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História

Trilha para o desenvolvimento sustentável

História de: Marcelo Linguitte
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/07/2008

Sinopse

Até ingressar no Instituto Ethos através de um convite, Marcelo sequer sabia o que significava responsabilidade social, conceito novo e pouco discutido à época. Porém, a experiência adquirida na atuação em avaliação de empresas, sob diversos aspectos, lhe trouxe grande conhecimento na área. Marcelo avalia sua passagem pelo Instituto, onde permaneceu até 2006, e sua atuação profissional atual em consultoria para empresas. Seu relato demonstra que é possível conciliar os interesses econômicos e a responsabilidade social e desenvolvimento sustentável no âmbito empresarial.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO Marcelo Linguitte, nasci em São Paulo, no dia 5 de outubro de 67. Eu sou engenheiro civil. ATIVIDADE ATUAL Tenho uma consultoria chamada Terra Mater, na área de responsabilidade social e desenvolvimento sustentável. Faz dois anos. Desde 2006, quando eu saí do Instituto Ethos. INSTITUTO ETHOS Primeiros contatos O primeiro superintendente do Ethos, o Maneto, Waldemar de Oliveira Neto, era amigo do meu sogro e a gente se conheceu. Quando meu sogro vinha de Recife pra São Paulo, a gente saía à noite, a turma e tal. Eu conheci o Maneto. Eu comecei a fazer o mestrado na Poli e uma das disciplinas tinha a ver com ONG e eu fui procurar o Maneto pra que ele me falasse um pouquinho sobre isso. Era um momento que ele estava indo pra Ashoka, pros Estados Unidos. Sempre que ele vinha de lá, a gente se encontrava, batia um papo, ele me apresentava pessoas com as quais eu pudesse conversar pra entender um pouco desse terceiro setor. Aí teve um momento que eu comecei a gostar. Eu trabalhava num banco, numa instituição financeira, estava bem, mas pouco, talvez, frustrado com aquilo que eu fazia. E aí surgiu uma oportunidade. Numa das vindas do Maneto, em 98, ele disse: “Olha, o Oded Grajew, conhece?” “Conheço, da Fundação Abrinq” “Então, ele está montando uma nova organização sobre o tema responsabilidade social, conhece?” “Não, nunca ouvi falar o tema” “É uma tema novo e também a gente não conhece muito bem, mas você está a fim de conhecer? Tem uma vaga pra trabalhar com empresas, você trabalhou a vida toda com empresas”. E assim foi. Eu conversei com o Oded, a gente conversou umas duas vezes; com o Oded, com a Mara, com a Maria Cristina Nascimento e foi entre setembro, outubro de 98, a gente começou a trabalhar no Ethos, na Francisco Leitão. O escritório era pequeno, estava começando, eu fazia um pouco de tudo, organizar eventos, ajudar na conferência. A Cláudia, na época, cuidou da conferência, mas a gente apoiava. Basicamente, minha função era trazer novos associados pro instituto; empresas associadas, captar recursos e organizar aquilo que fosse necessário. Com o passar do tempo e com o crescimento da organização, comecei a assumir outras funções. Além de trazer novos associados, captar recursos no Brasil e no exterior, representar o Ethos institucionalmente, administrar ou mobilizar uma rede de relacionamentos do Ethos, como com entidades empresariais, fazer parcerias com entidades no Brasil e no exterior. A coisa foi se desenvolvendo até que eu assumi a função de gerente de relações institucionais e internacionais do instituto, posição que eu mantive até 2006, quando eu saí. INSTITUTO ETHOS Desenvolvimento No começo não foi fácil porque nem a gente sabia exatamente o que significava responsabilidade social. Nosso conhecimento era muito limitado, um pouco aquilo que a gente lia, ou que procurava um pouco de informação, conceitos que a gente ia montando, o que o conselho nos orientava. Então transmitir alguma coisa que você não está completamente seguro não é muito fácil. No começo, acho que teve um papel muito importante, como até hoje, do Oded em abrir as portas. Muitas vezes, quando a gente chegava pra conversar com as empresas, o caminho já estava trilhado, já estava aberto, a gente consolidava as associações, as parcerias, etc. Em alguns casos não. A gente tinha que conversar com as empresas e mostrar o que era responsabilidade social. No começo era sempre uma associação com ação social inevitavelmente: “Não, a gente cuida de uma creche, a gente não sei o quê”. Eu me lembro de uma vez em que fui visitar uma usina de cana-de-açúcar, em Pernambuco, e o dono da usina nos mostrou uma escola que ele tinha enorme, muito bonita, muito bem cuidada: “Isso é o que a gente faz pra comunidade, pros nossos trabalhadores, os filhos dos nossos trabalhadores estudam aqui.” A gente estava almoçando, no meio do almoço toca o celular dele: “Não, não, isso aqui não dá, o fiscal teve aqui mas a gente teve que pagar um dinheiro pra ele não multar a gente, mas tudo bem.” E virou, mudou de assunto. Quer dizer, então responsabilidade social era uma coisa que pra ele não fazia muito sentido como negócio. Esse foi um grande desafio: falar, estabelecer essa relação: como é que você botava isso nos negócios. E acho que com os indicadores do Ethos, a gente começou a dar mais concretude pro discurso, embasar o que a gente falava e realmente algumas práticas possíveis da empresa desenvolver. No começo, como não poderia ser diferente, era um discurso superficial, um discurso que tinha certo nível de generalidade. Por que não poderia ser diferente? A gente estava começando a conhecer o tema, no mundo todo, talvez, uma ou outra organização tivesse um conceito um pouco mais sofisticado, mas foi muito no espírito voluntarista e, enfim, e da boa vontade das empresas também, em nome do Oded, quer dizer, dos conselheiros que orbitavam em torno do Ethos. Mas não foi muito fácil não. INDICADORES DO INSTITUTO ETHOS A gente começou a perceber que faltava uma ferramenta que as empresas pudessem mediar o seu desempenho e, de certa forma, trazer resultados mais concretos pra ela: “Estou bem ali, estou bem aqui, estou mal ali”. A gente tinha, na primeira publicação do Ethos, que são os primeiros passos, um check list no final. Mas, um check list que não dava muito resultado; tipo check list de revista Nova: como você está, está aqui, soma pontos; não tinha muita consistência relativamente ao que a gente vê hoje, claro. Então os indicadores do Ethos foram uma tentativa da gente dar um instrumental pras empresas da forma que elas pudessem avaliar as suas práticas e saírem do discurso. Quando a gente falava sobre esse tema, todo mundo concordava, mas por que as coisas não aconteciam? Porque não incorporava. E uma forma de incorporar é você dar ferramentas. E aí o Ethos contratou uma empresa de consultoria, duas pessoas que haviam saído da McKinsey nos ajudaram a desenvolver, fizemos uma compilação muito grande de materiais, de referências, de normas, de critérios internacionais e nacionais, prêmio nacional de qualidade, não sei o que. E nos apresentaram um material com formulário que, segundo a visão deles, estava bem adequada e poderia ser utilizada, mas que era efetivamente muito complexo. Aquilo não estava agradando, não agradou a ninguém e o Maneto se debruçou sobre um dos capítulos pra tentar desenvolver uma forma mais adequada. Ele chegou à forma que são hoje, os indicadores. E a partir dali, eu estava junto com o Maneto, e com mais umas duas outras pessoas, a gente acabou replicando aquele modelo que ele criou pro restante dos indicadores, pro restante das aplicações. Teve uma participação. Foi muito uma tentativa de dar mais concretude e fazer com que as empresas saíssem do discurso pra prática. Eu acho que foi um divisor de águas pra gente. ESTRATÉGIAS DO INSTITUTO ETHOS A princípio não foi uma estratégia pensada foi algo que veio acontecendo porque o tema começou a crescer muito no mundo todo, e no Brasil de forma particular. E o trabalho do Ethos. por conta de diversas razões, publicações, participações, convites ou do Oded que já era conhecido por conta do trabalho da Fundação Abrinq, o trabalho do Ethos começou a ficar conhecido e, principalmente. depois dos Indicadores começou a assumir um papel mais relevante. As pessoas diziam: “Pôxa, o que está acontecendo no Brasil nesse tema de responsabilidade social?” E a gente começou a ser chamado pra dar palestra aqui, pra compartilhar experiência, alguns países da América Latina pediram pra traduzir publicações nossas, a gente começou a perceber: “Tem alguma coisa acontecendo, isso tem uma repercussão lá fora, então é melhor a gente se preparar.” E aí sim, a gente começou a se preparar, montou uma área. A gente não tinha uma área e aí a gente começou a estruturar, estabelecer algumas estratégias. Então, ok, o Pacto Global das Nações Unidas, tem que posicionar com o Pacto Global. E a gente começou a ver em quais locais, ou fóruns, ou ambientes, ou organizações com as quais a gente gostaria de estabelecer parcerias e estar, de alguma forma, lidando com elas. Se começou a estruturar isso. Eu vejo que o Ethos tem um papel internacional bastante relevante porque ele também conseguiu trazer algumas iniciativas internacionais. Quer dizer, eu acho que algumas organizações viram no Ethos uma oportunidade de estar presente no Brasil e também, em contrapartida, deram uma possibilidade do Ethos se posicionar internacionalmente. Uma organização como o Fórum Empresa, que é uma plataforma de organizações como o Ethos, que está em vários países da América Latina. E o Ethos teve um papel muito importante nessa organização de fortalecer, porque já tinha uma experiência, mas também aproveitou um pouco o embalo, instrumentalizou um pouco o Fórum Empresa a seu favor, de acordo com as suas estratégias, pra poder também se posicionar na América Latina. Como tem sido o grande objetivo através, por exemplo, com o Programa Latino Americano de Responsabilidade Social. Então, no início, não foi um movimento pensado, uma estratégia definida, inclusive no próprio conselho do Instituto Ethos teve muita discussão com relação a estes aspectos, havia conselheiros que achavam que o Ethos devia ser uma organização eminentemente brasileira, havia outros conselheiros que achavam que o Ethos deveria ser uma organização brasileira, mas com uma atuação no exterior; nunca se pensou no Ethos sendo uma organização internacional. Mas sempre uma organização brasileira com atividades, projetos no exterior. Hoje, no conselho, isso está mais tranqüilo porque o Ethos tem um conselho internacional que a gente montou em 2005. Foi a primeira reunião do nosso conselho em 2005... Não, em 2004-2005. 2004. Então, a primeira reunião e hoje já está mais consolidado isso, mas foi um processo de aprendizado, não foi algo estruturado. Depois o Ethos começou a perceber as oportunidades e começou também a se posicionar politicamente pra fortalecer a sua posição aqui no Brasil. TRAJETÓRIA PESSOAL Eu saí do Ethos em 2006 por algumas questões. Teve uma questão pessoal, familiar, Sou casado e, na época, minha esposa pediu para separar. O salário que eu tinha não era suficiente pra manter a minha casa e a dela, com as crianças e tal. Então, eu achei que deveria buscar novos rumos, que eu achasse que poderia ter um resultado maior, isso por um lado. Porque eu também achei, pela minha perspectiva, que eu estava num determinado patamar no Instituto Ethos que dali não sairia. Quer dizer, hoje tem outra estrutura, tem um gerente executivo, o João, tem o Paulo agora, é vice-presidente executivo, mas tem um limite pra crescimento dentro de uma ONG como se fosse uma pequena empresa, ou uma empresa familiar. Então chegou num determinado momento que eu vi: “Bom, eu não tenho muito pra onde seguir, quer dizer, eu vou continuar fazendo, eu acho que eu gosto do salário, que a remuneração era bastante boa, absolutamente, mas como eu vou me desenvolver?” Eu estava, na época, com 38 anos, aí falei: “Bom, se eu não tomar uma atitude agora, por conta dessa minha situação pessoal e por conta, também, de uma perspectiva no âmbito profissional, não saio”. E aí foi um processo de reflexão que demorou, mais ou menos, uns quatro, cinco meses: conversa com Oded, conversa com o Ricardo, pensa daqui, pensa de lá e vem, vai, conversa com o Maneto, que acha não sei o quê. Até que eu assumi e falei: “Não, eu vou sair. Vou montar uma empresa que faça consultoria, que faça gestão de empreendimentos também, que busque desenvolver projetos”. E foi isso. Acho que está dando, a gente tem crescido bastante. Acho que por conta dessas minhas atividades no exterior, hoje a gente tem mais clientes fora do país, do que dentro do Brasil. A gente está tentando fazer um movimento de fortalecer os clientes aqui no Brasil, com a nossa atuação aqui no Brasil. E a coisa está indo bem, graças a Deus. A Terra Mater é uma consultoria que trabalha gestão do negócio. A gente busca levar o tema de sustentabilidade na gestão do negócio. O que significa isso? Como outras consultorias em gestão de sustentabilidade, a gente busca observar os processos de negócio - e aí tem uma característica minha porque eu trabalhei em banco durante oito anos e trabalhei na área de processos de engenharia – então, eu acho que as empresas mudam muito se você trabalhar os processos. A gente busca avaliar os processos empresariais e ver quais os componentes econômicos, sociais e ambientais que existem em cada um desses processos; ver como a gente pode melhorá-los, de forma a fortalecer o lado econômico, mas também ter uma contribuição social e ambiental. O nosso negócio é gestão de negócios só que de um ponto de vista da sustentabilidade. A gente faz absolutamente o que uma consultoria de negócios faz, mas com essa visão de sustentabilidade por um lado. E por outro lado, a gente tem alguns produtos que oferecemos pras empresas, pra elas patrocinarem, e a gente faz a gestão desses produtos, quando for a um evento, por exemplo. Eu utilizo os indicadores Ethos em parte. Uma parte é utilização no diagnóstico dos problemas, nas dificuldades. Nem sempre é possível utilizar todos os indicadores. A gente tem um processo de diálogo, de entrevistas, de discussão grande. Por exemplo, a gente está trabalhando com uma empresa da Colômbia, agora, uma empresa de cimento grande, a maior empresa colombiana que a gente fez quase 300 entrevistas num universo de 15 mil funcionários. E fora isso, a gente desenvolveu uma pesquisa on-line, outros 450 responderam. A partir daí, você começa a ver perspectivas do stakeholder, porque questionar os indicadores do Ethos é muito da perspectiva da empresa. Então você reúne um grupo de trabalho, é rico, é um processo importante, mas falta perspectiva do stakeholder, a perspectiva externa. A gente busca olhar esse lado, olhar como está o sistema de gestão, os sistemas de governança, planejar uma estratégia como uma empresa gerencia suas contas, parte financeira, etc., compras. E também traz os indicadores como complemento a todo esse mosaico que a gente analisa no final. EMPRESAS Depois que eu comecei a trabalhar com a consultoria, eu acho que eu me desiludi um pouco com a pureza de intenção das empresas. E eu não acho que estejam erradas. Eu acho que se por um lado as ONGs como o Ethos buscam uma transparência, uma prática ética por ser bom fazer isso, por outro lado as empresas buscam o resultado não apenas financeiro, mas melhoria de ambiente de trabalho, maior produtividade, redução de custos. Isso é bastante justo. O grande desafio é a gente encontrar esse ponto de equilíbrio do ganha-ganha, quer dizer, onde um ganha, o outro ganha. Mas o que eu tenho visto são poucas as empresas que realmente se movimentam nesse sentido porque acreditam, porque acham que esse é o papel delas, socialmente falando, papel como empresa. Eu não vou citar nomes. Mas também são poucas aquelas empresas que não acreditam: “Isso é besteira, isso é papo furado e não tem nada a ver”. Não está assim. Há umas duas semanas, eu estava conversando com um presidente de empresa no Nordeste, ele estava dizendo: “Não, esse negócio de aquecimento global é besteira, isso é naturalmente o ciclo da terra que é assim, isso não existe”. Então, eu falei: “Bom, e os dados? Você acredita?” Mas tem um grande pelotão intermediário, que é a grande maioria, que está aí meio sem saber: “Bom, eu sei que tem um bocado de gente associada ao Ethos, as grandes empresas estão fazendo, o meu fornecedor está, então deixa começar a me mobilizar e me mover porque alguma coisa está acontecendo. Eu talvez não entenda muito bem, mas deixa eu começar a ver o que é”. E aí você começa a ter algumas pequenas mudanças. Eu acho que tem uma grande dificuldade nesse movimento. Algumas ferramentas como os indicadores, de várias naturezas, conseguem um pouco pular esse discurso, que é bonito. A responsabilidade social e o planejamento de estratégia, o que significam? Como se faz um planejamento estratégico? Que pontos você coloca? Como você faz com que cada funcionário, cada área contribuía nesse sentido, nessa direção? Como você mensura, como você acompanha? Quer dizer, não é um processo tão fácil e, particularmente nesse ponto, acho que o Ethos tem um caminho a percorrer no sentido de compreender um pouco mais como funcionam essas práticas. Acho que o Ethos - até algumas vezes eu conversei com o Paulo sobre isso - tem uma grande expertise de mobilização. Eu fico impressionado com a capacidade - sempre fiquei, quando trabalhava no Ethos – com a capacidade do Ethos de mobilizar. O Ethos tem um discurso que consegue chegar aos meios de comunicação de uma forma muito eficiente. Esse é um grande mérito do Ethos, a questão técnica é uma questão que recentemente o Ethos tem se mobilizado, ou tem buscado se cercar de conhecimento, de conteúdos e competência técnica pra, por exemplo, começar a desenvolver ferramentas mais elaboradas, juntar empresas pra discussão de aspectos concretos do seu dia-a-dia, que ainda, eu acho, é um aprendizado que o Ethos tem a percorrer. O Ethos tem um papel político no sentido de que também tenha que pensar um pouquinho o quanto que ele quer desenvolver alguns dos aspectos técnicos em detrimento desse papel e dessa imagem que ele tem. DESAFIOS Acho que há vários desafios. Por exemplo, um desafio que eu acho importante é o desafio de retenção de talentos. Da minha turma, não sobrou ninguém, não sobrou uma pessoa. Ou melhor, sobraram duas pessoas, não nos níveis de liderança da organização. A história do Ethos se perdeu um pouco ao longo desse tempo. Acho natural que isso aconteça porque o Ethos assumiu outros desafios, tem outras características e precisa de gente adequada a esses desafios. Ok. Mas eu acho que isso mostra um pouco – é uma visão absolutamente minha - que da época que nós entramos, as primeiras pessoas que entraram 98, 99, 2000, 2001, havia um sentimento de engajamento muito maior com a causa do que existe hoje. Não que as pessoas não sejam engajadas. Absolutamente São. Mas eu percebo uma qualidade diferente nesse engajamento, uma doação diferente. Existe mais uma preocupação profissional do que uma preocupação de movimentação, o que eu acho que é também importante. Não acho errado, absolutamente Então, um desafio do Ethos é manter essa chama do interesse pelo movimento, na questão da mobilização, o engajamento das pessoas, essa coisa típica de ONG que eu acho que o Ethos, em certa medida... Não que ele perde, mas ele, pelo fato da eficiência, começou a ter outras características que os distanciaram, talvez. Pela minha perspectiva desse aspecto. Que também não acho errado; é o momento. Eu acho que o Ethos precisa de interlocutores mais fortes pra dialogar politicamente. Acho que ainda tem poucos interlocutores: alguns conselheiros se envolvem mais ou menos; o Oded, mais distante um pouco; o Ricardo, o Paulo que tenham mais peso pra dialogar porque os desafios do Ethos vão ser grandes em termos de representatividade, de nome do Ethos, de chancela que o Ethos tem. A questão técnica passa a ser como um apoio importante, mas vai pra outros setores, pra outras esferas. Falta um pouco de - não de cacique, cacique tem bastante – mas, de se cacifar mais as pessoas, pra poder representar com mais nível. AVALIAÇÃO Brasil e Mundo Como eu trabalho bastante na América Latina, eu consigo comparar bem o que está acontecendo. Acho o Brasil, por conta das questões sociais que tem e por conta do tipo de empresariado que tem - que apesar de tudo é um empresariado que tem certa visão de desenvolvimento - é um país que está bem a frente dos demais. Se a gente considera, por exemplo, os países da América Latina, talvez o único que está começando agora a ter um pouco mais é o Chile, mas ainda com uma visão mais conservadora. Argentina está num momento de reconstrução. As empresas estão ajudando muito, mas ainda existe uma questão política muito grande, é um empresariado ainda conservador. Uruguai é um empresariado bastante conservador. O Paraguai também. O boliviano é mais ou menos, mas também não tem muito peso, não tem muita representatividade. A Colômbia está sobressaindo agora por conta de ter saído desse momento crítico de guerrilha. A gente está bem presente na Colômbia, acompanha bem. Essa coisa de responsabilidade social tem crescido muito em função de outras empresas, mas ainda num patamar inicial. O México tem muito uma visão voltada para a filantropia, ação social, Os países da América Central também estão engatinhando; tem algumas ferramentas interessantes, mas não tem tanto. Nos Estados Unidos há uma visão muito prática da questão: “É bom pro negócio? Então é bom pra sociedade.” É uma visão que eu acho interessante, uma visão diferente da nossa latino-americana. Acho que é outra corrente de pensamento empresarial que eu acho bastante importante também. Está à frente em vários aspectos, mas em alguns outros como, por exemplo, a questão ambiental, não existe uma preocupação tão grande quanto no Brasil. Há outros aspectos como a questão de discriminação, de gênero, assédio, questões de relação entre as pessoas por conta da cultura deles tem mais ênfase. Principalmente, depois da WorldCom, da Enron, da Cybernox, o que veio a regular o aspecto legal da atuação das empresas. É tão interessante que quando foi lançada a Cybernox, eu estava nos Estados Unidos e o discurso do presidente, na época, o Bush era justamente – acho que era o Bush no primeiro mandato – e o discurso era “agora vamos incentivar a responsabilidade social das empresas americanas; lei, tem que cumprir; é obrigada a questão da ética; não sei o quê”. Então a responsabilidade social foi muito levada pra isso, influenciou e tem influenciado a visão norte-americana de responsabilidade social. Mas eles avançaram também em muitos outros aspectos: a questão de relação de empresas com seus fornecedores acho que tem muito avanço por conta de problemas que a Nike e a Reebok tiveram... A Gap, na América Central, de utilização de mão-de-obra barata em empresas de fornecedores têxteis, em lugares como Guatemala, Honduras e etc. No Canadá, não está acontecendo. É uma coisa muito blasé, sem muita personalidade. Na Europa, eu acho que a Inglaterra, sem dúvida nenhuma, é uma liderança nesse tema; Alemanha eu acho que está crescendo bastante. França... Os países nórdicos, caminham no passo deles, mas a passos firmes. E também, a questão ambiental tem uma preocupação muito grande, muito consistente, naquilo que também tem um estado de direito que funciona e uma história. Mas eu acho que Inglaterra, Alemanha, talvez Holanda, Noruega são os países que mais despontam. A Espanha, Portugal, Itália estão, mais ou menos, tentando fazer a sua lição de casa. Os portugueses são bastante conservadores com relação a isso, estão tentando melhorar algumas práticas. Na África, tirando talvez a África do Sul, Egito que tem alguma coisa, o resto é bastante difícil até por conta da situação do país. Você tem a Austrália, também com uma cultura anglo-saxônica, mas que não tem um movimento muito forte ainda. Você tem outros países como o Japão que está se desenvolvendo, mas muito em termos legais, em termos daquela cultura mais tradicional, legalista. A Índia tem um desenvolvimento interessante; Tailândia tem se desenvolvido de uma forma também interessante, mas ainda muito tímida e com muita influência política. Eu acho que o Brasil é um dos países que tem, certamente, despontado nesse tema. Não é à toa que o Brasil é share na ISO 26 000. AÇÕES DO INSTITUTO ETHOS Eu acho que o Ethos tem um papel relevante, muito relevante. Algumas vezes, até trabalhando no Instituto Ethos eu achava isso. Fazendo hoje uma análise, o Ethos tem esse papel relevante também na América Latina. A influência do Ethos na América Latina é muito grande em termos de publicações que foram traduzidas, em termos de projetos, em termos de referência mesmo. Não é a toa que estou trabalhando na Colômbia. Vieram buscar uma consultoria aqui, de alguém que era ligado ao instituto, de alguém aqui no Brasil que era ligado ao Ethos pra trabalhar porque eles tem carência disso. O Ethos, sem dúvida, principalmente em termos regionais é uma referência. O Ethos tem atuado de uma forma muito inteligente, muito bem planejada em algumas áreas e tem estabelecido relações com pessoas nesse mundo que são chaves. Tem estabelecido relações boas com o World Economic Forum. O Ethos faz isso muito bem, de uma forma muito inteligente, muito conseqüente. Buscar aqueles parceiros que são importantes no momento para determinadas atividades e consegue determinar muito bem as oportunidades que surgem. Então o Ethos tem essa capacidade em termos de influência no movimento global. Eu acho que tem tido algumas contribuições. O Oded está no conselho do Pacto Global, mas eu acho que a grande influência do Ethos, claro na ISO, participando da ISO por conta da proximidade do Cajazeiras, que é o share da ISO lá da Suzano com o Ethos, então, toda essa idéia vai pra ele, ele leva. O Ethos tem também um poder de articulação interessante com os demais países da América Latina, então vai formando algum tipo de influência. Uma influência relativa bastante interessante. Precisa pensar se é tanto quanto se acha que é, mas, de qualquer forma, tem uma influência, sem dúvida nenhuma. FUTURO O Ethos está em processo de criação de algo que é uma marca; o Ethos já tem uma marca forte, mas algo que é uma como que se fosse uma eminência parda no tema de responsabilidade social. Quando uma organização atinge esse patamar, ela deve se preocupar menos com aspectos técnicos e se preocupar mais com aspectos de relacionamento, com aspectos de influenciar algumas políticas públicas, grandes marcos que ele tem condição de influenciar porque lida e transita nesses ambientes. Por exemplo, o Ethos foi convidado pra participar do conselho do Lula. Isso é um aspecto que mostra a relevância do Instituto Ethos e o patamar em que ele chegou. Eu acho que existe no Ethos ainda um dilema sobre qual caminho seguir. Por um lado, se fortalecem algumas questões que são técnicas, que são mais de ferramentas e se deixa de trabalhar essa questão de mobilização. Eu tenho a impressão de que o Ethos tem que se consolidar como essa entidade referencial, com essa eminência parda e aspectos mais técnicos é necessário deixar pro grupo de consultores. Não porque eu sou consultor, porque na época já havia isso, os que auxiliam o Ethos a desenvolver algumas atividades que possam agregar muito valor a ele. Por exemplo, a questão do projeto Tear, de cadeia de valor, me parece uma estratégia interessante porque cada vez mais se fala da relação das empresas com os seus fornecedores, uma forma de disseminar o tema. A questão de estabelecer uma relação com as lideranças empresariais nesse tema, com aquelas empresas que estão desenvolvendo realmente boas coisas, me parece interessante. Eu participo do grupo de consultores do GRES, Grupo Referencial de Empresas de Sustentabilidade, mas eu acho que precisa ser feito de uma forma mais consistente ainda. Eu volto àquela questão do início: o Ethos deve buscar uma consistência técnica pra aquilo que é realmente importante. Eu acho que o Ethos deve buscar como um desafio interno ter cada vez melhores gestores nas suas áreas, quer dizer, menos executores como a gente vinha tendo e mais gestores, pessoas que tenham a capacidade de gerenciar redes, de gerenciar parceiros e eu conversando com algumas pessoas, e trabalhando com algumas pessoas na organização, ainda percebo que falta um pouco dessa competência de poder lidar com consultores, lidar com um universo de fornecedores que aí estão. Esse é um desafio pra que ele possa consolidar a sua posição. Agora, eu acho que o Ethos está fazendo isso no tempo dele. Acho que não está errado o fato de ter vindo pro Anhembi. Simboliza uma mudança de era; dá um outro sinal, dá uma outra orientação pro movimento. Eu acho que o Ethos é uma entidade em que eu me orgulho muito de ter trabalhado e de estar, ainda, de alguma forma, contribuindo. MAIOR REALIZAÇÃO DO ETHOS Tem muita coisa, mas se eu pudesse elencar, sem tornar as outras menores, eu acho que o Ethos conseguiu uma coisa que é colocar o tema na boca das pessoas, que é fazer o tema conhecido, o tema discutido. Ainda que em alguns locais, responsabilidade social ainda seja entendida como uma ação social e o tema talvez tenha sido até um pouco aviltado, vulgarizado. Acho que o grande mérito foi fazer o tema conhecido; Hoje, você falar responsabilidade social sem falar do Instituto Ethos é muito difícil. Então, acho que levar o tema, mostrar que ele tem a ver com gestão do negócio, acho que esse foi o grande objetivo nesse sentido. Acho que tem que fortalecer. DESAFIOS Outro desafio, só voltando pra aquela questão é o seguinte: se a gente observa os jornais, dificilmente, a gente vê o tema de responsabilidade social nas principais páginas, que são na área econômica e na área política; você vê na área ambiental quando fala alguma coisa. Acho que trabalhar os jornalistas que atuam diretamente nestes setores é um desafio ainda. Quando você fala da valorização da Petrobras - hoje é uma das empresas mais valorizadas do mundo – o que isso tem a ver com a responsabilidade social e com a sustentabilidade? O Hélio falava que o Acatu está lá, no Procon contra a Petrobras, ou o Conar contra a Petrobras por conta da propaganda relacionada a sustentabilidade. O que tem a ver as ações econômicas e políticas com a sustentabilidade? Eu acho que precisa estabelecer essa conexão pra fazer com que esse tema esteja nas páginas, ou nos cadernos importantes dos veículos de comunicação. AVALIAÇÃO Entrevista Eu conheci o Museu da Pessoa no Ethos já há um tempo. Eu admiro o trabalho de vocês, é um trabalho bem legal e achei bem bacana a parceria. Quer dizer, como forma de olhar o Ethos como um ser que tem uma história, que tem uma vida que muitas pessoas contribuíram pra essa vida. Eu acho bem legal o processo, a discussão que a gente teve no Ethos. Eu achei uma discussão interessante das épocas históricas, o que aconteceu, a forma de desenvolver. Vocês estão de parabéns, um trabalho super legal. O que eu achei que ficou faltando, e aí acho que não tem a ver com o Museu da Pessoa, mas talvez, eu achei que a exposição ela faltou um pouco mais de fotografias, de televisõezinhas mostrando vídeos que o Ethos tem muito, quer dizer, fosse uma coisa um pouco mais interativa. Mais dinâmica e mais agradável, mais lúdica um pouco mais assim. Mas o trabalho que vocês fizeram super bacana, gostei bastante.

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