundamente e aquilo é uma música impressionante pra 1970, 70 e poucos; aquilo é uma música que hoje ainda dá um impacto fortíssimo. 

Estava presente muito porque tudo mundo gostava: o Beto, o Lô, o Flávio, o Vermelho. A gente fazia fila naquela famosa Pop Rock, aquela loja de disco da Rua Tupis, que era onde chegavam esses discos. Eu me lembro que nós compramos todos, tínhamos todos os discos do Genesis, do Pink Floyd e as da Mahavishnu [Orchestra] e ela teve uma influência muito grande no trabalho de todos esses músicos. Eu me lembro de uma música do Beto, Belo Horror, que tinha quase quinze minutos; ela tinha um lado progressivo muito forte, que depois foi diluindo um pouco mais. O pessoal foi fazendo mais canções, mas eu acredito que o lado instrumental disso é forte no trabalho de todos até hoje.

 

P/1- E quando você fala que vocês ficavam estudando os discos, como era esse estudo, o que vocês faziam?

 

R- Tirávamos as músicas todas, as letras, aquela coisa de ficar copiando mesmo. Não tinha a facilidade de hoje, então era no LP mesmo, na mão, indo e voltando, indo e voltando até tirar. Graças a Deus, o pessoal sempre teve o ouvido muito bom e uma facilidade muito grande de tirar as coisas, de tocar aquilo, porque são músicas difíceis. Tinha o Gentle Giant, que era também outro conjunto complicadíssimo que o pessoal ouvia. 

Tinha umas brincadeiras que a gente fazia também lá na garagem que era o seguinte: para estudo de ritmo, eu lembro que o Beto era um cara que eles reclamavam muito, porque quando a gente está começando a tocar, você tem uma tendência a correr; é a chamada acelerada, começar a tocar rápido e perder o andamento. Estava sempre o Vermelho reclamando com o Beto: “Está correndo, não puxa não.” Então a gente colocava o disco e o cara ficava ouvindo, aí a gente desligava o som e o cara ficava contado (estalando os dedos): “Aumenta o som para ver se você ainda está.” (risos) Era impressionante como o Beto realmente conseguia não perder o beat, o andamento, tinha essas maluquices assim.

 

P/1 - E isso acontecia com discos de MPB também?

 

R - Também, ouvia-se muito; ouvia-se tudo e só ouvia-se coisa boa. A discoteca era bem... A qualidade primava nesse pessoal. 

 

P/1 - Quais eram os de MPB?

 

R -  De MPB que se ouvia lá? Deixa eu ver… Dessa época, acho que era mais a galera daqui mesmo. Pouco depois veio o Guilherme Arantes, se ouvia muito as coisas do Guilherme, deixa eu ver quem mais entrou... Ah, eu não lembro. Eu tinha que olhar lá nos meus vinis pra ver o que é que tem. Mas eu lembro que a gente escutava muito o pessoal daqui, era mais o trabalho desse pessoal mesmo: Toninho, Tavinho, eles levavam essas coisas. Eu, principalmente, escutava muito rock inglês; além do que estava aqui, o meu negócio era… Garoto, quatorze, quinze anos com guitarra na mão... (risos)

 

P/2 - Tem algum caso em relação ao Clube que você gostaria de deixar registrado?

 

R - Eu lembro uma história muito engraçada com o Lô. Um dia, nós estávamos lá em casa de manhã e ele chegou com o Opala do pai dele, do Seu Salomão. “Ah, vamos lá pra Santa Tereza, vamos tocar, não sei o quê.” Aí saímos eu, Paulinho, o Lô - não sei se o Mario Castelo estava - e aí fomos para Santa Tereza. Tocamos violão, tomamos umas duas ou três cervejas por lá. Na volta, o Lô saiu em frente daquele pronto-socorro que tem ali na viradinha para entrar na minha casa; ele entrou ali com tudo, a traseira do Opala foi lá do outro lado e voltou. Quando voltou estava do meu lado; eu falei “Iiiiiih” e levou metade da árvore que estava assim. Nós falamos assim “Noossaa!”  

Paramos lá em casa e o Lô falou assim: “Seu Salomão vai me matar!” Nós ficamos desesperados: “E agora, como é que vai ser?” O Lô voltou pra casa e eu sei que deu um barraco danado, ele deve ter escutado muito do Seu Salomão nesse dia por conta disso. Eu não sei se ele pegou o carro emprestado, se foi assim, depois eu tenho até que perguntar pro Lô, mas foi uma história engraçada. 

E teve várias da garagem, da gente estar tocando achando que só tinha a gente, porque essa porta da garagem era de madeira, então tinha umas frestas muito grandes embaixo. A gente estava lá tocando; quando parava o som, daí a pouco o pessoal lá de fora: “Êeeeee! Valeu!” Aquele cheiro de maconha desgraçado do lado de fora. 

A gente olhava pela fresta [e] tinha vinte, trinta malucos sentados na porta escutando em silêncio, não davam um pio. A gente nem sabia que eles estavam lá e aí virou point, o pessoal já sabia. “Hoje o pessoal está lá.” Você podia olhar na frestinha que estava aquele bando; respeitosamente, não conversavam, não faziam barulho, não faziam nada, plateia mesmo, sem saber. Com uma porta de madeira na frente então eles não viam a gente, só ouviam. Isso é uma coisa bacana, essas não voltam mais.

 

P/1- E pegando essa emoção das suas lembranças, o que você acha atualmente do resgate de tudo isso, o que você acha do projeto do Museu Clube da Esquina?

 

R - Eu acho superbacana, porque vai juntando essas pessoas, de certa forma, novamente; depois dessa época cada um consolidou sua carreira. Nós construímos a nossa, porque já existia o Clube quando eu comecei, mas hoje tem 25 anos que eu estou com o 14 Bis, então essa história pra mim [tem] trinta anos ou um pouco mais. E hoje a gente está encontrando novamente as pessoas, vendo o Marcinho, vendo todo o pessoal aqui de novo. 

O Flávio está voltando para Belo Horizonte, voltando a morar aqui, então eu acho que é legal porque vai trazer um pouco daquilo, só que agora um pouco mais profissional, mas sem perder, eu acho, aquela mesma força e aquela mesma ideia que teve quando começou. 

Começou sem ninguém falar: “Vamos começar alguma coisa.” Não teve nada disso, pelo que eu sei, porque eu não vi realmente o começo do Clube da Esquina. Eu já o vi um pouco existindo, mas nunca percebi nada desse tipo. Se foi um movimento, é porque tinha que ser; ninguém quis fazer um movimento, ele se tornou um movimento. Acho que agora de novo estão se juntando essas pessoas, quem sabe não vem coisa nova aí.

 

P/1- Por falar em nova, o que você acha, existe uma nova geração em função do Clube da Esquina?

 

R- Eu acho que o Clube da Esquina influenciou e está influenciando todo mundo. Você vê o pessoal, o Samuel do Skank fala muito, foi uma pessoa que se influenciou muito com o trabalho principalmente do Lô. Hoje em dia eles trabalham juntos inclusive, você vê nas composições que tem ali a influência. Muita gente saiu do interior de Minas, do norte de Minas e veio pra cá por conta disso, por conta desse movimento musical que foi aqui. Então eu acho que [foi] um pólo que atraiu, foi um imã que atraiu muita gente boa que daqui foi para o mundo. Dizem que o Clube é do mundo, ele saiu daqui para o mundo; realmente, ele primeiro trouxe pra dentro pra depois levar de novo.

 

P/1- Cláudio, obrigada. Muito legal seu depoimento.



Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+