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História

Três grandes paixões

História de: Mayra Roberti de Siqueira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 20/12/2013

Sinopse

Ao narrar sua história de vida, Mayra recorda a infância no bairro da Vila Mariana em São Paulo e as mudanças que fez com sua família, primeiramente para Aracaju, depois Itapetininga, Jacareí e Indaiatuba. Lembra como se interessou pela natação aos dois anos e meio e como começou a competir profissionalmente nesta área. Fala sobre os cursos escolhidos: Jornalismo e História e como conseguir conciliar os estudos e as competições de natação. Recorda as copas do mundo que assistiu, com ênfase na Copa do Mundo de 1994. Corintiana, como sua mãe, Mayra narra a primeira vez que foi ao estádio assistir um jogo do Corinthians e a emoção de entrevistar grandes ex-jogadores de futebol e nadadores. 

 

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História completa

Eu nasci em São Paulo, no dia 19 de setembro de 1986, tenho 27 anos. Meus pais são Rosângela Roberti de Siqueira e Antônio Ligabue de Siqueira. Na nossa família tem um lado forte de italiano, dos dois lados, do meu pai e da minha mãe, e também português. Assim, são as principais misturas que a gente tem. Conheci todos os meus avôs, dos dois lados. Meus dois avôs faleceram um já há bastante tempo, o outro faleceu no ano passado, minhas duas avós estão vivas.

 Uma amiga da minha mãe queria apresentá-la pra um amigo dela, que era o meu pai, e saíram juntos de casais assim, saiu ela e o namorado, essa amiga e o namorado, e o meu pai e minha mãe. Eles foram a um barzinho, num restaurante, conversaram, conversaram a noite inteira. Meu pai adorou minha mãe, minha mãe adorou o meu pai na noite, e na hora de ir embora, meu pai foi levá-la pra casa e mal entraram no carro, meu pai deu um beijo e começaram a namorar, e estão juntos até hoje. Meu pai morava na Água Branca, Perdizes, por ali, perto do Shopping West Plaza. E minha mãe morava na Mooca. A família da minha mãe toda morava na Mooca. Quando eles se casaram, eles se mudaram para o apartamento que eu moro hoje, na Rua Cayowaa, no Sumaré, e depois se mudaram pra Vila Mariana. São três filhos. Sou eu e mais dois, eu sou a irmã do meio, tenho um irmão mais velho e um irmão mais novo.

Eu morei até os sete anos na Vila Mariana e depois a gente teve uma vida mais cigana. A gente foi pra Aracaju, Sergipe, moramos por três anos, depois voltamos pra São Paulo, a gente passou por três cidades do interior: primeiro, Itapetininga, três anos também; Jacareí por um ano; e Indaiatuba, onde meus pais estão até hoje. Eu morei em Indaiatuba dois anos e acabei voltando pra estudar em São Paulo, mas meus pais seguem em Indaiatuba até hoje. Meu pai foi muito transferido e depois trocou bastante de emprego.

A casa na Vila Mariana era um sobrado, que na minha imaginação era uma casa enorme. Tinha um quintal que pra mim era o mundo. Aquele quintal era gigantesco e meu pai fazia algumas plantações, ele plantava alface, plantava algumas coisinhas. Eu me lembro de andar muito pouco sozinha, porque eu era muito pequena. Mas assim, a gente estudava numa escola que era só atravessar a rua, então atravessa a rua e já ia pra escola.  Uma chamava Castelinho Infantil, que era a escola do pré, e a escola depois, na primeira série, chamava Pólis, que acho que não existe mais.

Eu lembro que inicialmente não achei uma ideia legal de ir para Aracaju. Mas minha mãe sempre foi muito boa em tentar nos convencer. Eu mudei na segunda série.  Depois fomos para perto de Sorocaba, em Itapetininga. A gente morou três anos. A minha mãe era professora, a gente estudava num colégio muito bom, mas todas as meninas eram mais patricinhas, tinham dinheiro, então elas iam fazer as coisas e eu não tinha dinheiro pra fazer.  Depois fomos pra Jacareí. E foi a oitava série que a gente fez em Jacareí. A mesma coisa, minha mãe dava aula no colégio, até tive aula com ela de novo. Foi um ano só.  Depois morei dois anos em Indaiatuba.  Fiz o primeiro e o segundo colegial. E foi quando eu comecei a nadar mesmo também, então foi uma fase que logo no primeiro colegial, logo que eu cheguei, eu arrumei uma equipe e comecei a nadar. O colegial e a natação eram as principais coisas que eu fazia. Aprendi a nadar com dois anos e meio. O Pinheiros me chamou pra nadar aqui em São Paulo. E eu me mudei pra São Paulo com 16 anos pra fazer o terceiro colegial aqui, mas por causa da natação. E depois faculdade. O que aconteceu é que teve uma competição em Indaiatuba, na prefeitura, e eu resolvi participar, porque eu fazia natação no colégio, no Objetivo. Fui super bem, ganhei minhas provas. E uma academia da cidade que tinha uma equipe razoável me chamou pra treinar com eles, visando os jogos regionais, que pra cidade é muito importante. Fui disputar outras competições, fui ganhando. Comecei a competir até que chegou o ano de 2002, que foi o meu segundo ano em Indaiatuba, no segundo colegial, que eu fui prata no Troféu Gustavo Borges. Meu técnico fez um ponte com o pessoal do Pinheiros, falou: “Olha, tem essa atleta, ela é boa, tal, conseguiu tais e tais resultados”. E me chamaram pra conhecer. Fui pra no meio de 2002. Não cheguei a me mudar pra São Paulo, primeiro. Fiz esquema de assim, ser nadadora do Pinheiros treinando na minha cidade. Foi quando eu conquistei o Campeonato Paulista, que o foi o primeiro Campeonato Paulista que eu conquistei.

Eu fiz o terceiro colegial, no Objetivo de Pinheiros, durante 2003. Mas meu foco era natação realmente. Fiz vestibular pra Jornalismo. Numa grande dúvida, porque eu não sabia se era o que eu queria. Comecei a PUC em 2004, continuei com a natação e com a faculdade, e acabei me formando na PUC. Acabei fazendo USP depois também, porque eu fiz História. Então eu uni o útil ao agradável e saí feliz na história.  Eu fazia a PUC de manhã, a USP à tarde, e de noite estudava.  A faculdade exigia um pouco mais do que a escola exigia, ou pelo menos deveria exigir. Saí do Pinheiros e parei de nadar por uns meses. Eu nado até hoje assim. Eu nunca parei de nadar de verdade.

Eu fiz uns dois estágios bem mais ou menos assim, e curtos também, em Jornalismo. O primeiro estágio que eu considero mesmo a primeira vez que eu caí no esporte. Foi na Revista Trivela. Comecei e me apaixonei assim, instantaneamente. Então era risada o dia inteiro na redação, era um clima muito ameno, o trabalho era tudo gostoso, gostava do que eu fazia. Aprendi demais, porque não bastava falar de futebol internacional de Milan e Bayern de Munique, Barcelona, Real Madrid, era falar do time da Escócia, era falar do time da Romênia, eram umas coisas assim. Comecei em 2008. Janeiro de 2009 que foi o primeiro estágio em jornalismo que eu fiz. E desde então foi uma sequência de trabalhos só na área esportiva, onde eu acabei entrando e não pretendo sair. Como estagiária por um ano. Eu tinha me inscrito no ano anterior numa seletiva da Globo, da Globo.com, tinha até passado pra etapa final, tinham eu e mais dois candidatos e acabaram escolhendo outra menina. E passou. Fui trabalhar na Trivela, depois tava tudo bem. Meu currículo ficou cadastrado no sistema da Globo e eles me chamaram no ano seguinte. Passei. Em janeiro de 2010 eu fui trabalhar na Globo, que era no site que eu trabalhava, mas a redação fica dentro da TV Globo, então era todas organizações Globo e tal. Foi onde eu aprendi muito mais ainda.

Algumas coisas que foram mais marcantes pra mim foi a primeira vez que eu entrevistei o Ronaldo, o fenômeno. Não foi assim, uma entrevista exclusiva, não foi nada de especial, foi uma saída de campo na época que ele jogava no Corinthians, eu já como repórter da rádio, e ele estava saindo e eu assim, tudo que eu fiz foi enfiar o meu microfone também. Mas pra mim aquilo já foi uma grande coisa. Um jogador que me fez perder o fôlego um minuto quando eu vi a pela primeira vez pessoalmente foi o Ronaldinho Gaúcho também. Uma entrevista muito legal que eu gostei de fazer, e não foi no futebol, foi do César Cielo. Quando eu falei com o Zico foi muito legal. Ele foi à Globo participar de algum programa e a Globo tinha esse benefício: como tinham muitos convidados que vinham participar de programas etc., o pessoal do site aproveitava e fazia uma entrevista pra gente publicar no site também. O Phelps esteve recentemente aqui no Brasil num evento também. Recentemente assim, um mês atrás, algumas semanas atrás. E de estar perto também do maior nadador da história de todos os tempos, o maior medalhista da história das Olimpíadas em uma só edição, com oito medalhas de ouro, tava o Phelps ali na minha frente, também foi espetacular. Eu não consegui fazer uma entrevista exclusiva com ele, foi uma entrevista coletiva, mas eu consegui perguntar, fiz pergunta pra ele.  O Pelé também estava nesse evento, também foi muito legal, mas como nadadora, meus olhos brilharam mais por causa do Phelps, porque é muito difícil a chance de eu poder estar frente a frente com ele.

Minha mãe é corintiana roxa, meu pai é são-paulino, só que ele não liga nada pra futebol. Meu pai é aquele são-paulino que sabe que o Rogério Ceni está no time e ponto final. Não acompanha nada. E minha mãe sempre foi muito apaixonada, uma paixão que ela herdou do pai dela, do meu avô, que era corintiano. E na época que não tinha muitos jogos ao vivo na TV, então ela ouvia muito jogo no rádio. Eu lembro mais ou menos das Olimpíadas, mas eu lembro muito de ver minha mãe torcendo muito e torcer e gostar de torcer do lado dela. Então foi uma paixão que talvez eu já tivesse desde pequena pelo esporte e minha mãe potencializou isso. Então minha relação com a minha mãe é muito baseada na questão esportiva. Quando eu consigo estar com ela num domingo à tarde, a gente senta pra assistir ao jogo do Corinthians juntas. Então por mais incrível que seja, as duas mulheres da casa. Os três homens da casa não ligam nada pra futebol. Acho que até hoje se você me perguntar: “Você gosta de futebol?”. Não sei se eu gosto de futebol, eu sei que eu gosto do Corinthians. Sempre foi a minha grande paixão por causa da minha mãe. Eu cubro o Palmeiras, eu cubro o São Paulo, eu cubro o Santos, eu faço isentamente a cobertura de todos os clubes. A gente tem que saber diferenciar, é o lado profissional. Mas meu time de coração é o Corinthians. Então assim, coisas que eu lembro mais marcante, quando eu tinha uns 12 anos. Eu me lembro de assim: título de 93, Paulista, que o Corinthians perdeu para o Palmeiras, eu me lembro de ter ficado triste, mas não compreender muito bem o que estava acontecendo, porque eu era nova. Em 99 foi bicampeão brasileiro também e eu lembro bastante. Em 2000 foi campeão mundial. Então assim, foi uma época que eu realmente me lembro de torcer, de parar na frente da TV com a minha mãe e assistir aos jogos.  A primeira vez que eu fui a um estádio foi na final do Campeonato Paulista de 2009. Era Corinthians e Santos no Pacaembu, final do Paulista de 2009. Uma amiga falou: “Vamos? Vamos comprar ingresso?”. Eu fiquei meio: “Ah, vamos”. E o primeiro jogo que eu vi foi o Corinthians sendo campeão paulista de 2009. E depois daquele ano de 2009, eu fui várias vezes.

A Copa de 90 eu não lembro nada, absolutamente nada, porque eu tinha três anos e meio, eu não lembro mesmo. A Copa de 94 eu lembro bem. Foi marcante, porque foi quando eu mudei pra Aracaju. A gente mudou na metade do ano, com a Copa em andamento. Em 94, o final da Copa foi 17 de julho, que foi aniversário do meu irmão. O Brasil foi tetracampeão no aniversário do meu irmão, eu me lembro disso bem. E eu lembro assim, que o jogo foi um jogo muito chato, que foi aquele jogo que foi empatado, tanto que a decisão foi para os pênaltis. E eu criança, inquieta, nem prestei atenção no jogo, eu tava curtindo o clima com a família. Eu só lembro assim, da cena que meu pai tava com um copo de cerveja na mão, e quando foi para os pênaltis, naquela tensão, narração do Galvão Bueno, aquela emoção, tal, deu o pênalti do Baggio, que o Baggio chutou pra fora, a primeira coisa que eu lembro é da cerveja do meu pai indo parar no teto. E todo mundo pulando e se abraçando. E chegou 98, e na minha cabeça de criança, o Brasil é o único tetracampeão, a única copa que eu lembro a gente ganhou e foi aquela coisa, não tinha na minha cabeça que fazia 24 anos que o Brasil não ganhava, que os meus pais praticamente não via um título há muito tempo. Pra mim era uma coisa normal, a primeira copa que eu lembro, o Brasil foi campeão. Então chegou 98, o Brasil favorito, com Ronaldinho, tal, aquele baita time, o Brasil vai ser campeão de novo, mas é evidente. Então eu lembro que foi uma decepção tão grande, falei: “Olha, como pode?”. Eu tentava entender e na minha cabeça de criança eu não conseguia entender como o melhor time do mundo, o único tetracampeão e tudo mais, e favorito, conseguiu perder e perder o jeito que perdeu.  Na Copa de 2002, que foi de madrugada, eu lembro que foi uma Copa sofrida. Eu acho que nem assisti a todos os jogos. Deve ter um ou outro que eu não tive paciência de acordar cedo pra assistir, eu não lembro. Mas eu me lembro de acordar de madrugada, assistir aos jogos. Tenho algumas lembranças assim, de eu já torcer bastante, já ser mais velha, em 2002 eu já tinha 16 anos, já entendia as coisas um pouco melhor.  Em 2006 eu nem tenho tanta lembrança assim, eu me lembro de ter assistido e ter falado: “Ah, essa seleção...”. Não encantou. Mas 2010 já foi a primeira que eu trabalhei como profissional. Não estava na África do Sul, eu estava na redação como estagiária, mas eu assisti a todos os jogos junto com um monte de gente que entendia de futebol, que gostava de futebol, então o universo da redação trabalhando na Copa foi muito bacana, foi muito legal. Em 2010 eu vi uma Copa de uma forma diferente, não foi uma Copa como torcedora do Brasil, foi uma Copa como profissional, de jornalista que cobre futebol. 

 

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