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Transportando Campinas

História de: Antonio Augusto Gomes dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/08/2008

Sinopse

Identificação. Descrição do pai, caminhoneiro. Mudança para Campinas ao ser contratado em uma indústria na cidade. Primeiras impressões de Campinas, em plena época do Golpe Militar. Infância e formação escolar em Sertãozinho. Formação em Química. Lembranças das viagens de trem. Trabalho, aos 14 anos, em uma farmácia. História de como conheceu a esposa. Decisão de ingressar na Viação Caprioli, empresa do sogro. História da empresa. Aparecimento do Gasogênio. Bondes, ônibus e trens. Crescimento da empresa nos anos 70 e situação atual. Diversidade da frota. A marca da empresa, uma referência. Família.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO
Eu me chamo Antônio Augusto Gomes dos Santos, nascido em 1º de janeiro de 1941, na cidade de Sertãozinho, Estado de São Paulo.

FAMÍLIA
Meus pais são José Gomes dos Santos e Dina Coli Gomes dos Santos. O lado paterno é português e a minha mãe é filha de italiano. Os dois são brasileiros, porém filhos de portugueses e italianos. O meu avô por parte de mãe - porque por parte de pai eu não conheci, ele já era falecido - era o Augusto Coli e a avó, Vera Coli, eram italianos. A avó por parte de pai chamava Conceição, me lembro muito bem dela. O avô por parte de mãe chamava Antônio dos Santos; eu não conheci. Mas meu nome é o nome dos dois avós: Antônio e Augusto. Por parte de pai, os avós eram sitiantes e por parte de mãe eles tinham um comércio, tiveram bar. O meu pai era caminhoneiro, tinha caminhão de transporte, transportava álcool. A princípio o caminhão era com carroceria, com tambores, e depois mais tarde ele já pôs o tanque, o caminhão-tanque para transporte de álcool do interior, daquela minha região pra São Paulo. Tenho dois irmãos. Um é aposentado, engenheiro aposentado da CPFL [Companhia Paulista de Força e Luz] e o outro da Telefônica, da antiga Telesp [Telefônica de São Paulo], de comunicações.

MIGRAÇÃO
Em 1964, eu me formei em química em Ribeirão Preto e vim trabalhar na Gessy Lever, vim fazer estágio. Fazia parte do currículo escolar e terminado isso, eu fui contratado pela Gessy Lever, pra trabalhar no laboratório da empresa. Campinas era uma cidade de qualidade de vida excepcional. Na verdade, quando eu vim para Campinas, foi no começinho de março de 64, quando nós estávamos no início da revolução militar. Eu vim do interior e aquilo até me causou algum temor, porque eu nunca tinha vivido, Sertãozinho era uma cidade pacata, eu vim, a coisa estava... Campinas, como uma cidade grande, tinha o Exército, o BIB [Batalhão de Infantaria Blindada], e aquilo me espantou um pouquinho, embora na cidade existisse bonde, era uma cidade bem tranqüila, industrializada, bastante emprego naquele tempo.

COMÉRCIO DE CAMPINAS
Campinas sempre foi o pólo comercial para a região, de um raio de 60 quilômetros: Limeira, Piracicaba, sem contar com Valinhos, Vinhedo, Monte Mor, Capivari, Paulínia. Campinas era um centro estudantil forte, hospitalar, comercial e industrial, os quatro pilares. Faculdade de todo tipo que tinha aqui. Era em Campinas que o pessoal vinha buscar o prosseguimento da carreira.

CIDADES / SERTÃOZINHO / SP
Era uma cidade pequena, interessante, todo mundo se conhecia. Era uma cidade em que todo mundo ajudava a criar todo mundo; as mães ajudavam as outras mães, a vizinhança ajudava a olhar, a cuidar, e sempre num sistema de muita credibilidade. Eu era muito crédulo, quando vim do interior para Campinas, como eu conhecia as pessoas, eu acreditava muito nas pessoas. Se dissessem pra mim, “olha, ali na esquina está jorrando petróleo da calçada”, eu era capaz de ir ver: “Me deixe ver como é.” Eu acreditava porque a cidade pequena contribui com isso, as pessoas se conhecem, eu sentia que não tinha maldade nas coisas, no relacionamento.

FORMAÇÃO
Fiz o primário, ginásio e colegial em Sertãozinho. Quando eu fui para Ribeirão Preto, hoje é a Unaerp [Universidade de Ribeirão Preto], eu fiz química. Foram os quatro anos. Passei a residir em Ribeirão Preto porque o curso era em tempo integral . Fui em 1960 e saí em 1964, vindo pra Campinas, pra trabalhar na Gessy Lever.

INFÂNCIA
Era uma infância muito criativa, diferente de hoje, televisão, brinquedos comprados. Era tudo muito, criatividade, era bolinha que nós jogávamos, peteca, bola, isso era o relacionamento de brincadeira, pescar, caçar, essas coisas, que eram nossas atividades. Depois do período escolar, que era das oito ao meio dia, na parte da tarde se fazia a lição de casa, depois nós brincávamos. Um fato que eu me recordo, deve ter sido pelos anos de 1948, 47, 48, nós tínhamos, acho que no Brasil todo, acredito, um período que ficava das sete e meia às oito e meia da noite sem luz. Apagava tudo por uma questão de economia e a garotada ficava toda no escuro, com vela, esconde, todo tipo de brincadeira. Lembro-me ainda, as famílias, porque naquele tempo não se tinha televisão, e as famílias se visitavam muito, uma família visitava a outra, e com muita freqüência ficavam sentados na soleira da porta, ou cadeira na calçada, conversando vizinho com vizinho, vizinho de frente, vizinho de lado ou vizinho da quadra inteira, fazia aquele redondo, aquele círculo de pessoas conversando. O rádio, naquele tempo, era, sobretudo, a Rádio Nacional do Rio, que o Rio era a Capital do Brasil, as coisas aconteciam lá e nós acompanhávamos muito as emissoras: Nacional do Rio, Rádio Tamoio. O rádio pra nós era o meio de comunicação, um noticiário muito famoso chamado Repórter Esso, que acabou sendo uma marca, que era patrocinado pela distribuidora de gasolina Esso. Me lembro que foi muito comemorado o final da Segunda Guerra Mundial. Foi pelo rádio que tomamos conhecimento do final da guerra. Devia estar com uns cinco anos. Lembro-me nessa época que tudo era racionado, farinha que era importada, não se tinha pão, ou se tinha era muito raro, o que se fazia era muita coisa de milho, broa, esse tipo de alimento.

CIDADES / RIBEIRÃO PRETO / SP
A cidade mais próxima de Sertãozinho era Ribeirão Preto. Não era muito de acesso nosso, a não ser médico, especialistas, porque naquele tempo era tudo médico clínico geral que cuidava de tudo, mas quando existia alguma coisa mais grave, tinha que ir pra Ribeirão Preto buscar o socorro nesse sentido.

COTIDIANO
Nós comprávamos num armazém. O abastecimento da casa era feito em armazém; nós íamos buscar. O armazém tinha principalmente o manufaturado, açúcar, sal, fósforo. Como era uma cidade pequena e agrícola, como era o país, naquela ocasião, arroz nós tínhamos. Alguns dos cunhados, dos tios, plantavam arroz; outro feijão. Carne, naquele tempo, matava porco, fazia lingüiça, salgava tudo e pendurava. Naquele tempo era pouca gente que tinha geladeira. Muito pouca gente tinha geladeira, então era salgada a carne de porco, de vaca, para conservação.

TRANSPORTE
Eu me lembro de vir à Campinas uma vez por ano porque os meus tios – a irmã da minha mãe – morava aqui. Morava no Bonfim, na Avenida Governador Pedro de Toledo, pegado a essa Igreja do Bonfim. Eu tinha miopia e uma vez por ano eu vinha no Penido que era a maior autoridade, Instituto Penido Burnier, em matéria de oftalmologia. É a única cidade que me lembro de ter ido. Raramente ia a Ribeirão Preto. E me lembro talvez de umas duas vezes - porque tínhamos tios também em São Paulo - de duas ou três vezes que nós fomos pra São Paulo. Campinas era uma vez por ano. Íamos de caminhão. Como meu pai tinha caminhão, ia levar o carregado em São Paulo e nós íamos de caminhão. Vinha até Campinas também de caminhão, embora existisse o trem. Poucas vezes eu viajei de trem para cá. De caminhão eu vim mais. Era estrada de terra, uma viagem longa, uma viagem que tinha que almoçar e talvez jantar no percurso. De trem era até mais rápida, que nós tínhamos que pegar o trem da Paulista que parava em Barrinha - que é uma cidade próxima. Em Sertãozinho só parava Mogiana, mas só ia até Ribeirão Preto, era um ramalzinho muito pequeno lá em Sertãozinho, esse da Mogiana. Porque da Paulista nós tínhamos que ir à Barrinha. Barrinha é uma cidade que fica a uns 30 quilômetros de Sertãozinho e lá nós tomávamos o trem e vinha pra Campinas. Era uma situação normal. O que chamava a atenção é que lá no trem se vendia sanduíche, refrigerante. Era gostoso viajar de trem porque ia parando em todas as cidades. O apito do chefe da estação, o apito do trem, aquilo pra nós era uma coisa que chamava a atenção, uma coisa diferenciada. Dentro do trem nós ficávamos até sentadinhos, comportados, vendo e o tempo passando. Passavam os vendedores de revista, de jornal e o que se distraia muito era que no trem você podia deslocar o banco, ele virava, com freqüência ficavam passageiros conversando um de fronte do outro para o tempo passar.

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL
Eu comecei a trabalhar numa farmácia com 13, 14 anos. Na parte da manhã estudava no ginásio e na parte da tarde trabalhava na farmácia. Tinha duas ou três farmácias na cidade e essa era a mais importante, a maior, mais completa. Naquele tempo, era tudo aviado na própria farmácia. Hoje nós temos já tudo prontinho, de laboratórios; naquele tempo era na farmácia que tudo era feito. O médico prescrevia e o farmacêutico pegava os sais, os componentes, misturava e era aviado lá na própria farmácia. A minha função era varrer a farmácia, (risos) limpar, espanar, lavar vidro, lavar vidrinho porque naquele tempo o medicamento de maior expressão era a penicilina que era o antibiótico de hoje, pra infecção. E era um vidrinho, com uma borrachinha, com um envolto de alumínio; tinha no vidrinho a penicilina e depois injetava o líquido e aplicava a injeção. Aquele vidrinho era guardado. Isso eu que fazia. Dissolvia o sal de mercúrio e envasava tudinho naqueles vidrinhos. Primeiro lavava, 200, 300, 400 vidrinhos, depois punha pra secar, depois enchia um por um, vidrinho por vidrinho. Depois a rolha batia com uma gilete, cortava, aparava, aquela rolha, depois parafinava, punha a etiqueta do produto, porque lá não tinha só mercúrio; água oxigenada também, vários que fazia, porque a nossa farmácia era, já para a região, quase uma espécie de indústria porque isso tudo era vendido pras outras farmácias, e era muita coisa. Água destilada, isso eu me lembro muito, que tinha um alambique e eu, uma vez por mês destilava 200, 300 litros de água e engarrafava tudo pra depois ser vendido. E foi daí a minha vocação pra fazer química, por causa desse meu relacionamento com a farmácia. A profissão, muitos têm no sangue aquilo que realmente gostam, mas, na verdade, nós, às vezes acabamos sendo produto do meio, e acabamos sendo felizes.

JUVENTUDE
Era bailinho. Na minha cidade todo sábado tinha baile, cinema, clube. Nós freqüentávamos muito o clube. Tinha duas agremiações, o Clube e a Associação. Lembro-me muito, porque a praça, o jardim, onde tinha a Igreja Matriz, no centro tinha os táxis que ficavam parados, e aquilo era bem grande porque representavam duas quadras completas. Uma das coisas que eu me recordo muito era de que, nós jovens, e todo mundo, da cidade, ficavam andando naquela praça; as moças do lado de fora e os meninos do lado de dentro da calçada e em sentido contrário, sempre se encontrando e quando arrumava alguma namorada já ia pra dentro. Ali era pra arrumar namorada, ficava dando volta na quadra, quando arrumava ia conversar dentro da praça mesmo, nos bancos, nos bancos do jardim. Em Ribeirão Preto, pelo fato de ser maior, tinha mais atrações. O bosque, a Praça XV, onde todo mundo se encontrava, e em frente a Praça XV, recentemente tinha sido inaugurada as Lojas Americanas que era alguma coisa diferente, não só na montagem da loja. As Lojas Americanas foi uma evolução de estratégia de mercado, cada seção tinha um determinado produto. Em frente à Praça XV, em frente às Lojas Americanas era nosso ponto de encontro, de universitário, todo mundo, porque Ribeirão Preto era uma cidade universitária, muita gente de fora.

CIDADES / CAMPINAS / SP
Quando eu vim pra Campinas vim morar na Vila Teixeira na casa paroquial. O responsável era o Padre Ermínio e nessa casa paroquial nós éramos em seis, cada um veio de um lugar: o Geraldo que era de Jaú, próximo a Jaú; o outro era de Piracicaba... A nossa comunidade era muito freqüentada no bairro, ali era um ponto de encontro. O Padre Ermínio era muito aberto, muito receptivo e a casa sempre estava cheia. E depois eu já estava namorando minha atual esposa.

CASAMENTO
Eu a conhecia há muito tempo. Quando eu vinha pra Campinas, os meus tios eram vizinhos dos pais dela e nós nos conhecemos pequenos. Meu tio trabalhava na Cotai que era uma fábrica de linho, de rami e passado um tempo, essa fábrica fechou aqui em Campinas e abriu em Vinhedo, e já em grande escala. Meu tio era gerente comercial e eles mudaram para Vinhedo. Foi justamente quando eu deixei de vir à Campinas e passei a ir pra Vinhedo. Com isso nós crescemos e nunca mais nos encontramos. A minha esposa chama Maria Antônia. Na época de férias, ela saia para visitar parentes no interior e nós sempre nos desencontrávamos. Somente muitos anos depois que nós nos encontramos lá em Vinhedo numa Festa da Uva e começamos a namorar em 1963. E eu escolhi realmente fazer estágio em Valinhos, na Gessy, justamente por causa desse namoro, porque na minha região, tinha pouca indústria; o que tinha era usina açucareira, muitas usinas, alguns dos meus amigos foram trabalhar nessas usinas. Eu vim pra Campinas por dois motivos, o namoro e o parque industrial que a região possuía. Eu casei em 1966 já trabalhando na Gessy Lever. Nós morávamos no centro, lá na Rua Riachuelo, nas imediações da Casa de Saúde, naquela Praça Boaventura, uma transversal da Boaventura do Amaral. Nós tínhamos apartamento lá. Mais tarde quando nasceu a Alexandra, nós saímos do apartamento e viemos morar no Castelo; compramos uma casa no Castelo. A minha esposa era assistente social e trabalhou muito tempo no Colégio Progresso, na área de educação; eles estavam com o ensino renovado. A Dona Amélia Palermo era da coordenação ali.

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL
Foi um processo até interessante porque, depois da Segunda Guerra, o Brasil era eminentemente agrícola. Depois da Segunda Guerra, que terminou em 45, a partir da década de 50, o Brasil começou a se industrializar e a se desenvolver em todos os sentidos. Quando eu vim trabalhar na Gessy Lever o sistema de ônibus que a família da minha esposa tinha estava em franco desenvolvimento. Eu trabalhando na Gessy Lever e meu sogro me convidava... Meu cunhado já trabalhava na empresa e meu sogro sempre me convidando para trabalhar com eles, porque aquilo estava crescendo. Mas acontece que eu era muito feliz naquilo que fazia, não queria vir, porém um fato ocorreu comigo lá na Gessy Lever: eu no laboratório cuidava da perfumaria porque os buquês, os perfumes que iam no sabonete, eram desenvolvidos na Gessy Lever, e o que era? Era uma mistura de aproximadamente 80 essências, cada uma com uma finalidade. O perfume é uma mistura de muitas essências e era produto caro. Quando a Gessy comprava, eu analisava quimicamente o grau de pureza daquilo que estava comprando, porque se tivesse algum produto de enchimento, não de falsificação, mas aquilo que nós pagávamos de acordo com o grau da pureza que tinha, 90, 85%, 100%, e assim por diante. Quem coordenava tudo era um inglês perfumista chamado Peter Boom. Esse Peter Boom era do desenvolvimento e ele respondia por tudo. Eu fazia análise química dos produtos, porém o cheiro é que era o elemento principal da essência, do produto, da matéria-prima. Eu tinha contato com o Peter Boom e como eu perguntava muito para ele, ele viu que eu me interessei pelas coisas, ele me passava literatura. E um belo dia, esse Peter Boom voltou pra Inglaterra (risos). Conhece aquele ditado? “Na terra de cego quem tem um olho é rei.” Eu assumi as funções do Peter Boom, o desenvolvimento. A Gessy me matriculou em uma escola de inglês para eu aprender, conhecer a língua. Passado uns seis meses, oito meses, me sugeriram, que eu fosse para a Inglaterra ficar um ano junto da matriz pra ter conhecimento profundo do pensamento da empresa e o contato, me preparar melhor. E esse fato me assustou um pouquinho. Eu já comecei a deixar de ser tão feliz assim, porque eu achava que a empresa ia investir um dinheiro em mim e eu ia deixar de, moralmente, de ter aquela liberdade de sair quando bem entendesse. Isso junto com o meu sogro convidando, convidando, eu decidi sair da empresa, mas eu fiquei oito meses na empresa porque eu vi um rapaz, que tinha aptidão pela coisa porque perfumista é o tipo da coisa que você precisa ter feeling, precisa gostar da coisa, eu percebi que ele tinha, eu comecei a treinar, passar tudo que eu sabia, passei, passei, passei. Quando eu percebi que ele já estava apto para o trabalho, eu me desliguei da empresa, que foi em 1969, em julho de 1969. Foi quando eu vim trabalhar na empresa, na Viação Caprioli.

VIAÇÃO CAPRIOLI
A minha vida mudou radicalmente, embora eu tivesse e gostasse, porque como meu pai era caminhoneiro, já me identificava, e justamente na empresa em uma área, não a comercial, mas sim a operacional, mecânica. Foi aí que eu fui fazer Engenharia Mecânica. Não na comercial, contábil, essa coisa não me fascinava nada, mas operacionalmente. Tanto é que na empresa, o meu cunhado representava o comercial e eu a operacional, que na verdade era a empresa propriamente dita, o outro era acessório, um controle, mas a empresa em si era o operacional. Eu conversava muito com o meu sogro e eu me dava muito bem com os dois, tanto com a sogra como com o sogro. Conversávamos bastante. Ele me dizia: “Olha, a empresa é bom que você venha, afinal de contas você tem que ajudar a cuidar daquilo que é da sua esposa.”, Ele me passou o que eu tenho da história da Caprioli, costurando e juntando, informações de ex-funcionários da época, tios, a Caprioli, na verdade a família italiana, o patriarca era o Savério Caprioli, que na Itália, na região de Rieti, nordeste de Roma, uns cem quilômetros de Roma, a família tinha plantação de fumo, mas só que era uma época muito difícil. A Europa, a Itália sobretudo, o Savério resolveu vir para o Brasil em 1911. Veio com os filhos, com o Mário, com o Anastácio e com mais duas filhas, me parece que outras nasceram já aqui no Brasil. Em 1911, eles vieram e se estabeleceram na zona rural de Vinhedo, de Louveira e foram trabalhar como colonos. Há uns três meses atrás eu fui visitar uma fazenda chamada Pau-a-Pique, junto ao Hopi Hari... Onde é o Hopi Hari foi uma parte que se tirou, vendida dessa fazenda Pau-a-Pique e onde eles eram colonos. E nisso eles ficaram uns 15 anos trabalhando lá como colonos e compraram nessa antiga estrada de Indaiatuba, no bairro chamado Três Vendas, eles compraram um armazenzinho e alguma terra. Ali eles começaram o negócio deles, tinham um caminhãozinho e aos sábados, vinham pra cidade abastecer o armazém com manufaturados, vela, fósforo, sal, querosene, porque naquele tempo tinha (risos) tinha muita lamparina, a luz, e a vizinhança até pedia carona nesse caminhãozinho para vir e vender os produtos produzidos por eles, que eram queijo, arroz, feijão, ovos, frango; eles pediam carona nesse caminhãozinho pra vir pra cidade. Então eles vislumbraram um negócio. Venderam o caminhãozinho e compraram a primeira jardineirinha. Era tipo um bonde, toda aberta, e em 1928 começaram da Fazenda Descampado, que era um pouquinho além das Três Vendas, a ligar com Campinas. Hoje essa Fazenda Descampado corresponde ao bairro São Domingos aqui de Campinas. Foram, mas de uma forma muito amadora, tentaram, fizeram, não deu muito resultado aí pararam. O irmão do Mário Caprioli, Anastácio, foi pra Atibaia; ele faz transporte de Atibaia à Bragança Paulista, e nisso eles foram até 1932. Com a Revolução de 32, a Fernão Dias estava muito próxima e os mineiros vinham... Eles assustaram, pegaram no finalzinho e vieram pra Campinas. E eles com a jardineirinha. Vieram porque já tinha algumas empresas instaladas na região, o Bonavita e o Indaiatuba. Já havia empresas e o que sobrou foi Capivari. Eles passaram, em 1933, já de uma forma com linha regular, normal, fazer Capivari, Monte Mor, Campinas. E, embora existisse uma empresa, de um ônibus só também, da família Cuta, que fazia Monte Mor à Campinas, eles se davam, não tinha concorrência. O Cuta saía antes e o Caprioli passava em Monte Mor depois. O Cuta, por outro lado, saía mais cedo de Campinas para Monte Mor e o Caprioli saía um pouco mais tarde porque ele esperava o trem chegar, o trem das 18 que chegava aqui na estação, na Fepasa [Ferrovia Paulista SA], e levava o pessoal pra Monte Mor e Capivari. Na época da Guerra - isso meu sogro dizia - tudo era racionado. A cidade que tinha trem não tinha cota nenhuma de combustível e cidade que não tinha trem tinha cota de gasolina, que era o caso de Monte Mor. Gasolina se comprava no câmbio negro, porém se desenvolveu um equipamento chamado gasogênio que se adaptava atrás, era uma fornalha de carvão, que substituía, que movimentava o motor, mas era de baixo rendimento; os ônibus no plano era o gasogênio, na subida acionava gasolina para poder subir porque senão o gasogênio não tinha força para subir ladeira acima, e pra baixo nem gasolina e nem gasogênio, soltava o ônibus e ia só segurando pra economizar a energia. Nessa época eles compraram essa empresa do Cuta, por causa do combustível, e se passou a ter as duas linhas: Capivari-Monte Mor-Campinas e Monte Mor-Campinas. Isso já em 1942, mas as coisas aconteciam meio a passos lentos. A partir de 50 sim, porque começou a evoluir, crescer, foi mais ou menos nessa época que os sócios da Caprioli, o velho Savério, o irmão Anastácio e o Mário... Porque em 33, o Anastácio e o velho saíram do armazenzinho, vieram pra cidade e venderam aquela jardineirinha que era aberta; compraram uma fechadinha que puseram em Capivari-Campinas, e o Mário ficou no armazém. Ele dizia até que o dinheiro todinho do armazém pegaram pra comprar essa jardineira que era mais moderna. Eles ficaram até meio descapitalizados, mas dois anos depois ele conseguiu erguer e vendeu e com o dinheiro que ele vendeu, veio e se associou ao irmão e ao pai. Ficaram os três sócios. Nessa época de 42, o irmão não quis mais o negócio, então o Mario Caprioli comprou a parte do irmão, ficou o Mário Caprioli com 66% e o pai com 33% da empresa de ônibus. Quando foi em 1950, em torno de 50, eles compraram uma empresa urbana de Campinas que chamava Alira. Naquele tempo, claro que o transporte mesmo, o glamour, era o bonde. O ônibus fazia aquilo que o bonde não fazia, os bairros onde o bonde não atingia. Embora o serviço, o transporte, desses bairros fosse feito pelo bonde, muitas empresas vinham da vizinhança que servia até de ônibus urbano, igual a Caprioli: pegavam o pessoal do bairro Boa Vista para cá, o Bonavita pegava toda essa região do aeroporto para cá, os Capelato de Valinhos. Os ônibus da região complementavam o transporte do bonde. Nessa época, o prefeito da cidade resolveu colocar o serviço de ônibus, que até então não tinha. Nessa época, a cidade contava com duas empresas: a Alira que era da Caprioli, e o Bonavita. Eles se dividiram da seguinte forma: a Caprioli ou Alira fazia Vila Teixeira, Vila Industrial, Parque Industrial, Swift e Bosque. A divisão era mais ou menos assim. Por outro lado, a Bonavita fazia o Castelo, Cambuí, Guanabara, Taquaral e tinha no centro uma empresa, uma única empresa que era do Sorocabano, que era de uma família de Sorocaba, que fazia do centro até a Bosch; a Bosch tinha sido recém-inaugurada, levava os empregados, fazia esse serviço, porque o bonde parava aqui no... Vinha pela Governador Pedro de Toledo e parava ali no início da Quintino Bocaiúva; ali que parava o bonde e como a Bosch era ali, próximo a Anhangüera, que naquele tempo acho que nem Anhanguera tinha, o ônibus do Sorocabano ia até a Bosch. Em 1956, a Viação Cometa estava em expansão, comprou em Sorocaba a empresa Sorocabana e veio essa linhazinha do centro até a Bosch. O Cometa que fazia essa linha. Segundo meu sogro, era uma época muito difícil, porque tudo era importado. Primeiro, o transporte era o bonde, o passe do bonde era uma moeda, custava 50 centavos, correspondia a um jornal e a um café; era uma moeda, você tomava café, era um real e recebia de troco o passe do bonde. O bonde foi até 1969, depois teve a decadência, aquela coisa toda. Mas nessa época o bonde era o transporte, era tudo tranqüilo, embora ele fosse lento, mas o clima da cidade permitia isso, e para o ônibus era muito difícil porque tudo era importado, não se tinha peça disponível com facilidade, a reposição, era tudo muito improvisado. Tinha dias que ele me disse que de três ônibus fazia um, pegava o chassis de um, o motor do outro e o câmbio do outro, porque não tinha essa reposição. Tinha dia que tinha peça, mas não tinha dinheiro e tinha dia que tinha dinheiro, mas aí já não tinha peça; era muito difícil, muito difícil. Quando em 1956 eles resolveram vender pra essa empresa Sorocabana, para o Cometa que passou a ser CCTC, Companhia Campineira de Transporte Coletivo; o serviço urbano da cidade era Cometa. Mais tarde eles compraram ou se associaram aos bondes e fizeram o sistema urbano de Campinas que era CCTC, que foi até 1981, 1985. Eram aqueles ônibus vermelhos, acho que é da época de todos nós aqui. Eles venderam e o Caprioli só ficou com as linhas regulares dele; começou a expandir também. Com recurso da venda, eles compraram a linha de Jundiaí-Campinas, compraram a linha de Limeira-Campinas, depois Sumaré-Campinas. E gozado que essa linha teve um fato: como o bonde era o transporte, entre cidades era o trem, e quando eles compraram tinham três horários somente; era estrada de terra de Campinas à Jundiaí e eles compraram; o trem que era o transporte oficial, preferido. Acontece que uns seis meses depois que eles compraram que a Companhia Paulista de Trem, que era Paulista, entrou em greve, não sei por que, entraram em greve, e foi muito demorada, um mês parece; me parece que foi muito demorado aquele processo de greve, e com isso o ônibus passou a ser o transporte, com o trem parado e essa linha de Jundiaí começou a prosperar. Compraram mais ônibus e depois quando o trem voltou eles tomaram conhecimento desse novo tipo de transporte que era mais ágil, que era o ônibus, porque o trem até então não era com muita freqüência porque ele tinha dez vagões e em cada vagão cabiam aproximadamente 60, 70 passageiros. Se eram dez vagões, eram 700 passageiros que você tinha que concentrar. E o ônibus, naquele tempo, era de 32 lugares. Ele tinha muito mais freqüência porque para você juntar 20, 25 era fácil. Passou o ônibus, foi um processo, o ônibus passou a ser um transporte reconhecido e coincidiu. Isso nós estamos falando já em 65. Foi em 60, mais ou menos, que eles começaram com a empresa, começou a asfaltar, abrir mais estradas e passou a se desenvolver muito o transporte. Em 1956, veio a Mercedes para o Brasil. A Mercedes-Benz se instalou e começou a produzir em 1958, produzir ônibus aqui. Aliás foi o que facilitou. O meu sogro dizia que se tivesse vindo a Mercedes antes, com a fábrica aqui, talvez eles não tivessem vendido por causa da reposição, porque aí começou a coisa a ficar mais fácil, ter a reposição no mercado. E junto com isso se desenvolveu estrada, transporte. Já entramos na década de 60 e a indústria está crescendo. Campinas era uma cidade talvez de uns 300 mil habitantes, mas de qualidade de vida muito boa. Já contava com algumas indústrias, a Bosch, a GE, a 3M, a Pirelli, a Clark, a Gessy Lever, a Carborundum. E era um processo interessante de emprego. Como o país tinha deixado de ser agrícola para começar a industrialização, a coisa começou a prosperar, tanto é que a partir de 68, finalzinho dos anos 60, Campinas começou a crescer com novas indústrias: veio a Mercedes-Benz, a IBM, a Petrobras com a refinaria da Replam em Paulínia, outras empresas e já havia a Unicamp... Principalmente com a Petrobras vieram empresas de artefatos, coisa de petróleo, desenvolveu muito e cresceu muito a região, muito, muito. Porque eram processos cíclicos, incentivava a vir instalar indústria e novas indústrias absorviam mais gente. Vieram muitos mineiros, muita gente veio, a ponto de na década de 70, 40% eram campineiros e 60% eram de gente de fora. Todos nós viemos de outra cidade por causa do crescimento, por causa desse processo de crescimento da indústria. Você toma como exemplo a Compact. A Compact veio de Houston, nos Estados Unidos, se instalaram aqui em Jaguariúna e em seis meses já estavam produzindo computador. O que eles fizeram? Pegaram um percentual de funcionários que trabalhavam na Bosch, na 3M, na GE, na IBM, e uns 10, 15% eles trouxeram. Em seis meses já estavam trabalhando. Se essa empresa tivesse ido pra outra região, ia levar pelo menos cinco anos pra preparar esse pessoal, os operadores. Campinas foi favorecida e esse crescimento, essa explosão de indústria trazia gente, mão-de-obra especializada que incentivava novas indústrias. E com isso tudo cresceu: o transporte, a cidade. Começou a vir a especulação imobiliária, as cidades vizinhas como Hortolândia, Sumaré, teve grandes loteamentos pra absorver todo esse pessoal que estava vindo aqui trabalhar e aí não parou mais.

COMÉRCIO DE CAMPINAS
Campinas sempre foi pra região, um centro de abastecimento comercial, hospitalar e educacional. Isso não só pra região como também para o Estado todo e para o Brasil todo. Isso se consolidou, o comércio expandiu, novas lojas vieram, porque até então era armazém, armarinhos, secos e molhados. Começaram a vir empresas como a Sears, Lojas Americanas, que tinham outro conceito de negócios. Desenvolveu muito. O comércio, de modo geral, começou a se especializar e a se modernizar, porque com esse novo desafio quem não se movimentasse ficava pra trás. Até uma loja que era diversificada começou a se especializar, por exemplo, a Cecato que passou a ser só de alumínios, coisas de casa, e isso trouxe um desenvolvimento. Grandes lojas de tecido como tínhamos a Clipper, a Renner, que eram lojas de departamento, um montão.

CRESCIMENTO DA CAPRIOLI
A Caprioli foi crescendo junto com Campinas. Na década de 70, a coisa explodiu e as duas empresas de Campinas... Eu não sei se eles não quiseram acompanhar esse crescimento, esse desenvolvimento todo porque surgiram muitas empresas em Campinas, muitas empresas. Hoje tem umas 80 empresas servindo as indústrias, levando seus funcionários. Diria Capellini, Casonato, Solemar, Tepar, eu até preciso parar aqui porque senão eu vou fazer injustiça com algumas das empresas que são muitas, são aproximadamente umas 80. Foi um crescimento de um, depois dois ônibus. E depois já em 60 ficou mais acelerado, já crescia cinco a dez ônibus por ano e com a indústria já começou a crescer, renovar a frota. Hoje a Caprioli, está com 300 ônibus atuando no segmento rodoviário. E nós tínhamos o segmento urbano e suburbano que nós vendemos. Nos localizamos só no rodoviário. Isso foi no começo desse ano, a empresa tinha aproximadamente 500 ônibus, hoje tem 300, nós tínhamos aproximadamente 1.500 funcionários, hoje temos 800. Ela direcionou para o ônibus rodoviário. O que é ônibus rodoviário? É aquele com uma porta só e o urbano e suburbano são duas portas. Nós temos as linhas regulares, normais, aqui pela vizinhança, nós atendemos a cidade de Valinhos, Vinhedo, Louveira, Jundiaí, Várzea Paulista, Campo Limpo, São Paulo, depois nós fazemos Monte Mor, Elias Fausto, Capivari, Rafard, Tietê, Laranjal, Conchas e vamos até Botucatu. Fazemos também Campinas à Limeira, Limeira à Piracicaba. As mais recentes são as linhas dos aeroportos, que são: de Campinas ao Aeroporto de Guarulhos, e a Congonhas e ao Aeroporto de Viracopos. O segmento está em crescimento; isso como linha regular. Temos o segmento que é de fretamento para as indústrias. Hoje nós trabalhamos com uns 50 ônibus na Motorola, trabalhamos para a Mercedes, Arcor, que é a antiga Danone, CPFL, a Unicamp, Tetra Park - essas, se não estou esquecendo de alguma. Isso em termos de fretamento de Campinas. Nós temos a base em São Paulo e o nosso forte lá é o transporte de tripulações. Nós transportamos dez tripulações internacionais, porque nas nacionais os funcionários moram em São Paulo ou no interior. Os internacionais nós levamos do aeroporto para os hotéis. Nós trabalhamos com a American Airlines, Air Canadá - isso da América do Norte - e na Europa, quase todas: a Tap, a Ibéria, a Alitália, a Swiss, KLM, Lufthansa, SAA, que é a South African Airways e recentemente a Emirates que a partir do dia 1º de outubro passou a voar dos Emirates aqui para Guarulhos. Outro segmento que nós também desenvolvemos é o transporte de delegações de futebol. Nós transportamos o São Paulo Futebol Clube em todo lugar que ele vai jogar ou dentro de São Paulo. Nós levamos o Palmeiras, o Juventus, o Corinthians, eventualmente, porque eles tem transporte próprio, mas é muito tumultuado; é muito caracterizado o ônibus, é identificado e quando é jogo de risco, eles contratam o nosso, sabe porque? Porque se mistura no meio e não chama a atenção, porque o ônibus deles é todo pintado, Corinthians Aqui em Campinas, levamos a Ponte Preta, o Guarani e também o União São João, de Araras, no interior. No Campeonato Brasileiro, nós temos um contrato com a CBF [Confederação Brasileira de Futebol]: todos os times que vêm jogar em São Paulo, nós pegamos no aeroporto, levamos ao hotel, levamos ao treinamento, e levamos no dia do jogo. Isso não é só na primeira série. Também na segunda série. Praticamente levamos todos os times que vem jogar em São Paulo. Estamos falando do Flamengo, Vasco, Fluminense, Grêmio, Inter, Atlético, Cruzeiro, Sport Recife, assim como também Curitiba. Aliás, fomos nós que desenvolvemos o ônibus que é o leito turismo. Até 1978 nós transportamos a delegação do Guarani, os ônibus já eram esses convencionais de 40 lugares e o que se tinha era o ônibus leito. O ônibus leito, na verdade, eram duas poltronas, o corredor e outra poltrona porque ele era bem largo, no sentido lateral, muito conforto. Mas era um ônibus de 18 lugares e eles alongaram pra 23, mas era insuficiente pra uma delegação de futebol, que são aproximadamente 30 pessoas que viajam, entre os titulares, reservas, técnico, o médico, o preparador físico, administrador, arrecadador. São 30 elementos que compõem uma delegação e, naquele tempo, o ônibus era o convencional e nós só transportávamos o Guarani e a Ponte Preta. O Carlos Alberto Silva, que era o técnico do Guarani, queria alguma coisa mais confortável, porque ele dizia que o ônibus, esse convencional, o jogador ia a Araraquara, Ribeirão Preto e no jogo ele sofria muita escoriações, muito confronto, e o fato dele viajar três, quatro horas sentado e com a perna em ângulo de 90 graus, inchava e agravava qualquer coisa. Então, ele queria o ônibus leito, mas não tinha, era insuficiente. A Caprioli junto com a Marcopolo... Procuramos várias fábricas de carrocerias, mas nenhuma delas se interessou, mesmo a própria Marcopolo não se interessou muito: “Olha não tem jeito, não tem isso, não tem aquilo...” Até que um dia veio o gerente comercial numa visita a nossa empresa e eu expus o projeto: ao invés de duas poltronas, o corredor e uma, nós propusemos duas e duas, no sentido lateral; ele passou a ser como se fosse um convencional, mas no sentido longitude, ele passou a ser um ônibus leito, com todo aquele conforto, descansa-pé e tudo. Na verdade, o que o ônibus tinha: a poltrona que equivale a uma poltrona dessas que é bem espaçosa e tinha o bracinho direito, tinha o porta-copo, tinha o outro bracinho; o que fizemos, sugerimos, o bracinho ser comum às duas poltronas; o porta-copo nós colocamos na lateral do ônibus e assim foi possível fazer um ônibus leito com mais lugares. Por muito tempo, esse tipo de poltrona só nós tínhamos. Foi quando esse gerente ligou para a fábrica e falou: “Olha, a Caprioli está querendo alguma coisa nova e como nós também estamos buscando uma coisa nova que tal essa idéia...” Correu tudo por conta e risco nosso, porque as empresas tinham os projetos em desenvolvimento e o que nós sugerimos é que a poltrona larga fosse tirado um pedaço dela central, espuma colada, tirado os dois bracinhos e colocado um só, então o projeto foi por conta e risco. “Vamos fazer” Nós compramos a idéia e ficamos naquela “fica bom ou fica ruim”, e acabou dando certo. Por muito e muito tempo lá na Marcopolo, em Caxias do Sul, a poltrona era do tipo Caprioli. Ela foi chamada poltrona tipo Caprioli por muito tempo. Outras empresas começaram a ver os confortos e começaram a comprar também essa poltrona que mais tarde passou a chamar leito turismo. Antes tinha o leito puro e, hoje, com o tamanho dos ônibus, no máximo são 28 poltronas; e o leito turismo passou a ser com 34 até 40 com double deck, com ônibus assento em baixo e em cima com 40 poltronas; até então era 30, no máximo. Hoje chama leito turismo.

FAMÍLIA
A Caprioli é uma empresa bem familiar. Não são só os meus dois filhos, mas trouxemos pra trabalhar conosco, as sobrinhas, filhas daquele ex-sócio, que trabalham conosco. Aquele pessoal do Anastácio que lá em 42 vendeu a parte dele para o Mário Caprioli. O Anastácio teve dois filhos e os netos estão todos trabalhando conosco; os que quiseram vir, recebemos de braços abertos. Eu tenho um casal de filhos. Vim, em 69, para a Caprioli. Em 72, o meu sogro faleceu e eu e o meu cunhado assumimos a empresa. Quando foi em 77, 78, o meu cunhado quis mudar de atividade e nós compramos parte dele da empresa. Ele foi pra Bahia numa nova atividade. Nós começamos com esse desenvolvimento e o outro segmento que era o turismo. Além das linhas regulares, de fretamento para as indústrias e para fora de Campinas, havia o turismo próprio, que foi um segmento que nós passamos a ter; a nossa agência de turismo, fazer os pacotes, porém o que mais nós nos especializamos foi no fretamento para as outras empresas de turismo. Passamos a ter ônibus modernos com ar condicionado, televisão, toalete, e com isso nós passamos a desenvolver o fretamento do turismo, embora tivéssemos o nosso também. Minha filha Alexandra cuida do turismo. Ela fez turismo, é professora da PUC, na faculdade de turismo, e é hoje presidente do Campinas Convention & Visitors Bureau. Eu e a Maria Antônia continuamos na empresa: eu na administração e ela como assistente social. Ela trabalhou por muito tempo no Colégio Progresso, mas como estávamos em desenvolvimento, eu a convidei para vir para a empresa. Naquele tempo, eu que entrevistava, nós fazíamos tudo, tudo, todas atividades na empresa praticamente. Eu participava, depositava dinheiro (risos), entrevistava as pessoas, contratava, treinava e... Se bem que o treinamento, a Caprioli sempre foi uma empresa muito estável e de funcionários muitos estáveis. A grande vantagem que nós temos é que os novos são treinavam pelos antigos. Hoje a nossa média de estabilidade é grande. Nós temos funcionários com 52 anos de empresa; são dois. Com 45, 40 anos, temos muito. Com 20, 25, também. Por que? As outras empresas não aceitavam parentes e a Caprioli incentiva que os filhos de funcionários venham trabalhar conosco. Nós temos lá famílias de cinco, seis pessoas; é o marido, a esposa, o irmão, o cunhado, sobrinho. Muitos entendiam que isso significava algum risco, mas nós não entendíamos assim.

RECURSOS HUMANOS
Com esse crescimento da empresa, a Maria Antônia, como trabalhava com serviço social, veio para cuidar dos Recursos Humanos, montar o Departamento de Recursos Humanos, porque nós tínhamos nada mais de que o Departamento Pessoal, que era registrar, pagar. Foi formado um departamento e ela passou a ser muito importante dentro da empresa, porque criou um departamento com todas as atividades, ambulatório; nós temos médico, enfermeiro, as psicólogas do recrutamento, assistente social para acompanhamento, temos uma estrutura, treinamento. Hoje ela preparou, profissionalizou o departamento. São os gerentes e ela. Três vezes por semana, meio período, trabalha lá na empresa. É um departamento muito importante que dá segurança pro pessoal e a grande verdade é que nós entendemos que o maior patrimônio que uma empresa tem é o seu pessoal. Não são os ônibus, porque ônibus é só você ir ao concessionário, com financiamento fácil, você consegue. O difícil é você ter esse pessoal, ter esse diferencial, e a Caprioli se caracteriza por isso. Claro que nós temos todo tipo de funcionário também, mas trabalhamos muito o relacionamento do motorista com os passageiros e ele como um todo. São quatro os quesitos que nós estamos sempre atentos: o primeiro é o motorista dirigir com segurança, isso nós trabalhamos muito, trabalhar com segurança, manter distância de ônibus, dia de chuva diminuir velocidade, tudo aquilo que é um perigo para o acidente e hoje cada vez mais com o trânsito intenso, ele se propicia para isso. Esse é um quesito que nós trabalhamos muito. O segundo é o motorista enquanto profissional do ônibus, ou seja, saber cuidar da ferramenta de trabalho dele, com zelo, passar em buraco sem quebrar, quando parar num sinaleiro, não ficar com o pé na embreagem e freio, e também conhecer os primeiro socorros do ônibus; ele não precisa fazer nada, absolutamente nada, mas ele precisa registrar, porque a equipe de manutenção corrige aqui. O terceiro quesito é o relacionamento com passageiros, que é muito importante, porque você sabe que não é só você ser motorista que está tudo certo, não; porque existem esses caminhões grandes, esses caminhões de transporte, essas jamantas, que o motorista, a bem da verdade, ele fica bem à vontade de chinelo, de bermuda, de peito aberto; pára a hora que quer parar, continua a hora que quer continuar, ele é muito independente e dirige só, ele é muito solitário. Esse profissional, embora ele tenha esses dois quesitos perfeitos, de um a dez, ele tem nota oito ou nove, porque ele dirige bem e sabe cuidar do seu ônibus, agora esse quesito relacionamento é difícil, porque ele tem de ser adaptado, preparado, porque pra ele o passageiro é um ruído, é um zumbido, essa distinção é muito característica. Por outro lado, o motorista de ônibus gosta de ter platéia, não é um solitário e o de carreta, esses ônibus, esses caminhões, esse é um solitário. Na verdade, esse relacionamento nós trabalhamos muito. O quarto quesito - tudo nós conversamos, na empresa tudo tem conversa, tudo se acerta, tudo, a única coisa é bebida, que lá não se permite. Nós exigimos ou orientamos que todos os funcionários fiquem atentos pra algum colega, porque é muita responsabilidade da empresa, não só civil e criminal, como humana mesmo. A única coisa que a empresa tomou conhecimento que algum motorista tem alguma dosagem, isso na seleção, a gente tenta já captar; esse acompanhamento é muito intenso. A Maria Antônia que desenvolveu esse Recursos Humanos,visita os familiares, faz acompanhamento em caso de doença e isso dá muita segurança porque nós somos pra esse pessoal o ponto de referência. Não só como referência financeira como também social. Nós é que somos o porto seguro desse pessoal. É o Recursos Humanos que aproxima, que faz, e nada mais que a dona mesmo. Ela é muito humana e, na verdade, (risos) eu que vim de uma família simples, de caminhoneiro. As coisas são mais fáceis, por incrível que pareça. Tenho uma particularidade, o dinheiro não mexe comigo; claro que nós dependemos dele porque é o relacionamento que nós temos, do negócio. Eu desde quando vim da Gessy, praticamente o salário que eu tinha é esse que eu vivo, com um salário, assim como a Maria Antônia. Todo dinheiro da empresa é reinvestido nela. Isso até é o elemento de prosperidade para a própria. Nunca foi desviado dinheiro pra outro tipo de coisa. Nem sei se estou certo, mas não foi. A não ser outra atividade que a gente desenvolveu que é a Caprioli Turismo.

AVIAÇÃO TRIP
Quando meu filho se formou em Administração de Empresas veio trabalhar conosco. A partir de 90, 90 e pouco, 92, o espaço aéreo foi liberado. Antes era restrito a três empresas: a Varig, a Vasp e a Transbrasil. A partir de 90 abriu o espaço aéreo pra novas empresas. Nós passamos a sentir que ônibus ia ter... Como o nosso país tem um tamanho continental, achamos que o avião ia crescer e se desenvolver, e como de fato isso está acontecendo. E que o ônibus ficaria restrito a uma faixa de 500 quilômetros. Acima disso seria avião. Com isso, compramos dois aviões Brasília e fizemos nossa empresa aérea, regional. Achamos que ia se desenvolver muito. O aeroporto de Viracopos - estudos que nós tivemos conhecimento, apesar do terceiro terminal em Guarulhos, hoje tem dois e está projetado um terceiro -, mas Guarulhos seria um aeroporto nacional e grandes distâncias. Congonhas seria (risos), aliás, o que é a partir de 1º de outubro que já tinha esse projeto, de ser um aeroporto regional e ponte aérea que seria os Estados, as Capitais, limítrofes de São Paulo, que seria Rio, Belo Horizonte, Curitiba e Brasília; que esse trânsito ia ser tão intenso que aquele aeroporto ia absorver isso e o de Guarulhos, Nacional. E o aeroporto de Viracopos voltaria a ser como foi até 85, o Aeroporto Internacional; era uma ligação rápida com a Capital. Começamos a por o pé aqui em Viracopos pra alimentar e escoar esse movimento internacional, só que até hoje, esse nosso plano, muito tímido pra Viracopos... Nós criamos a TRIP, que é a nossa companhia aérea que significa: Transporte Regional Interior Paulista, uma empresa do interior paulista voltada pra Viracopos, mas acontece que muitas oportunidades surgiram, porque o processo da aviação com o espaço aberto ele passou a ser muito competitivo e empresas começaram a se desenvolver como TAM, principalmente, e mais tarde a GOL. E vieram empresas com estruturas modernas, modelo fechado, aliás era o modelo, que preferiam levar 20 passageiros pagando 40, do que 40 pagando 20; o resultado dá no mesmo, eles preferiram 20 pagando 40 do que 40 pagando 20 e esse sistema não deu certo e todas quebraram, desapareceram. Surgiu muito espaço, por exemplo, a Varig deixou várias linhas regionais, a TAM se projetou nacionalmente e vendeu todos os Fokker 50 dela, regionais, a Nordeste, a Rio Sul que era regional também foi parando. Nós fomos aproveitando desses espaços. A TRIP começou com dois Brasília; hoje já estamos com dez aviões ATR que são turbo próprio para regional, mas com maior capacidade. Hoje já estamos com três ATR 72 que são para 70 passageiros. Nós já ligamos a capital do Paraná, Curitiba com Cascavel, Londrina, Maringá, Campo Grande ligamos com Rondonópolis, Dourado, Corumbá. Cuiabá nós levamos para o interior que é Sinop, Alta Floresta, e vamos até Vila Velha. Na zona na Região Amazônica, de Manaus a toda bacia Amazônica; nós estamos, que é único meio de transporte, ou eles viajam de barco dois, três dias, ou então viajam conosco em quarenta minutos. Temos na Região Nordeste, foi a primeira que nós começamos praticamente, que é de Fernando de Noronha, de Recife a Noronha, e Natal a Noronha, e é o meu filho que cuida dessa parte.

PROPAGANDA
Na década de 70, a coisa explodiu. A coisa cresceu muito e muitas outras empresas surgiram, muitas empresas de ônibus e nós representávamos uma tradição. O que nós começamos a vincular, comercial, mais na televisão que era o elemento mais rápido para se dar conhecimento. Nós fizemos um comercial com nossa jardineirinha, que nós mantemos até hoje, ela vem desde 33 como serviço regular, porque a medida que surgiram novas empresas e muita gente veio, ficaram todas niveladas, todas elas ficaram mais ou menos niveladas, em termos de conhecimento. E em Campinas, nós éramos os primeiros. Nós começamos a divulgar a Caprioli e isso começou – interessante - a trazer alguns resultados; a propaganda, a divulgação, rádio, televisão, jornal, a Caprioli começou a se destacar em termos de nomes. Hoje a Caprioli é uma espécie de bandeira para o campineiro, onde ela vai. Em Guarulhos, quando você chega, você vê a Caprioli, você já se sente em casa; tem alguém da minha família aqui, porque ela se popularizou. Esse transporte de futebol também, desse pessoal, isso difundiu muito. Quando nós chegamos em Porto Alegre é assim: “A Caprioli que leva o Grêmio, que leva a Seleção Brasileira, que leva isso...” Isso em Minas ou onde nós vamos. A empresa tomou um... Ela é um marco, ela é um elemento da cidade. É um identificador da cidade, tem cidade que se caracteriza por alguma coisa; a Caprioli se mistura com a cidade. A nossa empresa é a marca mais lembrada em Campinas, por quê? Porque todo mundo conhece, todo mundo, numa pesquisa que fizeram: “Olha, me dê três nomes de empresas de ônibus.” Entre as três, a Caprioli está. Se for garoto, provavelmente, o ônibus escolar que leva, que ele usa todo dia, ou aquele ônibus que talvez leve o pai dele pra trabalhar e que passa em frente da casa dele. Ou quando não é a Caprioli em primeiro, mas entre três nós somos sempre lembrados como ônibus, tanto é que se institucionalizou: “Ah, vou pegar um Caprioli.” “Para onde você vai?” “Vou para o aeroporto, vou pegar um Caprioli, vou pra São Paulo, vou pegar um Caprioli.” É uma marca e isso ficou em função da mídia que nós começamos lá trás; começamos e se você perceber, poucas empresas investiram na mídia, poucas, isso é um diferencial porque quem não é lembrado, é esquecido. O que nós percebemos bastante, também, é que alguém vai de viagem de casamento, de passeio e na hora fala: “Vamos para tal lugar?” “Vamos.” “Vamos ver uma empresa.” “Vamos. Tem a Caprioli.” O nosso pátio, no final de semana, praticamente não tem ônibus. Se tivesse mais ônibus, mas eles sairiam, o que é o inverso de muitas outras empresas que, às vezes, estão com seu pátio lotado.

DESAFIOS
Eu nem sei se exigia muito tino para o negócio. Algumas coisas precisaram realmente, isso eu reconheço, mas na verdade foi o próprio crescimento: de dois ônibus precisava de três, então vamos. Às vezes, até relutava em comprar o terceiro, mas acabava comprando e assim foi crescendo. Eu até diria que não sei se nós puxamos ou se fomos empurrados.

COMÉRCIO DE CAMPINAS
As cidades também estão se desenvolvendo, começam a ter um comércio local forte, bom, crescido. Porém, na hora da decisão, eles vêm à Campinas. O Shopping Dom Pedro é considerado o maior shopping da América Latina e se nós formos lá, todo dia, principalmente à tardezinha (risos), que é o que eu consigo ir, e durante o final de semana, nós vemos aquilo apinhado de gente. Gente de Campinas, gente de fora, você estaciona o carro, você vai vendo as placas dos carros e tem de toda região. Campinas sempre foi - e tenho a impressão que dificilmente deixará de ser - comercialmente aquela expressão para a região.

RELAÇÃO COM O ESTADO DE SÃO PAULO
Nós temos a maior região. São várias como Ribeirão Preto, Presidente Prudente, Vale do Paraíba, a Baixada Santista, São José do Rio Preto, que são cidades importantes segundo a região política. Se formos ver, dessas regiões a de Campinas é a mais importante, a mais próspera, o PIB [Produto Interno Bruto] altíssimo, muito dinheiro que corre aqui, muito dinheiro, grandes indústrias. Hoje nós temos a indústria dos silícios, dos computadores, nós temos a IBM, Compact, não sei o nome atual, a Motorola Celular, Texas, Samsung e muitas outras desse setor aqui estabelecidas. Fora as indústrias automobilísticas como a Honda, a Toyota aqui de Indaiatuba, a Clark que é Eaton, a própria Mercedes que continua. A indústria farmacêutica, do genérico, duas principais fabricas, é IMS... Falando nisso, nós transportamos também os funcionários da IMS; aliás, uma grande quantidade de ônibus, de muitos funcionários. Tem também aqui em Barão Geraldo, a Medley, que começou timidamente como laboratório Campinas, ali na esquina da Morais Sales com Irmã Serafina. Hoje é uma potência em genérico; as duas, a Medley e a IMS. Tudo aquilo que é sinônimo de crescimento... É o genérico, é o computador, é o celular, a indústria automobilística que sempre foi importante e outras tantas, sem contar a Petrobras, em volta dela a metalúrgica, a GE. Na verdade, a nossa região é a mais importante do país. Não é do Estado de São Paulo não; é do país. Vamos além, da América do Sul, seguramente.

LIÇÕES DE VIDA
Uma coisa disso tudo, que eu quero ressaltar... Claro que muita coisa, casualmente, acabou acontecendo na minha gestão de Caprioli, mas os meus antecessores é que tiveram um significado mais importante. Tudo era inóspito, era estrada de terra e eles foram persistentes. A figura mais importante que eu entendo da Caprioli é o Mario Caprioli que criou tudo isso. Nós só continuamos com tudo a favor nosso. Eu quero ressaltar essa figura como uma grande lição.

MEMÓRIAS DO COMÉRCIO DE CAMPINAS
Foi um prazer ser convidado para esse projeto. O SESC é uma entidade querida e respeitada. Pra mim foi uma coisa assim: vamos lá ver o que precisa e nós estamos aí.

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