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Transportando histórias

História de: Donaldo Luiz de Almeida
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/11/2013

Sinopse

Durante a infância de Donaldo, seu pai trabalhava na lavoura e sua mãe era artesã. Ele conta histórias da lavoura e as brincadeiras da época. Na adolescência, gostava de música sertaneja e aprendeu a tocar violão. Foi pai pela primeira vez aos 18 anos. Em 1970 foi para São Paulo com sua companheira e sua sgunda filha para morar no Itaim Paulista. Trabalhou na Empresa de Transportes CMTC como cobrador e mecânico e conta casos que presenciou dentro do ônibus. Casou-se novamente, teve quatro filhas, sendo uma adotada. Frequentou centros de referência do idoso, onde estudou canto e se apresentou em shows.

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História completa

P/1 – Para começar, Donaldo, queria que o senhor dissesse o nome completo, o local e a data do seu nascimento.

 

R – Meu nome é Donaldo Luiz de Almeida, nasci... Atualmente está no município de Coromandel, Minas Gerais, mas naquela época era uma ________ goiana, pertencia a Goiás. Houve aquela política, em 1939 passou para Minas Gerais, mas a essa altura meu pai comunicava muito com Goiás e já tinha me registrado na cidade. Me registrou em Coromandel, em Minas, mas não podia, porque onde nasci pertenceria a outro Estado. Meu pai era muito ligado em Catalão, foi e me registrou, fui criado lá, dali dois anos passou para Minas Gerais e fui criado naquele meio. Chegou à época de requerer o título de eleitor o moço pediu minha certidão de nascimento, eu liberei a certidão, ele olhou e falou: “O senhor nasceu aqui?”. Falei: “Foi”. Fez o título natural de Minas Gerais.

 

P/1 – A data do seu nascimento?

 

R – A data do meu nascimento é 27 do outubro de 1937.

 

P/1 – Certo. O nome dos seus pais?

 

R – Meu pai se chamava José Luiz de Almeida e minha mãe chamava-se Maria _________ de Jesus.

 

P/1 – O que eles faziam?

 

R – Eles trabalhavam de lavradores, trabalhavam na zona rural.

 

P/1 – Como eles eram? Como você descreveria o seu pai e a sua mãe?

 

R – Sim. Como sou filho único, era a menina dos olhos deles, eles eram bons.

 

P/1 – Tem alguma lembrança deles?

 

R – Tenho.

 

P/1 – Alguma história com eles, uma lembrança da sua infância com os seus pais? Como eles eram?

 

R – Meu pai era uma pessoa muito atenciosa, muito boa, muito comunicativa. Com a gente que era filho tinha o maior cuidado. Uma vez adoeci com um resfriado, quase morri, ele teve a maior atenção comigo, ficou 15 dias na beira da minha cama, sem dormir. Era uma pessoa muito dedicada a família.

 

P/1 – E a sua mãe?

 

R – Minha mãe também era uma boa pessoa. Era trabalhadora, ótima dona de casa. Trabalhava muito, ela era tecelã.

 

P/1 – Tecelã?

 

R – Era tecelã, mas usava aqueles teares rudimentares, feitos de madeira. Então fazia a fiação toda na mão, na roda, depois ela mesma urdia, passava pela urdideira, colocava no tear e tecia roupa para nós. Fazia aquela roupa rústica, mas ela ganharia de Lee, calça Lee. Usava aquela calça que durava três, quatro anos.

 

P/1 – Ela fazia sozinha? Tinha alguém que ajudava?

 

R – Ela fazia sozinha.

 

P/1 – Sozinha?

 

R – Como é aquele serviço artesanal, às vezes ainda valia duas, três semanas, hoje em dia, se for avaliar o dia de serviço, ficaria bem caro um pano desse aí.

 

P/1 – Então seu pai trabalhava como lavrador e sua mãe ajudava ele também na lavoura ou ela só ficava nessa parte do tear e tudo mais?

 

R – Meu pai como era uma pessoa entendida sobre negócio de terras assim, ele ganhava dinheiro dessa maneira, honestamente. Ele pegava os dados da procedência, aqueles dados dos documentos das pessoas. Teve uma vez também que nós morávamos no sítio, ele vendeu o sítio, o gado, _________ certa importância em dinheiro, a gente mudou para uma vilinha e ele financiou, o dono do terreno, lavoura. Naquele tempo comprou tudo necessário, comprou arado para terra, comprou carro de boi, também fez financiamento. Aquele financiamento durou mais ou menos um ano e meio, dois anos, aí ele teria que receber retorno de um dinheiro, investimento que fez. O dono do terreno passou a escritura do terreno todo para ele, para vender uma parte e tirar a sua parte. Naquele movimento alguém falou: “Zé, você tá com a escritura na mão, você vai devolver pra ele?” “Não. Eu quero só o que é meu”. Então vendeu um pedaço da terra, tirou o dinheiro dele. Achei muito importante porque ele era uma pessoa direita.

 

P/1 – E esse lugar onde vocês moravam como era o cotidiano de vocês? Quais eram os costumes?

 

R – O meu cotidiano era o seguinte, eu vivia tranquilo, filho único. Estudei até o primeiro ano, a gente mudou lá pra... Mudamos da cidade para uma vilinha novamente, moramos perto do sítio. Naquele tempo, eu tinha só o primeiro ano. Fiz amizade com um senhor, ele me ensinou matemática, ensinou até a fazer conta de dividir, sempre gostando de ler, sempre lia, lia. Fui melhorando, ainda sou daquele tempo que aprendia soletrando, juntando as letras para formar as palavras. Um dia me aparecendo com um primo que tinha o quarto ano, diploma de quarto ano -lá em Minas Gerais o ensino lá é forte - eu peguei e li pra ele, fiz uma leitura no papel, mas não respeitei pontuação nenhuma. Ele: “Não, Donaldo. É para ler assim, onde tem uma vírgula você faz uma pausa. Onde tem o ponto e vírgula você faz uma pausa maior. Onde tem o ponto final você termina. Onde tem o ponto de interrogação é de pergunta, é exclamação e tem o ponto de interrogação é de pergunta”. Então eu comecei a ler obedecendo a pontuação, eu ia ler corretamente.

 

P/1 – Mas isso foi quando o senhor já tinha entrado na escola, é isso?

 

R – Não. Meu tempo de escola foi pouco. Depois que estou aqui em São Paulo, entrei no ginásio, consegui certificado, comprovante de oitava série. Agora recentemente a minha filha entrou numa escola, falou da escola para mim e tal. Ela entrava numa escola, saía, entrava na outra, não tinha firmeza na escola, então, para incentivar ela, eu também matriculei, tirei o certificado, o diploma do ginásio, o comprovante. Fui e me inscrevi na escola para fazer o segundo grau. Fiz o segundo grau e a minha filha desistiu. Tenho diploma do segundo grau e prestei até vestibular pra ir pra faculdade.

 

P/1 – Mas vamos voltar um pouquinho ainda lá pra Minas Gerais, lá no começo. O senhor morava com os seus pais e ajudava também o seu pai na lavoura quando era menor, quando era criança?

 

R – É. De vez em quando... Meio forasteiro. De vez em quando ia para lavoura, trabalhava. Aqueles olhos que enquanto olhava meu pai, filho único, aquela tradição antiga, aquele cuidado com o filho. Mesmo assim de vez em quando eu escapulia para lavoura, trabalhava seis meses.

 

P/1 – Como que era esse trabalho?

 

R – Era chato mesmo. Era capinar... Lá fala capinar, aqui fala carpir. Meu pai era daqueles mineiros sabidos, trabalhava com a cabeça. Fisicamente ele não trabalhava. Morava na cidade, retornando para a vilinha onde a gente morava, era uma vilinha mais ou menos de umas 60 casas. Naquele tempo, após a posse de Juscelino, ele incentivou muito a parte agrária, de agricultura. Então ele fez uma lei que o lavourista arrendava a terra, preparava a terra, tocava a lavoura e pagaria ao dono da terra 20% do arrendamento, a outra parte ele dava de a meia para os trabalhadores. Então os trabalhadores já pegavam a planta já crescida. Ali ele cuidava da planta e partia com o dono da lavoura, o dono da lavoura pagava uma porcentagem para o dono do terreno. Com essa expansão da lavoura naquele meio, meu pai comprou as enxadas, falou: “Chega lá na roça e nós vamos trabalhar na lavoura”. Comuniquei o dono da lavoura, combinei com ele e comecei a ir. O primeiro dia que eu trabalhei meu pai: “É. Não dá certo, não. Tem que atravessar rio, tem doença de malária, você vai adoecer. Não vai, não. Amanhã você traz sua enxada”. No outro dia não trouxe, no outro dia também não trouxe, aí não pediu mais. Trabalhei seis meses, ganhei dinheiro, comprei tanta coisa pra mim e não sofri maleita, não sofri nada.

 

P/1 – Mas deixa só eu entender. Vocês moravam nessa vila e iam trabalhar de tempos em tempos? Como é que era? Nessa lavoura?

 

R – O tempo de lavoura tem a época. Tem a época do plantio, tem manutenção da lavoura, fazer a limpeza, tirar as pragas das plantas e depois tem a colheita. Acho que é mais ou menos uma média de uns seis meses.

 

P/1 – Mas esses lugares que vocês moravam, como que era a casa onde o senhor morava nessa vila?

 

R - Pelo lugar era casa boa, na pracinha.

 

P/1 – Mas como ela era? Se o senhor estivesse de frente para ela, o que a gente estaria vendo?

 

R – Sim. Era das principais. Casa térrea, o serviço dela feito de adobes, nem tijolo era. Essa casa rebocada, calhada. Ela tinha ________ lugar era das primeiras casas.

 

P/1 – E como que era a vila? As casas eram iguais? Como é que elas eram?

 

R – A vila era uma pracinha, uma igreja no centro, em volta as casas, umas duas, três ruas só também.

 

P/1 – Nessa época o senhor já tinha quantos anos mais ou menos? Era uma criança.

 

R – É. Nessa época eu tinha mais ou menos uns 26 anos.

 

P/1 – Ah, então foi mais pra frente.

 

R – Foi mais pra frente.

 

P/1 – Na infância do senhor o senhor morava lá no sítio, na lavoura, é isso?

 

R – É. Parte morei no sítio, depois nessa vilinha, depois morei em Coromandel, depois a gente retornou pro sítio novamente.

 

P/1 – Entendi. Eram sempre idas e vindas entre o sítio, a vila e a cidade maior?

 

R – É.  Depois quando eu tinha 18 anos minha mãe faleceu. Minha mãe faleceu ficamos eu e  meu pai, só. Depois com 26 anos, nós mudamos, moramos em vários lugares no mesmo município. Fomos para o garimpo. Pegamos diamante, dividimos isso em Goiás, depois eu sonhava muito com São Paulo, aquela coisa, fanatismo. A gente do interior era caipira, a gente tinha impressão que São Paulo é terra fora do planeta Terra, é uma coisa maravilhosa. A gente tinha aquele sonho de vir pra cá, então em 1970 eu vim.

 

P/1 – Tá. Mas isso foi mais para frente ? Vamos voltar só mais um pouquinho ainda na infância, um pouco quando era menor. O Sr. tinha um grupo de amigos? Brincava com outras crianças? Tinha alguma brincadeira favorita?

 

R – Minha brincadeira favorita era uma folha grande assim, uma hélice. Então pegava, fazia dois furos, pregava dois pregos sem cabeça e colocava o eixozinho, o carretel com a linha, o cordão, punha um negócio assim, puxava, era igual um disco voador, saía voando. A brincadeira que eu mais gostava era essa também.

 

P/1 – Tinha alguma outra?

 

R – Outra também que eu gostava, hoje em dia eu tenho remorso, matar passarinho.

 

P/1 – Como que matava?

 

R – Antigamente naquele atraso que tinha, aquele estado primitivo, a gente usava o bodoque. É um arco com a corda, então tinha, chamava baia onde colocava a pedra, a gente jogava a pedra. Depois apareceu o estilingue, é borracha, aí melhorou.

 

P/1 – Era mais fácil?

 

R – Era mais fácil.

 

P/1 – Mas o senhor brincava sozinho ou com outras crianças, outras pessoas?

 

R – Sempre tinha os coleguinhas, né?

 

P/1 – Na vila ou lá no sítio? Nos dois lugares.

 

R – Na vila.

 

P/1 – E esses eram os seus amigos de vizinhança? Tem algum especial?

 

R – Era aquela amizade em família mesmo.

 

P/1 – Vocês tinham costume de, tanto com seus amigos quanto com a sua família, de contar histórias? Alguém contar história à noite, por exemplo, alguma coisa assim? Histórias de assombração, histórias de alguma coisa.

 

R – Tinha.

 

P/1 – Como é que era?

 

R – Lá perto dessa vila que eu morava, chama-se Alegre, tem uma mata, até hoje, que quando a pessoa ia passar lá, ela via coisas incomuns. Viam homem da altura da árvore, já pensou? Aquele homem gigante. Teve um senhor que contou pra mim, uma vez ele ia montado num animal pequeno, ia montado num cavalo e entrou um cavaleiro assim. A estrada vai aqui, então passa a curva e atravessa o córrego, chama vau, onde passa carro de boi, passam animais. Quando ele ia subindo, que ia virar para passar no vau, entrou um cavaleiro lá fazendo aquele barulhão. aquele barulho forte. Falou: “Vou arredar meu animal para cá”. E ficou quieto para o cavalo passar. Sei que passou um cavaleiro, o pé do cavaleiro passou acima da cabeça dele e a cabeça do cavaleiro estava quase na copa das árvores. Passou, foi embora. Tem outra história também de outro mato. O cara, o cidadão foi passear numa casa próxima ali e a noite, a hora foi passando, passando. Quando deu mais ou menos lá pras dez, 11 horas, meia noite, eles falaram com ele: “Olha Cirilo...”. Cirilo chamava Cirilo. “Pousa aí.” “Ah, não. Eu vou embora.” “Você não fica com medo de passar na mata aí na frente, não? Da assombração?” “Para assombração aqui ó”. Mostrou o três oitão: “Para assombração isso aqui”. Ele despediu, montou no cavalo e foi. Quando entrou na mata que andou um pouquinho, o cavalo não andava. Uma força estranha pegou na cauda do cavalo e o cavalo gemia esporado, a espora coloca no pé. Então cutucava no cavalo e o cavalo não andava. Ele dominou o medo... O pelo do cavalo, passava a mão na cauda do cavalo, estava tudo normal. O negócio arrastando o animal para dentro do mato. Aí ele lavou a boca no mundo a gritar: “Ô, socorro. Ô...”. O pessoal lá da casa escutou, ainda não tinham deitado para dormir, vieram com as lamparinas. Disse que foi só o foco do fogo da luz da lamparina atingir o local, o negócio, diz o mineiro “o trem”, largou o rabo do cavalo, o cavalo ficou alterado, né?

 

P/1 – Que legal. Isso eram histórias que vocês contavam quando eram crianças, com o pessoal e tudo mais.

 

R – É. Agora, ouvi contar uma história também assim, por incrível que pareça, a história é praticamente verídica. 90% verdade ou 100%. Eu conheci outro também, chamava Manuel ________, ele foi à fazenda de um parente meu, foi ficando tarde tal, ele despediu e foi embora. Quando ele saiu, andou mais ou menos uns 300 metros, 500 metros, tem um cemitério velho. O negócio levantou assim, na frente dele, abriu a boca, via as presas da assombração desse tamanho assim e apontado pra ele aquela coisa queria engolir ele. Então ele, aqueles caipiras com pouco de coragem dominou o medo, pegava a lanterna assim, focalizava a boca dele assim e falou assim: “Vou passar...” tinha caminho de _________, paralelo, outro caminho. Atravessou o negócio deu aquele pulo assim com a mão, a serpente, uma cobra, cercou ele novamente. Ele não dominou o medo e desmaiou. Quando acordou o dia já estava amanhecendo, acordou com um lobo uivando perto dele. Acabou de chegar na casa do parente lá e contou a história.

 

P/1 – Todo mundo ficou assustado?

 

R – É. Ficou assustado.

 

P/1 – Ficou, né? O senhor tinha quantos anos nessa época mais ou menos?

 

R – Nessa época eu tinha mais ou menos uns 18, 16 anos, por aí. 16 a 18 anos. Agora o que me surpreendia também, quando eu era menino, antes tinha um senhor, chamava Zacarias. O Za era feiticeiro. O cara tinha uma força fora do comum. Se a pessoa o agradasse, tudo bem, se não, fazia qualquer coisa na pessoa, doença... Às vezes até as mulheres, era um pouco aventureiro com as mulheres, às vezes ele aventurava com uma mulher, a mulher o recusava: “Ah, você vai precisar de mim ainda.” “Heheheh.” sorrindo para ele, né? “Você vai precisar de mim ainda”. Dali uns tempos aparecia uma dor no peito da mulher assim. Diz que dor no peito, daquelas que doem de mais, diz que é uma dor horrível. Diz que doía o primeiro dia, o segundo dia, o terceiro dia, quarto dia. Aí quando a mulher lembrava que ele falou que ela ainda ia precisar dele. Mandava chamar ele, ele vinha. Ele dando risada na cara da mulher falava assim: “Eu não falei que você ia precisar de mim? Aí ó. Você tá precisando de mim”. Aí ele falava assim: “Traz um galho de erva Santa Maria pra mim”. Trazia, benzia, falava: “Joga na água”. Dali cinco minutos a mulher tava boa.

 

P/1 – Era tiro e queda. Seu Donaldo, nessa época o senhor tinha algum sonho assim, o que o senhor queria ser quando crescesse? O que o senhor pensava que o senhor seria?

 

R – Na minha meninice, começo da adolescência, desejava ser piloto.

 

P/1 – Piloto de avião?

 

R – De avião. Sonhava tanto, aquela coisa, aquela mania de criança. Fazia amizade com um: “Ó, quando nós crescermos nós vamos comprar um avião para nós...”. Depois o sonho caiu por terra.

 

P/1 – Mudou de ideia, né?

 

R – É. Mudei de ideia.

 

P/1 – Senhor Donaldo, o senhor tinha falado da escola, onde é era a escola que o senhor ia? Esse primeiro ano que o senhor frequentou.

 

R – Eu estudei um pouquinho nessa vilinha, depois fui para cidade de Coromandel, estudei o primeiro ano. Depois o meu pai comprou o sítio.  Mudamos para outra vilinha, já não fui mais pra escola. Estudava sozinho, aprendia um pouquinho hoje, aprendia amanhã, assim foi indo. Depois, como eu já disse, melhorei a leitura também. Depois eu vim estudar aqui, fazer o ginásio, consegui...

 

P/1 – É mais pra frente, né?

 

R – É. É mais pra frente.

 

P/1 – Mas lá em Minas ainda... O senhor foi crescendo, já na adolescência com 16 anos mais ou menos, o senhor morava na vila ainda?

 

R – É, morava na vila.

 

P/1 – O senhor começou a ter as paqueras, os namoros nessa época já? Ou foi mais pra frente?

 

R – Acho que as paqueras começaram novo, começou cedo.

 

P/1 – Como é que era? Era um grupo de amigos que tinha as meninas?

 

R – Começo cedo, uns 12 anos. A gente foi levando a vida.

 

P/1 – Tinha um grupo de amigos grande aí também tinha as meninas no mesmo grupinho?

 

R – Aí quando inteirei 14 anos me optei por músico também

 

P/1 – Por música? O senhor tocava o que?

 

R – Eu aprendi a tocar cavaquinho, depois aprendi a tocar violão. Em violão sou enrascado até hoje.

 

P/1 – O senhor gosta de tocar violão até hoje?

 

R – Até hoje.

 

P/1 – O que vocês tocavam? Que tipo de música que era? Como que era?

 

R – As músicas que a gente tocava eram caipiras.

 

P/1 – Tem alguma que o senhor se lembra, que gosta?

 

R – Lembro. Naquele tempo a gente gostava muito do Tonico e Tinoco, depois Silveira e Barrinha e assim foi. Zé Fortuna e Pitangueira, Zico e Zeca.

 

P/1 – O senhor se reunia com os seus amigos pra tocar, tinha um lugar? Como que era?

 

R – Reunia. Interessante. Naquele tempo tudo quando hábito tinha que ir pra escola, tinha que aprender. Naquele tempo eu não _________ cantar.  Nós não tínhamos voz pra cantar de jeito nenhum, não sabíamos. Achava que era abrir a boca, dar aquele grito e era cantar. Meu pai tinha mais experiência do que eu, falou: “Donaldo, não canta que é assim, não”. Achava que era aquele jeito.  Depois um parente meu formou dupla com outro moço, cantou o __________ , depois ele veio e me deu instrução. Fui indo, melhorando, melhorando, melhorando. Foi dando ataque de cantar. Depois o aqui também foi ter aula de canto. Tem uma base mais ou menos. Hoje eu pertenço à parte artística lá do Centro de Referência do Idoso. De vez em quando vamos fazer visita.

 

P/1 – Que legal.

 

R – Os idosos tocando e cantando, homens e mulheres. São só uns, mais ou menos, umas 30 pessoas.

 

P/1 – Mas isso já é agora. Vamos voltar mais um pouquinho lá para Minas ainda. Aí o senhor ficou em Minas até que idade mais ou menos?

 

R – Até 33 anos.

 

P/1 – 33 anos. E o senhor trabalhava ainda com o seu pai? Como que era?

 

R – Depois por último nós trabalhávamos de... Nós tínhamos um bar, ganhamos muito dinheiro.

 

P/1 – O bar onde que era? Na vila ou lá na cidade de Coromandel?

 

R – Na cidade em Coromandel.

 

P/1 – Coromandel. Aí tinha um grupo de pessoas que frequentava? Era perto da casa de vocês esse bar?

 

R – Era perto. Ainda que, como a gente gostava de tocar, sempre dedicando música. Surgiu uma rádio, rádio de pouco alcance, eu fazia parte da roda de violeiros, era música sertaneja e felizmente tinha um público _________ ocupava de primeiro até o terceiro lugar. Quando eu cantava música dos outros artistas. Depois dei uma de compositor, eu mesmo fazia as letras, as músicas e o povo gostava. Depois parei de compor e esqueci. Hoje em dia eu tento fazer uma composição, não consigo.

 

P/1 – Mas o senhor se lembra das músicas que o senhor compunha, tudo mais? Tem alguma que o senhor gosta mais?

 

R – Ah, eu já esqueci.

 

P/1 – Tá certo.

 

R – Teve uma, eu tentei fazer uma música exemplar e teve um colega que tinha levado umas chifradas e eu... Nós tocamos na rádio, foi e me deu os parabéns: “Você tocou uma música hoje na rádio que gostei”.

 

P/1 – Como é que foi? Ele não descobriu que era sobre isso?

 

R – Pela letra né? Ele acho que mexeu com a mulher dele...

 

P/1 – Não ficou bravo, não?

 

R – Não. Veio me dar os parabéns, ele gostou.

 

P/1 – Então tá certo. O senhor continuava morando com o seu pai lá em Coromandel?

 

R – É. Continuava morando com ele.

 

P/1 – Como é que foi a ideia de vir para São Paulo?

 

R – Depois, já com 33 anos, aquela vontade de seguir a vida por conta própria. Naquele tempo não tinha casado, não tinha constituído família, aí constituí uma família, mudei... Aí inventei de vir para cá em 70.

 

P/1 – Mas o senhor casou-se lá ou aqui? Lá ainda?

 

R – Não. Eu não tive essa felicidade de dizer ao pé do altar. Não tive. Mas sempre eu tenho companheira, já sou até bisavô, tenho muitos filhos por aí.

 

P/1 – Tá certo. O senhor veio para São Paulo sozinho?

 

R – Não. Vim com alguém, com a mulher que tinha uma filha minha. Trouxe a mulher com minha filha, os irmãos dela trouxe pra cá.

 

P/1 – Então o senhor já tinha uma filha quando veio pra cá? Qual o nome dela?

 

R – É. Qual é o nome dela?

 

P/1 – É.

 

R – Chama Geni.

 

P/1 – Como é que foi ser pai pela primeira vez? Como é que foi a paternidade?

 

R – Eu adorei. Senti-me mais jovem, senti mais feliz.

 

P/1 – Mudou muita coisa? Como é que foi essa mudança de ter responsabilidade?

 

R – Então, o primeiro filho meu que nasceu tinha 18 anos. Tá novo assim mais ou menos igual a mim. Cabeça branca. Tá velho também. Nasceu em 56.

 

P/1 – Foi a primeira mudança? De ter...

 

R – Não, aliás, foi o primeiro filho.

 

P/1 – E aí foi a primeira vez que... Teve alguma mudança assim, de ter o primeiro filho? Aconteceu alguma coisa? Mudou alguma coisa?

 

R – Não. Aquele entusiasmo, sempre ajudava. Se precisasse de alguma coisa ajudava, dava assistência. Mesma coisa, os outros que foram aparecendo. Eu tive esse privilégio de reconhecer.

 

P/1 – Quantos filhos o senhor teve?

 

R – Acredito que tenho uns oito ou mais.

 

P/1 – Mas quando o senhor veio para cá veio então com essa esposa, digamos assim, e uma filha. Quantos filhos tinham já lá? Esse primeiro que nasceu com 18 anos, tinha mais algum?

 

R – Ficou algum lá, teve um que morreu de tétano também.

 

P/1 – Mas eles moravam com o senhor? As crianças?

 

R – Não. Moravam com a mãe deles.

 

P/1 – Moravam com a mãe.

 

R – Moravam com as mães. São os filhos das paqueras.

 

P/1 – Entende. Aí o senhor veio pra cá com...

 

R – Eu vim e trouxe essa família.

 

P/1 – E onde vocês foram morar aqui?

 

R – Ficamos juntos aqui uns dois anos mais ou menos, depois o ser humano é falho, a gente falha daqui, falha dali. Comecei a beber cachaça, ficar um pouco irresponsável e ela também se descontrolou. Houve aquele descontrole entre nós, aí tivemos que nos separar. Depois arrumei mais umas companheiras por aqui, por ali. Agora estou com uma que já tem quase 30 anos.

 

P/1 – Mas ainda lá em 70 quando vocês vieram morar aqui. Vocês moravam onde na cidade? Era na cidade de São Paulo mesmo ou não?

 

R – Na vinda pra cá?

 

P/1 – Isso.

 

R – A gente morava no Itaim Paulista.

 

P/1 – Como foi chegar nessa cidade grande? Que impressão teve quando chegou aqui?

 

R – Uma impressão aquela de muito sucesso, trabalhar e conseguir dinheiro. Então o meu objetivo de vir de Minas Gerais para cá era exatamente ficar uns dois, três anos, fazer aquela economia e melhorar bem financeiramente, depois retornar pra Minas Gerais. Resultado, aquela pequena importância que eu trouxe, aquele pequeno poder aquisitivo, naquela época em 70, cheguei aqui com 800 cruzeiros naquela época. Tinha acho 800 mil, o meu pai havia pegado um diamante, vendemos o diamante por um milhão de cruzeiros. Como eu sou filho único falei: “Pai, me dá 500 contos aí desse dinheiro.” “Pois não, filho”. Deu os 500 e botou a juros, juro particular. De vez em quando ia lá, reformava a _____, reformava. Em 1970 quando eu tentei vir pra cá essa importância já estava, esse dia já tinha mil e 500 cruzeiros. Se não me engano acho que era um milhão e 500. Não dá nem para falar porque mudou muito. Eu paguei umas dívidas que a minha mulher tinha lá e vim pra cá. Ainda cheguei aqui com 800 mil. Não fiz questão de gastar, não. Ah nada. Gasta aqui, gasta e ganha outro. O negócio não é bem assim, não. Naquele tempo que cheguei aqui a passagem já era 35 centavos, depois passou para 40. Então acredito que dá pra fazer um apanhado mais ou menos com quanto eu tinha naquela época, financeiramente. Só multiplicar os 800 que tinha a passagem 35 centavos, então mais ou menos calculava o quando que eu tinha financeiramente.

 

P/1 – E como que foi... Lá no Itaim Paulista onde o senhor morava como que era? Muito diferente?

 

R – Era muito diferente. As ruas todas de terra ainda no Itaim Paulista. Depois foi melhorando. A água de poço também. Teve uma vez que a gente morava numa casa, o banheiro composto era bem pertinho, então, infelizmente, parece que a água ligava porque o mesmo bicho que dava, surgia no banheiro, surgia também no poço.

 

P/1 – Quais que eram as principais dificuldades dessa chegada?

 

R – Naquele tempo, na época da revolução, tinha muito emprego. Naquela época, a turma que vinha lá de Minas, a mania era trabalhar em vidros, fábrica de vidro. Aí eu entrei numa fábrica, trabalhei um ano. Depois entrei na empresa de ônibus São Miguel. Trabalhei quatro anos.

 

P/1 – O senhor era motorista? O que o senhor fazia lá?

 

R – Trabalhava de cobrador.

 

P/1 – Ah, de cobrador?

 

R – É. Depois inventei para Minas Gerais, isso foi em 74. Aquelas alturas a mulher já tinha separado, fui sozinho para Minas Gerais. Naquele tempo, com quatro anos eu não adaptei de novo, não. Dentro de um mês já estava conhecendo todo mundo, todo mundo lá no fim da rua: “Ó, como vai você?” aquela coisa. Aí comecei a sentir saudade daqui de São Paulo, a lembrar da Rua Direita, Anhangabaú, aquele meio. Em 1975 voltei para cá, entrei na CMTC, trabalhei até 93.

 

P/1 – O que é CMTC?

 

R – É a Companhia Municipal de Transporte Coletivo. Era a primeira empresa, empresa de ônibus líder aqui de São Paulo.

 

P/1 – O que o senhor fazia na CMTC?

 

R – Eu trabalhei de cobrador, depois trabalhei na manutenção. Trabalhava na manutenção dos ônibus, na garagem de trólebus lá no Brás.

 

P/1 – Mas o senhor morava ainda no Itaim Paulista?

 

R – Aquela altura morei em vários lugares. Morei em Guaianases, morei lá no Brás perto da garagem também.

 

P/1 – Mas o senhor morava sozinho?

 

R – Não. Depois eu constituí essa família que estou até hoje. A gente mudou pro Itaim Paulista.

 

P/1 – E como vocês se conheceram? (troca de fita) Então senhor Donaldo, o senhor falou, voltando um pouquinho ainda, das impressões de São Paulo quando o senhor ainda estava lá em Minas, né? Como que era?

 

R – Certo. A gente, o povo do interior, entrou com o maior entusiasmo por São Paulo. Acredito que o Brasil é o coração do mundo e São Paulo é o coração do Brasil. A gente ia falar tanta lenda. Tinha uma lenda aqui de São Paulo, eu morava lá numa vilinha, na outra vilinha, o senhor comentando como se fosse verdade. Disse que aqui em São Paulo havia uma barbearia, o cliente ia lá fazer a barba. Ali, para todos os efeitos, o barbeiro fazendo a barba dele. Ele conseguia matar o cliente eletrocutado, com a eletricidade, recolhia aquele corpo e ia fazer pastel e vender na cidade. É a lenda do lugar, né? Agora uma lenda também é a da, isso eu li na revista, gostei muito da reportagem, sobre o Gino Meneghetti. O italiano veio para cá, mas ele era ladrão, o famoso batedor de carteira. Agora, o importante dele é que  era assassino, ninguém prova que ele matou ninguém. Só uma vez que a polícia estava correndo atrás dele, houve um tiroteio e parece que teve um policial que avançou muito na frente, os policiais atirando, os próprios colegas mataram ele. Não foi o Meneghetti que matou. Agora o _______ também faleceu, ele ficou preso muito tempo, antes dele falecer pediu para ser cremado. Ele falou assim: “Quando vivia eu lutei muito com vermes. Então quando morrer não quero que eles... Não quero saber de vermes mais”. Comer _____, desintegrar, os vermes desintegram a pessoa, né? Ele falou que lutou muito com verme, tanto que não sabia mais de vermes.

 

P/1 – Tá certo seu Donaldo. Voltando ao que a gente estava contando antes, então o senhor voltou para São Paulo em 1975? Estava em Minas voltou para São Paulo. Osenhor passou a trabalhar na CMTC e encontrou a sua atual esposa. É isso?

 

R – Certo.

 

P/1 – Como vocês se conheceram?

 

R – Como diz o ditado, disse que o... Como é que fala? “O acaso não existe”. Eu trabalhava na CMTC, procurei uma nova pensão. O dono da pensão falou que a mulher dele era descontrolada, quis sair de casa, dava muito trabalho pra ele. Então incentivei, dei apoio para ele. Passaram uns dias e parece que essa mulher saia, aprontava aí na cidade, consegui apoio no Itaim da companheira que estou agora. Então descendo uma escada daqueles casarões lá do Brás, eu vi uma voz falando assim: “Ô você querendo ir à minha casa...” aquela voz de apoio “Você querendo ir a minha casa, você pode ir a hora que você quiser. Minhas portas estão abertas para você”. Eu olhei, me deparei com uma mulata com esse ______ de roupa: “Boa tarde”. Cumprimentei-a. Conversa vem, conversa vai, dei uma de quiromante, peguei a mão dela, a pessoa vê umas previsões. “Ah olha minha sorte, vê minha sorte”. Aí começamos a namorar e estamos até hoje. Hoje em dia são todos velhinhos, mas estamos aí. Isso aí já é coisa do passado.

 

P/1 – Mas como é que é? Eu não entendi a história da mão. Como é que foi isso? Você deu a mão para...

 

R – Eu dei uma de quiromante, a ciência de ler as linhas das mãos.

 

P/1 – Ah, entendi. De ler o futuro da pessoa nas mãos.

 

R – É o futuro nas mãos. Ela gostou: “Lê minha sorte aí. Vem cá pra você ler minha sorte”. E aí como diz o ditado, ________ que foi aprofundando.

 

P/1 – Como é o nome dela?

 

R – Chama Ilda.

 

P/1 – Ilda? E aí vocês foram morar juntos? Como é que foi? Vocês casaram?

 

R – Não. Depois nós estávamos em um determinado lugar, ela mostrou a fotografia: “Olha, isso aqui é do meu marido”. Falei: “Você é casada?” “Sou. Sou casada”. Então o marido acho era aqueles que não gostavam bem de trabalhar, morava numa casinha, num quarto pequeno na casa da mãe, da sogra. Então ele fazia o seguinte, ele saía, vinha fim de semana na época de fazer despesa da casa trazia um quilo de arroz, um quilo de feijão, uns dois litros de óleo, era isso. Eu mais ela namorando, parece que recebeu incentivo da mãe dela. Propus, falei: “Estou sozinho, você não quer juntar os trapos, não?”. Ela falou com a mãe dela, a mãe dela deu total apoio. Morava no meu prédio, fui lá e a busquei. O pobre do marido vinha: “Ela está trabalhando. Está trabalhando”. Assim foi indo, ele demorou a descobrir.

 

P/1 – E como ele descobriu? Como é que foi?

 

R – Depois ele foi lá alguma vez ver o filho dele mais velho, eu prestava atenção nele. Agora dizem que ele faleceu. A gente está junto até hoje, temos netos.

 

P/1 – Mas não deu confusão quando ele descobriu? Ele não ficou muito bravo, não?

 

R – Não. Não deu confusão, não.

 

P/1 – Não teve briga? Então tá certo. Aí vocês juntaram e foram morar aonde? No Brás?

 

R – Não. Eu a trouxe para o Brás, depois voltamos, fomos lá pro Itaim. Aluguei uma casa perto da casa da mãe dela e depois comprei um terreno do irmão dela e construí uma casa lá. Com o negócio de ser mandado embora também, comprei um terreno e construí outra casa. Agora sou aposentado, estou levando a vida.

 

P/1 – Mas ainda quando vocês se casaram vocês tiveram filhos?

 

R – Tivemos.

 

P/1 – Depois? Quantos filhos vocês tiveram juntos?

 

R – Quatro filhos.

 

P/1 – Quatro filhos? Qual o nome deles? O senhor quer falar?

 

R – Pode. Tem o mais velho, filho dela que eu considero meu filho, eu criei ele desde os cinco anos, chama Ademar. Tem o Marcos, Marcos Henrique. Já pensou a vida como é? Então comecei a namorar ela, juntaram as pessoas: “É, ela é casada, tem uma fulana que é bonita, mais bonita do que ela e é solteira”. Aí eu comecei a ir para o lado dessa mais bonita. Depois descobri que era uma pilantra das maiores, eu saí fora, falei: “Eu prefiro a mulata”. Naquele ínterim ela tinha ganhado um menino, eu mandei as espiãs irem lá passear: “Parece com tu”. Uma menina lá do norte de Minas, tem um sotaque de baiana: “É, o menino da Ilda parece com tu”. Com esse negócio de começar a namorar essa pilantra, ela parou de ir lá me visitar. Parou de ir lá me visitar uns três, quatro meses. Aí o menino dela precisava ir num posto de saúde, ela o registrou no nome do marido, chama Marcos. Biologicamente é meu filho, mas oficialmente...

 

P/1 – Porque vocês estavam separados, aí ela registrou no nome do marido oficial.

 

R – É. Do marido oficial. Depois disso nasceu a Marta. Essa menina, felizmente, tá vencendo na vida, tá fazendo faculdade, tá no último ano de faculdade, tá estudando Pedagogia.

 

P/1 – E depois teve mais uma ainda?

 

R – E depois vem a Áurea. A Áurea eu fiz uma homenagem da minha mãe e minha sogra. Minha mãe chamava-se Maria, a sogra Áurea. Coloquei Áurea Maria. Tem uma também, essa já é filha do coração, é adotiva, ela foi para minha casa estava com sete meses, agora tá com 15 anos.

 

P/1 – Como que foi essa adoção? Como ela chegou à casa de vocês?

 

R – A Áurea hoje tá com 25 anos. Ela: “Ô pai, busca um neném pra nós. Vai ao hospital, busca um neném”. Aquela coisa. Achava a família um pouco pequena, então se manifestou em mim aquela vontade de fazer uma adoção. Tinha uma mulher lá perto... Então os familiares dela sempre faziam adoção. Família pobre, aquilo para eles é coisa natural, quem quiser adotar o filho vai lá e comenta, fica na expectativa que aparece. Essa mulher era muito ligada a nós. Um dia de manhã cedo eu cheguei lá, a gente tinha sido mandado embora da CMTC. Abri o portão, aliás, alguém bateu no portão, fui lá era essa conhecida. Ela falou assim; “Donaldo, você não quer adotar uma criança, não? A gente trás a criança, você arruma testemunha, vai ao cartório, fala que nasceu em casa e ninguém vai atrás”. Dali a pouco falei com a Ilda. Ilda falou: “Vou lá ver essa menina”. Dali a pouco veio essa intermediária com a menina no colo e a menina me olhando assim, parece que pedindo socorro. Olhei uma menina magrinha, meio desnutrida. AÍ, eu sou pouco sensível, olhei assim, até chorei um pouco, a lágrima correu na minha face. Ela já tinha príncipio de bronquite, depois foi só a gente oferecer alimentação boa pra ela, ela sarou. Menina inteligente. Resumindo as coisas, tá com 15 anos é mãe solteira. Tem uma menininha já com quatro meses.

 

P/1 – Mas vamos voltar ainda um pouquinho. O senhor tinha falado que o senhor frequentou a escola por causa da sua filha. Qual delas que foi essa história?

 

R – Por causa da Áurea.

 

P/1 – Da Áurea? Como é que foi isso? Ela não queria ir para escola e o senhor resolveu estudar?

 

R – Ela desistiu de estudar da sexta série. Então arrumava uma escola aqui, ia lá, começava a estudar, comprava material pra ela, ela desistia. Arrumava outra escola, também desistia. O tempo foi passando, anos. Ela arrumou lá na (Laurindo?), falou para mim, eu interessei. Peguei um certificado, peguei o xérox da oitava série, do certificado, fui lá, matriculei. Entrei com ela na escola, caímos na mesma sala, pai e filha estudando. Ela desistiu, fui em frente, nem que seja com a proteção dos professores, tenho um diploma do segundo grau.

 

P/1 – Como foi voltar para escola? Foi muito estranho? Como é que foi essa volta?

 

R – Gostei muito. Apesar de que, infelizmente, o fator idade a gente não tem aquela facilidade de aprender como gravar as coisas, mas o que não aprendia hoje, aprendia amanhã e assim foi indo. Depois com a boa vontade das professoras tenho o certificado. Aí entrei na Educafro e arrumei lá para minha filha, a outra filha, a Marta. Ela foi lá, nós fomos fazer a prova de vestibular, a minha filha conseguiu 82 pontos. Fiz, aquele dia se eu tivesse inspirado talvez eu teria passado, consegui 39 pontos. Minha filha levou em frente, tá fazendo o último ano de faculdade.

 

P/1 – A Educafro era um cursinho ou ele era um... O que é o Educafro? Explica pra gente.

 

R – A Educafro é o sistema afro-brasileiro. Assim, o sistema popular de estudar os menos favorecidos, os indígenas, os pobres, os negros.

 

P/1 – É uma faculdade?

 

R – Isso é patrocinado... Faz tempo que eu não estou bem por dentro. Fica ali na Igreja São... Ali perto da Praça da Sé. Tem o padre que coordena isso daí.

 

P/1 – A sua filha começou a estudar lá?

 

R – Minha filha passou, ela estuda... A faculdade, a matriz da faculdade é aqui perto, é Sumaré. Ela estuda na unidade lá do Tatuapé.

 

P/1 – Ela estuda o quê?

 

R – Pedagogia.

 

P/1 – Pedagogia? Qual das filhas? É a Marta ou é a Áurea?

 

R – É a Marta.

 

P/1 – É a Marta.

 

R – A Áurea não estuda, não. Coitada, ela não... Nem com o meu incentivo ela estudou, já pensou?

 

P/1 – Não deu certo, né?

 

R – Não deu certo.

 

P/1 – Senhor Donaldo, sabe o que eu queria perguntar pro senhor? O senhor tinha falado da CMTC, que o senhor trabalhou bastante tempo lá, né? Até 93.

 

R – Trabalhei.

 

P/1 – Tem alguma história de quando o senhor trabalhava lá? História dentro do ônibus, os passageiros, alguma história que tenha acontecido nesse trabalho?

 

R – Ah, sim. Tem uma história que, por instinto, a pessoa tem que ser comunicativa, muito compreensível. Teve um dia, eu fazendo a Zona Norte como cobrador, o ônibus superlotado e aquela severidade, trabalhar direito, isso e aquilo. A moça falou assim: “Ó, eu vou passar, vou pagar duas passagens, a minha colega vai descer pela porta de trás”. Eu falei: “Não. Mas aí não tá certo. Olha, pagou tem que passar por aqui. Por que ela não pode passar na catraca?”. Ela falou: “Ah, não sei”. Eu: “Tem alguma coisa, problema sério, né?”. Falei: “Qual que vai descer pela porta de trás?”. Olhei assim, tinha uma jovem com a blusa enrolada na frente assim, o ambiente estava tão tenso que era para descer depois do próximo ponto, a moça falou: “É para descer no próximo ponto”. Ainda era no outro ponto, a moça falou nervosa: “Quer fazer o favor de dar o sinal para eu descer?”. Dei sinal, ela desceu. A gente chegou no final, o ônibus ficou vazio, chegamos no final, eu fui lá, o problema dela era fisiológico. A menstruação tinha descido, aquela poça de sangue lá. Não tinha condições de ela passar no meio do povo do jeito que ela estava.

 

P/1 – Ish. Aí sujou todo o ônibus?

 

R – É. Sujou todo o ônibus, eu tive que pegar o balde de água e lavar. Já imaginou se eu protestasse, falasse que não podia descer pela porta de trás? Ia fazer o maior tumulto e ela não tinha condições de passar no meio do ônibus superlotado, no meio do povo.

 

P/1 – Por isso que ela estava nervosa, né? Tem mais alguma história? Tinha muitas pessoas que pegavam ônibus todos os dias, fazia amizade? Era comum?

 

R – Ah, sim. Em 1975 quando eu entrei na CMTC, aquela burocracia, o modo de tratar os outros, aquela educação medonha. Voltar o troco certinho. Eu estava religiosamente voltando troco certinho, estava dando certinho mesmo. Um dia, aquele tumulto, aquele movimento de ônibus, tinha um rapaz bem vestido sentado lá atrás, na hora dele descer invadiu a catraca. Eu olhei pra cara dele assim, será que pagou a passagem, será que não pagou? Quando eu fui entregar o dinheiro lá no caixa na recebedoria estava faltando uma passagem, era um cruzeiro naquela época. Eu olhei assim, passei a aplicar no pessoal. A pessoa vinha: “Ô, como vai? Tudo bem com você?” “Tudo”. Contava história para ele, agradava, ia pagar dava dez reais, dez cruzeiros naquela época, pegava voltava oito. Já tinha conversado com ele, estava contente, pegava e colocava no bolso. Eu ganhava tanto dinheiro que ganhava igual o emprego, o salário. Teve uma vez também que fiquei com pena. O ônibus superlotado, o passageiro foi pagar a passagem deu dez cruzeiros aquela época, a passagem era um cruzeiro. Aí eu botei a nota separada assim, fiz o troco, olhei, cadê? Esperei voltar, não voltou, eu não ia gritar. Fiquei com o troco, oito, nove reais.  A pessoa esqueceu. Foi embora e nem lembrou.

 

P/1 – Que linhas que o senhor trabalhava?

 

R – Eu fazia Zona Norte, acho que era, se não me engano, parece que era Mandaqui. Então depois se eu fosse gritar... Não ia faltar aqui. Fiquei calado, botei o troco separado, falei: “A hora que ele vier procurar entrego para ele”. Acontece que até hoje...

 

P/1 – Aí em 93 o senhor saiu da CMTC. Foi isso? O senhor se aposentou nessa época? Como é que foi?

 

R – Eu saí da CMTC e suponho que naquele tempo, gente assim da minha faixa era o pessoal que ganhava melhor no Brasil. Vocês acreditam que naquele tempo eu ganhava o correspondente de oito a dez salários mínimos. A pessoa se eu segurasse mesmo, aplicasse o meu dinheiro, estava em situação boa. Aquele negócio de ficar na acomodação, ganhando bem, deveria estudar, me qualificar em alguma coisa, noutra, noutra, noutra... Me mandou embora, inventei de trabalhar por conta.

 

P/1 – Aí o que o senhor fazia?

 

R – Comprei um bar.

 

P/1 – Ah, o senhor montou um bar que nem lá em Minas?

 

R – É. E naquele tempo eu ganhei muito dinheiro, eu achava que aqui ia ser a mesma coisa e... Ainda bem que eu salvei esse dinheiro.

 

P/1 – E não foi? Onde que era o bar? Lá no Itaim também?

 

R – É. Lá no Itaim. Com o dinheiro que eu recebi da indenização do CMTC comprei um terreno por nove mil reais. Aí adiantei mais três, fizemos um contrato, o moço construiu pra mim lá, pra dar o inicio. Ele construiu. Pensei assim, outro processo correndo, falei: “Ganhar esse outro processo vou construir um sobrado”. O pedreiro é ruim, aliás, o pedreiro não, o advogado. Eu perdi o processo. Então a minha propriedade tá inacabada lá até hoje.

 

P/1 – Então mais recentemente o senhor se tornou avô. Como é que foi? Qual foi o primeiro neto?

 

R – O primeiro neto foi desse filho que mora lá em Brasília.

 

P/1 – Brasília? Mas é o filho que nasceu lá em Minas quando o senhor tinha 18 anos? É esse?

 

R – É. Quando tinha 18 anos. O filho dele tem... Parece que nasceu em 80.

 

P/1 – E como que foi essa...

 

R – É professor lá na faculdade de Brasília.

 

P/1 – O seu neto?

 

R – É. O meu neto.

 

P/1 – Como que foi ser avô? Melhor ainda do que ser pai?

 

R – Melhor ainda. Senti-me mais jovem ainda.

 

P/1 – Foi o primeiro.

 

R – É. Foi o primeiro.

 

P/1 – E o senhor já foi visitá-lo lá? Ele veio visitar o senhor?

 

R – Ah, desde quando ele nasceu eu fui lá visitá-lo. Tenho uma foto com ele no colo.

 

P/1 – Mas aí o seu filho tinha mudado pra Brasília? Foi isso?

 

R – Tinha. Ele mudou pra Brasília, ele se casou. Estava trabalhando, a mulher dele trabalhando aí ele entrou na polícia. Hoje em dia ele é policial reformado, o pai dele, né?

 

P/1 – E o senhor vai sempre visitá-los lá? Como foi conhecer Brasília? O senhor já conhecia antes dele morar lá ou não?

 

R – Não. Não conhecia, não.

 

P/1 – E essa viagem? Como é que foi?

 

R – Ah, foi maravilhosa. De vez em quando eu vou lá na casa dele.

 

P/1 – Quando o senhor chegou lá foi tão impactante quanto quando o senhor cegou a São Paulo? O que o senhor achou da cidade?

 

R – Brasília é uma cidade muito bonita, muito plana. Você chega lá você olha o horizonte assim, o horizonte, a lua, o céu demora a encontrar com a terra, é muito plano. É maravilhoso Brasília.

 

P/1 – Esse foi o primeiro neto. E o segundo? Já foi das meninas daqui? Ou do Marcos Henrique? Tem mais um neto.

 

R – É. A segunda neta foi... Depois o meu filho que mora em Brasília, nasceram duas meninas. Lá eu tenho três netos.

 

P/1 – Entendi.

 

R – Depois a minha filha que trouxe para cá juntamente com a mãe dela também, tem uma filha e a filha dela antecipou, é mãe.

 

P/1 – Bisneto.

 

R – Então a minha filha já é vó. Mas a minha foi ver o neto dela, heim? Não pode chamá-la de vó, não. Quando o menino começou a falar: “Se me chamar de vó, apanha”.

 

P/1 – Ela não quer.

 

R – Tem que chamar o nome dela diminuto, né? Genizinha.

 

P/1 – O senhor tinha costume de brincar muito com as crianças, com os netos? Como é que era a relação com os netos? Muito diferente da com os filhos?

 

R – Ah, eu sinto bem de estar com eles, de conversar com eles.

 

P/1 – Tem uma brincadeira, algum costume? O senhor conta história pra eles? Contava quando eles eram pequenos?

 

R – Toda vida assim, queda por contar história nunca tive.

 

P/1 – E aí a sua filha mais nova também tem um filho?

 

R – É. Tem um filho.

 

P/1 – Qual é o nome dela mesmo, a que vocês adotaram?

 

R – Chama Kelly.

 

P/1 – Kelly. A Kelly teve um filho recentemente.

 

R – É. Teve recentemente. Parece que a criança dela tá com quatro meses.

 

P/1 – Quatro meses. Ela ainda mora com vocês?

 

R – Ainda bem que o pai da criança assumiu, levou embora.

 

P/1 – Ah, tá. Ela mora com o pai?

 

R – É. Mora com o pai. E ela... Parece que ela quer levar a vida como antes, parece que não tá valorizando o pai da criança dela.

 

P/1 – Vamos ver, o que acontece. Então, senhor Donaldo, agora a gente já tá chegando ao final da entrevista, vai falar mais de hoje, como é a sua vida hoje. Então o senhor tinha falado que o senhor participa do Centro de Referência do Idoso? Como é que é? Quais são as atividades lá?

 

R – Agora mudou o nome, né? Era Centro de Referência do Idoso, agora mudou pra outro nome, a sigla mudou. Lá tem médicos do idoso, médico geriatra, oculista, também fisioterapia. Eu participo também da ginástica, fisioterapia e participo também da parte... É curiosidade, né? Artística. Toco e canto

 

P/1 –   O senhor vai toda semana?

 

R – É. Toda semana. Toda semana e toda terceira quarta-feira do mês tem os shows.

 

P/1 – O senhor toca no show? Canta?

 

R – Canto. Inscreve-se, sobe no palanque e canta. Como é que fala o show? Tem um nome. A gente fica velho e fica bom para esquecer. É mais ou menos show revelação.

 

P/1 – O senhor gosta muito de ir? Como é que é essa volta ao canto? O que o senhor...

 

R – Eu gosto de tocar, atualmente é meu hobby tocar.

 

P/1 – Ainda as músicas caipiras ou tem mais algum ritmo?

 

R – Ah, hoje em dia eu aprimorei um pouco na música. De tudo toco um pouquinho.

 

P/1 – Mas o preferido ainda é a música caipira? O senhor...

 

R – É. O preferido é a música caipira.

 

P/1 – Então hoje o senhor frequenta esse centro e o senhor tem mais alguma atividade que o senhor faz? Ou fica mais com a família?

 

R – É. Fico mais com a família.

 

P/1 – Aproveitando, né?

 

R – É. A mulher tem problema de bronquite, ajudo nos serviços domésticos. Como diz, vocês estão de parabéns, estão só ganhando espaço e vão ganhar mais espaço agora no final do ano.

 

P/1 – Final do ano?

 

R – É. Vocês mulheres vão ganhar mais espaço. Vão ter uma mulher presidente.

 

P/1 – Ah. Vamos ver.

 

R – De primeiro as mulheres, no tempo da minha vó e da minha mãe, por exemplo, meu avô casava as filhas dele era porque ela agradava, não era porque elas agradavam, não. E naquela época a mulher tinha o direito de aprender só a assinar o nome. Aí a notícia corria: “Fulana sabe assinar o nome”. Quando ela ia assinar o nome todo mundo ficava olhando. Já pensou como eram vocês naquela época?

 

P/1 – E hoje, né?

 

R – Hoje em dia tá só ganhando espaço, só ganhando.

 

P/1 – E quais são as coisas mais importantes pro senhor hoje na sua vida?

 

R – A coisa mais importante é sempre estudar e aprender alguma coisa. A coisa mais importante que tenho na minha vida é tentar melhorar, cada dia melhorar um pouquinho. O erro é humano, então todos nós erramos, mas o importante é que não pode permanecer no erro, sempre melhorar.

 

P/1 – O senhor tem algum sonho hoje?

 

R – O sonho é levar a vida assim até viajar para o outro lado.

 

P/1 – Senhor Donaldo, tem alguma história ou alguma coisa que o senhor queria contar pra gente que eu não perguntei? Alguma lembrança, alguma coisa?

 

R – Não. Acho que perguntou todas.

 

P/1 – E como foi contar a sua história pra gente?

 

R – Foi bom. Eu pela primeira vez, até peço desculpa, pela primeira vez que fui entrevistado.

 

P/1 – Uma boa experiência?

 

R – Uma boa experiência.

 

P/1 – Então tá certo senhor Donaldo. A gente agradece a entrevista do senhor. Muito obrigada, foi muito bom.

 

R – Sim. De nada.

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