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História

Três irmãos nos Correios

História de: Karina Pereira Gonçalves
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 25/03/2014

Sinopse

Karina Pereira Gonçalves sonhava em ser professora de Educação Física, mas como sempre admirou o trabalho de carteiro resolveu prestar concurso para carteiro e passou. Assim como seus dois irmãos que também prestaram o concurso para trabalhar nos Correios. Está noiva de um carteiro que conheceu nos Correios e a casa no qual ela e a família moram foi construída graças ao fatos dos três irmãos se tornarem funcionários dos Correios. 

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História completa

Eu sempre gostei de esportes, desde criança e também me inscrevi para o ProUni, ganhei a bolsa de Educação Física, terminei, estou contente com ela, não quero parar por aí. Só que vou fazer uma segunda faculdade, totalmente diferente da Educação Física. Eu quero agora ser assistente social. Eu gosto de trabalhar com pessoas. Eu quero trabalhar mais próximo, bater um papo, conversar, poder ajudar mesmo os problemas de outras pessoas na base da conversa.
Eu fui a primeira a entrar nos Correios. Depois eu trouxe os dois irmãos. Eu sempre admirei os Correios, os carteiros, principalmente, porque o primeiro contato foi com os carteiros. Sempre admirei e tinha amizade também por correspondência e a rapidez com que as cartas chegavam, que via o carimbo no selo. Postava um dia anterior, chegava no dia seguinte. Falei: “Nossa, mas é muito rápido”. Aí conversando com um carteiro aqui, outro carteiro ali, falei: “Ah, vou prestar o concurso. Prestei o concurso, entrei na Empresa, os meninos também gostaram. Eu falava muito bem da empresa, aí os dois vieram junto.
Eu fui me informar sobre o concurso com os carteiros. Perguntei, ao carteiro da rua, na época na onde eu trabalhava, perguntei pra ele quando que era o concurso. Ele falou: “Em Abril”. Falei: “Você lembra o dia?”, falou: “Não lembro, acho que é 27 de Abril, mas eu não tenho certeza”. E onde eu morava também, que eu perguntava para o carteiro que atualmente é meu namorado, ele falou: “Vai abrir, eu sei que vai abrir, mas acho que no mês que vem”. Aí já fiquei atenta, procurei em revista de concursos, para ver a data certinha, fiz e passei.
O trabalho que a gente faz parte de todo o processo, desde o começo que é separar por bairros. Depois cada carteiro vai, arruma seu distrito, pra poder fazer a distribuição. E quando a gente entra acha que vem tudo prontinho. Pegar a bolsa e ir pra rua. O carteiro que me ensinou, ele fez um mapa pra mim, arrumou a bolsa, o distrito, falou: “Vai pra rua. Qualquer dúvida você liga”. Eu aprendi rapidinho. O maior problema é com cachorro. Cachorro é o que todo mundo fala mesmo. Na hora que o carteiro chega na porta, já vem a cachorrada. Acho que vêm a gente como inimigo. Fui mordida várias vezes.
Para conversar, a gente tem que selecionar um cliente por dia, porque senão a gente cumprimentar bom dia, boa tarde, fica meia hora, 40 minutos, uma hora batendo papo. E não dá tempo, mas o carinho é muito grande. Eles deixam os pedaços de bolo separado, o suco já separado, a fruta. Tinha uma que eu nunca esqueço, Dona Midores. Sempre.  Era maçã, todo dia. Só que era correria. Ela me via, a maçã já estava lá dentro da caixinha de cartas. Eu abria a caixinha por trás, pegava a maçã, colocava na bolsa e ia. Todo dia estava lá, a maçã separada. Os clientes têm confiança, abrem a porta, convidam a gente pra entrar. “Não, entra, entra. Senta na sala. Vou pegar alguma coisa.” Então é assim, é confiança mesmo. O respeito é muito grande.
Em Vargem Grande mesmo são 15 quilômetros, 13 quilômetros. Por quê? Porque a área é mais rural porque é próximo já do interior. É a última cidade já antes do interior. Então tem muitas chácaras, as casas são muito distantes, os terrenos são grandes. Então você entrega um ponto e anda metros e metros. Entrega outro ponto, então uns 15, 13, 14 quilômetros. 
Já aconteceu comigo pelo endereço não conseguir identificar, mas pelo nome sim. Às vezes o que eu pego, começo a desenhar em cima da letra do cliente, a gente vê o nome e o sobrenome. E já consegue identificar qual é o endereço, mas aconteceu bastante. E quando vem com endereço porque as cartas sociais, muitas vezes vem sem endereço, você levava pelo nome.
Na minha unidade tem bastante encomenda. Encomenda e telegrama lá na região de Vargem Grande, até por ser um município distante, então é muita coisa pela internet. Compram muita coisa pela internet. É muita encomenda, mas aí vai pelo carro, não tem como a gente colocar uma caixa dentro da bolsa, vai pelo carro. Mas com a internet, até a gente achou que a internet ia diminuir até o nosso serviço. Pelo contrário, com a internet aumentou muito porque compra, a gente vai entregar.
Agora eu passei para supervisora operacional. De CDD, de distribuição. Passei também no RE pra supervisora. Já era pra ter começado a fazer o curso, já pra assumir uma unidade, mas devido a necessidade da unidade, então jogou meu curso pro dia 29.  Era para começar a assumir e ficar no lugar do meu irmão, quem sabe a gente trabalha junto e eu viro gerente. É, já pensou que legal? A minha mãe ficou muito contente, nossa, quando a gente entrou nos Correios. Que alegria quando a gente chegava com a roupa! Agora mais ainda. Cada vez que passa, dá mais orgulho pra mãe.
O Papai Noel dos Correios, não sei se a senhora já ouviu falar. Aí tinha uma cartinha, cartinha linda, nossa! Teve assim duas, de todas as cartas que é assim, a gente lê, tem aquela equipe que, assim, colaboradores, quem quiser ler as cartinhas, a gente identifica, numera as cartinhas. Depois vem as pessoas e adota a carta. E tinha uma que tinha a menino pedindo, essa eu adotei: “Papai Noel, onde eu moro a gente não tem dinheiro, a gente não tem condições”, que ele mandou como social. Então eu gostaria muito que o senhor desse pra gente um panetone, porque a gente adora panetone, só que minha mãe não pode comprar. Também ela não pode comprar nas Casas Bahia porque ela tem o nome sujo”. Essa carta aí eu me emocionei muito, nossa! Eu peguei e adotei, até a gente comprou uma cesta pra dar pra essa criança. E teve outro também, o menino falando da avó: “Papai Noel, essa aí é a receita da minha avó. Ela fez exame de vista só que ela não pode comprar o óculos. Será que o senhor pode comprar um óculos pra dar pra ela?” Aí na época a gente também adotou essa cartinha porque ele mandou a cópia da receita. Então assim, tem cartas que emocionam. Tem uma cliente quando chegava carta do filho dela, ela pedia pra ler, não pode, é antiético, mas ela não sabia ler, era ignorante mesmo, não tinha estudo nenhum, morava sozinha. Aí toda vez que chegava carta eu abria. Ela abria e eu lia e contestava, ela falava do filho dela que estava na Bahia, que nunca esteve lá. Ela chorava, eu chorava junto.
O Lindomar, meu namorado também, a gente se conheceu pelos Correios. Ele era carteiro da onde eu morava, região do Embu. A gente teve o maior contato nas corridas dos Correios, na Corrida do Carteiro. Aí a gente se aproximou, começou a ficar, começou a namorar. Estamos noivos, vamos casar em Janeiro e compramos nosso apartamento juntos. Porque tem Corrida e Caminhada do Carteiro. O meu namorado ele é corredor, ele é atleta também. Mas tem, foi lá que a gente teve um maior entrosamento. Eu caminhei. Ele correu, mas tem todo ano. Todo ano tem Corrida dos Carteiros.
Minha família vem em primeiro lugar. Em geral também os meninos, os irmãos, minha mãe, meu namorado, a nova família que eu vou construir, a empresa também, procuro sempre me dar, sempre um pouco mais pela empresa, crescer, assim, porque depois que eu entrei as coisas começaram a fluir mais, tirei habilitação. Eu terminei a faculdade. A gente comprou o apartamento.  Eu vou casar com o rapaz dos Correios, então é assim. O importante é a família, continuar na empresa, continuar crescendo na empresa.
Eu gosto de ficar com a família, sempre os meninos, a mãe, um churrasquinho, que sempre tem churrasco lá em casa. Gosto de passear, gosto das corridas, de acompanhar o Lindo nas corridas e eu faço a caminhada. Gosto assim de estar numa área verde, onde a gente mora tem muito verde. Eu gosto de estar indo sempre em parque ecológico, gosto bastante.

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