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História

Trilhando o Triângulo Mineiro

História de: Milvar de Menezes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/12/2004

Sinopse

Milvar de Menezer, engenheiro civil, conta um pouco de sua historia de vida paralela à da cidade de Uberlândia, Minas Gerais. Nascido na década de 1920, em um período onde o desenvolvimento ainda não havia alcançando alguns pontos do país, cresce e se forma diante de importantes transformações em sua cidade, como a implantação de ferrovias e a chegada da telefonia. Além da história oficial da Companhia, relata interessantes causos de sua juventude de estudante e de sua relação pessoal com figuras como Alexandrino Garcia, antigo presidente da CTBC.

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História completa

P/1 – Doutor Milvar, eu gostaria que o senhor dissesse algumas das coisas que o senhor já disse na primeira etapa.

 

R – Eu só quero dizer que eu acho que não tem nada que eu possa dizer que seja construtivo do ponto de vista que vocês querem, mas já que vocês querem conversar comigo, então nós vamos conversar. Eu vou procurar responder com sinceridade. Mas, com sinceridade mesmo, eu não consegui achar um nada, a não ser aquilo que eu falei, de procurar os jornais antigos de Uberlândia para entender o princípio do Grupo Algar, porque isso foi a disputa de duas famílias em Uberlândia, para assumir a direção no início.

 

P/1 – Antes que a gente chegue lá, Doutor Milvar, eu queria que o senhor repetisse o nome do seu pai e da sua mãe.

 

R – Mas já está ali, já está anotado ali.

 

P/1 – Sim, é que eu gostaria de ter registrado em fita o seu nome completo, o nome do seu pai.

 

R – Milvar de Menezes, meu nome. Sirineu Cabral de Menezes, meu pai, e Ana do Vale de Menezes, minha mãe.

 

P/1 – O senhor nasceu onde, Seu Milvar?

 

R – Nasci em Tupaciguara.

 

P/1 – Os seus pais vieram de onde?

 

R – Meu pai, de Monte Alegre, e minha mãe era de Tupaciguara, nasceu em Tupaciguara mesmo. 

 

P/1 – O senhor poderia descrever o seu pai e a sua mãe? Como eram eles?

 

P/1 – Meu pai era um homem que toda a vida sentia a falta do estudo. Se ele tivesse estudado ele teria tido chance mas, infelizmente, a vida é cheia de surpresas. Eu sempre digo assim: às vezes o indivíduo sobe na vida por uma trombada que ele dá com um indivíduo numa escadaria, e isso vai ajudá-lo no futuro. Infelizmente o meu pai não foi assim mas ele soube criar, deu formatura para todos os filhos, sendo que o mais velho tornou-se médico cardiologista, e foi quem descobriu a doença do meu pai — um caso raro para a época —, que se chama Doença de Adam-Stokes, eram um alemão e um inglês, os dois descobriram isso na época. Nada mais é do que proveniente da picada do barbeiro, doença do coração.

 

P/1 – Qual era a atividade dele, seu Milvar?

 

R – Ele era comerciante. Quer dizer, tornou-se comerciante. Ele tinha uma boa escrita, tinha uma cultura própria de estudos, de leitura, aprendeu a ler e tudo. Então ele estava sempre a par disso. Tanto que, aqui, a primeira motocicleta que entrou em Tupaciguara foi a do meu pai, e ele tornou-se mecânico, um bom mecânico. Naquela época não tinha e ele tinha que se virar. O primeiro telefone daquela região lá que foi colocado. E ele começou a colocar nas fazendas lá. Era o telefone no qual a linha era uma só e a outra era feita com o terra. Foi ele que trabalhou com isso lá. Eu estou falando isso porque nós estamos com relação à telefonia aqui, pois eu me sinto satisfeito em poder dizer isso, porque realmente foi. Então ele formou todos os filhos, sendo que o segundo ainda teve um aspecto até curioso, ele foi ser militar. Ele era só de engenharia, tinha cinco cursos de engenharia, inclusive ele era engenheiro militar. Uma ocasião eu perguntei a ele por que ele foi ser engenheiro militar, e ele falou: “Uai, porque o papai não dava conta, então tinha o que era mais velho estudando em Belo Horizonte, tinha que custear ele lá.” Eu falei: “Eu não tenho chance, então vou estudar numa escola militar porque é menos despesa para o meu pai.” Assim foi. Depois fui eu. Eu fiquei o terceiro. Então eu parei de estudar oito anos, fui trabalhar com meu pai, mas sempre pensando em estudar. Tanto é que eu já me formei com bem mais idade. Mas, em compensação, eu formei praticamente dois irmãos. Eu tenho dois irmãos mais novos do que eu que me respeitam muito porque sabem que eu praticamente formei os dois. Eu parei e os dois não. Eu assumi junto com meu pai para dar sequência na família. O que eu tenho a dizer é isso, da família. 

 

P/1 – E sobre a sua mãe?

 

R – A minha mãe toda a vida foi daquela — como se dizia antigamente — de família, de casa, da lida de casa. Era muito boa, a família dela era muita gente e uma prole muito grande. O que tinha menos era justamente meu pai e minha mãe, que tiveram seis filhos. Tiveram mais, mas só seis ficaram vivos. Tinha uma tia que teve catorze. É isso.

 

P/1 – Como era a casa da sua infância?

 

R – Aqui em Uberlândia tem uma avenida chamada Cipriano Del Favero. Cipriano Del Favero foi quem fez o prédio que é hoje o Museu da Cidade. O pai dela que projetou e estou colocando isso aí que é para a turma já ter pelo menos um dado dizendo a realidade do que é. Tanto é que existe turma que diz que ele só projetou. Não, ele projetou e construiu. Ele morreu no ano da inauguração daquele prédio. Foi um homem que para construir o prédio, no final a prefeitura não tinha dinheiro. Ele era construtor, mas era um sujeito de um dom de arquiteto muito grande, tanto é que aquilo é um projeto dele mesmo. Então tem uma turma aqui em Uberlândia que gosta de aparecer, então diz que quem construiu foi a família, os pais deles que construíram, mas não foi. Quem construiu foi o Cipriano mesmo. Como ele morreu no ano, estava nascendo aquela avenida chamada Cipriano Del Favero. Agora eu vou responder a pergunta que o senhor me perguntou. A minha família morou na Avenida Afonso Pena junto ao Cipriano Del Favero. Tanto é que agora eu vou pôr uma coisinha aí de brincadeira. Eu tenho três cálices de cristal, de vinho, que eu gosto de tomar vinho, que a filha dele me deu de presente. Então quando eu tomo ele, eu falo assim: “Eu estou tomando um vinho num cálice que tem mais de cem anos.” Porque quem tomava vinho nele era o Cipriano. 

 

P/1 – O senhor se referiu ao comércio do seu pai.

 

R – Eu morava junto. Depois eu mudei para a Cipriano Del Favero. A casa do meu pai era na Duque de Caxias, descendo para a Cipriano, só que a casa de meu pai ficava em frente à rua. Então, com o crescimento da cidade, a casa atrapalhava. Então meu pai fez uma outra casa de lado para poder tirar aquela e a Duque de Caxias continuar — como continua hoje e vai para a Vila Martins. Do lado de lá não tinha casa nenhuma.

 

P/1 – O senhor se referiu ao comércio do seu pai.

 

R – Meu pai trabalhou com o Tubal Vilela um certo tempo, e depois ele arrumou um sócio e alugaram, do irmão Tubal Vilela, um posto de gasolina que tinha ali onde é o prédio na Olegário Maciel com a Afonso Pena. Onde é o prédio do Tubal Vilela, ali tinha um posto de gasolina ali que eles alugaram. Eles ficaram com ele, a firma foi, depois eles dissolveram as firmas e meu pai ficou só. Em 1946 ele faleceu, aí foi a minha vez. Eu continuei com o posto. Um dia um sujeito me fez uma certa raiva e eu falei para ele assim: “Olha, você está me amolando. Eu vou largar isso daqui e vou voltar a estudar. Ainda vou ser engenheiro.” E graças a Deus eu consegui isso. É só.

 

P/1 – Qual a relação do seu pai com Tubal Vilela?

 

R – A segunda esposa do Tubal Vilela era sobrinha de minha mãe e o Tubal Vilela era como era um Alexandrino Garcia, que enxergava longe, entendeu? E procurava sempre trazer para perto de si as pessoas que ele via que estavam à altura para desempenhar o que lhe interessava e descartar os pesos que estavam no ombro dele. Então foi o que o Tubal Vilela fez. Pegou o meu pai, viu que papai tinha uma caligrafia boa, uma maneira de contactar, fazer amizade, e ele trouxe papai para cá. Tanto é que papai ficou com ele uns anos, depois passou para o negócio próprio dele. É isso.

 

P/1 – O senhor se referiu aos telefones que seu pai instalou em Tupaciguara.

 

R – A Telefônica tinha um centrinho na Serra. Então tinha aquele pessoal lá embaixo que precisava de telefone. Cuidava com aquilo, o sujeito fazia as linhas para a área, era puxar uma linha só. Tinha as pessoas que faziam, mas na hora de instalar telefone e pôr aquilo tudo para funcionar meu pai entrava com a parte dele. Ele não tinha formação de nada mas entendia. Tanto é que aquele negócio de dar choque, no sujeito lá em cima, fazia o terra e rau-rau-rau na munheca do... Dava o choque no indivíduo lá e a turma saía todo mundo pulando. 

 

P/1 – O senhor passou por esse tipo de experiência?

 

R – Não, eu não passei. Eu cheguei a ver o telefone e sabia que dava. 

 

P/1 – Eram aqueles telefones a magneto?

 

R – Magneto, é. É a mesma coisa de um magneto de carro, dos Fordinhos 1929, 1928. 

 

P/1 – E quem tomava o choque? 

 

R – Era quem estava no chão, ele que fazia o terra.

 

P/1 – Qual a lembrança de sua primeira escola?

 

R – Primeira lembrança de escola? Curso primário. Cursei o curso primário em Uberlândia. Eu vim com três meses para cá então, lá para os seis, sete anos eu já estava na escola. Minha mãe e meu pai [ficavam] em casa e os irmãos, a gente ia todo mundo procurando porque, como hoje, você tem que procurar especialização. Com tudo e com tristeza eu posso dizer o seguinte: quanto mais especialização, quanto mais cultura o sujeito tem, pior é para um sujeito arrumar emprego, hoje. Esse mundo, não sei, não. Está valendo o de um dinamarquês que diz que se a cúpula diretiva do mundo não tomar providência sobre o desemprego — o dinamarquês disse, eu li isso em inglês —, o mundo não vai chegar no final do primeiro quarto do próximo século. Quer dizer: primeiro quarto do próximo século, o final vai ser 2025. Não vai chegar lá sem ter uma convulsão social no mundo todo. E eu já estou chegando à conclusão que esse dinamarquês tem razão. 

 

P/1 – O senhor se lembra o nome dele?

 

R – Não lembro. Eu li o artigo e só sei que é dinamarquês e o indivíduo escreveu. Ele falou: “Ou a cúpula dá um jeito de amenizar o problema de desemprego ou o mundo vai explodir.” E eu já estou chegando à conclusão de que vai mesmo. O sujeito aceita tudo no mundo, menos ver a família passar fome. Aí eu quero ver como é que vai ser. Não vai ser a Queda da Bastilha, vai ser a queda do mundo. 

 

P/1 – Voltemos à sua escola. O senhor se lembra o nome dela e onde ficava? 

 

R – Externato Doutor Duarte. 

 

P/1 – O senhor se lembra da sua primeira professora?

 

R – Uma delas é uma que vou todo dia em casa, é a filha do Cipriano Del Favero. É a família. Lá foram todas professoras: Dona Olga, Aurora, Dinorá e Inês. Eram quatro irmãs e dois irmãos. Que eram o Vandick e o mais velho, o Otelo. Todo mundo professor. Eles tinham internato. Era esse de um uniforme axadrezado, entende como é? Para surpresa também teve uma ocasião, quando o Carnaval era de rua teve um bloco que saiu com uma roupa assim, com as duas alças por cima, e aqueles marmanjos tudo já de idade, tudo farrão, para farrear, apareceram lá com o uniforme do Doutor Duarte. Mas valeu a pena, viu?

P/1 – O uniforme dos meninos era assim também? 

R – Um tipo do uniforme que era da meninada, no externato, foi o que o bloco carnavalesco se fantasiou. Ninguém esperava. Foi surpresa.

P/1 – O senhor poderia descrever esse uniforme?

R – Era uma calça na qual tinha as duas alças que vinham, passavam por cima do ombro, descia atrás em “x” e axadrezado. Agora a blusa eu não recordo como era, não. 

P/1 – Sapato?

R – Sapato eu nem sei como era. O uniforme eu lembro. O axadrezado, isso eu lembro, um axadrezado grande, bonito...

P/1 – Até quando o senhor ficou nesse externato?

R – Eu fui até passar para o ginásio. Então eu fui para o Ginásio Mineiro de Uberlândia, que é hoje intitulado museu. Todos nós estudamos lá, porque, veja só, o meu pai não dava conta de dar instrução para todo mundo. Então todos nós estudamos no Ginásio Mineiro, que era público. Vamos pôr aí a história do Ginásio Mineiro. O Ginásio Mineiro foi um grupo de umas vinte pessoas de Uberlândia. Uberlândia não tinha ginásio, então eles fizeram o prédio e propuseram ao estado fazer o ginásio, que é igualzinho ao que está lá até hoje, que é hoje escola de segundo grau. Fizeram o seguinte: eles doavam o ginásio para o estado e o estado mantinha, pagava os professores. Só tinha uma coisa, que antigamente o povo, também, eles pensavam para a frente. Só que o estado só poderia usar aquele prédio para escola, nenhuma outra finalidade ele pode ter com aquele prédio. Então, hoje, o estado não tem condição de fazer nada com aquilo porque já não tem nenhum dos capitalistas que entraram com dinheiro para fazer aquilo. Tem uma história de Uberlândia que eles fizeram uma chamada de dinheiro para comprar o terreno e depois chamada de dinheiro para isso, para coisa e tal. Quem é que realmente poderia falar sobre isso é o Luiz Antonio Rocha e Silva. Ele tem isso aí tudo, as fotografias, tudo, tudo de Uberlândia antiga. Se vocês quiserem, podem procurá-lo, porque eu acho que ele não vai negar em ceder.

P/1 – O senhor sabe precisar em que ano houve esse movimento comunitário?

R – Não sei. Eu calculo... Acho que é 1922, porque logo em 1917 foi a inauguração do prédio da prefeitura, esse que é o museu hoje. Em 1917, lá tem em algarismos romanos, que é o ano que morreu o Cipriano Del Favero. O ginásio, eu acho que é de... Deixe eu ver. Dezessete e sete, vinte e quatro... Dezessete e seis, vinte e três... O do museu é 1922. Pode ter certeza que foi 1922.

P/1 – Nesse momento do seu estudo, Doutor Milvar, o seu pai ainda era vivo? 

R – Até eu terminar o científico o meu pai era vivo. Eu lembro que eu ia prestar vestibular e aí eu tive que deixar, abandonei, não prestei nem vestibular. É isso mesmo. 

P/1 – O seu curso científico foi também em Uberlândia?

R – O científico também foi em Uberlândia e no Rio, eu estudei... Ah, não. Foi preparatório. É, eu fui pro Rio, fiquei dois anos... Um ano no Rio. 

P/1 – Fazendo o preparatório?

R – Depois eu tive que abandonar.

P/1 – O senhor ficava onde no Rio.

R – Rua Carvalho Monteiro, 42, casa oito. 

P/1 – Que lugar é esse?

R – Vizinho do Brigadeiro Eduardo Gomes. 

P/1 – Onde era o lugar?

R – Botafogo.

P/1 – O senhor chegou a conhecer o Brigadeiro?

R – Conheci. Ele morava na segunda casa depois da minha, no final da rua. A rua tinha casa do lado esquerdo e do lado direito. Do lado esquerdo ele morava. Eu morava do lado direito.

P/1 – Chegou a conversar com ele?

 

R – Sim. Nós éramos quatro no quarto. Um estudava também e tornou-se desembargador no Rio. O outro formou-se em engenharia, é professor na Universidade de Uberaba. O outro, há poucos dias a Câmara Municipal prestou homenagem a ele, o Juarez Altafin, foi meu colega de quarto, de vivência. E o outro fui eu. Então vamos a uma curiosidade dessa época. Um dia nós estávamos deitados lá, tudo: “Ô, fulano! Você tem dinheiro?” “Não tenho.” Eu sei que nós levantamos o dinheiro dos quatro e deu para comprar pão e salsicha. Nós almoçamos, num domingo, pão e salsicha. O dinheiro, ajuntando dos quatro, só deu para comprar pão e salsicha. O Juarez Altafin, quando nos encontramos lá, ficamos conversando um bocado, lembrando o passado.

 

P/1 – No Rio de Janeiro, como o senhor se comunicava com a sua família? O senhor telefonava para cá?

 

R – Na ocasião a gente ia daqui era de trem. Chegava a gastar uns quatro dias para chegar no Rio de trem.

 

P/1 – Como era essa viagem?

 

R – A primeira viagem que eu fiz para o Rio eu fui junto com o Renato de Freitas, que foi prefeito de Uberlândia. O Renato foi meu colega da turma de ginásio, depois foi meu colega da turma de científico. Não, científico, não, de ginásio só. Foi só de ginásio. O outro, Nelinho, é que foi de científico. Não vamos contar a parte pitoresca da viagem, não, porque tem muita.

 

P/1 – Mas o senhor pode contar.

 

R – Não. Isso aí fica aí. Vamos ver se eu lembro de alguma coisa a mais.

 

P/1 – Mas como é que era a viagem? O senhor se lembra? Quatro dias é muito tempo!

 

R – O trem partia daqui onde é a Praça Sérgio Pacheco, em frente à Afonso Pena tinha a estação, a gare da Mogiana. Então ele partia daqui às nove e vinte, primeira viagem nossa. Então vamos sucintamente. Eu virei: “Ô, Renato! Você está vendo aquela caixa de sapato que está lá em cima?” “Estou. O que é que tem?” “Aquela caixa de sapato está cheia de sanduíches que a mamãe fez para nós dois.” Ele virou: “Você está vendo aquela caixa de chapéu?” O senhor conhece caixa de chapéu? 

 

P/1 – Sei, redonda.

 

R – É. Eu falei: “Que é que tem?” Ele falou: “Aquela lá está cheia de sanduíche para nós dois.” Não preciso dizer o quanto nós comemos de sanduíche, não é? E a minha mãe pensou nele, a mãe dele pensou em mim. Imagina isso, que gostoso.

 

P/1 – Conte como era essa peripécia de chegar ao Rio de Janeiro, depois de quatro dias de trem.

 

R – Eu saí daqui até Campinas. Em Campinas tinha baldeação. Você pegava então a Santos-Jundiaí, que ia até a estação Luz, em São Paulo. Lá você descia e tinha que pegar o trem para o Rio. Então dois dias para o Rio, lá. 

 

P/1 – Na época em que o senhor estava no Rio, como falava com a sua família? 

 

R – Não falava, não. Isso aí era só ver o dinheirinho que chegava lá exatamente para despesa, entendeu? Pegava, tirava um pouquinho, deixava o outro na Caixa Econômica. Tudo para poder aguentar até o fim do mês. Eu não conhecia o Rio. Quando eu casei, em 1965, que eu fui com a minha esposa e falei: “Agora eu vou conhecer o Rio”. Me formei em Vitória. Quando eu fui com ela a primeira vez em Vitória, eu falei: “Agora eu vou conhecer as redondezas de Vitória.” Eu via os meus colegas saírem para irem para os sítios e eu tinha que ficar. Não tinha dinheiro nem para sair, nada. Ficava lá mesmo, em Vitória. Porque o mais que a gente ia era para praia e pronto, acabou.

 

P/1 – O senhor retornou do Rio para Uberlândia e, daí, como seu deu sua ida para Vitória? 

 

R – Você está abordando uma coisa interessante. É o seguinte. É o indivíduo quando ele mora numa cidade pequena ou se vai para cidade grande. Então ele se aclimata de tal forma que, quando ele volta para cidade pequena, ele sente-se deslocado. Assim foi quando eu voltei para Uberlândia. Eu chegava aqui, isso aqui não tinha jeito, a gente tinha aquele desânimo e tal. Isso passa é com todo mundo, né? Porque o sujeito sofre o impacto mesmo. Mas acontece o seguinte: você precisa raciocinar que Uberlândia, por exemplo, nessa época, da Sérgio Pacheco para cima, não tinha nada, era tudo cerrado. Não tinha nada, entendeu? Se é do Praia, para lá, do Uberabinha para lá, não tinha nada. Só tinha a estrada que ia para Monte Alegre, pela linha telegráfica ainda, que ainda estava lembrando outro dia, com um secretário da prefeitura, foi ontem que eu estive com ele lá. Então nós estávamos lembrando a peripécia que era pra ir daqui a Tupaciguara. Você tinha que fazer matula com rancho, com tudo, porque não sabia se o carro ia quebrar no meio do caminho e o que você passava no meio do caminho. Mas não deixava de ser gostoso.

 

P/1 – Qual é a distância daqui até Tupaciguara? 

 

R – São 72 quilômetros, hoje. 

 

P/1 – E envolvia toda essa produção de viagem? 

 

R – Viajavam três, quatro caminhões, porque todo mundo tinha o “chicão”. Vamos dizer, o da frente atolava, os outros não passavam, então a turma ia lá para tirar aquele para aquele passar. Depois esperava todo mundo passar e continuava a viagem. Era um negócio desse tamanho assim, de “chicão”. Tinha uma manivela que você levantava o caminhão pra você colocar madeira, cortava pau, tudo assim, para sair do atoleiro. Mas, então, um “chicão” não dava, mas eles viajavam quatro, cinco, juntos. Então punha um e tira o outro para forrar, fazer a esteira para poder desatolar. Mas era pitoresco, gostoso, não para a vida de hoje, que o sujeito está sempre correndo atrás de dinheiro. Você tinha aquilo da sobrevivência, mas não era essa agonia em que jogaram o mundo, no qual quem paga é sempre a pobreza. A classe mais baixa é que vai cada vez mais sendo sobrecarregada. 

 

P/1 – Sua vocação para a engenharia veio da atividade do seu pai? 

 

R – Olha, para falar a verdade, eu não sei. O meu irmão mais velho é médico. O outro foi ser militar, tornou-se engenheiro. E eu toda vida gostei do ramo de engenharia, toda vida gostei. Eu sou incapaz de gravar duas estrofes de uma poesia. Não gravo. Não adianta, eu não dou, eu não canto nada, para canto eu não dou nada. Quer dizer, são bloqueios, não é?

 

P/1 – Mas, e os números?

 

R – Ah, bom. Tudo o que é para raciocinar, que você põe um raciocínio, eu vou. Por exemplo, eu vou à Sauna do Praia. Se eles me derem um número assim, 216. Eu não guardo ele nunca para, na hora de eu sair, eu falar: “A minha sacola é a duzentos e dezesseis.” Eu falo: “Me dá aí uma sacola para velho aí!” Então eles me dão, por exemplo, 123, 101, certo? Assim, eu fixo. Por exemplo: o sujeito me fala um número que eu tenho que gravar. Por exemplo, 336. O número 336 eu não gravo. Mas se eu falar assim, que 33 é a idade de Jesus Cristo, então três, três e o outro é a soma, seis. Aí eu já sei, chego lá e falo: “Não, espera aí, a idade de Jesus Cristo é 33. Três, três e o outro é seis, 336.” Eu tenho que relacionar, mas guardar na memória uma coisa específica eu não guardo. Não guardo mesmo. Mas se depender do meu raciocínio eu consigo, acho a solução.

 

P/1 – Como é que o senhor foi parar em Vitória para estudar engenharia?

 

R – É porque eu morei em Belo Horizonte, estudando, aí eu falei: “Vou prestar exame em Juiz de Fora.” Porque era a cidade mais ligada a Uberlândia, na proporção. Eu falei: “Vou estudar em Juiz de Fora”, mas não passei no vestibular. Aí, no outro ano, eu voltei para Belo Horizonte, fiquei na casa da minha tia. Outra tia, não a tia casada com Tubal Vilela, não. A mãe da mulher do Tubal Vilela, não. Então eu fiquei em casa dela. Era o seguinte, meus pais vieram para Uberlândia e os outros ficaram em Tupaciguara. Quando eles vinham estudar no ginásio, ficavam na casa dos meus pais, tanto é que todos eles estudaram lá também. Tem advogado, tem engenheiro, tem médico, tem tudo, mas tudo assim. Aí a minha família, de Tupaciguara, uns mudaram. Inclusive minha tia foi para Belo Horizonte. Quando foi nessa ocasião, eu passei, então eu ficava na casa de minha tia. Mas eu queria — para não ficar morando na casa de minha tia —, eu ia morar em Juiz de Fora. Por isso que eu prestei em Juiz de Fora, mas não passei. Então eu preparei novamente, prestei em Juiz de Fora e prestei em Vitória. Aí eu passei em Vitória. Aí o professor virou e falou: “Olha aí, mais um turista. Vem aqui, passa e depois pede a transferência”. Aí eu falei: “Doutor Dido, o senhor vai se arrepender disso que o senhor falou aqui agora.” E ele foi paraninfo da nossa turma. No dia da formatura, eu falei para ele: “O senhor está vendo como é que eu falei que o senhor ia pagar?” 

 

P/1 – Era seu professor de quê?

 

R – Ele era professor de... Doutor Dido Fontes... Que eu não estou lembrando os nomes. Dido Fontes de Faria Brito, é isso! Acho que ele lecionava urbanização, se não me engano.

 

P/1 – Esse seu período em Vitória, como é que era a sua vida? 

 

R – Em Vitória eu morei inicialmente com um baiano, Deodato Costa Carvalho, que ele falou assim: “Olha, eu não tenho coragem de chamar meu irmão.” que estava estudando Odontologia, para eles morarem juntos. “Mas você eu tenho coragem de chamar para nós morarmos juntos.” Então nós morávamos numa residência que a gente entrava, tinha uma varanda e lá no fundo tinha um quarto onde tinha banheiro, tinha tudo, e nós morávamos lá. É até bom ir recordando as coisas gostosas da vida. Nós compramos marmita, uma marmita que vestia ela assim, ficava tudo por dentro para manter o calor e você não via as divisões, ficava tudo embutida. Compramos os pratos, dois pratos, os talheres, tudo em duplicata. Eu ainda tenho a faca até hoje. O restante sumiu, o prato também. Ele, então, foi na pensão, combinou tudo, então nós comíamos. Quando chegou em junho, o menino deixou a marmita e disse: “Fala para o seu Deodato para ele comer amanhã lá na pensão, porque amanhã eu não posso trazer a marmita, que eu tenho prova.” Aí o baiano chegou, eu falei: “Baiano, a mulher da pensão disse que é para você ir comer na pensão, porque amanhã ele não pode trazer a marmita”. Aí esse baiano deu uma risada boa e disse: “Ô, agora eu sou obrigado a confessar para você. Eu peço marmita para um e nós dois comemos.” Então o baiano chegava e falava: “Hoje, você parte.” Por exemplo, vinha um bife, então um partia. Se eu partia, ele escolhia. Vinha um ovo, então eu partia ou ele partia e o outro escolhia, certo? Veja como é que era. Você já ouviu falar em fogareiro de três pregos? 

 

P/1 – Não.

 

R – Então nós tínhamos três pregos numa tábua. Uma tábua de uns trinta centímetros por trinta, três pregos que cabiam uma latinha daquela de extrato de tomate, pequena. A gente enchia de álcool, um litro desses de óleo, então a gente punha ali uns cinco ovos dentro, enchia de água, acendia, quando apagava o álcool o ovo estava cozido. Era o reforço. Isso era ideia do baiano, o baiano é que fez e nós tínhamos salsicha, ervilha, sardinha... “Hoje eu vou fazer um reforço.” Abria e comia. Mas eu não sabia que ele pedia marmita para um! Mas teve uma parte importante, gostosa. Quando chegou o Natal tinha saído o pirex, e nós compramos uma caixa de uns quarenta centímetros, quadrada, quarenta de altura, uma dúzia de prato raso, uma dúzia de prato fundo, de doce, de tudo. Tinha cento e tantas peças, e fomos nós dois na rua carregando essa caixa até na porta da pensão. Isso era num Natal. Chegamos, subimos a escadaria, uma meia porta dessas assim. Chegamos, nós pusemos lá na porta e eu saí, porque aí eu já sabia que ele pedia para um. Custou uma nota para estudante aquilo, né? Mas nós comemos, praticamente, comendo um, comendo dois, certo? Aí nós levamos e eu dei no pé. Aí o baiano chegou: “Milvar, me deu uma tristeza...” “O que é?” “Alegria e tristeza. A mulher começou a chorar quando viu a caixa, que abriu o conjunto de pirex, e falava chorando ‘Eu nunca imaginei que eu ia ter uma coisa dessa na minha casa!’” Eu estou falando o que o baiano falou. Ele foi engenheiro da prefeitura de Salvador e nunca mais encontrei com ele até hoje. Ele era de Itabuna, ele chamava Deodato e o irmão dele... Como é que chamava o irmão dele? O irmão dele era advogado. Mas veja, você nunca imaginou isso de um fogareiro de três pregos, né? 

 

P/1 – Mas é plausível.

 

R – Mas é dessa alturinha assim, o prego fincado, mas funcionou o tempo. Morei com esse baiano uns dois anos. Depois nós mudamos para praça principal de Vitória, onde tinha o clube principal de Vitória. Álvares Cabral é o nome do clube. Naquela época usava gravata. A entrada do prédio eram só salas. Você entrava e a entrada era a mesma do clube, certo? Então você passava por uma parte do clube para entrar e tinha que entrar bem vestido. Então nós transformamos uma sala em república, mas todo mundo decente, arrumadinho, tanto é que o clube sabia, o pessoal do prédio sabia, mas a gente tinha uma linha de conduta, tanto é que nunca falaram nada. Mas aí vai longe. Chamava-se República Espartana. Se um tomasse banho de manhã, não tinha chuveiro quente, era só frio. Se um tomasse banho todos os outros tinham que tomar. Nós tínhamos lá uns cinco ou seis que morávamos lá. Eu mesmo fui dos que fez sujeira. Então você olhava, ninguém queria sair, você falava: “Hoje é meu dia de vingar.” Eu ia lá, tomava banho, saía para trabalhar: “Ê, mas a água está gostosa hoje!” Agora todo mundo tinha que ir. Quando um saía já entrava um segundo, né? Se não entrava, já sabia que vinha um balde d’água em cima.

 

P/1 – Como é que o senhor se sustentava em Vitória?

 

R – A gente tinha umas aulas que a gente dava lá, tudo, todos nós dávamos aula, pingava alguma coisa. Acontece que é o seguinte: eu toquei o posto de gasolina até um certo ponto, depois eu aluguei, construí. Meu pai morreu quando ele estava começando, aí eu peguei, continuei e mudei ele de local.

 

P/1 – Onde era?

 

R – Era onde é o prédio do Tubal Vilela. Eu mudei ele de local e depois aluguei. Aluguei e fui estudar. Quando eu vinha de férias, pegava o trem da Vitória-Minas, da Vale do Rio Doce, em Vitória, e vinha até Nova Era. De Nova Era eu pegava a Central do Brasil até Belo Horizonte e eu ficava uns dois ou três dias na casa de minha tia. Depois eu vinha de ônibus para Uberlândia. Era o dia inteiro de ônibus em estrada de terra, de Belo Horizonte a Uberlândia. Você saía de lá, ou daqui para lá ou de lá para cá. Você saía daqui seis horas da manhã, que era mais ou menos o horário de lá para cá também. Se você chegasse aqui sete horas da noite já estava bom demais. Então eu aluguei o posto. Por fim o dinheiro não dava mais. Então vinha e um irmão me dava uma calça, o outro me dava a camisa, o outro dava as cuecas e assim eu fui até formar.

 

P/1 – O senhor era um bom aluno?

 

R – Olha, esse negócio de ser bom aluno é uma coisa interessante. O bom você tem que comparar com o mau. Você fala: o sujeito, ele é alto ou baixo? Você tem que comparar um com o outro. Eu vou citar como exemplo o caso de minha esposa. Minha esposa, quando eu casei, não tinha o curso de ginásio. Depois que nasceram os dois filhos, todos já estavam grandinhos, um dia ela chegou e falou assim: “Eu vou voltar a estudar.” Então ela começou a estudar. Isso foi novembro, final de outubro. Em janeiro ela prestou o madureza de ginásio. Passou. O outro ano ela agarrou no começo do ano. Chegou no fim do ano ela prestou o madureza do científico, passou. Aí ela prestou vestibular, passou, entrou na UFU [Universidade Federal de Uberlândia].

 

P/1 – Em que curso?

 

R – Odontologia. Ela entrou na UFU. Quando ela estava no segundo ano do curso de Odontologia, um sujeito chegou para mim e falou assim: “Sua esposa é uma caninana, não sei como é que você vive com ela.” Falei: “O que foi que aconteceu? Vocês devem ter falado alguma coisa e ela respondeu, né?” Falaram que o governo não devia acabar com os cursos de madureza de ginásio e de científico, isso na turma, na classe. E ela falou: “Olha, vocês tão falando porque vocês não sofreram na carne o que eu sofri. Eu estou aqui, eu fiz madureza de ginásio e de científico, estou aqui. Nós somos vinte e oito e eu não tenho as melhores notas aqui da classe, não. Mas mais da metade daqui está em pior situação do que eu.” Aí eles tiveram que calar, né? Eu falei: “Vocês procuraram e acharam a resposta.” Então, vamos dizer... A resposta sua, como é que eu era.

 

P/1 – O senhor era bom aluno?

 

R – Eu era o mais velho da turma, então os professores já tinham um determinado respeito: “Esse cara não está aqui para brincar, ele está é para estudar mesmo.” Tanto é que eu vou contar uma passagem minha. Num exame oral, em final de um curso, eu precisava tirar três. Não era dez, não. Precisava tirar três. E quando chegou minha vez, tirei e eu fui. Letra M, o anterior ao meu era o Lenaldo, o melhor aluno da turma, o Lenaldo, e ele foi péssimo no exame. Ele precisava tirar um e tirou um. E eu fui, precisava de três. Agora, ele era o melhor. Quando eu tirei o ponto... Veja o que é a questão de... Eu tirei... Então eu já tinha abandonado essa matéria que eu estava prestando exame final, que eu precisava de três para encerrar, aí eu podia estar de férias, certo? Bom, quando eu tirei o ponto, entreguei pro professor, ele abriu, ele olhou, falou assim: “Ih, está perdido, você não sabe nada disso, você não assistiu minha última aula.” Eu não tinha assistido a última aula desse professor. Foi dito e feito. Na minha escola era assim, tinha um quadro negro lá embaixo, quando você escrevia, levantava ele, ele subia e descia o outro. Era uma escola boa. Então ele virou, falou assim: “Como você não vai falar nada...” Ele deu a questão, tudo, eu olhei assim, para mim era grego. Ele falou: “Eu vou te dar uma ajudinha. Desce o quadro.” Peguei, levantei, puxei o outro, né? Ele pegou, me deu sucintamente a aula que eles tinham tido. Aí ele virou: “E agora?” Eu falei: “Bom, doutor, agora eu faço.” Ele disse: “É, eu sei que você faz, pode fazer, mas você não vai ganhar a nota que você tinha que ganhar, não.” Entende como é que é? Aí eu desci, fiz, resolvi a questão toda e ele me deu três. Ele me deu três, ele sabia que eu precisava de três. Eu tinha feito todos os exercícios, tinha assistido todas as aulas, mas não tinha estudado a cadeira. A matéria eu já tinha abandonado. Eu já tinha passado em todas as outras e faltava esta. Era só essa.

 

P/1 – Que disciplina que era?

 

R – Ai, que disciplina que era... Ah, eu não recordo o que era, não.

 

P/1 – Mas, enfim, o senhor conseguiu dar a volta por cima.

 

R – Dei, mas o que era? O professor. Eu não te respondi se eu era bom aluno ou não, eu sei que eu era um indivíduo que correspondia. Eu toda vida estudei em grupo, tanto é que nós estudávamos num tanto de uns oito. Sempre beirando o sete, que é mentira, em oito. Então é o seguinte: nós sentávamos na mesa aqui, você fazia, eu fazia, tudo, e um ia para o quadro negro. Quer dizer, dava para o sujeito ver e tudo. Então quando nós íamos para a prova, não sentava ninguém junto. Então eu fazia assim, botava um, o outro fazia com dois, tal três, então a terceira questão. Começava a terceira questão. Toda questão, vocês tão cansados de saber, tem uma primeira parte, a gente vai, depois você tem um número que vai para continuar o problema. Se você errou ali, quando você chegar lá você não acha onde é que está o erro. Quando a gente chegava aqui, um olhava paro outro e diz: “Dois vírgula oito…” “Olha essa conversa aí!” Então todo mundo já sabia que dava dois vírgula oito. Certo? Quando saía, todo mundo tinha feito aquela questão. Concordou? Qual é o prejuízo disso? Se o sujeito não estudou ele não faz de jeito nenhum. Agora, quando alguma vez um encalhava e não tinha jeito, a gente dava um jeito de passar algo mais para aquele, né? Para ele ir. Então nós trabalhávamos sempre de equipe, toda vida eu estudei desse jeito. 

 

P/1 – Tinha alguma área da engenharia de sua predileção? Uma coisa que, durante o curso, o senhor pensasse: é isso que eu quero fazer da minha vida?

 

R – O que acontece é o seguinte: quando eu saí de lá, eu saí com dezoito atribuições, na área de engenharia. Lá era politécnico. Então toda a vida eu falei: engenharia, principalmente engenharia, no caso da politécnica, o sujeito não sai com conhecimento geral de tudo, mas sai com uma tintura em todos eles. Por exemplo, na prefeitura. Eu fui engenheiro da prefeitura, só tinha um: eu. Então eu olhava esgoto, água, construção civil, eu que aprovava tudo, eu olhava tudo, estrada. Eu tinha uma Kombi da prefeitura comigo. A minha esposa, por exemplo, o pai tinha fazenda aqui para o lado de Martinelli, Cruzeiro e Santa Maria. Era tudo terra. Então eu fazia uma programação para as máquinas e sabia onde é que a máquina ia estar parada, num feriado. Então, no feriado, como não tinha viatura, então punha a mulher e os meninos dentro do carro e eu ia para lá. Eu ia olhando o serviço que a máquina fez. O que acontece? Os tratoristas estavam sempre atentos. “Ele vai passar por aqui. Eu não faço isso, não, porque senão eu tenho que receber ordem primeiro.” Então eu preenchia, o prefeito sabia que eu fazia isso. Eu ia vistoriar e ia com a minha família, porque senão eu tinha que ir no outro dia, parava, precisava de mim e eu estava pra roça. Então ele não incomodava. O que acontece? Hoje, se você pegar um engenheiro, e não estou desmerecendo, não. Se você pegar um engenheiro que trabalha no DEMAE [Departamento Municipal de Água e Esgoto] e precisar que ele vá vistoriar uma ponte, ele fala: “Isso aí não é da minha área.” O sujeito não tem o noção daquilo. No curso politécnico você saía com noção de tudo. Aprofundado de nada, mas você tinha a noção de tudo. Tudo o que você precisasse, você sabia onde é que ia buscar. Hoje, por exemplo, como é? Eu vou lá na biblioteca da universidade e o que eu vou precisar está lá, não está? É só eu querer. Agora não dá mais nem para aprender mais. Na idade que eu estou, não dá mais. 

 

P/1 – Com essas dezoito atribuições, tem alguma em que o senhor se especializou mais?

 

R – Eu gostava muito de fazer projetos, acompanhava muito a evolução. Até hoje eu gosto, qualquer jornal que eu pego, que eu vejo lançamento, apartamento e tal. À noite, quando está tudo mais folgado, eu abro lá. Então eu vou ver a solução que o sujeito adotou. Uma matéria de engenharia, no meu tempo, nem sei se tem no currículo de hoje, chamava Mecânica Racional. Ela, em síntese, é o seguinte: para que serve Mecânica Racional? Para nada. Só serve para desenvolver o raciocínio. Quando é que você vai usar? Não sei, acho que nunca. Mas vou dar um exemplo para vocês: está vendo essa porta, olha bem a porta, ela está lá. Então você põe uma formiga, que está andando no cantinho de baixo, numa reta, vai até naquele canto de cima. Está andando numa velocidade tanto, certo? A porta está abrindo com uma outra velocidade, certo? Mas aquele eixo que está lá  vai girando, vai fazer um giro de 360 graus. A formiguinha continua andando. Agora eu pergunto: qual a curva que a formiguinha faz no espaço? A abertura da porta é uma velocidade, a formiga está andando em outra e o eixo está andando em outra. São três variáveis. Agora, no espaço, qual é a curva que a formiga fez? Ela não vai fazer a curva, ela anda na tábua reto, mas no espaço ela faz uma curva, concordou? Aí está a mecânica racional. Por exemplo, eu olho uma planta, eu estou vendo o ambiente pronto. Eu me situo aqui, estou enxergando o que o sujeito está enxergando. A visualização que o indivíduo vai ter. Se o sujeito não tiver, o sujeito não consegue, porque eu tive o seguinte: eu parei oito anos de estudar. Um primo meu, que se formou em Ouro Preto em Minas e Metalurgia, queria conversar comigo, me explicar, eu não entendia. Esse baiano, que eu morei dois anos com ele, estava no quarto ano. Fez o quarto e o quinto, saiu da universidade, saiu da Escola Politécnica, que hoje é incorporada à universidade federal. Eu fui lá visitar, ainda achei o secretário. Quando eu cheguei, olhei e falei: “Ô, Mauri, se lembra de mim?” Ele: “Ó, mas você por aqui?” A primeira vez que eu fui ele ainda lembrou de mim. O que eu estava falando? Fugiu.

 

P/2 – Do seu colega que saiu.

 

R – Ah, o colega. Ele chegava para mim, estava no quarto ano e eu estava fazendo mecânica racional no segundo ano. Eu morei com ele três anos. Foi terceiro, quarto e quinto. E eu entrei no primeiro, ele estava no terceiro. Ele chegava para mim e falava assim: “Eu tenho vontade de te ajudar nisso aí, mas eu não lembro mais nada disso.” Quer dizer, já tinha passado. E eu falava assim: “Ô, baiano desgraçado, não quer me ajudar.” Mas não era. O sujeito vai acumulando aquilo e não deixa mesmo. E depois eu cheguei na mesma situação, também quis ajudar e não tinha mais. 

 

P/1 – Quando se formou o senhor tinha a intenção de voltar para Uberlândia? 

 

R – Tinha, embora eu tivesse chance de ficar no Espírito Santo. Mas eu não costumo olhar o passado e dizer: “Ah, mas se eu tivesse feito isso, feito aquilo...” Nada. O que foi, foi. Vamos para frente aproveitar o que Deus nos deu, certo?  Vamos tocar o barco para frente. 

 

P/1- Então o senhor voltou para cá.

 

R – Eu voltei para cá, fiquei junto com meu irmão, que era engenheiro militar. Nós tivemos uma construtora, mas a gente não dava para comércio e o negócio não foi para frente. Desfizemos a firma. Aí eu fui trabalhar particularmente. Trabalhei bastante tempo. Aí o engenheiro que era da prefeitura ia sair e falou: “Milvar, você podia ficar lá no meu lugar, porque eu não quero mais aquilo.” Ele chegou para o prefeito: “O Milvar fica aí.” Eu fiquei.

 

P/1 – Quem era o prefeito?

 

R – Era o Raul Pereira de Rezende.

 

P/1 – Em que ano?

 

R – Por volta de 1963, por aí. É, 1963. Eu comecei na telefônica foi 1969, então em 1963... Não, 1964. Eu casei em 1965, estava na prefeitura. Fui, consegui. Hoje eu já vejo alguma coisa que está aí que eu que fiz.

 

P/1 – Na prefeitura? 

 

R – Na prefeitura. Fui o primeiro diretor do DEMAE, fui nomeado. Quando foi para criar o DEMAE precisava ser um engenheiro. Só tinha um engenheiro na prefeitura, então eu fui nomeado diretor. 

 

P/1 – DEMAE é sigla de quê?

 

R – Departamento Municipal de Água e Esgoto. Depois eu fui pra CTBC [Companhia de Telecomunicações do Brasil Central].

 

P/1 – Deixa eu só fazer um parênteses. O senhor conheceu a sua esposa em Uberlândia, depois da volta de Vitória?

 

R – Isso aí. A família toda me conhecia, só que eu não conhecia ela, que morava na rua da minha casa. 

 

P/1 – Como foi possível isso?

 

R – Porque eu sou um tanto mais velho do que minha esposa. Minha esposa nasceu no ano que morreu meu pai. Eu já era formado, com tudo já, quase uns trinta anos. Mas casamos, nos damos muito bem, graças a Deus. Ela tem a profissão dela, não depende de mim e a gente vai vivendo.

 

P/1 – O fato de o senhor ser mais velho do que ela não causou nenhum tipo de constrangimento, na época?

 

R – Não. Até hoje, não. Eu achei que poderia acontecer de ir a algum lugar e o sujeito às vezes até duvidar, né? Mas nunca tive. Ela sabe até onde vai o direito dela e eu sei até onde vai o meu. Pronto, acabou. Depois que ela terminou o curso de Odontologia, no outro ano abriu a especialização numa escola, que hoje pertence à Universidade de São Paulo, em Bauru. Ela foi a primeira a terminar o curso. Ela foi 96 vezes de Uberlândia a Bauru. Noventa e seis vezes! Teve sujeito, um que foi 143 vezes para terminar o curso. E eles iam juntos, todos num carro. Um dia um sujeito chegou para mim, assim: “Mas, escuta, você não fica preocupado de sua esposa ir junto com esses homens para lá?” E eu: “Não. Ela sabe o direito dela. Acabou, pronto.” Quer dizer, é tudo questão de posicionamento.

 

P/1 – Na época em que o senhor estava na prefeitura, a cidade vivia um boom de desenvolvimento, não é? 

 

R – Olha, Uberlândia teve a felicidade. Primeiro, dos homens da época, que naquela época só se pensava em trabalhar e o sujeito não pensava na época do futuro. Acontece que a estrada de ferro, Mogiana, vinha para ir até Araguari e passou por Uberlândia. Mas o objetivo da Mogiana era Araguari, para entroncar com a Goiás, porque a cidade que estava com mais desenvolvimento era Araguari. Então aí vem a felicidade de Uberlândia. De Uberaba até Uberlândia é chapadão. Só a saída de Uberaba que é subida, o restante é chapadão. Até aqui, então, a estrada veio rápido. E Uberlândia não tinha nada. Mas chegou aqui, e o que aconteceu? A Mogiana era iniciativa privada e, então, pôs a funcionar a estrada de ferro até Uberlândia. Então o que aconteceu? Põe um armazém aí, um armazenzinho para descarregar as coisas, para poder levar os vagões para trás, concorda? Começou a ter alguma coisa para levar. “Vamos pegar mandioca. Pelo menos tem esse vagão de mandioca, vai mandioca.” Uma maneira de dizer, não é? Levou-se uns oito anos para fazer a passagem do rio Araguari, para chegar em Araguari. Mas nisso os armazéns que estavam em Uberlândia já tinham crescido, aquele primeiro já tinha sido modificado. Quer dizer, já teve também o Doutor Fernando, o Vilela, que fez a estrada de Uberlândia até Chapetuba para Tupaciguara, para Itumbiara etc. Então a turma vinha e, se fazia com carro de boi, eles passaram a fazer com os caminhõezinhos. Uberlândia foi crescendo. Quando a estrada de ferro chegou em Araguari, o que aconteceu? O comércio já havia se firmado de São Paulo para cá e para lá e o sujeito: “Não, pede lá em Uberlândia que vai.” Aí vem o Tito Teixeira e põe um telefone. Depois veio o Grupo Garcia. O Grupo Garcia foi o que colocou o primeiro telefone automático em Uberlândia. Quando eles assumiram, em questão de um ano ou dois, puseram telefone automático onde está hoje, na Machado de Assis com a João Pinheiro. Fizeram um prédio e colocaram lá. Esses homens é que propiciaram o crescimento de Uberlândia. Se o cara não tem feito a estrada daqui para lá, continuasse carro de boi, o progresso não vinha. Era ruim de vir. O Alexandrino tem o seu valor. O que ele plantou, o que ele fez com tudo, foi ter coragem, isso aí eu sou testemunha porque eu estava lá dentro, o que era a briga do faturamento para ter o dinheiro, para poder crescer e poder fazer. Não é que o sujeito estava querendo ser grande, não, mas a região estava precisando. Depois vieram outros que não estavam no negócio de telefonia, que esse aí é um caso à parte. Vem, por exemplo, o Rondon Pacheco. Eu sei da briga que ele teve para a CEMIG [Companhia Energética de Minas Gerais] de entrar em Uberlândia. Porque a Prada, que era a concessionária de energia elétrica de Uberlândia, não tinha e não investia. Ela preferia investir em fábrica de chapéu do que investir em eletricidade. Então Uberlândia estava parada porque todo mundo já tinha motor diesel, quem quisesse. Eu conheço uma outra cidade também desse jeito. Que a cidade foi para frente porque eles passaram um linhão em frente da cidade, e a outra onde nasceu parou no tempo. O que acontece? O Rondon brigou. A Associação Comercial ajudou, apoiou o Rondon com tudo. A indústria e o comércio de Uberlândia compraram ações da CEMIG para ela entrar em Uberlândia. Eu era engenheiro da prefeitura, eu vi isso. Os engenheiros da CEMIG: “Ah, daqui a oito anos você não vai nem ver vestígio da Prada em Uberlândia.” Eu falei: “Mas em oito anos?” “É, em oito anos você não vai ver nem vestígio.” Só que eles fizeram o raciocínio seguinte: pegar para fazer. Mas esqueceram da demanda do consumidor. Então o que eles imaginaram fazer, foi tudo por água abaixo. Eles tiveram que pegar e atirar, por exemplo, passar só nas ligações. Uberlândia, no final do primeiro ano que a CEMIG entrou em Uberlândia, entre 1966 e 1969, você pegava a regional de Uberaba, o número de ligações de pedido, de pôr o relógio para ter energia na casa, o da CEMIG era maior. Uberlândia era maior do que somado o da regional todinha. O que acontece? “Gente, corre lá! Pára tudo o que está fazendo aí, vamos ligar essa turma. E vamos puxar energia.” Liga para cá, liga para lá, para trazer energia para cá. A CEMIG, certo? Eu estou falando a data, porque é o seguinte: não chegou a quatro anos. Quando chegou com três anos que eles já estavam aqui, eu conversei com colegas. “Ô, Fulano, aquele dia nós conversamos assim, você disse que com oito anos nem ia ter vestígio? Já vai fazer quatro anos.” Eles diziam: “Ih, Milvar... Nem oito!” Que eles falaram que em quatro anos iam tirar tudo quanto é vestígio da CEMIG. Quando estava com três anos, ia chegar a quatro, eu falei: “O ano que vem...” Então eram quatro. “Nem oito! Nós não vamos dar conta de tirar.” E outra coisa: se falou muito, na ocasião, de a CEMIG passar a regional de Araxá para Uberlândia. Não é por causa de Uberlândia, não. É por causa dos problemas da Cemig em Uberlândia. Tudo era resolvido em Araxá. E onde que a Cemig estava com os maiores problemas? Em Uberlândia. Então eles tiveram que trazer a regional para Uberlândia para eles não ficarem no sufoco que estavam.

 

P/1 – A demanda maior...

 

R – Tanto é que eles foram passando devagarzinho. Eles levaram uns três ou quatro anos para passar todo mundo, passar tudo pra Uberlândia. Se eles não estão a par, eu estou, porque eu convivia com eles e tudo, né? Porque eu, depois que entrei na telefônica... Aí foi o problema da Usina de São Simão, que a Telefônica fez uma proposta. Ia fazer uma proposta para entrar na concorrência da telefonia na Usina de São Simão. Então eu fui enfronhar com os engenheiros como era o negócio. Fui lá com os outros, cada um na sua área. O meu era na área de prédio. Eu chego para o fulano e falo assim: “Fulano, como é que funciona a questão de prédio? Onde é que vai ser a central telefônica?” “Ah, Milvar, usina hidrelétrica não tem lugar da central telefônica, não. Quando o canteiro de obras está aqui, os telefones estão todos aqui. Quando é daqui a três meses, os telefones estão todos naquele outro lugar. Tem que mudar.” Aí eu fui aprender a parte de telefonia de prédio e ligação de rede, tudo de usina hidrelétrica, como é que é. Fui lá chegar para o Luiz Garcia e falar: “Luiz, lá não tem jeito.” “Ah, Milvar, não tem? Então onde é que vai ter muito telefone?” Eu falei: “Ô, Luiz, é um jeito aqui, o outro daqui a três meses está lá outra vez.” Você entendeu como é que é? O que a gente estava acostumado não servia para nada. Eu estou falando isso porque foi a realidade. Aí o Luiz foi, fez e ganhou. Ganhou a concorrência para fazer o serviço lá. Eu já chegava lá na porta com o carro da Telefônica: “Pode passar!” Pode passar porque eles já sabiam o que é que eu queria, onde é que eu ia, porque eu já sabia onde é que eu ia. Eu já não perguntava onde é que está fulano: eu já ia nele. Um dia eu saí daqui até com a minha sogra e falei: “Agora eu vou levar vocês.” Eu fui. Quando cheguei lá era feriado, não tinha ninguém trabalhando. Eu falei: “Ih! Eu saí lá de Uberlândia, vim cá para mostrar para minha sogra e tal.” Aí eu perguntei qual era o engenheiro que estava de plantão lá, de dia. Eu fui com ele lá, ele falou: “Você vai poder entrar, mas você vai ter que levar um funcionário nosso, junto.” Perfeitamente! Se ele conhece tudo. Aí ele entrou, a minha mulher passou para trás, ficou todo mundo no banco de trás, amontoado, eu entrei com o carro para lá e falei: “Eu vou ali dar uma olhada.” O cara foi junto comigo. Nós descemos lá, eu mostrei tudo para família. Rode, não tinha nada. Parado, tudo parado, até esquisito, sabe? Mas por quê? Toda vinculação lá dentro do canteiro de obra, de negócio de telefonia, eu é quem estava lá. Então a gente ocupa um lugarzinho também. O sujeito quando falava que era da CTBC, que estava chegando lá, não tinha problema. Então ele falou: “Não, hoje não entra ninguém, mas você leva um homem meu e pode andar onde você quiser.” Foi a expressão que ele usou. Para mim eu fiz com alegria. Eu estou falando que isso foi uma passagem curiosa com o posicionamento, a consideração que eles tinham para com o grupo. A conceituação do grupo foi sempre boa. Não estou bajulando nada, não. O Luiz me conhece. O Luiz mesmo, quando eu fazia meus projetos, que eu entregava para ele, ele dizia: “Milvar, esse aqui está bom.” Eu estava falando: “Não tem nenhum para mim que serve.” “Não, sô! Esse aqui tá bom, sô!” Aí eu tirava a caneta e dizia: “Assina! Aí eu faço. Mas pra mim não serve.” “Não, toma! Você vai estudar mais uns quinze dias. Você fica com isso mais uns quinze dias.” Ele sabia, eu pegava a caneta e falava: “Assina! É ordem para executar.” Ele falava: “Não, estuda mais uns dias aí.”

 

P/1 – Quando o senhor estava na prefeitura, Seu Alexandrino já era uma pessoa de projeção na cidade. O senhor tinha relacionamento com ele? 

 

R – O Alexandrino Garcia mexeu com máquinas de arroz, de beneficiamento, mexeu com posto de gasolina e meu pai mexia com posto de gasolina. Então os dois estavam sempre juntos. Os filhos do Alexandrino cresceram junto lá conosco. Eu conhecia ele demais pois eu trabalhava com meu pai e estávamos sempre em contato um com o outro. Antigamente era tudo em contato, né? Até que eu entrei na Telefônica. O dia que eu cheguei, que eu entrei, até passou-se uma coisa curiosa. Eu ia para o Estado de São Paulo, acho que para São Joaquim da Barra. Não, Ituverava. Estava fazendo a central de Ituverava. E eu fui levando um material. Era uma Caravan e tinha um sujeito lá na Telefônica que tomava conta das viaturas e tudo. Não tinha esses departamentos, era fulano que tomava conta, com tudo. Aí eu cheguei: “Escuta, diz que eu vou viajar, qual é o carro?” “É aquele lá! Aquele lá que você vai viajar.” “Não, mas vamos mudar aquele lá, vamos pôr a carga, amarrar aqueles canos...” Tinha uns canos em cima, no bagageiro. Então vamos dizer assim, a frente do carro está para lá, eu dirigia para cá. Eles puseram os canos do lado de cá. Mas, com o abaulamento da estrada, se você põe peso em cima, você aumenta mais o centro de gravidade e pode cair. Aí eu mandei passar os canos para o outro lado e o cara não queria passar os canos de jeito nenhum. Eu falei: “Então eu não vou.” “Você tem que ir!” Eu falei: “Não, com essa carga aí, não. Vamos desamarrar e pôr no lugar certo.” Aí, depois, eu fiquei sabendo que o sujeito estava falando assim: “Esse cara começou ontem, agora hoje já vai viajar com o carro, já está entregando o carro para ele já ir com esse carro para lá.” Mas eu tinha que olhar lá. E eu cheguei na hora que ia sair uma coisa errada. Eles iam concretar uma laje onde eu tinha que passar uma tubulação para ligar o retificador de viés. Quando eu cheguei lá, mal fui chegando já falei: “Gente, pára! Pára! Pára!” Eu já tinha olhado o projeto no dia anterior, e quando eu cheguei lá e vi, eu desesperei. Porque, depois de concretado, onde é que eu ia pôr o cano?”

 

P/1 – Tinha que quebrar.

 

R – Quebrar ou pôr por fora, não é? Mas felizmente não deu em nada, não. Eu recordo disso porque aconteceu. Acho que o Luiz nem sabe disso. 

 

P/1 – Qual lembrança o senhor tem do Seu Alexandrino, antes de trabalhar na CTBC? 

 

R – Eu já tinha convivência com ele, com os meninos, com o Walter. Sobre o Walter Garcia vou dizer uma coisa particular, para ficar gravado. Eu, por exemplo, eu gostava do Walter demais, mas demais mesmo. E tenho certeza que o Walter gostava de mim. Ele era da parte de tesouraria. Quando era conta a pagar e que eu já tinha dado o visto, ele deixava de lado. Ele não vistava nenhuma minha. Não assinava o cheque, deixava o cheque junto, o cheque pra ele assinar, com tudo. Ele olhava e punha de lado. Os outros ele assinava tudo. Depois ele juntava um monte, ia lá onde eu trabalhava, lá no departamento. “Ô, Milvar, quanto tempo que a gente não conversa, sô! Vem cá!” Aí ele começava: “Isso assim, assim. Isso assim, assim. Você deu visto, né?” “Dei.” Aí ele assinava o cheque. Passava para outro. “Mas está fazendo isso?” “Está.” “Ah, mas você já deu o visto.” Mas, isso para quê? Ele ia lá para conversar comigo. Era a chance que ele tinha de conversar. Ele não discutia nada, eu tinha dado visto e ele assinava, mas ele ia lá. Aí ele dizia: “Ah, já tá fazendo isso? Já tá nesse ponto?” Era uma maneira que ele tinha de conversar. A gente estava conversando assunto da empresa, mas ele podia ir lá na mesa dele, e lá ficar sabendo que estava fazendo isso ou aquilo.. O Milvar assinou, tudo bem. Mas ele queria conversar comigo. Eu vou dizer: se é um homem que eu admirei demais mesmo, foi o Walter. O Walter era... eu gostava dessa atitude dele de... Vamos dizer que eu tivesse que sair, qualquer coisa. E eu perguntava: “O Walter está aí?” “Está.” Então eu ficava ali porque sabia que dali a pouco ele vinha cá. Eu não ia lá na mesa dele porque ele estava trabalhando. Você tem que respeitar, não é? Só para conversar? Não. Mas ele vinha. E ele conversava trabalhando. Era só assunto de serviço. Mas eu gostava dele era por causa disso, que era só serviço, mas era aquela atitude dele, de ele vir que eu sentia que era para conversar comigo. 

 

P/1 – O que levou o senhor a sair da prefeitura e ir para a CTBC?

 

R – Foi o seguinte, o Walter conversou com o meu irmão, esse que era engenheiro militar, e disse que estava precisando de um engenheiro lá. “Ah, o Milvar está lá na prefeitura; ele sai da prefeitura e vai lá trabalhar com você.” Nessa conversa eu acabei indo para Telefônica e ficando esse tempo todo.

 

P/1 – Para fazer exatamente o que?

 

R – Eu chefiava o serviço de construção civil de lá, projeto, tudo. Então eu fui apanhar uns conhecimentos. Você tinha que fazer as coisas render, não é? Por exemplo, o caso de Guará. Eles compraram Guará e tinha um centrinho lá no fundo da cidade. E nós saímos daqui mais ou menos meio-dia: Seu Alexandrino, o Luiz, eu e mais não sei quem. Nós fomos lá ver um prédio que eles estavam em vias de comprar. Nós chegamos lá: “Milvar, você olha esse aí, vê se dá para fazer...” Mas aí eu já tinha uns dois anos de Telefônica, ou um ano. O Luiz já tinha sentido que eu dominava aquilo tudo. Aí eu olhei tudo, rabisquei, olhei, já tinha feito meus rabiscos, minhas medidas, tudo. Falei: “Pode comprar! Dá!” Era um prédio de esquina, certo? Aqui passava a estrada de ferro. A entrada é aqui. Desse prédio, não tinha nada pra cá. Mas eu sabia que a estrada de ferro ia sair. Nós sabíamos. O Luiz sabia. Aí eu peguei e fiz o esboço na hora. Eu falei: “Luiz, faz assim. Está vendo a entrada aqui?” Tudo que eu fiz foi para que, na hora que saísse a estrada de ferro daqui, você pusesse a porta de entrada para cá. Invertia. Mas já foi o esboço feito, já era para servir para cá. Tudo na hora. Aí o Luiz olhou, olhou. No outro dia, cedo, mais ou menos oito horas, a Telefônica abria, acho que era oito, nove horas, e o Luiz chegou lá: “Milvar, e aquele negócio de Guará?” Falei: “Luiz, está aqui o rascunho.” Eu já tinha feito o rascunho. A primeira coisa que fiz quando voltei já foi ir para a prancheta. Risquei tudo e tal e mostrei para ele a solução de Guará. Aí é que fecharam o negócio de compra. Aí, ele: “Ó, pode trabalhar naquilo lá, que nós vamos ter que passar para lá e é correndo.” Já tinha equipamento para colocar lá. Então voltei outra vez lá em Guará para ver, fazer as medidas exatas, tudo direitinho, porque o negócio foi feito corrido. Uma das coisinhas que eu lembro é isso.

 

P/1 – Isso numa época em que a CTBC estava crescendo, se expandindo.

 

R – Se expandindo. Foi justamente a época que eu entrei, porque eu fui o segundo engenheiro da CTBC. O primeiro foi o Luiz, o segundo fui eu. Então quando chegava coisa, o Luiz me chamava, eu tinha que ir lá junto e arranjar solução. Por exemplo: o prédio de Uberaba, aquele que tem perto do Correio Central, você conhece? Aquele prédio, por exemplo, não podia ser aprovado na Câmara, mas precisava ser daquele jeito. Então eu é que tive de ir a Uberaba, ir à Câmara Municipal, expor para os vereadores tudo, para o prédio de Uberaba sair no tempo devido que precisava. Era naquele mesmo local que estava e tinha que passar por cima da lei nesse pedaço. Essa restrição tinha que ser ultrapassada. Depois eu vou contar de Uberlândia também, uma que nós passamos por cima e o prédio tá aí até hoje. E está Uberaba também junto. Aí os vereadores concordaram. Os vereadores aprovaram a execução do prédio por baixo dos panos, passa por cima da lei, com tudo. E o de Uberlândia foi a mesma coisa. Eu estava na prefeitura quando chegou o projeto do antigo Banco de Crédito Real, que depois o Bradesco comprou a instalação lá embaixo. Quando aquele prédio entrou na prefeitura de Uberlândia, o Raul era prefeito. Aí eu olhei: “Mas não posso aprovar isso aqui, porque a lei não permite.”

 

P/1 – Qual que era o problema?

 

R – O problema é o seguinte: o gabarito do prédio é aquela rua. Você olha o prédio do Tubal Vilela e o do Crédito Real. Você passa ali e vê que fica aquilo espremido, não fica? Aí eu passei a mão no projeto, sentei com o Raul, falei: “Raul, o Crédito Real quer fazer um investimento em Uberlândia e o projeto está aqui. Mas não pode ser aprovado por isso, por isso e por isso.” Aí o Raul virou e disse assim: “Milvar, como é que nós vamos fazer? Falar para o Crédito Real que nós não aprovamos o projeto que veio de Belo Horizonte? Milvar, como é que nós vamos fazer?” “Ó, Raul, vamos fazer uma coisa? Se você concordar, você assina aprovando e eu também, que é responsabilidade de nós dois, e deixa a coisa correr.” Porque eu falei assim: “Raul, você já imaginou, por exemplo, se o Crédito Real..” Naquela época tinha aquela disputa entre Uberlândia e Uberaba, não é? “...você imaginou se o Crédito Real, em vez de fazer esse prédio aqui, for fazer em Uberaba? Como é que nós ficamos?” “Então vamos.” Ele disse, e nós dois assinamos. Aprovado! No lugar que está aprovado nós dois assinamos, não está sabendo quem foi que aprovou, se foi o Raul ou se fui eu. Viu como é que é? Assinamos aquilo tudo e mandamos a papeleira toda. Foi aprovado. Fez o prédio e tudo. Ainda redigi uma carta dando parabéns ao Crédito Real pela solução do prédio, não era pela escolha de Uberlândia para fazer o prédio, não. Foi solução de engenharia que eles encontraram. Porque foi assim. Aqui está a Olegário Maciel, aqui está a praça. Eles conseguiram a solução seguinte: fizeram um apartamento menor aqui, que tem vista para praça e fizeram, para esse lado de cá, um outro apartamento maior, que também tem vista para cá: tem o cantinho da sala que também tem vista. Não é um projeto fácil de se conseguir e eles conseguiram. Então eu fiz uma carta para o Crédito Real dando os parabéns pelo projeto apresentado, ressaltando ter conseguido os dois apartamentos com vista pra praça. Dei ênfase a isso, não a se fazer em Uberlândia. E eles fizeram em Uberlândia. Agora vem uma outra passagem. No dia da inauguração, eu estava lá numa reunião dos condomínios para receber o prédio. Nós estávamos lá no andar térreo, que é o do Crédito Real. Estou lá sentado quando, quem comprou as salas, os apartamentos ali do prédio, um deles virou e falou assim: “Ô, fulano, olha bem onde é que nós estamos sentados. Olha esse piso. Olha isso aí. Tudo de primeira. Já imaginou o que nós pagamos nisso tudo?” E o empreendimento foi do Crédito Real, mas o Crédito Real não entrou com dinheiro. Quem entrou foi quem comprou apartamento. E o indivíduo olhou o acabamento: “Gente, olha isso! Nós que pagamos isso tudo?” Eu estou falando aquelas coisas que a gente recorda, né? Eu não estou citando nome porque eu sei as pessoas que estão lá. Eu sei bem o nome, não quero é citar nome de quem falou. Mas a turma toda é que começava: “Milvar, você já imaginou, rapaz? Nós pagamos isso tudo?” 

 

P/1 – E os prédios da CTBC? Eram prédios comprados e depois adaptados ou o senhor os construía? 

 

R – Não. O de Uberaba se comprou um terreno ao lado. Não vou estender muito porque tem muita coisa sobre o prédio de Uberaba. Tanto é que até uns dez anos atrás, que eu viajava bastante e sempre passava, eu entrava em Uberaba para vistoriar o prédio. Hoje não. Eu chegava lá, eles viam, eu estava num carro particular meu, parava e chamava o gerente: “Fala com ele que eu vim cá, que eu quero dar uma olhada aí no prédio.” “Ah, ele não está aqui.” Aí o fulano: “Não, pode entrar, põe lá na garagem.” Aí eu já entrava, ia pôr o carro na garagem. Os gerentes sabiam o que eu estava fazendo. O prédio, toda estrutura, ele tem uma parte de acomodação. Naquele lá eu não vou entrar mais ainda, porque teve um negócio lá da fundação, quase que sai um desastre lá por causa da estrutura. Resumindo, o prédio lá deu com oito metros de fundura. O terreno tinha resistência, os tubulões todos chegando com oito metros, estava garantido. Mas como tinha dois tubulões com a carga de trezentos e setenta e cinco toneladas cada um, eu exigi de quem fez a sondagem do terreno e quem construiu os tubulões — que é uma construtora de Franca — que eles furassem pelo menos mais um metro para eu ter certeza do terreno. Só que quando eles começaram furar os dois e chegou na altura de meio metro, começou a decompor o terreno. Então nós tivemos que baixar a fundação para doze metros de fundura, quer dizer, houve um aumento de 50%. Isso importou em custo. Então é o seguinte: quem ganhou o serviço, apresentou uma proposta de entregar pronto e uma proposta de ele fazer a mão-de-obra e nós comprávamos o material. Nós optamos por comprar o material, para comprar material melhor e para a gente selecionar o material. Foi quando deu esse problema. Então eu procurei o Luiz e falei: “Luiz, tá isso, isso, isso e isso.” Aí nós sentamos na mesa com tudo e fizemos uma composição. Para firma não ter o prejuízo, houve um aumento da execução do serviço em 50% da mão-de-obra. Só que esse aumento diminuiu a proporção de lucro dele, certo? A parceria que é feita. Então o prédio está lá. Até dez anos atrás eu passava lá, eu olhava... Eu não sei se vocês sabem, mas em engenharia tem o que é trinca, o que é fissura e o que é rachadura. Sabe as diferenças? Então, existe isso. Lá é só trinca e eu acompanhei essas trincas muito tempo. Acompanhei. Eu marcava, porque um lugar que está trincando, você faz um xizado marcado a lápis ou a giz. Se a trinca aumentar, a defasagem da reta vai acentuando e você sabe, então, o que está acontecendo. É capaz que eles hoje nem ensinem isso em engenharia. Então eu ia observar os locais, onde é que estava aquilo lá. Então houve acomodação. Chegou, não ia mais, não aumentava, eu voltava lá, estava do mesmo jeito e graças a Deus o prédio não apresentou nada, tanto que eles nem me procuraram na CTBC. Só em uma ocasião me procuraram para saber se eu tinha alguma coisa da CTBC. Eu falei: “Eu larguei tudo lá.” Depois eu fiquei sabendo que eles queimaram tudo o que eu larguei. Diz que o Milvar juntava muita papeleira velha à toa. E sem as papeleiras velhas eu não tinha condições de opinar em nada. Falei: “Não, não posso. Eu não tenho nada do que eu deixei lá, uai! O que eu vou fazer lá?” 

 

P/1 – O senhor guardava muito papel?

 

R – Eu guardava, eu tinha os projetos todos, o estrutural, tudo. Com todas as vigas. Eu tinha guardado. “A papeleira está aqui... nunca usa isso!” Fizeram uma fogueira da papeleira, das plantas antigas que eu deixei lá. Eles vieram uma vez atrás de mim. Eu falei: “Eu não tenho mais nada lá, eu já fiquei sabendo da história, como é que foi.” Eles falaram: “Ah, Milvar, você guardava muito papel velho lá.” Queimaram tudo. Não é a contabilidade que precisa, não é nada que precisa, mas você tem que saber. Como é que eu vou saber como é que está uma viga desse prédio daqui se eu não vejo a planta? Está dando problema, sei que é um problema, mas qual é o ferro que está lá dentro? Que ferragem que colocou? Será que é insuficiência de ferragem? Será que a insuficiência é aqui ou é lá? Onde é que é? Eu tenho que saber. Eu tenho que ver a planta do esqueleto interno. Então, infelizmente, foi isso. Mas o prédio de Uberaba é um prédio que tinha um terreno que já tinha uma casa velha, que já tinha tudo, dava condição de se fazer. É o mesmo caso um prédio idêntico ao de Uberaba, que é o de Franca. Só que o de Franca, vamos dizer assim, é o predinho que tinha. Então o terreno daqui, que se comprou, tinha mais um metro e meio do que esse daqui. Ele ia e virava no fundo. Comprou o do fundo para fazer um prédio igual ao de Uberaba. Isso aqui era um predinho da Telefônica antiga de Franca, de quando eles assumiram Franca. Então eu projetei um prédio que se fazia esse “L”, deixando a ferragem toda para cá, um predinho de dois pavimentos. Vocês conhecem o DG? O DG desse prédio que estava aqui, antigo, ia crescer e entrar no outro, para poder caber o número de assinantes previsto paro prédio. Só que eu ia construir com o prédio permanecendo e eu fazendo o prédio novo. O que acontece? Está o primeiro andar, o térreo e o primeiro andar aqui nesse. Aqui na divisa eu construí os pilares todos desde o subsolo. Vou dar um exemplo. Se você faz um prédio, tem esse andar aqui, você vai por uma determinada ferragem ali. Se você não tem condição de fazer essa laje e o pilar vai ficar sustentado lá embaixo com outro tanto desse. Então lá em Franca teve lugar onde se usava doze ferros, e eu tive que usar vinte e três ferros para poder fazer esse pilar desse tamanho de dois andares. Por causa do que se chama flambagem. Por exemplo, se você tem uma vareta com um metro, você pega ela assim, ela não murgueia, mas se você passar a mesma vareta para dois metros, ela murgueia. Isso se chama flambagem. Para evitar a flambagem, de doze foram para 23 ferros, do mesmo ferro, lá em Franca. Eu tive pilar lá que eu tive que fazer isso, porque eu não tinha condição de tirar essa laje, o DG estava aqui. Então eu passei por cima do prédio que já estava, pus coluna aqui também, porque ia ficar previsto dentro do prédio... E o equipamento está funcionando aqui. Aí, depois, desapareceu esse prédio daqui. Aí eu fui emendando as lajes todas pra cá. 

 

P/1 – Aí não teve trinca.

 

R – Ele não teve trinca, não. Agora, se o Luiz for ouvir isso aí... Ah, pois é, Luiz, você virou para mim e falou assim: “Você dá conta de fazer?” Eu falei: “Dou.” E está lá o prédio, não é? Ele virou para mim, falou assim: “Vilmar, você dá conta de fazer? Então vamos fazer.” E fomos. Graças a Deus foi bem. Uma vivência muito boa.

 

P/1 – A instalação dos equipamentos já não era uma área sua, mas o senhor tinha que conhecer.

 

R – Justamente isso. Quando se falava em fazer um prédio desse, que eu ia lidar, então eu passei com a convivência com a Ericsson, com a Siemens, com tudo. Então eu já sabia. “O equipamento é Siemens, é esse, vai mais para frente.” “Vai lá, Milvar, eu não sei o que é que vai mais para frente.” Então a gente tinha que fazer o negócio meio... Eu vou dar um exemplo. Isso aqui é um cômodo para lá. Mas só está funcionando esse. Às vezes eu fazia a instalação elétrica de lá e de cá e comunicava a tubulação. Não é que ia passar fio. Então o eletricista chegava para mim: “Não, vamos tirar, não vai passar fio aqui.” Mas amanhã chega aqui, arranca isso aqui, o salão cresce desse jeito e eu não tenho onde passar os fios. Entende como é? Eu gastava mais dois metros de tubo para o futuro. Às vezes até falavam para o Luiz: “O Milvar está colocando tubo num lugar que não vai passar fio nenhum. E está dizendo que não vai tirar.” E não tirava! Eu não deixava, não! O Luiz nunca falou nada comigo, não, de achar ruim. Era uma previsão. Então, o que estava cá por baixo eu podia manejar à vontade. O de cima já estava feito, o principal. Eu me enfronhei sobre os equipamentos que usavam na época. O Luiz falava: “Vamos pôr dez mil terminais aí.” O terminal é da Ericsson. Depois veio o quê? Os microondas. Então começaram. O prédio que eu projetei para dez já dava só sete e quinhentos. Porque a microondas ocupou aqui parte da área. Porque o sujeito chegava e o salão estava grande demais. “Ô, tira aquele pedaço lá do fundo.” Hoje não usa mais nada disso também, porque com o tempo vai acabando tudo. Quer dizer, os equipamentos já são outros. Mas foi uma época de vivência boa, de a gente ver a direção procurando acertar nas soluções, resolver os problemas dos lugares todos. E gente fica satisfeito. O duro é você estar trabalhando e não aceitar sugestão. Lá a gente tinha diálogo, tinha conversa. “Não, Luiz. Isso assim, assim, assim...” Conversava. O Alexandrino era mais inflexível. Para gente convencer o Luiz acabava daquele jeito assim: “Sei lá o que vocês combinaram! Só faz lá e pronto, acabou!” 

 

P/1 – Seu Alexandrino.

 

R – Às vezes ele tirava o dele: “Eu não concordei, não dei ordem, não tá certo, mas faz!” Tinha isso. É a tal história: o Alexandrino não tinha estudo avançado, ele tinha noção; já o Luiz tinha o domínio todo. Só depois que eu entrei, que eu já estava lá uns três ou quatro anos depois, que eles começaram a partir para a microondas com tudo e começaram a melhorar o quadro de técnicos. Aí começou-se a saber que se comprou certos equipamentos que nunca foram usados porque não sabiam a função daquilo. Os técnicos também não sabiam, não alertavam a direção de que existia isso, isso e aquilo. “Espera! E nós compramos isso?” Porque a Ericsson fazia aquilo e enfiava um punhado de equipamento que não sabia que ia ser usado, mas sabia que em outros lugares já estavam usando. Mas a gente não tinha técnicos para discutir aquilo e falar: “Isso aqui nós não vamos usar, não sei nem quando vai usar. O dia que precisar, põe.” Mas já punha tudo. Eles vinham, mandavam o lote e punham. Concordou com o que eu quero dizer? Isso está sujeito em todo lugar de acontecer. Por exemplo, Itaipu. Não sei se você sabe o problema de Itaipu. Lá, os técnicos paraguaios com os brasileiros, com os contratados e tudo, estão fazendo Itaipu. Então vamos encomendar as turbinas. Aí vira o sujeito e diz assim: “Vai ser cinquenta ou sessenta ciclos?” O Brasil é sessenta ciclos, o Paraguai é cinquenta ciclos. O sujeito senta na mesa e: “Gente, nós esquecemos disso. Então, como é que nós vamos fazer?” O Paraguai: “O nosso é cinquenta ciclos.” O Brasil: “O nosso é sessenta ciclos.” Mas não morre aí. O que morre é o seguinte: é que quem pegou o financiamento foi a multinacional, na qual o Brasil tem maior participação. Como é que o Paraguai vai pagar? Ele vai pagar fornecendo energia elétrica. Se vai fornecer em cinquenta ciclos, o Brasil não tem jeito de usar. Ia beneficiar a Argentina. A Argentina é cinquenta ciclos. E o Paraguai: “Bem, se vocês não querem, eu vou vender para Argentina.” O que que o brasileiro fez? Teve que gastar outra Itaipu para passar para sessenta ciclos o que está gerando em cinquenta. O Brasil teve que gastar e quem é que foi o culpado? O staff todo do Departamento de Minas e Energia, que não lembraram que é sessenta e cinquenta ciclos.

 

P/1 – Um pequeno detalhe...

 

R – De maneira que não é só na Telefônica que isso acontece, não. Isso acontece em qualquer âmbito. 

 

P/1 – Ao mesmo tempo que esses equívocos eventualmente acontecessem, foi um momento em que a chamada base tecnológica da companhia foi...

 

R – Foi evoluindo. Eu acompanhei isso. Então a satisfação que a gente teve de conviver com o grupo e ver esse crescimento. Uma ocasião eu fui até Pará de Minas, lá da Telefônica, fui em Pequi, Maravilha e Papagaio. Eles tinham adquirido aquilo nessa época. Então eu andava viajando, acompanhando, olhando a rede física, guiando o carro e olhava para ver se tinha algum problema, qualquer coisa. Eu cheguei e fiz o relatório para a diretoria, que se à Telefônica interessasse ligar a rede física que existia de Pará de Minas até Luz, e se ele quisesse interligar com a outra que estava na altura de Araxá, que fizesse primeiro, porque a viabilidade mais fácil de fazer era no sentido esquerdo, vindo de lá para cá. Porque eu vim olhando o trabalho de se fazer a rede física. Aí eu cheguei um dia lá: “Tem um recado que o Seu Alexandrino quer conversar com você.” Aí eu cheguei lá e ele: “Estou com seu relatório aqui na mão. Isso nós vamos lá para ver. Amanhã cedo eu te pego, nós vamos lá.” Agora é que vem a parte humorística da coisa. Eu sei que o horário dele, quando ele marca seis horas é quatro horas. E eu levantei mais cedo, levantei em torno de quatro horas e abri a janela da minha casa. Quando eu abri eu já tinha deixado tudo pronto na minha casa para sair com ele. Ele falou que passava seis horas. Aí, quando a Caravan dele encostou, ele olhou para mim, eu falei assim: “Um minuto!” Fui lá, peguei minha pasta, desci, entrei dentro do carro, aí o Alexandrino virou: “Eu perdi o sono e resolvi vir para ver se você estava acordado.” Aí eu falei: “O senhor queria me pegar dormindo, mas não pegou, não”. Que ele queria falar: “Milvar é dorminhoco!” Não me pegou dormindo, não.

 

P/1 – Ele discutia com o senhor de igual para igual, quando ia fazer esse tipo de inspeção?

 

R – Aí nós chegamos lá. Eu fui mostrando os lugares para ele: “O senhor está vendo aqui? Ó isso, isso, isso...” Ele foi olhando tudo e depois, logo em seguida, eles fizeram. Chamaram o Joaquim, que era fazedor de linha física, aí foi a turma para lá e eles foram fazendo, até completar. Minha atuação lá era desse jeito. Eu olhava e, às vezes, um lugar que eu sabia que a Telefônica não estava e poderia entrar, que interessava que fosse do grupo, eu sugeria. Às vezes eu andava sessenta quilômetros. Fiquei conhecendo a estrada de onde que eu achava que devia chegar, ia lá, vinha, pegava outra estrada às vezes até pior, vinha mais uns setenta quilômetros, ia sair noutro lugar para ver a condição de execução, caso se fechasse negócio. Então eu ia lá, fazia uns pequenos contatos, depois ia a turma, ia diretor que era da área financeira, da área de comercial, aí eles iam lá para fazer os contatos e fechar negócio. Porque comprava ações até assumir a companhia? Depois ia colocar ela dentro dos padrões que o Alexandrino queria. Mas primeiro tinha que ter certeza dos trâmites legais e tudo. Às vezes até antes de assumir o controle já estava fazendo. Por isso que chegou ao que é. Seu Alexandrino foi um sujeito muito atirado e de visão e nisso tudo está aí. Por isso que Uberlândia é o que é. São esses homens aí. Eu até vou falar uma coisa para vocês. Eu sei quem é o idealizador dessa estrada, desse asfalto de Uberlândia para o Prata. Ele, Alexandrino, chegou para o prefeito e falou: “Vamos fazer uma estrada daqui para o Prata? Em vez de ir no Chapetuba ao Prata, a gente vai aqui por dentro. Eu conheço isso tudo aí, eu marco. Eu vou marcando a estrada para o maquinário trabalhar.” “Mas como?” E ele: “Olha, nós vamos lá conversar com o Geraldinho...” É o diretor do DER [Departamento de Estradas de Rodagem] aqui em Uberlândia. Quando a máquina estivesse parada, que não tivesse dinheiro para tocar a obra, a prefeitura pegava o maquinário, o Geraldinho mandava o maquinário para lá e ia fazer a estrada para o Prata. Quando já estava na altura do Douradinho, para lá do Douradinho, o Alexandrino queria que esse indivíduo marcasse a estrada até no Prata para o Alexandrino fazer a linha física. “Eu não vou fazer. Eu não vou receber nada. Pergunta se ele paga para mim?” É claro que eu não consegui nunca fazer. Tinha que pagar, né? Porque não ia ficar com a turma lá, abrindo picada. É, mas interessava para quem integrar? Interessava para nós, do grupo. Mas como? Onde é que eu ia arranjar dinheiro para pagar o homem? Então ficou. Está asfaltado, não está? Essa estrada já foi inaugurada pelos políticos duas vezes. Nunca chamaram o homem para participar. Foi o homem que fez a picada, foi abrindo, os tratores trabalhando, até chegar lá no Prata. Hoje está asfaltada. A prefeitura, os políticos de Uberlândia nunca chamaram o indivíduo para participar da inauguração. “Olha aqui quem é que idealizou isso quem foi o propulsor de fazer isso.” Eu estou falando para ficar aí, para mostrar o que é político. Eu encontro com ele falando: “Será que na terceira inauguração eles vão te chamar?”

 

P/1 – O senhor e sua equipe tinham noção do serviço público que estavam prestando? 

 

R – Eu tinha. Na medida das possibilidades, nós fazíamos o melhor possível. O serviço da telefônica, comparado com tudo que eu conheci, era o melhor que tinha. Uberlândia foi muito bem servida. Eu costumo dizer que o Alexandrino foi um homem que dedicou a vida a isso. Eu não misturo uma coisa com outra, mas ele dedicou a vida a isso. Formou o Luiz em engenharia, eu não sei se o Luiz gostava de engenharia elétrica, mas eu acho que ele foi incentivado pelo pai a formar em engenharia elétrica e gostou. No final das contas ele veio trabalhar numa coisa que era do pai dele e dele. Eu toda a vida insistia com a turma: “Aquilo lá, quando a gente está lá, é nosso.” Não é o sujeito chegar assim: “A Companhia do Alexandrino.” Não! Isso aqui é nossa Companhia, nós vivemos daquilo! Entendeu como é que é? Mas era um homem que você dava prazer. A família é só negócio, e o negócio é Telefônica, só vive disso até hoje. O Luiz vive disso, está encravado nele aquilo. A gente tem prazer. Isso aí, vamos dizer assim, foi o crescimento. Tinha um capital, uma arrecadação, e aquilo estava nas boas mãos do Sátiro, da Ilce, que sabiam aquilo, e ele, Alexandrino, tinha a equipe que ele foi criando. Outros que nos contratos que se faziam para discutir o negócio da arrecadação, porque o grupo dependia da arrecadação. Agora aquela projeção daquilo tudo que tinha ali era uma correria danada. Aquilo ali, naquela época de inflação, aquilo era um malabarismo que olhe lá! Olhe lá! Ele não fez cem por cento do que podia ter feito, não: ele fazia era sempre mais. Sempre mais! Esse homem era uma satisfação de a gente ver. Tem outros grupos aqui em Uberlândia, também, do mesmo jeito, que a gente vê que para a cidade foram os esteios. Por exemplo, o Tubal Vilela como prefeito. Tubal Vilela, quando tinha que fazer uma obra, como essa da avenida Getúlio Vargas quando começou, uma firma de Belo Horizonte ganhou a concorrência. Veio cá, começou, foi embora, largou. Aí ele pôs trator da prefeitura, dele, com tudo, e deixou ela funcionando de terra. A de Belo Horizonte deu no pé. Já imaginou prefeito pôr trator dele lá? Ele pôs. Ele viveu para Uberlândia. Eu estava no escritório do Tubal Vilela, em Belo Horizonte, quando eu vinha do Espírito Santo, eu ia no escritório dele sempre. Uma porque eu gostava muito dele, ele é que trouxe o papai para cá, eu vim para cá. Então eu ia. Várias vezes eu vim para Uberlândia com a filha dele, a mulher do Evaldo, que está acabando aquele predinho ali na Duque de Caxias, nas lojas ali. O Evaldo, que era o marido dela e que estava fazendo, morreu, agora está acabando. Ela foi lá, fez o negócio com o Lima e o Lima está para inaugurar, parece que é agora, no fim do ano. Então eu ia lá porque era o seguinte: ela estudava em Belo Horizonte, queria vir para Uberlândia e não tinha companhia, então eu vinha com ela. Cheguei até a vir de avião na época. Então eu estava no escritório dele quando um sujeito virou: “Tubal, faz igual seu irmão. Vende tudo o que você tem em Uberlândia e aplica aqui em Belo Horizonte para ganhar dinheiro. Aqui é que é lugar de ganhar dinheiro. Não faz esse prédio, não.” Que é esse prédio da Praça Tubal Vilela. Passado um, dois anos, eu estava lá na esquina apreciando a cravação das estacas, que a fundação é com estacas pré-fabricada e cravada no chão. E a turma falava assim: “Esse Tubal é louco! Com tanto chão...” A Vila Martins não tinha casa nenhuma, ainda tinha cerrado. “Esse homem é louco, fazendo essa gaiola! Quem é que vai querer morar nisso? Aí tem tanto chão para fazer casa!” Então, lá no escritório dele, eu vi ele falar assim: “Não. Eu vou fazer em Uberlândia. Foi lá que eu criei minha família, ganhei dinheiro e é lá que eu vou fazer.” Eu sou testemunha disso. “É lá que eu vou fazer.” Está lá, do Tubal Vilela ainda. Eu estou falando sobre um homem de Uberlândia, assim como o Alexandrino. O Hotel Presidente. O Tubal era prefeito. Ele passou uma lei dando isenção de dez anos de impostos para o indivíduo que fizesse um hotel de gabarito em Uberlândia. Um ano, dois anos dos uberlandenses de porta de Butantã, que ficam lá só no blá-blá-blá: não apareceu um! Não apareceu um que quisesse fazer o prédio. Ele pegou, criou a Companhia Hoteleira dele, com os filhos dele de sócios e mais algum, e fez. E eu assisti ao pessoal falar: “Está vendo? Tubal Vilela passou a lei para ele aproveitar os dez anos sem imposto.” Uai, esperou dois anos e ninguém quis! A lei caducava acho que com quatro ou cinco anos. Ele falou: “Não, então eu vou fazer!” Então são esses homens que tocam Uberlândia até hoje. Até hoje.

 

P/1 – O senhor ficou na CTBC até quando?

 

R – Só olhando ali, porque eu não lembro mais, não. Até 1980? É, em 1980 eu já estava bem desgastado e foi quando já estava chegando a época das fibras óticas. Agora já está outra época, que é essa aí, a época da globalização. Ninguém sabe nem no que é que vai dar isso. Eu li a palestra de um rotariano, abordando a globalização. Não é criticando a globalização. Chega no final e ele diz assim: “Como uma firma que vai lançar um empreendimento tem dois milhões de reais, com a possibilidade de entrar uma outra que entra com não sei quantos bilhões de reais? Como é que uma vai concorrer com a outra?” As chances são iguais na globalização. Você pode fazer em qualquer país uma a inversão. Só que o pequeno não tem vez. É a conclusão que o rotariano chega. Eu até tirei xerox, não sei onde é que foi parar minha xerox da palestra dele. Eu achei, eu falei: “Gente, é certo! Não tem.” Por exemplo: telefonia. Nós estamos em telefonia. O que está acontecendo? Nossa telefonia foi privatizada, não foi? Você viu quanto do alto gabarito de gente, de estrangeiros, que entraram no Brasil e tão ocupando todas as principais funções disso tudo? As melhores remunerações? E o brasileiro? O que eles esqueceram na globalização? O que eles, os nossos ilustres políticos e deputados, esqueceram em permitir isso? Só 10% ou 5% por cento de estrangeiros dos altos cargos. O restante tem que ser de brasileiros. Mas não fizeram restrição nenhuma, entregaram de mão beijada tudo.

 

P/1 – O senhor se dá conta de que a CTBC, no rol de todas essas empresas, é a única que tem história para contar? Nenhuma dessas empresas tem cinquenta anos, ou 45 anos de telefonia. 

 

R – Pra conversar desse assunto eu teria que pôr outras coisas no meio, não tem jeito. Mas, da Telefônica, eu acho que é a única que tem. Porque a outra era estatal, todas eram estatais, com exceção de algumas, igual a de Ribeirão Preto e a do Rio Grande do Sul, a CRT [Concessionária Rio Teresópolis]. A CRT tem a sua história também, mas nenhuma tem a história de um trabalho de um homem igual foi Alexandrino Garcia. Que eu saiba, não tem nenhuma. O empreendimento de um indivíduo que foi, foi uma labuta ganhando terreno para se firmar, a turma querendo tirar ele do páreo e ele não saía. E foi vitorioso, graças a Deus e para o bem de Uberlândia. Porque senão nós estávamos no vinagre. Vamos ver, por exemplo, o Luiz Garcia, especificamente da vida do Luiz. O sujeito que está lá, sabe: se não tivesse o Luiz nisso, com o conhecimento que ele tem, nós teríamos o Call Center aqui em Uberlândia? Você acha que teria? Nunca! Então são esses homens que fazem Uberlândia. Bom, eu citei disso tudo que você pediu aí, porque realmente a história da CTBC é vinculada à história de Uberlândia. A CTBC é vinculada à história de Uberlândia. É Alexandrino, Doutor Fernando, é Tubal Vilela, são esses homens antigos que tinha aí. Eu não acredito que nenhum acreditava que Uberlândia chegasse ao que está hoje, porque Uberlândia está dentro, eu calculo, dentro das cinquenta cidades principais do Brasil. E olhe lá! Que você põe dentro das cinquenta e ainda tem que pôr um parêntese ainda: vamos pôr o Altíssimo junto aí, que colocou Uberlândia no local onde está. Muito de tudo isso é por causa da localização de Uberlândia. O dia que sair um trem bala, que chegar a ser necessário um trem bala entre São Paulo e Brasília, ele vai passar por onde? Vai depender dos políticos daqui? Vai depender desses homens que levaram Uberlândia até o que está hoje? Não. Por isso que eu falo: o Altíssimo pôs Uberlândia aqui para isso. O trem bala passa por aqui. É o ponto e está no meio! Eu participei de uma discussão e um sujeito dizia que Campo Grande tem muito mais futuro do que Uberlândia. Aí eu mostrei o trem bala, que é o meio de transporte terrestre mais rápido que existe hoje, no chão. Aí falei: o maior pólo industrial da América Latina é São Paulo, o centro de decisão do Brasil é Brasília. Eu falei que vai chegar um dia que vai precisar de trem bala. Todo mundo concordou. Eu falei: “Vai passar por Campo Grande?” Todos riram. Vai passar por Campo Grande? Tem muito mais futuro do que Uberlândia. Vai depender de Uberlândia? Uberlândia não tem influência nenhuma, Mas está no meio do caminho! Olha o Altíssimo aí. Entendeu o que eu estou falando? Fala o nome que quiser, Deus, cada um dá um. Buda, coisa e tal. Por isso que eu falo O Altíssimo. Mas não podemos nunca, nunca esquecer esses homens, como os políticos estão esquecendo o homem que fez, o idealizador, o homem que trabalhou para sair a estrada daqui pro Prata. Nem rua no nome dele tem. Agora puseram o nome do pai dele e eles não sabem, não é por causa do pai dele, não. Não é por causa da estrada, não. A estrada é outra história. Eu falo: “Gente, o sujeito precisa saber as coisas, dar valor.” No caso específico do Alexandrino: uma ocasião eu falei para um sujeito, dentro da Telefônica, quando eu estava na Telefônica. Eu falei: “Escuta, se você fosse o Alexandrino, o que você fazia diferente do que ele está fazendo?” “Não, eu fazia o que ele está fazendo.” “Então você acha que ele está errado?” “Não, não está, não. Está certo, eu também faria.” Aí o sujeito caiu em si, certo? Eu não recordo o que era, eu sei que o Alexandrino queria um negócio lá, o cara começou a falar, e eu falei: “Espera aí! Espera aí! Primeiro, você se põe no lugar dele. O que você faria? Diferente ou isso?” Aí o cara pensou: “Não, é o que ele está querendo fazer, não é?” Pronto, acabou! Esses homens é que têm o seu lugar, uai.

 

P/1 – Por que o senhor deixou a Companhia? O senhor aposentou-se?

 

R – Nós vamos cansando, já estava na hora do bananeiro cortar a bananeira. E foi, graças a Deus. Mas eu tenho amizade e tudo. Atualmente, não, porque agora cresceu demais a Companhia, não tem mais. Mas quando o Luiz andava — que ele fazia suas caminhadas aí —, várias vezes eu encontrei com ele. “Ó, vem cá, vamos caminhar juntos. Vem cá.” Então ele vem com a Dona Ofélia, a gente pára, nós vamos conversar e tudo. Nós temos umas passagens particulares minhas com ele, boas, de viagem, quando ele pilotava. Nós vínhamos lá de São Paulo, estávamos lá na altura de Ituverava e ele: “Já estou avistando Uberaba.” Depois nós tivemos que voltar para trás porque não dava para passar no Rio Grande, o tempo estava todo fechado. Ele já estava comunicando que estava avistando Uberaba, que estava chegando. Já estava escurecendo. Aí nós voltamos, descemos não sei onde. Acho que foi numa fazenda que nós descemos, uma fazenda de Orlândia. Tinha um campo naquele trevo daqui para lá de Orlândia, assim à direita, e tinha uma fazenda de um sujeito que até foi o que propiciou o Grupo Algar entrar em Orlândia. Então ele gostava de descer lá, de vez em quando descia. Foi bom, uns tempos bons, muito bons. Mas vocês pegaram para saber mesmo como é que foi a labuta que fez o grupo crescer, vocês pegaram dois elementos-chave, que são a Ilce e o Sátiro. Eles estão por dentro de tudo. Agora tem os que sabem, assim, específico. Dessa área de São Paulo, seria o Ataíde, né? Ataíde, também, ele sabe como é que foi a expansão. Daí a parte de reajuste de tarifa, ele é quem está por dentro de tudo, como foi a labuta disso tudo.

 

P/1 – Como é o nome dele todo, Doutor Milvar?

 

R – Ataíde Barata Dias. Não sei se vocês vão achar tempo dele, mas esse fim de ano não vai conseguir, não.

 

P/1 – Não, nós temos tempo.

 

R – Só se for para o ano que vem, porque ele agora vai receber a família toda, vem parente até de Portugal, não adianta. Nem entre em contato com ele agora. Pode ser para o futuro, para o ano que vem. Expor para ele, aí é bom. Ele que montou o equipamento em várias cidades lá de São Paulo. Guará, acho que Ituverava também. Tanto é que ele acabou vindo para Uberlândia para ser assessor da diretoria nessa área de tráfego.

 

P/2 - Ele era gerente de tráfego?

 

R – É. Mas eu só peço que não entrem em contato com ele agora, não. Porque agora eu sei que ele está com os afazeres, muito ocupado.

 

P/1 – O senhor não imagina o quanto o senhor foi útil também.

 

R – Eu? De construtivo, nada. Eu contei as passagens minhas, o que eu acho do que foi o Alexandrino Garcia e o que está sendo o Luiz Alberto Garcia, porque até hoje ele está mostrando para os que vêm aí pela frente que fez uma coisa de peso. Ele conseguir que a Telecom... Montar esse Call Center em Uberlândia, só isso, já não precisa mais nada. Para mim, já complementou o do pai dele, e com sobra. Tudo tem os devidos lugares, não é? Como é que você vai comparar, por exemplo o... Um que foi coletor de Uberlândia e foi prefeito. Não fez nada em Uberlândia. Como é que ele se chamava? Só tem uma coisa: ele zerou as dívidas todas de Uberlândia. Ele era coletor, acostumado a mexer com dinheiro. No tempo que ele foi prefeito de Uberlândia ele zerou as contas, tudo. Mas zerou mesmo! Pagou tudo. Mas esse homem, o que ele fez? Nada, certo? Nem desmanchou uma praça e fez outra, no mesmo lugar. Mudou os bancos de lugar, falou: “A nova praça, vamos inaugurar!” 

 

P/1 – Doutor Milvar, há alguma coisa mais que o senhor gostaria de dizer?

 

R – Eu já disse tudo, esses passados aí. Mas dá lembrança, e boa. Não poderia ter melhor. Mas tem uma coisinha aqui, ainda assim, interessante: tudo de computação era lá em cima, na Cidade Industrial. Aquilo lá foi feito para oficina. Depois de feita a oficina, resolveram levar a administração para lá. Não é aquela parte nova, não, é aquela antiga. E eu saí da Telefônica. Depois, um dia que eu encontrei com o Luiz, eu falei: “Ô, Luiz, tudo o que você tem...” O pai dele já tinha falecido. “Tudo o que você tem está lá em cima. Você não se esqueça que aquilo lá é um prédio feito para oficina, adaptado. Se aquilo lá pegar fogo, queima tudo, e tudo o que você tem está lá nos disquetes, está tudo lá. Se eu fosse você, eu passava cá para baixo.” Hoje está aqui embaixo, não está? Aí ele virou pra mim e falou assim: “Milvar, você nunca falou comigo assim!” Eu falei: “Luiz, mas agora eu não sou o seu empregado, não. Agora eu estou falando para você de homem para homem, né? Se eu fosse você, eu passava tudo para cá.” Ele falou: “Vou pensar nisso.” E ele foi, foi passando tudo para cá. Ninguém sabe disso, mas foi um dia que eu cheguei, estava com vontade de conversar com ele e eu falei. Ele virou para mim: “Você nunca falou comigo assim!” Eu falei: “Mas agora eu não sou mais seu empregado, não.” Você entendeu? Quer dizer: eu, como empregado, chegar para ele e falar do jeito que eu falei, não tinha jeito, não é? 

 

 

 

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