Busca avançada



Criar

História

Trocas solidárias

História de: Rejane Maria dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/06/2005

Sinopse

Rejane Maria dos Santos é usuária do Programa de Agentes Comunitários de Saúde em Recife, Pernambuco. Nesta entrevista ela nos conta como de um dia para o outro se tornou a principal responsável pelos seus irmãos, tendo que parar os estudos para trabalhar e criá-los. Conta também das doenças que atingem sua região, tendo ela mesma pego algumas; para curar Rejane faz remédios caseiros, entre eles o chá de milho. Mãe de três meninas, Rejane está sempre atenta, leva elas para consultas médicas e a vacinação está em dia, de modo como a agente comunitária lhe orienta. Ademais, está sempre disposta a ajudar de alguma forma os agentes comunitários, por quem tem muito apreço.

Tags

História completa

P/1 – Recife, 15 de maio de 1997, estamos no bairro Vietnã conversando com a usuária do PACS [Programa de Agentes Comunitários de Saúde], Rejane Maria dos Santos. Rejane, eu vou pedir para você repetir o seu nome completo, em que cidade você nasceu e em que dia que você nasceu.

 

R – Tá certo.

 

P/1 – Então, fala.

 

R – Meu nome é Rejane Maria dos Santos, eu nasci no dia 8 de fevereiro, tenho a idade, por se dizer...

 

P/1 – Quantos anos você tem?

 

R – Tenho 24 anos, tenho três filhas e moro no bairro do Vietnã.

 

P/1 – E me fala uma coisa: você nasceu em que cidade?

 

R – Eu nasci aqui mesmo, no Recife.

 

P/1 – Em que bairro você nasceu?

 

R – Nasci no bairro (Lucena?), o nome do lugar eu não sei.

 

P/1 – E qual é o nome de seus pais?

 

R – O nome do meu pai é José (Silveira?) dos Santos, Judite Maria dos Santos é o nome de minha mãe. Precisa o do meu esposo?

 

P/1 – Mais tarde. E me fala uma coisa: o que é que seu pai faz?

 

R – Meu pai era pedreiro. Pedreiro, trabalha em construção: negócio de levantar parede, fazer casa, construção de casa, coisa assim e minha mãe trabalhava em casa, serviço doméstico mesmo.

 

P/1 – E quantos irmãos você tem?

 

R – Ao todo eram dez; agora ficaram oito, porque morreram dois, ficou oito.

 

P/1 – Como que eles morreram?

 

R – Ah, foi quando ______, quando teve. Aí, na hora ela teve...

 

P/1 – Ah, já morreu... Vocês sempre moraram aqui em Recife?

 

R – Sempre. Eu sempre morei aqui.

 

P/1 – Quando você começou a morar aqui no Vietnã?

 

R – Eu comecei a morar... Eu mesma morava na Rua Vinte e Um de Abril, lá do outro lado. Depois a mãe do meu esposo faleceu, aí eu vim morar na casa dela, que a gente estava morando na casa dos (pais?). Aí, veio morar aí. Estamos morando aqui no Vietnã faz pouco tempo. Se muito faz, faz uns quatro anos que a gente está morando aqui.

 

P/1 – Rejane, você tinha oito irmãos. Como era a convivência na tua casa com os irmãos?

 

R – A convivência, assim, porque quando eu estava com quinze anos, meu pai, mataram. Meu cunhado matou meu pai. Aí a gente ficou sem pai. Mas antes disso minha mãe já tinha morrido; a minha mãe morreu de parto. Antes a minha mãe já tinha morrido. Aí fiquei eu e meus irmãos. Eu que tomava conta da casa, dava conta dos meus irmãos. Depois eu peguei e casei, fiquei com minha outra irmã encostada também em casa. Estamos convivendo, vivendo bem, não tem confusão, não tem arenga, um ajuda o outro... A gente é assim hoje, normal. Tem gente que é muito assim: quando a mãe e o pai morrem sempre fica confusão, não é? Mas não, graças a Deus, um trabalha pra um lado, outro trabalho para outro, um ajuda o outro.

 

P/1 – Vocês continuaram a morar na mesma casa?

 

R – Na mesma casa.

 

P/1 – E como vocês faziam pra sustentar a casa, pra dividir essas coisas?

 

R – Minha tia resolveu o INPS [Instituto Nacional de Previdência Social] do meu pai. Aí ficou o INPS do meu pai ajudando. Ainda hoje recebe, lá. Quando a outra ficar de maior, já vai pra uma menina que está em São Paulo. Com meus irmãos foi assim: os menores minha tia pegou e botou pra um irmão do meu pai tomar conta, botou pra outro, outro, porque ficaram três separados da gente; um foi pra São Paulo, outro pra Goiânia, outro morou no Ibura, tem um que mora lá em São Martinho, com a madrinha. Aí, pronto. Agora o que estava no Ibura voltou pra casa, aí está tudo junto de novo. Agora, as outras, continuam duas longe da gente, ainda.

 

P/1 – Onde que elas estão?

 

R – Mora uma em Goiás e a outra mora em São Paulo, na casa de minha tia e meu tio.

 

P/1 – Rejane, você estudou?

 

R – Eu estudei até a segunda série, parei porque eu tive que trabalhar pra ajudar meus irmãos. Tive que ajudar dentro de casa, assim, alguma coisa... Porque só era eu, tudo era eu, que era a mais velha, não tinha outra maior do que eu, então eu tinha que ajudar eles. Minha mãe quando morreu deixou uma menina com três meses em casa, eu tive que cuidar. Cídia me ajudou muito, quando estava na fase de crescimento, meus irmãos tudo assim, ela me ajudou muito, me ajudava mesmo. E assim, a maioria do povo sempre ajuda a gente, alguma coisa que a gente precisa, estão sempre ajudando a gente, dando uma mão à gente, dando a maior força. Agora está tudo grande, o que é mais novo está com dezesseis anos. Aí, pronto: está estudando, está trabalhando nesse negócio que tem aí, de se inscrever de menor... Eu esqueço o nome.

 

P/1 – Isso não tem problema. (risos)

 

R – Ele está se virando, tá dando pra se virar por enquanto.

 

P/1 – Em que escola você estudou?

 

R – Eu estudei na escolinha Elizabeth Coutinho de Barros [Escola Municipal Professora Elizabeth Sales Coutinho de Barros].

 

P/1 – Onde?

 

R – Na vila. Fica aí, na vila. Aqui perto.

 

P/1 – E como era essa convivência na escola, teus colegas...?

 

R – Bem... Eu era uma menina calma, conversava muito com as pessoas que me entendiam mais. Sei lá... Porque eu tinha medo de me juntar com os colegas e me “coisar” em coisa errada. Sempre fui uma menina calada, não queria muita conversa com o pessoal do colégio. Aí, pronto. Eu peguei e saí, não estudei, agora me arrependo porque não estudei até ______. Não estudei. Parei. Porque também não tive tempo, precisava trabalhar.

 

P/1 – Rejane, você teve educação religiosa, alguma coisa que teus pais te passavam?

 

R – Minha mãe era crente, da Assembleia. Só meu pai que não era; ele era católico. Quando eu era pequena, que a minha mãe era crente, eu não era, não. Depois que eu casei, meu marido foi, eu fui. Aí, pronto: fiquei. Meu pai não tinha nada disso de religião, dessa coisa, não. Apesar de que meu pai brigava muito com a minha mãe, meu pai não deixava minha mãe ir para a Igreja, arengava, sabe? Aí sempre a gente ia. Minha mãe me levava, levava meus irmãos. Aí, pronto. Ficava indo para o colégio, só era isso mesmo. Pra sair pra rua, era difícil eu sair, meus pais não deixavam, pra sair para os cantos, mesmo eu namorando com o meu esposo; quando eu estava namorando com ele minha mãe e meu pai não deixavam eu sair, só era mais presa dentro de casa. Porque também, é assim, o jeito que a coisa é hoje, a gente não deve confiar em nada. Minhas meninas, mesmo, eu crio presa. Crio presas dentro de casa, porque eu não confio deixar elas soltas. Aí, pronto. Meu pai e minha mãe nunca tinham isso de religião, não. Agora, eu gosto muito de ir à Igreja, eu gosto muito, porque a gente na Igreja se sente tão bem, melhor do que estar em casa, do que estar na rua. Aí, é assim, o pessoal... Minha mãe nunca ______, papai também não. Esse negócio, não. Apesar de que eles dois não são vivos, mas eles nunca falaram pra gente ir para os cantos, assim, pra decidir o que a gente quer, o que a gente não quer, essas coisas. Você quer ser crente, você quer ser aquilo, mainha nunca falou isso, nem papai nunca falou.

 

P/1 – O que você gosta da Igreja? Você fala que gosta de ficar lá.

 

R – Eu gosto das palavras, eu acho muito bonito os pastores falando, as adolescentes cantando, as crianças cantando, o conjunto, o coral, eu gosto de escutar os hinos, acho muito bonito, e acho bonito o jeito que esse pessoal adora a Deus. É muito bom depois que a pessoa vai ser crente a pessoa muda, porque eu era assim, veja, eu não gostava de dançar, eu gostava de me divertir mais em casa, na rua, não, em casa. Gostava de escutar música de todo mundo, gostava dessas coisas tudo, mas depois que eu fui crente, eu não ligo mais pra essas coisas, não ligo mais pra televisão, não ligo pra nada. Nada disso eu não ligo. Fico mais dentro de casa, eu não sei ler, eu peço pro meu marido ler a Bíblia pra mim, essas coisas... Porque a gente tem que olhar o lado bom e o lado melhor. Eu achei pra mim melhor o lado crente, apesar de que eu já não era, e me arrependi muito de não ter sido antes, porque eu gostaria muito de ter sido quando eu era pequena, minha mãe ia, eu ia, mas não entendia nada. Agora, eu gosto disso. É melhor do que estar em casa. A gente quando está aperreada e apega em Deus, sempre a gente vem alegre; quando está preocupada com coisas, a gente entrega na mão de Deus e Deus sabe o que é que faz. A gente sempre (dá um jeito de?) arrumar alguém, vem alguém e dá um conselho à gente, já é alguma coisa. Eu gosto muito, gosto muito, mesmo. É coisa muito boa.

 

P/1 – Certo. E o que você lembra da tua infância? Você lembra que a tua mãe usava remédios caseiros com você, você se lembra de alguma doença que teve na família toda, catapora, alguma coisa assim?

 

R – Eu tive sarampo quando eu era pequena. Quando eu era pequena, minha mãe dava sempre quando eu tive sarampo, minha mãe dava chá de milho, era banho, era água morna, essas coisas... E logo quando eu era pequena eu me lembro que eu tive catapora e sarampo, somente. E minhas irmãs, teve uma que teve um problema de nervoso, sistema nervoso, que vivia tomando remédio controlado, minha mãe só vivia nos hospitais com ela; depois que ela teve grande, não teve mais isso, graças a Deus não teve mais. A minha irmã também, a outra, que é mais nova, teve problema de ficar internada por causa dos problemas que ela teve de uma queda que ela levou. Aí, teve que ficar internada, passou uns tempos. Para ela ficar boa minha mãe dava o remédio, pra ela ficar boa minha mãe teve que fazer um voto a Deus. Fez um voto a Deus que ela melhorasse, ela ia ser uma crente. Aí, pronto. Ela melhorou, minha mãe terminou sendo crente. Aí, pronto, morreu crente. Mas quem adoeceu lá em casa era mais a Rosana e a Regina, essas duas minhas irmãs. Essas duas que eram doentinhas, mesmo, ficavam mais doentes. E tinha a outra que tinha um problema de cansaço, minha mãe só vivia nas farmácias com ela, de madrugada, assim, saia de madrugada, tudo, minha mãe ia e eu ia atrás dela, essas coisas todas. Depois que cresceram não tiveram mais, não tiveram problema mais. Isso me aperreou, porque às vezes meu irmão que é encostado a mim, teve um problema que nasceu um abcesso nele, aí eu tive que levar pra ______; o braço dele ainda está meio inchado, que ele está cuidando aqui, mesmo. O (doutor?) está dando uma força, (Cidinha?) está dando uma força, ajudando ele, porque eu fico na minha casa, mas fico muito preocupada com meus irmãos. Eu sempre vou lá, dou uma mão a eles, pergunto o que é que eles têm, converso com eles, que a gente não sabe o que acontece. Quando eles vão para o colégio eu fico em cima, assim, perguntando, eu fico preocupada porque só tem eu, só tem eu e tem o meu esposo. O meu esposo ajuda muito eles também, sempre dá uma mão. Minhas tias também ajudam, mas moram longe. Aí, tem só a gente mesmo, pra tudo.

 

P/1 – Como que você conheceu o teu marido?

 

R – Eu conheci ele perto da minha casa. Lá atrás tem um quintal grande, não era murado, um colega dele morava do lado, ele ficava conversando com a minha mãe, perguntando onde é que eu morava, essas coisas. Aí a minha mãe: “Ela mora aqui mesmo, ela é daqui mesmo”. Minha mãe gostou muito dele, queria porque queria que eu namorasse com ele. Eu falei: “Mãe, eu estou muito nova pra namorar, eu não quero namorar agora, eu não tenho cabeça pra essas coisas de namorar, não”. Aí ela falou: “Mas se você gosta dele...”; “Não, não gosto”. Aí, (eu ia sempre pra sorveteria pra comprar sorvete pra revender em casa?), eu sempre pegava ele pra ir comigo, que nem amigo, conversava, tudo. Aí, pronto, fiquei gostando dele, ele ficou gostando de mim, depois ele foi falar com meus pais, meu pai aceitou. Só que era muito chato. Era chato porque, sei lá, eu nunca tive namorado, era a primeira vez. Aí, meu Deus do céu, o que é que eu vou fazer? “Mas depois, Rejane, vocês podem casar, podem ter filho...”;  “Filho? Não”. ______ menino. Depois de eu estar de um mês de namoro com ele, a gente estava bem, tudo, minha mãe faleceu. Aí ficou meu pai. Depois, a gente pegou e casou, meu pai ajeitou tudo, a gente casou, ficou junto. Aí eu fiquei morando lá em casa, que eu não tinha onde morar, ele não tinha condição de comprar um cantinho, estava fazendo o ______; aí o meu pai ia ajeitar pra gente tudo, fez o casamento da gente tudo certinho. Depois de um mês que minha mãe morreu, depois de dois meses meu pai faleceu. Aí ficou a gente. Eu tive que cuidar de tudinho, fui-me embora pra casa dele, depois voltei pra lá de novo, porque eu tive que ficar lá, depois cresceu tudo, ficaram de maior, eu falei: “______ arrumar um canto pra gente”. Aí foi que a mãe dele faleceu. Quando a mãe dele faleceu a gente foi pra lá, repartimos um pedaço de casa pra mim, um pedaço de casa pra irmã dele. Aí ficou morando tudo junto, tudo junto não presta, cada um quer partir para o seu canto, seu cantinho. Aí, pronto. Ficou tudo junto e até hoje.

 

P/1 – Rejane, sua mãe morreu do quê?

 

R – Minha mãe morreu de problema. Ela teve uma menina, aí depois ficou... Fez uma operação, fez uma ligação, depois ficou com uns problemas, sentindo uma dor, uma dor, uma dor... Só vivia no médico, com ela pra lá e pra cá, o tanto que ela ia eu ia com ela. Ela esteve internada, depois mandaram pra casa, internaram de novo, mandaram pra casa, depois disseram que não tinha jeito, que ela só tinha seis dias de vida. Fizeram novos exames nela e disseram que não tinha jeito mesmo. Meu pai e eu passávamos sempre a noite com ela. Meu pai pegava ______, disse: “Ela vai ficar boa, ela vai ficar boa”. Quando foi num dia que eu fui pra médica, que eu não entendia, eu fui pra passar a noite com ela, cheguei de novo lá no hospital e ela começou a vomitar sangue – e eu sem saber o que era. Eu disse: “Mainha, foi a sopa que a senhora comeu”. Ela disse: “Não, sopa, nada. Isso é sangue”. Eu disse: “Foi a sopa”. Aí ela ficava preocupada, ela não urinava, ela não obrava pra tomar banho, nem andar ela não andava, sentava na cadeira de rodas pra dar banho nela. Num dia chegou uma conhecida minha, eu estava pra descansar um pouco em casa, eu disse: “Vó, a senhora fica com ela?”, era uma conhecida minha, eu chamava de vó. “A senhora fica com ela enquanto eu vou pra casa trocar uma roupa, tomar um banho pra descansar um bocado?”; “Tá certo”. Aí passou a noite com a minha mãe. Quando foi duas horas da manhã ela já não falava mais. Ela no oxigênio ______ só virava os olhos, sem beber água nem nada, comer, nada. Aí, tudo bem. Quando foi de quatro horas da manhã, dia... Foi esse mês de... Que a gente está agora... Foi no dia 9, esse mês de...

 

P/1 – Maio.

 

R – Maio. Dia 9 de maio que ela morreu. Faz sete anos, sete anos já que ela faleceu. Aí ela pegou e morreu 4 e 45 da manhã. Eu não acreditava, eu fiquei assim... Porque os irmãos fizeram uma oração lá e eu fiquei muito contente que ela ainda bebeu água, todo mundo conversou, por causa do jeito dela revirar os olhos eu notava que ela estava querendo conversar alguma coisa com a gente e não podia. Agora, ela não conhecia os outros filhos; depois que ela ficou doente ela não ficou conhecendo os filhos mais. A única dos filhos que ela conhecia era eu, que ficava direto com ela lá, conversando, tudo, ela perguntava quem era meu marido, porque depois ela ficou sem conhecer, a doença ficou tão “coisada” que ela ficou com a mente “coisada”. Eu disse: “Mas a senhora vai melhorar, mãe, a senhora vai sair daqui, tenho fé em Deus que a senhora vai sair daqui”. Aí não tinha jeito mesmo, porque ela estava com três tipos de doença.

 

P/1 – O que era?

 

R – Era câncer, e tinha outro problema que era problema de baço, que ela foi operada de baço duas vezes; teve outro problema também que quando teve a menina levou uma queda, aí machucou com a ______ no tripé e não cuidou logo, ficou aquela mancha, e ela não cuidou logo. Aí, pronto, até hoje...

 

P/1 – Você já estava casada, não é?

 

R – Eu estava casada já.

 

P/1 – E você já tinha filho?

 

R – Tinha não. Eu vim ter a Aline com dezesseis anos. Com dezesseis anos tive a primeira filha. Quando meu pai morreu eu estava com três meses de gravidez.  Depois que ele morreu eu tinha que andar em frente a minha vida, ver meus irmãos, ajudar, mesmo grávida eu trabalhava na casa dos outros, ajudava, meu marido me ajudava muito, que tinha que ajudar, tinha que fazer alguma coisa. A vida da gente ficou muito difícil, às vezes faltava as coisas pra gente, mas sempre eu dava um duro, faltava, mas sempre naquele dia que tinha certinho eu comprava as coisas direito para os meus irmãos, nunca faltou graças a Deus, nada. Eu tenho uma irmã que é meio adoentada, aperreio, sabe aperreio, que ela é meio doente da cabeça, porque ela tem que ficar com remédio controlado. Aí eu parei uns tempos. Agora ela teve um menino e não sabe quem é o pai do menino. Aí já vai me aperrear, tomar conta desse menino, tomar conta dela, tudo, o menino tá com um ano e sete meses, ela engravidou de novo. Eu falei: “Meu Deus, o que eu vou fazer?”. Eu tenho que arrumar uma ligação pra ela, tenho que fazer qualquer coisa. Meu marido e eu, a gente se aperreia muito, se preocupa muito. Eu mesma tenho que me preocupar com meus irmãos, porque só tem eu, e se um dia acontecer alguma coisa, a responsável sou eu, que sou a mais velha. Mesmo que eu casei, eu tenho que dar conta dos meus irmãos, também. Eu dou conta das minhas filhas e dou conta de lá. Ajudo as duas casas: ajudo a minha e a deles, que quando eu termino as coisas lá, vou cuidar lá, essas coisas. Eu sei que a gente tem que ajudar, ajudar um ao outro, porque a desunião não traz nada de bem. Esse mês de novembro mesmo, no dia 21 de novembro, eu perdi o meu irmão. Era o mais velho, mesmo. Mais velho encostado a mim, mesmo. Agora ficou o outro. Ele caiu do ônibus, foi trabalhar e o motorista deixou a porta do ônibus aberta, na hora que ele foi fazer a curva meu irmão caiu. Estava ele e meu cunhado. Meu cunhado procurou ele dentro do ônibus e não encontrou. Quando olhou pra trás, na vidraça do ônibus, ele estava estirado no chão. Meu cunhado começou a gritar, gritou pra parar o ônibus, aí parou o ônibus. Quando foi pegar ele, ele estava caído no chão, respirando pouco. Levou ele para o hospital, chegou lá ele tinha falecido; quebrou o pescoço. Eu estava meio adoentada esse dia, estava com um problema, fiquei com infecção na urina. Aí estava fazendo tratamento no dia que chegou a minha irmã gritando: “Jane, Rogério morreu”. Eu fiz: “Não, não acredito”, porque era um irmão que me ajudava muito, trabalhava na feira, negociando com coentro, alface, essas coisas, muitas vezes eu ia junto de madrugada com o carro de mão vender, que a gente tinha horta aqui perto, depois parou, depois que ele morreu eu parei. Não tive cabeça mais pra negociar com nada. Quem está agora é minha irmã.

 

P/1 – Vocês faziam a horta?

 

R – É, a gente fazia. A gente plantava (valerão?), plantava alface, naquela pista ali.

 

P/1 – Perto da rodovia?

 

R – É. Sempre faz ali a horta. Agora quem está tomando conta dessa horta é meu tio. Meu tio que está lá tomando conta. Eu sinto uma falta muito grande, porque ele me ajudava muito, eu fiquei muito sentida, às vezes eu nem acredito que ele morreu. Eu nem acredito. Ele tem uma menina também. A menina dele, a esposa dele é que está tomando conta. Eu mandei pra ela, porque eu tomei conta dela, ela tinha a mãe dela. Aí, pronto, aconteceu isso. Aí, até hoje... A gente está aí, todo mundo junto, dá uma força, é uma pena tão grande, porque na hora, no dia, assim, comprar as coisas, comprar caixão, eu não tive cabeça de andar, quem andou foi meu tio, que resolveu o enterro dele. Pra ir ao hospital eu não fui, eu não tive coragem de ir ver ele, fui somente para o cemitério, mas fui a pulso. Cheguei lá comecei a passar mal, meu marido começou a se aperrear comigo: “Tu tá muito nervosa, acalma um pouco”. Aí eu me conformei, tive que me conformar, porque chorar não traz ele de volta. Meus irmãos, mesma coisa. Agora, não pense que eu não sinto falta. Sinto falta, e muito.

 

P/1 – Sente, não é?

 

R – Sinto. Mas, fazer o quê? Quando tem que chegar o dia, chega e pronto.

 

P/1 – Rejane, você participa da comunidade aqui?

 

R – Eu participo. Sempre eu venho pra reunião com as meninas, pra campanha do leite, mesmo, Cídia, ______ minha menina. Depois, no dia 21 de janeiro, que ela completou cinco anos, tiraram ela, porque com cinco anos, sai. Está no peso normal, trouxe ela pra Luiza, a doutora daqui, a Luiza disse que o peso dela estava bom; aí mês passado ela disse que ela estava com um peso muito baixo, eu disse: “É porque ela saiu do leite”, porque ela tomava leite quatro vezes ao dia. Sempre eu fazia uma papinha, mingau, dava um copo de leite no lanche com biscoito, essas coisas. Mas agora não tem, porque as condições da gente, que a gente está, não tem como comprar; ou eu compro o alimento de casa ou o leite, uma coisa ou outra.

 

P/1 – Você tem três filhas.

 

R – Tenho três meninas e ainda dou conta da casa do meu pai.

 

P/1 – Essa que estava no programa de leite é a mais nova?

 

R – É a mais nova. As outras não estão, porque a outra tem oito anos e a outra tem seis.

 

P – E as outras estão com o peso normal?

 

R – Só quem está com o peso normal é a mais velha. Mas a encostada à de maior não está com o peso normal, também. O peso dela está baixo e não está tendo um crescimento, a doutora disse. Eu tenho que fazer novos exames nela, de novo, a doutora disse, pra ver o crescimento dela, porque ela tem que ter crescimento, tem que aumentar o peso, porque o peso está pouco pra idade dela... Essa semana mesmo eu estava fazendo uma faxina, fui ontem comprar uma vitamina pra ela, Poliplex, pra ver que aumenta já o peso dela. Porque eu conversei com Cídia, Cídia disse que ia fazer um jeitinho pra botar elas, porque tem que falar com a mulher lá do posto ______. Eu esqueço o nome dela, mas tem que falar com ela, pra ver o que é que ela diz. A doutora mandou eu voltar, agora em junho eles vão fazer um jeitinho pra elas voltarem, porque elas sabem a situação da gente, tem muita gente aqui que precisa e tem muitas, assim, que precisa e não sabe fazer por onde, entendeu? Tem muita gente que recebe o leite e não sabe fazer por onde, sempre xinga as meninas, não sabe agradecer o que elas fazem, porque tem muita gente aqui.

 

P/1 – Então, me explica uma coisa. Vamos lá: quem que é a Cídia?

 

R – A Cídia é essa que faz a coisa da rua. Essa que entrou aqui.

 

P/1 – A agente comunitária que está...

 

R – É a presidente agora. Presidente do posto, não é? A presidente da comunidade agora. Ela ajuda muito as pessoas.

 

P/1 – Fale mais um pouco do trabalho dela. O que é que ela faz? Ela vai na tua rua, vai na tua casa, explica pra mim.

 

R – De mês em mês ela vai em casa, procura saber como que a gente está, o peso, mede a criança, pra ver...

 

P/1 – Ela mede com o quê?

 

R – Ela mede com uma coisa de medir que ela tem. Ela mede, pesa pra ver como é que está; se estiver normal, ela marca o dia da doutora, essas coisas assim. Pergunta como é que está, pergunta à gente sobre as meninas, o peso delas, como é que elas estão... Assim, se você acha que ela aumentou ou diminuiu, enquanto eu vou dizendo, conversando, ela marca num cartão, diz como é que está tudo. Ela sempre vai mês em mês perguntar das vacinas das meninas, se estão em dia... Faz muitas perguntas, mesmo.

 

P/1 – Bom Rejane, como que a Cídia sabe que a criança está com peso certo ou não? Como é que ela consegue acompanhar isso?

 

R – Não, é porque ela muito tempo que acompanha as minhas meninas; ela manda eu vir pesar, eu venho e peso, mesmo quando ela não manda, eu venho e peso, que eu sempre fico pesando minhas filhas pra ver como é que estão. Eu tenho muito cuidado para as minhas meninas não adoecerem, não pegarem problema de (desidratação?), porque teve uma que já teve, passou uns tempos internada, passei quase três meses internada com a menina encostada à mais velha, passei um bocado de tempo com esse negócio de (desidratação?) que ela estava. Eu tinha muito cuidado, muito medo. Ela sempre ia lá, dizia, sabe, porque ela sempre vê que eu venho ao Posto, eu digo a ela como é que estão as coisas, ela diz: “É mesmo Rejane, você tem que ir na doutora de novo”, aí eu vou. De mês em mês eu não deixo de trazer.

 

P/1 – Traz as meninas?

 

R – Trago as meninas para aqui. De mês em mês eu trago elas. Eu nunca deixo de trazer, não. Ela sempre vai em casa, pergunta, ela nunca deixou um mês de ir lá em casa. Nunca deixou. Ela sempre vai, sempre acompanha as meninas direitinho, é um povo que ajuda muito a gente. Se não tivesse, não sei nem o que seria de mim, nem das minhas filhas, porque se a gente for pra CEASA, a gente tem que ir de quatro horas da manhã.

 

P/1 – CEASA é o quê?

 

R – A CEASA é aqui.

 

P/1 – Ah. Pra fazer o quê?

 

R – É o posto médico lá.

 

P/1 – Ah, é o posto médico.

 

R – É. Aí a gente tem que vir de quatro horas da manhã, três horas da manhã, arriscando muito a vida. Aqui não, já fica mais perto, as meninas já ajuda, faz um jeito, sempre quando a gente não consegue uma ficha ela dá um jeitinho, bota a gente. Eu sempre vejo as meninas assim, com problema de cansaço, essas coisas, ela ajuda, mesmo. E elas, quando vão visitar lá em casa, perguntam muita coisa à gente. Às vezes até eu me esqueço das perguntas que elas fazem, pergunta como é que estão as meninas, como é que está o peso, como é que está a gente, a situação, elas fazem tanta pergunta, porque elas entendem, porque aí vê a criança ______, é porque não dá alimento, que a gente não tem pra dar à criança. Quando a situação da gente está ótima, tudo bem, mas quando não está, ela já entende, já sabe a situação, aí ela dá ajuda, uma dá uma mão, outra dá outra. Já é alguma coisa. Por isso que eu gosto muito quando elas vão à minha casa, converso muito com elas, gosto muito quando elas vão visitar na minha casa, gosto muito de conversar com Cídia, falo muito sobre as crianças, porque tem muitas crianças por aí que os pais não ligam. Eu disse: “Doutora, seria tão bom que as minhas meninas aumentassem o peso, pra dar vaga à outra, não é? Porque elas estão grandes, mas não sai o crescimento de jeito nenhum, essas meninas.” Aí eu fico conversando com a doutora e a doutora me disse: “Você tem que fazer novos exames pra ver o que a gente vai fazer”. Eu fiz os exames ontem, estava chegando, fiz os exames delas e vim direto pra cá.

 

P/1 – Quais exames que você fez?

 

R – De sangue, urina e fezes. Aí eu disse: “Tá certo”. Quando a gente faz no IMIP [Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira] vem o resultado pra cá. Aqui mesmo a gente já vai com a ficha, com o exame dentro e entrega à doutora. Aí já fica mais fácil pra gente, pelo menos a gente nem se preocupa muito, porque elas ajudam, sempre ajudam. E quando eu me esqueço de pesar as meninas, aí ______: “Rejane, é dia de pesar as meninas”. Tá certo, eu vou. Mas sempre, sempre eu estou assim. Quando aparece qualquer coisinha nas meninas, qualquer problema na perna delas eu fico preocupada, fico aperreada, porque com esse negócio da dengue agora a gente fica preocupada, e muito, não é? As muriçoca, essas coisa assim... Eu fico com medo. Aí, (Dodô?) sempre me dá uma mão lá em casa. Está sempre por lá. A Cídia me dá uma mão, me ajuda, é assim mesmo, sei lá... É muito legal, elas são legais demais.

 

P/1 – Elas acompanharam as tuas gestações?

 

R – Acompanhou. Até a gravidez da primeira menina, sempre Cídia me acompanhou. Sempre o peso, tudo normal, esses negócios, as vitaminas que eu tomava, ela sempre explicava pra eu tomar vitamina, pra não ter problema. Apesar de que todas as gravidez aqui elas ficam em cima. Todas. Elas ficam sempre assim, procurando o peso da mãe, medindo a barriga, essas coisas... O peso, pra ver que está normal, os exames que elas passam pra gente, eu sei que é uma ajuda, já. Principalmente a doutora Ana Paula, ela sempre ajuda a gente em muita coisa.

 

P/1 – Você fez pré-natal?

 

R – Fiz pré-natal aqui. Da minha primeira menina, da segunda e da terceira. Tudinho aqui. Apesar de que elas nasceram com os pesos baixos. A mais nova, quando nasceu, pesou 2,5 kg. A encostada à mais nova pesou 2,8 kg. A outra pesou 3 kg e pouco, mas pra ser um peso, sei lá, (Dodô?) não gostava dos pesos. Só a mais velha que teve um peso mais pra cima, mais um pouco. A mais velha, porque as outras, eu não tinha assim, eu grávida trabalhava muito, fazia muito esforço, trabalhava muito, carregava carrinho de mão lá pra Mustardinha pra vender coisa na feira de lá, vender alface, também acordava de madrugada, não descansava, não tinha alimento nas hora certas, eu sempre passava das horas de comer, porque eu tinha que trabalhar pra ajudar ele, ele me ajudava também, era assim... Um ajudava o outro. Aí (Dodô?) sempre me dava uma mão, sabe, (Dodô?) sempre ______. Aí ela sempre me ajudou, as gravidezes ela sempre me acompanhou certinho.

 

P/1 – E você amamentou teus filhos? Como é que foi?

 

R – Amamentei. Amamentei minha menina, a mais velha, ela mamou até seis meses. Com seis meses não quis mais. Já a encostada à mais velha mamou pouco, porque eu estava com problema no seio, que é desses quando a criança arrota no seio, o seio fica todo empedrado, daí meu peito ficou, fiquei com febre...

 

P/1 – Ah, tá!

 

R – Eu peguei e falei pra doutora do Banco de Leite pra ficar dando leite à criança, porque ela nasceu muito pequena, mesmo, a minha menina, a encostada à mais velha. Aí teve que fazer tratamento, aí eu ia, todo mês eu não deixava de ir, não. Elas me explicavam, assim, pra eu ir, eu fui. (Dodô?) sempre ia lá.

 

P/1 – Tinha que ir todo o dia?

 

R – É. Todo dia. Assim, em mês em mês. Assim: eu ia hoje, aí outro dia eu tinha que ir de novo. Era seguido, assim. Porque ela não deixava, ela não podia deixar de tomar leite materno. ______. Aí sempre ajudava em alguma coisa. Eu ia, tudo, dava de mamar a ela no mamador, eu tirava, tudo, aí dava de mamar, depois fiquei dando de mamar e ela mamou até um ano. Agora, essa mais nova mamou até quatro anos.

 

P/1 – Até quatro anos?

 

R – Até quatro anos ela mamou. Ela só parou porque fui eu que tirei, mesmo. Eu estava achando que estava ficando muito magra, aí não tinha tempo, eu saía, ela não queria comer outra coisa, eu tirei. Fui tirando aos poucos, ela saiu, até hoje. Aí, pronto. Agora está comendo comida de panela que eu dou a ela, tudo. Acho que é mais por causa disso que eu tirei o leite dela.

 

P/1 – A perda do peso?

 

R – É.

 

P/1 – E me fala uma coisa: elas têm diarreia?

 

R – Meu Deus do céu. (risos) ______.

 

P/1 – Elas têm diarreia?

 

R – Ela teve. A mais nova teve. De vez em quando ela fica. O problema dela é que sempre quando vinha o leite, vinha uma lata de óleo pra gente botar no leite, ou no mingau, essas coisas... Aí eu acho que ela ficou com muita... Assim... O cocôzinho dela ficou muito oleoso, aí eu parei de dar. Quando eu parei de dar, ela não fica mais, mas quando eu começo a dar... Porque sempre que faz o mingau ou a papa, a gente tem que botar uma colher de óleo, a doutora explicou, pra aumentar o peso das crianças, mas quando eu boto, ela sempre fica, aí eu parei. Parei, não boto mais.

 

P/1 – E você faz o soro?

 

R – Faço o soro caseiro, pego soro daqui, dou água de coco, lá em casa tem um pé de coco, aí eu dou sempre água de coco a ela, acompanhando água filtrada. Dou mais líquido, quando ela está assim eu dou mais líquido, chá de boldo, chá de erva-doce.

 

P/1 – Quem que te ensinou a fazer o soro?

 

R – Quem me ensinou foi Cídia. Ela foi lá em casa, me explicou, aí eu fiquei fazendo. Fiquei fazendo, fiquei dando a elas. Depois, pronto, não tiveram mais esse problema; de vez em quando eu dou chá, de vez em quando eu dou mais dessas coisas. Café... Agora mesmo, que cortaram o leite, eu não gosto de dar café as minhas meninas. Eu nunca gostei de dar café a elas. Eu prefiro dar um chá, chá de camomila, chá de uma coisa, de outra, mas fora o café, porque diz que café estraga os dentes, essas coisas, eu não dou a elas. E também a criança fica nervosa. A doutora me explicou assim e eu disse: “Eu vou parar”. Até hoje não dei mais café a elas.

 

P/1 – Elas tiveram essas doenças de criança? Catapora...

 

R – Catapora não teve ainda, não.

 

P/1 – O que elas tiveram?

 

R – Elas tiveram rubéola. Rubéola, eu nem sabia o que era isso. Apareceu, aí eu trouxe ela para o posto aqui, a Luiza disse que era rubéola. Eu fiquei cuidando em casa, tudo, elas melhoraram. Não tiveram mais nada. Graças a Deus, não.

 

P/1 – Como que você cuidou delas?

 

R – Cuidei assim: ela passou água morna, ______ de água morna, dando chá de milho, cuidar que não deixasse elas no sol, nem na frieza, nem levar vento, porque aumentava mais. Coçava muito, eu passava remédio no corpo dela, um remedinho roxinho que a doutora deu pra eu passar, eu passava, tudo, aí melhorou, sumiu, mas ela teve só... Começou assim... Vamos supor, hoje e quando foi na... Começou no sábado, quando foi na segunda ela estava melhorzinha, o corpo dela normal, porque eu fiquei cuidando, porque eu ficava com medo. Teve febre, eu dava remédio a ela, só não dava dipirona, porque eu tenho medo de dar dipirona a elas.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Tinha muito medo, porque eu fui para o hospital uma vez, precisei levar elas, aí tinha uma menina lá que estava doente, problema do dipirona, mesmo. A menina teve problema de convulsão, eu não sei o negócio que a menina teve, eu fiquei preocupada, não dei. Fiquei dando AAS [ácido acetilsalicílico, conhecido como aspirina] e o chá do mato que (Dodô?) esses dia me ensinou.

 

P/1 – Que chá é esse?

 

R – Eu esqueço o nome dele, eu sei que era um chá que ela me ensinou, eu peguei umas folhinhas e fiquei fazendo.

 

P/1 – Como é que faz esse chá?

 

R – É assim: ela me deu as folhas, eu lavei, botei no fogo, botei num copo d’água, botei numa garrafinha e fiquei dando a ela. Toda vez que ela tinha febre, eu dava. Aí, pronto. Não teve febre mais. Mas eu dava junto com o AAS esse chá.

 

P/1 – Aquele chá de milho que você falou, pra que servia?

 

R – Servia pra dar banho nela. Eu dava banho e jogava o milho debaixo da cama. O pessoal me ensinava, o povo fazia. Às vezes meu marido me dizia mesmo assim: “Mas rapaz, que diacho de cheiro é esse que tá debaixo da cama?”. Eu falei: “É, me ensinaram assim, eu tenho que fazer do jeito que me ensinaram”.

 

P/1 – Quem que ensinou?

 

R – Isso foi Cídia. Cídia me ensinava sempre as coisas, porque eu não tinha a minha mãe, não tinha o meu pai, minhas tias moravam longe, aí sempre eu pedia alguma opinião a ela; quando as meninas estavam doentes, eu ia na casa dela: “Cídia, a menina está doente”; “Olha, faz isso, isso e aquilo”. Ia, fazia e melhoravam minhas filhas, mesmo.

 

P/1 – Como é que faz o chá de milho?

 

R – Chá de milho a gente bota água no fogo, depois a gente bota o milho, aí deixa lá.

 

P/1 – Bota a espiga toda?

 

R – Não, bota assim... Um bocado na mão. Bota dentro e deixa. Deixa lá e vê, quando estiver a água bem amarelinha, a gente tira e bota pra esfriar num canto. Quando estiver meio morna, a gente dá o banho na criança com as portas fechadas. Dá banho nelas e deixa elas lá. Aí enrola elas e tudo. Deixa o milho, pega e recolhe a água na peneira, e pega o milho e joga debaixo da cama; me ensinaram assim. Qualquer coisinha que as meninas têm eu fico já atenta. Assim, ou na água morna, ou no negócio de milho, essas coisas, chá, essas coisas assim... Eu sempre faço pra elas.

 

P/1 – Que outro chá você faz?

 

R – Problema de vômito, mesmo, quando elas têm. (Dodô?)... Cídia me ensinou chá de canela. Eu faço chá de canela. Pronto. É o remédio melhor que tem o chá de canela. Eu faço pra elas, elas ficam boas. Para de vômito, tudo... Porque sempre quando a criança tem assim... Problema, sempre fica vomitando. Às vezes eu penso até que é crise de verme. Fico preocupada, pensando que é verme. Não, porque esse mês eu dei a elas, não pode ser. Aí eu pego, faço esse chá, dou a ela, ela melhora. Aí levo para o médico, a médica diz o que é, tudo. Eu pego, cuido. Até hoje elas não tiveram mais nada, graças a Deus.

 

P/1 – Certo. Onde você mora tem outras pessoas que são atendidas pelos agentes comunitários? É pela Cídia? 

R – É pela Cídia. Tem minha irmã, que é a Regina, que tem um menino que tem um ano e sete meses e tem a outra minha irmã. E tem muito mais gente por perto, ela conversa muito, ela vai muito às casas, porque sempre acompanha as pessoas. Quando ela vai lá em casa eu digo: “Cídia, tu vai para as outras casas?”; “Vou, saindo daqui eu vou”; “Deixa eu ir com tu?”. Aí eu vou junto com ela. Sempre eu vou, quando eu tenho tempo eu vou; quando eu não tenho, eu fico em casa. Eu acho bonito ela perguntando, fazendo as perguntas, e as meninas respondem, tem umas que nem gosta de responder.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Porque é a parte da tarde que ela vai, é a parte que as pessoas estão descansando, aí não gostam de responder. Eu sempre gosto de acompanhar elas, porque elas conversam, elas sempre atendem as pessoas, como as pessoas que estão precisando um remédio, mesmo, que precisava comprar, mas não têm condições. Ela ajuda. Ela vai ver quem consegue aquele remédio, ela tem muito conhecimento, ela vai e consegue. Vai no (Emídio?), às vezes consegue. É onde elas ajudam muito. Elas quebram muito galho à gente. Quebra um galhão, porque ela ajuda muito a gente.

 

P/1 – E o que o pessoal fala, as tuas vizinhas, eles gostam, não gostam...

 

R – As meninas lá perto de casa todas gostam, porque se não fosse essas meninas, o que seria da gente? Porque vai pra CEASA, lá na CEASA não tem nada disso. Já a comunidade aqui é pequena, mas muita gente gosta desta comunidade, apesar de que logo quando saiu este Posto, eu não morava aqui. Depois, quando eu vim morar, eu achei melhor, porque onde eu morava não tinha nada disso. Não tinha. Depois que eu vim morar aqui, tudo ficou resolvido. As coisas são mais fáceis, não é tão difícil como a gente pensa. Para mim, eu achava difícil, porque eu não tinha meu pai, nem minha mãe. Eu achava difícil. Mas quando conheci Cídia, quando eu conheci a Mira, as filhas de Mira da comunidade, ficaram muito mais fáceis as coisas para mim, e tornou mais fácil pra elas ainda, porque a gente, eu mesma, ajudo elas.

 

P/1 – Como é que você ajuda elas?

 

R – Ajudo. Porque sempre quando chegam os tíquetes do leite, essas coisas, a Cídia está aperreada, Cídia não está sabendo, eu vou avisar ela, pego os tíquetes, ajudo, porque tem mãe que vem atrás, agora tem mãe que não vem atrás. Aí a gente vai na casa de cada um e entrega os tíquetes. Cada um, levar. Eu vou ajudar, pego uma parte, vou e ajudo; a parte que eu conheço, porque quem eu não conheço, eu não vou. Eu vou com ela, entrego tudo, já é um quebra-galho. Na fila do leite, mesmo, eu fico sempre ajudando a fila, pra não fazer bagunça, essas coisas... Fico sempre com ela, ajudando. Sempre quando ela precisa de eu fazer alguma coisa pra ela: “Rejane, tu pode fazer isso pra mim?”; “Posso”. Eu vou e ajudo. Mesmo quando eu não posso, faço um jeitinho e vou, porque eu sei que ela ajuda muito a gente, ela quebra muito galho da gente. Eu sempre tento ajudar.

 

P/1 – Qual a outra maneira que você tem de ajudar? Você estava falando que ajuda na limpeza...

 

R – Ajudo, ajudo. Às vezes eu venho aqui, as meninas estão aqui, aperreadas, eu digo: “Vocês querem que eu ajude em alguma coisa? Querem ajuda?”. Aí as meninas, quando está a fila de tirar a ficha aqui... Porque hoje parece que é de uma hora... ______.

 

P/1 – De tirar a ficha?

 

R – Sim, hoje é dia de tirar a ficha.

 

P/1 – Tirar a ficha, o que é?

 

R – Ficha de ginecologista, essas coisas. Porque de criança... Aí sempre as meninas vão sozinhas. Eu venho, dou uma ajuda, porque tem gente que gosta de bagunçar.

 

P/1 – Pra que serve essa ficha?

 

R – Serve pra ir pra médica, que elas marcam dia de quinta. A quinta e a quarta. Agora, dentista é dia de hoje, também. Dentista vem de quinta-feira. Aí hoje vai se marcar dentista. As pessoas ficam “coisando” e quando termina eu sempre varro, limpo, pra deixar pronto para o outro dia. Limpo. As meninas: “Deixa aí...”; “Não, eu vou ajudar vocês”. Eu dou uma ajuda. Na escolinha também, que tem aí perto, que ajuda muito a gente, ______, sempre dá uma mão. Quando está sem cozinheira me chamam, eu vou, dou uma ajuda. Sempre é isso, assim. Sempre tento ajudar. Agora, tem umas mães que não ajudam. Tem umas que querem ajudar, mas não podem ajudar, porque o marido não deixa. Mas o meu, sempre quando eu ______, eu pego e vou. Vou sim. Ele sempre fica... Deixa eu ir, porque eu vou, converso na casa das meninas, eu gosto de ajudar elas. Eu vou, ajudo elas, ele não diz nada, é só chegar na hora de fazer a janta, pronto. Ele não me aperreia nem eu aperreio ele, que na parte da tarde está tudo no colégio.

 

P/1 – Elas estão na escolinha?

 

R – Estão na escolinha. Tem uma só que está na escolinha. As outras completaram a idade, não ficam mais, porque é até cinco anos, não é? De cinco anos em diante, quando fizer seis anos, não entra mais. Ficam até cinco anos. Só está uma, que é ______. Aí, pronto, fica nisso. Fica ajudando toda tarde. Uma estuda de manhã, que é a da segunda série, que é a Aline; Aline estuda de manhã.

 

P/1 – Onde que ela estuda?

 

R – Estuda no (Gugerdal?). Na rua daí, perto... Tem (seu Martim?)... Pra cá, mais. Aí perto do (Arrae?), estuda ali no (Gugerdal?), e as outras, uma estuda de tarde aqui e outra estuda no (Gugerdal?), também de tarde. Quando a Aline sai de manhã da escola, vai para o reforço de tarde. Eu fico sem fazer nada dentro de casa. Minhas coisas estão todas prontas, aí eu venho pra cá ajudar as meninas. Fico no Posto conversando, quando tem alguma coisa pra fazer eu faço, quando não tem fico conversando com elas, o que é melhor que ficar em casa, porque, eu sei lá, quando eu tenho um trabalho eu vou, trabalho, faço faxina, eu me viro, o que está aparecendo eu vou fazendo. Importante é que eu estou trabalhando. Aí, esses tempos que estou parada, eu venho pra cá, ______ eu fico com Mira, eu mais Mira.

 

P/1 – Rejane, eu queria que você falasse como os agentes se locomovem aqui pelo bairro.

 

R – Como elas vão às casas?

 

P/1 – É.

 

R – É assim: umas se espalham pra um lado, outras se espalham para o outro, outra pega aquela rua, outra faz aquela, porque sempre ______, pra fazer assim. Aí, (Dodô?) é da Rua Vinte e Um de Abril, Cídia que é da Rua Vinte e Um de Abril. Vera já faz essa rua aqui, que é  Juscelândia, a outra vai pra outra, que é... Eu esqueço o nome das ruas, aí outra pega aquela rua. Aí, pronto. Cada uma está com as suas ruas. Sempre que é hora das vacinas, elas ficam em cima das vacinas das crianças, pra saber como é que estão as vacinas que a criança tomou esse mês. Conversam com a gente pra nunca deixar de dar a vacina nas crianças; diz que é ruim, tem que dar no mês certo. Aí a gente sempre fica... Tem uma mãe lá perto de casa, mesmo, que tem problema de... Coisa de... As pernas doendo, da criança dela. Paralisia infantil. Aí tem que ficar dando a vacina à criança certinha; se não der certinha, sempre fica coisa na criança. Adoece, essas coisas assim, porque a vacina já é alguma coisa pra criança. Já é alguma coisa. É igual uma vitamina, bem dizer. Tem mãe que se esquece de dar, aquelas mães que não cuidam direito. Daí pegam o endereço, elas vão atrás pra saber. Elas sempre ficam em cima, porque tem que ir. Se não for, as mães não ligam, tem mãe que não liga, não. Tem mãe que não quer nem saber... Tanto faz a criança estar bem, como estar ruim, porque a criança está bem agora, mas mesmo que ela esteja a mãe tem que ir ao médico, acompanhado por um médico. Sempre as meninas: “Vocês têm que ir para o médico com a criança, tem que ir. Não é só quando está doente, está morrendo de doente que deve ir para o médico. Não. Tem que ir com a criança bem, com a criança doente. Tem que ir para o médico de qualquer jeito”. Eu sempre vou com as minhas. Sempre eu ando com as minhas, não gosto de ficar em casa com as minhas meninas, de jeito nenhum.

 

P/1 – E hoje você trouxe a Aline no dentista?

 

R – Trouxe a Aline, trouxe a Alice e a Amanda. Todas as três. A Amanda eu trouxe pra fazer a limpeza, mas porque elas tomaram muito antibiótico e os dentes estragaram, porque eles estragam mesmo. Aí, pronto. Eu trouxe a Aline, que vai tirar coisa dos dentes, raio x dos dentes, pra ver o que é, lá nas Clínicas. Vou levar ela para as Clínicas. Vou marcar nas Clínicas e vou levar ela, que o ______ parece que não está fazendo. Eu vou para as Clínicas e levo ela. Aí eu levo logo as três, porque é uma coisa só que eu faço. Quando eu vou fazer um exame de uma, faço logo das três. Exame de sangue e fezes, tudinho. Faço das três pra ficar livre. Quando eu dou remédio à outra, dou a todas três. Porque quando eu marco, marco logo das três, porque não pode marcar das três na mesma coisa, as três irmãs. Aí marca uma pra um dia, outra pra outro dia, outra pra outro dia. Já fica melhor pra mim. Um dia eu levo a outra, outro dia eu levo a outra, outro dia eu levo a outra, pra não ficar faltando aula, também, porque ______, essas coisas. Hoje mesmo elas faltaram porque tinha que vir para o dentista e pra doutora. Mas pra doutora, a ficha ficou ______, porque dei a vez à outra mãe, estava precisando mais do que eu, peguei e dei a vez à ela. Aí, pronto, ficaram sem ir pra médica hoje, mas sempre (Dodô?) dá um jeito. Sempre Cídia dá um jeito.

 

P/1 – O que você tem vontade de realizar ainda? Qual é o teu sonho?

 

R – Meu sonho é ter minha casa, porque eu tenho uma casa muito pequena. Minha casa é quase deste tamanhinho aqui. Cabe cama, geladeira, fogão, a cama de solteiro para as três, é um aperreio. Eu me preocupo muito, meu marido também se preocupa muito, porque a gente quer ajeitar o esgoto lá da frente da minha casa, que tem um pessoal lá perto que junta essas coisas de ferro velho, aí fica a pior imundície no canto da minha cerca, eu não gosto. Porque quando a mãe dele morreu, tinha dois “vãozinho” pequenininhos, repartiu pra mim e minha cunhada. Aí ficou um pedacinho assim, pequenininho. Muito pequenininho. Aí, dá a cama, tudo, só que não tem um pedaço no meio para as meninas brincarem na minha casa. Ela já foi lá, a Cídia. Esses dias mesmo ela disse: “Ai, meu Deus, queria eu ter condições pra poder te ajudar”; “Mas não, deixe, Deus proverá. Um dia Deus vai me ajudar, não é possível. Sou filha de Deus, não é possível que Deus não vai me ajudar”. Aí sempre ela fica: “Rejane, você um dia vai conseguir”. Eu me preocupo, fico aperreada: “Meu Deus, não tem espaço para as minhas filhas brincar, meu Deus. Dá pelo menos um quarto para as minhas filhas, o meu quarto, uma sala, uma cozinha pra elas brincar”. Aí o meu sonho é ter minha casa. Ter minha casa, mesmo, minha casa própria. Apesar de que é dele, mas mesmo assim, não é? Não tem espaço para as meninas. Tem lugar pra aumentar, mas a gente não tem condições; porque tem como aumentar, sabe, de um lado e do outro. A gente quer aumentar, mas não tem como aumentar. Essa semana mesmo eu estava aperreada, preocupada, eu estava até falando com Cídia, porque o telhado da minha casa está todo caindo, sabe? (O pau ali no meio?) rachou, eu tive que desarmar a cama das minhas meninas, botar a cama delas na casa da minha cunhada pra elas poderem dormir, que eu estava nervosa de deixar elas dormirem lá. E quando chove, pinga muito. Pinga, mesmo. Aí ontem ele pegou um dinheiro, eu também peguei, ele pegou e comprou duas lenhas. Eu falei: “Isso só vai ajeitar quando tiver condições de aumentar, (Fernando?), você ajeite, primeiro, pra gente ficar aqui embaixo até a gente ter condições de aumentar isso, porque você está parado, nem sei quando você vai ter condições de aumentar, porque eu não vou deixar de comer pra comprar as coisas; comprar cimento, tijolo, essas coisas, eu não vou ter condições de comprar logo. Não adianta a gente deixar de comer pra fazer as coisas, porque eu tenho três meninas, eu tenho que dar o alimento delas na hora certa, não pode faltar o alimento delas, não”. Aí ele: “Tá certo”. Pronto, a gente foi comprar as coisas dentro de casa. A gente sempre faz um jeitinho, eu e ele. Sempre eu ajudo, eu não deixo faltar as minhas coisas dentro de casa, por causa das meninas. Não deixo. Às vezes, quando falta, eu fico aperreada, agoniada, porque eu não gosto de pedir. A única pessoa que eu gosto de pedir ajuda é Cídia. A única pessoa que eu chego é à ela. Fazer alguma coisa. Aí, pronto. Porque o dinheiro do meu pai fica para os meus irmãos, eu não vou pegar pra mim. Sempre eu guardo pra eles. Aí o meu esposo: “É, Rejane, o dia que a gente tiver condições, a gente ajuda. Seja o que Deus quiser. Um dia a gente vai ter...”. Mas eu fico aperreada, sempre tão apertadinho, tão pequenininho, se você está lá conversando, fica assim. Se você um dia for me visitar, você já diz: “É muito apertada essa tua casa, viu?”. Eu posso fazer o quê? Porque, olha: aqui é minha cama, aqui é a cama delas, ali é a geladeira, o fogão, tem uma mesinha pequenininha que a gente bota num canto, a estante no meio, porque as únicas coisas que eu tenho é isso mesmo. Aí, pronto. Tem o filtro delas, eu ajeito lá no banquinho ajeitadinho, mas fico. A televisão delas, ______, porque elas pediram porque pediram, que ganharam uma televisão, um primo meu deu, daquelas antigas, deu à elas, elas ficam lá. Porque não tinha. Eu me aperreava muito por uma televisão. Eu não tinha condições de comprar. Aí, pronto. Até hoje, pronto. Está dando pra ir até enquanto Deus me ajudar pra aumentar minha casa, pra eu ajeitar, pra eu fazer o meu banheiro, porque eu não tenho banheiro dentro de casa, é um aperreio tão grande, eu uso o banheiro da minha irmã. Tenho que ir lá pra Rua Vinte e Um de Abril pra poder ir ao banheiro, pra fazer alguma coisa, pra dar um banho nas meninas. Eu não gosto de dar banho nas meninas lá fora, porque a cerca... Muitas vezes eu senti esse negócio de cheirar cola, derruba a cerca, tem que ajeitar de novo, essas coisas assim, sabe? Aí sempre é uma coisa, porque onde a gente mora é um beco. Um beco, que eu dou graças a Deus de estar morando ali, pior se estivesse morando na beira do vale. Eu dou graças a Deus de estar ali; estou num aperto, mas pelo menos estou no que é meu. Pior se a gente não tivesse, não é? É isso. Eu quero ter condições de aumentar minha casa. Meu sonho melhor é de aumentar ela. Ter minhas coisas direitinho em casa, não faltar nada mais para os filhos; sempre que eu puder, ajudar as pessoas, eu poder ajudar. Meu sonho é esse. O único sonho que eu tenho. E um dia, se Deus quiser, eu vou realizar esse sonho.

 

P/1 – Vai sim. Rejane, obrigada pela tua ajuda, foi muito boa a entrevista. Obrigada, mesmo.

 

R – Obrigada.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+