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História

Três décadas de dedicação

História de: Yaraí Roberto de Abreu
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/10/2015

Sinopse

Yaraí nos conta sua trajetória de aproximadamente trinta anos na Companhia Vale do Rio Doce. Ainda adolescente saiu de casa para completar seu estudos, se formou em Engenharia Civil na UFES, até que foi indicado por um professor para trabalhar em um projeto novo, Projeto Carajás. Esteve presente na fase inicial do projeto, participou dos primeiros estudos, viagens e levantamento de informações. Deslocado para uma empresa subsidiada da Vale, Florestas Rio Doce, esteve envolvido num programa de pesquisa florestal na região norte do Brasil. Atualmente, Yaraí exerce um suporte administrativo na secretaria geral da Vale.

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História completa

 

P – Boa tarde, Yaraí.

 

R – Boa tarde

 

P – Vamos começar pedindo pra você dizer seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Yaraí Roberto de Abreu, nascido em Pancas em 15 de outubro de 1947.

 

P – Fala pra gente o nome dos teus pais e dos teus avós.

 

R – Meu pai é Alexandrino Alencar de Abreu, minha mãe Geranide Toledo de Abreu, meu avô materno é José Lacerda Toledo, e minha avó materna Laurinda Toledo, meu avô paterno Alexandrino Alencar de Abreu, minha avó paterna é Antonia Alves de Abreu 

 

P – Qual é a origem dos seus avós?

 

R – Os Abreu acho que portugueses, e os Toledo acho que espanhóis, minha avó materna me parece pelo que consta, tem alguns ancestrais indígenas.

 

P – Qual era a atividade deles?

 

R – Meu avô paterno, eu conheci ele já estava com uma idade um pouco avançada, eu acredito que ele já estava numa fase de aposentadoria, meu avô materno foi fazendeiro, na região de Conselheiro Penas em Minas Gerais, foi um grande fazendeiro.

 

P – E seu pai qual era a atividade dele?

 

R – Meu pai mexeu com comércio, depois fazenda, voltou para o comércio, e hoje está bem idoso e aposentado.

 

P –Você nasceu em Pancas, interior do Espírito Santo?

 

R – É, era município de Colatina.

 

P – Passou a infância lá?

 

R – Não, eu saí bem novo, vim para Colatina, e depois a família mudou pra a região de Mantena, Minas Gerais, onde meu pai desenvolveu uma atividade comercial, pequena no interior, e depois teve fazenda de café por um bom tempo.

 

P – Como você lembra da sua infância, a maior parte você passou em Minas?

 

R – Em minas, em Mantena...

 

P – Quais as lembranças que você tem?

 

R – São boas, época de escola, época de vida na fazenda, até a idade escolar nós vivíamos na fazenda, depois meu pai mudou pra Mantena pra que nós - eu já tinha um irmão mais velho que eu - pra que nós pudéssemos estudar, mas a gente sempre, mesmo morando em Mantena, nós íamos pra fazenda, era próximo, logo eu tenho boas lembranças, o contato com a natureza era muito interessante, era muito diferente de hoje em dia.

 

P – Quais eram as brincadeiras de vocês?

 

R – Eram normais, basicamente carrinho, como era fazenda de café, a gente não, quer dizer, quando é fazenda de gado normalmente tem o negócio de andar a cavalo, mas como era café, nós não tínhamos isso lá não, então era brincadeira normal mesmo, mais com carrinhos e brincar de correr, acertar lagartixa com pedra, jogar pedra em lagartixa (risos). Coisas assim desse tipo.

 

P – Subia em árvore?

 

R – Não, eu nunca fui muito dado a praticar exercícios (risos), então nunca, esse tipo de atividade eu nunca, é isso, subir no pé de goiaba coisas desse tipo, ainda me aventurava, mas não tinha muito exercício não.

 

P – E a casa? Que você lembra da sua casa?

 

R – Da casa em Mantena eu tenho uma lembrança boa e recentemente... meus pais atualmente moram em Cuiabá, no Mato Grosso, e numa das últimas vezes que eu fui de férias para visitá-los, eu pude rever fotos recentes, tiradas lá da cidade de Mantena, em que ainda existe a casa que eu morei quando criança, é uma casa boa, uma casa de três quartos, uma casa bem típica, que era comum na cidade, bem no centro da cidade e eu lembro bem da casa, tenho uma boa lembrança dela.

 

P – E da sua escola?

 

R – Sim, a escola também, ginásio Instituto do Povo, eu comecei a estudar nessa escola, a diretora que foi a fundadora da escola, ela tinha acabado de inaugurar um prédio novo, ela começou de uma forma precária e depois conseguiu ampliar a escola, e construiu um prédio novo. E eu comecei a estudar nessa época, então era muito interessante, eu lembro do prédio assim novinho, e ela pra poder atingir esse objetivo, ela angariou recursos na cidade, na comunidade, e eu me lembro que papai contribuiu. Então eu sentia, eu me lembro que nós tínhamos um privilégio, assim na escola (risos), em função disso.

 

P – Era uma escola pública?

 

R – Não, era de uma senhora, ligada a igreja batista e trabalhavam como missionários americanos, então ela tinha muito contato com pessoas nos Estados Unidos e recebia donativos de lá, e com isso ela realmente obteve recursos para construir a escola. Eu me lembro que nessa época ela ganhou de igrejas americanas um piano, um jeep, jeep willys. E foi curioso porque para ela retirar o jeep aqui da alfândega, foi uma dificuldade, quase que perdeu, quase que deixou o jeep lá porque era uma burocracia, uma coisa terrível, ela lá no interior, mas ela recebia ajuda, ela é uma pessoa que acho que contribuiu muito para a comunidade na época.

 

P – O jeep chegou lá?

 

R – Sim chegou.

 

P – Ela dirigia?

 

R – Não, ela não, ela usava pra escola mesmo. Eu quando - é curioso que minha família manteve, um certo vínculo de amizade com alguns parentes dela - quando eu vim cá pro Rio, quando eu mudei, fui morar na Tijuca, na Largo da Segunda feira, e era vizinho dela, eu era vizinho dela, ela já estava bem idosa, deu pra lembrar um pouco da época, dona Zilda.

 

P – O senhor estudou nessa escola até...?

 

R – Eu fiz primário e fui até terceira série ginasial. A partir daí me mudei, quer dizer, fui morando em pensão, fui pra Colatina e conclui o ginásio em Colatina, aí fui pra Vitória, e fiz científico e faculdade.

 

P – Fala um pouco da escola, essa mudança pra Colatina foi sozinho?

 

R – Não, eu e meu irmão, eu tenho um irmão que é três anos mais velho do que eu, e nessa época em termos de educação, papai planejava e íamos sempre os dois, mas é uma coisa curiosa, eu fui fazer terceiro ano ginasial, devia estar com 12 anos de idade, mas o papai nos colocou numa pensão, conversou com o dono da pensão, acertou lá mensalidade tudo isso, mandava mesada para eu e meu irmão, cada um era dono de si, não tinha esse negócio de irmão mais velho tomar conta do mais novo, e aí foi até bom, que a gente começou a aprender a adquirir responsabilidade, porque era pra estudar, então...

 

P – E aí final de semana dava pra voltar, era longe?

 

R – Não, não, não, não, se era longe… não era longe até. Hoje em dia com os recursos atuais, estradas pavimentadas, tudo isso fica… mas na época era muito difícil porque as estradas eram muito ruins então era só em feriados que coincidia com final de semana, que valeria a pena a pessoa se deslocar, se não era só nas férias mesmo.

 

P – Era muito novo né? Pra...

 

R – É, você vê meus filhos hoje em dia, é uma coisa curiosa porque a gente exerce quase que uma vigilância, um controle muito maior, até porque as coisas são muito diferentes também, mas é interessante isso, cedo, cedo, nós éramos obrigados, mas isso não era nada, não acontecia só comigo, isso era normal por causa da dificuldade, quer dizer, havia sempre a necessidade, os colégios tinham as suas limitações, quer dizer, eram úteis até certo nível de aprendizado mas havia necessidade de se partir para colégios com mais recurso, e aí era obrigado, todo mundo era obrigado a fazer assim.

 

P – Que você lembra de marcante desse período?

 

R – Eu não tenho nada assim de excepcional, eu sempre fui uma pessoa muito quieta, não lembro de nenhuma coisa que agitasse, não. Mas lembro da fase de festa da cidade, desfiles de colégio, aquilo era um evento marcante, não havia muito, mais eram as festas, música, (rei codife?) e essas coisas ( risos).

 

P – Eram festas públicas?

 

R – Eram festas, festas de aniversário, às vezes a gente entrava de penetra (risos), cuba libre...

 

P – Até terminar o científico você ficou...

 

R – Não, não, eu terminei o ginasial em Colatina e aí fui pra Vitória pra fazer o científico.

 

P – Também você e seu irmão?

 

R – Não, meu irmão essa época ele já tinha desistido, ele desistiu por um bom tempo de estudar, voltou ficou trabalhando com o meu pai, meu pai na época tinha fazenda, então ele ficou trabalhando com meu pai. Eu fui sozinho, sempre morando assim, alugava quarto, quando eu fui pra Vitória, quarto alugado, então alugava um quarto e tinha que se virar.

 

P – Era sozinho o quarto, tinha mais gente?

 

R – Tinha, geralmente dividia com um estudante, logo que eu fui pra Vitória eu fui morar realmente na pensão de uma pessoa conhecida lá de Pancas, ela tinha uma pensão e tudo.

 

P – Tem uma rede...

 

R – Sempre tem, o pessoal vem, conhece alguém, e ai, mais depois com alguns conhecidos, também estudantes, parti para alugar um quarto. Difícil era a questão da mesada, não tinha conta bancária então para o pai fazer a remessa de dinheiro, era muito complicado, porque tinha um conhecido, um portador que então levava, era uma coisa curiosa (risos).

 

P/2 – Passava uns dias ali apertado...

 

P – Passava, isso também me obrigou a procurar, arranjar emprego logo cedo (risos), mas isso aconteceu na faculdade.

 

P/2 – E sair, Colatina era uma cidade pequena nessa época, ir para Vitória, como que foi?

 

R – Colatina, era uma cidade pequena, mas não tão pequena assim proporcionalmente, porque quer dizer, até hoje ainda, fora a capital, Vitória, Vila Velha, essas coisas era Cachoeiro e Colatina as principais cidades do estado, Cachoeiro na região sul do estado e Colatina, que era chamada a princesa do norte, que era no norte, mas já eram cidades com um bom porte, a linha férrea passava também na rua principal, da cidade, e a cidade cresceu até em função da estrada de ferro, mas era uma cidade já com bons colégios, uma boa cidade.

 

P – E Vitória, como era a cidade?

 

R – Vitória era bem maior, mas não em questão de mudança, impacto, porque eu saí de Mantena uma cidade menor para Colatina, depois de Colatina pra Vitória já foi mais fácil, não teve muita diferença não.

 

P – E la em Vitória o senhor tinha um grupo de amigos?

 

R – Não, não tinha não, esse é um grande problema, eu acho até que me acompanhou na vida inteira, a questão de sair de casa cedo, ficar numa pensão, é evidente que tinham os colegas de escola tudo isso, mas nada de uma amizade muito firme, então estudei três anos, dois anos em Colatina, depois fui pra Vitória, três anos, aí faculdade, realmente é um período maior, mas sempre sozinho, então não tinha muito vínculo com a comunidade, tinha uns colegas de classe, colegas de faculdade, mas morava sempre mais sozinho mesmo.

 

P/2- E no período do científico, teve alguém que te influenciou a escolher engenharia, alguma figura mais marcante?

 

R – Não, isso aí é uma história interessante. O meu pai, ele gostava de sempre conversar com a gente, com meu irmão, comigo, e tinha uma irmã abaixo de mim, as idades, diferença de três anos. Então, ele gostava de sentar e conversar e tudo isso, e estimulava que a gente devia estudar, se formar, ter uma profissão, e mencionava as profissões que ele achava bonito, uma delas era engenharia, uma profissão interessante, tudo, e eu estava ainda, acho que no primeiro científico, não, estava no primeiro ano, primário ginasial, e conversando com uma professora, professora lá no intervalo de aula, conversando com vários alunos, perguntou o que cada um queria ser na vida, e eu na hora que ela perguntou, não tinha a menor idéia, mas enchi o peito e falei que queria ser engenheiro. Ficou a idéia de ser engenheiro e eu acho que eu defini a profissão ideal (?) mas, por sorte, eu acho que eu fiz uma escolha correta, porque eu gosto de desenho e tudo isso, pensava em fazer arquitetura, mas depois acabei fazendo engenharia civil mesmo, mas foi bem novo, sem muita lógica, mas eu dizia pro povo que eu queria ser engenheiro.

 

P – E o tempo da faculdade? Você estudou numa escola federal, universidade federal…?

 

R – Universidade federal, é me formei, quer dizer, foram cinco anos e logo depois que eu me formei acabei tendo que, fiquei só mais um ano em Vitória e saí de Vitória, e vim pro Rio, faculdade foi normal, sem...

 

P/2 - Você trabalhou também durante…?

 

R – É, trabalhei, comecei, na realidade, o meu primeiro trabalho, a minha primeira atribuição de responsabilidade, foi no centro acadêmico da escola de engenharia, em que eu fui destacado, eu estava acho que no 1º ano de escola, fui destacado para ser o administrador do restaurante. A escola tinha um restaurante, e o camarada que estava lá devia estar doido pra ficar livre, pegou um calouro, então eu é que, na realidade não precisava fazer muita coisa, era só ficar responsável pelos pagamentos de mercado, açougue, prestar conta pro diretório, então não precisava de um trabalho… mas eu aceitei isso porque em troca disso, eu almoçava de graça, é uma forma de já começar a se virar, procurar independência.

 

P – Você teve uma formação religiosa e política em casa?

 

R – Política não, religiosa sim, minha mãe é batista, meu pai é católico, e a tendência maior dos filhos é seguir a mãe, então todos nós fomos, quer dizer, professamos a religião batista, e realmente eu acho que nessa fase, o papel da religião foi importante para moldar caráter, eu acho que é importante.

 

P – E na faculdade você não se envolveu em movimento estudantil?

 

R – Não, eu vivi a fase brava, e era interessante porque aqueles líderes eram pessoas muito carismáticas, conseguiam mobilizar. Eu o máximo que fiz, foi na época daquelas passeatas, que terminavam em pancadaria, eu acompanhava à distância, olhando lá, mas nunca participei, nunca me envolvi, e nunca exerci atividade política, nunca foi meu forte não.

 

P/2 – Que você fazia para lazer na época da universidade, dava tempo de ter um pouco de lazer?

 

R – Pouco.

 

P/2 – Estudo e trabalho.

 

R – Era estudo e trabalho. Ainda na época, no início eu ía à igreja aos domingos, mas depois eu parei. Namorar, qualquer coisa desse tipo não, é uma coisa que eu mencionei, eu desde cedo - a questão de sair muito cedo de casa - me habituei a querer ficar mais só mesmo, eu nunca procurei assim, pessoas, grupos pra sair, nada não. Estudar e ler.

 

P – Aí você se formou.

 

R – Me formei

 

P – Foi trabalhar em uma empresa de engenharia.

 

R – Eu me formei, trabalhei logo no primeiro ano, logo que eu me formei, o escritório de cálculo que eu trabalhava começou, não é que passar dificuldade, mas ele gerava recursos para a remuneração de um estudante, mas na hora de remunerar um profissional, já com um salário mais alto, ele já não tinha tamanho suficiente pra isso. Então eu e outros colegas fomos trabalhar em empresas em projetos que estavam sendo desenvolvidos lá em Vitória, eu fui pra Montreal que tinha na época um contrato com a Vale do Rio Doce de duplicação da estrada Vitória-Minas, fui trabalhar então na Montreal, trabalhei um ano mais ou menos, quando depois o contrato foi encerrado, e foi nessa época que eu me casei, novo.

 

P/2 – Então você já tinha contato com a Vale, antes de entrar na Vale?

 

R – Já e na época, a relação com a Vale sempre foi forte, a presença da Vale em Vitória sempre foi muito forte, na época era muito forte, e a Vale era não sei se ainda é hoje, um grande seleiro de professores da faculdade, então o conhecimento, o convívio com a empresa já existia, eu cheguei a ser convidado na época de faculdade, pra ser estagiário na Vale, por um professor, que foi até a pessoa, o técnico que me trouxe cá pro Rio, ele era meu professor me convidou pra ser estagiário, trabalhar lá com ele, só que na época, a remuneração pro estágio era menor do que o que eu ganhava no escritório de cálculo, então eu agradeci (risos), só depois é que eu fui procurá-lo para tentar uma colocação na Vale. E foi quando ele me disse que estava vindo para o Rio, Doutor (?), ele estava vindo para o rio para participar de um grande projeto da Vale, se eu estivesse de acordo, ele trataria para que eu fosse admitido nesse projeto, e foi isso que aconteceu, eu fui admitido para trabalhar no Projeto Carajás.

 

P – Teve que ir pro Rio?

 

R – Tive que vir pra o Rio, foi quando eu estava de casamento marcado, casei e me mudei já, minha primeira casa já foi aqui no Rio, eu vim logo depois de casado, vim trabalhar na REDEP, a Rio Doce Engenharia e Planejamento que era uma subsidiária que a Vale estava criando, pra participar do Projeto Carajás, eu fui funcionário número três da REDEP.

 

P – Quem eram os outros?

 

R – Não tinha, é interessante, eu na realidade fui o primeiro empregado da REDEP, os outros dois, foram pessoas que foram contratadas pela REDEP, mas para trabalhar na Vale, na época por ser estatal, a Vale tinha aquela exigência de concurso, tudo isso, e quando se queria dar um jeitinho, duas pessoas anteriores a minha foram contratadas mais para trabalhar na Vale, na realidade o primeiro funcionário da Rio Doce Engenharia e Planejamento, fui eu.

 

P – Era para implantar o Projeto Carajás?

 

R – Trabalhar no Projeto Carajás.

 

P – E o que ...

 

R – Não tinha nem instalação física, estavam procurando um local, quando eu vim cá para o Rio, que eu fui admitido, não tinha nem local, eu fiquei por uma semana, dez dias, trabalhando aqui no prédio da Vale, porque não tinha nem ainda o escritório da  REDEP.

 

P – Qual era a expectativa com Carajás nessa época, o que o senhor lembra pra falar, o que encantava o senhor?

 

R – Olha, Carajás sempre, era, é ainda um grande projeto, eu como recém formado não tinha uma ideia muito exata da extensão, tinha um certo medo inclusive na questão da falta de experiência, aquela incerteza do primeiro momento. Mas logo que eu vim, eu vim trazido por esse engenheiro que eu falei o Clodoaldo Motta, que veio trabalhar no projeto, e que logo depois veio um outro engenheiro de Vitória, da Vale o Paulo (?), que até acho que já deu depoimento aí, e que foi meu professor na faculdade também, e que fui trabalhar com ele, então eu me senti já mais a vontade, mais em casa, e foi uma experiência interessante, um grande projeto.

 

P – Como foi participar, a elaboração desse projeto, que aconteceu, fala um pouco.

 

R – O projeto tava numa fase ainda, quer dizer, ainda estava germinando, já existia a ideia de fazer um estudo de engenharia, desenvolver o projeto. O projeto era uma associação da Vale do Rio Doce com a United States Steel, que foi inclusive a empresa que descobriu as jazidas de Carajás, através de uma subsidiária dela aqui no Brasil, e que levou o governo então, inclusive em função do tamanho do porte do projeto, fez com que a Vale se associasse a U.S. Steel, pra que houvesse participação de uma empresa brasileira no investimento, e foi aí  inclusive, que a Vale que tinha intenção de criar uma subsidiária, de consultoria, de projetos até pra aproveitar o know-how dela na sua operação, bastante variada de mineração, transporte, de operação portuária. Então a Vale acelerou a construção da REDEP para forçar até a participação da REDEP, porque a U.S. Steel na época... Até tinha uma empresa de projetos a UEC, United Engineering Consultants, e a US Steel como já tinha uma empresa de engenharia, ela tinha a intenção de desenvolver sozinha o projeto, e a Vale acelerou, apressou a criação da REDEP, exatamente para que ela participasse do empreendimento, ela impôs isso, e ai foi criado um consórcio entre a REDEP e a UEC. A empresa da UEC, que existiu aí por bastante tempo, sofreu uma mudança de nome, então a Valuec engenharia, engenharia limitada, alguma coisa assim, é que ficou responsável pelo desenvolvimento do projeto, então eu logo fui cedido, quer dizer os técnicos da Rio Doce foram cedidos, e eu fui trabalhar na Valuec, mas como funcionário da REDEP. E aí começamos o projeto, mas o projeto, nessa época, não existia nada ainda, quer dizer, os primeiros estudos, as primeiras viagens, os primeiros levantamentos de informações existentes, eu participei deles, e já fui logo também sendo alocado a área portuária, por isso que eu trabalhei mais na parte de porto, Paulo(?) ficou mais responsável inicialmente, pelo desenvolvimento da parte portuária porque depois ele passou, assumiu a coordenação do projeto como um todo, e aí foi uma fase interessante, com viagens ao norte, condições muito precárias, não tinha escritório lá não tinha nada, chegava e tinha que sair procurando transporte para ir ao local, tudo muito precário, tudo muito, ainda.

 

P – O senhor lembra a primeira vez que o senhor foi pra o norte? Conta essa viagem pra gente.

 

R – Lembro, eu fui acompanhando o Paulo de (?), ele já tinha feito um estudo médio da região que se poderia considerar como se poderia se construir porto, atrás de  mapas e cartas, cartas náuticas, já tinha mais ou menos delimitada que a área a ser investigada ia de São Luís até lá próximo, um pouco além de Belém. E aí fomos a São Luís, e eu fui com ele, e então foram feitos os primeiros contatos, quer dizer, quem conduzia tudo era ele, eu tava só carregando a mala, fomos a São Luís, depois fomos a Belém, e os contatos eram com os órgãos, na capitania dos portos, na época tinha o departamento nacional de vias navegáveis, departamento nacional de portos e vias navegáveis. E então foi aí que se fazia os primeiros levantamentos de informações, dados técnicos existentes, e algum contato com a autoridade local, tipo prefeitura, no caso de São Luís, é interessante porque tinha-se notícia de um engenheiro formado em Vitória , que possivelmente tenha sido contemporâneo do Paulo (?) e estava trabalhando na prefeitura de São Luís, então já saímos daqui sabendo que lá tínhamos que procurar o José Adolfo, e chegamos lá e encontramos o Adolfo, ele trabalhava de tarde, e com isso foi levantada, juntadas as primeiras informações para depois começar com um programa de pesquisa mesmo, foi bastante - um levantamento, um trabalho de pesquisa - bastante intenso.

 

P – Nas primeiras viagens o senhor tem alguma história pitoresca?

 

R – Não tenho, o curioso era Belém, Belém na época, tinha o que eles chamavam de - em São Luís também tinha, mas Belém era mais, ficava bem mais evidente isso - era o horário da sesta, o expediente em Belém, o pessoal normalmente começava a trabalhar sete, sete e pouco da manhã, e ia até meio dia, uma hora trabalhando, depois o comércio só voltava… aí fechava tudo, todo mundo vai pra casa, vai comer, e dormir, tirar uma soneca, o comércio voltava a abrir questão de três e meia, quatro horas e ía até seis horas, uma coisa assim, banco não abria a tarde. E o Paulo(?) ele na época, saiu daqui com adiantamento, imaginou mais ou menos quanto ele precisaria de dinheiro para fazer a despesa de viagem, e tinha já em Belém na época, um escritório da Docegeo, e a Vale já estava começando, já tinha aberto escritório lá por questão da pesquisa de Carajás, e tudo isso, então ele acertou que ele, ao chegar em Belém, faria uma avaliação da necessidade de dinheiro e aí a Docegeo complementaria alguma coisa, e prestar contas depois aqui. E aí fomos na Docegeo, ele pegou lá um cheque - nós íamos viajar no dia seguinte pela manhã cedinho - e aí fomos na Docegeo, ele pegou o cheque, e gastou-se a manhã lá fazendo contato, e ele programou passar a tarde no banco pra descontar o cheque, aí quando chegamos no banco, o banco tava fechado, não abria, chegamos lá e tava fechado: “Que horas vai abrir?” “Não, não abre mais.” Aí a gente precisava viajar logo cedo, com muito custo, (?) até que o sujeito lá, o gerente quebrou o galho, nos deixou entrar, o caixa já estava fechando lá a operação, e fechou o caixa, virou pro dia seguinte, e descontou o cheque, tudo por conta desse hábito, que nós não estávamos acostumados, hoje já não tem mais nada disso...

 

P – Um hábito espanhol...

 

R – É, mas fechava mesmo, parava, parava tudo.

 

P – Por quanto tempo você trabalhou nesse projeto e acompanhou a execução?

 

R – Comecei em 1972, em 1975. Eu fui pra São Luís, mudei, me mudei pra São Luís, e aí, nessa época, já estava operando a empresa que era a empresa responsável pelo projeto, a Valuec era a empresa de projeto, era o consórcio responsável pelo projeto, mas a associação entre a Vale do Rio Doce e a U.S. Steel, era uma empresa que já estava, inicialmente era uma empresa meio que só de papel, mas logo depois ela incorporou o pessoal técnico da Valuec, era a Amazônia mineração, e quando eu fui, eu fiquei cedido eu era cedido da REDEP para a  Amazônia mineração, enquanto trabalhava aqui no Rio, quando eu fui pra São Luís pra assumir o cargo de engenheiro chefe lá do escritório, aÍ eu me desliguei da REDEP e fui admitido na Amazônia Mineração, trabalhei de 1975 a 1980. Então de 1972 a 1980, praticamente 80, um pouco antes, eu trabalhei no projeto, então peguei toda fase inicial, a fase de desenvolvimento, estudo de viabilidade, detalhamento, projeto. As partes finais de engenharia de porto, eu não participei porque eu já estava em São Luís, e já começando as primeiras obras de implantação lá próximo de São Luís, relocação de estradas da rede, início de construção de trechos de ferrovia, foi essa fase que eu trabalhei, depois mudou a equipe na Amazônia Mineração e eu fui pro, a Vale na época abriu um escritório de representação, ela se representava através da Amazônia Mineração,  ela abriu um escritório e eu fui trabalhar nesse escritório até voltar aqui pro Rio, nessa época, quando eu tava ainda no escritório de representação, a Vale já vinha negociando com a U.S. Steel, a saída da U.S. Steel do projeto, então negociaram, a Vale indenizou a U.S.Steel de uma certa quantia que ela tinha gasto, e a Vale assumiu a Amazônia e incorporou a Amazônia Mineração, se tornou uma superintendência, foi superintendência de implantação do projeto, foi a que ficou responsável realmente, pela maior parte da obra de implantação.

 

P /2- Qual foi o principal desafio que você enfrentou nesse período?

 

R – Meu primeiro desafio foi quando eu fui, minha formação é de estrutura, cálculo estrutural, quando o Paulo(?) me convidou aqui no Rio ainda, pra eu ir pra São Luís, pra eu assumir o escritório lá de São Luís, porque o engenheiro que era responsável estava retornando para o Rio, e basicamente as obras no momento eram obras de terraplanagem, e era pra eu assumir um início de obra lá, e eu perguntei ao Paulo se ele sabia, se ele tinha ideia do que ele tava fazendo, ele me conhecia tinha sido o meu professor na faculdade, eu tinha trabalhado o tempo todo com ele, ele sabia que eu não tinha colocado o pé nem um dia numa obra, então ele falou que sabia sim, que contava lá com a minha colaboração, e foi realmente uma boa escola, não sabia o que era um offset, aquelas estaquinhas que se crava, como referencial pra na hora do equipamento de terraplanagem entrar ele saber exatamente quanto tem que escavar, não tinha a menor idéia do que seria isso (risos). Mas não foi, foi um desafio interessante, e lidar com pessoas também, chefiar.

 

P/2 – E venceu esse desafio.

 

R – Foi, foi.

 

P – Pessoas com uma cultura completamente diferente?

 

R – Todos eram da região, os engenheiros recém-formados, a escola de engenharia lá estava começando a colocar no mercado os primeiros engenheiros e tal, então tava todo mundo começando. Interessante, muito interessante.

 

P – Quantas pessoas tinham mais ou menos na equipe?

 

R – Técnicos, tinha muita gente porque eu fui assumir a parte de obra de São Luís, mas já em Carajás já tinha uma estrutura muito grande, de engenheiros eu acredito que devia ter algo em torno de uns dez a doze engenheiros, agora técnico, topografia, isso já tinha um número grande. E tinha parte, quer dizer a subordinação na realidade ficava um pouco vinculada ao Rio, mas toda a parte administrativa que era grande porque veículos tudo isso, pra obra que isso exige uma quantidade realmente grande de carros, tudo, tudo isso era administrado, tinha uma estrutura administrativa pra isso, que subordinava as orientações aqui no Rio. Agora as orientações ficavam subordinada ao engenheiro chefe, ficava subordinada a mim, então o escritório eu já não lembro exatamente quantas pessoas , mas era um escritório com porte considerável.

 

P/2- Como era São Luís, a experiência de morar e viver lá foi boa?

 

R – Foi, mudou muito, mas na época quando eu fui em 1975, a cidade...


R- São Luís era uma cidade muito pequena, a infraestrutura ainda era muito precária, pra se ter idéia, só tinha um supermercado com acho que duas lojas, mas a variedade de produtos acho que era muito pouca, por exemplo, leite, eu me lembro disso muito bem, leite a gente comprava lá daquelas caixas, era embalado lá na Bahia. É uma coisa curiosa. Parte habitacional também, a cidade estava começando a expandir em relação às praias, mas tinham poucas construções, então o centro da cidade que é muito bonito, eu acho fantástico, as casas são antiquíssimas e são pouco funcionais, nada funcionais. Então foi difícil o começo, porque eu aluguei uma casa na praia do olho d’água, que era um lugar na época, completamente remoto, tinha uma área até nobre, tinha algumas casas, pessoal em casas muito boas mas a casa que eu fui morar, era uma casa recém construída, mas no meio do nada, e eu fiquei pouco tempo lá porque, minha esposa não suportava...

 

P – Já tinha filhos?

 

R – Já, já, minha filha mais velha já tinha dois, três anos. E aí, eu rapidamente tive que procurar uma outra casa, e aí eu dei sorte porque num lugar já bem bom, o bairro de São Francisco, tinha uma construtora, cearense até a construtora, que estava fazendo um conjunto de casas, e tinham algumas casas a venda, e tinham algumas que já estavam em fase final já, em fase de acabamento, então eu tive que partir logo para comprar uma casa se não, não daria, realmente muito difícil. Fora isso é uma cidade muito agradável, não é uma cidade pequena, o povo é muito hospitaleiro, o povo recebe muito bem, gostei da experiência, e como eu gosto de história, de coisas antigas, São Luís é um prato feito, muito, muito bom, eu acho que a cidade é muito interessante, muita história.

 

P – Quantos anos você ficou lá?

 

R – De 1975... eu fui em 1975 fui até 1980. Eu voltei para o Rio em 1982, são sete, sete para 8 anos.

 

P – E acabou o projeto lá ou...

 

R – Não, eu quando voltei, o projeto ainda estava em fase de implantação, quando eu fui para o escritório de representação da Vale, tempos depois, a Vale tinha interesse em começar o estudo, pesquisa florestal lá na região norte, e aí foi deslocada a empresa subsidiada da Vale, Florestas Rio Doce, que abriu um escritório em São Luís, e eu fui então cedido a Florestas e eu que abri o escritório. E nós começamos então, os primeiros trabalhos de pesquisa, aquisição de algumas áreas para começar o programa de pesquisa florestal lá em São Luís. Nessa fase aí, quer dizer, eu saí do Projeto Carajás, e fiquei na área de representação da Vale, e depois cedido a Florestas Rio Doce, e depois o Clodoaldo Mota que me trouxe de Vitória pro Rio, de volta pra aqui pro Rio, eu voltei e trabalhei aqui com ele na secretaria técnica da presidência.

 

P/2 – Que pesquisas exatamente eram feitas pela Floresta...

 

R – Plantio de eucalipto, pesquisa florestal porque a introdução de eucalipto na região, acreditava-se... Hoje até já existem bastante estudos nessa área, hoje temos até industria de (cuza?) na região que consome carvão vegetal, e basicamente o ideal é que o carvão venha de florestas plantadas, que não seja um carvão produzido a partir de matas nativas, que é uma coisa predatória. E visualizava-se um grande potencial na região, uma vez que tem um grande projeto de ferro, a região, quer dizer, a indústria, o desenvolvimento da indústria siderúrgica seria alguma coisa natural, e pelas condições climáticas de sol, de chuva na região, percebia-se que a região poderia ser uma grande produtora de madeira, a partir do eucalipto, mas é uma espécime totalmente estranha a região e precisava - assim como foi feito aqui no sul também quando a Vale começou a plantar, começou a desenvolver plantio de eucalipto para um projeto que acabou indo para a produção de celulose - foi necessário todo um trabalho de pesquisa...

 

P – No Espírito Santo...

 

R – No Espírito Santo e em Minas...

 

P/2 – Mas antes não era pra celulose...

 

R – Não, quando se começou o trabalho de pesquisa, foi exatamente na linha de que grandes projetos poderiam ser desenvolvidos ao longo da estrada, uma vez que já tinha um eixo ferroviário, com um potencial já de minério de ferro, e com uma infraestrutura montada e com uma região com uma facilidade muito grande, com características pra bom desenvolvimento florestal, se imaginava uma gama de projetos, entre eles celulose, todos os projetos associados à produção de madeira, mas precisava começar o estudo. Então foram dados os primeiros passos, e ainda muita coisa tem que ser feita, mas, foi nessa época que se começou, nós começamos a comprar as primeiras áreas, para implantar os primeiros núcleos, foi nessa fase .

 

P – E a idéia era aproveitar toda essa logística que já existia.

 

R – É todo um conjunto, a infraestrutura, o transporte, tem porto, daí surgiu, inicialmente era associada ao projeto Carajás, daí mais tarde se falou e não se fala mais, naquele Projeto Grande Carajás, que seria aproveitar todo aquela região, desenvolver, era um plano, uma ideia, isso ai já é plano do governo, não era da Vale, mas um plano para o desenvolvimento da região com a introdução de indústrias, e tudo isso, pra aproveitar o potencial existente.

 

P/2- Que época que é isso mais ou menos?

 

R – Nós estamos falando em, foi por volta de 1980...

 

P – 1982?

 

R – 1980, 1978, 1980, eu voltei em 1982, é foi por volta dessa época.

 

P – Aí você voltou pro Rio, como você tinha falado, convidado pra trabalhar...

 

R – Voltei a trabalhar com o Clodoaldo Mota, que era o secretário técnico da previdência na época, trabalhei algum tempo na área de secretaria técnica, depois superintendência de planejamento e orçamento.

 

P – O que a secretaria técnica faz?

 

R – Fazia, não tem mais essa estrutura, era um órgão técnico, subordinado a presidência para alguns estudos que não estavam ligados diretamente aos negócios operacionais da Vale. Tinha uma área na época, uma superintendência encarregada desses estudos, mas associada às atividades, aos negócios, mas sempre surgia, sempre aquelas oportunidades de alguma coisa nova, alguma coisa diferente, em que valeria a pena, alguma coisa que ficasse mais ligada a presidência, nível de informação, alguma coisa desse tipo, e era uma estrutura pequena, mas voltada pra estudos assim, gusa por exemplo, gusa eu lembro de que a (setep?) andou na época fazendo alguns estudos de gusa, quer dizer, a área de desenvolvimento de projeto de Vale, não cuidava disso, não mexia, era mais projetos na área de transporte.

 

P/2 – Você ficou o que, dois anos?

 

R – Fiquei até parece que 1986, entre (setep?) e Sudan, superintendência de  orçamento, planejamento e orçamento. E aí, eu fui para uma nova aventura muito interessante que não era da Vale, que era ferrovia norte sul, interessante que aí volta a história, o governo na época, o Sarney era o presidente, decidiu construir uma ferrovia ligando a região norte, e indo até Brasília, e convidou o Paulo Vivacqua na época ele era o superintendente de planejamento e orçamento, e eu estava já trabalhando com ele também, pra chefiar, pra liderar esse projeto, uma vez que o Paulo tinha liderado toda a parte conceitual de engenharia, o projeto Carajás foi coordenado pelo Paulo Vivacqua, então o Paulo foi convidado pra liderar esse projeto, e pra isso se utilizou uma empresa da Vale, pra se começar rapidamente arrumar uma empresa, porque pra criar uma empresa é muito complicado, leva tempo, ele tinha várias empresas de gaveta que poderiam ser utilizadas, então a ideia foi utilizar uma empresa dessas, e com uma equipe de técnicos da Vale do Rio Doce, que tinha participado de Carajás, que tinha uma experiência, ele poderia assumir essa função e tudo isso, e curiosamente foi-se lá na gaveta e se puxou exatamente a Valuec, que tinha sido engavetada, absorvida pela Amazônia Mineração, que absorveu os técnicos todos, a Valuec foi, não foi desativada, foi pra gaveta, e foi utilizada num certo tempo pra negócios na área de alumínio, na Vale do Rio Doce, nessa época ela mudou a razão social, mudou de Valuec para Valec, e foi a Valec, que existe até hoje, que foi então encarregada de implantar a ferrovia norte sul, foi um projeto muito polêmico, gerou um escândalo de uma concorrência, gerou uma cpi forte mas sobreviveu a tudo isso e o projeto tá lá, continuou, em ritmo lento, não tem vínculos com a Vale, na época tinha um vínculo que eram técnicos da Vale, a Vale é que bancou, pagou os primeiros estudos de engenharia, depois foi reembolsada, mas na época se imprimiu um ritmo, uma velocidade muito grande ao desenvolvimento do projeto, a Vale deu esse suporte inicial. E eu trabalhei lá algum tempo, até (?) cheguei a exercer a função, o cargo de diretor de administração e depois, talvez uma falha aí, desorganização do governo Collor, eu exerci a presidência por quase um ano, houve a mudança, eu era o substituto estatutário do presidente na vacância do cargo, o presidente que era o (?) renunciou quando saiu o governo Sarney, ele entregou a demissão, assumi e o Collor naquela desorganização que foi o início do governo dele, não conseguiu tomar pé de tudo, e não conseguiu fazer as substituições, e eu tive que ficar lá, fiquei quase um ano com presidente, e aí retornei pra Vale.

 

P – Retornou pra Vale já com outra função...

 

R – Já na área de celulose na superintendência na época, superintendência de celulose de papel mas na função de técnico, e trabalhei nessa área até essa área ser extinta, foi vendido, já na privatização decidiu sair do negócio de celulose, a Vale na época participava de duas fábricas de celulose...

 

P – A Aracruz?

 

R – Não, era com a Jbt a CENIBRA, em Minas Gerais, e a Bahia Sul na Bahia, com a companhia Suzano, ela era sócia nos dois empreendimentos, além disso tinha a Florestas Vale do Rio Doce, que tinha ativos florestais mas decidiu sair do negócio, e foi vendido.

 

P – As Florestas também?

 

R – As Florestas foram vendidas, as duas fábricas, e a Vale saiu do negócio, apesar de que tem algum ativo lá no norte, algum ativo Florestal ta estudando a gusa, mas do negócio da celulose, a Vale saiu.

 

P – Porque você decidiu sair do negócio da celulose.

 

R – Aí é uma decisão estratégica, achamos que era melhor sair, fomos incumbidos de vender os ativos.

 

P – Depois que tudo foi vendido o que você passa a fazer?

 

R – Vim parar na secretaria geral (risos), estou na secretaria geral, é o Varela, o Antônio Varela, que era o diretor, era secretária de superintendência florestal, depois virou diretoria, o Varela, o último diretor da área florestal foi o Varela, e o Varela foi convidado para ser o secretário geral quando foi criada a secretaria agora a um ano, já existiu no passado uma secretaria geral da presidência, mas foi extinta e mais recentemente foi criada novamente, o Varela então foi convidado e eu fui trabalhar com ele lá.

 

P – 2001?

 

R – 2001.

 

P – E qual é o trabalho, qual a função ?

 

R – (risos)

 

P – Como é o seu cotidiano o que você faz?

 

R – Ali, quer dizer, a função de apoio administrativo, de uma estrutura de suporte, os diretores executivos, tem uma estrutura maior, a minha função lá é mais administrativa, burocrática, o atual secretário e o Orlando Lima, o Varela saiu no início do ano, Orlando Lima assumiu a posição, e é o que se faz lá, apoio, suporte a diretoria executiva.

 

P – Mas é um suporte administrativo e não técnico, a experiência de engenharia...

 

R – Não, a minha experiência de engenharia, já está engavetada a algum tempo (risos) sem dúvida, foi uma experiência longa.

 

P/2 – Quais são os desafios agora?

 

R – Não tem muito, acho que pensar, a gente toca aí as funções que são cometidos ai em termos de, que são atribuídos, e ir sobrevivendo(risos)

 

P – Você tem vinte e oito anos de Vale do Rio Doce.

 

R –É pelas contas deve ser isso, vinte e oito tá...

 

P – Quase vinte e nove.

 

R – É, o total eu tenho trinta e dois. É por ai vinte e oito, vinte e nove anos, é isso aí.

 

P –Muito tempo de empresa né?

 

R – Um bom tempo.

 

P – Tem alguma lembrança ou fato marcante que você lembre nesse momento?

 

R – Eu posso mencionar, que eu sofri um acidente, cai de helicóptero na primeira vez, foi logo no início do projeto, lá em Belém, no aeroporto de Belém, teve a decolagem, daí subiu e caiu, primeira vez que eu ia andar de helicóptero.

 

P – Andou de novo?

 

R – Andei, mas confesso que não foi assim, uma estreia muito agradável, e anos depois lá em São Luís, acompanhando uma missão japonesa, fazendo um sobrevôo na ilha, lá num avião, um bimotor pequeno, por uma distração do piloto, batemos num urubu, que entrou parabrisa adentro, por sorte o urubu não acertou o piloto, e acertou o chefe da missão japonesa, que senão eu não estaria aqui dando esse depoimento, porque ele desmaiou na hora, recebeu uma pancada, direto no rosto...

 

P – Quebrou o vidro?

 

R – Quebrou e entrou, e bateu no rosto, aí ele na mesma hora, ele caiu, então é uma experiência, curiosa, não aconteceu nada, continuou o vôo normal, mas...

 

P – E o chefe da missão ?

 

R – Ele teve um descolamento de retina, ele, realmente machucou muito, ele foi socorrido assim, meio às pressas em São Luís, mas foi logo trazido aqui para o Rio, e recobrou, mas soube que teve um descolamento de retina, e era um acho que um vice presidente da Nippon Steel, era uma pessoa com função graduada, lá na Nipon...

 

P – Digamos que ele não levou uma boa lembrança...

 

R – É, seguramente não levou uma boa lembrança do Brasil...

 

P – Podia ter sido uma arara ou...

 

R – É, uma coisa mais simpática...

 

P – Um urubu...(risos)

 

R – É curioso porque, tava o piloto o chefe da missão, atrás deles estavam em pé, um japonês, que tava funcionando como um teste, do lado tinha um funcionário acho que do governo do estado, e o urubu bateu e se esfacelou um pouco, bateu direto no rosto, e no que fez isso caiu no colo do intérprete (risos). Ele pegou aquele urubu, e jogou do lado assim, porque não é uma ave muito simpática realmente (risos). Não é nada simpática.

 

P – Além de trabalhar, sair todo dia de Petrópolis e vir para o Rio, o que você faz nas horas de lazer?

 

R – Eu fico em casa, eu volto...

 

P – Você mora na cidade em Petrópolis?

 

R – Moro, não no centro, é um bairro, um local bastante arborizado, bastante tranquilo, eu gosto de lá, acho que foi uma boa escolha, quando eu voltei de São Luís pra cá, depois de ter passado esse período lá, eu não me sentia bem morando aqui no Rio, eu tava acostumado com casa, ir para um apartamento não. Então, eu fiz a opção por Petrópolis e eu não me arrependo não, apesar do cansaço desse deslocamento, depois de vinte anos, já começa a bater um cansaçozinho (risos). Mas voltando a sua pergunta, aquela história de eu ficar só, eu não sou muito de sair de casa, então fico em casa.

 

P – Os filhos ainda moram...

 

R – Moram, todos eles.

 

P –Todos lá em Petrópolis.

 

R – Todos lá em Petrópolis, já estão crescidos, o caçula já faz universidade aqui na UFRJ, tá todo mundo crescido já.

 

P/2 – Algum engenheiro?

 

R – O caçula tá fazendo engenharia elétrica, mas por opção dele, não interferi em nada não, hoje é muito difícil a escolha, uma carreira a seguir é uma coisa muito pessoal,  a gente pode ajudar no que orientar, dar sugestão, mas eu acho que os tempos mudaram tanto, que aquelas profissões, que eram consideradas como profissões mais seguras, realmente com o tempo houve uma mudança muito grande, então tem que deixar mesmo a escolha de cada um, orientando no que for possível, pelo menos essa é a posição que eu adoto .

 

P – Caso você pudesse mudar alguma coisa na trajetória da sua vida , você mudaria?

 

R –Não, eu acho que as coisas acontecem e vão acontecer mesmo, acho que mudar, aconteceriam outras (risos), então não tem...

 

P – É desconhecido...

 

R – É, então não tem...

 

P – Você tem algum sonho?

 

R – Eu acho que todos nós temos, mas eu acho que eu quero continuar essa vida assim que eu levo, não tenho o que me queixar muito, como todo mundo tem suas queixas. Mas, não tenho, e principalmente agora, não pode ter grandes ambições não, com a idade ai já não há mais tempo para grandes ambições.

 

P/2 – E olhando pra trás, esses vinte e oito anos de Vale do Rio Doce, como o senhor vê a sua trajetória dentro da Vale?

 

R – Não, eu acho que… valeu. É uma trajetória longa mas eu sempre trabalhei, nunca trabalhei em área operacional, a área do negócio principal da empresa, quando eu trabalhei no projeto Carajás, que hoje está incorporado, é o grande projeto, a área de grande atuação da Vale, mas era uma estrutura a parte, os empregados eram empregados a parte, que depois foram incorporados a Vale, então eu lembro que existia aqueles ressentimentos, a política, o pessoal mais tradicional na época, a questão de porque o projeto não está sendo desenvolvido pela própria Vale, era uma subsidiária, então sempre existiu aquela, um certo diferencial entre as pessoas, esse aqui é da Vale, esse aqui não é, mas o tempo foi passando, quer dizer, fui incorporado, fui absorvido, incorporado pela Vale, eu acho que na época, um dos poucos que permanece na empresa, que estão, que viveram, então é isso, questão de convívio, como é que foi essa trajetória? Foi meio assim na periferia mas sempre Vale, e é uma grande empresa.

 

P – Que você acha então desse projeto, o projeto Vale Memória, que está buscando a história da empresa, mas através de depoimentos dos trabalhadores.

 

R – Eu acho bastante interessante, eu acho que é uma forma de registro da história da empresa, que muita coisa vai se perder no papel por exemplo, tem ainda, existe as áreas que sempre cuidaram disso, que se preservou, mas poucos dias atrás, estava-se procurando aí, por uma necessidade qualquer, de estudo do (?) Projeto Carajás, e saiu procurando aí porque as pessoas vão passando, e tal, e muita coisa disso fica esquecida se tem um registro desse, não fica esquecido, eu acho interessante sim.

 

P – A gente quer agradecer a participação.

 

R – Tá bom, muito obrigado.

 

P – Obrigado.

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