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História

Transformações sociais no Pará

História de: Maria de Belém Rodrigues Dias
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/03/2009

Sinopse

Nesta entrevista, Maria de Belém nos leva em uma verdadeira viagem pelo estado do Pará. Ouvimos sobre sua infância em Belém, mas também sobre sua vida profissional e principalmente sobre sua atuação voluntária em projetos sociais junto ao Banco do Brasil. Entre eles estão o BB Educar, o AABB Comunidade, o Estação Digital e o Trabalho e Renda. Maria também participa da organização do Círio de Nazaré, e nos conta um pouco sobre as tradições que envolvem esse grande evento em Belém do Pará.

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História completa

P/1 – Boa tarde.

 

R – Boa tarde.

 

P/1 – A gente vai começar nossa entrevista, vou pedir prá você falar de novo o seu nome completo, o local e a data de nascimento.

 

R – Tá. Eu sou Maria de Belém Rodrigues Dias, eu sou de Belém do Pará, nasci em 26 de setembro de 1958.

 

P/1 – E... o pessoal te chama mais de Maria ou de Belém?

 

R – De Belém.

 

P/1 – Você poderia falar assim um pouco do porque seu nome?

 

R – Ah, eu nasci no mês de Nossa Senhora de Belém, minha mãe resolveu homenagear a Nossa Senhora colocando meu nome.

 

P/1 – E o nome dos seus pais?

 

R – Meu pai é Valdemar de Oliveira Dias, que já tá desencarnado e a minha mãe é Manoela Rodrigues Dias, que vai fazer 90 anos.

 

P/1 – E o quê que eles faziam, assim, quando eles eram jovens, assim, qual a atividade profissional deles?

 

R – O meu pai, ele foi de tudo um pouco, né, ele foi pracista, que hoje não existe mais, ele foi gerente de banco, desculpa, de hotel, foi… trabalhou como, no comércio, como representante comercial e a minha mãe foi costureira a vida inteira.

 

P/1 – E vocês eram em quantos irmãos, Maria?

 

R – Nós somos mais duas irmãs, só tenho mais duas irmãs.

 

P/1 – E, assim, como é que era, assim, a tua infância? Você nasceu e cresceu em Belém?

 

R – Nasci e cresci em Belém.

 

P/1 – Como é que foi a sua infância, assim?

 

R – É, eu nasci em um bairro muito pobre, né, eu sou de origem muito humilde e foi uma infância fantástica, né, eu corria, eu brincava, tudo que uma criança tem direito.

 

P/1 – E, você, a escola, como é que era a escola?

 

R – Eu estudei em escola pública, né, a vida inteira também, por questões financeiras, mas foi, assim, maravilhoso. Até hoje a gente tem um grupo que se encontra uma vez por ano, a escola que eu fiz o meu primeiro grau, o antigo Ginásio, né? Até hoje a gente encontra uma vez por ano uma turma muito grande. Esse ano são 450 pessoas, né, de toda escola.

 

P/1 – Que escola que era?

 

R – Era Colégio Estadual Magalhães Barata.

 

P/1 – E como é que você ia prá escola, usava uniforme? Descreve um pouco o seu cotidiano de estudante.

 

R – É, a sainha, a sainha plissada, aquela blusinha branca, né. O sapatinho era um sapatinho de borracha e eu ia a pé, né, apesar da escola ficar muito longe, a gente não tinha condições de pagar transporte, eu ia e voltava a pé.

 

P/1 – Fantástico. E como que era Belém nessa época que você era criança, assim, como que era a cidade?

 

R – Nossa, era maravilhoso, né, as mangueiras na época do inverno, que caía muita chuva, muita manga a gente ia pras praças pra colher, de brincar na rua, de ter muitos amigos, uma infância, assim, fantástica mesmo, de… de aproveitar muito, eu aproveitei tudo que eu tinha direito.

 

P/1 – Você era muito arteira?

 

R – Muito, muito.

 

P/1 – Quais as peripécias que você já fez, que você pode contar.

 

R – Ah, de montar casinha em árvore, né, de ficar brincando, né, de algumas brincadeiras, de... de com os meninos também a gente brincava muito de empinar papagaio, lá a gente chama papagaio, aqui vocês chamam pipa, de peteca, né, de esconder colegas, trancar dentro de algum bueiro e fugir, então a gente brincava muito, muito mesmo.

 

P/1 – Quem que era a sua turma, assim, de rua, de brincadeira?

 

R – Eram os vizinhos, né, são os vizinhos.

 

P/1 – Maria, descreve como que era a sua casa, assim, o cotidiano, eram só mulheres as filhas?

 

R – É, é, somos três mulheres, as diferenças são muito grandes, quando eu nasci a minha irmã mais velha já tinha 12 anos, então, eu tenho nela a minha mãe mesmo, porque a minha mãe trabalhava fora, né, então a minha relação com ela é de… mais de mãe do que irmã, né? A minha irmã do meio não morava com a gente, a minha avó, mãe do meu pai, literalmente tirou ela da minha mãe, né, por paixão por ela, então era eu e a minha irmã mais velha. Então, em casa, é, a gente ficava muito juntas, depois que ela cresceu ela começou, nós trabalhamos muito cedo, ela começou a trabalhar com 16 anos, então, eu com oito, dez anos eu já cuidava da casa, de cuidar, de lavar, de passar, de cozinhar, esse era o nosso cotidiano, né? A minha casa era muito humilde, uma casa pequena de madeira, é, seria o que aqui é chamado de favela, lá a gente chama de baixada, eu morava numa baixada, né, mas nem por isso eu deixei de ser feliz.

 

P/1 – Como é que era o nome do bairro?

 

R – Eu morava no Telégrafo, no bairro do Telégrafo.

 

P/2 – Você começou a trabalhar muito cedo, né?

 

R – Muito cedo, com 12 anos.

 

P/2 – Você trabalhava com o que aos 12 anos?

 

R – Eu trabalhava, o que aparecia pra mim vender, né, de roupa, antigamente tinha, hoje ainda tem, não sei se a gente pode falar, propaganda da Avon, antigamente não existia, né, existia outro tipo, Hermes, Coles, então eu vendia tudo pra poder ter um dinheiro pra eu ir num cinema ou comprar uma roupa pra mim.

 

P/2 – Vendia isso na própria comunidade?

 

R – Na própria comunidade, pros parentes, a família da minha mãe, ela tem muitos recursos e do meu também, então, eu vendia pras minhas primas que tinham mais recursos, né, e assim eu fui vivendo.

 

P/2 – O quê que você fazia com o dinheiro que você ganhava?

 

R – Ah, eu dava uma parte pra minha mãe, né, e quando sobrava alguma coisinha, eu comprava uma... um docinho, né, um refrigerante e alguma, algum cinema.

 

P/1 – É, descreve um pouco assim, é, a cidade de Belém, assim, os bairros... como que eles se conformam, por que é que tem tanta mangueira nas praças?

 

R – É, não só nas praças, nas próprias ruas, né? Belém é uma cidade bem antiga, ela vai completar 400 anos e ela, ela começou como toda cidade que começa perto do rio, ela começou dali, né? Hoje nós temos um complexo muito lindo onde começou Belém, que se chama Feliz Lusitânia, onde tem um museu de arte sacra belíssimo, que é o museu de Santo Alexandre e o bairro central, onde é o comércio, é o bairro mais antigo, onde tem praças belíssimas, como tem a Praça da República, tem a Praça Batista Campos, nós temos a Praça Brasil, que foi onde eu... onde eu morava bem próximo, né, e os bairros, assim, mais conhecidos é o Bairro de Nazaré, onde fica a Basílica, o Santuário de Nazaré, né, de Nossa Senhora de Nazaré e também a Praça Batista Campos, que é uma coisa, assim, muito bonita, lá, porque é, existe lagos no meio onde as garças, de noite, vêm dormir, se alimentam dos peixes que são colocados pelas próprias pessoas que caminham na praça, né? E, assim, é uma cidade muito grande, ela não tem mais pra onde crescer, porque ela tá entre o rio e uma outra cidade do lado, que é Ananindeua. Então, Belém nesses últimos anos, ela tá crescendo muito verticalmente.

 

P/1 – Tá. Eu queria que você falasse um pouquinho, assim, da importância da festa do Círio de Nazaré.

 

R – Uma festa belíssima, né, a gente costuma dizer que ela passa da questão de ser uma festa católica, ela tem uma questão de religiosidade, o próprio Banco faz uma homenagem muito bonita e nós temos uma equipe dentro do Banco do Brasil que trabalha pra fazer essa festa bela, né, e a maioria das pessoas que trabalham não são católicas, né, tem outro tipo de religião. Tem uma festa muito bonita, uma festa, ela tem um lado profano, lógico, mas o lado religioso, ele é muito forte, é uma crença muito forte que o paraense tem em Nossa Senhora de Nazaré, acredita em todos os milagres que ela faz e a fé muito grande. Você vê, assim, uma procissão esse ano foram dois milhões de pessoas na rua, né, puxando aquela berlinda, homenageando e a corda que é o símbolo maior, né, aonde as pessoas fazem qualquer sacrifício pra tocar na corda, né, e quem tá segurando a corda não sai, né, porque tá pagando promessa e ela tem uma coisa muito interessante, nós temos duas procissões, a de noite que a gente chama trasladação, é quando ela sai de onde ela fica e vai prá nossa, é, lá pra Sé, lá no início onde Belém nasceu, bem na frente, na primeira rua, que é uma outra igreja, isso é à noite. À noite também a corda vem, ela também vem e à noite, o que a gente mais observa são a quantidade de jovens. A gente diz que a corda à noite são das pessoas que vão fazer vestibular pedindo ajuda pra Nossa Senhora, né? Então é uma característica muito interessante. À noite ela tem muitos, muitas mulheres na corda e muito adolescente. É uma quantidade muito grande, muito interessante isso, né, e de noite não, de noite já são, de dia já são mais homens mesmo e mulheres, mas a quantidade no dia é bem mais de homem.

 

P/1 – E vocês estavam falando ontem, né, dessa, dessa força, assim, que é você segurar a corda, né? Qual o significado disso de levar a corda até...?

 

R – É um sacrifício muito grande, é um sacrifício corporal, né, as pessoas desmaiam, porque é muito forte. O clima em Belém é muito, a umidade é muito bai... muito alta e o sol muito quente, né, então muitas pessoas desmaiam e é aquele sacrifício. Eu acho que pra eles é o sacrifício que é maior, né? Eu trabalho na homenagem, eu trabalho no oitavo andar do Banco, então eu sinto quando começa a homenagem, a gente sente a energia que emana lá de cima, é uma coisa fantástica, né, são fluidos, assim, positivos, maravilhosos, que aquela procissão nos traz, por isso que eu costumo dizer que a... a… o Círio de Nossa Senhora de Nazaré, ele extrapolou a questão do catolicismo, não é? Uma força maior, uma força espiritual muito grande, uma, você vê, assim, as pessoas ficarem muito unidas. Prá nós ela representa o que pro resto do mundo representa o Natal. A gente, na semana do Círio, uns dez dias antes, 15 dias, quando a gente encontra as pessoas amigas, a gente diz, Feliz Círio, com a mesma maneira quando a gente diz Feliz Natal, né?

 

P/1 – Claro.

 

R – Tem uma coisa muito forte, muito típica nossa mesmo, né?

 

P/1 – E você tava falando que a do Banco do Brasil é uma das homenagens mais bonitas, o quê que vocês fazem pra homenagear a santa?

 

R – À noite, à noite a gente faz, a gente joga papel prateado, né, lá do oitavo andar e tem muito, quando a gente inaugura literalmente a nossa, a nossa decoração. O quê que a gente faz? A gente faz uma decoração na frente da, da agência, né? A agência, ela tem oito andares, você imagina como é o tamanho, né? Antigamente éramos nós mesmos que fazíamos toda a decoração, os funcionários, a gente preparava, criava e ficava uns três, quatro dias fazendo a decoração naquele prédio imenso. Hoje em dia já faz parte do calendário da Dimac, né, então ela já ficou mais profissional, mas a parte da homenagem em si, somos nós que continuamos fazendo, são 150 pessoas que ficam lá no último andar e no sábado tem muitos jogos de luzes e o papel picado, ele é uma característica e sempre se apresenta um cantor ou uma cantora à noite. Nós já tivemos Joana, esse ano foi Tetê Spíndola, já tivemos Agnaldo Rayol, Agnaldo Timóteo e de dia, a gente sempre procura colocar alguém da nossa área ou alguém da área católica, né, esse ano foi o Padre Fábio de Melo, mas nós tivemos um ano que era prA ser Fafá de Belém e ela não conseguiu atravessar a multidão, ela ficou presa no lado oposto do Banco e a gente tinha que fazer a homenagem e um amigo nosso, um colega do Banco, foi lá e cantou, já aconteceu duas vezes isso, né? Inclusive o segundo, ele nem católico é, ele é batista e foi lá e cantou pra Virgem, né, uma música belíssima, então, pra você ver como movimenta muito isso, né, a força, né?

 

P/1 – E você falou que tem uma outra homenagem que é muito bonita que é a dos estivadores.

 

R – Dos estivadores, é. Sim, no domingo, a gente continua a homenagem, no domingo a gente sempre homenageia ela com papéis branco, esse ano foram duas toneladas de papel e 20 mil balões. Isso nós temos aproximadamente dois minutos pra fazer, que é quando a Santa passa na frente do Banco e lá embaixo tem o cantor, né, fazer a homenagem. Aí, saindo dali, logo depois, tem a homenagem dos estivadores, eles fazem coleta o ano inteiro, são pessoas que não ganham muito, fazem coleta o ano inteiro pra comprar fogos de artifício, então, a homenagem deles são com fogos, são... é lindo, lindo, lindo, lindo, tanto à noite como de dia, é muito bonito.

 

P/1 – E os estivadores, eles são uma categoria forte?

 

R – Muito forte.

 

P/1 – Por que, por conta do rio?

 

R – É por conta, nós temos um porto muito forte lá, né, e o sindicato deles é muito forte, são muito unidos, então, acho que isso daí é que, a religiosidade, eles acreditam muito, confiam na Virgem de Nazaré, eles acreditam que ela protege o trabalho dele que é um trabalho de risco, então, todo Círio eles fazem essa homenagem.

 

P/1 – Que bárbaro (risos) e, assim, você acompanha faz muito tempo essa festa?

 

R – Eu só não fiz parte do primeiro ano, eu faço parte há 13 anos já da festa.

 

P/1 – Nossa, legal. A gente voltando mais um pouco, assim, pra tua vida profissional, né, quando que você começa a trabalhar efetivamente, depois dessas vendas, tudo, quando que você começa a trabalhar?

 

R – Bom, o bom é que foi a minha primeira, o meu primeiro e único emprego de carteira assinada, né? Eu trabalhei no IBGE pra uns censos rurais, eu fiz o censo de 80, de 1980 na Transamazônica onde eu morava e fiz o censo também rural, urbano, aí, logo depois, eu passei no concurso do Banco do Brasil e estou há 25 anos.

 

P/1 – Então vamos voltar um pouco, aí, o teu… o teu... a tua ida pra Transamazônica, né, como que você foi morar lá, em que circunstâncias?

 

R – Eu casei e o meu primeiro marido morava lá, né, e eu fui acompanhá-lo e lá eu fiz o concurso do Banco do Brasil e passei, não pra Altamira onde eu morava, eu passei prá uma agrovila que existia, que era um projeto, chama-se Vila Pacau, é projeto agro-açucareiro Abraão Lincoln, era uma usina de cana-de-açúcar, né, e o Banco tinha uma unidade lá e eu passei e fui trabalhar lá. Aí, trabalhei lá, foi assim, o meu primeiro dia de trabalho foi meio traumático, né, porque é uma área muito violenta, era uma área muito violenta na época e, era assim, só tinha uma condução pra gente ir, pra voltar, apesar de ser 90 quilômetros de distância, eu já levei três dias pra chegar lá em 90 quilômetros.

 

P/1 – Era pela Transamazônica?

 

R – Pela Transamazônica.

 

P/1 – Que época que é isso?

 

R – 1981.

 

P/1 – Descreve assim pra gente, assim, que a gente ouve falar dos livros e tudo, né, o quê que era a Transamazônica literalmente, você que viveu lá?

 

R – É... a Transamazônica é uma, é um local de uma terra fantástica, uma das terras melhores que o Brasil tem, mas é uma terra muito sofrida, por questões de descaso do governo, de todos os governos, começou com o descaso de terem tirado as pessoas do Sul do país e colocado lá, a quantidade de pessoas que morreram lá é incrível, que isso não tem nos livros, né? E eu fiz... eu cheguei a fazer o censo em 80 lá também, na Transamazônica, então, eu saí, assim, de Altamira, a minha casa era em Altamira prá ir prá Vila Pacal, é, a estrada no verão era muita poeira, a gente arriscava a morrer engavetada em algum caminhão de cana e no inverno a gente arriscava a cair nos abismos, porque era lama só. Então, às vezes, a gente até costumava dizer, puxa, tudo bem que a gente tinha que ir à pé prá Vila Pacau, mas não precisava ir empurrado o carro, né, que era literalmente assim. A gente ficou, já teve vezes que a estrada acabou totalmente e nós tivemos que participar de, de, de uma equipe pra abrir uma picada por dentro das fazendas pra fazer uma outra estrada pra tentar passar, né? Era um lugar assim muito, faltava tudo, a gente não tinha uma boa alimentação, é, a gente comia muito mal, a gente dependia muito da gente pra ir pra Altamira pra conseguir comida, ou quando a gente dependia mesmo dos próprios colonos, que acabavam doando comidas prá gente, né? O fato de, eu tinha muita facilidade, assim, eu acho que pela... pela questão de eu ter sido uma pessoa de, de ser muito humilde, né, então eu tinha a facilidade de conversar com eles, então eles gostavam muito de mim, então, eu ganhava muita coisa pra alimentação, que senão era todo dia a mesma coisa, era carne e arroz e feijão, era basicamente isso.

 

P/1 – Da onde vinha a alimentação, de Altamira?

 

R – De Altamira, tudo, tudo de Altamira, então, quando fechava a estrada, a gente ficava, situações complicadas, lá.

 

P/1 – Agora só prá gente registrar, né, o verão lá no Norte é que época?

 

R – É de junho a outubro, é o contrário.

 

P/1 – Porque chove menos, né?

 

R – Porque chove menos, é isso, e o inverno é a partir de outubro até março, abril...

 

P/1 – Que chove mais, tá...

 

R – Muito, chove o dia inteiro, né?

 

P/1 – (risos) Fantástico. Como é que era o cotidiano seu nessa agência?

 

R – Ah, era só trabalho, trabalho, trabalho, a gente não… a gente trabalhava o dia inteiro. A usina, ela movimentava muito e lá tinha uma coisa muito interessante, lá não tinha luz, nem água, né, a gente dependia da usina, no dia que a usina enchia uma caixa d’água que colocava pra vila, então tinham, assim, algumas coisas interessantes, coisas que não são contadas no Banco do Brasil. Quando chegava a água, a gente botava os clientes, todo mundo pra fora da agência, a gente trancava a agência e ia pra casa guardar água, porque a gente só tinha água uma vez por semana, né? A gente botava eles, eles ficavam todos lá fora esperando, a gente enchia, era uma hora, uma hora e meia de água, aí, a gente voltava, abria a agência e voltava a trabalhar, normalmente, era (risos). São coisas assim que, só a gente vivendo pra acontecer, pra descobrir essas coisas, né?

 

P/1 – Qual que era o significado nessa época de você tá ingressando no Banco do Brasil, assim, o que é que significava?

 

R – Nossa, era o sonho de qualquer pessoa ser funcionário do Banco do Brasil, né?

 

P/1 – Por que?

 

R – É, porque a gente tinha... tinha a sensação de ganhar bem, de ter uma tranqüilidade, de ter um futuro com segurança, né, esse sempre foi o ideal da... de todo mundo que entrou na minha época, esse era o ideal que a gente achava que o Banco do Brasil era isso e, na época, era, realmente era, né, hoje os conceitos já estão bem mudados, mas eu ainda amo muito essa casa.

 

P/1 – Tinha alguma profissão, assim, quando você era adolescente, assim, que as pessoas te incentivassem, a sua mãe, o seu pai, assim?

 

R – Não, eu sempre tive um sonho de... de ser bailarina, mas a questão financeira me proibiu isso, né, então a gente tem que ir por onde é possível, né? (risos).

 

P/1 – E aí, a partir daí, como é que se desenvolveu a sua carreira?

 

R – Bom, aí, eu acabei não dando certo meu primeiro casamento e eu saí de Vila Pacal e fui trabalhar no outro interior, também no Pará, em Capitão Poço, aí, dali eu comecei minha carreira, depois eu passei três anos, mais, quatro anos em Capitão Poço, aí, eu fui-me embora e consegui transferência pra Belém, que naquela época era muito difícil conseguir transferência no Banco, era dificílimo, né? E, mas aí, eu consegui vir prá Belém já com quase sete anos de Banco e, aí, eu comecei a pensar na minha carreira, né, aí, comecei, passei sete anos também dentro da... do setor interno no Banco na, antigamente se chamava-se Seacec... hoje é Gerel, né, e foram, assim, sete anos de muita experiência. Ali eu comecei a ter contato com a parte de sindicalista, né, de, eu fui Garef, que era um, o representante dos funcionários no Estado, que hoje o primeiro Garef nosso foi o Luís Osvaldo, que é uma pessoa, assim, conhecida em todo meio do Banco e ali eu fui começando a tomar sentido, querer realmente ter uma carreira dentro do Banco. Aí, eu saí da... da área interna do Banco e comecei, fui pras agências, aí, foi daí que eu comecei a fazer realmente carreira, que eu comecei a ser convidada pra ser gerente de contas, né, que hoje chama-se gerente de contas, antigamente chamava-se SGV, o Banco gosta muito de sigla, né?

 

P/1 – O quê que quer dizer S...

 

R – Era, (pausa) era, nossa... eu acho que eu já nem lembro mais (risos) Serviço de Gerência de Varejo, de Vendas, era, eu sei que tinha alguma coisa com a venda. Eu sempre gostei muito de vendas, então, eu trabalhava na área de vendas do Banco, na área de seguros, toda área de seguros, toda área de produto do Banco, fui Gerente, aí, depois fui convidada pra ser Gerente de Contas de Pessoa Jurídica.

 

P/1 – Ô Maria, e nessa época, assim, 80 pra 90, assim, qual era, assim, a tecnologia do Banco, assim, não tinham tantos computadores, como é que era?

 

R – Não, não tinha computadores, não tinha nem máquina elétrica onde eu trabalhava, gente! (risos)

 

P/1 – Não tinha luz, né?

 

R – Não, mas o Banco tinha energia, né? A gente, é... hoje que são extratos de vocês, a gente trabalhava com uma ficha gráfica que ela tinha 50 por 40 mais ou menos de largura, amarela, e a gente fazia lançamento diário de todo movimento que passava no Caixa a gente fazia movimento diário numa máquina chamada NCR, que deve estar no museu do Banco, né, (risos) aí, depois de algum tempo apareceu uma outra que, aí, já era uma folha de papel menor mais bonitinha, que era a Beamil, o computador veio muito depois na nossa vida.

 

P/1 – Mas a Beamil era manual também?

 

R – Não, todas duas eram manuais, né? Ela tinha, ela era meio elétrica, meio manual, sabe?

 

P/2 – Isso numa agência em Belém, né?

 

R – Não, no interior, no interior... mas essas máquinas também, era assim, não, mudava a tecnologia na Capital, eles mandavam aquela que não era mais... não servia mais, ela mandava pro interior, né? Pra nós era novidade, mas prá eles já não era mais, né?

 

P/1 – E quando que surgiu essa questão mais, assim, da informática ali no Banco, na região?

 

R – Bem recente gente, eu acho que deve ter no máximo uns dez anos, no máximo mesmo. Hoje nós temos todas as nossas agências automatizadas, né? Com muitos problemas, na região Norte ela é peculiar, né, nós até hoje temos agência que não tem internet. Por que? Porque não existe, não tem como.

 

P/1 – A questão da fibra ótica, essas coisas?

 

R – É, não existe, né, tem agências nossas que têm dificuldade até com a questão de energia elétrica, né, mas o Banco tá lá fazendo o lado social dele. É importante.

 

P/1 – Eu queria que você falasse, não sei se foi já ontem ou hoje, mas da região de palafitas, a cidade, que você "tava" falando hoje de manhã.

 

R – Ah, sim, a agência de Afuá.

 

P/1 – Afuá?

 

R – A cidade de Afuá, é uma cidade linda, ela é uma cidade de palafitas, é, a cidade é inteira de madeira, em cima do rio, só tem o prédio do Banco, a Prefeitura e o hospital, aliás, o hospital e a igreja que são de alvenaria, o resto tudo é de madeira, mas são, assim, coisas lindas as casas, em cada canto, em cada esquina, porque lá tem esquina, né, em cada esquina tem uma pracinha, tem um caramanchão com flores e é uma cidade que as pessoas são muito bonitas, fisicamente mesmo, né, e uma cidade, o que me impressionou muito lá foi a questão da educação. Nós freqüentamos, nós conhecemos as escolas e... e, assim, ela fica na Ilha do Marajó, Afuá fica bem no Sul, no Norte da Ilha do Marajó e nos impressionou o conteúdo das crianças, que elas estudam... as crianças de terceiro ano, quarto ano do primário, do primeiro grau, elas estudam poesias, né? Lá ela tem, é uma cidade que  tem característica dos grandes homens e mulheres que fazem parte de Macapá, porque fica bem na frente de Macapá, são descendentes de lá, então, isso também me chamou muita atenção, né? A questão folclórica lá é muito forte, teatro, a gente não consegue imaginar que uma cidade no Norte do país, numa Ilha do Marajó, bem lá em cima tenha toda uma estrutura dessa, né? Lá não tem carro, não existe carro nenhum, nenhum.

 

P/1 – Só barco?

 

R – Não é pra se locomover dentro da cidade tem umas, uma, um veículo que eles chamam bicitáxi, bicitáxi, que são duas bicicletas que eles transformam, parece uma carruagenzinha e é aquilo ali, então, você passeia a cidade inteira, inteira, inteira de bicitáxi, mas é fantástico. E é a cidade do camarão, né?

 

P/1 – Fala um pouquinho dessa característica.

 

R – É uma cidade onde tem muito camarão pitu, regional mesmo, inclusive já apareceu no Fantástico, Mister Camarão, Mister Pitu, né, eles fazem concurso de Miss ou Mister Camarão (risos), então é uma cidade, assim, muito bonita, muito, é diferente de tudo o que a gente possa imaginar.

 

P/1 – Chega a ser uma cidade turística?

 

R – Não, nossa! Nós passamos lá cinco dias e... e você sai de noite, a noite pra eles é, não, não termina antes de dez, 11 horas da noite, tem restaurantes maravilhosos lá, é uma cidade mesmo com uma estrutura muito legal, muito bonito.

 

P/1 – Voltando então pra sua carreira, né, como é que é, assim, em que circunstâncias se deu a sua ida pra Superintendência?

 

R – Eu tinha, eu tava trabalhando numa agência empresarial, né, e acabei não me habituando, não me... não gostei de trabalhar lá e o meu Superintendente (eu já faço um trabalho à parte no Banco, fora do Banco que todo mundo conhece, na área social) e o Superintendente na época que era o Valmir Rossi me convidou, perguntou se eu não queria, tava começando a questão de se trabalhar o lado social mais no Banco, aquele resgate do Banco do Brasil social, né, então ele achou que eu tinha perfil prá isso... aí ele me convidou pra mim ir, eu fui, fiquei, adorei o convite, foi assim, fantástico e aí eu tô lá até hoje, vai fazer quatro anos agora no final do ano, já.

 

P/1 – E quais foram os primeiros desafios?

 

R – Nossa, foi a Fundação, meu primeiro desafio foi a Fundação Banco do Brasil, né?

 

P/1 – Você já tinha ouvido falar da Fundação?

 

R – Já tinha ouvido falar, até porque o trabalho social que eu faço fora a Fundação, já trabalhei com a Fundação, né?

 

P/1 – Fala um pouquinho desse trabalho social. O quê que é?

 

R – Nós, funcionários do Banco, em Belém nós temos um, nós adotamos um.. Adotamos não, nós criamos uma creche, né, que nós atendemos 60 famílias e as famílias por conta do... todo trabalho que a gente faz com eles, eles têm direito a colocar seus filhos na creche. Então foi na época que o Betinho [Herbert José de Souza] começou, um grupo de colegas querendo fazer alguma coisa nessa área e nós começamos a trabalhar nisso. Então, eu já sou Presidente dessa... desse projeto que chama-se Projeto Reviver Creche Betinho, em homenagem ao Betinho, que foi escolhido não por nós funcionários e sim pela comunidade, o nome da creche, então a gente trabalha toda a comunidade, a gente trabalha pra aquelas 60 famílias mais todo mundo que tá em volta da creche, né? Hoje a gente trabalha com criança de três até 21 anos, tanto em creche como outro tipo de trabalho. De três a sete anos é a creche, aí, quando sai da creche eles têm direito ao retorno três vezes na semana prá gente dar o reforço prá eles.

 

P/1 – O reforço escolar?

 

R – O reforço escolar com oficinas, a gente dá várias oficinas de teatro, de matemática, de português, na realidade, é mais pra que aquela criança não vá prá rua, porque é um dos bairros mais violentos de Belém onde está a creche, um dos bairros mais populosos e a criminalidade é muito grande, muito grande mesmo. Então a gente faz o retorno dessas crianças três vezes por semana e são as crianças de sete até 14 anos. Aí, de 14 anos até 21 a gente trabalha com eles aos sábados e aos domingos, pra também ele não perder aquele vínculo, porque é uma idade muito complicada, porque ele sai, ele teve toda aquela estrutura dentro da creche, passou por tudo aquilo e a gente tem medo de soltá-la, na realidade é essa, né? E com medo de, a droga, tem ponto de droga na frente da nossa creche, apesar da gente trabalhar toda comunidade, pra evitar, já se evitou muita coisa lá. Então, o nosso trabalho com esses jovens são exatamente isso aí, a gente faz parceria, o ano passado nós tivemos uma parceria com a Coperforte que bancou um projeto nosso pra eles pro primeiro emprego, então, a gente prepara eles pro primeiro emprego e disponibiliza eles no mercado através dos nossos clientes do Banco, né? A gente dá a segurança de que vão ser adolescentes que não vai dar problemas pra eles e os de 14 até 16 anos a gente trabalha um monte de coisas, a gente trabalha com trabalhos manuais, com aulas de... de tipo de etiqueta, de como se portar, como conversar pra quando ele chegar aos 16 anos, ele já tenha uma preparação pro primeiro emprego, também já é uma chance pra ele.

 

P/1 – Essa é a idéia... e quem faz parte, é o voluntário, como é que é?

 

R – Todos somos voluntários, todos. Ela funciona assim, tem o Presidente, que sou eu, são três Vice-Presidentes, que é de área financeira, área de educação e a área de... que trabalha com a recreação, com tudo, né, e temos os Conselhos Fiscais, os nossos conselheiros todos são gerentes do Banco do Brasil, ele é todo formado, toda a administração da... da creche é formada por funcionários do Banco. Agora, a creche em si, todos são funcionários contratados com carteira assinada, né, são profissionais.

 

P/1 – Fantástico.

 

R – Nós temos um caso muito bonito lá, nós temos uma pessoa que hoje ela é nossa... ela é professora da creche. Quando nós chegamos há 13 anos, nós compramos a primeira casa pra montar, porque era uma palafita, lá a creche, né, era o rio Tucunduba em cima e as casas lá e essa pessoa... nós compramos a primeira casa dela e ela começou a trabalhar com a gente como cozinheira, hoje ela é professora. Ela era analfabeta, hoje ela faz o segundo ano de uma universidade, então, isso daí é um ganho muito grande que nós tivemos de transformar uma pessoa, agora, a boa vontade dela, a vontade dela de crescer é fantástica. Este ano ela deixou de ser cozinheira e tá como professora na creche.

 

P/1 – Olha só.

 

R – É muito bonito.

 

P/1 – E aí, qual que é o link desse trabalho que você fazia lá na creche com as ações da Fundação que você...?

 

R – É, o Valmir achou que por esse lado que eu tinha facilidade de trabalhar com isso, ele resolveu pegar todos os programas da Fundação e passar pra mim. A gente não tinha muitos trabalhos da Fundação lá e a gente sabe que o Norte necessita muito desse tipo de trabalho, né? Então, comecei fazer pesquisa, procurar, conhecer… Aí eu comecei a conhecer sindicatos, ONGs, e vão começando a fazer trabalhos, né? Aí nós temos um problema muito sério na região Norte que é a questão de analfabetismo, que é muito alta, né, altíssima, então nós conseguimos fazer um convênio muito bacana lá, que nós colocamos de uma vez só 18 mil pessoas em sala de aula, dentro daquele Parazão, na Ilha do Marajó, é, no sul do Pará, nós conseguimos mapear, foram 25 municípios, que ainda é pouco, o Pará tem 143 municípios, mas nós conseguimos atender 25 municípios com o BB Educar, né, então, foram 18 mil pessoas de uma vez só em sala de aula. Foi um trabalho belíssimo com a Fundação e com o parceiro que é o Senar, né, o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural, que ele teve uma continuidade, ele não parou só em alfabetização. Quando eles estavam sendo alfabetizados, a alfabetização da Fundação, ela tem seis meses, no quinto mês o Senar entrava com treinamentos específicos. Se uma comunidade trabalhava, a atividade dela era mandiocultura, o Senar ia lá e fazia novas técnicas, ensinava novas técnicas de mandiocultura, porque agora eles tinham condições, agora as pessoas saberiam ler, né, o maior problema é isso, eles pegam os agrotóxicos e não sabem ler. É por isso que existem tanto problema de envenenamento, essas coisas todas, aí, eles tinham esse treinamento, então já estavam preparados e a gente entrava no terceiro momento, no quarto momento, o terceiro momento o Senar também junto com o Governo do Estado, junto com a própria Prefeitura e mais parceiros, a gente fazia uma grande ação social e o Banco do Brasil junto. Aí, a gente tirava certidão de nascimento, carteira de identidade, ele passava a existir.

 

P/1 – Como cidadão, né?

 

R – Como cidadão, a gente ia em comunidade que a comunidade inteira de 50, 80 pessoas, ninguém tinha nem certidão de nascimento, quer dizer, não existia pro Brasil, não existia essas pessoas, então, fizemos também esse trabalho. E no quarto momento a gente entrava com o Pronaf, porque ele já sabia ler, ele já tinha documento, ele já sabia a técnica adequada pra manusear a questão da agricultura e a gente entrava com o trabalho e renda que era a questão do Pronaf.

 

P/1 – O Pronaf é o quê?

 

R – É o Programa de Agricultura Familiar, a gente, do Governo Federal e o Banco do Brasil é um dos que trabalham com o Pronaf, é o Banco do Brasil, o Bnds, BNB, Banco do Nordeste aliás e o Banco da Amazônia, são as entidades que podem trabalhar com esse recurso, que é um juros extremamente subsidiado, né, quatro por cento de juros ao ano e se ele pagar em dia ainda tem 25% de rebate. Então eles aprenderam também, a gente com assistência técnica, fizemos também convênio com assistência técnica e o que é legal é que isso tudo são voluntários, tá gente, não tem “eu vou pra lá pra receber pra fazer aquilo” não, é voluntário. A assistência técnica também é o Governo do Estado que dá e é sempre assim, a gente sempre observa porque tem umas normas... “olha você tem que fazer isso”, isso e a pessoa começa a se envolver nesse projeto e quando você vê você já tá se doando muito mais, você já tá trabalhando no sábado e no domingo, você não é pago pra isso, vamo dizer assim, né, então isso tudo vai envolvendo. A Fundação tem projetos maravilhosos. Aí o ano retrasado nós fizemos outro convênio com a Secretaria de Pesca, nós colocamos junto com a Secretaria de Pesca e junto com o Sesi foram 16 mil alunos, 16 mil pescadores, que esse é muito difícil, porque o pescador ele tem a vida profissional dele totalmente diferente do agricultor, porque o agricultor sai quatro horas da manhã, quatro horas da tarde ele tá em casa, o pescador não, ele passa 15 anos, 15 dias viajando e uma semana em casa e era nessa semana que a gente aproveitava. Mas deu muito certo também, e nós também tivemos um outro convênio com uma outra entidade, Lamparina, que foram sete mil pessoas que nós também colocamos em sala de aula.

 

P/1 – Isso sempre na área de alfabetização?

 

R – Alfabetização, isso.

 

P/2 – É o projeto BB Educar, né, isso?

 

R – É o BB Educar, da Fundação, né? E a gente faz um complemento dessa maneira, né, a gente sempre consegue um outro parceiro pra que a gente consiga um óculos, pra que a gente consiga colocar os documentos, tirar os novos documentos, ou quem não tem tirar o seu primeiro, a sua primeira carteira de identidade e os treinamentos na área técnica, que é muito importante, porque não adianta a gente só dá educação, a gente tem que dar educação e trabalhar com ele até aonde entra a estratégia do Banco, que é a estratégia de DRS, né? A gente tem aproveitado muitos núcleos desses de BB Educar e colocando a estratégia de DRS, porque a gente sabe que vai dar muito mais certo, porque a gente já tá com vários parceiros, esses parceiros acreditam, a gente tem a marca do Banco do Brasil que ela é muito forte, né, e em alguns casos a Fundação acaba também entrando no, nos planos de ações, que precisa construir uma casa de farinha, a Fundação vem e nos ajuda, precisa ampliar um frigorífico pra questão do açaí, pro açaí ser congelado, porque ele, ele, é ele adquire melhor qualidade e tudo mais. Então a Fundação tem entrado, a Fundação entrou também com a questão do... dum, uma… um trabalho que nós temos de um feijão chamado feijão caupi, esse feijão ele é vendido todo para o Nordeste, é aquele feijão que faz o acarajé.

 

P/1 – Ah, tá.

 

R – E nós temos uma região chamada Nordeste Paraense que ela é, assim, fantástica a terra pro feijão caupi, só que os atravessadores vinham e exploravam, quando chegava no final da safra, eles compravam no pé ainda o feijão, quando chegava no final da safra, o que eles colhiam não dava pra pagar nem a despesa deles, aí a Conab entrava com cesta básica em plena safra.

 

P/1 – Não dá pra entender, né?

 

R – Não dá pra entender, aí, nós entramos com o BB Educar naquela área e hoje, nós tamos inaugurando agora no final do ano um grande armazém, uma indústria, todos feitos pelos agricultores, pela cooperativa e nós temos 21 entidades envolvidas nisso, né, e a Fundação entrou com todo equipamento.

 

[FIM DA FITA]

 

P/1 – Maria, então, assim, vamos entrar no assunto do DRS, né, o quê é o DRS, qual é o escopo de trabalho e, assim, no que é que isso pode ajudar a transformar?

 

R – Bom, o DRS é uma nova estratégia negocial do Banco do Brasil, a gente trabalha a cadeia produtiva, a gente não trabalha mais a comunidade, pela comunidade e o Banco do Brasil é um dos parceiros do DRS, ele não é o DRS em si. O DRS não é nada novo, ele já existe, só que nunca foi implementado por ninguém e hoje todo mundo fala, cada local ele tem um nome diferente, no Sebrae ele chama-se GO, né, os APLs do Sebrae, no Banco do Brasil é DRS, em outras entidades tem outros nomes… Mas, na realidade, resumindo é assim: a gente trabalha uma cadeia produtiva, como no Pará nós trabalhamos a cadeia do mel, e a gente procura parceiros que já têm esse trabalho, né? Aí a gente descobre que o Sebrae também faz esse trabalho, a gente descobre que a Federação também faz esse trabalho, e várias entidades, a própria Prefeitura, então a gente já faz uma coisa que a gente chama de concertação, é sentar todo mundo e dizer: eu tô fazendo isso nessa cadeia, o quê que vocês podem implementar? O Banco do Brasil é quem chama pra reunião, a primeira reunião é coordenada pelo Banco, em alguns momentos o Banco do Brasil tá na coordenação e em outros momentos são outras entidades. Então a gente procura, aí, depois que a gente identifica a cadeia, trabalha, começa a trabalhar todos os pontos deles e a gente vai procurar as comunidades dos municípios que trabalham naquela cadeia. E a gente sempre tem um problema muito sério que é a questão da comercialização, sempre é um gargalo. Então esse trabalho a gente começa desde a questão de alfabetização, se a comunidade tem um índice muito alto de analfabetos a gente trabalha; se a comunidade não tem escola, a Prefeitura faz parte, a gente passa a cobrar, tem uma equipe, um grupo de trabalho que começa a cobrar; eles têm problema de assistência técnica, a gente chama pra ser parceiro nosso, no Pará é a Emater, é a Seplac, então a gente chama essa, esse grupo também pra vim trabalhar com a gente; tem problemas de semente, a gente chama a Secretaria de Agricultura do Estado pra tentar resolver e a gente, assim, a gente vai trabalhando. A gente não dá o peixe pra aquela comunidade, a gente ajuda toda uma estrutura, desde que elas queiram fazer parte. Então, é, prá mim é a saída do Brasil, eu acredito nisso, eu acredito muito que essa é a melhor maneira de se você trabalhar a questão da falta de renda, da falta de educação, é se trabalhar em equipe, é uma equipe multidisciplinar que tem de tudo, nós temos pessoas que, que são bem humildes, que são os sindicatos, os sindicatos fazem parte da equipe de trabalho, o sindicato dos trabalhadores, é, as associações, as cooperativas, todas elas fazem parte no mesmo nível de uma grande empresa como nós temos no Lago de Tucuruí, a Eletronorte faz parte também, mas também faz parte a associação dos pescadores e a gente não vai lá prá levar o bolo pronto... A gente vai lá ouvi-los e começar a identificar, nós fazemos um diagnóstico que lá tem cem perguntas, então a gente faz todo o diagnóstico de toda aquela comunidade. Se tem criança em trabalho escravo, se tem criança que não tá na escola, se tem falta de estrada, falta de saúde, então a gente faz um mapeamento muito grande, é, esse é diagnóstico do Banco do Brasil e os parceiros nos ajudam a fazer esse diagnóstico, porque também vai servir pra eles, porque aí a gente tem o mapeamento de toda a cadeia, como é que tá aquela cadeia naquele município. Então, a gente começa a trabalhar todos juntos, por exemplo, três municípios que são pequenos, eles precisam de uma agroindústria de farinha, antigamente o Pronaf ia lá e colocava uma agroindústria em cada município, e não tinha essa necessidade, podia ser uma pras três, aí a gente faz assim.

 

P/1 – Tá, desde que bem administrado...

 

R – E a gente trabalha, convida parceiros que trabalham, nós trabalhamos com a OCB, né, então ela trabalha toda uma estrutura pra formar aquela associação quando não tem associação, quando ela tem eles começam a dar treinamento pra eles, em alguns lugares nós já transformamos a associação em cooperativas, mas não é só o Banco do Brasil, você vê que é uma cadeia de parceiros.

 

P/1 – Agora deixa eu te perguntar uma coisa. DRS, né? O quê que quer dizer DRS e, assim, como que isso mudou a maneira do Banco do Brasil fazer negócio? Que a gente tava conversando...

 

R – O DRS é Desenvolvimento Regional Sustentável, né? A maneira que o Banco do Brasil mudou, ele se tornou mais humano, ele vai lá na ponta, ele conhece pra quem ele está trabalhando, ele conhece quem é o cliente, o pequeno cliente dele e conhece até o que não é cliente, né? Você sabe que hoje o mercado financeiro, ele tá esgotado. Existe uma grande parte da população que ela, ela não está bancarizada, ela não sabe o que é ter crédito, ela não sabe o que é entrar no Banco e o Banco, até na própria missão dele, ele mudou, antes ele colocava explorar mercados, hoje é desenvolver mercados, então a gente vai desenvolver aquele mercado pra adquirir novos clientes pra dentro do Banco do Brasil. Eu acredito que uma pessoa quando está sendo bancarizada nesse nível que ele se encontra, nessa, nessa baixa renda que ele se encontra, eu acredito que o Banco do Brasil vai ter uma clientela segura por muitos anos, prá viver pelo menos existe mais 200 anos, que acho que essa é a base principal do DRS, né? Ele ter novos, novos clientes, conseguir desenvolver esses clientes, né, fazê-lo crescer, fazê-lo conseguir andar com os próprios pés, ter a sua própria renda, conseguir alimentar seus filhos que é muito importante. Nós temos um caso, assim, muito interessante, porque a gente faz e a gente acompanha, a gente vai de vez em quando, vamos na casa desses clientes. Então nós fomos, o meu gerente, nós fomos numa comunidade perto de Igarapé-Miri e nós chegamos lá e nós notamos que na casa dele ele tava com uma antena parabólica, uma geladeira, né, e a televisão e nós fomos parabenizá-lo, né, “puxa, que bom que você tá conseguindo isso”, ele disse: “É, mas eu pago parcelado, mas eu estou tendo dinheiro pra pagar em dia as minhas prestação, né, as minhas prestações”. Aí, nós perguntamos, né, “puxa, foi muito legal você conseguiu tudo isso”, aí ele disse pra esse meu gerente: “É seu Maurício, o que mudou a minha vida não foi essa televisão, porque agora eu sou conhecido, eu quando eu vou no mercado as pessoas me conhecem, porque eu tenho dinheiro pra comprar comida. Não foi essa televisão que mudou, foi eu deixei de não existir, eu existo agora”. Então, você vê que é algo muito mais profundo, né? Eu costumo dizer o seguinte: é, prá mim o DRS, eu estou ajudando efetivamente à minha nação, ao meu país, fazendo com que essa mudança que todo mundo procura é, é vem com bolos prontos que nunca dá certo, a gente tá conseguindo mudar, com coisas simples, com atitudes simples, né, mas que tá tendo efeito. Infelizmente a gente não consegue atender cem por cento, mas o que a gente tá atendendo, a gente tá tendo um rendimento muito, muito legal, sabe, de crescimento. Nesse município de Igarapé-Miri, a classe média do município são os agricultores que nós começamos a trabalhar há três anos atrás. Hoje, eles eram de baixa renda, e hoje eles são a classe média. Hoje eles não querem ser o que a gente chama de “pronafero”, porque o cartão do Pronaf ele não tem taxa, não tem nada, ele é isento de tudo, ele vai lá, saca o dinheirinho dele, eles não querem esse cartão, eles querem ter o cartão do Banco do Brasil, o cartão Ourocard do Banco do Brasil, eles precisam se identificar, eles fazem questão. Por mais que a gente mostre que eles vão pagar taxa, eles fazem questão, porque eles dizem “eu tenho condição de fazer isso, então eu quero isso”, então, essa mudança...

 

P/1 – Qual o significado de uma pessoa assim ter um cartão Ourocard, que é que...

 

R – Status, né, prá ele, ele se sente que ele faz parte de uma sociedade. Ele ficou anos, uma vida inteira à beira dessa sociedade, excluído totalmente, excluído mesmo. Lá na ilhazinha dele catando açaí, que vendia ao panero a 50 centavos e o litro do açaí é cinco, seis reais um panero...

 

P/1 – Eu queria que você falasse o que é um panero?

 

R – Um panero é um balaio, né, é onde eles acondicionam o açaí, que a gente chama, na realidade não chama panero, a gente chama rasa, o açaí chama-se rasa do açaí.

 

P/1 – O panero é pra castanha do Pará?

 

R – Não, é, mas, é igual panero, só que o nome para colocar o açaí eles chamam de rasa, que ela tem uma dosagem, ela tem um quilo certo, ela tem 14 quilos, então é só assim prá fazer uma comparação. Eles vendiam na época, antes da gente começar lá junto com uma ONG da nossa universidade que é o poema “Pobreza e Meio Ambiente na Amazônia”, antes essa rasa de açaí, esses 14 quilos de açaí era vendida a 50 centavos, né? Esses 14 quilos de açaí, eles dão oito litros de açaí, que a gente chama papa, que é o grossão, né, grossão, que custa oito, dez reais o litro. Então você veja o nível de exploração dos atravessadores.

 

P/1 – Eles que ditavam o preço?

 

R – Eles que ditavam o preço. Se quiser é isso, senão joga fora, tinha muito em abundância, né? Então, quando nós entramos, a Fundação entrou, a Fundação deu alguns equipamentos, nós, foram... foi construída uma indústria, né, de açaí, hoje em dia. Hoje, nós tamo na safra, em plena safra do açaí no Pará, e hoje em dia nem uma rasa é vendida por menos de dez reais, é o preço mínimo, né? E os atravessadores acabaram tendo que sair, o preço do açaí para o consumidor final não aumentou muito, porque o problema era entre o atravessador e o agricultor.

 

P/1 – Tava na base, né?

 

R – Tava na base, né? Então esse, essa é uma das finalidades. Excluir o atravessador a gente não vai conseguir nunca, mas a gente quer que esse atravessador seja mais consciente, diminua mais os seus lucros. A questão do feijão caupi que eu falei há pouco, eles compravam uma saca de feijão na folha, que eles chamam antes do feijão ser colhido, eles compravam a saca a 40 reais e essa mesma saca era vendida no Nordeste a 180 reais, essa mesma saca, então nós tamos, nós vamos acabar isso. Hoje, a usina, a indústria, ela ainda não tá totalmente pronta, ela vai ser inaugurada no final do ano, mas hoje nenhum atravessador consegue chegar lá e comprar a saca do feijão por menos de 80, 100 reais, então é isso que a gente quer. Não tira o atravessador porque ele também é um trabalhador, mas que os lucros sejam divididos humanamente.

 

P/1 – Com certeza.

 

R – Então, quando a gente reúne toda essa equipe, todo esse, essa, essa quantidade de parceiros, a gente consegue isso, né, então, é uma mudança, com certeza é uma mudança muito grande. Essa mudança, essa revolução que todo mundo quer fazer, que todo dia ele tenha que ter o café da manhã, o almoço e o jantar, ele vai ter isso. Se tiver essas políticas mais justas, porque não adianta, a questão do Brasil não é falta de dinheiro, é falta de administração, né, administração dos recursos públicos e a gente tá conseguindo isso, né? Antigamente eles não, por exemplo, a gente liberava o Pronaf prá eles, eles nunca tinham pego dois mil reais na mão, então, muitos saíam de lá e compravam geladeira, televisão, fogão, acaba com a (________) e não plantavam nada, aí, ficavam inadimplentes. Eles são desonestos? Não, não são desonestos, eles não tiveram uma orientação. Hoje não, hoje quando vai se liberar o Pronaf a gente explica, os próprios técnicos da Emater explicam o que é que eles têm que fazer e de que maneira, eles dão treinamento pra eles, então, os nossos índices de inadimplência estão bem mais baixos, é bom pro Banco, é bom pro Governo. Eles começaram a tomar consciência que se eles não pagarem, o vizinho dele vai ficar sem o crédito, porque isso é uma auto-aplicação, a cada um que paga vem mais dinheiro e a gente pode distribuir melhor a renda pra eles, a gente passa a... a necessidade que eles têm de se unirem, né, de formar associação, de formar cooperativas, de lutar pelos direitos deles, de saber o que é que eles têm direito, então, isso tudo é ajudado, ajuda-se, nós estamos mais próximos deles, né, tá chegando mais, a gente tá conseguindo ouvi-los, que às vezes a gente vai com o pão, eles não precisam do pão, eles precisam de uma letra, eles precisam de uma educação, não de um pão, eles não precisam de uma cesta básica, eles precisam de políticas que eles consigam trabalhar e ter pra quem vender, né? A gente trabalha muito a questão da comercialização. Sempre fazem parte da nossa equipe de trabalho o clube de diretores lojistas da... da cidade, por quê? Porque eles congregam todos os empresários. Mesmo que seja uma cidade pequena...

 

P/1 – Acaba sendo o lugar que ele agrega.

 

R – É lá que é vendida a grande parte, é lá que são vendidas, né? Então a gente consegue fazer essa negociação, consegue vender e, aí, a gente começa a mostrar pra eles que não é interessante eles irem vender esse produto deles em outro município, porque o dinheiro vai circular em outro município e não ali, né?

 

P/1 – Entendi.

 

R – Então a gente também dá essa noção. Então, eu acho assim, o DRS é uma idéia fantástica que não foi nenhuma roda que foi inventada.

 

P/1 – Já existia desde quando?

 

R – Já existia desde que o Pronaf é Pronaf e desde a época do Fundec.

 

P/1 – Já existia paralelo o Fundec e o DRS?

 

R – Não, não, o DRS, ele é bem novo, né, tem três anos.

 

P/1 – Mas ele é uma evolução do Fundec?

 

R – É uma evolução, uma evolução.

 

P/1 – Em que sentido, assim?

 

R – Eu não trabalhei no primeiro, na primeira fase, né, mas as pessoas que trabalharam, ele tem a essência, a mesma essência com mais profissionalismo, vamo dizer assim, com mais novas tecnologias, foi um desenvolvimento.

 

P/1 – Um amadurecimento?

 

R –  Um amadurecimento, né? As pessoas que trabalharam na época e conhecem o DRS, eles são unânimes em dizer, todos os que eu conheço são unânimes em dizer “esse daí tem um fundamento no Fundec”.

 

P/1 – Então a pessoa que é chave nesse sentido, que é a Eliana Matioli?

 

R – Matioli, o Plínio Severo também são pessoas que estão desde aquela... desde essa época.

 

P/1 – Fala um pouquinho deles, assim, como que eles são, o que é que eles...?

 

R – Ah, a Eliana é uma pessoa, uma figura fantástica, né, que trabalha no DRS, a gente trabalha muito, desde quando começou o DRS, é, eles fizeram muitas experiências com a gente no Estado do Pará, porque a gente já tinha algo parecido com o que é o DRS. Nós apelidamos lá de cadeia produtiva, né? Um ano antes de começar o DRS e nós começamos a desenvolver, porque, por incrível que pareça, o Pará é uma floresta, é um mar e é totalmente agrícola e o índice de aplicação no Pronaf lá era uma vergonha, era uma vergonha. A gente não tinha verba pra trabalhar lá e nós fomos começar a fazer tipo uma experiência, não, a gente vai trabalhar, vamos chamar todas as nossas agências e vamos pedir pra eles escolherem 50 famílias em cada agência pra gente trabalhar, mas a gente não tinha pretensão, a gente queria trabalhar num número no máximo de 10 mil, né, e a resposta foi maravilhosa dos nossos gerentes, das nossas agências. Em 15 dias a gente já tava com nove mil e 500 e não tava nem na metade das agências, né? Então, começou dali, aquele trabalho, nós começamos a fazer, escrever esse trabalho, né, de que maneira iria fazer, como, como é que a gente ia aplicar, é, tentamos algumas técnicas e tivemos um bom, bom sucesso nisso, né? Foi muito fan… foi fantástico, foi quando começou, aí, começou a crescer. Nós atendemos no primeiro ano, o Pará não tinha, não tinha muita (pausa) é... como é que se diz, não trabalhava com o Pronaf.

 

P/1 – Por que?

 

R – Acho que desinteresse, né, não vinha verba, ninguém lutava pra vim verba e é uma população que necessitava, né, um recurso nessa, nessa linha, com juros tão altos que tem no Brasil, uma linha de crédito como essa com quatro por cento de juros ao ano e nós começamos. O nosso superintendente se interessou pelo trabalho, o nosso gerente também se interessou e nós começamos a fazer esse trabalho, aí, logo depois, veio o DRS, quer dizer...

 

P/1 – Aí só agregou...

 

R – Só agregou, a gente já tinha alguma experiência e nós começamos a fazer. Hoje nós temos 102 DRSs aprovados pela Diretoria de Crédito, temos mais, nossa meta até dezembro é fechar 140 DRSs, é nossa meta, nós temos também meta de DRS, que é importante, a meta mais maravilhosa pra gente fazer, né?

 

P/1 – Como é que vocês contabilizam, é por, é como se fosse por projeto? 40 DRSs são 40 projetos que visam o desenvolvimento regional sustentável?

 

R – Isso, é, na realidade não chama-se projeto, porque projeto tem começo, meio e fim. DRS não pode ter fim, ele vai se aperfeiçoando, uma continuidade, né, a gente não pode tratá-lo com “daqui a dois anos termina”, não tem como. Então é uma estratégia. Em cada, cada município, por exemplo, nós temos agência que tem quatro DRSs, são quatro estratégias desenvolvidas de atividades diferentes, de piscicultura, de apicultura, mandiocultura e... e nós temos até de... de, por incrível que pareça, nós temos um que chama-se transporte alternativo, que era um problema seríssimo que nós temos, nós temos muito transporte alternativo no Estado e eles não conseguiam nunca ninguém financiá-los, é uma...

 

P/1 – Então é o próprio investimento no transporte alternativo.

 

R – Do transporte alternativo, porque é muito caro, um... um micro ônibus custa na faixa de 150 mil reais, 140 mil e ninguém acreditava, né, como? A gente vai pra umas pessoas que não têm emprego, não têm carteira assinada, não tem nada, é muito difícil hoje o mercado aceitar isso, né? Então, eles estavam bem estruturados numa cooperativa, num sindicato, o sindicato procurou, aí, o gerente da agência disse: “tudo bem, então nós vamos fazer dentro da estratégia DRS, vamos arrumar parceiros, porque os parceiros nos ajudam”. Então, hoje eles estão, pra eles terem direito a financiamento eles têm fazer, passar pela Arcom, que é o órgão do Governo que controla todos os transportes alternativos, eles têm que ter 40 horas de treinamento em como atender cliente, né, tem aulas de educação, aulas de higiene, pra manter sempre a qualidade dos microônibus deles e a gente como? Transporte alternativo, como é que pode o DRS? Hoje... é como eles dizem: antigamente eles pagavam uma prestação de cinco, seis mil reais, eles não tinham sábado, não tinham domingo, os acidentes eram constantes na estrada, por conta da vida que eles levavam. Hoje eles pagam a prestação de um ônibus de dois mil e 500 a dois mil e seis… dois mil, três mil reais, né, como eles dizem: “nós temos o nosso final de semana, nós ganhamos qualidade de vida” e tão criando empregos, porque eles acabam contratando pessoas que eles chamam de cobradores, né, eles fazem os pontos deles, colocam já com uma estrutura e dão emprego, tão gerando emprego. Quer dizer, eles eram individuais, hoje eles são micro-empresários que já tem empregados a serviço deles. Isso que é importante, né, a criação de renda.

 

P/1 – Me fala uma coisa, com a tua ida pra Superintendência, como é que ficou o seu cotidiano de trabalho?

 

R – Maravilhoso! Não tem rotina, cada dia é um trabalho novo, é uma experiência nova, é uma vivência nova.

 

P/1 – Você viaja muito?

 

R – Muito e é assim, olha, eu chego pra trabalhar e precisa ir lá em Abaetetuba, são 130 quilômetros. Tá bom, me dá a chave do carro, vou lá, volto, né, e é uma vida, assim, maravilhosa, eu acho fantástico isso, eu sou uma pessoa que eu não consigo trabalhar em coisa rotineira, então eu tô, eu até ganho pra fazer isso, gente, eu até ganho (risos)!

 

P/2 – É um trabalho mais pessoal, né, conhecer muitas pessoas.

 

R – É uma realização total, uma realização total, você lidar com pessoas, você conversar, você ter aquele contato, você olhar nos olhos daqueles... daquelas pessoas bem humildes e ela lhe oferecer um cafezinho, você ver que aquilo ali é uma satisfação pra ela. Nós não somos melhores do que eles de jeito nenhum, nós somos iguaizinhos a eles, nós só tivemos um pouquinho mais de oportunidades, né? Então, você olhar pra eles e diz assim: “poxa, você sabe que tudo isso eu agradeço ao Banco do Brasil, o meu filho tá indo estudar lá na Capital, porque hoje eu posso sustentar o meu filho lá, mas ele vai estudar pra voltar pra cuidar – lá a gente chama de lote, as fazendas, as terras lá, a gente chama de lote – ele vai voltar pra tomar conta do meu lote”. Então, a gente tá oportunizando pra essas pessoas que não tinham nenhuma oportunidade. E são trabalhadoras, são seres humanos fantásticos, então, toda recompensa que eu tenho eu chego numa comunidade e eu vejo que ele já está com um fogão novo, uma geladeira nova, né, eles dizem assim mesmo: “meu filho já tá indo prá outra escola, eu já tô podendo”, né, e você vê aquelas pessoas mudando efetivamente, crescendo, né, então isso daí não tem nada no mundo que pague isso aí.

 

P/1 – Você disse assim que era visível essa mudança, né?

 

R – Visível, ela é visível, ela é visível mesmo.

 

P/1 – Fantástico! Vamos voltar um pouquinho pros projetos da Fundação, né? Você começou com o BB Educar?

 

R – Isso.

 

P/1 – O quê que você tinha que fazer exatamente?

 

R – Eu tinha que procurar parceiros, né, que quisessem se interessar pela educação, uma coisa muito difícil no Brasil, né? E eu comecei procurando pequenos parceiros, comunidades, associação...

 

P/1 – Que quisessem receber o projeto?

 

R – Que quisessem receber o projeto, né?

 

P/1 – O lugar onde se dava as aulas, como é que é?

 

R – A gente, a gente... por exemplo, eu ligava pro gerente da agência, procura identificar no teu município o índice de inadi..., eu procurava sempre pelo IBGE o maior índice de... de anafalbetismo, então, eu ligava pro gerente daquela agência, começava a fazer o contato com eles. “Olha, vamo vê se tu consegue, bora montar uma turmazinha, vamo vê se a gente consegue”. Porque a Fundação, ela dá toda a parte de treinamentos, dá toda a parte de material, mas a parte financeira do professor, ela tem que ser voluntária, porque o BB Educar começou com funcionário do Banco do Brasil, né?

 

P/1 – Então, eu queria que você falasse isso.

 

R – Ele começou com, no Maranhão, no interior do Maranhão, né, e colegas nossos que começaram a perceber que a pessoa que servia o cafezinho pra eles era analfabeto, a pessoa que limpa a agência era analfabeto, os vigias, né, então, eles começaram a perceber isso e começaram a ensinar essas pessoas e daí nasceu a sementinha do BB Educar. Então, o BB Educar, ele foi feito por funcionários do Banco e que nós éramos voluntários, né? Então, a parte de voluntariado é muito forte nisso ou, até hoje, nós temos vários colegas do Banco que são instrutores, porque nós temos os instrutores que treinam os professores, que eles são voluntários.

 

P/1 – Que são funcionários do Banco?

 

R – São funcionários do Banco do Brasil, né, toda parte de instrutores são funcionários do Banco do Brasil, ou na ativa, ou aposentados, né? E eles dão aí treinamento pra aquelas professoras dentro do método do Paulo Freire. E aí começou assim, eu começo a ligar pro Gerente: “olha, dá uma olhada e tal”, e na própria cidade a gente começa a ter esse... esse tipo de relacionamento, conhecer as entidades e ver se tal entidade trabalha com a educação, com alfabetização, vai lá ver se eles não querem uma parceria, porque o nosso problema é pagar o professor e o problema deles é o material. Quer dizer, duas entidades que têm a mesma finalidade tão com problemas, então vamos tentar unir, vamos tentar juntar e agora no governo do Lula, né, nós tivemos maior facilidade por causa do Brasil Alfabetizado, que ele expandiu isso pro Brasil inteiro. Então, a gente faz as parcerias com as prefeituras, as prefeituras selecionam os professores, quem paga é o Brasil Alfabetizado e a Fundação dá o treinamento pra elas e todo o material, né?

 

P/1 – E como é que se dá a mobilização da comunidade que vai ser alfabetizada?

 

R – É sempre feito pela agência, pelo colega da agência, né?

 

P/1 – Então, assim, ele vai na casa das pessoas, como é que é?

 

R – Não, ele procura o parceiro, que é a prefeitura, e a prefeitura - a prefeitura já tem toda essa estrutura, ela tem mapeado isso, né? Aí, ele diz: “nós temos tantas pessoas”, aí ele faz a articulação. A gente pede pra Fundação, a Fundação manda um instrutor lá na localidade prá treinar aqueles 23, 25 professores, que uma turma no máximo entre 23 e 30, e a cada professor ele pode colocar 25 alunos dentro de sala.

 

P/1 – Então é uma coisa que multiplica?

 

R – Isso, multiplica. A gente tem algumas exigências, quando o professor vai pra sala de aula, ele já tem que ir com a turma dele montada, então, eles mesmos procuram, eles mesmos se interessam. A parte da educação é uma coisa muito linda, é um dom, então, aquela pessoa ela tem aquele dom, ela tem aquela vontade e muitas vezes ela tem muita vontade, mas não tem o recurso pra fazer. Então, a gente acaba juntando essas forças, né, e a gente consegue fazer tudo isso. Colocar 18 mil pessoas em sala de aula, colocar mais 16 mil numa outra área e a gente vai assim trabalhando. Mas eu costumo dizer que infelizmente é um dado que eu não queria ter no meu Estado, porque...

 

P/1 – Porque também é um reflexo.

 

R – É um reflexo do descuido da educação, né?

 

P/1 – Agora, em relação ao projeto Memória.

 

R – O Projeto Memória, ele é o único projeto que eu não trabalho com ele, porque a Superintendência identifica que ele trabalha muito com a área de marketing, porque o Projeto Memória ele vai muito pra... em Belém do Pará é impressionante, quando fala que o Projeto Memória tá novo, começa a chegar carta de tudo quanto é lugar, a gente faz exposição no Supremo Tribunal, lá, no TRE, você precisa ver a lista, a prefeitura de tal cidade procura, a gente também quer fazer exposição aqui, então é uma coisa muito legal. Então, esse foi o único projeto que ficou com a área de marketing, porque eles têm mais facilidade, né, os contatos deles, mais institucional, na área de marketing, então, ficou exatamente com eles, mas é um programa também muito lindo, né, que depois que termina todo material é doado pras bibliotecas, isso é muito bom. E eu faço um trabalho por trás, tento convencer a prefeitura pra até a biblioteca se inscrever a nível nacional, né, a biblioteca dela ganha todo equipamento, todo material, né, então também a gente acaba ajudando de alguma maneira, né?

 

P/1 – Estação Digital, você trabalha?

 

R – Trabalho também Estação Digital.

 

P/1 – O quê que é a Estação Digital, como que?

 

R – A Estação Digital é... a Fundação ela doa todo equipamento, uma sala de, de informática, né, prá comunidade, tem alguns quesitos que a comunidade tem que ter, a Fundação ela dá todo apoio, apoio, assim, maravilhoso. Os computadores, os equipamentos são, assim, super novos, de última geração, eles dão todo treinamento pro instrutor que vai ficar lá e a prefeitura sempre é nossa parceira. Então, a prefeitura aproveita isso, ela abre pra comunidade, então, as pess..., pros grupos, pras escolas públicas municipais, que eles não têm esse acesso, né? Então quando chega uma sala, a encher uma sala da informática lá, é assim, uma festa na cidade, de ter fogos... muito bonito aquilo ali, né, e eles vão ter aquele primeiro contato que pra eles é na televisão que eles vêem ou quando entram num banco que vê um computador, é muito fora da realidade deles e eles começam a ver que eles são possíveis, eles têm esse direito, né. Então, existe essa possibilidade de eles tocarem, de eles trabalharem, de eles conhecerem aquilo se não for muito longe deles, né? Vem, vem prá realidade deles, então, a criançada então, eles ficam encantados.

 

P/1 – É? Com quê que eles ficam encantados?

 

R – Com o ligar, com o tocar, né, com o saber que eles podem escrever ali, que eles podem entrar numa Internet, conhecer o mundo, gente, o mundo deles é muito pequeno, no Interior, né? Então, eles têm aquela possibilidade de ver outra coisa assim que não seja televisão, né, que eles podem acessar algumas coisas, fazer pesquisa de colégio. Então, é assim, uma realidade que muitos deles achavam até que impossível que pudesse acontecer isso. Então, ela dá uma, eu acho que a Estação Digital, ela dá uma janela pro mundo, pra aquela comunidade, ela abre uma janela muito grande.

 

P/1 – Me fala uma coisa... você falando assim, é, quando tem essas inaugurações, essas aberturas, né, você tem, assim, caso pitoresco que você foi homenageada?

 

R – Ah, não, tem alguns casos fantásticos, eu participo muito de formação de BB Educar, aí na hora que me, eu já fui desde, até o cargo do Jacques Pena eu já tive.

 

P/1 – Ah é?

 

R – É.

 

P/1 – Por que? Como é que...?

 

R – Tá aqui a representante da Fundação Banco do Brasil, presidente da Fundação Banco do Brasil, diretora, já tive todos os cargos, eu vou ter a qualquer hora que questionar com a Fundação isso (risos), né? Então são essas coisas muito interessantes, apesar da gente escrever que eu sou representante, que eu sou funcionária do Banco do Brasil, mas na hora eles ficam, assim, tão entusiasmados, né, a Diretora da Fundação Banco do Brasil, Diretora do BB Educar, Presidente do BB Educar e não é um cargo menor, (risos) eu acho, assim, muito engraçado. Então você fica assim, logo no início, não, olha, e não adianta você no meio do público dizer “não, eu não sou Diretora”. Às vezes eu entro brincando eu digo: “ah, obrigado pelo cargo, vou só requerer os honorários desse cargo que eu não tenho”, mesmo assim a gente vai levando, né, e tentar a humildade eu acho que nesses projetos é a coisa mais, mais pé no chão que a gente tem que ter, né, a gente tem que ser humilde, não ficar lá em cima e ficar sempre lá embaixo com eles, porque eles começam a adquirir confiança e eles param de nos olhar lá de cima.

 

P/1 – Aproxima, né?

 

R – Aproxima, eles começam a confiar, porque o nosso povo lá é um povo muito sofrido, ele já foi muito explorado. Então, até pra gente levar um BB Educar, eles custam a acreditar que isso é verdade. Da gente dizer assim, “olha, vai ser colocada uma Estação Digital”, eles não acreditam enquanto não chega lá. Não é culpa deles, quantas e quantas promessas foram feitas e foram quebradas. O DRS quando a gente chega, a gente chega numa comunidade que tem 200, 300 pessoas, 15, 20, no máximo 50, diz “não, eu quero participar”. Agora, a gente nunca deixa a porta fechada, né, a porta eternamente fica aberta. Aí, a gente vai dizer “Ah! Porque eles não querem, são mal-agradecidos.” – não são, eles apenas não tem mais...

 

P/1 – Não tem uma percepção aí...

 

R – Não acreditam mais em nada, né, é um povo que já foi muito enganado, mas a gente tá mudando isso lá, tá mudando muito, porque quando, tem municípios que entra, município próximo onde tem DRS que a gente começa a fazer o trabalho, aí, eles: “ah, é igual aquele que tem no município tal? Ah, eu quero participar.” – porque eles tão começando a acreditar que realmente, né, a gente chega faz uma promessa e vira as costas.

 

P/1 – Entendi.

 

R – Eles tão acreditando porque a gente tá indo passo a passo, a gente tá ouvindo, ouvindo os questionamentos, ouvindo dizer, “olha, não é assim, aqui não funciona assim, aqui funciona assim”, então a gente molda muito eles. Então, essas coisas assim são muito, muito bacanas.

 

P/1 – Tem alguma história tocante, assim, que você tenha vivido?

 

R – Particular minha tem, né?

 

P/1 – Você pode falar?

 

R – Com certeza. Eu não fiz faculdade, porque primeiro eu não tinha recurso quando eu era solteira, aí, depois que eu passei no concurso do Banco no Interior não tinha nem o primeiro grau, quanto mais faculdade nesses interiores que eu andei. Quando eu vim pra capital eu casei novamente e começou a vim os filhos, né? Então, nós mulheres, a gente tem esse lado muito forte, com pena de deixar a criança e não volta a estudar e quando eu comecei a trabalhar no BB Educar eu tinha, ah, acho que eu volto a estudar, vou fazer vestibular, fiz vestibular e passei.

 

P/1 – Pra quê?

 

R – Pra administração. Aí, foi em janeiro, foi muita coincidência, em janeiro eu passei, em fevereiro eu fui, março fui fazer uma visita que ia começar a minha aula. Eu não tinha nem me preocupado nem em me matricular, eu digo: “ah, eu não vou fazer, pra que é que eu vou estudar?”. Estava com 45 anos, faltam cinco anos, seis anos pra me aposentar do Banco. Pra quê? Por que é que uma faculdade vai mudar minha vida? Em nada, né? E eu fui fazer uma visita junto com o pessoal do Senar, fui fazer uma entrevista pra uma televisão e foram entrevistar uma senhora, Dona Lourdes, 90 anos, foram perguntar pra ela o que é que ela tava sentindo agora que ela estava começando a aprender a ler, ela disse, a coisa mais linda da vida dela foi ela aprender a escrever o nome dela completo, e que agora ela não ia mais parar de estudar. Ela ia terminar, ela ia ser alfabetizada, ela ia fazer o Desu, né, e eu ouvindo aquilo, eu disse: “gente, ela tem 90 anos, ela não tem mais nada que esperar da vida e eu com 45 achando que não tem mais nada pra mim”. Voltei a estudar, me formo para o ano, né, então foi uma lição tão grande de vida que idade não tem nada a ver. Sabe, é você querer, você precisa tá modificando, mudando e nunca é tarde pra você fazer uma faculdade, nunca é tarde pra você voltar a estudar. Então, são, pra mim particularmente foi uma lição muito boa que eu aprendi, muito linda.

 

P/1 – E, assim, além do BB Educar, do Estação Digital tem outro projeto?

 

R – Tem, tem o AABB Comunidade, o AABB Comunidade é um programa lindo, né? A gente trabalha com crianças da escola pública e 25% dessas vagas têm que ser pra meninos de rua, pra conseguir tirar eles da rua, né? E esse programa ele tem que ser feito obrigatoriamente com a prefeitura. Por que? Porque num momento desse que a gente precisa incluir essa criança na escola, a gente não vai ter nenhum obstáculo.

 

P/1 – Não vai ter nenhum?

 

R – Obstáculo, né, porque a própria prefeitura é parceira, ele coloca essa criança, então é um trabalho muito lindo. Nós temos AABB Comunidade fantástica lá no meu Estado, que ele, ele até deixou de ser só uma AABB Comunidade, a AABB ela abriu pra sociedade. Nós saímos daquele mundo que nós tínhamos que era Banco do Brasil, era funcionário do Banco do Brasil, hoje nós somos cidadãos como qualquer um, nossa AABB ela é aberta, ela trabalha, faz um trabalho social muito bonito que muita gente não conhece, né, e atrás disso tá funcionário do Banco, todos voluntários, porque a gente não ganha pra ser presidente da AABB, pra ser diretor, pra ser educador da AABB Comunidade. Então, é um trabalho muito, muito, muito lindo, muito bonito, né? Então, a criança ela tem obrigatoriamente - com exceção dessas que tão tentando colocar pra escola - ela obrigatoriamente tem que tá na escola, tem que ter uma freqüência mínima, ela não pode ter… ela tem tantas faltas, ela é excluída do projeto, ela tem a parte... ela tem toda a parte de saúde, que ela tem que fazer todos os exames, tudo isso é a prefeitura quem faz, ela faz a parte de treino de... de esportes, eles trabalham muito com esportes no AABB Comunidade e também tem o reforço escolar, né, tem artes lúdicas, tem teatro, eles fazem teatro, eles fazem dança, fazem capoeira, uma série de coisas e essa criança, ela acaba criando amor pelo esporte, né, a saída dela, ela começa a ver que ela não precisa tá na rua pra ter direitos, então é uma coisa, é um programa também muito bonito.

 

FIM DO ARQUIVO

 

P/1 – Maria, os projetos que você acompanha da Fundação são os mais ligados à educação.

 

R – É, não eu...

 

P/1 – E o DRS é da Fundação?

 

R – Não, da Fundação eu trabalho com o AABB Comunidade, com a Estação Digital, com o BB Educar e com o Trabalho e Renda. Trabalho e Renda são projetos que são mandados pra Fundação através da gente pra cobrar equipamentos, treinamentos. Também acompanho esse daí, eu faço controle, quais os municípios que tem, acompanhar, verificar se tá acontecendo.

 

P/1 – Você vai até a localidade e tudo?

 

R – É, em alguns casos, quando a verba é muito alta a gente vai, a gente fiscaliza, a gente vai conhecer, o que é que tá acontecendo, né?

 

P/1 – Tá sendo feito mesmo, sendo aplicado...

 

R – Tá sendo feito mesmo, tá sendo aplicado, o gerente já tem responsabilidade total, né, o gerente da agência, mas a gente vai também dá um apoio pra eles.

 

P/1 – Quais são os projetos de geração de trabalho e renda que você acompanha, assim, da Fundação?

 

R – É, o do feijão caupi, que é a... dos equipamentos todinhos; eu acompanho o de Igarapé-Miri, que foi a ampliação do túnel de resfriamento pro açaí; tem um também próximo de Belém, que é numa cidade do lado, que a grande Belém, Marituba é uma, uma cooperativa que eles, a Fundação doou várias máquinas de costura, né, então eles formaram uma cooperativa de costureiros, costureiras e costureiros e tem outros, né, que de treinamentos, que a Fundação também, ela contrata normalmente os, o Sesc dá treinamento pra determinadas cooperativas, determinadas entidades.

 

P/1 – Fantástico. E, assim, como que você avalia a tua trajetória se você olhar, se você, assim, como funcionária do Banco, né, quando é que começou, lá naquela cidade Pa...

 

R – Vila Pacau.

 

P/1 – Vila Pacau, né, e tá hoje na Superintendência de Varejo do Pará e Amapá, né, como que você avalia essa trajetória, você ter tido a oportunidade de acompanhar esses projetos, que você percebe que trazem uma transformação efetiva?

 

R – Eu acho que nada acontece por acaso, né, a gente vai fazendo as coisas e as pessoas vão reconhecendo. Eu acho que pra mim é um reconhecimento, estar onde eu estou hoje é um reconhecimento que o Banco tem comigo, né? Acreditou em mim, acreditou como profissional e hoje eu tô aí, tô na Superintendência e procuro fazer o melhor trabalho possível. Eu costumo dizer que eu sou funcionária do Banco do Brasil, eu não sou funcionária da Superintendência, nem da agência tal. A hora que o Banco precisar de mim pra outro desafio, eu vou estar presente com certeza. Eu adoro desafios, a minha vida é movida a desafios, é o meu perfil. Então, quanto mais difícil, mais legal pra mim, pra procurar trabalhar, com uma finalidade legal, isso que eu acho bacana, né? E eu tô assim numa finalidade, é um presente que eu ganhei de Deus.

 

P/1 – Você tá a quanto tempo de se aposentar?

 

R – Cinco anos.

 

P/1 – Cinco anos?

 

R – É, é. Não oficialmente, né, se o Banco me agüentar, eu fico mais. Ah, se eu ficar onde eu estou, eu fico mais, porque é muito prazeroso, nossa, eu amo o que eu faço.

 

P/2 – Você pretende continuar nesses projetos mesmo depois de aposentada?

 

R – A gente não tem como ficar porque nós estamos vinculadas à entidade, mas no que eu puder, onde tiver pra mim entrar como voluntária, você pode ter certeza. Eu acredito que no projeto Reviver que é uma coisa à parte, esse eu ainda vou ficar bastante tempo, acredito.

 

P/1 – Você pode protelar a tua aposentadoria?

 

R – Eu ainda não parei pra pensar nisso, sabe?

 

P/1 – Não, mas existe essa possibilidade? Você não é obrigada a aposentar?

 

R – Não sei se isso, eu acredito que não, acredito que não, né, mas eu acho que não vai ficar, se esse projeto, tudo isso que tá acontecendo continuar por mais quatro anos, mais oito, eu acho que não tem mais volta, porque foi criada uma coisa muito sólida, o DRS é uma coisa muito sólida, não tem mais como o Banco do Brasil voltar atrás, acho que independente de vir novos governos, só se for assim uma coisa muito séria.

 

P/1 – Tá muito internalizado, né?

 

R – Tá muito internalizado, tá muito internalizado na própria população, a população já conhece o que é o DRS. Ela conhece... pode não conhecer até pelo nome DRS, mas ela conhece que é um programa do Banco do Brasil e eles chamam programa, chamam projeto e nós internamente sabemos que é uma estratégia. Então, eles já conhecem isso, eles já cobram da gente. Já tem comunidade que já chega assim na agência e diz assim: “Olha, eu vim falar aqui com um tal de DRS, que eu sei que o Banco do Brasil vai me ajudar lá no meu plantio. Eu tenho uma comunidade que nós somos 70 pessoas, 80 pessoas, a gente precisa da ajuda do Banco”. Antigamente eles chegavam e diziam assim: “Eu preciso de um empréstimo do Banco”, hoje eles não chegam mais dizendo isso, né, eles já chegam procurando ajuda, de que maneira eles podem ajudar.

 

P/1 – Bom, você tava falando que é impossível voltar atrás, né?

 

R – Voltar atrás, eu acho que vai ser regredir muito o Brasil como um todo, porque o DRS, ele já tá agora no Brasil inteiro. Até o ano passado ele foi região Norte e Nordeste, que são as regiões mais carentes, hoje ele já tá na região Sudeste, Sul, Centro-Oeste, então, ele tá se alastrando. É uma epidemia maravilhosa, sabe, uma coisa fantástica de você poder transformar o Brasil. Isso é um transformação, uma mudança de cultura, você tá mudando a cultura de uma pessoa sem tocar na diversidade, respeitando a diversidade dela. Você tá mostrando pra ela que elas são capazes, que elas conseguem produzir, que elas conseguem viver bem. Pelo fato de ela morar lá no interiorzinho do Pará, não quer dizer que ela tenha que ser uma pobrezinha qualquer, que ela não tem que ter nenhuma qualidade de vida, que ela não tem direito a… que ela não tem os direitos dela, então isso tudo o DRS consegue mostrar, consegue levar. E graças a Deus a Fundação, agora a gente tá trabalhando juntos, né, então, com certeza a gente vai ter vários projetos que a gente vai ter que pedir o auxílio da Fundação e são projetos responsáveis, que antigamente, às vezes até, a gente acabava não conseguindo acompanhar o projeto. Mas agora não, tem uma equipe que não é toda do Banco do Brasil, que são de várias entidades, então a gente consegue trabalhar isso e a gente vai conseguir melhoria de vida deles, mudança, mudança cultural, eu acho que é uma mudança fantástica que nós tamos passando, eu tô muito feliz, porque eu tô conseguindo passar isso também, passar por todas, todo esse movimento de mudanças.

 

P/1 – Que bom. Se você fosse traduzir, ô Maria, a Fundação em algumas palavras, qual o significado da Fundação?

 

R – A Fundação? (pausa) eu acho que cada empresa do porte do Banco do Brasil deveria ter uma fundação, fundação com esse propósito que a nossa tem. A nossa se preocupa não só a questão de aprovar projetos, mandar dinheiro, ela se preocupa com a educação, ela se preocupa com a criança, ela tem uma preocupação bem grande, ela se preocupa com a cultura de um povo, a questão do...

 

P/1 – Você tava falando do significado da Fundação, né?

 

R – A Fundação, ela não se preocupa apenas em dar o dinheiro prá, pro projeto, ela se preocupa com essa parte da educação, que a saída pro Brasil é a educação, né? É a base, é a parte mais básica da fundação, da educação que é o analfabetismo, né? Então, ela se preocupa, ela monitora, ela quer saber se teve resultados, ela acompanha ela tem, e tem educadores que acompanham os projetos. Então, se cada empresa do porte do Banco do Brasil tivesse uma, uma fundação, muita coisa seria diferente nesse Brasil, muita coisa mesmo. Ela seria maravilhosa, a relação é, é muito bom trabalhar com a equipe da Fundação, são equipes, assim, de pessoas super profissionais que entendem a gente, entendem a gente que tá lá na ponta, que a gente tá mais com contato, procura sim resolver os problemas que acontecem, que são vários problemas, é óbvio, né, mas é muito bom ter uma fundação dessa, muito bom mesmo, né?

 

P/1 – Que legal. E, Maria, e prá gente encerrar a entrevista, o que é que você achou, assim, de ter vindo prá cá e ter deixado a tua trajetória, a tua história pessoal registrada, né, e tua experiência com a Fundação, dos projetos acompanhando a Fundação, pro projeto dos 20 anos?

 

R – Bom, primeiro pra mim foi uma surpresa total, né? Ontem à noite eu cheguei eu não sabia nem o que eu vinha fazer aqui (risos). Eu acho que é reconhecimento, eu acho que a Fundação tá reconhecimento toda dedicação, reconhecendo em mim toda dedicação que eu faço, que eu me dôo muito, né, porque pra mim isso é um prazer, né? Então eu acho que é um presente que eu ganhei da Fundação, quero agradecer, né, são quantas pessoas que trabalham com a Fundação no Brasil inteiro e eu fui uma das escolhidas. Algum sentido tem, né, mas eu quero agradecer e, bom, eu quero continuar pelo menos mais uns cinco anos, no mínimo, trabalhando com ela.

 

P/1 – Legal, então, em nome da Fundação Banco do Brasil e do Museu da Pessoa eu agradeço a sua entrevista e ter vindo prá cá e colaborado com o projeto.

 

R – Eu é que agradeço essa oportunidade.

 

P/1 – Encerramos.

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