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História

Transformação através da música

História de: José Isaias Camaratta da Costa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/08/2021

Sinopse

Infância em Novo Hamburgo (RS). Paixão pela música desde cedo. Interesse pela química, técnico e Engenharia Química. A grande luta para terminar a faculdade e conciliar o trabalho no pólo petroquímico. Ressurgimento da música em sua vida e a criação do coral dos Meninos Cantores de Novo Hamburgo. Impacto na vida das crianças, expansão do projeto e mudanças com a pandemia. Experiência de ser pai.

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História completa

P1 - Então, começando, Isaías, eu vou pedir pra você dizer o seu nome completo, a sua data de nascimento e a cidade onde você nasceu.


R - Meu nome é José Isaias Camaratta da Costa, eu nasci no dia 22 de março de 1975, na cidade de Pelotas, noRio Grande do Sul.

P1 - Qual o nome dos seus pais?

R - Meu pai é Antônio Brasileiro Campos da Costa e a minha mãe é Ana Maria Camaratta da Costa. Meu pai é falecido, já.

 

P1 - Você tem irmãos?

R - Tenho. Tenho dois irmãos mais novos. O Antônio Júnior, meu irmão do meio e minha irmã, Sula Maíra.

 

P1 - Os seus pais são de Pelotas mesmo, ou vieram de alguma outra cidade pra Pelotas, Isaías?

R - Não, não, os dois são de Porto Alegre (RS). Na realidade, meu pai é natural de Santiago (RS), mas morava em Porto Alegre. Minha mãe é natural de Porto Alegre. E eles foram pra Pelotas logo depois que casaram, por conta de trabalho, e aí eu acabei, tanto eu e meu irmão, nascemos lá.

P1 - Você se lembra da casa onde você passou a sua infância, Isaías?

R - Olha, na realidade, em Pelotas, não, porque a gente ficou muito pouco tempo lá. A gente… Eu nasci lá, meu irmão nasceu lá, com um ano e meio de diferença e aí, em seguida que meu irmão nasceu, nós fomos pra Novo Hamburgo (RS). E aí, nisso, eu tinha menos de três anos de idade ainda. Então, na realidade, as minhas lembranças principais desde então estou morando em Novo Hamburgo. Então, as minhas lembranças mesmo são de Novo Hamburgo em diante, que é onde eu tenho memória, porque era muito pequenininho ainda, né? Minha irmã já nasceu em Novo Hamburgo, por exemplo. Então, minhas lembranças são já da cidade que eu moro até hoje.

R - E quais lembranças você tem de Novo Hamburgo, na sua infância, Isaías?

 

R - Todas as lembranças possíveis, né, porque eu morei praticamente a vida toda, eu e meus irmãos, na mesma _____ (áudio falhou). Meus pais se separaram muito cedo, né? Meus pais se separaram, minha mãe estava grávida da minha irmã e nós éramos três: eu, meu irmão e mais a minha mãe… E nós morávamos juntos. Na realidade, aquelas casas mais de vila, assim, onde compartilha o terreno, né? Então, tinha no mesmo terreno, a casa da minha vó, com alguns dos meus tios, irmãos da minha mãe, e nós tínhamos uma casinha nos fundos da casa da minha vó: minha mãe, eu e meus irmãos. Então, eu tenho bastante lembrança daquela área, morei praticamente a vida toda, até praticamente casar, no mesmo lugar. Então, eu conheci bem a vizinhança, fiz muitos amigos lá, amigos de… Eu tenho amigos até hoje da época que eu tinha quatro ou cinco anos de idade. São amigos de mais de quarenta anos, da época de infância, daquele mesmo lugar. A gente que se criou junto, morou junto, cresceu junto. Então, tenho lembranças muito boas daquela época e daquela área.

 

P1 - Do que você gostava mais de brincar, quando você era criança?

R - Bom, o lugar onde eu morava com… Era um lugar assim, onde tinha muita criança, né? Era uma época diferente, uma época que a gente ficava muito na rua, né? Principalmente... Não era uma vila, mas era uma vila que tinha uma certa, vamos dizer assim, organização entre as famílias lá. Então, a gente tinha, por exemplo, só no lugar onde eu morava, tinha tanta criança, mais ou menos na mesma faixa de idade, que nós tínhamos um time de futebol só da quadra onde eu morava e nós fazíamos jogos contra o time da quadra de cima, não era nem do bairro, era da… Literalmente daquele trecho de quadra, de tantas crianças que tinha, de tantos meninos, né? Então, a gente acabava brincando muito ali, brincava, jogava futebol, brincava… Pouca tecnologia, né? Brincava na rua, brincava de esconde-esconde, brincava de polícia e ladrão, era bem comum ainda nessa época. A gente fazia, pegava, fazia com madeira, fazia com atilho (elástico), fazia… Brincava de arminha, montava as próprias arminhas, que a gente usava pra brincar. Brincava de taco, taco bola, que é uma brincadeira bastante comum lá no sul, pra gente. E, às vezes, fazia assim, já me machuquei bastante de carrinho de rolimã, nossa! Eu vivia ralado. (risos)

P1 - Você gostava de ouvir histórias quando era criança?

R - Muito! Adorava.

 

P1 - E quem te contava, né, seus avós, sua mãe?

R - As duas, né? Na realidade, a minha vó também, minha vó ficou viúva muito cedo, então a gente acabou sendo… Era uma casa de matriarcas, né? Minha mãe separada com os filhos, minha avó viúva muito cedo também, então era… Meu ambiente era sempre [com] muitas mulheres. Então, era da minha vó, da minha mãe, bastante coisa, principalmente da época dos antigos, que eles gostam bastante de usar, então… Muita, muita história, principalmente da minha vó. Minha vó, enquanto eu a tive viva, ela gostava bastante de falar. Até porque minha vó, era a maneira como ela tinha de interagir com a gente, porque minha vó não teve estudo. Minha avó era analfabeta e ela… Então, a maneira dela poder interagir com a gente, como não tinha muito estudo, era pelas histórias, pela vivência dela. Então, era onde a gente tinha bastante interação.

P1 - Você tinha algum sonho de infância, Isaías?

R - Cara, eu tinha muitos, tinha muitos. O primeiro grande sonho, assim… A gente…. Como te falei, meus pais se separaram muito cedo. Minha avó ficou viúva cedo também, praticamente criou os filhos. Tinha um problema ainda, na realidade. A minha mãe tem outros três irmãos, mas a minha mãe é a única filha do pai dela, né, os outros três irmãos são do casamento da minha vó, do segundo casamento da minha vó. Então, o padrasto da minha mãe, pai dos meus tios, um pouco antes de morrer, teve problema sério de alcoolismo, então a gente acabou tendo uma situação de infância muito complicada, difícil. E, desde muito cedo, muito, muito cedo, a gente precisou, todo mundo, trabalhar. Minha mãe era sapateira, minha avó era costureira de calçado com a minha mãe. Então, a maneira que a gente tinha de fazer as coisas era ajudando, trabalhando. Eu cuidei dos meus irmãos desde que eu me lembro. Com seis anos, eu cuidava da minha irmã de dois, três anos. Então, os sonhos que a gente tinha, assim, era, nossa, poder ter uma situação melhor, era poder fazer alguma coisa, estudar e a minha vontade, assim, eu sempre… Balizou muito a minha vida, sabe? "O quanto mais eu estudar, o quanto mais eu conseguir fazer, mais rápido, melhor, mais rápido eu vou conseguir sair dessa situação e dar uma condição melhor, ter uma condição melhor pra mim, uma condição melhor pra minha família". E muito cedo eu comecei a estudar música, né? Então, quando fala da minha infância, não tem como dissociar isso. Eu comecei a estudar violão com seis anos de idade, com um parente, um primo meu, que era músico. Então, conseguia estudar música praticamente sem custo e depois, com oito anos, eu comecei a cantar no coral e a estudar piano, e depois flauta doce. E aquilo foi, acabou sendo meu grande sonho de infância. A minha vontade, eu me identifiquei com aquilo e queria ser músico. Então, quando, claro, muito cedinho toda criança quer ser jogador de futebol, o menino principalmente, todo mundo quer ser jogador de futebol. Eu queria até por um momento, mas foi muito rápido, porque muito rápido eu descobri que não era bom o suficiente pra ser jogador de futebol profissional. Tinha colegas meus que eram melhores. Eu era bom pra jogar no time da rua, não bom pra jogar na seleção. Mas, quando eu comecei a estudar música, aí sim, aí eu me identifiquei com aquilo de uma maneira tal que eu fazia aquilo todos os dias: estudava todos os dias, sonhava com aquilo, traçava metas. É muito incomum, eu vejo, em outros cenários, com meus filhos, com outros alunos meus, né, crianças muito pequenas terem certeza absoluta do que querem e eu tinha, com nove anos de idade. Eu sabia exatamente o que eu queria ser quando eu crescesse: queria ser músico.

P1 - E me conta como surgiu essa paixão. Você, por exemplo, começou a ter aulas de violão aos seis anos de idade com seu primo, você já gostou de cara? O que te atraiu naquilo? Como isso aconteceu?

R - Não! Não, de jeito nenhum. (risos) É que, assim, a minha mãe que empurrou algumas coisas, né? O violão, no caso, né?  Eu comecei a fazer… Criança de seis anos, eu não tinha exatamente o que, mas a minha mãe tinha muito na cabeça dela que tinha que ter alguma coisa pra complementar o nosso conhecimento, as coisas que ela não poderia dar. E ela gostava muito… Na cabeça dela, ela achava assim: “Bom, vai ser legal, porque em algum momento da tua vida ou tu pode usar isso pra alguma coisa, se tu gostar, ou então, no pior cenário, vai ser pra animar as reuniões de amigos, quando tu for maior, vai ser, vai ajudar". Só que minha mãe era muito rigorosa, nisso ela tinha uma percepção muito clara, assim, ó: “Tem que, qualquer coisa que você tem que aprender, você tem que se esforçar no limite”. E, pruma criança de seis anos, no início, principalmente o violão, ele é muito pequeno, mãozinha pequena, doía os dedos, dói muito os dedos quando vai começar a tocar, aperta, não sai som e aí você fica frustrado e, no início, nossa, eu tinha muita vergonha! Eu tinha vergonha da minha sombra quando era criança, muito envergonhado. Então, além de não sair direito no início, doía e a minha mãe ainda obrigava: “Não, você tem que estudar, o professor disse que tem [que] estudar todos os dias, é todos os dias. Se é uma hora por dia, vai ser uma hora por dia”. Meus dedos tinham calo e aí não saía som do violão. Então, no primeiro ano, dois anos, primeiro ano, principalmente, foi horrível, tudo o que eu queria era parar com aquilo e cansava. Mas a insistência dela, de alguma forma, me mostrou e do meu professor, obviamente, né, do meu primo. A hora que começou aquilo a acontecer, que começou a sair som, que começou a sair música e aí eu comecei a perceber que a dor, depois de um tempo da prática, passava e o resultado ficava legal, aí aquilo começou a mudar um pouquinho, mudar minha percepção, mudar minha visão e aí eu comecei a ver o resultado. E depois, rapidamente, eu comecei, dois anos depois, a cantar, comecei a tocar piano e aí é aquele negócio: você muito cedo começa a desenvolver conhecimento, desenvolver técnica, método e vê que o resultado vem. E aquele resultado começou a brilhar, assim, nossa! Muito pelo estudo, um pouco porque talvez levava jeito pra aquilo, eu comecei a ver resultados logo e disse: “Nossa, eu posso ser bom nisso!”. E aquilo, nossa, aí brilhou o olho, aí não teve jeito. Aí aquilo foi meio que aconteceu desse jeito.

P1 - Como você conciliava os seus estudos na escola, né, com estas atividades musicais?

R - Cara, essa é uma pergunta bem, que até hoje às vezes eu fico me perguntando. Eu acabei penalizando um pouco o quanto que eu brincava, porque eu tinha aula de violão uma vez por semana, mas como eu te disse, eu entrei, comecei a cantar no coral quando eu tinha oito anos... E depois eu vou contar um pouco a história de como eu cheguei no coral, que é o mais engraçado, o mais interessante ainda. Mas, o coral era uma instituição gratuita, onde a gente tinha aula de canto, aula de teoria musical e escolhia um instrumento pra aprender ou até dois instrumentos, com a questão de que as aulas eram diárias, de segunda-feira a sexta-feira, todos os dias eu tinha aula: tinha uma hora de canto todos os dias, tinha que estudar o instrumento que eu escolhi todos os dias. Então eu ficava pelo menos de duas a três horas no instituto todos os dias, de segunda-feira a sexta-feira. E ainda tinha o violão, porque o meu violão era parte disso, eu continuei fazendo o violão em paralelo. Então, eu acabei dedicando muitas horas do meu dia, desde muito pequeno, pra música, muitas horas. Pelo menos três horas por dia, todos os dias, de segunda-feira a sexta-feira e estudava meus instrumentos no sábado e no domingo às vezes, porque eu queria. Então, acabava conciliando. Eu tinha, claro, muita facilidade na escola, até porque minha mãe era absurdamente rigorosa com isso, ela não tolerava notas ruins, não tolerava falta de capricho, então a gente… Eu tinha que compensar. Num determinado momento a minha mãe deixou bem claro: “Bom, se tu quer fazer isso aqui e isso te toma tanto tempo, a sua escola não pode ficar pra trás”. Então, eu acabei dedicando tempo, assim, ficava até mais tarde, se fosse o caso, levava o dever de casa pra fazer nos intervalos das aulas de música, eu levava junto comigo pra poder fazer lá, tinha um espaço pra gente poder fazer, então eu acabei conciliando dessa maneira. Mas eu dedicava muito tempo pra música também e, graças a Deus, deu tudo certo, assim. Mas era quase um trabalho, era quase um trabalho, vamos chamar assim.

P1 - Conta pra gente essa história da entrada nesse instituto, sobre essa entrada no ______ (áudio falhou).

R - Cara, olha só, o coral que eu cantei era vinculado à igreja católica lá de Novo Hamburgo e era gratuito, totalmente gratuito. E na época, era um irmão, depois ficou padre. Era irmão... Não vou me lembrar a ordem que ele participava. Ele era um músico que coordenava, que era o maestro regente e principal professor. Tinha alguns outros professores com ele. E tinha um espaço, no centro diocesano de Novo Hamburgo, que foi cedida algumas salas, pra que ele fizesse o trabalho com o coral, que era na época só de meninos, então um coral só pra meninos, não tinha meninas. E a forma dele captar crianças, ele buscava crianças a partir de sete, oito anos, até no máximo dez anos, pra dar tempo de preparar, pra cantar no coral. Preparar ali pra fazer uma formação, de fato. Ele ia nas escolas, visitava as escolas, entrava nas turmas, pra fazer propaganda do trabalho do coral, pra convidar crianças pra participar, que era gratuito, não tinha… O único custo que eventualmente fosse ter é, dependendo se tivesse um determinado momento, que comprar seu próprio instrumento, mas ele tinha, até isso ele tinha lá e passava nas turmas. E um dia entrou aquele senhor na minha sala, eu tinha… Eu recém tinha feito oito anos, não vou me esquecer, acho que fazia uns três, quatro dias que eu tinha completado oito anos, era início de… Era final de março. E ele fez a apresentação. E naquele momento, até ali, não me deu muito, não chamou muita atenção, né? Até que ele usou algumas palavrinhas mágicas: “Olha, a gente tem coral e o coral tem uma qualidade muito grande, a ponto do coral se apresentar em vários lugares, a gente viaja o estado todo. Já levamos o coral pra Argentina, já levamos o coral pro Uruguai, já levamos o coral proRio de Janeiro". Aí, quando ele falou em viagem, meus colegas enlouqueceram e eu também. Nossa, se eu for cantar, eu vou poder viajar pra lugares que eu, nossa, nunca passou pela minha cabeça viajar pra lugares assim, nessa circunstância, né, de vida que eu tinha, muito difícil. Então, nossa, aquilo brilhou! Eu disse: “Ah, vou fazer tudo isso de graça?”, aí eu queria muito isto. Aí eu disse: “Cara, eu vou lá ver”, aí colega meus disseram que tinha que fazer um teste pra entrar. E minha casa ficava mais ou menos uns três quilômetros do Centro de Novo Hamburgo, que era onde ficava o instituto. Eu peguei o folderzinho que ele colocou, levei pra casa. E aí, um dos meus colegas tinha dito pra mim: “Isaías, eu vou lá fazer o teste hoje”. E a minha mãe trabalhava, passava o dia todo na rua e eu ficava sozinho, praticamente, em casa, com meus irmãos, eventualmente minha avó, que era costureira. Eu peguei aquele papelzinho, com oito anos de idade e fui pro Centro sozinho. Fui lá e fiz o teste, sem falar com a minha mãe. E eu passei no teste. Eles faziam um teste pra ver se tinha aptidão vocal, né, porque eram muitos candidatos, tinha muita criança querendo e eles não tinham muitas vagas. Não tinha vaga pra todo, era uma época em que muita gente buscava alternativa, ainda mais gratuitas. E eu passei no teste e aí o padre, o irmão, disse: “Olha, na semana que vem já começam as aulas”. E aí, quando eu voltei pra minha mãe, eu fiquei um pouco com receio de dizer pra ela, não sabia se ela ia gostar ou não. Eu cheguei na primeira aula sem falar nada pra minha mãe. Só que, com oito anos de idade eu ia, saía da minha casa e ia até o Centro da cidade, três quilômetros de distância da minha casa, às vezes eu ia a pé, às vezes ia de bicicleta, de bicicletinha, com oito anos. E eu fui pro primeiro ensaio, fui pro segundo ensaio e minha [mãe] ficou sabendo que eu estava indo pro ensaio, na segunda semana. Eu fui toda a primeira semana sem falar pra ela, todos os dias. Porque ela trabalhava, ela achava que eu estava em casa. Como eu voltava antes dela voltar do trabalho, ela não sabia onde é que eu estava e eu não falei nada. E aí, depois, eu disse pra ela: “Mãe, eu tô indo assim, assim, assado”. A primeira coisa que ela olhou, ela disse: “Por que não me falou nada?” e depois, olha, todos os dias ela achava que era muito, mas ela botou a regra da escola. Mas eu comecei a ir por minha conta. Com oito anos de idade, eu estava... Me inscrevi, fiz o teste, fui sozinho, não apresentei nada pra ninguém e fui, comecei nos ensaios. Daí eles mandaram um bilhete pra fazer uma reunião com os pais, pra apresentar pros pais. Só que eu me apresentei lá sem... Na primeira vez, eu me apresentei sem pais, depois eu tive que entregar o bilhete pra minha mãe, então acabei contando pra ela por causa disso, porque senão eu estava um pouco com receio dela não gostar, dela não deixar e eu queria ver se eu ia gostar ou não e eu acabei indo sozinho.

P1 – E, mudando pra sua vida escolar, me conta como foram seus primeiros anos de escola, como foi a experiência de começar a estudar numa escola, do que você gostava mais.

R - Cara, eu fiz só um ano, quando era muito pequenininho. A minha mãe conseguiu uma bolsa, eu fiz um... Na realidade era o antigo Jardim, né, eu consegui uma bolsa pra estudar no Jardim e estudei numa escola particular com uma bolsa, mas aí, em seguida, daí eu fui pruma escola estadual e estudei, praticamente fiz toda a minha alfabetização, todo o meu primeiro grau, o ensino fundamental, na mesma escola. E na época era uma situação de ensino muito boa, assim. O ensino público, na época, era um ensino, era uma escola de referência, apesar de ser pública, o que hoje é um pouquinho difícil, infelizmente. Mas era uma escola muito grande, uma escola que tinha 2500 alunos, então, pra mim, aquilo, quando eu comecei naquela escola, eu disse: “Nossa, um monte de criança”, tinha várias turmas, tinha uma estrutura muito boa e que, pra mim, no lugar onde eu morava não tinha aquilo. Então, a gente ocupava muito tempo, no início, na escola. E tinha atividades, eventualmente, de contraturno, principalmente esporte, então tinha bastante. Era um período que, década de oitenta que eu tô falando, as escolas vinham por critério, na época, de governo, que as escolas tinham que proporcionar muitas atividades esportivas pras crianças, não só atividades de contraturno, de brincadeira, de recreação, de complemento estudantil. Era aula, era aula de... Tinha, à tarde, aula de basquete, aula de futebol, tinha opções assim. Então, nossa, eu adorava aquilo, porque eu sempre gostei muito de esporte também, então era um período que a gente aproveitava bastante, aprendi muita coisa, joguei bastante tempo com o time da própria escola, tive colegas, fiz amigos, estudei nove anos, do pré-primário até... Na época, era a oitava série, hoje é o equivalente ao nono ano. Mas estudei na mesma escola, com a mesma turma. Cheguei, no último ano, inclusive, a fazer parte do grêmio estudantil naquela escola, conhecia todos os professores, vi professores, fui colega, depois, de filhos de professores meus. Então, acabei criando um ambiente de família, meus irmãos estudaram na mesma escola também. Fica aquela circunstância, assim, que você tem tanto tempo naquele ambiente, que ele acaba também sendo uma extensão da sua família, a ponto dos seus colegas conhecer seus pais, os pais dos seus colegas conhecerem os seus pais, professores, todo mundo se conhece, de alguma forma e acaba participando um pouco do processo todo, né? Então era, foi um momento, pra mim, acabou sendo um momento muito bom, muito bom. Eu adorava o local, o lugar que eu estudei. Tenho memórias muito boas daquele período. Obviamente, depois, com o coral, eram os meus dois momentos: eu saía de um, ia pro outro e transitava, era praticamente a extensão da minha formação, um pro outro, né? A formação da parte cultural que eu tive na música e a educação que eu tive na escola. Eu tive momentos muito bons lá, muitos colegas, amigos que eu fiz pra vida toda. Então, estudamos juntos, alguns depois, quando… Só saí de lá porque fui fazer curso técnico em outra escola depois e acabaram que alguns colegas foram também fazer, passaram, a gente acabou estudando muitos anos juntos. Então, eu tive momentos muito bons, foi um momento de desenvolvimento e eu sou muito grato, tive uma oportunidade de estudar em escola pública num período que eram grandes referências e que tinha muita oportunidade, mesmo vindo de uma situação de família que, se eu tivesse que pagar uma escola, eu não teria condições. Então, eu tenho, nossa, só agradecer a isso. Graças a Deus, eu tive muita sorte nesse sentido.

P1 - Tinha alguma matéria que você gostava mais ou algum professor que te marcou até hoje?

R - Cara, o pessoal brinca um pouco comigo, que eu sou, sempre fui o “nerd” de plantão. Até hoje, adoro Matemática desde sempre e depois acabei entrando muito na parte de Exatas. Física, Química. Mas Matemática eu era num ponto, assim, que eu fazia, comprava aqueles livrinhos pra fazer exercício matemático por diversão, comprava em bancas. Assim, às vezes eu pedia, pegava dinheiro que ganhava de troco de bala, de coisa assim, eu comprava livrinho pra fazer exercício de Matemática. E isso chegou num ponto que meu primeiro, vamos chamar assim, trabalho, de fato, eu tinha onze anos, eu dava aula de reforço de Matemática pra colegas meus e ganhava um troquinho pra fazer isso. Então, sempre me dei muito bem, graças a Deus, em Matemática e gostava muito daquilo ali. Então, tem gente que foge, a maioria das pessoas quando fala Matemática, Química, foge disso, eu já era o contrário: aquilo, pra mim, era mais diversão do que dificuldade, do que aula, então... Aí acabou, no fim das contas, no ‘frigir dos ovos’, direcionando um pouco até a carreira que eu sigo hoje: eu fiz Engenharia por causa dessa aptidão, dessa facilidade com números e com Exatas. Eu sempre tive muito isso.

P1 - Você disse que você passou, né, todo o seu primeiro grau - ensino fundamental, atualmente - nessa mesma escola. Você decidiu fazer um ensino técnico depois, voluntariamente, ou isso aconteceu por algum outro motivo?

R – Não. (risos) Nada foi muito... Nada foi… Tirando o coral, acho que o coral foi a primeira grande coisa voluntária que partiu totalmente de mim, sem nenhuma interferência da minha mãe, ou nenhuma influência dela. Muito pelo contrário: fui, gostei e, num determinado momento, eu acabava forçando a minha mãe a me permitir participar. Agora, o curso técnico, não. Claro, eu já estava, imagina, adolescente, eu tinha catorze pra quinze anos, sempre na mesma escola, com os mesmos colegas. Mas, obviamente, na situação, a gente precisava trabalhar, continuava trabalhando ajudando minha mãe, nos trabalhos de calçado dela, fazia qualquer outro tipo de trabalho que tivesse, dava aula. Comecei a dar aula de violão muito cedo, com doze anos eu já dava aula de violão, pra ganhar alguns trocados. Fazia violão, [tocava] desde os seis, então já tinha uma desenvoltura bem boa pra dar aula pra iniciantes, mas chegou num determinado ponto que minha mãe também tinha uma preocupação: “Bom, vai chegar num determinado momento que, se você quiser fazer faculdade, a gente não vai ter condições de pagar e você vai ter que fazer uma pública. E, mesmo assim, com uma certa idade, é melhor você ter alguma forma de conseguir se bancar, se sustentar, de ajudar na casa”. E minha mãe tinha isso. O curso técnico era bem famoso. Novo Hamburgo tem a Fundação Liberato Salzano, que é uma das escolas de referência, uma escola com mais de cinquenta anos, tem referência no Brasil inteiro, então ela é muito famosa e era em Novo Hamburgo. E tinha a possibilidade de fazer também com bolsa, uma parcial, era gratuita, de alunos que entravam. Então, minha mãe colocou aquilo: “Tem que fazer um curso técnico, algum, porque no final do segundo grau, você vai estar lá com dezessete pra dezoito anos, então pelo menos já vai ter uma profissão e depois, com a profissão que te banca, se você quiser fazer qualquer, um curso superior, quer fazer qualquer coisa, você vai poder fazer por tua conta”. Eu não tinha a menor ideia, mas a minha mãe insistiu: “Não, vai fazer um curso técnico, precisa fazer”. E eu coloquei aquilo na cabeça: “Eu tenho que fazer, pra ajudar minha família”. E aí eu não tinha a menor ideia do que se fazia num curso técnico, o que era, mas acabei indo pra escola técnica por conta disto, por conta dessa necessidade, dessa visão que tinha de ter que ajudar de alguma forma, por mais que eu estava confortável naquela escola que eu conhecia todo mundo, conhecia os colegas. Aí, obviamente, como acabou sendo pra outros colegas, que tinham a situação muito parecida com a minha, eles também tinham a pressão do lado deles lá e estava, aí chegou num momento que estava todo aquele movimento: “Bom, nós temos… Um monte de gente vai fazer escola técnica, vamos fazer o quê?”. E aí a discussão começou a ser de qual curso cada um ia fazer, o que que ia tentar fazer, porque tinha prova seletiva nas escolas técnicas, né, em todas elas, tinha muito mais candidato do que vaga nas escolas e fazia sempre pro curso que você escolhia fazer. Ainda é, até hoje. Então, acabei indo pro ramo de química, que foi uma coisa que eu me identifiquei bastante e a escolha do curso também é uma coisa que é muito engraçado pra… A forma como foi, eu tive, sempre, muita sorte na vida, tenho que agradecer, as coisas acontecem de uma maneira engraçada, mas acontecem pro bem, porque às vezes a gente novo, adolescente, ou criança, não sabe exatamente se vai gostar, se vai se identificar e eu acabei sempre indo, de alguma forma, prumas escolhas meio sem um racional muito lógico por trás na forma, acabaram dando certo pra mim. Eu gostava de Matemática, eu gostava de Química, tive professores muito bons no primeiro grau. E aí tinha que escolher - tem que fazer inscrição pra fazer a prova da Fundação Liberato - algum dos cursos. Eu não tinha a menor ideia do curso que ia fazer. Tinha a opção de fazer um curso técnico em mecânica, técnico em eletrônica, que era moda na época. Imagina, isso na década de noventa! Eletrônica era um curso novo, era o curso que todo mundo queria falar, que era o curso do futuro, que depois... Não tinha informática ainda, então era o que era mais próximo, na época. Lá podia fazer química, eletrotécnica e um colega meu - a cabeça de adolescente quase pra quinze anos - chegou pra mim e disse: “Isaías, o curso de química é o único curso da fundação, que as turmas têm, normalmente, metade de meninos e metade de meninas”. Todos os outros eram… Curso de mecânica era muito masculino, curso de eletrotécnica e eletrônica tinha, às vezes, a turma de 35 alunos, quando tinha uma menina era muito. Aí é cabeça de adolescente: “Não, como que eu vou entrar numa classe onde só tem homem, rapaz?!”. (risos) Na minha adolescência toda! Eu disse: “Não, então vai esse aqui, já não tenho dúvida mais. Eu gosto de Química e tem uma turma que vai ter meninas, então, eu quero a turma onde tem as meninas também”. E, assim, vários outros colegas meus acabaram indo no mesmo embalo, porque acharam engraçado a maneira como eu abordei e me inscrevi assim, desse jeito, tomei a decisão: “Vou fazer Química, então, porque lá tem meninas também. Pelo menos eu vou ter diversão na sala”, cabeça de adolescente. E, no fim das contas, eu me achei no ramo da química também. Foi uma forma, né, obviamente, né? Daí já era uma época um pouco diferente porque… Diferente eu digo, porque eu já estava… Ali eu já estava afastado da música, um pouco, né, meio à força, porque o coral, o instituto onde eu estudava música, por falta de verba, de patrocínio, acabou e ele fechou as portas quando eu tinha treze anos. E aí a minha mãe não tinha condições mais de bancar, de me colocar numa escola particular de música, de comprar instrumento pra eu estudar, não tinha condições e aí tinha que ajudar, tinha que trabalhar, tinha que fazer as coisas e foi… Aí, num determinado momento, eu fiquei, vamos dizer assim, um pouco traumatizado com a situação, porque eu tinha tido o sonho, desenvolvido um sonho pesado da música em si e ela acabou, num determinado momento, por conta da falta de condições, ela me bloqueou. Então, eu tive uma quebra, uma interrupção brusca do meu sonho de vida e eu parei. Aquilo, assim, me deixou… me deu um baque. E aí, depois, passou um ano, quase dois anos, aí apareceu: “Ah, eu tenho que fazer alguma coisa, já que não deu pra fazer música, vamos tentar”. E eu tive muita sorte, que eu acabei gostando, me identifiquei com aquilo e consegui me desenvolver, acabei desenvolvendo minha carreira de fato, minha carreira profissional, que é até hoje, dentro desse ramo, de alguma maneira. Fui fazer Engenharia Química também, me formei técnico em química, eu acabei desenvolvendo, de uma forma alternativa, o que não foi o meu sonho de criança, mas foi o que acabou, o que a vida acabou me proporcionando e eu não tive nenhum tipo… Muito pelo contrário: eu acabei me encontrando ali também, de alguma forma, me localizei naquele jeito de uma forma diferente do que eu tinha sonhado, mas que acabou se tornando o meu sonho, a minha carreira de hoje, mais de vinte anos, 25 anos. 

 

P1 - E nesse período que você fez esse curso técnico em química, você já começou a trabalhar no ramo, ou você trabalhou com alguma outra atividade, antes disso?

R - O curso técnico, pra você exercer, precisa praticamente finalizar o curso. Então, não tinha como trabalhar junto com o curso técnico. O que eu fazia, eu ajudava muito minha mãe. Trabalhava com ateliê de calçado, onde a maior parte do trabalho dela era em casa e algumas ajudantes que trabalhavam em casa, minha mãe distribuía trabalho das fábricas. Era uma preparação prévia de material de calçado. Então, mexia com couro, fazia colagem, fazia costura prévia de material, pra depois as fábricas executarem a montagem dos calçados femininos, propriamente dito. Então, eu trabalhava muito com a minha mãe, nisso. Nos horários, qualquer horário de folga era horário que eu a ajudava a fazer esse tipo de coisa. Então, era uma maneira de eu conduzir, mas a gente fez de tudo: de cortar grama de vizinho, qualquer coisa que desse alguma ajuda. Aula, muito tempo eu dei aula, aula de reforço, dava aula pra alunos, aí tinha conhecidos, o pessoal parente dos amigos, de vizinhos, de colegas de aula, que tinha algum... “Olha, tem uma criança que está com dificuldade lá e precisa de aula de reforço”. Aí, daqui a pouco, me descobriam e me chamavam: “Precisa de alguém pra dar aula de Matemática”, “Ah, mas o Isaías é novinho”, não, mas dava aula pra criança, às vezes, de dez, onze anos, eu tinha catorze, treze anos, quinze anos. Então, eu fazia isto também. Então, acabei fazendo isto por bastante tempo e depois eu fiquei um período, que eu disse, meu período sabático da música, que larguei o violão e, inclusive, parei de dar aula. Larguei, abandonei o violão, porque me traumatizou tanto a situação do encerramento do instituto, que eu disse: “Ah, então, já que não posso ter, eu não quero nada”. Eu parei, inclusive, de dar aula. E aí, depois de um tempo, uns quinze pra dezesseis anos, eu voltei a tocar. Eu deixei o violão parado, eu não encostei no meu violão por dois anos. Meu violão ficou parado por dois anos, sem encostar, pegando poeira. E aí eu devo… Comecei a tocar de novo, me aproximei de novo. E aí até pra… Aquilo apareceu, começou a aparecer oportunidade, eu precisava fazer dinheiro, então, eventualmente estava… Tinha um aluno aqui, um aluno lá, crianças, normalmente. Dei aula pra adulto, pra idosos, inclusive. Uma tia da minha mãe foi minha aluna, com mais de sessenta anos. Eu dei aula pra ela, adolescente ainda. E eu acabava fazendo isso durante todo o curso técnico, fazia esse tipo de... Vamos dizer, “trabalho paralelo”, né, pra poder fazer o curso técnico e terminar. Aí, depois que, assim, quando começou os estágios do curso técnico, que era o último, praticamente o último ano antes de formar, aí consegue algum trabalho remunerado. Aí, sim, aí eu comecei a trabalhar na parte técnica do curso mesmo, do curso, como profissional da área e aí não parei.

P1 – E, durante esse período, Isaías, você teve alguma dúvida de que você queria fazer um curso superior, né, ligado a esse curso técnico, como Engenharia Química, que foi o que você fez?

R - Eu não tinha muita certeza, né, porque vamos lá, o curso técnico dá uma noção genérica da atividade, do meio, do ramo, dos ramos possíveis, né? Mas o curso técnico era muito voltado prum trabalho de laboratório, sabe? E eu acabei conhecendo a química em cima disso, em cima de trabalho de químico, laboratório, técnico. Em alguns ramos diferentes eu trabalhei, fiz estágio na área de laboratório de cor, fiz estágio na área de tintas, então fiz estágio na área de celulose, que eram coisas diferentes, mas que o ambiente laboratorial é muito parecido, no conjunto. Ao longo do trabalho, aí sim, quando eu comecei a trabalhar, eu me formei no técnico e o meu primeiro ano eu não entrei imediatamente na faculdade, então eu estava trabalhando e eu ainda estava vendo o que eu ia fazer, porque tomou mais tempo do que... O curso é um pouco mais longo do que um segundo grau, que um ensino médio normal, né, um ano e meio a mais. E aí eu acabei trabalhando esse período, e aí, quando eu comecei a trabalhar, que eu comecei a ter contato com os outros ramos de curso superior da química, por conta de meus supervisores, na empresa que eu trabalhava. Eu tinha químicos e tinha engenheiros. Aí eu comecei a perceber das duas atividades, do engenheiro químico pro químico laboratorial, químico-industrial, curso superior de Química. E aí, as outras opções que tinha, eventualmente: farmácia, bioquímica, as outras alternativas. E aí entra aquela coisa assim: quando eu fui escolher o que queria fazer, eu também não tinha cem por cento de certeza, mas aí foi uma coisa assim, meio de, de novo, né, olhei pra (lição?). Tinha, os Conselhos de Química, o Conselho Federal e o Conselho Regional, o que eles chamam “o descritivo do profissional de química”, que descreve quais são as habilitações que os profissionais do ramo, ou da área química, podem exercer. E, na época, não sei como que é hoje, tinha dezessete atribuições pra profissionais de química. Um técnico em química podia exercer até, acho, a sétima ou oitava. E aí tinha um tecnólogo, tinha mais duas agregadas. Um químico bacharel, um químico industrial, tinha mais tantas. O único profissional que tinha todas as dezessete atribuições era o engenheiro químico. Aí eu botei na minha cabeça: “Cara, se eu vou fazer, eu sei que é mais difícil de passar num vestibular assim, eu sei que é um curso que talvez é um pouco mais longo, mas, se tem a chance de eu poder, depois, fazer tudo isso e escolher o que eu quero fazer e isso vai me trazer uma oportunidade melhor de carreira, é isso que eu vou tentar. Não vou, vou tentar pra Engenharia e passei pra Engenharia, acabei indo assim, na escolha, porque eu disse: “Cara, eu não quero que me limitem!”. (risos) Eu tinha um problema muito sério com isso, eu não queria limitação. Eu disse: “Cara, eu já fui muito limitado pras outras coisas que eu quis escolher pra mim, então não quero limitação. Eu quero, se eu puder fazer tudo, eu quero poder escolher o que eu quero fazer de tudo isso aqui. Então, se essa é a única função, a única produção que vai me dar, dentro desse meio, tudo o que eu acho que eu quero fazer, o que eu posso fazer, eu vou tentar isso aqui, por mais difícil, por mais complicado que seja”. Eu fui lá fazer e fiz Engenharia. Então, a decisão acabou indo assim: eu já tinha uma noção pequena, mas a decisão definitiva foi por conta da abrangência.

P1 - E quando você começou a fazer faculdade, qual foi sua sensação, quando caiu a ficha: “Eu realmente estou na faculdade, eu consegui passar, eu tô começando esse curso”? Como foi essa mudança pra você?

R - Pânico! (risos). Pânico, porque eu trabalhava, eu não larguei o trabalho. Eu precisava trabalhar e essa era uma das questões. Eu fiz a federal doRio Grande do Sul, eu fiz Ufrgs e os cursos de Engenharia na Ufrgs são fundamentalmente diurnos, a maior parte das matérias, das cadeiras. E eu, cara, eu comecei a fazer conta de… Se eu tivesse que ir pruma particular, quanto tempo eu levaria pra me formar, quantas cadeiras eu ia conseguir pagar, porque minha mãe não tinha condições. Naquela época, daí sim, eu já sustentava a minha mãe. Minha mãe teve alguns problemas de saúde e o negócio que ela tinha do calçado, foi num período muito ruim da crise do calçado, na região de Novo Hamburgo. Teve muitas fábricas que quebraram, foi um horror, foi um período de crise violenta na região toda; a minha mãe ficou sem trabalho e quem sustentava a casa era o meu trabalho de técnico. Já com dezoito pra dezenove anos, quando eu passei no vestibular, já era assim. Então, eu não podia comprometer o meu salário, o meu trabalho, porque era o que sustentava a minha família. Inclusive, por um tempo, meus irmãos foram trabalhar também, mas, claro, meus irmãos não tinham técnico, minha irmã era muito nova ainda, adolescente, então era eu que… Era do meu salário, era o que tinha. Então, eu disse: “Ó, preciso, não posso fazer uma universidade particular, senão vai consumir todo o meu salário. Então, assim, eu preciso passar na federal, não tenho outra alternativa”. Aí eu conversei muito com meus supervisores, com o químico e o gerente que trabalhava, que era meu chefe e ele disse “Olha, eu vou tentar. Bom, tu sabe que tu vai ter limitação, a gente pode fazer algumas flexibilizações pra ti, mas trabalho é trabalho, vou ter até um determinado limite do que eu posso te conceder de alguma flexibilização, pra tu poder ir pra aula”. E aí eu fui fazendo isso. Então, quando eu comecei, de fato, a universidade, eu estava há um ano parado de estudar, porque eu já tinha terminado o curso técnico, mas foi no meio do caminho, eu tinha feito estágio, então não estava mais estudando. Eu estudei pro vestibular, eu estudei em casa, por minha conta, não tinha dinheiro pra pagar cursinho, então eu peguei alguns livros e estudei por minha conta, em casa, uns poucos meses antes. E aí eu tinha que dar um jeito de fazer. Fui pra faculdade com um monte de colegas novos, um ambiente completamente novo, universidade, a federal, que era um… É a referência aqui noRio Grande do Sul até hoje e eu ainda tinha que trabalhar. E aí eu disse: “Nossa, e agora? Como é que eu coordeno isso tudo?” Porque não bastasse ter que coordenar o trabalho e estudo, eu morava em Novo Hamburgo. O meu trabalho, eu trabalhava numa empresa de tintas que ficava em Gravataí (RS), que dava 35 quilômetros de onde eu morava, tinha um ônibus da empresa que me pegava, me levava pro trabalho, mas me levava de volta pra Novo Hamburgo, então e eu estudava em Porto Alegre (RS), que ficava outros trinta quilômetros de onde eu trabalhava, pro outro lado. Então, quando… Cada vez que eu tinha aula, era uma logística. Porque eu não... No início, logo no início, eu não tinha carro ainda, então, não tinha, eu tinha que depender de carona, eu tinha que dar um jeito de pegar na… Fazer as cadeiras que tinha condições de fazer, à noite. Eu fiz menos cadeiras. Só que daí tinha que pegar carona. Tinha ônibus da empresa que ia com o pessoal de Porto Alegre, só que eu tinha que pegar a rota do ônibus e descer onde dava, daí eu tinha que pegar outro ônibus. Então, às vezes, eu levava uma hora e meia, saía do trabalho correndo, saía mais cedo eventualmente, pegava ônibus, dependendo, fazia uma logística gigante e chegava em casa, nossa, às vezes meia-noite, uma hora da manhã, porque eu tinha que voltar pra Novo Hamburgo, que era bem longe de onde eu estava estudando. E, no outro dia de manhã, estar de novo, porque meu trabalho começava às sete e meia, o ônibus pegava a gente às seis e quinze da manhã, seis e vinte da manhã, pra ir pra empresa que eu trabalhava. Então, no início foi um pouco traumático, assim, porque eu achei que “Bom, eu vou ter que dar um jeito”, mas eu achei que seria mais simples do que foi. Eu passei muito trabalho, assim, no início, e foi um baque muito grande. E o baque também pelo seguinte: porque você vê, assim, obviamente, cada um na sua condição. No início eu ficava olhando, eu tinha pouquíssimos, ainda mais na Engenharia, praticamente nenhum colega meu trabalhava e os meus colegas olhavam pra mim: “Cara, vai fazer Engenharia trabalhando?” Eu escutei isso de professor, várias vezes: “Você acha que você vai se formar na federal, que só tem aula de dia, trabalhando?”. Eu disse: “Cara, eu não tenho outra opção, eu vou”. E aí foi... O baque foi eu acompanhar, porque aí você não consegue acompanhar, tem que dar o trabalho, o pessoal vai fazer o trabalho em grupo e você não tem como, que eu tô trabalhando, assim, então você não tem todo o tempo pra dedicar. Então, isso foi o primeiro grande bloqueio que eu tive em termos de dificuldade maior, em termos de coordenação de tempo, porque a logística era ruim, eu dormia pouco, eu tinha que fazer quando dava. Aí, vai pra faculdade, você tem um negócio na cabeça: “Eu sou muito bom em Matemática”, aí vai fazer Engenharia, fui fazer a primeira cadeira de cálculo. Eu achei: “Bom, cálculo, matemática”. Não, meu amigo, cálculo de engenharia… Fui lá, sabe, vou dar uma estudadinha, pegar livro, livro de seiscentas páginas, nossa! E eu não tinha tempo pra estudar. Quando eu comecei a olhar pra aquilo, que eu não estava conseguindo acompanhar e eu fiz a minha primeira prova e foi, nossa, uma catástrofe! E eu não estava acostumado com aquilo, porque eu sempre tive bem em Matemática, minha vida toda, mas eu sempre tinha conseguido tempo pra estudar. Ali eu já não estava conseguindo tempo mais, eu vi que não era simples. Aí eu cheguei a pensar, repensar: “Nossa, não sei se eu tomei a decisão certa, porque se eu não conseguir passar, se eu não conseguir estudar, talvez eu não consiga terminar”. E aí começou a ser um pouquinho frustrante no início, bem complicado, eu passei bastante trabalho nos primeiros anos ali, de faculdade, pra coordenar esse conjunto todo, essa logística. E eu acabei, por algum motivo também, não conseguindo ter um… Foi o primeiro momento onde eu não conseguia fazer um acompanhamento de turma. Sabe aquele negócio que o pessoal tem, da turma da faculdade? Como eu tinha que fazer poucas cadeiras, nos horários que elas estavam disponibilizadas pra mim, eu acabava não conseguindo manter aquela rotina de turma, eu não fazia todas as cadeiras que a minha turma que entrou, fazia. Então, eu acabei ficando um pouco sozinho e foi também um momento de… Que eu fiquei mais isolado, em termos de como fazer, do que conduzir na faculdade, porque meus colegas faziam várias cadeiras, só estudavam, passam pro semestre seguinte e eu estava fazendo no segundo semestre, cadeira do primeiro, porque eu não tinha feito a primeira vez ainda. Então, acabou tendo um pouquinho mais de trabalho, eu tive bastante trabalho no processo, assim, mas passei por isto também. (risos)

P1 - Bom, Isaías, e como foi, então, esse processo de você fazer a faculdade trabalhando, como isso acabou acontecendo?

R - Bom, isso é a parte da novela mais... Talvez o drama maior. A faculdade eu comecei… Na faculdade ainda, quando eu trabalhava na indústria de tintas, onde eu tinha um trabalho que era de segunda-feira a sexta-feira, normal, como qualquer outra pessoa. O problema era que eu morava numa cidade, que era Novo Hamburgo, trabalhava aí na cidade de Gravataí, que ficava a 35 quilômetros de distância e comecei a estudar na federal, que ficava em Porto Alegre, só que numa zona bem afastada, que era o campus da Agronomia, que ficava outros trinta quilômetros de Gravataí, que era onde eu trabalhava. E aí eu tive que fazer, era uma logística, né, era uma função, primeiro no formato de conduzir o trabalho e ir pras aulas e fazer uma administração logística de quantas aulas eu poderia ir, o horário que eu poderia ir. Eu tinha feito um acordo pra conseguir uma dispensa parcial, vamos chamar assim, eu compensava em outros dias. Então, pra poder assistir algumas cadeiras que começavam no fim da tarde, eu podia sair um pouco mais cedo, mas daí eu tinha que dar um jeito. No início eu não tinha carro, então eu tinha que dar um jeito de: “Ah, se eu vou sair mais cedo, como é que eu vou chegar, fazer esses trinta e tantos quilômetros?”. Eu consegui carona com alguém, eu pego dois ônibus pra chegar. Nossa, era uma função! E acabei fazendo poucas cadeiras no início, não tinha… Trabalho, estudava o fim de semana todo. Até que eu, depois de praticamente dois anos, tive a oportunidade, consegui trocar de trabalho. Comecei a trabalhar, fiz um processo seletivo pro polo petroquímico, pra uma das empresas do polo petroquímico, pra fazer o curso de operador petroquímico e, na sequência, trabalhar nessa estrutura. Porque era… Precisava ter curso técnico, algum dos cursos técnicos industriais, como eles chamavam, né? Ou mecânica, ou química, ou eletrotécnica. Então, era uma das condições. Tinha que passar numa seletiva grande e depois ainda fazer um curso de cinco meses no Senai, que era um curso conjunto com a empresa que estava contratando, pra depois começar a trabalhar. E aí eu acabei indo pra lá, porque tinha duas alternativas que eu tinha ali, duas oportunidades: uma delas era ganhar mais, porque o trabalho era em turno de revezamento, eu vou explicar um pouquinho como é que funcionava isso. E a questão da possibilidade de, nesse turno de revezamento, conseguir assistir mais aulas. Turno de revezamento era o seguinte: o trabalho não era um trabalho de trinta dias no mês, de segunda-feira a sexta-feira, folga sábado, trabalha sábado de manhã. Não, era turno de revezamento, turnos rotativos. Tinha dias que eu trabalhava três dias, cinco dias, sete dias seguidos, das oito da manhã às quatro da tarde; folgava um número de dias: dois, três dias; voltava pra trabalhar três dias, das quatro à meia noite; folgava dois dias; voltava, trabalhava daí mais três dias, da meia-noite às oito e assim tinha um giro com entre folgas e troca de turno e os turnos revezavam, não era sempre no mesmo turno. E assim as pessoas iam girando, nos turnos. Com isso, eu tinha possibilidade, nos turnos da noite, de poder assistir as aulas que eram de dia, que eu não conseguia assistir com mais frequência, só que, obviamente, eu precisava assistir as aulas noturnas. As aulas… trabalhar no turno noturno. Aí eu fazia, nossa, uma série de alternativas que eu tinha, de opção, que era pra poder assistir as aulas de dia no período que eu estava trabalhando de dia, de fazer trocas com colegas que estavam no turno da noite. Aí eu fazia o turno da noite pros colegas, pra eu poder ir pra aula de dia e eles faziam o meu turno de dia. Trabalhava no fim de semana pra algum colega, pra ele poder fazer o dia de semana pra mim, pra eu poder ir pra aula. Então, acabava, eu estava sempre em função. O problema todo é que, logo que eu comecei esse trabalho, poucas semanas depois, teve um acordo com o sindicato e a empresa e eles trocaram o regime de turno pra dois turnos de doze horas, ao invés de ser esses três turnos de oito. E aí era turno das sete da noite às sete da manhã, sete da manhã às sete da noite, com os intervalos de folga. E aí, o que acontecia? Tinha períodos [em] que eu trabalhava, assim, era das sete da noite às sete da manhã, folgava doze horas e voltava pra fazer outro turno de doze. Só que a minha folga de doze horas era pra ir pra aula. Então, eu saía e trabalhava… Ah, e o problema da logística que continuava, porque eu morava em Novo Hamburgo, trabalhava no polo petroquímico, que ficava a sessenta quilômetros da minha casa e o polo petroquímico de Porto Alegre, onde eu estudava, fica a outros 55 quilômetros. Então, eu passava em trânsito e indo pra aula, era uma função gigantesca, assim, desse processo. Então, meus intervalos pra descansar ou pra dormir, era dentro do ônibus. Era... Depois eu consegui comprar meu carro, porque eu troquei o emprego, comecei a ganhar um pouco mais, comprei um carro, pra me ajudar nessa logística, porque aí eu tinha mais flexibilidade. Aí eu dormia no estacionamento da Ufrgs, lá na federal, no intervalo de uma aula e outra. Mas o intervalo, assim, eu dormia uma hora dentro do carro, que dava o intervalo do almoço, eu comia um lanche rápido, pra dormir no carro, porque eu tinha aula de tarde de novo. Porque eu tentava fazer... Aí eu já tinha botado na cabeça a estratégia errada de que eu tinha que fazer: “Nossa, eu preciso terminar isso logo, então, vou aproveitar e vou tentar fazer o máximo de cadeiras possível, pra poder terminar de uma vez”. Nossa, catástrofe, foi o que eu fiz, porque acabava não conseguindo acompanhar, ficava muito pesado, cheguei a fazer - trabalhando turno de doze horas - quarenta créditos num semestre. Quer dizer: quarenta horas aulas numa semana, trabalhando! Então, eu tinha o trabalho, dormia quando dava. Então, passei um período muito complicado, foram mais dois anos assim, nesse regime de turno, onde eu dormia - eu chegava a ficar 36, 38 horas - uma hora, duas horas, no máximo, até eu conseguir ter uma noite ou um dia de sono, dependendo do revezamento que eu estava. E ainda tendo que dar conta das matérias e aí chegava a ser… Hoje, a gente olha, acha um pouco engraçado, porque eu olhava meus cadernos, eu tentava ficar acordado na aula, porque eu estava já trinta, 32, 34 horas sem dormir. E, na aula de manhã, a cabeça caía e riscava os cadernos, que a cabeça caía e a caneta riscava. Chegou num determinado momento que eu disse: “Quer saber, eu não vou mais escrever nada, eu vou ficar de olho arregalado, assim, assistindo a aula, porque eu tento não dormir”. E eu tirava xerox do caderno dos colegas que copiavam, porque aí tinha gente mais organizada, sempre as meninas que têm os cadernos mais organizadinhos. E foi um pouco o que salvou a minha vida, muitos colegas me salvaram ali, porque foi a maneira como eu consegui, de ter algum acompanhamento e conseguir ficar mais acordado. E, óbvio, tinha a questão que eu brincava, alguns professores sabiam da minha condição e aí, mesmo por mais esforço que tinha, eu dormia na aula e tinha professor que me deixava dormir, de pena. E aí eu sentava bem na frente, pra tentar assistir a aula e acompanhar, pra tentar não dormir e os professores, de pena, quando vinham que eu caía a cabeça, me deixavam dormindo. Eu dizia: “Nossa, eu tô aqui pra tentar, me ajuda! Não pode ser mais um inimigo na trincheira, pra me deixar... como é? Mais um pra testar o meu fracasso de tentar e não conseguir, me ajuda! Me acorda, porque eu preciso, eu tô aqui porque preciso terminar, preciso fazer, porque eu vou me formar”. E essa foi uma parte complicada, porque alguns professores, colegas, eram um pouco diferentes, ainda mais nesse regime de turno, nesse sistema de trabalho, nunca tinha tido nenhum aluno na federal que tivesse se formado nessa situação, nessa circunstância, trabalhando em turno. E quando a gente olha pra um ambiente petroquímico, é um ambiente de engenheiros químicos. A grande maioria do pessoal, o sonho de todo engenheiro é trabalhar nesse ramo. Então, é um ramo que todo mundo conhece. Quem trabalha lá, vai fazer esse curso, porque é uma evolução de carreira. Só que a maior parte dos meus colegas que estudavam também, iam pras particulares, porque eles conseguiam manobrar as horas, a quantidade de horas. E eu resolvi fazer federal, porque eu não tinha, não queria, comecei lá, porque eu não tinha como pagar. Então, eu disse: “Eu vou dar um jeito”. E todo mundo me dizia: “Cara, isso é uma loucura que tu tá fazendo. Ninguém conseguiu, tu não vai aguentar”. E eu fazendo essas doideiras, até que chegou a… Fui indo, meio com a barriga, assim, perdendo cadeira, perdendo matérias, rodei em algumas, porque não conseguia acompanhar, não conseguia fazer os trabalhos. Mas o pior, se eu for… Eu digo, a gente tem alguns momentos na vida que aí cada um naquilo que acredita. Sorte eu, católico, acredito em Deus, o anjinho da guarda que foi lá dar alguns recados em relação à questão do tempo. Numa dessas eu estava fazendo esse ciclo, fiquei… fiz um turno de doze horas, das sete da noite às sete da manhã. Saí do trabalho, fui pra aula direto. Tive aula o dia todo. Dormi uma hora no estacionamento, dentro do carro, no estacionamento da universidade. Aula à tarde de novo, saí da universidade, voltei pro trabalho, outro turno de doze horas de novo. Saí de manhã e estava indo de novo pra aula, pra assistir mais uma matéria que eu tinha, numa aula de manhã cedo. Trinta e tantas horas praticamente dormindo uma hora só. Aí, na rodovia federal, indo da empresa pra aula, eu dormi na direção. E, nesse dormir na direção, tudo muito rápido, né, acabei tendo sorte, porque o carro começou a sair da pista e entrar na pista contrária, porque não tinha divisória, era aquelas pistas… Rodovias antigas, que eram de pistas simples, né, não tinha divisória, não tinha talude, não tinha nada. E eu entrei na pista da contramão e eu digo, a sorte, tinha pouco movimento de manhã cedo, sete e pouco da manhã e o carro que estava vindo no sentido contrário percebeu que eu estava fora de pista, mas fica naquele pânico porque, se ele saísse, ele ia pra contramão. Ele viu que provavelmente eu tinha perdido o controle do carro e ele colocou a mão na buzina e começou a buzinar com toda a força. E, pra minha sorte, era um fusquinha, né? Quem conhece Fusca, sabe que a buzina do Fusca tem um som estridente, alguns mais antigos, muito barulhentos. E eu acordei de sobressalto, de susto, com a buzina do Fusca e foi rápido o suficiente, pra eu conseguir puxar o carro e não bater. Mas eu joguei o carro pro acostamento no sentido do lado contrário do meu fluxo. Isso quer dizer: eu atravessei a pista e fui parar do outro lado, parei no acostamento. Mas, assim, o coração na boca, as pernas tremendo, assustado. O senhor que estava no Fusca parou, pra ver se estava tudo bem, o que tinha acontecido. E aí ali eu comecei a olhar pros lados, perdi a noção do que estava acontecendo, onde é que eu estava. Quando eu dei por mim, eu estava num estado de ansiedade tão grande, o coração tão grande, que eu disse: “Olha, eu vou precisar tomar um pouco de cuidado, porque encontrei onde é que está meu limite” e meu limite não era pra fazer desistir, era pra moderar. Então, eu quis… Chegou num determinado ponto que eu estava tão ansioso de poder mostrar pras pessoas, de mostrar pra mim mesmo, de mostrar pra todo mundo que, sim, eu ia conseguir, que eu acabei extrapolando mais do que o limite. Porque eu sempre tinha conseguido outras coisas difíceis. Chegou num determinado ponto que eu extrapolei, ao ponto de colocar a minha vida em risco. E aí eu repensei um pouco, cheguei, liguei pra casa, pedi pra alguém me buscar, não quis dirigir mais. Fui pra casa dormir, em vez de ir pra aula. No outro dia eu fui pra universidade, fui lá e cancelei três cadeiras: “Olha, não vou, não tenho condição”. Cancelei no meio. “Não vou fazer, nesse semestre eu preciso maneirar”. E aí eu levei um pouco mais de tempo, enquanto - nesse processo de todo, né, entre perdas e idas e vindas - uma pessoa normal levaria, assim, dedicada, com tempo pra estudar, cinco anos pra fazer o curso, eu acabei fazendo o curso em sete anos e meio. Então, mas assim… Terminar… A minha ideia, assim: “Eu preciso terminar, mas eu preciso estar vivo pra terminar porque, se eu não estiver, todo esse trabalho, todo esse esforço vai ser em vão, então não adianta. A minha saúde precisa estar inteira, minhas condições precisam estar inteiras, porque se eu tô fazendo isso pra minha família, minha família precisa que eu esteja ali”. Então, foi um momento onde eu tive um baque mais forte, um recado pra mim, pra saber: “Bom, tu não precisa provar nada pros outros, tem que provar pra ti e pra ti tu também tem que saber até onde é seu limite”. Eu estabeleci o meu limite ali, eu comecei a levar um pouco mais tranquilo, sabendo que: “Cara, eu vou terminar e já é alguma coisa que ninguém mais faz, que ninguém mais fez”. E eu terminei assim, fiz até o último dia. Me formei trabalhando em regime de turno. E, quando eu me formei, no dia da minha formatura, não me formei com turma, porque eu não tive turma, né, porque eu… Como eu fazia cadeiras quando dava, no horário que dava, aquele negócio da turma da faculdade eu nunca tive. Foi a primeira vez que eu estudei sem uma turma. Então, o grupo que se formou comigo, era um grupo… não era um grupo muito grande, então a gente era, toda a turma, o grupo era turma da comissão de formatura. E alguns deles já estavam estudando comigo e alguns deles já conheciam a minha história, porque todo mundo conhecia minha história na universidade já, pelo menos dentro do curso: “Ah, o cara que trabalha lá no turno”. E quando chegou na época da formatura, a gente tinha que escolher uma homenagem pra fazer. Então, tinha duas homenagens: uma pela universidade, que a universidade dava pro aluno com as melhores, com a melhor média de notas daquela turma de formandos e uma outra, que era pelo Conselho Regional de Química e Engenharia, que davam prum aluno que era, por algum critério, normalmente pelo histórico também,só que dos colegas e dos professores, normalmente por desempenho, por performance, davam um prêmio também. E meus colegas fizeram a votação e me escolheram pra receber o prêmio, por ter sido o primeiro aluno do curso de Engenharia Química da federal, a se formar trabalhando em regime de turno no polo petroquímico, depois de quarenta anos de curso. Eu ganhei uma plaquinha, ganhei uma homenagem no meio da formatura, por conta disso. Eu me emociono (choro) um pouquinho pra falar, porque é uma coisa que, pra mim, foi… Nossa! A gente batalha e ouve tanta gente dizendo que não dá, tanta gente! E aí, quando a gente consegue, assim, quando tu diz: “Sabe, não é assim. A gente tem que saber os limites da gente, mas ‘não dá’, não são os outros que vão me dizer, vou ser eu que vou dizer pra mim, ninguém vai me dizer”.

P1 - Depois que você terminou, Isaías, você continuou trabalhando no polo petroquímico?

R - Continuei, eu trabalhei, eu fiz... fiquei sete anos como torneiro. Fiquei mais um tempo ainda, porque logo que eu me formei não tinha vaga de engenheiro ainda, né? Mas tão logo teve, eu consegui, passei pruma função de engenheiro. Aí eu voltei pra trabalhar em horários administrativos normais, né, ainda longe. Mas eu fiquei depois mais outros nove anos na empresa, fiz carreira, trabalhei dezesseis anos na mesma empresa. Fiz carreira lá, passei a coordenar equipes lá, foi muito legal, porque eu tive um reconhecimento fantástico dos meus colegas de trabalho. Porque, como eu acabei me formando nessa condição e eu era novo ainda, eu tinha colegas de… Pessoal… Vários profissionais que fazem carreira como operador petroquímico. Os meus supervisores, na época, que tinham 45, cinquenta, 55 anos de idade. E aí, quando eu me formei, eu me formei ainda um pouco jovem, eu tinha 27. E eu estava… Logo que eu me formei, quando passei pro departamento de engenharia e, em seguida, um ano depois, assumi a coordenação de uma das unidades, os meus supervisores de turno passaram a responder pra mim. Eu passei a ser chefe dos meus supervisores. E aquilo, primeiro, foi uma situação: “Nossa, como é que vai acontecer agora, eu sendo chefe das pessoas que me treinaram, que me conduziram, que foram os meus tutores aqui. E agora, eu novo, relativamente jovem, assim, agora eu tô de responsável, de chefe da equipe, vamos chamar assim, de líder da equipe toda”. E aí foi muito legal, porque eu tive dois supervisores que trabalhavam pra mim, de turnos diferentes. E eles reuniram as equipes, me chamaram lá, pra me dar os parabéns e pra dizer o quanto orgulho eles tinham de estar respondendo pra mim, porque eles tinham acompanhado toda a minha trajetória e, se tinha alguém que podia servir de exemplo pros novos que estavam entrando, era eu. E foi a melhor coisa que eu pude ouvir, porque eu ouvi isso de gente que foi meu chefe, que veio me parabenizar, dizendo que tinha muito orgulho, que passava... Que eu agora era o chefe deles. Porque eles viram, acompanharam minha trajetória toda, me ajudavam, me liberavam pra ir fazer prova, quando eu não conseguia troca, faziam porque chegou num determinado que estava todo mundo ansioso pra ver o resultado também. E eles viram e eles disseram: “Isaías, a gente cita, todas as vezes que entra um jovem novo aqui nos turnos de operação, a gente fala: “Olha praquele cara lá e te mira” e isso não tem preço. Nossa! Isso não tem preço.

P1 - Quando a música voltou a surgir na sua vida, Isaías?

R - (Risos) Ah, cara, a música nunca saiu, na realidade, né? Eu tive aquele “break” do meu trauma, isso… Trauma, eu nem falei muito sobre isso, né? Eu tive um… Pra explicar isso, deixa eu contar um pouquinho do que aconteceu, daí volto pra cá, né? Porque, como eu te disse, eu estudava música todos os dias, de segunda-feira a sexta-feira, três a quatro horas, todos os dias, no instituto. E eu comecei lá com oito anos, já fazia violão desde os seis e, chegou num determinado momento, cantava [também]. Toquei, comecei a estudar piano, estudei flauta doce. Cheguei a tocar, com doze anos de idade, uma bateria de concertos pra flauta e orquestra. Me apresentei em palco, já tocava o suficiente pra me apresentar como concertista, com doze anos de idade. E aí, o nosso regente, o irmão, na época, que coordenava os trabalhos todos, tinha estudado numa faculdade de música na Alemanha. E ele tinha, já, um outro colega muito mais velho do que eu, que já era instrutor nosso, professor também, que ele tinha já, o rapaz já estava… Quando ele estava pronto, já tinha terminado o segundo grau. Ele conseguiu contato com os professores na Alemanha, conseguiu uma bolsa e mandou esse rapaz estudar música na mesma escola, na Alemanha, com a carta de referência. Isto é bem comum na Europa, ainda mais em escolas de música, que são mais… Esses episódios, né… Tendo alguma referência da própria escola, consegue. Então, tinha ido um colega meu, já… Um colega meu… Chegou a ser meu professor, porque era mais velho, mas ele tinha sido mandado pra Alemanha com uma bolsa, pra estudar lá. E, até pelo que eu estava fazendo, pelo desempenho, o próprio irmão disse: “Se tu continuar desse jeito, eu vou fazer a indicação pra ti também, se tu quer, porque eu tenho confiança”. Nossa, eu sonhava com aquilo todos os dias, é isso o que eu quero. Eu vou ter uma oportunidade de estudar fora do Brasil, nossa, aquilo virou o meu sonho. Só que daí chegou num determinado momento, começou... a igreja não tinha mais condições de bancar o trabalho todo. Eram muitas crianças, nós chegamos a ter um grupo com mais de setenta alunos, no instituto e aí o instituto acabou encerrando. Teve uma mudança, mudou o bispo, daí eles falaram: “Não tem mais” e aí, simplesmente, o trabalho, do dia pra noite, a gente foi comunicado: “Olha, vai acabar”. E eu… teve uma discussão, na época, com nosso regente, com o irmão, com o bispo da época. Eles acabaram se desentendendo, porque ele não queria que acabasse, ele acabou indo embora e resolveu, inclusive, trocar de cidade. Mudou de cidade pra ir pra outra diocese, porque eles se desentenderam. E aí aquilo acabou e, do dia pra noite, a gente só foi comunicado: “Olha, acabou o coral, acabou o instituto” e eu estava com treze anos, na época que minha voz estava, já, de mudança, meninos começam a engrossar a voz, né? Então, eu cantava a voz soprano, cantei muitos anos, fui solista, cantei em peças como solista de soprano, estava mudando de voz, mas já me preparando: “Olha, vou estudar agora, vou entrar, daqui a pouco tô entrando no ensino médio, mais alguns anos vou…”. Na minha cabeça estava tudo certo, vou estudar música, vou pra Alemanha, vou ganhar uma bolsa. Eu tinha botado isso, estava tudo programado. E aí, daqui a pouco, simplesmente acabou. Quando ele fez o anúncio que ia acabar, eu cheguei em casa, me tranquei no quarto, minha mãe entrou em pânico, porque eu fiquei trancado no quarto por quase dois dias, porque eu não conseguia parar de chorar. Eu não… praticamente não comia, não queria fazer nada porque, pra mim, aquilo: “Nossa, o que eu vou fazer?”. Aí, quando a minha mãe conseguiu falar comigo, conseguiu conversar, daí eu perguntei, minha mãe disse: “Tu sabe que eu não vou ter dinheiro”. E aí aquilo foi um baque, eu simplesmente parei tudo, deixei meu violão, como eu disse antes, dois anos sem encostar no violão, fiquei muito tempo sem ver nada de música, que eu não queria mais, aí aquilo travou. E acabei voltando gradualmente pro violão, aí mais adolescente, fui prum grupo de jovens da igreja, o pessoal tocava. Daí descobriram que eu sabia violão. Não sabiam que eu tocava tanto, porque eu toquei violão clássico [por] quase sete anos. Aí eu disse: “Ah, vou pegar”. Num dia peguei o violão de novo, fui ajudar lá, daí gostei, daí encontrei amigos, adolescentes, daí comecei a tocar um pouquinho no grupo de jovens de novo e aí comecei a dar aula pra ajudar em casa outra vez e pra conseguir uns trocos. Mas ficou só naquilo. Aí, depois, o que aconteceu? A gente chegou, depois, a reunir o grupo de cantores antigos, todos adultos já. O antigo regente nosso, que daí, já naquela época, era padre, tinha se ordenado padre, voltou pra diocese e montou um grupo coral só de homens. Só pra gente cantar, pra diversão, retomar. Só de ex-cantores da época. Ficamos um tempo juntos, reunidos, ele trocou de diocese de novo, acabou o coral adulto outra vez, mas nós tínhamos aí um grupo de colegas que tinham sido criança junto no grupo, aí a gente abriu contato de novo. E um desses meus colegas, ele já estava trabalhando com área musical, já era músico profissional, flautista, regente de coral. E aí, um dia, surgiu uma oportunidade. Eu já estava mais velho, já estava com... Mais velho, trinta anos. Aí um dia ele me ligou e disse: “Isaías, tô com uma ideia, queria ver o que tu acha. Tô querendo montar um trabalho, de repente, nos moldes que a gente tinha lá, mas eu tô um pouco sem ideia”. Daí ele me ligou, a gente conversou um pouco, montou uma proposta. Eu disse: “Cara, eu tenho, a gente tem… Olha, tu é profissão, mas eu me sinto um pouco até na obrigação da gente fazer alguma coisa”. Porque até ali eu já estava, já era um profissional consolidado, já estava formado, já estava na minha carreira e aquilo… todo o resultado do trabalho da música, apesar de eu não ter sido músico, aquilo, de alguma forma, me complementou como pessoa, como valores, como profissional. E aí eu disse pra ele: “Cara, eu estava esperando, talvez é a oportunidade”. Ele me deu uma luz, me deu uma piscada, a gente montou um projeto e apresentou, na época, na mesma igreja que a gente tinha o coral de criança. Apresentou pro pároco lá. E ele disse: “Olha, eu não vou ter muito dinheiro pra dar pra vocês, eu consigo arrumar algumas salas, consigo uma pequena verbinha ali, mas vocês…” e foi o suficiente, ali a gente começou e disse: “Olha, vamos tentar fazer um trabalho, montar um coral de novo e ver o que que a gente consegue fazer, o que acontece” e aí surgiu o coral dos meninos cantores. E aí eu voltei pra música, dando aulas pra crianças, tentando dum jeito. Ele, claro, passou a ser o regente profissional. Nós criamos uma associação, chamei outros colegas, que eram ex-cantores da época, pra montar uma diretoria, pra ver se conseguia apoio. Colegas também, alguns que eram músicos, outros que não. Aí montamos uma associação pra manutenção, pra arrecadar recurso, pra profissionalizar o trabalho como uma ONG, uma associação mesmo, de forma que a gente pudesse utilizar aquilo ali como um método de captação de recurso pra manter o trabalho. E aí, assim que a gente acabou começando, só que aí, o meu trabalho no processo era ajudar com o pouco conhecimento de música que eu ainda tinha e eventualmente ajudar dando aulas, mas aí eu dava aulas de forma gratuita. O regente, meu colega que teve a ideia, como ele era músico, nós acabamos contratando-o pela associação, pra ele ter dedicação pra aquilo ali. Então, nos pagávamos, a pouca verba que a gente ganhava da igreja, arrecadava, pagava o salário dele e eu acabei ficando de presidente da associação, que sou até hoje e acabei começando a… aí voltei a dar, peguei material de novo, precisava de ajuda pra dar aulas pras crianças pequenininhas, turmas de preparação, musicalização. Aí eu disse: “Cara, eu já tinha experiência dando aula de instrumento, muitos anos de coral, vamos tentar ver, vou precisar de ajuda”. E aí eu comecei a tirar as minhas noites, quando tinha aula, pra ajudar e dar aula de música de novo pras crianças e aí comecei a voltar pra música. Dum jeito que, pra mim, era primeiro um pouco de “hobby”, muito de compromisso e uma crença, uma crença, aquilo, primeiro que eu amo isso, sempre amei e eu amo música, amo o ambiente, o ambiente de cultura, eu adoro, sou apaixonado por aquilo, aquilo nunca saiu. Eu já tinha certeza que dificilmente... já estava em outra carreira, disse: “Ah, não tem como recuperar o que eu perdi”, então, na minha cabeça, eu disse: “Ah, mas deixa eu olhar pro lado bom agora da coisa, o que isso fez de bom pra mim e o que eu posso usar disso, pra fazer agora pra outros”. Porque eu botei na cabeça assim: “Cara, eu tive tanta coisa boa, em algum momento aquilo foi tirado de mim, porque minha família não tinha condições, mas eu tive uma oportunidade, pelo menos por um tempo. Quantas crianças, daqui a pouco, não tem por falta de oportunidade, por falta de ter a exposição pra aquele meio e não necessariamente pra formar, como a gente era, na nossa época, no instituto, com aula de ária e mini músicos, o pessoal brincava que eu fui mini músico, porque eu dava concerto com doze anos e meus colegas tocavam também. Mas a ideia era assim: “Cara, eu quero expor a mesma condição, porque a gente aprende a disciplina, a gente aprende a questão de cooperação e companheirismo”, porque o trabalho de um grupo coral e orquestra, você ensaia, a hora que um faltar, meu amigo, desmorona, porque você aprende a cantar um do lado do outro. Se o colega que cantou do seu lado, que ensaiou todo santo dia do seu lado, você não escuta a voz dele, você se perde. Se o músico que está lá preparado, se eu faltar no concerto, não tem concerto. Se meu primeiro violino faltar, acabou o primeiro violino. Isso cria um conceito de responsabilidade, de comprometimento, de persistência em relação ao ensaio, o que eu falei do violão, né, que eu aprendi com a minha mãe e depois o coral me deu a mesma coisa, que é a dificuldade momentânea, dura enquanto você persiste. A hora que você ultrapassa aquilo ali, que ela deixou de ser dificuldade pra ser uma realização, ela passa a ter o efeito da alimentação mental, da satisfação do hábito, né? O hábito sempre se cria a partir de um processo de complemento satisfatório no nível mental. Então, você tem que passar por aquela dificuldade, aquela rotina, quando você consegue, aquilo gera um efeito de “doping” que a gente chama, assim, tão bom, que você diz: “Cara, eu consigo”. Então, o próximo, mesmo que seja difícil, o próximo nível, o próximo “step”, ele vai… eu sei onde é que eu vou chegar. Eu tenho que passar por isso. A música te traz isso. Esporte te traz isso. Ninguém sai lutando judô na faixa preta, ninguém sai competindo natação sem fazer muito tempo de nado. Então, essa parte do ultrapassar a dificuldade, do manter a constância, a música é uma das formas. Eu queria mostrar isso, eu queria utilizar isso, queria trazer isso pra crianças, da mesma forma como eu tive. E isso mudou, me mudou como pessoa e me moldou como profissional. E na minha cabeça eu tenho isso até hoje, eu tenho obrigação de usar isso, de usar o que eu aprendi, de usar o que eu sei, o que eu conquistei, pra poder proporcionar isso pra outras crianças que tinham, talvez, que tenham a situação igual ou até pior, mais difícil do que eu tive, com essa convicção. Alguns vão querer ser músicos, como eu tenho muitos colegas, muitos colegas que são músicos. Eu tenho colegas que entraram no mesmo dia que eu no coral, quando eu tinha oito anos. Eu tenho um que é violinista da Orquestra da Ospa, em Porto Alegre. Eu tenho outro que é violoncelista de três orquestras aqui, que estudou na Europa. Tenho vários que seguiram em frente, que puderam, que tiveram oportunidades e foram músicos. Então, eventualmente vai acontecer. Como eu tenho outros colegas, que ajudaram a fundar o trabalho do coral, que foram pra outros âmbitos, administradores que fizeram outras coisas, mas que o conjunto daquela exposição e daquele trabalho fez tanta diferença na vida, que compraram e que entenderam, que a gente pode ter colegas que vão ser melhores do que a gente, que vão virar músicos, mas que o que a gente desenvolve ali forma caráter, forma pessoas, forma… Complementa a vida, complementa educação, complementa formação. E isso que eu voltei pra música, assim, como missão.

P1 - E como você avalia que esse projeto, né, dos meninos cantores de Novo Hamburgo? Impacta os alunos de vocês, as crianças pras quais você dá aula? Como você vê o resultado?

R - Cara, assim, eu vou te dar… Vou… Tem um monte, muitos exemplos, eu tenho… Vou te dar um que eu vi essa semana, recente, na realidade, foi no fim de semana. Teve uma das minhas alunas, ela começou a aula com a gente lá, ela tinha acho que uns oito, oito pra nove anos. Ela está hoje com... Vai fazer catorze. Está terminando o ensino médio agora. Está também se preparando, quer ir pro curso técnico. E aí, ela esteve lá na minha casa, junto com a mãe dela. A mãe dela é farmacêutica, foi lá, na realidade, foi por acaso. Foi com a filha lá, a mãe dela foi levar um remédio pra minha esposa. Minha esposa hoje administra a ONG, junto comigo, né? Minha esposa é que organiza toda a parte… não sabe uma nota musical, mas ela é que organiza o processo todo, eu só me envolvo com a música e com a formação das crianças. Daí ela estava conversando, daí ela falando, inclusive, que a menina está se preparando agora também pra fazer a prova do curso técnico, daí ela… A mãe dela fez um comentário: “Ainda bem que ela é, que essa menina é hoje o que é e eu não vou ter vida pra agradecer o que vocês fizeram, porque se ela tem hoje um pouco de organização na vida dela, se ela tem a disciplina pra escolher o que ela está querendo escolher… Ela está se organizando pra fazer um cursinho preparatório gratuito, que ela conseguiu, porque ela botou que ela tem que fazer também um curso”, uma situação parecida. E eu escutar de uma mãe agradecendo, porque a gente vai vendo-os crescendo e então às vezes a gente nem percebe esses pequenos detalhes da rotina, porque a gente não está dentro da casa deles. Mas a mãe vir agradecer e dizer: “Ela é uma pessoa, ela é agora uma adolescente diferente, melhor, mais estruturada, mais organizada, porque ela foi exposta nesse ambiente, porque ela estava ali”. E assim eu tenho tantos outros, tenho alunos meus, tenho meu filho, meu filho dá aula de piano hoje. Eu botei meu filho junto com os demais. Ele dá aula na ONG. Dá aula pros alunos novos, pra crianças pequenas. Meu filho tem dezessete anos, ele dá aulas desde os catorze, de piano, pra crianças de sete, oito anos. Eu tenho um outro colega dele, com a mesma idade dele. Agora está com dezessete. Eu ensinei violão desde os sete anos, hoje esse menino é guitarrista de uma banda com dezessete anos e ele dá aula de violão também, desde os catorze, na ONG, pra gente, então, lá no instituto. Então, eu olho pra esses meninos, obviamente eu faço questão de: “Bom, eles são professores, eles estão lá, mesmo que sejam menores de idade”. A gente dá uma bolsa, dá uma ajuda de custo por aula que ele dá. E o que eu mostro pra eles e o que eu faço eles entenderem: “Bom, o esforço de vocês, nem todos os alunos vão tão longe ao ponto de conseguir dar aula”. Eu falo pra esses meus alunos que vão lá e conseguem chegar ao ponto deles conseguirem dar aula, porque eles já estão há sete, oito anos no instrumento, nível avançado e eles conseguirem dar aula pra uma criança e eu disse: “Olha, está vendo onde vocês podem chegar? Vocês podem chegar num ponto, tão novinhos, se alguma coisa der errado, vocês têm isso que pode ajudar, que pode ajudar as famílias de vocês, que pode complementar, ou que pode até ser uma carreira, se for o caso”. E eles adoram aquilo! E hoje dão aula lá com a gente. Então, a gente acaba, de várias formas, contribuindo por todos os meios. Uma das coisas, assim, que a gente vê bastante e é um pouquinho das premissas do trabalho. São algumas das coisas das quais eu não abro a mão. As pessoas sempre perguntam pra gente, assim: “Isaías, então o trabalho lá é só pra criança carente, pra crianças de vilas como, talvez do que eu vim ou pior, numa situação de vulnerabilidade”. E eu arrisco minha resposta: “Também”. Agora, eu partir dum princípio um pouquinho… Às vezes até a dificuldade de mostrar e trazer o valor do trabalho, porque a gente não faz restrição. Eu tenho crianças e tive já casos de filhos de domésticas que eram… Cantavam com os colegas que eram os filhos do dono da casa que a doméstica trabalhava, ou da empresa que… Trabalhavam na empresa, trabalham e compartilham juntos. A gente não faz isso, nunca pergunto. Mesmo quando a gente começou o trabalho, como eu te falei, na mesma igreja. Hoje, a gente não está mais vinculado lá dentro, porque eles também tiveram dificuldade de manter o trabalho lá e a associação protegeu a gente, foi pra outro lugar e o coral se manteve pela associação. Mas, mesmo quando a gente teve, por muitos anos, dentro da igreja, porque a igreja abriu as portas pra nós, pra ocupar espaço e com uma verba, desde o primeiro dia nós tínhamos um acordo: nós nunca fizemos restrição de religião, não tinha nenhuma obrigação, da criança que participasse, ser daquela religião. Então, eu tive crianças católicas que cantavam com evangélicos, que cantavam com batista. Não interessa, a gente não perguntava isso. Nunca perguntei. Nunca perguntei pras crianças, nunca pedi pra preencher uma ficha socioeconômica. O que a gente perguntava, a gente tomava todo o cuidado do mundo: “Olha, agora tem que providenciar uniforme, alguém tem condições de pagar pelo seu uniforme?”. E deixava: “Os pais que não têm vem falar com a gente separado, pra não expor”. Quem não tem, a gente dá um jeito, a gente vai atrás. Mas o recado pra eles é assim: “Cara, na hora que você está cantando, na hora que você está aprendendo, na hora que você está desenvolvendo, na hora que vocês estão juntos, que vão num palco...”, porque a gente leva as crianças do coral pra palco. A gente se apresentou muitos anos no Natal Luz, apresentamos no estado inteiro, levamos essas crianças pra cantar em congressos, em Minas, Paraná, Rio de Janeiro. E eles vão pra palco com grupo, com orquestras, porque a gente faz um trabalho, óbvio, com um nível de qualidade. Depois de alguns anos eles já têm condições técnicas de cantar nesse nível. E a gente diz: “Na hora que vocês estão lá, ninguém pergunta quanto é que a família de vocês ganha, onde é que vocês moram, de onde é que vocês vêm, nem pra onde vocês vão, vocês são todos iguais”. E é isso que a música faz, a música não faz distinção. A gente nunca perguntou pra criança de qual religião elas vêm, onde é que elas moram. Nunca preenchi ficha socioeconômica. A gente quer mostrar pra eles exatamente esta questão da igualdade. Quando eles estão em aula, quando eles estão ensaiando, quando eles estão aprendendo, quando eles estão no palco. Porque a gente expõe essas crianças no palco, depois o coral, que a gente tem o grupo de crianças preparatórias, depois tem o grupo de concerto. Várias crianças, jovens que estão lá cantando com a gente há três, quatro, cinco anos, então, já chegam num nível de técnica e de conhecimento musical, que eles se apresentam em concertos, com orquestras. A gente usa, inclusive, até pra abastecer, pra refinanciar o coral, vende eventualmente o trabalho, porque é um trabalho de qualidade. E a gente deixa isso bem claro pra eles: “Na hora que vocês estão lá, vocês são um grupo de iguais. Não faz distinção, a música não faz distinção. Vocês têm as mesmas oportunidades, vocês têm os mesmos compromissos, vocês têm as mesmas obrigações e o mesmo resultado”. Na verdade, o resultado é pelo mérito. Eu não pergunto de onde é que vem a criança, na hora que ela está desenvolvendo o instrumento, em que ela estudando. Se ela está estudando e ela for melhor, é ela que vai apresentar na frente dos demais. E isso a gente mostra. A gente tem um trabalho que é pra mostrar pra eles que eles não têm diferença, que eles podem conviver conjunto, não interessa se o colega vem de uma família de empresários e o outro não. Ali dentro não tem diferença nenhuma e eles compartilham, as crianças brincam, se divertem, aprendem, se apresentam, se comprometem umas com as outras, porque a gente ensina isso pra eles. Na hora que a gente vai apresentar, a gente faz com que eles se comprometam uns com os outros: “Olha, eu não posso faltar, eu não posso falhar com o grupo porque, se eu falhar, o grupo falhou, eu não vou estar lá”. A não ser que seja um caso de doença, alguma coisa assim. Mas eles sabem que precisam do trabalho de coesão, eles são expostos conjuntamente, pras mesmas coisas. E isso é uma premissa do que a gente tem pra fazer com eles. E outra que a gente também tem um trabalho que a gente chama de complementação familiar, porque a gente cria uma série de condições de valores e são trabalhos um pouco mais difíceis de ver, porque sempre se trata da vulnerabilidade muito mais sócio financeira. E a gente tem, eu tive muitos casos, vários, de jovens, crianças, de famílias, na realidade, com problemas graves, internos, de família. Pais solteiros, eu tive recentemente, onde a esposa faleceu de câncer com filhos pequenos, com filhas pequenas, quatro filhos. E o esposo precisava trabalhar e as crianças, duas foram alunas nossas, ficaram lá. Tive caso, um caso recente de mãe com problema com o ex-marido, com questão de agressão. E de famílias com um pouco mais de condição, mas que a criança estava exposta num ambiente de risco, de exposição emocional, ou de exposição psicológica. E as famílias, às vezes, vem nos procurar, pra poder ocupar isso. Caso, tive um caso de alunos que vieram… a família veio, também, num caso de separação na família, vieram de mudança e aí a criança estava perdida, com bloqueio, colegas novos, traumatizada pela mudança súbita, pela separação dos pais. E aí acabam… os pais acabam levando lá pra gente: “Olha, vamos ver se enturma, se situa”. Crianças com problema de timidez absurda, de as crianças não conseguirem falar, se relacionar e a gente trabalha isso gradual, porque eles vão ter que subir num palco junto com um grupo grande. Então, às vezes a gente consegue, gradualmente, trabalhando e quebrando isso e isso melhora o ambiente de relação da criança e a gente acaba trazendo isso e trabalha junto com os pais e essa é a parte legal, porque a gente não precisa, eles não abrem isso pros outros, às vezes nem abrem pra gente, quando a gente vai saber, são quantas vezes e eles vêm nos agradecer, porque às vezes eles colocam as crianças lá, a gente nem sabe qual é o motivo, levam lá. E daqui a pouco a gente começa a perceber que tem alguma coisa estranha, conversa com os pais, conversa aqui, quando eles têm confiança na gente: “Olha, eu o trouxe pra cá por causa disso”. Aí a gente vai descobrir que tem um problema muito maior por trás e que a gente, de forma indireta, sem nem saber, está ajudando, pelo trabalho que a gente está proporcionando. Então, esse é o tipo de coisa que também, como eu te disse, a criança pode ser de uma família economicamente com dificuldades, como pode ser de uma outra e eles acabam, entre eles, se cumprimentando, como se fosse uma família. Eu acho muito legal olhar pra isso, ver alguns dos meus ex-alunos, o qual eu trabalho, agora fez dezesseis anos, né? Nesse ano nós completamos dezesseis anos de atividade. E eu tenho alunos da primeira turma que, eventualmente, alunos adultos já hoje, com vinte, seus vinte e poucos anos, vão nos concertos do coral, ver a turma nova. E eu tive agora, recentemente, duas alunas minhas que tiveram bebê. Foram alunas minhas, uma com sete anos... Uma com oito anos e uma com dez. Cantaram comigo por muito tempo, cresceram, depois começaram… Foram trabalhar, foram estudar, se formaram, foram assistir concerto, casaram. Uma manda convite pra outra e ainda se relacionam até hoje, entre elas, porque ficaram amigas lá, amigos lá. Pessoal ______ e todo mundo se conhece. E aí agora têm filhos e estão ________: “Se prepara porque agora, mais uns quatro, cinco anos, quando meu filho tiver sete, vou botá-lo aí”. E aí vai chegar uma geração inteira nova, cara! Isso é, nossa, maravilhoso!

P1 - E conta, Isaías, durante esse período todo que você conta, são dezesseis anos, certo? 

 

R – Isso. 

 

P1 - O quanto esse trabalho de vocês se expandiu? Porque vocês chegaram a sair da igreja, tiveram uma sede onde vocês desenvolveram. Aumentou muito o número de crianças, aumentou muito o número de aulas, de instrumentos? Me conta como isto foi se desenvolvendo.

R - É, no início, bem no início, logo nos primeiros anos, a gente não tinha aula de instrumento. Não tinha condição de dar, não tinha tanta disponibilidade. Então, a gente começou com trabalhos nos primeiros quatro anos, se não me engano, quatro pra cinco anos não tinha aula, praticamente não tinha aula de instrumentos. E a gente foi agregando isso, porque tinha… nossa verba era limitada, tinha dificuldade de conseguir. Aí eu… aquele primeiro processo, né? Os primeiros anos de qualquer entidade, enquanto você não tenha um trabalho grande pra mostrar, até pra conseguir fomentar o trabalho pra ele crescer, é difícil, porque você tem que ter um determinado tempo e um determinado trabalho. Num determinado momento, a própria associação com a igreja dificultava a arrecadação, ou conseguir por ordem de outras coisas, porque estava vinculado a uma entidade religiosa específica, mesmo não tendo a obrigatoriedade. Então, isto dificultou um pouquinho. Quando a gente conseguiu, de fato, o trabalho daí começou a ganhar maturidade, a gente começou a botar aula de música, o grupo começou a ficar melhor, a gente começou a ter exposição, o coro principal começou a ser contratado, daí você fica visto na mídia. Nós criamos... Aí começa a criar um reconhecimento da comunidade que você está inserido. Todo mundo começa a reconhecer, vão nos concertos. Depois nos contrataram pro Natal Luz, em Gramado (RS). Nossa, uma exposição tremenda! Nós cantamos muitos anos lá. Nossa, o coral que canta no Natal Luz, aparecia na TV! Aí você começa a ter aí muita... as crianças começam a procurar. Você vai fazer propaganda pra arrecadar crianças novas, mais gente quer.  Aí começa, o trabalho, a pegar um pouco de corpo e aí ele vai crescendo. Chegou… A gente teve uma primeira dificuldade, num… Aí a gente teve, assim, uns buracos no caminho. A pessoa que eu disse que lançou a primeira ideia pra gente começar, que foi o primeiro regente, teve uma doença degenerativa grave, muito rápido e aí nós, o coral, praticamente, assim, em questão de três meses a gente teve que parar o coral, porque o regente foi hospitalizado e nunca mais se recuperou. Ele teve um problema, conseguiu sobreviver, mas ele nunca mais recuperou coordenação motora, problemas neurais… neurológicos, perdão. E a gente acabou ficando assim: perdi, tive que paralisar o coral, fui atrás de um outro regente, que também tinha sido cantor. Levamos alguns meses, perdemos muitas crianças no meio do caminho, porque a gente paralisou o trabalho. Ficou assim: “E agora, como é que faz, como é que retoma, o que faz?”. Então, a gente acabou tendo um vale, retomamos de novo. Na retomada, passou um tempo, aí começou praticamente o trabalho, uma boa parte do trabalho de novo. Conseguimos um trabalho grande de novo, tivemos... Chegamos a ter uns sessenta, quase sessenta crianças, entre as turmas preparatórias e a turma principal, com aula de música, alunos de violão, alunos de flauta, algumas alunas de violino, a gente conseguiu professores pra colocar lá. E aí a gente... foi o segundo baque, que foi quando a paróquia que nós estávamos instalados chegou pra gente: “Olha, não dá mais, a gente não pode manter, ter uma entidade agora - até, acho que algumas questões de legislação, que andaram mudando, na tratativa de entidades religiosas - ter um trabalho de uma entidade como a de vocês, vinculada diretamente à igreja, vocês fazem parte, passa a ser juridicamente assim - tinha uma série de problemas -.”, “Olha, aí não tem mais e a outra é que a paróquia também está com dificuldade financeira, a gente não tem como manter verba”. Aí foi outro baque, porque daí a gente ficou parado de novo por meio, mais de meio ano, procurando um lugar, procurando de onde a gente ia tirar as verbas, pra voltar a manter. Aí a gente conseguiu, a associação conseguiu fazer uma bateria de promoções, pra manter o trabalho, assim conseguimos um outro local, mas é isso também, de novo: agora que a gente está fazendo dois anos e meio, indo pro terceiro ano, que a gente está na sociedade que nos acolheu lá, conseguimos um trabalho, essa é a parte boa, porque daí a gente já tinha um nome grande na região. Conseguimos através da própria prefeitura, Secretaria da Educação, que nos conhecia, conhecia o trabalho, conhecia o resultado, nos conhecia, os professores: “Olha, nós confiamos no trabalho de vocês” e eles intermediaram o processo, pra que a gente pudesse mudar de local e ter um local, de novo, pra se instalar. E aí a gente começou todo o processo de novo. Aí a gente já estava arrecadando praticamente quarenta… A limitação um pouco pela verba e pela quantidade de professores, né, disponibilidade pra ter mais professores pra atender, porque eu chegava... todo ano a gente abre mais ou menos umas quarenta, 45 vagas, que é o que a gente consegue absorver, pra turma preparatória. Então, todo ano a gente começa uma turma preparatória. Alguns alunos, ao longo do tempo, não se adaptam. Não é aquilo que quer. E criança: “Não quero música, quero aula de dança. Não, quero ir pro inglês, quero ir pro judô”, é normal. Então, a gente vai perdendo e vai repondo. E outros alunos mais velhos, de muito mais tempo, catorze, quinze, dezesseis anos, naturalmente vão por causa da idade, começam a ir afastando, porque vão trabalhar, vão fazer o segundo grau, vão se preparar, é natural, a gente já está acostumado com isto, então tem este fluxo. Aí a gente já estava com um grupo bem grande no ano passado, aí veio pandemia. (risos) Aí a pandemia foi um baque gigantesco pra nós, porque mudar o lugar, o método de ensinar, de fazer a propaganda, de divulgar, de educar, sempre… Muda a localização só, né? Agora a pandemia foi o que deu um prejuízo grande pra gente, porque a gente teve que remoldar tudo. Como é que faz pra fazer… Manter essa… A gente não sabia primeiro quanto tempo duraria. Ninguém sabia, né? Então, primeiro vamos dar um período como se fosse férias, né? Vamos esperar um pouquinho, pra ver. Aí começou a piorar. Daí eu disse: “Então, vamos tentar ver se a gente, pra não perder as crianças, mantém alguma coisa ‘online’”. Daí, como é que faz aula de música num coral, “online”? No início não tinha. E faz, como é que faz aula de música? Aí algumas crianças... Aí começa, assim, as dificuldades da questão financeira. Algumas crianças que não dá. Tem criança que tem o “notebook” em casa, tem criança que não tem. Criança assistindo aula num celularzinho desse tamanho e assistindo aulinha lá de… Reduziu o tamanho da aula, tentando cantar, manda a gravação pra eles, grava e manda a gravação pelo WhatsApp, pra eles escutarem, bota no YouTube, publica lá, pra eles escutarem e ensaiar sozinhos. Aí, obviamente, né, a gente perdeu muitas crianças, do ano passado pra cá. Mas a gente conseguiu manter o coral. A gente chegou a fazer gravações, daquelas padrões, que o pessoal todo tem feito com grupos, né, cada um na sua casa manda a gravação, a gente faz uma masterização, colocamos, publicamos alguns vídeos assim, pra manter o objetivo pra eles, né? E essa é a parte… A gente perdeu alguns, principalmente porque não se adaptaram com questão de aula “online”, ou que desanimaram, muito comum nas crianças. A gente passou a fazer um trabalho conjunto, à distância, com as crianças, porque os pais começaram a dizer: “Cara, não é só o coral que está muito difícil, as crianças não estão motivadas pra assistir aula “online”, porque a aula “online” é cansativa, não tem os colegas”. E a gente começou a fazer um trabalho e daí disse: “Bom, como é que eu posso fazer pra mantê-los, de alguma forma, motivados?”. Então, vai, nós vamos fazer uma gravação assim e a gente mandava, fazia pequenas gravações e botava. “Hoje vocês vão assistir vocês mesmos cantando”. A gente conseguiu manter o trabalho e eles se assistiam: “Ah, essa foi a minha gravação aí”. Todo mundo via, daí o pessoal aplaudia. Até chegar num ponto que o objetivo, pra nós e é o que a gente dizia pra eles e pros pais, né, pra motivá-los a continuar, porque a nossa preocupação grande é: “Nossa, será que a pandemia vai nos derrubar num ponto da gente, depois de…”. A gente estava programado ano passado, pra fazer uma festa de quinze anos e não teve a festa de quinze anos. A gente ia fazer um congresso, reunindo corais do Brasil inteiro, de crianças, que a gente é federado, em Novo Hamburgo, por conta dos nossos quinze anos, nós tivemos que cancelar o congresso. E como é que nós vamos fazer? A gente começou a ver outros grupos, de dança, fechando as portas. A gente viu grupos de teatro fechando as portas. Que, no final, são grupos irmãos em relação ao objetivo-fim, né? Grupos que são lá, que são complemento do trabalho educacional, do trabalho de exposição da arte, de exposição cultural. E aí eu só dizia pra eles assim: “Olha, a gente tem que manter”. Eu falava pros pais isso o tempo todo, todas as conversas que a gente tinha com eles e as aulas, eu disse: “Eu sei que é cansativo, eu sei que às vezes é chato, só que que um dia a pandemia vai acabar. E é muito ruim quando você tem alguma coisa que você ama muito e, por conta de algum fator externo, você não tem mais. - Aí eu usei um pouco o meu exemplo, porque foi por um fator que não era exatamente assim, mas era diferente. - Agora, aqueles que tiverem a persistência de ir até o fim, quando tudo isso acabar, vocês vão ter pra onde voltar. E eu tô muito chateado por outros colegas, eu vi outros corais fechando, eu vi outros grupos, eu tô muito chateado, porque eu olho pra aquelas crianças… A minha filha participava de um grupo de dança… E aí eu vejo por esses outros grupos, quando isso acabar, ela não tem pra onde voltar, porque o grupo acabou”. E isso os pais compraram e a gente conseguiu manter o grupo e agora a gente começou com as aulas híbrida, parte presencial, parte… E já está com concerto marcado pro fim do ano de novo e começando uma turma preparatória nova. E já conseguiu crianças no meio da pandemia, mesmo com máscara, com um distanciamento. A gente teve crianças inscritas pra aula de turma preparatória. Semana passada tivemos a primeira aula, hoje está tendo a segunda aula. E conseguimos, de novo, quase trinta crianças, pra recomeçar o trabalho, no meio da pandemia. A gente pensou assim: “Cara, se conseguir vinte…” e foi limitado, porque eu não posso botar mais criança, porque tenho que manter o distanciamento. Se a gente tivesse mais tempo... Não pude ir nas aulas, porque não tem aula, então a gente só fez propaganda de “folder” e pela internet, não pude visitar as escolas, pra fazer. E ainda assim nós tivemos quase trinta crianças inscritas. Só assim: “Ah, vamos tentar, ver o que que acontece, saber como é que vai ser a receptividade, porque com os protocolos, tem protocolo aprovado pela Secretaria de Saúde, pela prefeitura. Mas é uma pandemia ainda e as pessoas estão receosas, vamos ver como é que vai ser. E ver que a gente teve esse retorno e já povoou de novo e a projeção, se ano que vem estiver bem, é talvez ter cinquenta alunos novos e fazer o projeto crescer tudo de novo. Então, isso. pra mim, é… A gente não conseguiu, a gente teve os percalços no caminho, mas quando a gente viu que a gente manteve o trabalho, apesar da pandemia, que a gente segurou um grupo de base pra manter, pra quando isso acabar, a gente ter pra onde voltar e saber que o trabalho continua ali e que aquelas crianças… Eu tenho crianças de oito, nove anos, que estão, passaram um ano e meio fazendo aula pelo celular e essas crianças estão lá! Ainda estão lá. Eu perdi alguns, mas o trabalho está ali, a gente vai recomeçar, está recomeçando, está retomando de um corte que a gente gostaria de ter. A nossa projeção é, pro ano que vem, se as coisas andarem nesse ritmo, fechar com sessenta crianças de novo. Talvez vá, se conseguir mais professores, aumentar, aumentar o espaço, sei lá. Mas, muito feliz. Não tanto quanto eu gostaria de ter comemorado os quinze anos, de ter um grupo, fazer um concerto lindo, fazer uma apresentação pra comunidade de Novo Hamburgo inteira, que é a nossa casa lá e mostrar pras famílias, mostrar… A gente estava convidando ex-alunos pra assistir. Foram, nossa, nesses dezesseis anos, quase quinhentos alunos que nós tivemos. Convidando os antigos pra participar, pra assistir o concerto, alguns pra cantar conosco, mesmo adultos e a gente não conseguiu fazer. Mas aí eu acho que teria sido muito pior se a gente não tivesse conseguido manter o trabalho e hoje a gente está muito feliz de que a pandemia não derrubou a gente, não.

P1 - E, mudando um pouco o foco do assunto, Isaías, como sua esposa se envolveu nesse trabalho?

R - (Risos) Ah, cara, puxa vida! (risos) As perguntas assim, meio… Não sei se ela vai gostar muito, mas vou falar a verdade: minha esposa é completamente apaixonada pelo trabalho, mas ela não sabe absolutamente nada de música, né? Nada, nada, nada. Nem uma nota musical. Ela aprendeu as notas musicais indo lá dar assistência pras crianças. Mas é uma história meio… O fim é bom, mas a circunstância foi a parte ruim, a parte que eu vou me expor um pouquinho aqui. A gente está aqui pra se expor, eu não… É bom contar pras pessoas que a gente faz coisas erradas. A gente passou um bocado de tempo, onde, nessas flutuações de não conseguir suporte externo, ter um pouco de dificuldade pra manutenção do coral, muitas crianças, tive um período onde a gente tinha muitas crianças que não tinham condições de comprar sequer uniforme, que eu revezava com outros dois colegas, pra dar carona pra quatro, cinco crianças e fazia romaria pra buscar em casa, levar de volta com o carro, então… e, eventualmente, até pra fazer porque, as apresentações, mesmo quando a gente não tinha apresentações pagas, a gente precisava fazer, porque era uma forma da gente ter o objetivo das audições de fim de ano, manter o trabalho das crianças, manter exposto, né, no início. Então, os primeiros anos, a gente sempre passava no negativo, no financeiro do coral. E a minha esposa sabia, minha esposa nunca se envolveu muito, ela concordou comigo que não fosse me… porque ela sabia que eu gostava, mas como ela não entendia nada, ela estava à parte disso. Ela disse: “Olha…”. A gente estava - em seguida nasceu o meu filho já, pequenininho - montando família, montando casa, apartamento, filho pequeno, querendo ficar grávida do segundo filho. E eu passei cobrindo a parte financeira do coral do meu bolso por, nossa, os primeiros seis anos, quase sete. E, às vezes, era bastante dinheiro que ia no processo. E isso eu fiquei um pouco receoso. Disse: “Nossa, se a Fernanda souber disso, ela vai enlouquecer comigo”. Eu não contei pra ela. Nunca contei. Até que chegou num momento, que você não tem como esconder isso pra vida inteira, né? São coisas assim: a gente quer fazer uma coisa… Quando a gente quer fazer uma coisa pro bem, pior coisa que você pode fazer é tentar fazer dum jeito errado. Eu achava, na minha cabeça, eu tô fazendo o bem, então, se tiver que tirar de dentro de casa, eu estava fazendo isso. Só que eu não a envolvia no processo, porque ela não estava… na cabeça dela eu estava indo lá cantar, dar umas aulas, eu gostava, ela não tinha entendido ainda o que eu queria. Aí ela descobriu que eu estava gastando dinheiro com aquilo ali, financiando o trabalho mais do que devia, tirando da nossa família toda. Ela… A gente teve uma briga… Não foi uma briga assim… Ela brigou comigo bastante, assim, por conta, principalmente por eu ter omitido isso dela, só que, no conjunto, ela disse assim: “Bom…”, e aí é onde… (choro) Um dia ela fez uma coisa que eu não imaginava… Talvez foi a coisa que eu menos esperava. E ela disse assim: “Olha, eu vou fazer o seguinte…”. Obviamente, eu me enrolei com a questão de organização financeira do trabalho, porque eu era mais da área da parte de música, ficava botando dinheiro pra compensar. Daí disse: “Quer saber? Eu vou fazer. Eu sei que tu gosta muito disso e que isso é parte da tua vida, então, se tu não está conseguindo dar um jeito de se coordenar sozinho, porque tu está tendo que tirar dinheiro seu pra isso, alguém tem que fazer. E, pra não sair de dentro de casa, faço eu”. E ela pegou, ela entrou no meio, pra tentar organizar, porque ela é formada em Administração. Ela disse: “Ó, vou fazer”, só que ela estava ali, cuidando dos nossos filhos. “Vou dar um jeito de organizar, porque eu não quero mais que, se tu quer uma coisa, tu querer um trabalho, outra coisa é tu passar anos desembolsando pra bancar um negócio, uma ideia que não sai do lugar”. E aí ela começou a organizar e disse: “Olha, não quero mais aqui, vou organizar, vou chamar pais, vamos fazer rifa, vamos fazer promoção, vamos tentar ver o que dá pra fazer, ver o quanto é que a gente gasta, se eu tenho que fazer contabilidade, o que tem que fazer”. Isso foi um… Pra mim, foi um negócio: “Nossa!”. Eu estava esperando completamente outra reação, assim, muito diferente. Mas ela começou num trabalho, assim, de organizar, porque ela estava muito indignada, porque a gente estava deixando de fazer coisas pra nossa família, por conta daquilo ali. E aí ela começou.. De novo, né, os destinos da vida e os desígnios de Deus... Ela botou, começou a ter, a tratar com os pais, ela começou a organizar por conta das promoções, começou a organizar, começou a ter contato com os alunos. Ela começou a enxergar o que ela não enxergava, o que eu dizia pra ela e ela não entendia, que era onde eu queria chegar e o que eu via do resultado, do envolvimento. Quando ela percebeu aquilo ali, passou um determinado período, eu tive uma… Aí eu vi, aí ela, nossa, começou a mergulhar de uma maneira que eu fiquei assustado, porque ela começou a dedicar mais tempo do que eu! Eu comecei a viajar muito a trabalho, comecei a ter cada vez menos tempo pra disponibilizar pra aquilo. Tinha professores, tem professores lá que são profissionais, contratados, pagos pra tocar, porque precisa ser… Ter seriedade em relação à execução. E ela dedicou tempo da vida dela ali, ela começou a ver os resultados, ela chegava a chorar de ver as crianças cantando e de ver o resultado, de ver os pais agradecendo, ela começou a se envolver com as famílias. Aí ela começou, não só a se envolver com a parte administrativa, começou a se envolver com a parte social, começou a assistência, até que ela estava mergulhada, ela disse assim: “Isaías, agora teu sonho é meu”. Simples assim! “Teu sonho agora é meu”. No limite de eu ter tido uma possibilidade profissional, de eu ter que me mudar, inclusive de país. E aí ela olhou pra mim, talvez a melhor oportunidade da minha carreira e ela disse: “Sério que tu está cogitando a possibilidade da gente deixar o coral aqui? Não tem dinheiro que vá pagar isso”. Eu não fui. Por causa do… porque ela pegou o sonho pra ela também. E isso, aí ela entrou e hoje ela é a coordenadora administrativa, ela que lida com os pais, ela que dá carona pras crianças que precisam, ela que vai atrás. Me mandou uma mensagem agora. Essa menina que eu falei pra você que estava, que foi lá na minha casa no fim de semana, que a mãe dela veio agradecer em relação à questão da ajuda, de disciplina, que ela estava agora querendo fazer um curso técnico, que ela queria fazer as provas da seletiva na mesma escola que eu estudei, inclusive, e ela estava, uma das conversas que ela estava preocupada que ela não tem dinheiro pra fazer um cursinho preparatório, pra fazer a prova seletiva e ela estava tentando ver um curso gratuito que tinha na própria escola, mas que, dependendo como é que fosse, talvez ficaria no… Colidiria com o horário do ensaios, porque ela ainda canta com a gente. E hoje de tarde minha esposa me mandou uma mensagem dizendo: “Isaías, eu consegui uma bolsa pra ela numa outra escola, que ela não vai precisar perder o ensaio”. Minha esposa foi atrás e conseguiu a bolsa de estudo num cursinho pra ela, integral, com duas ligações. Só de contar a história da menina, (choro) desculpa, eu… Cara, assim, ó… Ela é o máximo. Hoje, o coração daquilo lá é ela, porque ela comprou, é o nosso, hoje é o nosso sonho junto, é o nosso resultado. E eu disse pra ela assim: “Eu nunca…”, obviamente, alguns alunos vêm e vão, alguns ficam mais tempo, outros menos tempo, algumas famílias reconhecem mais, outros menos. E alguns, algum tempo saem e alguns ficam três, quatro anos, saem, vão pra uma outra coisa, a gente, às vezes, perde o contato, assim. E eu disse pra ela: “É muito bom quando a gente escuta de uma mãe…”. Óbvio que é ótimo ver mães. Eu sei por esse, o tamanho da diferença daqui a pouco, de algum aluno que veio e ficou um, dois anos, se a gente conseguiu fazer alguma coisinha assim, que mudou a trajetória da vida dele, em algum momento, porque basta - eu com meus conceitos de física - uma colisão pra mudar a trajetória. Então, se eles foram colocados lá, pra colidir um pouquinho com a gente, é porque a gente precisava, de alguma maneira, do nosso jeito, mudar um pouquinho a trajetória daquela vida. Que às vezes pode ser um pouquinho, às vezes pode ser um poucão, pode ser bastante, mas a gente está fazendo isso, esse é o trabalho, eu disse: “É bom quando eu escuto, mas o que eu quero é todo dia de noite eu pensar e eu quero acreditar nisso”. E é o que eu acredito todo dia. Eu não preciso ouvir, eu não preciso ver, eu acredito de fato que isso acontece. Que, de alguma forma, pode não ser o mundo perfeito deles, mas poderia ser muito pior, se eles não tivessem passado por ali, se eles não tivessem tido aquela oportunidade, não tivessem tido aquele meio. Eu nunca vou saber como é que teria sido a minha vida, se eu não tivesse aqui. O que teria acontecido comigo. Poderia ter dado certo ou não. Agora, eu tenho convicção do que fez comigo hoje. E todos eles, cada um no seu, na sua vida, na sua rota de vida, eu tenho certeza que em algum momento eles vão pensar: “Olha, isso aqui fez isso aqui de bom pra mim. E se for isso aqui já...”. Agora, meus colegas perguntam: “Isaías, tu faz isso de graça?” “Não, meu salário é esse. Meu salário é eu saber que a gente conseguiu fazer de bom pra eles, pra aquela família, aquele jovem, aquela criança, isso é o que me paga. E o resto, o resto é só... É o sonho deles, o resto é o sonho deles, não é o meu mais, aí é eles realizarem os sonhos deles”.

 

P1 - E antes de eu perguntar sobre os seus filhos dando aula, ou estudando no instituto, eu vou perguntar pra você como foi ser pai.

R - (Risos) Ah, cara. É a realização da minha vida, óbvio, né? Meus filhos são o máximo, o máximo. Sou apaixonado por eles. Eu… A parte engraçada, quando eu soube que ia ser pai, a primeira vez, do meu filho mais velho, é que foi o baque maior. O baque, assim, não foi surpresa, a gente queria ter o filho. E foi logo depois que eu me formei. E eu acabei me formando um pouquinho fora de época, porque eu peguei um período que tinha… pegou uma temporada, lá na década de noventa, que teve - oitenta e noventa -, tinham muitas greves, né? A cada dois anos, as federais faziam greve de professores. Então, eu passei... Quem estudou em universidade sabe, que passou mais tempo estudando no verão do que não, né? Então, hoje os meus filhos: “Ó, vou ter que estudar em janeiro”. Eu disse: “Eu não sei o que é não estudar em janeiro, (risos) porque eu passei muitos anos recuperando as greves, né? Então, eu acabei me formando [um] pouquinho mais adiante, porque a gente acabou invadindo janeiro e fevereiro. Eu me formei no mês de abril, que foi um mês completamente fora do padrão. E na época eu já estava casado, me formei, estava quase um ano casado. Não, um pouco menos. E aí eu consegui um… entrei numa seletiva, pra um intercâmbio de jovens profissionais pelo Rotary Club e eu consegui passar na seletiva, ganhei a bolsa integral pra esse intercâmbio de quarenta dias, pra profissionais, nos Estados Unidos, no Texas. Eles selecionavam no estado todo quatro profissionais jovens, com até dois, três anos de formado, se não me engano, pra viajar e circular por várias regiões do local que estava selecionado, nesse caso era o Texas, fazer algumas cidades. A gente ganhava algumas visitas profissionais pra conhecer como é que profissionais trabalhavam nessas regiões e a gente, nossa contrapartida, que a gente daí tinha que fazer palestras nos grupos de Rotary, nos grupos da comunidade, sobre o Brasil e sobre o Rio Grande do Sul. Então, a gente fazia, montava o material e era uma forma da gente fazer uma contrapartida de divulgação. Então, pra mim era uma exposição legal, que eu ia fazer o intercâmbio nos Estados Unidos, com tudo pago. E sentei com a minha esposa, me formei, me formei num dia, no outro, eu viajei, no intercâmbio. Eu ainda não estava trabalhando como engenheiro, porque eu recentemente tinha me formado, estava esperando uma vaga. Então, eu disse: “Ah, aquilo vai me ajudar”. Eu já estava estudando inglês também, sempre estudei inglês, até por minha conta, em alguns tempos. Se eu vou lá, porque daí vai ser uma forma de eu dar meu jeito de desenrolar mais o que falta, passar, né, vou me expor. Tem que dar palestra, tudo, então vamos fazer. Na primeira semana que eu estava lá, aí eu já estava nos Estados Unidos, a gente ficava em casa de família. Eu, óbvio, numa época que não tinha, quem tinha internet era discada ainda, então a gente olhava “e-mail” só no fim do dia, quando passava da meia-noite, pra poder entrar na internet discada, né? A tecnologia é uma maravilha, hoje em dia, mas era uma dificuldade. Não tinha como ficar ligando. Até já tinha celular, mas era muito raro e era caríssimo uma ligação internacional de celular, nossa, não tinha como fazer! Então, eu falava às vezes com a minha esposa, mandava um “e-mail”, pra ver na outra noite, quando conseguisse entrar na internet, na casa da família que eu estava. E aí ela tinha me mandado “e-mail” que, naquele dia, no caso, eu não tinha conseguido olhar “e-mail”. Chegou à noite, eu liguei pra ela e aí ela falou comigo e eu falando normal lá do meu dia, tudo bom, como é que está. Daí daqui a pouco ela ficou estranha: “Isaías, você não viu o meu ‘e-mail’?” Eu disse: “Não, não consegui entrar no ‘e-mail’ ainda”. E eu contando meu dia pra ela, perguntando como é que estava. “Tem certeza que tu não olhou nada disso?”, “Não, Fernanda, tô falando sério”, “Isaías, tu vai ser pai!”. E eu do outro lado do mundo! (risos) Eu estava lá nos Estados Unidos e ela me dá essa notícia. Fazia uma semana que eu tinha saído, ia ficar mais um mês fora! Aí eu disse: “Cara do céu!”. Nossa! Aí, eu numa casa estranha, que eu estava numa casa de família que recebeu, fazia nem uma semana que eu tinha chegado lá, estava hospedado na casa de pessoas que estavam me conhecendo, de americanos. Aí apareço eu na sala, chorando e gritando. Comecei a gritar primeiro. Aí veio a dona da casa, botou na porta, eu saí, fui pra sala, a abracei, abracei o dono da casa. Chorava que nem criança, deixei minha esposa sozinha no telefone. Me ajoelhei no chão, daí contei pra eles. Nossa, muito legal. Me levaram pra jantar, fizeram uma festa pra mim lá, foi muito… E assim eu fiquei sabendo que eu ia ser pai, mas fiquei… Levei mais um mês depois pra ver minha esposa pessoalmente, porque daí eu fiquei, já, nervoso, mais um mês fora e minha esposa recém grávida, estava com poucas semanas, né? Mas, assim, eu fiquei… Descobri que eu ia ser pai pela primeira vez. A gente estava tentando, mas eu não sabia, até ali não tinha nada. Então, estava programadinho. Depois de um tempo, a minha esposa... A minha filha foi... Meu filho foi a surpresa do programado, porque a surpresa foi eu estar fora, mas estava e a minha filha foi o milagrezinho, que minha esposa, depois, a gente queria ter filhos mais próximos um do outro e a minha esposa teve endometriose, num estágio bem sério, né? E ela precisou, fez um tratamento, fez videolaparoscopia, fez a cauterização, endométrio, fez todo o processo. E aí passou algum tempo, o médico pediu que ela não poderia ter filhos por um tempo. Até quando foi fazer cirurgia, depois da cirurgia, logo quando ela começou a fazer o tratamento pós-cirúrgico, aí já tinha passado alguns anos, o médico disse: “Olha, tem que estar preparada pra possibilidade de nunca mais poder ter filhos, isso é uma possibilidade forte. O mais apropriado, tem uma possibilidade de…”, porque a endometriose, o próprio resultado não permite que o óvulo fecundado se fixe no útero, né? Então, ele pode dar aborto espontâneo pra sempre, não pode fixar. Aí o médico disse: “Olha, eventualmente, depois da cirurgia, dependendo da situação, tem uma janela de tempo bem pequena ali, de um, dois meses, se tu der muita sorte - que é o período onde ainda tem, não sei qual é tecnicamente, mas, onde o útero ainda tá com rugosidade suficiente pra prender o óvulo - que pode ser que a gravidez sustente”. E aconteceu na janela dos trinta dias que o médico falou, a minha esposa ficou grávida. Veio o milagrezinho assim, caiu, assim, naquela janelinha que o médico disse que tinha que acontecer, a gente conseguiu, ela conseguiu ficar grávida. Então, os meus filhos são o meu milagre, a minha bênção. E, cara, são o meu sonho. Meu filho, obviamente, eles não são, meu filho, nenhum deles é músico. Cantam os dois, minha filha canta no coral, meu filho cantou por muito tempo. Foi solista do coral por quase três anos, solista de soprano, cantou peças. Nossa, com dez anos de idade estava cantando solo de Mozart em concerto. Tenho vídeos dele cantando que estão até publicados no YouTube. Meu filho cantando com orquestra junto, com coral, assim, com dez, onze anos de idade. Minha filha estava mais ou menos no mesmo caminho, deu pandemia, está difícil de apresentar, mas canta lá também, os dois estudaram, meu filho começou… O primeiro salário do meu filho foi como professor de piano, dando aula pra crianças de sete anos. E aí, o engraçado, assim, tem que desenvolver, como ele disse: “Era uma forma de desenvolver agora um outro lado”. Os adolescentes que chegam no nível, porque vem junto com ele outros colegas dele, outro que foi dar aula de violão, aí vão agora ensinar, aprender, vão ensinar a ter a mesma paciência. Imagina o adolescente tendo que desenvolver a paciência, pra dar aula pra uma criança de sete anos! E isso a gente trabalhou lá. Bota com eles. Os que vêm até aqui, que querem… É uma forma de proporcionar, de complementar. E isso apareceu por acaso, porque eu estava precisando de gente pra… eu não conseguia mais dar aula, porque eu viajava demais. Chegou num determinado ponto que eu pensei assim: “Cara, eles já estão num nível, que daqui a pouco eu vou ter… Se eles quiserem continuar estudando...”. Meu aluno de… Esse menino que dá aula de violão e que é guitarrista, chegou num ponto que eu disse pra ele: “Cara, vou ter que te encaminhar pra um professor profissional, porque eu não tenho condições de te ensinar mais nada. Eu parei num determinado momento, que hoje tu continua. Então eu já tô num ponto que eu não tenho mais o que te ensinar. Eu posso te ensinar a ensinar, porque eu ensino há trinta anos, mais do que isso, então eu te ensinar a ensinar as crianças, a ter método pra ensinar é uma coisa” e é isso que eu faço com eles. Agora já estão num nível. Meu filho toca muito mais do que eu. “Ah, teu filho vai ser músico?”. Não, ele não quer. Não chegou a despertar nesse nível. Mas ele tocou. Se a gente toca, toca em casa de vez em quando. Por conta, toca pros amigos. E vai lá dar as aulinhas dele, por complemento, que eu precisei, as crianças querem, um professor profissional custa muito caro, então eu oriento e as crianças estão aprendendo. Eu faço audição todo ano dos alunos de piano, dos alunos de violão. Se apresentam pros pais. Alguns estão evoluindo bem. Começou a acontecer, né? Agora a gente estava preparando a minha filha. Chegou… Eu sempre acabo, quando consigo, dando aula pra turmas preparatórias, pros bem pequenininhos, né, a gente tem uma lista, tem a turma preparatória. Quando eu consigo, eu dou aula pra eles. Agora a gente tem uma professora profissional que cuida deles lá também, mas chegou num determinado momento, que a minha filha, quando estava com... A minha filha vai fazer doze agora, ela estava já com dez pra onze, um pouquinho antes da pandemia, eu estava precisando de uma assistente, porque eu estava com muito aluno pra organizar. Minha filha, com dez pra onze anos, foi dar aula comigo pras crianças de sete, a escrever no quadro, corrigir os trabalhinhos de teoria musical, porque eu dou aula de musicalização e teoria musical. Aí minha filha pegava os trabalhinhos, sentava numa classezinha, ela corrigia: “O nome da nota está errado, olha aqui, está vendo, Ana Paula, está errado”. Coisa mais… Tem vídeo disso também, ela corrigindo lá: “Ó, isso aqui não é, isso aqui é uma clave de sol, está errado, escreveu o nome errado do negócio”. E ela fazendo esse trabalho e a gente tem feito esse trabalho pra ajudar, eu acabo envolvendo-os de alguma maneira, que ajuda a instituição, que ajuda as outras crianças e que ajuda também os meus filhos porque, no fim das contas, aquilo ali também foi criado, um pouquinho, pensando neles. Eu disse: “Cara, também quero montar um ambiente, eu, como pai, onde meus filhos podem encontrar outras crianças, conviver com outras crianças, com os mesmos critérios, com os mesmos valores, com os mesmos objetivos, no fim, de uma forma que é tão difícil às vezes os pais, de forma indireta, saber onde é que teus filhos estão, como é que eles estão se desenvolvendo”. E é meio que um pacto que a gente faz, com os outros pais. Primeira reunião de pais que eu faço com nossos alunos, é isso que eu digo pra eles: “Olha, eu não sei o que todos vocês… Eu convidei as crianças, eu quero que as crianças… Se vocês estão aqui é porque as crianças receberam uma propaganda, uma informação, porque a gente vai nas escolas, falar com as crianças. Se vocês estão aqui, é porque o filho de vocês quiseram estar, primeiro. A continuidade deles aqui também depende agora de vocês, porque agora é isso que a gente trabalha. A gente trabalha, eu preciso dos pais compartilhando, eu preciso dos pais conjuntos com a gente, trabalhando, preciso que vocês deem retorno pra nós daquilo que vocês enxergam de errado, preciso que vocês escutem, quando a gente enxergar, porque pra ser o trabalho complementar que a gente espera que seja, se a filha estiver afastada disto, não vai dar o resultado que a gente precisa, ou a criança não vai permanecer”. Então, a gente tenta envolver e coloca os pais junto. E aqueles que, de fato, compram. E muito, a maioria deles que está ali compra com a gente, aí é que a gente acaba criando uma família gigante. Eles organizam as coisas, eles organizam as promoções, organizam as roupas e agora uniforme pras crianças cantarem. É a viagem, é o ônibus e aí acaba botando todo mundo junto porque, no fim do dia, é aquilo ali que virou, é o complemento que eles veem, eles veem o resultado disso e passam a acreditar e passam a confiar, eles acabam contribuindo pro resultado, pros meus filhos também, pros filhos dos outros. E fica todo mundo contribuindo, então acaba virando uma grande comunidade, uma forma de... 

P1 - Qual o nome dos seus filhos, Isaías?

R - Meu filho mais velho é Gabriel e minha filha é Bruna. Gabriel está com dezessete anos, faz dezoito em novembro e minha filha agora vai fazer doze, em novembro. Tem quinze dias de diferença no mês ali, mas os dois de novembro.

P1 - Isaías, a gente vai se encaminhar pras perguntas finais. A primeira delas é: quais são as coisas mais importantes pra você, hoje em dia?

R - Cara, minha família é tudo. Minha família, a Fernanda, minha esposa, meus filhos é o motivo de eu fazer tudo que eu faço. Então, é óbvio, minha família é tudo, a gente tem um relacionamento muito bom dentro da minha família. Eu com meus irmãos, os meus sobrinhos. Nem contei essa parte, né, meus sobrinhos todos cantaram no coral também até agora. Os filhos da minha irmã, a filha do meu irmão, acaba que eles… O da música sou eu, né, não são os meus irmãos, mas, até por eles verem o trabalho que é, por eles acreditarem, que a gente confia uns nos outros e confia na educação que a gente teve também, eles entenderam: “Ah, eu também quero isso pros meus filhos”. Eu acho muito legal que meus irmãos compraram isso. Então, no conjunto, cara, minha família é o pilar de tudo isso. Isso, pra mim, é a coisa mais importante de todas. E esse trabalho, esse trabalho… é óbvio, vida profissional da gente é muito bom, é bom quando a gente tem reconhecimento no que faz e, graças a Deus, eu, como te disse, me descobri também de um outro jeito, eu me redescobri, apesar de não ter sido, de não ter cumprido um sonho. Às vezes a gente acorda um dia um pouquinho mais emburrado e chora, porque não cumpriu o sonho de criança. Eu não tenho nada pra reclamar, fui muito bem na carreira que eu escolhi. Mas, no fim do dia, carreira e trabalho, vai chegar num determinado momento, você faz pra você, você faz pras pessoas e pra empresa que te contrata, vai transmitir alguma coisa pras pessoas que trabalham contigo, mas, no fim do dia, o que me realiza, de verdade, é o que eu falei pra você: são as pequenas colisões. Eu chamo isso de pequenas colisões. É o que a gente faz de diferente, eu… e criança é um barato, porque criança é onde você ainda tem a chance de fazer alguma coisa diferente, enquanto ele está em formação, porque no meio do meu trabalho, da minha rotina, eu conheço pessoas novas todos os dias. Tem colega de trabalho de muito tempo, mas são sempre adultos, com sua vida formada. Eventualmente você induz alguma coisa, aprende outras, mas já são pessoas estabelecidas. A criança é onde você tem uma oportunidade de estruturar a questão de valores, a questão de formação, as oportunidades e isso, o retorno deles... Eu, como trabalho com criança… Claro, trabalho com adolescente, até os adolescentes, a maior parte dos adolescentes, começam com a gente muito pequenos, né? A gente não trabalha começando com eles já adolescentes. Então, a gente acompanha a evolução deles desde os sete, oito anos, é o meu trabalho. Eu, principalmente, apoio as aulas pros pequenininhos. E aí, ver isso, ver o resultado, ver a diferença que você faz na vida, isso, pra mim, é a minha outra realização. É a realização. Olha, tem vários filósofos, religiões. O Mario Sergio Cortella disse: “Olha, qual é o teu legado? Qual é a tua função na vida? Você está aqui pra quê? No fim das contas, você está aqui pra quê?”. O trabalho é uma coisa, mas é muito mais do que isso. “Você está aqui pra mudar o quê? Pra deixar o que, quando você for?”. E o que eu acho, pra mim, que eu, de alguma forma, tô tentando usar o pouco que eu sei, o pouco que eu aprendi, o pouco que conquistei, pra ajudar outras crianças, como em algum um momento lá atrás eu fui ajudado por alguém, por outros colegas que estavam comigo, por uma entidade que me deu aula de graça, porque eu estudei música de graça a vida toda. E, quando eu olho pra trás, aí eu paro para olhar hoje, adulto, eu paro pra olhar: “Nossa, quantas colisões eu tive, pra me trazer onde eu tô?”. E hoje o meu objetivo, o meu motivo de estar na vida é o que eu vou deixar, as pequenas coisinhas que eu levei pras crianças. Nós fizemos um - agora com o coral no retorno - um amigo secreto de retorno do trabalho presencial, pras crianças e eu estava viajando, eu não pude ir no dia do ensaio, pra ver, pra receber o meu prêmio e nem pra entregar o presente. E uma das minhas alunas pequenininhas, que me tirou, ela escreveu uma cartinha pra mim. Nossa, eu não sei se a Joice tem dez... Música, mas ela escreveu que ela estava muito feliz de estar lá e que eu era um ótimo professor e que ela se espelhava muito em mim, que o dia que ela crescesse, ela queria ser engenheira química, que nem eu. Uma criança de dez anos não sabe o que… A minha mãe não sabe o que eu faço até hoje, porque é difícil de explicar! Aí a Fernanda disse: “Isaías, não é pelo que tu faz, não é pela tua profissão de engenheiro. Em algum momento essas crianças enxergam o que a gente faz, ou tu, ou os outros professores que estão lá - porque fazem a mesma coisa com eles -, eles enxergam a pessoa que faz algo por eles e que faz a diferença na vida deles, e eles querem aquilo”. Então, se eu fosse, sei lá, jornalista, jornaleiro, pedreiro, arquiteto. Aquelas crianças só olham pra gente de alguma forma e dizem: “Cara, olha que legal que é um ser humano assim!”. E eu me sinto feliz com isso, porque a gente se esforça pra fazer, não é fácil ser assim, a gente não é sempre assim. A gente, às vezes, é pessoa falível e eu tenho sempre essa preocupação, de tentar acertar, por isso que eu disse: “Eu hoje me expus um pouquinho, falando das coisas que eu fiz de errado, que acabou se convertendo numa coisa boa depois, mas não… O errado, não apago o errado, do como, da abordagem”. Mas a gente percebe também, eu disse, eu sempre digo isso pra minha esposa: “Eu tenho noção hoje, por contas dos mais…”. Dos quase quinhentos alunos que eu tive: se eu somar os antes de fundar o coral de música, talvez mais de quinhentos que passaram pela gente, as famílias e do que a gente acaba se dispondo a fazer, que é um trabalho que a gente se doa, porque a gente gosta, porque a gente acredita, mas que traz uma penca de responsabilidade em relação à gente mesmo, porque são pessoas, pessoinhas, que acabam também se espalhando em você. E isso é uma das coisas que eu enxergo, eu falo pra minha esposa em relação aos nossos filhos, né, porque a gente é o resultado, não só do que é o pai e a mãe da gente. A gente é o resultado muito do meio que a gente anda e de outras pessoas. Eu tenho certeza que tu, todas as pessoas, a gente aprende com os pais e, em determinado momento, a gente também é muito os nossos professores, os nossos amigos, os nossos colegas. E é exatamente isso, eu sabendo disso, quero colocar os meus filhos num ambiente onde tenha outros pais que também vão servir de exemplo, como eu sei que eu sirvo de exemplo lá também. Então, eu tenho que tomar todo cuidado pra manter isso, pra manter porque, óbvio, eles vão saber que a gente falha, que a gente não vai estar sempre daquele jeito, que nem sempre eu vou estar lá, feliz, dando aula, que eu vou ter algum problema, mas que, de alguma forma, eu tô ali como uma inspiração pra alguém, de algum jeito, pra uma criança, pra um aluno, prum pai que está com alguma dificuldade, que a gente pode ser uma ajuda. Então, isso passa a ser uma responsabilidade muito grande. Mas, enquanto a gente estiver conduzindo, eu prefiro a responsabilidade, do que não ter objetivo na vida. E como eu te disse: a gente tem que estar aqui pra algum motivo e se o meu motivo é esse, ele me faz feliz o suficiente, ao ponto de eu assumir a responsabilidade que vem atrás disso. Então, é muito legal quando vem um aluno dizer pra gente: “Ah, professor, eu quero fazer a mesma coisa”. Você sabe que você já está influenciando, de alguma forma, a maneira de pensar e agir daquele serzinho.

P1 - Isaías, e quais são os seus sonhos pro futuro?


R – Cara! (risos) Olha, eu tenho tanto sonho, cara. Assim, eu tenho um problema assim, pelo meu histórico: eu tenho um nível de hiperatividade meio alto, sabe? Eu sempre fiz muita coisa, eu faço muita coisa. Meus filhos até se preocupam um pouco com isso, porque dizem que eu não vou me aposentar. Eu tô sempre… Eu estudo o tempo todo, eu cheguei a começar… Isso eu não falei, né? Eu fiz dois anos de faculdade de música e não consegui terminar. Fui fazer, fiz vestibular depois dos 35. Com 35 anos, eu fiz vestibular pra música, passei na federal, comecei, fiz dois anos. Depois o meu trabalho não deixou mais e eu precisei abandonar. Uma hora eu vou voltar. Isso é um sonho. Talvez, assim, eu botei na minha cabeça assim: “Cara, a gente vive, às vezes, pode viver tantos anos…”. Eu não sei, daqui a pouco eu tô, ainda não tenho cinquenta, né, mas, mesmo com cinquenta, daí eu me lembrei um pouquinho da minha primeira, do meu primeiro aluno de violão… Na realidade, foi uma aluna. Foi quando eu comecei a dar aula de violão, eu tinha doze anos, quando eu comecei a dar aula de violão. E foi a mãe do meu professor de violão, que era… Ele era meu, na realidade, era primo da minha mãe, então, ela era tia da minha mãe. E ela queria aprender violão e os filhos dela, todos eram músicos. Só que não tinham paciência, porque ela já era de idade, já tinha, na época, quase sessenta anos. E não tinham paciência pra ensiná-la, ainda mais filho, filho não tem paciência pra ensinar o pai em casa. O santo de casa não faz milagre, né? E aí, um dia, ela sabia, porque ela me via tocando, eu já estava tocando bem, já fazia violão há seis anos, já. Ela disse: “Tu não quer me ensinar, eu te dou uns trocos?”. E eu comecei a dar aula de violão pra uma senhora de quase sessenta anos. E aí, depois, parei pra pensar, depois de um tempo, eu disse assim: “Cara, música… Eu continuei na música por outros meios”. Eu tô dando aula hoje, não sou um profissional da música, mas aprendi o suficiente a ponto de ensinar algumas crianças, e me cerquei de profissionais que fazem isso. Eu gosto disso, em algum momento da vida talvez eu vá... Hoje é a minha profissão, o trabalho que eu faço, é o sustento da minha casa, da minha família. E, eventualmente, quando nada funcionasse, a segurança do trabalho da associação que eu acredito, do coral que eu acredito, do trabalho de música. Mas, em algum momento, talvez, na hora que eu aposentar, a gente pode ensinar enquanto a gente respira. Aí eu pensei: “Cara, por que não? Minha tia veio fazer aula comigo com quase sessenta anos e estudou violão por quase dez anos, até os setenta estudou violão”. O que me impede de continuar aprendendo? A gente só morre quando a gente para de aprender. Isso eu aprendi muito cedo. O cérebro da gente só morre quando a gente o deixa morrer, quando a gente para de exercitar. Então, eu quero, talvez, em algum momento, retomar, voltar, terminar minha faculdade de música. Ah, mas é pra ser músico? Pra dar aula de música melhor, pra ter mais condição de ensinar crianças, pra dar mais abrangência pra isso, pra atender mais gente. Sei lá, pra fazer melhor ou pra me realizar, pra mostrar pra mim, pra mostrar pra mim... eu vi um vídeo muito legal, circula assim nos memes, né, sobre um desses… Ai, esqueci o nome, qual é dos filósofos, do conceito de felicidade, assim. Felicidade é aquele cara que chegou num determinado momento da maturidade, ele foi lá e comprou um Fusca 72… Uma Kombi 72. E aí ele pega aquela Kombi, manda pintar a Kombi, bota as cortininhas, aquelas de dentro da Kombi, que tinha aquelas Kombi antigas, meio “hippies”. E as pessoas: “Tá, mas o que tu quer com uma Kombi, ______?”. “Porque era meu sonho, só, eu só quero sentar na Kombi e dizer: ‘Eu consegui a minha Kombi e isso é felicidade pra mim’”. Eu olhei praquilo: “Cara, às vezes não é pra mostrar nada pra ninguém, não é pra fazer nada, é só pra poder mostrar”. Lá trás, quando eu tinha treze anos, isso foi tirado de mim de algum jeito, pela vida, pela circunstância porque… Agora, pra mim, então isso pode ser um sonho, o sonho de conseguir fazer, atender mais crianças, o sonho de ver meus filhos, de algum jeito, enxergando a função deles, como eu enxergo a minha hoje, na vida. Meu filho agora está se preparando, porque vai fazer Enem, ele não sabe ainda o que ele vai escolher. Está naquela dúvida normal de adolescente: “Cara, e aí? Vou fazer Direito, ou vou fazer Filosofia?”. Sei lá. Assim, não tem a menor noção ainda. Eu disse: “Cara, escolhe o que tu quer fazer, primeiro por aquilo que tu gosta. Esquece se vai dar dinheiro, o dinheiro vem depois, com o resultado do quão bom tu vai ser naquilo que tu escolher fazer, mas mais do que qualquer coisa, entende pra que tu está aqui, porque que tu está aqui”. Aí, a hora que eu enxergar meus filhos enxergando isso, mais do que a profissão, mais do que qualquer coisa. E assim os meus alunos, é isso que eu tento mostrar pra eles: “Olha, vocês não têm que fazer as coisas que eu faço, as coisas que os pais de vocês fazem, vocês têm que fazer aquilo que vocês querem e enxergar o que estão fazendo aqui”. Todo mundo tem que enxergar, esse é o princípio da vida, todo mundo tem que saber o porquê veio e o que tem que fazer. Eu quero ver os meus filhos assim, quero ver os meus alunos assim, quero ver… Esse é o meu sonho. Enxergar e, em algum momento, eu terminar os sonhos. Eu realizei muitos sonhos na minha vida, muitos, muitos, muitos, não posso reclamar de nada. Meu trabalho foi sofrido, mas eu continuo tendo e criei… E tem alguns que eu… Talvez vão aparecer na frente, tem alguns lá de trinta anos atrás, que eu vou cumprir. Como eu te disse lá no início da nossa conversa, em algum momento alguém disse pra mim que eu não ia me formar e eu disse: “Cara, ninguém diz pra mim que não, só eu mesmo”. Então, talvez, daqui a mais alguns anos, eu vá chegar e olhar [pra] mim no espelho e dizer: “Viu, como ninguém te diz não, só eu?”. Então, talvez eu vá lá, voltar a fazer música de novo, fazer alguma coisa assim e ver esse trabalho crescer de novo.

P1 - Vamos pra última pergunta, Isaías: como você se sentiu, como foi pra você contar a história da sua vida pra gente, hoje?

R - Cara, eu tentei não chorar. A gente vai lembrando de coisas que são sensíveis pra gente, né, porque a história da vida da gente é sempre sensível pra gente mesmo. E é muito bom ficar relembrando de algumas coisas, porque a gente sempre dá valor pras coisas que a gente conquista, né? Isto é uma das outras coisas que eu também tentei ensinar pros meus filhos. As coisas, quando a gente conquista, tem um valor diferente, um sabor diferente, então a gente busca e, às vezes, ao longo da rotina de vida, de trabalho, as coisas vão tomando conta e, de tempos em tempos, é sempre bom a gente olhar pra trás e ver: “Cara, olha o que conquistei”. Não é questão financeira, ou questão de posição, de trabalho. O resultado da pessoa que eu sou, das coisas que eu consigo fazer, do que eu consigo desenvolver, das minhas capacidades, qualquer coisa que seja. O quanto isso, apesar das circunstâncias, a gente consegue. Então, é bom sempre olhar pra trás e ver: “Cara, nossa, eu fiz tanta coisa e passei por tanto trabalho e, apesar disso, estar aqui. Teve tanta coisa que deu errado e, apesar do dar errado, dar errado não é o fim, dar errado é um novo começo, levanta de novo e vai!” É sempre bom a gente olhar pra isso, o tempo todo. De vez em quando dá uma nessa… Recuperar, porque isso faz a gente olhar assim, cara, não sei como é que vai ser meu dia amanhã, a gente vai terminar a entrevista, amanhã eu vou voltar pra minha rotina de trabalho, às vezes eu tenho um dia complicado de trabalho, mas aí eu vou respirar de novo e vou dizer: “Cara, já passei por tanta coisa, não vai ser um diazinho ruim de trabalho que vai me derrubar”. Então, é bom a gente lembrar dessas coisas, recuperar isso e relembrar os sonhos. Você fez uma pergunta, que é sempre muito boa da gente fazer e que também a gente esquece: quais são os seus sonhos pra frente? Às vezes a gente passa o dia na rotina e a gente não para pra pensar nisso, sabe? E isso é uma pergunta que todo mundo tinha que se fazer o tempo todo. Então, obrigado por ter feito a pergunta, porque me fez pensar um pouquinho algo que eu talvez eu já… A gente pensa muito de vez em quando, mas que é bom a gente refrescar. Então, fiquei muito feliz, muito feliz. Fiquei um pouquinho emocionado, eu vou pedir desculpa, vai parar… Passando o vídeo lá, o Isaías engasgando, nossa, que vergonha! Mas, também, nem tanta vergonha assim. A gente é o que é. E eu sou um cara que me emociono de contar as coisas, eu me emociono com meus filhos, me emociono com a minha esposa, me emociono com meus alunos, me emociono com meu trabalho, com as pessoas que convivem no meu trabalho, porque às vezes eu conto o que eu faço, encontro outras histórias de outro jeito, mas parecida, com os mesmos objetivos, encontro pessoas com os mesmos objetivos, isso é muito legal. Eu fico muito feliz, muito feliz, por de alguma forma me indicarem pra estar aqui conversando com vocês e contando um pouquinho da minha história que, em muitos momentos eu achei, é mais uma, no meio de tantas outras, eu tenho certeza de que tem muita gente que tem histórias tão bonitas ou muito mais bonitas do que a minha, com resultados, porque se encontraram no fim das contas, né?

P1 - Então,  em nome do Museu da Pessoa, Isaías, a gente agradece muito o seu depoimento. Muitíssimo obrigado.

R - Eu que agradeço. Obrigado de novo, mais uma vez. Obrigado, Cpfl, por estar nos apoiando lá, por ter acreditado no nosso trabalho. Eu não fiz uma menção que eu deveria, talvez. A Cpfl foi a primeira empresa que, de fato, comprou pro nosso projeto, assim, comprou de comprar a ideia. Estavam buscando alguma coisa aqui, a gente foi lá, apresentou, eles acreditaram na gente. Porque o início é sempre muito difícil, quando a gente tem alguns outros objetivos e enxerga a amplitude da vulnerabilidade de crianças e jovens. E às vezes a gente tem muita dificuldade. Eu cheguei a escutar, muito triste, eu escutei uma vez de um empresário que disse pra mim: “Isaías, quando eu puder fazer propaganda de quantas crianças tu tirou de vila, aí eu vou te dar, te apoiar”. Nossa, foi horrível pensar que a pessoa que podia me apoiar, poderia fazer e, na realidade, quer usar aquilo pra outros meios. E a Cpfl nos comprou a ideia do que jeito que ela é, acreditou na gente do jeito que é. E aí veio a pandemia, no meio do caminho, porque quando começou, não estava exatamente na pandemia ainda e a gente… E continuou ali, dando suporte pra gente e conversando com a gente: “E aí, como é que vai ser o ano que vem, talvez pra gente poder manter o trabalho de novo?” Sabendo que a gente teve a dificuldade da pandemia e que, apesar disso, a gente manteve trabalho. Então, obrigado à Cpfl também, obrigado por ter nos indicado aqui. E, se eu tô aqui, de alguma forma, é porque alguém acredita no trabalho que a gente está fazendo, enxergou o trabalho, está acreditando, nos indicou pra vocês. Então, obrigado e obrigado pela entrevista. Eu estava - vou ser bem honesto - bem nervoso, porque falar da vida da gente é sempre meio preocupante, entrevista assim eu não tô acostumado e foram perguntas, assim, que me fizeram recordar coisas muito legais. Obrigado mesmo, foi maravilhoso.

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