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História

Três décadas de Senac

História de: Francisco Aparecido Cordão
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/01/2019

Sinopse

Francisco Cordão queria ser padre na adolescência, participando de movimentos da juventude católica e cursando Filosofia e Teologia. Acabou desistindo e se tornou professor. No início da década de 70 foi chamado para trabalhar no Senac e lá permaneceu por mais de 30 anos, acompanhando todas as mudanças no ensino profissionalizante que aconteceram no período. 

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História completa

 

P/1 - Eu queria que o senhor falasse o seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R - Meu nome é Francisco Aparecido Cordão. Eu nasci em Avaré, na zona rural, Bairro dos Rochas, em 21 de março de 45.

 

P/1 - Eu queria que o senhor falasse o nome dos seus pais, a atividade que eles exerciam e o local de nascimento deles.

 

R - O meu pai é espanhol, veio criança para o Brasil. Nascido em Múrcia, na Espanha; Pedro Parra Cordão. A minha mãe, Maria Leme, é nascida em Avaré.

 

P/1 - Qual era a atividade deles, professor Cordão?

 

R - Eles eram lavradores, em Avaré.

 

P/1 - Quantos irmãos o senhor tem, professor?

 

R - Tenho um irmão menor do que eu.

 

P/1 - Eu queria que o senhor falasse um pouquinho, que o senhor descrevesse a casa, o local que o senhor morava enquanto criança.

 

R - Bom, eu nasci na zona rural em Avaré, no Bairro dos Rochas, que é um bairro de pequenos proprietários. Nasci numa casa de pau a pique.

Quando o meu pai morreu eu era ainda bastante criança. Ele morreu em 1951, eu tinha seis anos de idade, então a lembrança que eu tenho do meu pai é muito pequena. Quando meu pai morreu, nós nos mudamos para uma casa no sítio do meu avô, também uma casa de taipa, paredes de barro. A primeira casa de tijolo, de alvenaria, que eu morei, foi a partir de 54, quando a minha mãe casou-se de novo e nós voltamos para o nosso sítio. Coincidiu com o momento em que eu, já com nove anos, entrei na escola.

 

P/1 - Eu queria que o senhor falasse um pouquinho sobre como era o cotidiano da sua vida enquanto criança, de morar numa zona rural. O que vocês faziam? Do que é que vocês brincavam, qual era a atividade que vocês tinham?

 

R - Bom, nós morávamos em um sítio bastante distante de outras crianças. Na minha primeira infância, enquanto meu pai ainda era vivo, eu morava no final do Bairro dos Rochas, no fundão do bairro. O nosso sítio era um dos últimos e ali nós tínhamos poucas crianças; tinha um tio meu, que era dois anos mais velho que eu, que morava uns dois quilômetros de distância. Então a gente brincava aquelas brincadeiras de zona rural: brincava com cavalo, com porco, galinha e ia por aí. A minha maior brincadeira realmente era com cavalo.

 

P/1 - E depois que a sua mãe casou-se pela segunda vez, que o senhor mudou de casa?

 

R - A rigor, logo depois que o meu pai morreu, nós mudamos de casa e fomos para uma casa no sítio do meu avô. Naquela época, ali sim… Meu avô já morava no centro do Bairro dos Rochas, ali tinha bastante crianças por perto, então naquela época eu era um menino bastante arteiro.

Eu me lembro de algumas coisas interessantes. Uma das coisas que eu gostava de fazer, tipos de artes que eu gostava era amarrar gato no rabo do cavalo pra fazer o cavalo correr. (risos) Uma vez, inclusive, quase matamos um cavalo do meu avô porque nós amarramos um gato no rabo do cavalo e o cavalo corria desesperado, e o gato no rabo dele arranhando todo até escapar. Ele pulou uma cerca, arrebentou uma cerca, o cavalo quase morreu. Aquela foi a primeira grande surra que eu lembro que tomei, de vara de marmelo. Porque na zona rural se apanha com vara de marmelo, e eu durante a minha infância apanhei muito, mas por conta de aprontar essas, não é?

Uma vez eu e um amigo pegamos um cavalo chucro, que ninguém tinha montado, e pusemos em uma charrete, em uma carrocinha do meu avô. Resolvemos andar com o cavalo; é claro que o cavalo disparou, tombou a carrocinha. A nossa sorte é quando tombou a carrocinha nós caímos dentro de um buraco e a carroça passou por cima, senão a gente podia ter morrido.

Teve uma vez que nós fomos, eu e o meu tio, esse da mesma idade, nós fomos brincar em uma olaria, que fazia tijolo. Eu quase que decepei todos os dedos do meu tio. Depois, uma vez a gente foi tentar um pesar o outro naquelas balancinhas, aquelas balanças de pesar cebola etc. Aquele tipo de gancho, meu tio se dependurou nele, se pegou, rasgou todo. (risos) Então tinha dessas coisas pouco perigosas!

 

P/1 - Me diz uma coisa, professor: depois que o senhor saiu da casa do seu avô, que a sua mãe havia casado novamente, o senhor foi morar numa outra casa?

 

R - É, aí quando…  Naquela época nós trabalhávamos com plantação de cebola, e foi a época inclusive que eu tive a minha primeira plantação de cebola. Eu tinha pouco mais de meio alqueire no sítio nosso, a responsabilidade daquela plantação era minha.

O que veio a ser depois o meu padrasto, Bertinho Rocha, foi contratado pela minha mãe para me ajudar. Ele era o empregado que ia para me ajudar plantar cebola, então. E ele me ajudou muito, me ensinou a plantar cebola, colher, todas as técnicas, e fazer canteiros, depois o transplante das mudinhas. Até hoje tem um pé de cedro que eu falo para o pessoal que mora no sítio: o dia que alguém cortar aquele pé de cedro vira meu inimigo. Aquele pé de cedro foi a primeira árvore de madeira de lei que eu plantei junto com o meu padrasto. Nós entramos na mata para procurar uma muda. Levamos para o sítio, eu plantei, ele falou assim: "Olha, esse daqui então é o símbolo da nossa amizade." Interessante é que eu e o meu irmão mais novo que acabamos convencendo a minha mãe a se casar com ele. (risos) Ele era viúvo e tinha cinco filhos, a minha mãe tinha eu e o meu irmão, José, que é mais novo que eu.

 

P/1 - E, professor, o senhor havia nos dito que o senhor entrou na escola nessa época. O senhor tinha quantos anos e foi estudar em que escola, em que tipo de escola?

 

R - Quando eu entrei na escola eu tinha nove anos de idade. Nasci em 45, fui para a escola só em 54. Era escola rural, chamada Escola Mista do Bairro dos Rochas, mas mista não é porque tinha meninos e meninas, era misto porque tinha na mesma classe primeira, segunda e terceira série.

Minha primeira Professora é viva ainda, a Professora Cinira, eu a admiro muito. Ela era fantástica, porque nós éramos mais de trinta alunos na classe, primeira, segunda e terceira juntas. Ela ainda dividia em primeira fraca, média e forte, segunda fraca, média e forte, terceira fraca, média e forte. E ela conseguia dar aula, na prática era três em um, ou até nove em um, porque tinha nove grupamentos diferentes e trabalhava maravilhosamente bem com esses nove grupamentos.

Por exemplo, quando chegava na classe de início, em cima da mesa ela tinha umas caixas de sapato cheias de cartões postais. A turma do terceiro ano já chegava, pegava um cartão postal e ia fazer uma descrição. Todo o dia [quando] começava [a aula], o terceiro ano fazia descrição. Acho que tenho uma facilidade muito grande para escrever hoje graças à minha escola rural do Bairro dos Rochas, essa insistência em fazer descrição. E tinha que fazer isso, porque se não ela não conseguia dar aula para o pessoal da primeira.

Enquanto isso, ela dava aula para o pessoal da primeira série, alfabetizando na primeira série. Depois o pessoal da segunda série fazia a descrição. [Para] o pessoal da terceira série ela tinha uma lista de temas, que você entregava para fazer uma dissertação. O da segunda fazia a descrição, o da terceira fazia a dissertação, enquanto isso ela ensinava o pessoal da primeira. Depois, enquanto o pessoal da primeira estava trabalhando, ela corrigia as dissertações da terceira e as da segunda e depois, enquanto ela estava corrigindo, terminando a correção, ela punha o pessoal da terceira para ajudar a primeira, o pessoal da terceira ajudava a primeira série.

Era uma dinâmica pedagógica fantástica. Fui aluno dela as três primeiras séries, e um dos orgulhos da dona Cinira é que todos os alunos dela… Pouquíssimos iam para a cidade, mas aluno dela que ia para a cidade nunca ficava aquém dos dez primeiros de qualquer classe que entrasse no grupo escolar, isso era o orgulho dela. E era verdade: quando fui para a quarta série eu sempre ficava [em] segundo, terceiro [lugar]. É que tinha um japonês que ficava em primeiro, não deixava eu ser o primeiro, mas se não fosse o japonês eu virava o primeiro da classe.

 

P/1 - E me diz uma coisa, professor Cordão, nessa época então o senhor estudava e cuidava da sua plantação de cebola?

 

R - É, a gente ia na escola cedo e depois à tarde voltava para cuidar. À tarde eu trabalhava na roça: plantação de cebola, criava minhas galinhas, também tinha galinha, porco.

 

P/1 - E as brincadeiras foram deixadas de lado ou não?

 

R - Não, as artes continuavam. A gente trabalhava um pouco, depois brincava um pouco. Também não era assim, eu trabalhava, brincava sábado, domingo.

 

P/1 - E o senhor mudou para a cidade? O senhor saiu da zona rural e foi para Avaré?

 

R - Eu fui pra Avaré em 1957; [Em] 54, 55, 56 eu fiz primeira, segunda e terceira série. Quando eu estava terminando a terceira série, na escola do Bairro dos Rochas, a minha mãe e o meu padrasto decidiram mudar pra cidade para que eu pudesse continuar os meus estudos. Fui para a quarta série no Grupo Escolar Matilde Vieira, então nós mudamos para a cidade. Nessa época, eu estudava de manhã e à tarde eu vendia banana na rua com um carrinho, esses carrinhos de pedreiro - não! De início nem era carrinho, eu saía com cesto de banana, mas aquela cesta de banana machucava muito o braço, aí o meu padrasto comprou um carrinho para empurrar, era mais fácil. Normalmente eu saía vendendo banana na rua, oferecendo banana e perguntava se tinha alguma coisa pra vender ao mesmo tempo, [se] tinha alguma coisa, ferro-velho, garrafa etc. Perto de casa tinha um ferro-velho, sucata, então eu ia com o carrinho lotado de banana; a hora que acabava a banana eu voltava comprando garrafa, parava e levava para o depósito de ferro-velho.

 

P/1 - E, professor, nessa época o senhor estava fazendo a quarta série nessa escola e nos falou que tinha uma livraria que o senhor frequentava...

 

R - É o seguinte: na Rua São Paulo tinha uma livraria que era das irmãs Escarlate, que eram três senhoras acima dos cinquenta que mantinham essa livraria. Eu sempre, eu gostava muito de ler. Então eu ia comprar, de vez em quando eu juntava os meus trocadinhos e a minha mãe controlava direito.

Meu padrasto e a minha mãe saíam cedinho pra ir para a zona rural; mesmo a gente mudando para a cidade, o nosso sítio ficava a sete quilômetros da zona rural. Então eles levantavam de madrugada e iam a pé para o sítio, ou a cavalo, mas iam a pé pro sítio para trabalhar, na maior parte do tempo. No início eles iam a cavalo, mas depois a gente não tinha lugar para guardar o cavalo, roubaram o cavalo, então eles iam a pé para trabalhar no sítio. Minha mãe contava as dúzias de bananas que tinha para vender, e ela deixava uma dúzia só a mais, para você eventualmente dar uma, um dedo de banana a mais a alguém. À tarde, depois, ela queria saber, ela queria o dinheiro da banana que a gente tinha vendido. Ela contava quanto tinha sobrado e tinha que dar o dinheiro porque se não você acabava gastando, comprando pastel, e aquele dinheiro era importante para ajudar a pagar aluguel etc. No sítio você tinha arroz, feijão, mas o dinheiro do dia-a-dia tinha muito pouco e tinha que garantir com a venda da banana. Então por isso que eu também vendia banana, comprava sucata, e esse dinheiro da sucata era o meu. Com o dinheiro meu depois eu ia comprar… Uma das coisas que eu gostava era passar nessa livraria para comprar um livro. E no fim comprava livro de ciências; eu estava na quarta série, comprei o livro da quinta, que eu estava achando que o da quarta série. Eu gostava muito de história, geografia, e achava que aqueles da quarta já tinham perdido a graça. Eu queria comprar da quinta, da sexta e sempre ia com os meus trocadinhos. Às vezes: "Não, faltou um tostão." Na época do tostão: "Não, está faltando um tostão, leva." Elas resolveram que todo o livro que eu quisesse elas davam. Foi a minha época de glória, porque eu ia lá, escolhia um: "Quero esse." E elas não cobravam. Aí elas me apresentaram para a dona Ester Novaes. Dona Ester Novaes foi muito importante na minha vida, porque ela e a Professora Maria Trenche, que era a minha Professora de quarta série de grupo escolar... A Maria Trenche achava que era um absurdo se eu não fosse estudar. Eu tinha que estudar, eu gostava de estudar, era importante dar chances. Maria Trenche falou: "Se você for estudar, onde você for estudar, [o] material didático é meu." E as Escarlate também: "O que eu tiver na livraria: caderno, papelaria, você pode comprar." Daí a dona Ester resolveu pagar um colégio interno para mim, e pagou o Arquidiocesano de Botucatu. Até pra entrar no colégio interno tinha que levar um enxoval, comprar; foram todas as irmãs Escarlate e a dona Ester que compraram.

 

P/1 - Então o senhor acabou se transferindo da cidade de Avaré pra Botucatu?

 

R - Em 59 eu fui para Botucatu, estudar no Arquidiocesano. O Arquidiocesano na época estava passando dos padres diocesanos para os irmãos lassalistas. Depois do Arquidiocesano eu acabei entrando no seminário de Botucatu, porque aí eu resolvi que queria ser padre. Saí do seminário e vim pra São Paulo para fazer faculdade de Filosofia.

Depois voltei para o seminário para fazer Teologia, decidi de novo que queria ser padre, depois briguei com o bispo e saí, decidi que não queria mais ser padre. Eu briguei com Dom Vicente Marchetti Zioni que era o bispo de Botucatu, quando ele foi nomeado. Eu decidi fazer Teologia e decidi pela carreira do sacerdócio quando o bispo de Botucatu era Dom Henrique Golland Trindade, então o Monsenhor Sílvio era o vigário-geral e como bispo era o auxiliar de Botucatu.

Quando Dom Henrique Golland Trindade se aposentou, foi nomeado para Botucatu, e na época do Henrique eu era aluno de Teologia. E eu era um aluno de Teologia bastante ativo, eu participava… Por conta da minha origem na zona rural eu participava, era ativo militante da JAC, Juventude Agrária Católica. Vários dos meus colegas de seminário se envolveram com JEC, a Juventude Estudantil, com JUC, que é a Juventude Universitária, e eu me envolvi mais com o pessoal da JAC, e, modéstia à parte, eu fazia um belo trabalho com a JAC. E em Botucatu eu estava com tudo, eu estava fazendo Teologia, pretendia me ordenar padre, fazer um trabalho na diocese de Botucatu, especialmente com os jovens na zona rural; meu principal objetivo de vida de trabalho como padre seria trabalhar na Pastoral Rural. Quando Dom Zione assumiu, achou que tudo isso era besteira, que essa não era a prioridade e aí houve total desentrosamento com o bispo, briguei com o bispo; abandonei o seminário e decidi seguir a minha vida.

A essa altura, mesmo estudando Teologia eu já trabalhava como professor. Inicialmente entrei como professor noturno, eu dava aula de filosofia no Colégio Estadual Gualter da Silva. Mesmo na época do seminário, quando entrei no seminário maior para fazer a faculdade de Teologia, eu já trabalhava, era Orientador Educacional da Casa da Infância do Menino Jesus, que é da Liga das Senhoras Católicas. E na Liga das Senhoras Católicas eu trabalhava com os meninos problemáticos. Não eram bem meninos de rua porque grande parte deles eram meninos internos na casa de infância e externos que eram meninos problemáticos, quase meninos de rua mesmo, e a gente fazia um trabalho interessante. Depois eu já comecei a dar aula. Então, como eu dava aula acabei entrando por influência do d. Henrique Golan Trindade. Fui fazer Teologia, mas continuei trabalhando, até porque sempre fui assim, uma pessoa excessivamente dinâmica e que fazia mil coisas ao mesmo tempo. Se me prendessem, não ia dar certo.

 

P/2 - Professor, eu queria que o senhor voltasse um pouquinho. O senhor viveu essa diferença dos padres maristas pros salesianos no Arquidiocesano. No dia a dia do colégio, como se deu essa transmissão?

 

R - Olha, quando eu cheguei… Eu fui para o Arquidiocesano no dia dezesseis de fevereiro de 59, em março ou abril; logo depois, dois meses depois, o Arquidiocesano passou para a direção dos lassalistas, então eu quase nem senti muito a presença dos padres diocesanos na escola. Com dois meses de direção dos padres, logo os irmãos lassalistas já assumiram.

Os irmãos lassalistas eram e são uma ordem de educadores por excelência, e nós tivemos excelentes professores, tanto dos irmãos lassalistas quanto leigos que davam aula no colégio. O Colégio Arquidiocesano de Botucatu era famoso na época porque tinha um grupo dos melhores professores da região. Professor de português, eu fui aluno do Agostinho Minicucci, Osvaldo Minicucci. Matemática tinha bons professores, História, professor Mário Góes. Tinha um professor de português, Décio Ranzani, que era absolutamente fantástico; a gente achava… Na época, os alunos achavam-no extremamente chato, mas depois eu descobri que ele era absolutamente fantástico. Porque o Décio Ranzani, ele não dava… Ele só dava três notas para os alunos: zero, cinco e dez. Ele dava uma prova: se você ia mal, que não dava para dar pelo menos um cinco, ele escrevia na sua prova: "insuficiente", e era zero. Então ele dava chance, ele dava prova sempre no início do mês e você tinha chance de melhorar sua prova, estudava e melhorava, provava para ele que você tinha aprendido. Se você chegasse no suficiente e fechasse o mês com suficiente era cinco. E se ele escrevesse ótimo era dez, na ficha era zero, cinco e dez.

Toda aula ele fazia uma chamada no final; nos últimos cinco minutos ele fazia uma chamada oral com três alunos e você nunca sabia quais eram os três escolhidos. Se você ficasse distraído na aula, com certeza você seria um dos três e levava zero. Aí você tinha que caprichar mais na prova para poder recuperar aquele zero e poderia, através de trabalhos, até chegar no dez, mesmo que você levasse zero na chamada oral. Ou caprichar e torcer para ele te chamar de novo até o fim do mês para você tentar tirar um dez prestando atenção. Então, com isso, na aula dele se passasse uma mosca você escutava o barulho, porque ai do aluno que não prestasse atenção! Era candidato a levar um zero nos últimos cinco minutos. Então tinha aluno que até na hora que ele chamava já começava a chorar. Mas aprendi muito com o Décio Ranzani, e todos professores eram nessa linha, era interessante.

 

P/1 - Como é que era o dia a dia na escola, vocês tinham uma parte de aula comum e o outro período?

 

R - No colégio interno?

 

P/1 - É.

 

R - Bom, no colégio interno a gente levantava tipo seis horas da manhã, todo mundo ia tomar banho com os irmãos olhando se as portas dos banheiros estavam abertas, para ver se você está mesmo entrando embaixo do banheiro mesmo, ou estava só caindo água e você de fora. A gente tomava banho, tomava café e lá pelas sete horas a gente entrava na aula. Tinha aula até meio-dia. Depois do meio-dia, com intervalo… É interessante, depois eu vou contar do intervalo.

A gente tinha aula até meio-dia, depois ia para o almoço. Depois do almoço o pessoal ia… Tinha duas áreas de livre brincadeira, o pessoal ia jogar bola, ia fazer o que quisesse. Depois nós tínhamos estudos na biblioteca ou recuperação, fazer trabalhos etc. Eu não me lembro… Entre duas e três, até lá pelas quatro, cinco horas, a gente tinha duas horas de estudo à tarde. Daí a gente tinha de novo um tempo livre pra jogar futebol, basquete, vôlei; tinha futebol, tênis, tênis de mesa, tênis de campo, pingue pongue, piscina. E aí era livre, cada um jogava o que queria. Aí banho, janta; à noite a gente estudava mais duas horas e depois ia dormir.

Eram dormitórios coletivos, então era uma bagunça. Tinha algumas coisas gozadíssimas. Mas a história que eu ia contar: tinha um rapaz da minha classe… No intervalo de aula, no intervalo grande entre… Nós tínhamos duas aulas, depois intervalo, mais duas aulas de uma hora, e tinha um intervalo de meia hora entre essas aulas que, molecada, grande parte do pessoal ia correr, brincar de pique;  tinha um jogo que eu esqueci o nome, era um mastro e uma bola que você batia, girava, ficava dois grupos tentando girar a bola de um lado e dois tentando girar do outro lado. Esqueci o nome deste jogo, mas esse era um jogo que o pessoal gostava.

Tinha um rapaz que toda vez depois do jogo, todo mundo voltava suado, só que ele fedia que era uma desgraça, então o apelido dele era Gambá e ninguém queria sentar perto do Gambá depois do intervalo, não dava. Depois do intervalo o Gambá tinha que sentar perto da janela e ficava, a cadeira de trás da frente e do lado sempre vazia. Era um sacrifício para sentar perto do Gambá; se faltasse lugar, se algum aluno não faltasse, era só na marra que alguém sentava perto do Gambá, e não tinha jeito.

Quando eu era presidente do Conselho Estadual de Educação ele aparece, Gambá, para pedir um documento. Soube que o presidente do Conselho chamava-se Francisco Cordão, ele falou: "Deve ser o mesmo Cordão da minha época", aí ele veio e estava perguntando para a secretária, da minha sala eu escutei: "Eu queria saber se o presidente do Conselho, por acaso ele estudou em Botucatu." Saí, eu falei: "Eu estudei em Botucatu, por quê?" Não o conheci, nem ele me reconheceu também na hora, ele falou: "Olha, talvez..." -  todo cerimonioso - "...vossa excelência se lembre de mim?" Porque eu era o presidente do Conselho, e ele precisava. Ele estava com uma senhora, que depois eu fiquei sabendo que era esposa dele: "Talvez vossa excelência se lembre de mim porque eu também estudei em Botucatu, 59, 60, no Arquidiocesano." "Você entrou na primeira série de 59, eu também, então nós fomos contemporâneos." Ele falou: "Eu tenho impressão de que nós fomos da mesma turma." Ainda fiquei olhando para ele, ele falou: "O senhor está me reconhecendo?" Todo formal, eu falei: "Eu tenho impressão de que sim, mas eu só estou conseguindo me lembrar do seu apelido." Ele perdeu a compostura, falou: "Se falar apanha." (risos) A mulher dele ficou curiosíssima pra saber. Eu falei: "Não, aí você conta depois, eu não vou correr esse risco." Ele perdeu totalmente a compostura. Ele estava de ‘vossa excelência’ para cá, ‘vossa excelência’ para lá… "Se falar apanha!" Também, coitado, só me lembrei do Gambá. (risos)

 

P/1 - Professor, quando o senhor veio fazer faculdade, o senhor veio fazer faculdade em São Paulo?

 

R - São Paulo.

 

P/1 - E o senhor veio primeiro para cursar Filosofia?

 

R - Primeiro fiz Filosofia na PUC, e aí decidi fazer Teologia no Seminário Central do Ipiranga.

 

P/1 - E depois teve...

 

R - Briguei com o bispo e decidi fazer Pedagogia. Fiz Pedagogia com os padres jesuítas aqui no quilômetro 26 da [rodovia] Anhanguera. Na época foi uma loucura porque eu dava aula no Gualter da Silva, lá no Sacomã. Saía a mil, correndo para pegar o trenzinho para vir para a Lapa, pegar o ônibus Cajamar - acho que é por isso que talvez eu tenha comprado a chácara em Cajamar - , pegava o ônibus para Cajamar para ir estudar no quilômetro 26 da Anhanguera. Então foi uma época bastante difícil, mas também foi uma faculdade muito boa, os jesuítas eram bastante exigentes e sérios, como educadores. Eu tive alguns bons professores, como por exemplo o ex-presidente da CNBB, o Luciano Mendes de Almeida, o Padre Mendes.

 

P/1 - E me diz uma coisa, professor: no Colégio Gualter o senhor dava aula de que matéria?

 

R - No Gualter eu fui professor de Filosofia, durante um ano só. Eu também lecionei Psicologia para uma turma do terceiro clássico. Eu dava aula de filosofia para todas as turmas do curso clássico; Filosofia eram três aulas por semana, para cada turma. Eu sempre gostei muito de Filosofia, então a gente conseguiu fazer um belíssimo trabalho no Gualter, na área de Filosofia.

Teve um ano só que eu peguei Psicologia, porque houve uma decisão: o diretor do Gualter resolveu colocar todos os alunos considerados problemáticos, os bagunceiros de todas as classes numa única classe, e eu fui o professor escolhido, então eu peguei mais duas aulas. Eu tinha três aulas de Filosofia, peguei mais duas de Psicologia para poder dar aula para essa turma todos os dias. Eu fui o escolhido para acompanhar essa turma, então todos os dias a primeira aula desta turma de bagunceiros era minha. Foi interessantíssimo, foi a melhor turma que eu dei aula na minha vida de professor.

No início do ano letivo eu fiz um trato com eles. No primeiro dia de aula reuni a turma e falei: "Olha, vocês foram considerados os piores alunos do Gualter. Eu gostaria de fazer um trabalho com vocês e gostaria que no final do ano o Gualter tivesse saudades dessa turma, então se vocês quiserem, contem comigo. Eu vou estudar com vocês, nós vamos trabalhar juntos, a primeira aula de todos os dias é comigo." A primeira aula de segunda, quarta e quinta era comigo; a última de sexta também era comigo, senão eles iam embora no intervalo, então eu falei: "Se vocês não quiserem trabalhar, tudo bem. Todos têm nota dez, já passaram comigo em Filosofia e Psicologia. Se vocês quiserem trabalhar, nós vamos levar o curso a sério. Se vocês quiserem, nós podemos fazer uma articulação com os outros professores, todas as aulas serão levadas muito a sério e vocês marcarão época no Gualter." Aquele discurso: deixei eles escolherem. Eles escolheram a alternativa de estudar para valer e até um professor de História na época não deu no couro com essa turma, foi posto para fora, trocado. Esse grupo inclusive acabou fazendo um jornalzinho chamado “Tempo de Gualter”. E foi uma turma excelente, que eu tenho saudades até hoje. Gozado, desse grupo três alunos acabaram virando filósofos, professores de Filosofia. Interessante.

 

P/1 - Professor, o senhor falou que também acabou desenvolvendo dentro do Gualter um trabalho de coordenação. Eu queria que o senhor falasse sobre isso.

 

R - É. Por conta desse trabalho que nós fizemos nesse terceiro clássico, que eu acabei sendo paraninfo deles, a partir do ano seguinte o professor Gibson, que era o diretor do Gualter, pediu para que eu fosse uma espécie de coordenador pedagógico do Gualter. Nesse terceiro clássico nós fizemos uma bela experiência de planejamento conjunto de todos os professores: de Português, o de Inglês, o de História, Geografia, Filosofia, Psicologia, o professor de Sociologia, que é um rapaz que trabalha hoje na Nestlé. E a gente fez um belo trabalho articulado.

A partir do ano seguinte, recebi uma carga suplementar de vinte horas para articular o planejamento educacional do Gualter. Fizemos uma experiência de vários anos - até 72, quando eu saí do Gualter - de planejamento articulado. Fui o coordenador pedagógico do Gualter e essa experiência de coordenador pedagógico acabou me servindo muito depois, no trabalho do SENAC.

Quando eu entrei no SESC eu era bastante conhecido pela rede, especialmente aqui pelo pessoal da Grande São Paulo, porque várias delegacias acabavam encaminhando pessoas para visitar, ver o trabalho que era feito no Gualter, então acabei criando vários amigos na Secretaria de Educação. Isso me ajudou quando eu entrei no SESC. Fui trabalhar no ‘Carlão’, no Centro Carlos Souza Nazareth que é em frente ao SENAC da [Rua Dr.] Vila Nova, e fui trabalhar exatamente no setor cultural cuidando de cursos etc. Em função do trabalho que nós fizemos no SESC eu acabei sendo convidado pelo doutor Amin Aur. Quando ele assumiu o SENAC em 1973 ele me convidou para ir no SENAC trabalhar na DFA, DFM, Divisão de Formação Profissional Acelerada e de Grau Médio, então tudo isso acabou me ajudando porque foi somando, foram experiências que sinergicamente foram se somando.

 

P/1 - Voltando um pouquinho, professor, como é que o senhor entrou, foi trabalhar no SESC?

 

R - Olha, eu nem sabia que o SESC existia. Uma sexta-feira - não, num sábado de manhã, a delegacia de ensino a qual pertencia o Gualter… Houve uma reunião na delegacia de ensino para estudar a experiência que eu coordenava no colégio Gualter da Silva, e nessa experiência a gente fazia algumas coisas, algumas loucuras. Por exemplo, toda sexta-feira, depois da última aula, a gente emendava um bailão no Gualter com todos os alunos que quisessem e ficava até de madrugada. Depois, sábado e domingo a gente fazia com os alunos e os professores que quisessem: a gente ia para o Gualter, abria a biblioteca, o pessoal ia estudar na biblioteca e alternava. Abria as quadras também, então a gente fazia campeonato de professor contra aluno, uma classe contra a outra. Enquanto não estava nas quadras, o pessoal ia para a biblioteca para estudar, fazer trabalhos, e os professores orientavam, depois iam jogar. A gente fazia... Normalmente de sábado para domingo, todo fim de semana tinha baile na quadra da escola.

O delegado ficou muito furioso porque diz que isso não era utilizar adequadamente o bem público. Para mim era exatamente ao contrário, era utilizar adequadamente o bem público. Eu fiquei louco da vida e falei: "Vou sair dessa joça aqui, não quero mais trabalhar aqui porque não dá, com esse delegado interpretando tudo errado." O Gualter era uma escola que não tinha nem muro, ninguém pulava muro. Eu passo na frente do Gualter agora, vejo um muro de três metros de altura. A molecada vivia lá, tinha baile, tinha festa, tinha jornalzinho, o pessoal usava o mimeógrafo da escola pra rodar o jornalzinho “Tempo de Gualter”. Quer dizer, era um momento gostoso, os alunos, os professores. É claro que também fazia muita bagunça, é claro que de vez em quando quebravam uma carteira ou outra, mas tudo bem, consertava-se, limpava depois. O estrago era muito menor do que se deixasse depois o pessoal invadir lá, e sabe? O Gualter está ali pertinho daquela favela do Heliópolis, então grande parte dos alunos… Também tinha muitos alunos da favela do Heliópolis que eram excelentes alunos e por puro preconceito o delegado estava barrando esta atividade social que [a gente] fazia no final de sexta-feira, de sábado para domingo. E os professores viviam ali, de sábado e domingo ninguém ganhava nada, você ia lá por puro idealismo de trabalho.

Comprei o Estadão de domingo para procurar novo emprego e achei: SESC, Serviço Social, não sei o quê, Orientador Social. Estava tendo inscrição na [Rua] Dr. Vila Nova, 245. Fui fazer inscrição, não sabia nem o que era; fiz os testes, passei, entrei no SESC. Continuei dando aula durante um tempo, durante seis meses eu continuei. Fiquei só… Abandonei as aulas do diurno, passei as aulas do diurno para um outro professor. Fiquei no Gualter apenas no noturno e SESC de manhã e de tarde. Depois que eu vi que estava dando certo no SESC abandonei as aulas no Gualter.

 

P/1 - E o que consistia essa sua atividade no SESC, que era essa função exatamente de Orientador Social?

 

R - Orientador social era o cara que fazia tudo no SESC, era desde apitar jogo de futebol de salão, organizar campeonato, coordenar um curso, acompanhar uma peça de teatro que estava sendo encenada no Anchieta. Quando eu entrei, por exemplo, o Flávio Rangel estava ensaiando uma peça no Teatro Anchieta, daqui a pouco eu me lembro o nome da peça. Mas então fazia de tudo, você acompanhava os chiliques do Flávio Rangel no ensaio da peça de teatro, você apitava jogo de futebol de salão, organizava campeonatos, olimpíadas.

A gente se divertia muito no SESC, porque o nosso objetivo era programar atividades de lazer para as pessoas. E ao programar as atividades de lazer a gente tinha que ter um excelente bom humor e tinha que se divertir muito pra fazer isso, né? E era muito gostoso. Eu me lembro que nós resolvemos fazer uma olimpíada, lançamos no SESC a Olimpíada do Comerciário, com jogos tradicionais de futebol de salão, vôlei, basquete etc. Ao mesmo tempo criamos uma série de jogos, criamos naquela época, na primeira Olimpíada do Comerciário, uns vinte jogos diferentes, desde jogo de xadrez, jogos de mesa…

Foi uma época muito criativa, de muita criatividade. E no ‘Carlão’ eu cuidava especialmente dos cursos. Como eu tinha vindo da área de educação, o Carlão tinha uma meia dúzia de salas e o pessoal não sabia muito bem o que fazer com aquelas salas, então o diretor do ‘Carlão’ na época, que era o Professor Juvenal, falou: "Bom, precisamos fazer uma série de cursos, aqui a gente pode usar essas salas." Organizei desde cursos supletivos… Nós tivemos supletivos; na época a Fundação Padre Anchieta tinha lançado um supletivo de primeiro grau pela televisão. Montamos três telepostos de primeiro grau ali no ‘Carlão’, fizemos cursos de artesanato de metal, pintura em tecidos, madeira, aproveitando os artistas que iam expor na galeria do SESC.

Fizemos cursos de reciclagem para professores, porque naquela época a Lei 5.692 estava implantando a educação profissional nas escolas públicas e particulares. O pessoal não sabia muito bem como fazer isso e eu tinha ajudado a implantar no Gualter, tinha trabalhado todo o esquema de planejamento do Gualter. Então organizamos uma série de cursos. O SESC acabou fazendo um convênio… Provocado pela atividade nossa no ‘Carlão’, acabou saindo um convênio com a Secretaria de Educação para organizar cursos. Até teve uma época gozada, quando eu estava discutindo essa alternativa de fazer um convênio para treinar professores da rede oficial pelo SESC - aliás, foi um belíssimo de um convênio de treinamento de professores para fazer orientação profissional nas escolas.

Treinamos professores da região da Grande São Paulo inteira aqui no Carlos de Souza Nazareth. Esse foi um programa que eu tive orgulho de conceber e coordenar e implantar. Mesmo depois que eu saí do SESC continuou [por] vários anos, esse programa. Quando a gente estava discutindo esse convênio… Uma das promoções eu recebi por conta deste convênio, porque o Papinha, quando ele ficava contente que saía um negócio bom, ele falava: "Dá uma cota para esse cara." E eu fui, ganhei várias cotas assim.

Quando a gente estava discutindo esse convênio, tem uma professora… Eu não posso falar o nome dela porque ela ocupa cargos na Secretaria da Educação e ela morre de vergonha até hoje. A secretária dos orientadores chamava-se Diva. Era uma negrinha que tirava um sarro desgraçado, ela adorava tirar o sarro em qualquer um. Nós estávamos em uma reunião quando essa professora da Secretaria da Educação, na época trabalhava na administração da secretaria, ela estava encarregada de redigir o convênio da Secretaria de Educação e esqueceu do meu nome. Então ela falou para a Diva que queria falar comigo. Claro que a Diva sabia que era eu, mas nós estávamos na reunião quando a mulher abre a porta. Ela não me conhecia, só me conhecia por bilhetinhos; o texto original do convênio tinha sido meu, mas ela nunca tinha me visto. Ela perguntou para a Diva, a Diva falou: "Pergunta naquela sala."

Estavam todos: o orientador, o diretor, tinha gente da sede do SESC ali também, porque a gente estava discutindo exatamente a primeira Olimpíada do Comerciário, a gente estava convencendo o pessoal da sede que era uma boa fazer aquela Olimpíada. A gente estava querendo fazer a Olimpíada ao mesmo tempo que fazia o Quinto Festival de Teatro Amador; ao invés de fazer o Festival de Teatro Amador do jeito tradicional, das pessoas chegarem e apresentar peças de teatro, a gente queria que fosse algo criativo, fazer oficinas de criação e criar. O Sílvio Zilber e a Miriam Muniz estavam coordenando esse trabalho com a gente e estava todo mundo ali naquela sala. A mulher entra - eu logo percebi, quando eu virei eu vi a Diva assim atrás da mulher, quase estourando para dar risada - e a mulher chegando assim: "Olha, eu queria falar com o professor que toma conta dos cursos ali no SESC, se não me falha a memória é o Professor Pacote." (risos) Falhou totalmente, cordão amarra pacote: "Se não me falha a memória Professor Pacote"! Era só risada, acabou a reunião. “Por acaso sou eu, mas o meu nome é Cordão e não pacote”. (risos) Mas o nome dessa professora não pode, porque quando eu fui para o conselho, quando eu virei presidente do conselho, essa coitada tinha que falar com o presidente do conselho. Ela ia sempre vermelha: "Professor Cordão, já pedimos desculpas." Porque coitada, né, “Professor Pacote”...

 

P/1 - Professor, o senhor ficou quanto tempo no SESC? O senhor assumiu alguma promoção nessa época?

 

R - Olha, eu fiquei no SESC pouquíssimo tempo porque eu entrei em fevereiro de 72 e em junho de 73 eu saí. O salário inicial de orientador eu só recebi nos dois primeiros meses; no terceiro eu já recebi com promoção porque o diretor do ‘Carlão’ queria que a gente lotasse o SESC, eu e o Tuga Angerami, que é deputado pelo PSDB por Bauru.

Na época, o Ministro do Trabalho vinha para inaugurar um negócio que era no SENAC, em frente. Ele vinha fazer uma inauguração de um projeto do SENAC, e a sede do SESC também estava lançando um projeto: a Divisão de Orientação Social, o Pró-jovem, que era um projeto de orientação de jovens de sétima e oitava série. E o ministro ia fazer uma visita ao ‘Carlão’. O ‘Carlão’ é enorme, então o Juvenal chegou e falou assim: "Olha, eu queria que vocês lotassem isso daqui, lotassem esse prédio, não me interessa quanto vocês vão gastar, tem que lotar esse prédio." "Bom, tem que lotar esse prédio?" Ele falou: "Eu gostaria que o ministro tivesse que chegar a pé aqui, provocar um congestionamento que o Papinha e o ministro não conseguissem chegar aqui dentro." "Tá bom."

Nós fomos aos colégios da periferia e trouxemos molecada de segundo grau para ir, e programamos… Nós já tínhamos organizado a Olimpíada do Comerciário, então organizar atividades físicas e recreativas era com a gente mesmo. Eu tinha uma equipe muito boa no ‘Carlão’. Organizamos uma série de esquetes de teatro, jogos nas quadras, na piscina, em todas as salas, as oficinas de criatividade, e nós trouxemos mais de dois mil alunos, dois mil e tantos alunos, imagina tudo, com ônibus. A gente lotava ônibus na periferia toda, alunos que nós dávamos lanche. E eles tinham que ficar em atividade para que o ministro viesse. O ministro teve que descer lá na Consolação e andar a pé porque não conseguia chegar. O SENAC levou uma reprimenda do DSV porque não avisou - o SENAC não, o SESC, e eu ganhei uma promoção. Então o meu segundo, terceiro salário já era diferenciado. Depois, o seguinte foi por conta desse convênio, então eu entrei como orientador, ganhei umas cotinhas e já saí como Assistente Técnico. Fui para o SENAC em 73 como Assistente Técnico.

 

P/1 - E essa transferência do senhor do SESC pro SENAC se deu por conta do quê?

 

R - Não! Foi por convite. O doutor Amin Aur, que era o Diretor da Divisão de Orientação Social do SESC, foi convidado para assumir interinamente a diretoria regional do SENAC.

O professor Oliver Gomes da Cunha era o Diretor Regional do SENAC. O Oliver foi fazer um curso fora durante um ano e o Amin foi convidado para assumir interinamente. E o Papinha usou a estratégia seguinte, falou para o Amin: "Olha, Amin, você vai ser Diretor Regional interino durante um ano. Se você agradar você fica, se não agradar o Oliver volta." Então ele tinha que, durante um ano, promover uma verdadeira revolução. Ele perguntou para o Papinha: "Mas o que é que significa agradar?" "Você tem que fazer uma revolução no SENAC. O SENAC está muito parado, uma programação muito tradicional." O SENAC atendia cerca de 25 mil pessoas por ano, o Papinha queria que o SENAC atendesse 300 mil em três anos, então tinha que mudar radicalmente a programação. Então ele falou para o Amin: "Se você conseguir fazer isto você fica, se você não conseguir fazer você dá o seu lugar de volta para o Professor Oliver." Então o Amin convidou algumas pessoas que trabalhavam no SESC, que ele julgava que pelo perfil dessas pessoas ele ia conseguir fazer a virada que o presidente estava esperando que ele fizesse no SENAC. Eu fui uma das pessoas escolhidas.

 

P/1 - E o senhor foi trabalhar como Assistente Técnico. Qual era o seu trabalho no SENAC, era o mesmo que desenvolvia no SESC?

 

R - Não, não, totalmente diferente. No SESC, na época, tinha três divisões, três ou quatro divisões técnicas, a rigor quatro. Tinha uma Divisão de Seleção e Orientação Educacional, cuja diretora era a Adelina Perito; tinha uma Divisão Pedagógica, cujo Diretor… O Amin levou pra aquela divisão o Décio Zanirato Júnior, que hoje é o superintendente técnico de desenvolvimento. E tinha duas divisões que cuidavam da atividade-fim do SENAC. O Mamante Torres era o Gerente da DFA, e o Amin levou para o lugar do Mamante Torres o Juvenal Pereira de Alvarenga Junior. E DFM, que era Divisão de Formação Profissional de Grau Médio, que o professor Breno Di Grado era o diretor dessa divisão.

Eu entrei no SENAC como assistente duplo do Juvenal e do Breno, e depois eu fiquei no lugar do Breno. O Breno foi ser coordenador do grupo de cooperação técnica e eu continuei como Assistente do Juvenal, mas por que é que precisava isso? A DFA cuidava dos cursos mais rápidos porque o SENAC, quando foi implantado na década de 40, em 46, o SENAC começou só com Cursos Preparatórios para o Comércio, chamados cursos funcionais. Devagar ele foi mudando e [surgindo] os cursos de aprendizagem na área de escritório e loja.

Para poder dar um atendimento amplo, o SENAC, junto com o SESC - e foi o professor Breno Di Grado que implantou uma experiência que eu julgo fantástica, a Universidade do Ar. Eram cursos radiofônicos, com telepostos no interior treinados pelo pessoal do SENAC para a formação básica do pessoal que ia trabalhar em escritório e loja. Com isso, eles atenderam o Estado inteiro e o SENAC de São Paulo se firmou graças a esse programa de Universidade do Ar, porque não dava para o SENAC implantar unidades em todo o Estado rapidamente, não é? Com isso eles deram atendimento rápido e os alunos da Universidade do Ar se sentiam... Não sei se vocês entrevistaram algum ex-aluno ou ex-professor da Universidade do Ar, mas eles sentiam muito orgulho desse trabalho, porque foi um trabalho pioneiro de educação à distância com telepostos, e eles faziam campeonatos entre os alunos da Universidade do Ar, tanto campeonatos, olimpíadas culturais, quanto esportivas. Muito interessante.

Na década de 50 o SENAC partiu para trabalhar esses… Além da Universidade do Ar, que continuou ainda durante boa parte da década de 50, o SENAC começou a trabalhar com ginásios comerciais, porque a legislação de ensino da época previa a existência de ginásios comerciais, industriais e agrícolas dentro das leis orgânicas do ensino comercial, ensino industrial e ensino agrícola. Então o SENAC implantou no Brasil inteiro e aqui também ginásios comerciais e colégios técnicos de contabilidade e de secretariado. Esta programação, durante toda a década de 60 esteve bastante presente, quer dizer, grande parte. Os cursos, os aprendizes. Tínhamos uma divisão de cadastros, que o Professor João Marsiglia coordenava, que ia junto às empresas para recrutar aprendizes. Eles entravam nos ginásios comerciais e as classes eram completadas com os chamados candidatos a emprego no comércio, que era os não-aprendizes encaminhados pela empresa.

Mas no final da década de 60, início da década de 70 esses ginásios comerciais e os cursos técnicos de contabilidade e secretariado, os tradicionais, eles consumiam quase que todo o esforço educacional do SENAC. Só que nessa mesma época, década de 60, quer dizer, 65, o Brasil foi um dos signatários da Convenção 142 do OIT [Organização Internacional do Trabalho], a Resolução 150 da OIT, que mudou radicalmente a orientação, a concepção da educação profissional. Antes, a Recomendação 139 da OIT entendia que educação profissional era formação para um determinado posto de trabalho. A partir da resolução 150, que é de 65, começou-se a entender educação profissional não como a preparação para um determinado posto de trabalho, mas a preparação para que o indivíduo ingressasse no mercado de trabalho e conseguisse navegar no mercado de trabalho, porque cada... Já naquela época começava-se a discutir que não havia uma congruência direta entre formação profissional para um determinado posto de trabalho e o trabalho efetivo da pessoa naquele posto de trabalho. Apesar de que a pessoa tem as oportunidades de formação profissional e as oportunidades de exercício profissional, não havia uma congruência direta mais, as oportunidades da vida ditavam muito mais as opções profissionais do que os próprios cursos.

Eu mesmo fiz Filosofia, Teologia, pensava em ser padre, de repente fui trabalhar no SESC, de repente eu estava organizando olimpíada, estava apitando jogo de futebol, ao mesmo tempo que estava coordenando um curso, depois fui coordenar os cursos do SENAC etc. Por conta disso o próprio SENAC reestruturou, sentiu necessidade de reestruturar a sua programação para atender não apenas os menores aprendizes encaminhados pelas empresas, mas também um volume muito grande de adultos que estavam vindo, muitos deles, da zona rural das pequenas cidades para as grandes cidades. Década de 60 e 70 é uma década em que o Brasil sofreu um processo de urbanização muito grande, quando São Paulo começou a inchar, as grandes cidades; as pequenas cidades começaram a se tornar médias cidades e São Paulo começou a virar a megalópole que é hoje. Muitas das pessoas estavam indo para o setor terciário e o setor de comércio sem a mínima preparação, e o trabalho do SENAC era um trabalho muito tímido com um volume de crianças. Quer dizer, o SENAC, no auge do seu atendimento, estava atendendo 25 mil, não é?

Quando o Zizinho Papa, José Papa Júnior, assumiu a presidência do SENAC e começou a sentir as primeiras críticas, que o SENAC fazia muito pouco para o dinheiro que recebia - naquela época, lembra que o governo federal, era época Brasil grande, Delfim Neto ministro, era época de sonho desenvolvimentista... Então o SENAC estava na berlinda. Por outro lado, a própria Lei 5.692, em 71, quando decidiu pela universalização da formação profissional, primeiro juntou o antigo primário com o ginásio, juntou os dois. Com isso, acabaram-se os ginásios comerciais, ginásios industriais e ginásios agrícolas. Era ensino de primeiro grau, o segundo grau era profissionalizante, não tinha sentido o SENAC continuar insistindo em Ginásio Comercial, mesmo porque a lei acabou com ele.

Colégio técnico de Contabilidade e Secretariado: na hora que [o governo] falou que todo mundo tinha que fazer formação profissional, as escolas particulares, ou mesmo as escolas públicas… Era muito mais fácil implantar Contabilidade e Secretariado do que implantar Mecânica, do que implantar Eletrônica, claro. Contabilidade e Secretariado é cuspe e giz, o investimento é pequeno, então todo mundo partiu para essa. Se o SENAC ficasse por aí ele estava chovendo no molhado, e ao mesmo tempo com a reclamação dos adultos das empresas dizendo: "Olha, o pessoal que está entrando aqui não sabe nada, vocês têm que dar curso para vendedor, vocês têm que dar curso de escriturário, você tem que ensinar o pessoal a escrever, você tem que ensinar as telefonistas atender adequadamente o telefone." E o pessoal da área de Hotelaria: "Eu preciso de garçom, preciso de cozinheiro." E os hospitais: "Precisamos de atendentes de enfermagem", depois "Auxiliares de enfermagem, preciso de gente pra atender consultório dentário." E foi crescendo, é preciso salões de beleza, cabeleireiro, quer dizer, o pessoal ficou mais exigente, aquele barbeiro antigo não servia mais, precisava de um barbeiro mais sofisticado, precisava que o fulano entendesse mais de cortes, penteados. Começaram a aparecer os primeiros buffets, o pessoal precisava aprender a trabalhar, fazer um coquetel não com aqueles salgadinhos tradicionais, mas trabalhar já com pratos mais sofisticados, canapés etc. E o volume de exigência era bastante grande.

Em 72 Papinha reuniu todos os Diretores - 72 não, 71. 71 eu não estava ainda. Papinha reuniu todos os Diretores e falou: "Olha, todo mundo está criticando o SENAC, os empresários estão insatisfeitos que os nossos meninos são insuficientes para assumir os postos, os meninos que vêm da Contabilidade, Secretariado e do Ginásio Comercial, muitos dos postos de trabalho não são assumidos por esses meninos." Os cursos de Secretariado e Contabilidade eram muito bons, tão bons que depois os caras iam para a universidade, não iam assumir os postos de trabalho que o comércio exigia. E com isso o comércio e os serviços, o setor empresarial estava se sentindo desguarnecido.

Por outro lado, a própria discussão toda, nesta época se falava muito em educação permanente. Era a época que o Pierre Furter no Brasil defendia as ideias de educação permanente, a coqueluche do momento era falar em educação permanente. O Ivan Illich falava em educação sem escolas nos Estados Unidos, no México, a Europa toda discutindo, a França com os programas de educação continuada; o SENAC não podia ficar naquela programação tradicional. E o Papinha usou uma estratégia de choque, ele chamou todo mundo e falou: "Olha, parabéns. Este ano, final de 71, vocês atenderam 25 mil alunos, então é um atendimento recorde para o SENAC, mas isso mostra que o SENAC está muito atrasado. Eu quero que vocês atendam nos próximos três anos 300 mil. No ano que vem vocês vão pular de 25 para 80, no segundo ano de 80 para 100, no terceiro ano de 100 para 120." Dizem que houve um silêncio geral na sala, ele pode confirmar isso quando vier dar o depoimento dele. "Eu quero saber se é possível ou não é." O Professor Breno Di Grado foi o único que levantou e falou: "É possível." Então ele falou: "Bom, então eu tenho pelo menos um aliado." O pessoal quase matou o Breno, porque ele falou: "Está bom, já que vocês estão perplexos com a minha proposta eu dou uma semana de prazo pra vocês decidirem se vocês topam ou não, mas de início eu quero dizer o seguinte: se vocês não toparem eu tenho quem tope." Na semana seguinte, é claro que todo mundo topou. O Oliver estava com uma série de dúvidas se dava ou não dava para fazer, achava que isso podia [fazer] cair a qualidade do SENAC. Ele mandou o Oliver fazer um curso fora e chamou o Amin, que era Diretor de Orientação Social do SESC, para implantar esse programa, e nós viemos para implantar esse programa.

 

P/1 - E depois, quando o senhor veio para trabalhar como Assistente Técnico dessa duas áreas, DFA e DFM, o senhor passou a que cargo? O senhor assumiu o lugar do professor Breno?

 

R - Quando eu fui, esses cursos, Ginásio Comercial, Contabilidade e Secretariado, eram exatamente os cursos que deviam morrer, eram os cursos da divisão do Breno. Por outro lado, o próprio Papinha não queria que mexesse com o Breno, porque na hora que ele fez o anúncio da meta dos 300 mil o único que deu apoio para ele era o Breno, então não tinha sentido mexer com o Breno. Pra poder reestruturar a programação, a primeira programação que tinha que morrer era exatamente a do Breno, senão não ia sobrar dinheiro para as outras programações, não é?

Pra poder fazer frente às outras programações inclusive, nós começamos mudando os nomes das unidades SENAC. Eram Escolas SENAC, e falamos: "Não vai ser mais escola, vai ser Centro de Formação Profissional porque nós não vamos mais atender os aluninhos da escola." O Amin entrou com todo aquele discurso, sociedade sem escola, centros de formação profissional aglutinadores de pessoas, quer dizer, todas as pessoas que quiserem se formar deverão vir ao SENAC, o SENAC deve ir à comunidade, atender mais cidades. Mas as antigas escolas que foram transformadas em centros de formação profissional não iam se transformar de escola para centro do dia para noite. Elas não tinham recursos humanos, os professores estavam acostumados naquele esquema de aula tradicional, dos aluninhos com carteira escolar etc. De repente, trazer os adultos para dentro, e mais do que isso, ir para fora, dar cursos nas outras cidades, não tinha, então foi fundada a UNIFORT, as Unidades Móveis de Formação e Treinamento, para ir às localidades que não eram atendidas pelos centros de formação profissional.

A UNIFORT se deslocava para uma determinada região, então ela se deslocava para Bauru; o centro de Bauru não tinha condições de atender além de Bauru, mas precisava atender também Lins, Araçatuba, então as unidades móveis iam e atendiam. O objetivo ali era atender o maior número possível de municípios, para poder cumprir essa meta de 80 mil.

Como é que ia passar de 25 para 80? Só podia passar de 25 para 80 diversificando a programação, diversificando clientela, não tinha jeito de passar, era impossível de passar de 25 para 80. E foi nessa época então que eu fui assumir o lugar do Professor Breno e o Amin teve todo cuidado de… Ele criou um grupo de cooperação técnica e o Breno ficou de coordenador de um grupo de cooperação técnica, na verdade um nome pomposo, pro Breno não se sentir melindrado. O objetivo desse grupo de cooperação técnica era trazer pessoas da área educacional.

O Breno, além da Universidade do Ar, tinha sido coordenador durante muito tempo de um serviço chamado SADEC, que era Serviço de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino Comercial, então ele conhecia todo mundo na área educacional; todo mundo gostava do Breno, ele era extremamente querido. Acontece que o Breno era um anarquista por opção, então quando fui assumir as funções da DFM e ele ia passar para o Grupo de Cooperação Técnica aconteceu um fato curiosíssimo.

É claro que eu também conhecia a fama de anarquista do Breno, conhecia muito bem o Breno; claro que antes dele assumir as funções no Grupo de Cooperação Técnica eu procurei estudar tudo. Fui procurar os meus amigos da educação, supervisores, peguei informação de curso por curso, unidade por unidade do SENAC, então sabia que Botucatu tinha problemas, que Santos tinha, eu sabia qual era o problema, estudei tudo antes. Eu fiquei uns quinze dias pesquisando tudo quanto é documento, fui afiado para assumir o lugar do Breno. O professor Breno foi passar o serviço para mim; passou tudo errado, como um bom anarquista, não é? E eu fingi que estava recebendo o serviço todo errado, anotando tudo no meu caderninho. Tenho mania de escrever tudo em um caderno, anotando em um caderninho. O Breno: "Olha, Santos está assim, Botucatu está assim, Campinas." Eu anotei tudo. Ele ficou até a hora do almoço me passando tudo errado, depois fomos almoçar.

Voltamos depois do almoço, eu falei: "Breno, não faz mais isso comigo. Vamos trabalhar junto, eu não vim para tomar o teu lugar.” "Você nasceu quando?" Falei: "Em 45." Ele falou: "Em 45 eu já era diretor de escola." Eu falei: "Tudo bem, então, em 45 eu estava nascendo, o senhor já era Diretor de escola e eu tenho muito o que aprender com o senhor e eu quero aprender contigo, eu não quero ser seu inimigo. As circunstâncias fizeram com que eu assumisse o seu lugar, mas eu só posso assumir o seu lugar corretamente e continuar o belo trabalho que o senhor vem desenvolvendo."

Escovei o ego dele. Eu já sabia de tudo, tinha investigado tudo que o Breno tinha feito; elogiei a Universidade do Ar, elogiei o trabalho que ele fez no SADEC. O Professor Cabreira, que era da Coordenadoria do Ensino Técnico, tinha contado um fato curioso que tinha acontecido com o Breno, então eu contei para ele para dizer que eu o admirava por causa daquilo. Teve um Encontro do Ensino Comercial em 70; ele era o coordenador do SADEC, então o Diretor Regional pediu para que o Breno fosse o coordenador geral desse encontro, e o SENAC sediava esse encontro. Dizem que foi um encontro muito ruim, porque o pessoal estava muito... Naquela época, começo de 70, estava em um discursinho: "Ah, tirar o menor da rua”, não sei o quê. Tudo assim, aqueles discursos piegas, bem assistencialistas. O Breno estava fazendo um esforço para levar uma discussão mais profunda sobre os objetivos da formação profissional na área comercial e o pessoal trazia pra aquele discurso piegas que não levava a nada. E o Breno não conseguiu, o congresso todo foi conferencista atrás do outro e as discussões em grupo, todas elas no nível muito sentimental. Nada de profundo em termos de descobrir alternativas efetivas para mudar o ensino comercial, que era o objetivo inicial do seminário. Mas, tudo bem, no final o Breno tinha que encerrar o congresso em nome do SENAC, então ele falou: "Eu queria em nome dos organizadores do evento, em nome do SENAC agradecer a todos os conferencistas e participantes desse congresso, a todos que contribuíram para o brilhantismo desse evento muito mais com o coração do que com a inteligência." (risos) Quase apanhou! (risos) Pra ver o estilo do Breno, quer dizer, era um cara fantástico, e eu contei isso para ele, mostrei que já sabia de coisas da vida dele. Falei: "Breno, eu quero ser teu aliado, teu amigo. Você me passou tudo errado, Santos não é assim, é assim, Botucatu não é assim, é assim." Daí na outra folha escrevi o que era, e falei: "Vamos trabalhar juntos?"

Ele se levanta, não fala nada: "Me acompanhe." Bom, com o Breno na frente e eu atrás, eu no quarto andar - a diretoria regional era no terceiro -, descemos a escada. O Amin tinha pedido, falou: "Olha, cuide bem do Breno porque ele foi o primeiro aliado do Papinha na meta dos 300 mil, o Papinha não quer que você deixe ele nervoso." Bom, a hora que nós entramos na sala do Amin, ele: "Quero falar com o senhor." O Amin já ficou assim, Breno na frente, e eu atrás… Aí ele dá um abraço no Amin: "Muito obrigado, agora eu posso me aposentar sossegado, estou sendo substituído a altura."

A partir dali o Breno foi meu grande aliado. Ele me apresentou para todo mundo da área de educação, e sempre me apresentava: "Olha, esse aqui é melhor que eu, viu? Ele veio me substituir, ele é muito bom." Ele abriu todas as portas, grande parte das portas da área de educação que foram abertas para mim dali para frente foram portas abertas inicialmente pelo Professor Breno Di Grado. (pausa)

Quando eu vim para o SENAC, o SENAC tinha que implantar essa meta dos 300 mil e tinha que reestruturar a programação. Tinha que acabar com o Ginásio Comercial, ao mesmo tempo precisava atender os aprendizes, então no lugar do Ginásio Comercial nós criamos um curso chamado… Ele acabou sendo conhecido pela sigla CAVE, Curso Auxiliar de Vendas de Escritório, que era um curso de três anos destinado a aprendizes e candidatos a emprego no comércio, e que tinha equivalência às quatro últimas séries do ensino de primeiro grau, antigo ginásio. Tínhamos também um outro curso chamado CAC, Curso de Auxiliar do Comércio, que era um curso de um ano basicamente trabalhando técnicas comerciais, a parte de vendas, escritório e um pouco de cartazismo. Era um curso interessante de um ano também destinado a atender aprendizes, especialmente aprendizes na faixa de dezesseis a dezoito anos.

Como toda rede estava implantando cursos técnicos por conta da Lei 5.692, então não tinha sentido o SENAC continuar com esses cursos técnicos, por outro lado não havia outra alternativa de trabalhar os cursos técnicos a não ser em cursos regulares. Então nós começamos um trabalho no SENAC, nós fizemos… Havia um convênio assinado na época do Oliver ainda, um convênio de cooperação técnica entre Secretaria da Educação e SENAC, para que alunos do SENAC pudessem ser dispensados de disciplinas de educação geral, caso fossem estudar em colégio da rede, e alunos da rede que fossem estudar em colégios do SENAC pudessem ser dispensados da parte de formação profissional, na medida em que as disciplinas fossem coincidentes. Então nós aproveitamos, eu tive uma ideia de aproveitar isto e fazer um convênio que eu chamei nos termos do artigo terceiro da Lei 5.692, a lei dizia que tinha que promover a intercomplementaridade, a entrosagem entre estabelecimentos de ensino para aproveitar os recursos e não desperdiçar recursos dentro da mesma cidade. Fiz a proposta para o Amin, o Amin topou, então a gente partiu para implantar esse convênio. Conversamos na Secretaria da Educação, a Ester de Figueiredo Ferraz era secretária na época, ela nem entendeu muito bem qual era a proposta, mas passou a proposta para o Professor Nuzzi, que era o coordenador do ensino técnico, e ele topou a proposta.

Fizemos uma comissão com duas pessoas da Secretaria da Educação e duas pessoas do SENAC, e eu fui o coordenador dessa equipe, o Professor Küller, que era um técnico do SENAC e eu; da Secretaria da Educação, o Professor Cabreira e o Professor Cléstenes. Partimos para todas as cidades do interior e organizamos projetos de intercomplementaridade. O SENAC partiu para oferecer apenas a parte de educação geral e atendia alunos da rede que faziam a parte de educação geral na Secretaria da Educação e a parte de formação profissional no SENAC. Então o aluno ia dois dias no SENAC, três na rede; no outro ano ele ia três dias no SENAC e dois na rede, e foi um convênio interessante de intercomplementaridade, porque nós, com o mesmo recurso, imediatamente dobramos o volume de atendimento. Atendíamos na mesma sala com os mesmos professores, duas turmas; enquanto uma turma estava no SENAC tendo a parte de educação geral, a parte de formação profissional estava tendo educação geral e vice-versa. Fizemos um esqueminha de troca, tijolinho, um aluno lá e outro aqui. E o trabalho articulado entre as secretarias de educação e o SENAC, com isso acabamos diminuindo os custos do SENAC, quer dizer, atendemos o dobro.

É claro que isso acabou implicando na demissão dos professores que davam Português, Matemática, História e Geografia e a contratação de novos docentes para a parte de formação profissional. Ao mesmo tempo, começamos a discutir no Conselho Estadual de Educação para que mudassem a sua legislação do ensino supletivo, e para [que] a qualificação profissional permitisse a organização de cursos apenas com a parte de formação profissional, podendo o aluno, numa intercomplementaridade livre, fazer educação geral onde ele quisesse e a formação profissional nos centros especializados em educação profissional.

O Professor João Batista Sales, que era do Senai, comprou a ideia. Ele era Conselheiro e apresentou uma proposta no Conselho Estadual de Educação. O Conselho Estadual de Educação instituiu, na nova deliberação sobre o ensino supletivo, a previsão de Qualificação Profissional I para ocupações profissionais simples, Qualificação II, semelhante ao nosso CAVE, quer dizer, formação profissional mais educação geral equivalente às quatro últimas séries do ensino de terceiro grau, Qualificação Profissional III para auxiliar técnico e Qualificação Profissional IV para técnico, em que podia o seguinte: a pessoa, ao concluir o curso de qualificação profissional três e quatro, se já possuía parte de educação geral recebia o diploma de técnico, Qualificação Profissional IV. Se não tinha ainda, certificado. Na hora que concluísse a parte de educação geral correspondente ao segundo grau, trocava o certificado pelo diploma.

Com isso, começamos a implantar então a programação do SENAC: cursos de Qualificação Profissional IV para a formação de técnico, III para a formação de auxiliares técnicos e Qualificação Profissional I para as várias ocupações simples. Nessa época, inclusive, começou-se a discutir o seguinte: "Bom, vamos atender, com esse curso de três anos, o mínimo indispensável, e o máximo nesses cursos de qualificação profissional e nos cursos de aperfeiçoamento, que é a educação a distância, quer dizer, todas as pessoas podem a qualquer momento vir ao SENAC para fazer um curso de aperfeiçoamento, um curso de especialização, um curso de atualização, promover a sua reciclagem profissional, nessa perspectiva de educação permanente, nessa perspectiva de educação continuada."

Com esta mudança radical na programação nós conseguimos cumprir a meta em 72. A meta era de 80 mil atendimentos, foi feito 80 e um pouquinho mais; em 73 nós superamos a meta dos cem mil, que era de 73, e em 74 nós superamos a meta dos 120 mil, quer dizer, a meta dos 300 mil lançado pelo Presidente Papa Júnior foi cumprida. E claro que com a mudança radical que o Amin promoveu no Departamento Regional no ano de 73, quando o Oliver voltou do curso não tinha mais lugar para ele. O Amin já havia assumido definitivamente o seu lugar como Diretor Regional substituto, porque a regra era essa: se desse no couro ficava, se não caía fora. E o Amin ficou até a entrada do doutor Abram.

Só que a atitude de São Paulo acabou provocando uma mudança radical em todo o Departamento Nacional também. Logo em outubro - eu entrei no SENAC em julho, em outubro eu fui pra Curitiba, num congresso de todos os departamentos regionais, convocado pelo Departamento Nacional. O Professor Maurício de Carvalho era o Diretor do Departamento Nacional, ele já convocou uma reunião de todos os departamentos regionais com os responsáveis pela área de formação profissional para discutir diversificação da programação. Essa foi… Eu disse lá fora que foi a primeira reunião que eu fui tremendo, apesar de que eu sou meio cara de pau, não tremo fácil, mas essa eu fui porque era com todos os departamentos regionais. O pessoal do Departamento Nacional não conhecia ninguém, eu fui sozinho representando São Paulo, conhecendo muito pouco da história do SENAC. O que eu conhecia da história do SENAC [era] pelo que eu tinha investigado, tinha lido; comecei lendo todos os relatórios anuais, fui lendo tudo para saber o que aconteceu com o SENAC, então é claro que quando fui à reunião de Curitiba em outubro eu sabia muita coisa do SENAC, mas sem ter vivenciado. Eu tinha planos pra implantar cursos diferenciados de qualificação profissional que a própria legislação de ensino ainda não permitia, certo? A legislação só foi permitir no ano seguinte, mas a gente estava forçando a barra através desses programas de intercomplementaridade com a Secretaria da Educação.

Para mim foi um momento muito importante essa reunião de Curitiba, porque foi o momento que eu firmei as minhas posições e marquei também uma posição minha no cenário do Departamento Nacional. A partir daí eu participei, o Departamento Nacional, quando o SENAC e o Amin… O Departamento Nacional era muito fechado, com uma programação muito retrógrada ainda, e o Amin insistia com a gente, falava: "Nós vamos articular ao máximo, colaborar ao máximo com o Departamento Nacional porque quanto mais ideias nossas eles comprarem em nível nacional, mais fácil a gente implantar aqui." Então partimos pra vender as nossas ideias pro Departamento Nacional.

O Professor João Carlos Alexim, que era o coordenador de pesquisa e planejamento do Departamento Nacional, comprou com tudo e partiu. Então nós começamos a trabalhar, partimos tanto em nível nacional quanto em nível regional para trabalhar propostas estratégicas, na década de 70. E o SENAC começou a fazer o seu planejamento estratégico, fazer o seu planejamento plurianual e o seu planejamento anual de atividades.

Nós substituímos os antigos orçamento e programa que eram feitos pelas unidades - porque o SENAC é fiscalizado pelo Tribunal de Contas da União, tem que fazer o orçamento-programa e mandar para a Presidência da República, mas era um instrumento frio, burocrático. Nós partimos para transformar aquele orçamento-programa num plano de trabalho, num instrumento de trabalho dos centros de formação profissional; começamos a chamar inclusive, a gente chamava, tinha um nome feio… PAFP, como é que é? Programas de Ação de Formação Profissional.

A gente começou a diversificar a programação, aumentando a programação na área de Hotelaria, na área de Turismo, na área de Beleza, na área de Enfermagem; começamos a descobrir que não era só Enfermagem que nós devíamos trabalhar no contexto geral da área de saúde, então, tanto saúde do trabalhador, saúde hospitalar, saúde pública, tudo isso era negócio nosso. Até contratamos uma profissional da área de saúde pública pra dinamizar a programação na área de saúde. Ela teve tanto sucesso que acabou incorporando a área de saúde no nome dela, o nome dela era Cleunice Elizabete, não sei, e todo mundo chamava de Bete Saúde. (risos)

Pelo dinamismo que a área de saúde acabou ganhando e outras áreas começaram a crescer - Beleza etc - a década de 70 acabou sendo uma década de um crescimento muito grande, de muita criatividade, provocada por estímulos que tanto o Amin lançava de um lado quanto o Presidente Papa Júnior lançava de outro lado. Estímulos às vezes até contraditórios, mas foi uma época de muita criatividade e crescimento, e algumas metas acabaram sendo criadas ano a ano nesse planejamento estratégico. Então eu me lembro, [em] 75-76 a meta era… Não! 74-75, logo depois da meta dos 300 mil, daí veio a meta do mais um. Tudo bem, conseguimos atingir a meta dos 300 mil, está todo mundo de parabéns, agora a meta desse ano é mais um, mais uma cidade pelo menos. Atendemos duzentas, então está bom 201; atendemos trezentos, esse ano foram 130 mil alunos, então tem que ser pelo menos 131. Nós fizemos oitenta cursos diferentes, então tem que ser pelo menos 81. Era a meta do mais um, tudo era mais um, então mais um município, mais um curso diferente, era no mínimo mais um.

Com isso foi diversificando a programação com a brincadeira do mais um, a programação foi se diversificando e aos poucos nós chegamos num volume de atendimento bastante grande. Num determinado momento foi o ano do tijolo, porque o SENAC tinha dinheiro para investir, então vamos construir novas unidades. Aí houve uma briga bastante grande porque os estudos indicavam - naquela época eu já estava na área de Pesquisa e Desenvolvimento - os estudos indicavam que a prioridade deveria ser dada na Grande São Paulo, mas o Papinha defendia que a prioridade deveria ser no Interior, interiorização do desenvolvimento, e aí se investiu muito mais no interior do que na Grande São Paulo, embora os estudos de demanda indicassem que Grande São Paulo seria prioridade em relação ao interior. A par dessas divergências, houve um crescimento bastante grande.

Em 76, o SENAC acabou levando um susto porque em 75 saiu, a nível federal, uma lei de incentivos fiscais para treinamento. Todas as empresas que investissem em treinamento e desenvolvimento poderiam descontar até 10% do lucro líquido dedutível do imposto de renda. Descontar do imposto de renda para propiciar treinamento dentro das empresas. E a lei 6.297, que instituiu o incentivo fiscal para treinamento, ela permitia… No regulamento, o decreto que regulamentou essa lei, posteriormente em 1976, ela permitia que se mexesse no regulamento das entidades SENAC, Senai, nas entidades de formação profissional, as entidades que de acordo com a lei integravam o sistema nacional de formação profissional para se adequar a essa nova realidade. O que eu falei que queria contar para vocês: como nasceu o PRODEMP. O PRODEMP nasceu desse susto porque o que é que significava dar? Esse decreto dava um cheque em branco para o Ministério do Trabalho, para que o Ministério do Trabalho mexesse no regulamento das entidades e mudasse radicalmente a própria programação das entidades!

Lembra que eu falei que o próprio SENAC diversificou a sua programação, saindo do ginásio e do colegial tradicional para uma programação muito mais ampla, diversificada, atendimento prioritário tanto a crianças e adolescentes quanto a adultos, candidatos a empregos no comércio e serviços, nessa perspectiva de educação permanente, educação continuada, pressionado por metas quantitativas. Quer dizer, a sociedade e o governo exigia que o SENAC fizesse mais, caso contrário… Porque o SENAC pra atender só 25 mil, para que essa dinheirama toda para atender só isso? Precisava atender mais e mais e daí entrou a meta do mais um etc.

De repente, com esta legislação, o Ministério do Trabalho podia mexer nas entidades, eventualmente até tirar dinheiro que as entidades estavam aplicando neste tipo de programação e orientar para uma programação de empresas de treinamento específico nas empresas. E o discurso do Ministério do Trabalho é: o SENAC e o Senai não estão preparados para assumir suas novas funções no desenvolvimento.

Arnaldo Prieto era Ministro do Trabalho e nós soubemos num dos dias que estava pra sair uma portaria do Ministério já regulamentando nos termos daquele decreto, mexendo no nosso regulamento, obrigando o SENAC e o Senai atuar em treinamento e desenvolvimento. O Amin reuniu os diretores - eu era um dos diretores, na época eu era diretor da DIPRO, Divisão de Programação: "E agora, que é que nós vamos fazer?" Nós tínhamos… No final da tarde, ali na divisão, naquela época, depois que acabava o expediente o pessoal ficava tomando uma pinguinha, jogando conversa fora, falando mal da vida alheia. Naquela época nós tínhamos até um concurso interno, tinha o troféu Pombinha de Ouro para quem fizesse a maior bondade nos comentários, e Serpente de Bronze para (risos) a maior maldade nos comentários de fim de tarde, enquanto a gente ficava tomando uma cervejinha, uma pinguinha. Nessa hora que saíram as ideias mais criativas também, então nesses finais de tarde de falar mal da vida alheia tinha saído a ideia de se criar um… Por conta dessa lei: "Por que é que a gente não cria um programa pras empresas de desenvolvimento empresarial?"

A gente já estava com um programinha bolado de desenvolvimento empresarial - bolado não, conversa de bêbado, mas estava na cabeça. E quando ia sair a lei, não tinha mais nada. O Amin falou: "Olha, conversa de bêbado, a gente tem um programinha bolado." O Marcão tinha até feito o logotipo, tinha desenhado, ele desenhava bem. Entre umas e outras, tinha desenhado o logotipo. Peguei com o Marcão o logotipo. Era numa quinta-feira, o Amin gostou da ideia e falou: "E que tal se a gente lançar o PRODEMP pelo jornal de sábado?"

Na segunda ou terça-feira era para ter saído a portaria, correu boato que na semana seguinte ia sair a portaria do Ministério do Trabalho, então nós fomos a uma agência de publicidade, porque não dava mais para incluir... A gente queria incluir uma página inteira no Estadão e na Folha, não dava mais, era só com agência, daí fomos numa agência de publicidade, nem me lembro qual, pra produzir um anúncio em cima daqueles desenhos que a gente já possuía, aqueles rabiscos. A gente só tinha ideia de bêbado, não tinha nada sistematizado, não é? Mas fomos e vimos que dava para... Então no sábado saiu um anúncio de página inteira no Estadão com endereço do SENAC da Vila Nova para procurar o PRODEMP, Programa de Desenvolvimento Empresarial. Todo o pessoal de empresa que procurasse o SENAC para ser assessorado na montagem de projetos de incentivo fiscal para treinamento.

A gente não sabia nem muito bem como é que ia fazer isso, decidimos na quinta-feira; escolhemos um grupo de uns dez caras-de-pau e montamos todo o sistema, inclusive de impressos. Porque a gente disse que ia orientar, tinha que orientar adequadamente, não é? Estudamos a lei, montamos um esqueminha [de] como devia ser feito, fizemos um rearranjo no quarto andar, arrumamos umas salas, ia atender pessoal de empresa, pusemos carpete. E dez caras dando orientações a partir de segunda-feira. Passamos sexta, sábado e domingo; a gente ficava até meia-noite, de madrugada, Orientamos tudo, produzimos na nossa gráfica os quadros, os impressos.

[Na] segunda-feira a gente estava bonitinho, esperando cliente. E o pior é que veio, bastante, e nós fizemos tanto sucesso que o Ministério do Trabalho contratou a gente para dar treinamento no Brasil inteiro, porque eles chegaram a conclusão de que a nossa proposta estava melhor do que a deles. (risos) Fomos contratados, demos treinamento no Brasil inteiro, mas foi gozadíssimo porque no domingo o presidente não sabia de nada disso, página inteira do jornal. O presidente, dizem que ele estava lendo jornal ainda, daí ele chegou e tinha visto o da Folha, falou: "Nossa, o Amin está louco." Ele estava se preparando para ligar para o Amin para dar uma bronca; toca o telefone, era o Ministro do Trabalho. O Ministro do Trabalho falou para o Presidente: "Parabéns, vocês são maravilhosos. Vocês sempre saem na frente, eu não esperava outra coisa do SENAC de São Paulo." Daí ele agradece, o Presidente liga para o Amin: "Amin, você ficou louco." O Amin: "Ih, perdi o emprego." Ele falou: "Não, o ministro acabou de ligar, fantástico! Que sacada maravilhosa." (risos) E o PRODEMP nasceu assim.

Com isso, alugamos uma casa lá nos Jardins e o PRODEMP acabou sendo um programa importante de assessoria às empresas. Depois, na medida em que outras unidades foram entrando, o PRODEMP também foi mudando a sua destinação. Hoje é o CTN, o Centro de Tecnologia de Negócios.

 

P/1 - Professor, como foi a evolução… O senhor falou muito da década de 70. Eu queria que o senhor falasse um pouquinho da década de 80 e depois falasse alguma coisa da característica hoje, da proposta do SENAC para a década de 90.

 

R - Certo. O SENAC na década de 70, quer dizer, a grande característica do SENAC na década de 70, a grande proposta estratégica foi a diversificação da programação, tanto que, em um determinado momento, nós chegamos à conclusão, inclusive examinando os próprios documentos, que o nosso negócio não era apenas a formação profissional.

Na hora que nós aprofundamos a discussão em torno dos objetivos do SENAC, o nosso negócio é desenvolvimento profissional através da formação profissional, os seus cursos, mas também através do desenvolvimento empresarial, não é? Estava aí o PRODEMP, e todo o trabalho que o SENAC estava fazendo de apoio ao desenvolvimento da pequena e média empresa comercial, assessoria às empresas para desenvolvimento de treinamento e desenvolvimento das próprias empresas e também de uma atividade de valorização profissional. O outro tripé seria a valorização profissional, que inicialmente até a gente chamava de valorização das atividades de comércio e serviços, mas daí a sigla ficou feia - ficou VACS, Valorização das Atividades de Comércio e Serviços, mudamos para Valorização Profissional. E aí começaram a aparecer: Valorização Profissional, Desenvolvimento Empresarial, Formação Profissional. Eram três alternativas diferentes de cumprir o mesmo objetivo, que é o desenvolvimento de pessoas e organizações na área de comércio e de serviços.

Claro que a gente diversificou muito a programação na década de 70, quer dizer foi, a grande meta era quantitativa. Quando iniciamos a década de 80 e, por outro lado, também com o fim do milagre econômico, o nosso dinheiro, no final da década de 70, o nosso orçamento de receitas compulsórias começou a crescer, no jargão do economês, e a crescer a taxas decrescentes: a cada ano nós tínhamos mais dinheiro nominal e menos dinheiro real, descontada a inflação. Nosso orçamento estava crescendo nominalmente, mas decrescendo em termos reais, certo? Comparado em dólar o nosso dinheiro estava decrescendo. Isso implicava em uma revisão da programação, não dava para crescer mais. A meta do mais um, mais um município, mais um curso, mais um atendimento, com o orçamento menos um ficava incompatível, não é? Então a estratégia da década de 80 foi uma estratégia de sobrevivência, nós tínhamos que restringir programação e não diversificar.

Diversificar foi a meta da década de 70. Na década de 80 tivemos que concentrar programação, e concentramos no chamado Núcleo Básico de Programação. Aí teve ideia, inclusive…  Na medida em que você sente a necessidade de concentrar programação, o discurso passou a ser outro: a ênfase não é na quantidade, a ênfase [é] na qualidade. Vamos diminuir a nossa programação, mas ao mesmo tempo, para diminuir a programação eu tenho que diminuir com qualidade. Eu tenho que oferecer uma programação que seja significativa, daí tivemos a ideia de trabalhar com unidades especializadas. Então na Avenida Tiradentes especializamos a unidade na área de saúde, especializamos a unidade da [Rua] 24 de Maio na área de Escritório, especializamos a unidade aqui da Avenida Francisco Matarazzo em Moda e Beleza, e foram as primeiras unidades especializadas. Replanejamos toda a programação dessas unidades.

As unidades polivalentes, que continuaram polivalentes, se concentraram em um núcleo básico de programação. Para cada núcleo básico de programação nós elaboramos um plano diretor de desenvolvimento desse núcleo básico. O embrião foi um plano que a minha gerência, a Gerência de Formação Profissional… Porque quando o doutor Abram assumiu a presidência do SENAC, ele promoveu uma reestruturação do organograma e as antigas coordenadorias foram substituídas por três gerências técnicas na área da superintendência técnica: uma de Formação Profissional, que ficou comigo, uma de Desenvolvimento Empresarial, que ficou com o Tarcísio, e uma de Valorização Profissional, que ficou com a Pilar; e tinha uma de Desenvolvimento e Pesquisa, que ficou com o Joel. Quer dizer, em todas houve essa reestruturação, e dentro desta reestruturação eu comecei a trabalhar na minha gerência de formação profissional com planos diretores, porque senão não dava pra trabalhar os núcleos,

Fizemos um plano diretor para a área de Hotelaria e de Turismo. Nós tínhamos ainda um consultor da OIT trabalhando com a gente, Antonin Finocchiaro, então o Finocchiaro trabalhou na coordenação desse plano junto com o Professor Giulio Vicini, que hoje trabalha na Saúde. E utilizando esse mesmo modelo de plano diretor que foi feito para a área de Hotelaria e Turismo fizemos também planos diretores para a áreas de Beleza, pra área de Escritório, pra área de Saúde, e era importante que as pessoas fossem e se desenvolvessem para cumprir essa nova proposta estratégica, então houve também um plano diretor de Desenvolvimento de Recursos Humanos, coordenado pela Gerência de Pessoal, e uma área nova emergiu, que foi a área de Informática, certo? Nessa época, década de 80, época em que a Informática começou a entrar com muita força no cenário nacional. Também houve um plano diretor para a área de Informática, então a década de 80 foi uma época em que nós colocamos, quer dizer, reafirmamos aquele princípio de que “somos uma entidade educacional voltada para o desenvolvimento de pessoas e de organizações através de programas de formação profissional, desenvolvimento empresarial e valorização profissional.”

Era fundamental que nós criássemos estratégias para sobreviver nesse momento de crise, a década de 80 é uma década de crise, então as próprias taxas de cursos... No início, na década de 70 elas foram criadas, e até a gente cunhou uma frase, era: "As taxas foram criadas para estabelecer mútua responsabilidade do processo educativo." Olha que bonito, “mútua responsabilidade no processo educativo”, quer dizer, porque dar de graça ninguém valoriza, não é? Então as taxas iniciais eram simbólicas. A partir do momento em que iniciamos uma proposta estratégica de sobrevivência as taxas foram sendo cada vez menos simbólicas ao longo da década de 80, a tal momento… Essa década de 80 foi muito importante em termos de concentração, e tínhamos duas, concentração tática e diversificação estratégica: concentração tática em unidades especializadas, núcleo básico de programação e a partir daí diversificação da programação nas demais unidades, aproveitando-se dessa concentração tática especializada. Então nós tínhamos docentes especializados, um grupo especializado que reprogramava e a partir daí trabalhava esta programação junto às unidades.

No final da década de 80 tivemos uma ampla discussão com todos os Gerentes de todas as unidades para programar a proposta estratégica da década de 90 e  chegamos à conclusão… Ao longo de 89, 90, depois de muita discussão da proposta estratégica dessa década de 90 chegamos à conclusão de que o nosso negócio, o cerne da nossa missão, mais do que o desenvolvimento de pessoas e organizações através de programas de formação profissional, desenvolvimento empresarial e valorização profissional, era o desenvolvimento do conhecimento em comércio e serviços. E esta é uma meta extremamente ousada, quer dizer, o SENAC se conscientizar de que é uma entidade educacional voltada para o desenvolvimento do conhecimento em comércio e serviço, não basta trabalhar com técnicas, não basta ensinar técnicas, tem que trabalhar com as pessoas para que elas tenham o domínio do conhecimento, aí é importante se trabalhar num tripé, tem um tripé fundamental para se trabalhar qualquer programa de educação profissional. A dimensão de ensino técnico, quer dizer, as pessoas precisam aprender as técnicas de trabalho, mas não basta aprender as técnicas de trabalho…

Está acabando o tempo? Não brinca!

Não basta aprender as técnicas de trabalho, precisa dominar o conhecimento tecnológico, e além disto, além de dominar o desenvolvimento tecnológico, desenvolver a cultura do trabalho, e daí várias macroestratégias foram definidas para dar sustentação a essa proposta estratégica, uma delas do lado financeiro, quer dizer autossustentabilidade até o final da década. Autossustentabilidade do ponto de vista operacional, quer dizer, da operação, porque nós não podemos esquecer que temos uma receita compulsoriamente recolhida, então essa receita compulsória deveria dar sustentação tanto a parte administrativa quanto a parte de desenvolvimento, tanto em desenvolvimento corpóreo, através de construções e reequipamento, porque isso custa dinheiro, mas principalmente também o chamado Projeto Incorpóreo, quer dizer, desenvolvimento das pessoas, treinamento, investimento em pesquisa e desenvolvimento, marketing como instrumento de gestão, pessoas como fator crítico, internacionalização etc.

Na área de educação, aprendizagem com autonomia, quer dizer, desenvolvimento do pensamento autônomo. Se o desenvolvimento do conhecimento é o central, é preciso que as pessoas aprendam, mas também aprendam a aprender.

Pessoas e organizações, quando procuram o SENAC, eles querem o quê? Eles querem melhorar o seu desempenho profissional. Quando a pessoa procura um curso do SENAC de qualificação ela quer adquirir uma competência para o trabalho. Um trabalhador que procura o SENAC quer melhorar a sua competência profissional, só que acontece o seguinte: nós estamos em um mundo com uma rápida evolução tecnológica, científica, e em decorrência disso as ocupações estão se desenvolvendo muito rapidamente. Não adianta ensinar a fazer, é importante que as pessoas aprendam a fazer e aprendam que aquele fazer pode mudar daqui a pouco e aprendam a buscar informações onde elas se encontram. O domínio do conhecimento tecnológico para [que] descubram novas maneiras de fazer, se desenvolvam e criem a cultura do trabalho, se preparem para desafios inesperados, e não apenas para os desafios esperados. Não dá mais para a pessoa se formar, a pessoa tem que estar preparada para aprender, e aprender a aprender, se desenvolver.

Esse é o grande desafio, por quê? Porque nós vivemos num país… Todo sistema educacional está voltado para o ensino, e ensino numa perspectiva meio de dependência, nós dependemos de quem detém a informação, dependemos de quem detém o poder. Nós estávamos querendo pensamento autônomo, centrar as nossas preocupações não no ensino, mas na aprendizagem. É claro que interessa o que é ensinado, mas interessa muito mais o que é aprendido, e é esse o nosso enfoque para o desenvolvimento.

Eu me empolguei...

 

P/1 - A gente queria agradecer então, professor, a gente está acabando o nosso tempo, obrigado pela sua presença.

 

R - Às ordens. Olha, eu gostei muito deste depoimento, tanto que eu nem vi a hora passar e me empolguei bastante, porque eu tenho consciência de que o SENAC, nesse momento, teve um desenvolvimento ao longo desses anos todos. Ele se desenvolveu muito, eu participei dessa história e gostei de falar sobre isso.



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