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História

Transformando sonhos em realidade

História de: Ajussimeire Benfica Santana
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/08/2014

Sinopse

Ajussimeire é uma educadora entusiasta e que acredita que sonhos podem ser concretizados. Em seu depoimento, Ju, como é conhecida, lembra como pai era violento e como a mãe acabou por separar-se dele. Fala sobre sua infância em Osasco, seus sonhos e o desejo de ser professora. Ju se lembra da luta para cursar o magistério e dos primeiros empregos que teve. Com grande paixão discorre sobre a ONG que dirige, a Quintal Mágico. Diz como a mãe a ajudou a reformar o espaço, como começaram timidamente a receber crianças do bairro onde moravam e como esse trabalhou transformou a vida da comunidade. Por fim, fala sobre a verba que conseguiram via edital do Projeto Criança Esperança. 

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História completa

Meu nome é Ajussimeire Benfica Santana, nasci em Osasco, no dia 15 de dezembro de 1973. A minha mãe é do interior de São Paulo, se eu não me engano é Sorocaba, e meu pai era da Bahia.  Os pais da minha mãe, a minha avó e meu avô são mineiros, de uma cidade próxima de Varginha. Eles vieram pra São Paulo pra tentar a vida, como acho que maioria das pessoas que moram em cidades afastadas.

Sei que a minha mãe conheceu meu pai quando ela tinha uns 26 anos, porque a minha mãe se casou com 27, e a minha mãe casou com o meu pai e veio morar em Osasco. Eles se conheceram na igreja. Na igreja que a gente frequenta, a Congregação Cristã do Brasil. Eles se conheceram lá na juventude, a minha mãe conta que eles se conheceram, daí já começaram a namorar. Eu sou a mais nova de quatro filhas.


Meu pai era uma pessoa muito violenta, então ele, sem contar as traições que teve assim, ele traía a minha mãe e chegou um dia minha mãe resolveu dar um basta. Ele tinha arma dentro de casa e batia nas minhas irmãs, tentava bater na minha mãe, e quando as minhas irmãs foram crescendo, eu tinha uma irmã, acho que uma tinha 18, outra tinha 17 e a outra tipo 16 ou 14, uma coisa assim, e eu com 12, aí minhas irmãs falaram: “Não, vamos dar um basta nessa situação”. A minha mãe se separou dele, dividiram os bens, ele ficou com todos os bens, a gente tinha sítio, casa na praia, carro, uma empresa, ficou tudo pra ele, porque a minha mãe assinou um monte de coisa sem ler e a minha mãe ficou só com as quatro filhas com uma mão na frente e outra atrás, sem nem casa pra morar. As minhas irmãs foram e alugaram uma casa, a gente ficou morando na casa dos vizinhos, depois na casa de um tio, até as minhas irmãs conseguirem alugar uma casa, elas conseguiram alugar essa casa, a gente foi morar lá, a gente morou nessa casa dois anos, elas foram atrás de advogado, na Justiça minha mãe conseguiu essa casa de volta, que é a casa que a minha mãe mora hoje.

Meu pai ficou assim, muito bem de vida, assim, perto. Ele ficou bem, ficou com propriedades, com tudo, é engraçado isso, ele separou da mulher, mas ele separou dos filhos também, por que ele não ia visitar a gente, ele simplesmente abandonou. Voltou pra gente, depois de muitos anos ele volta, essa história acho que acontece em milhões de famílias no Brasil. Ele voltou doente.  Agora, faz dez anos ele é falecido.


Eu fui fazer Magistério em período integral, e lá eu recebia um salário mínimo e com esse salário mínimo eu podia ajudar com alguma coisa em casa. Ele era período integral, a gente chegava oito horas da manhã e saía cinco horas da tarde e estudar pra caramba pra formar pra ser professora, pra fazer o Magistério.  Eu dei aula em escolas particulares, lá de Osasco mesmo, escolas pequenas de educação infantil. Depois eu fui vender carro, primeiro eu trabalhei em uma loja no shopping, vendendo roupa, mas eu era péssima vendedora, não conseguia falar pra pessoa está lindo, que gracinha. Eu olhava e a mulher já dizia está uma droga. Então, eu não passei na experiência com três meses eu fui mandada embora, acho que faltava um dia e a moça falou: “Vaza”. Depois eu fui vender carro, consórcio, vendi consórcio, eu vendi tudo que você possa imaginar, fui fazendo tudo. Eu estava lá vendendo carro, ganhava bem, mas não estava feliz. 


Um belo dia eu encontro com uma professora, ela tinha aberto uma escola e ela me convidou pra trabalhar com ela, eu fui, trabalhei com ela seis meses, também uma escola particular, com um valor de uma mensalidade bem alta. E eu falei assim, “Putz, tudo que eles fazem aqui a gente poderia fazer com as crianças da periferia. Por que não fazer alguma coisa?” Porque é uma chácara, a escola fica numa chácara, usa tudo material sucata, nada muito caro, eu falava, “Caramba podia fazer isso lá com as crianças do meu bairro”. Eu queria ter uma escolinha, ficava aquela coisa. Tinha uma chácara vazia perto da minha casa. Um dia eu sai a pé fui lá, peguei o telefone do proprietário, liguei falei que a gente queria alugar a chácara, acho que a mulher falou essa menina é louca, porque ninguém nunca quis alugar essa chácara, depois eu ligo, fundamos a Instituição lá, começou a ir.

A gente conseguiu reformar toda casa, nesse processo de reforma, as pessoas começavam a vir perguntar, aqui que vai ser a creche nova eu vim fazer a inscrição, a gente nem sabia. O nome: “Quintal Mágico”. Tinha tudo a ver porque essa chácara é cinco mil, setecentos e cinquenta metros quadrados, tinha pé de jaca, manga, jabuticaba, tudo que é árvore que você possa imaginar, laranja, ameixa, então um quintal enorme, com árvore, uma casa daquelas de antigamente com área na frente, lembrava muito assim, a minha infância, a casa da minha avó. Então eu falei: “Nossa, esse lugar é ideal pra criançada”. Então alugamos, quando acabou o dinheiro, acabou a reforma e as crianças começaram a chegar.  No começo 12 crianças. A Carolina e a Heloisa trabalharam de voluntária lá na creche no inicio, então a Carol dava aula, atendia os pais, também limpava a escola, fazia faxina, ajudava a fazer o almoço, a minha mãe e a minha irmã faziam o almoço, outra hora a minha mãe não podia fazer eu fazia, outra hora minha irmã fazia, então assim, não tinha...era todo mundo era Bombril, mil e uma utilidades, fazia tudo. Só que passaram quatro meses e a gente não tinha dinheiro pra pagar o aluguel, e a proprietária começou então vou chamar seu fiador, o fiador era meu cunhado, minha mãe; “Ai, meu Deus, que loucura, ela vai falar pro Elizeu a gente está sem pagar, e agora o que a gente faz?” E essa Heloisa que tava com a gente desde o começo falou: “Gente porque vocês não funda uma ONG?”, vocês são a cara de uma ONG, porque a gente tinha o “Quintal Mágico”, mas não tinha documento, não tinha nada. Fundamos, e dinheiro pagar o aluguel? Continua sem ter dinheiro. E a pessoa falou: “Ah, mas você tem que correr atrás de recurso menina, não é assim, começa mandar cartinha pedindo ajuda”. Escrevi uma cartinha pra ABB. A pessoa ligou no telefone da amiga e eu fui lá conhecer essa Leila, que a gente tem amizade até hoje. Eu contei toda essa história, eu disse que tinha fundado uma Instituição, mas não tinha dinheiro. Ela falou: “Você precisa de dinheiro?” Eu falei “É”. Então eu vou fazer um cheque pra te ajudar, vou te fazer um cheque no valor de mil reais, você vai pagar o aluguel desse mês e o aluguel retroativo, todo dia primeiro você vai vir aqui e eu vou te dar um cheque de mil reais, você vai pagar o seu aluguel atrasado, e depois eu vou continuar te ajudando, não sei como, mas eu vou te ajudar. E nisso foi aumentando as crianças, então a gente chegou assim a ter 30, 40 crianças, e descobrimos que realmente nós éramos uma ONG, isso foi em 1999.

E no ano de 2001 estourou assim, o boom do terceiro setor e eu lembro que eu mandei também uma carta alguém me falou do Instituto C&A que tinha um programa no Instituto que chamava “Open House” eu nem sabia o que significava, portas abertas, lá vai eu, fui ali, comecei a aprender escrever projeto, a entender o que era o Terceiro Setor que não era uma obra assistencial de caridade, mas proporcionar um ambiente onde as pessoas pudessem crescer, aprender, enfim. Fiz o convênio com Prefeitura, comecei a fazer parceria com um, parceria com outro e ai as coisas foram. Passamos a atender 120 e a tendência foi aumentando, aumentando, foi ficando conhecido no bairro, as mães comentavam, falavam bem da Instituição, todo mundo queria por o filho lá, só que até quem fazia a inscrição, quem fazia tudo era nós, depois dessa parceria com a Prefeitura foi mudando, então a Prefeitura assume essa triagem das famílias, hoje em dia quem faz essa triagem é a Prefeitura, e ela manda pra nós as crianças já com uma pré-matrícula.

Os recursos pra pagamento de pessoal, é a Prefeitura, então assim, água, luz, telefone, o básico, é mantido pela Prefeitura, e hoje nós atendemos 270 crianças. São quarenta funcionários. Eu deixei de ser presidente, porque daí que eu fui entender, porque se eu fosse presidente eu não poderia ter um salário.  Eu passei a ser funcionária registrada em 2011. Hoje em dia, elas tem cursos de capacitação, a gente tem uma parceria com o Cenpec, a gente tem uma parceria, eles vão até a Instituição e fazem os cursos de capacitação com as educadoras. Também tem o pessoal da limpeza, o pessoal da cozinha, então tem uma equipe bem grande, tem um suporte bem legal.


No ano passado a gente começou um trabalho na Instituição, porque foi assim, nós saímos dessa sede que era alugada. Durante um ano eu fiquei administrando a Instituição e a obra, só que eu não entendia de obra, mas eu ia lá e fingia que entendia, minha mãe entende mais.  Em 2012, a nossa creche ficou pronta e nós fomos pro nosso prédio novo, chegamos lá em um belo dia de sol, cadê árvore? Não tem como ir pra fora com as crianças, porque o calor insuportável, não tinha árvore, não tinha uma sombra, não tinha um nada. O nome não tem mais nada a ver com a realidade, não tem quintal mágico, aqui não tem árvore, as crianças não brincam no barro, não brincam na terra, está tudo errado.

A gente escreveu um projeto chamado: “Uma Floresta em Nosso Quintal”, a gente começou a captar recursos pra esse projeto. Daí chega o Edital do Criança Esperança. Então escrevemos um projeto Uma Floresta em Nosso Quintal, o que consiste esse projeto, qual o objetivo, a revitalização do quintal, a gente precisava de grana pra comprar as mudas, capacitar os educadores, equipar esse quintal pra essas crianças, promover essa interação, essas atividades ao ar livre, essa, essa reflexão da natureza mesmo, o que a gente está fazendo com o nosso meio ambiente? E fomos contemplados com o projeto. O nosso projeto foi aprovado em 68 mil reais no ano passado, 2013.

Nós mandamos o projeto, primeira vez que nós mandamos, foi aprovado já, eles mandaram um e-mail, começaram a pedir toda documentação, depois eles chamaram a gente pra uma reunião, a gente foi pro Rio de Janeiro e lá tem um curso de capacitação promovido pela Rede Globo, junto com a Unesco. Então a gente ficou num hotel maravilhoso, fomos conhecer o Projac, e depois eles explicam tudo, como é que vai ser a prestação de conta, como que vão ser os depósitos, como que a Unesco faz esse acompanhamento, então tem os relatórios técnicos que a gente tem que encaminhar pra Unesco, tem as visitas da Unesco na entidade, tem as visitas do pessoal do Criança Esperança na entidade, tudo que é permitido da imagem, tudo explicadinho. Pra usar o logo do Criança Esperança você precisa ter uma autorização, solicitar essa autorização, então é um aprendizado muito grande e é um beneficio que está lá.

A transformação que foi feita no nosso quintal, então, hoje já tem as árvores, hoje a gente tem cabanas na escola, a gente tem tendas que foram construídas com as crianças, a gente já fez mutirão com as famílias pra plantar. Olha, o projeto está no seu sexto mês, a gente começou janeiro até agora, e nossa a transformação é enorme e é uma coisa muito certa, muito clara, pontual, é fundamental pro nosso trabalho. Todo ano tem edital . Esse ano também foi aberto, devido a Copa, então eles abriram o Edital um pouco antes quem tem a parceria pode mandar de novo, novamente ou a continuação desse projeto ou um outro projeto. A gente mandou, estamos concorrendo.


Hoje eu sou a gestora, sou a diretora da Instituição, então eu faço toda parte administrativa, então as entradas, as saídas do dinheiro passa tudo na minha mão. Eu ajudo a coordenar a parte pedagógica com eles, mas toda semana a gente senta, duas, três vezes na semana pra discutir como é que está as educadoras, os problemas de algumas crianças, a dificuldade de aprendizado de algumas crianças. E tem outras pessoas que trabalham na Instituição, então tem o pessoal do Cenpec que dá o curso, então a gente senta faz reunião, tem o pessoal que trabalha no Projeto do Criança Esperança. Então vem a coordenadora do Criança Esperança, o educador agrocológico, ele vem conversa comigo também, a gente senta vê as dificuldades, as demandas do quintal, então eu fico nessa parte da gestão da Instituição. É a Amanda Frug que coordena. Ela coordena todo o trabalho que é feito com as educadoras, tem a capacitação dos educadores que ela faz, tem os mutirões com a comunidade, que a Amanda ela planeja todo esse mutirão junto comigo, com as coordenadoras, sempre é tudo compartilhado, então a gente senta, pá, elabora o que você fez.

Agora dia 16 nós vamos fazer o dia da esperança, então o que vai ser feito no dia da esperança?  Vem a Amanda com as ideias, a Carol, a Sheila, as coordenadoras dão as ideias, as educadoras, a gente junta tudo aqui e vamos filtrar, o que é viável o que não é viável, se precisa da ajuda de fulano, de ciclano, então a gente começa deliberar. O dinheiro foi para compra de material, então a gente comprou desde vamos supor enxada, a pazinha pras crianças usarem, é pago um educador, um agricológico, é pago essa coordenadora, os encontros de formação pras educadoras, então as saídas, elas saem da unidade, então vão em algum lugar, pra ter essa capacitação, então essas saídas, o lanche delas, o transporte delas é pago tudo com esse dinheiro, então as consultoria a gente tem uma verba que a gente pode utilizar todo mês, a gente que fez esse cronograma e o Criança Esperança aprovou. 

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