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História

Trajetória inspiradora de Dona Onça

História de: Janaina Rueda (Janaina Cecilia Torres dos Santos Rueda)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/12/2019

Sinopse

Janaína Rueda nasceu em São Paulo, Capital. Praticamente criada pela avó, desde cedo, por temperamento, encontrou na rua aprendizado e diversão. Transitou por vários ritmos, do samba ao hip hop, e por todas as experiências. Largou a escola na sétima série por julgar que a rua lhe dava a realidade nua e crua; a escola, trabalhava com mentiras inúteis. Mais tarde, a cozinha foi sua disciplina. Ganhou o mundo distribuindo bom gosto e qualidade sob a forma de vinhos caros. Encontrou significado em sua vida na alma companheira, no desafio de criar um patrimônio gastronômico no Centro e na humanização da merenda escolar. Este, um voluntariado abatido pela insensatez e descompromisso do poder público para com a Educação.

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História completa

Nasci no Brás, São Paulo, Capital, em 1975. Em um domingo de Carnaval. Chamo-me Janaína Rueda. Fui praticamente criada pela minha avó. Minha mãe era Relações Públicas, nessa época, tendo trabalhado com a Rede Globo por um tempo, no Rio, Depois, casas noturnas que foram ícones: Hippopotamus, Gallery… Inclusive, o trabalho de minha mãe nos custou um certo preconceito: uma mulher sair para trabalhar às sete horas da noite... 

Eu, com sete anos, já ia para a rua. Já sumia no vento. 

E bem novinha, eu já dava um jeito de fugir de casa para ir à quadra da Vai-Vai; para assistir Legião Urbana; o Perdidos na Noite, do Fausto Silva, ali no Teatro Záccaro; bailes funk; enfim, sempre ali, no meio da galera. Mas também, é claro, ia para a escola, desde o Maternal, depois escola pública. Mais adiante é que minha mãe conseguiu me matricular num colégio particular, de freiras, e eu sempre muito rebelde, sempre contestando. Lembro de que na aula de religião eu não aceitava aquela discriminação para com o espiritismo. Uma vez, eu lembro, levei meu gato para a sala de aula. A Irmã o tomou de mim e levou para a casa dela. Eu invadi a casa e resgatei o meu gato. E ainda sobre as minhas fugas, um fato surreal é que a minha mãe, totalmente ao acaso, me viu na gravação do Perdidos na Noite. Era gravado às quartas e ia ao ar aos sábados. Foi uma surra… Eu era meio revoltada, principalmente pela discriminação que sofríamos. Até um namoradinho, a família dele proibiu de me ver. Achavam que minha mãe fosse prostituta.

Na escola, sempre tive boas notas, sempre boa aluna. Mas não quis continuar – foi na época em que meu pai morreu – porque eu perdi o ânimo e o interesse diante do que eu identificava como mentiras da escola. Me pareceu, então, que a rua me ensinava mais e melhor. A realidade do mundo e da vida, nua e crua.

… foi quando eu virei gótica, mas, ao mesmo tempo, andava com o pessoal do samba; descia na Vai-Vai e deixava o pau cantar.

O primeiro emprego foi aos 13 anos; carteira assinada, aos 14. Era em loja de shopping, vendedora. Depois, os shoppings se multiplicaram e as vendas caíram; eu trabalhava até 14 horas por dia para compensar. Tinha contas a pagar e queria ir para a balada. Essa era sagrada. Quase não dormia. Nessa época, conheci de tudo. Dormia, às vezes, na rua porque não tinha mais ônibus. Experimentei de tudo, nunca me escravizei a nada. Vivi a intensidade daqueles movimentos dos anos 90, no Centro de São Paulo. Adorava dançar, gravei clip com o pessoal do hip hop.

Eu e minha mãe, durante o tempo em que fiquei com ela, brigávamos muito. Histórias parecidas, personalidades semelhantes. Porém, desde pequena, ela me levava aos melhores restaurantes de São Paulo, onde aprendi a comer e beber, conheci lendas da gastronomia daqui, lugares inesquecíveis. Ela não fazia conta, me levava com gosto para conhecer todo aquele patrimônio gastronômico. Com cinco anos, eu já tomava vinho misturado com água. Mas, com 17, 18 anos eu pensava em sair da pobreza. Morava com minha avó, casa humilde, banheiro do lado de fora. Lembro da emoção que foi quando consegui alugar uma casinha com banheiro dentro. Para nós duas. Em determinado momento, eu era corretora de imóveis, vendia comida para pet, filtro Europa, tudo junto e eu vendendo de tudo. Até que resolvi vender vinho – ou trabalhar nesse segmento. Eu havia ganho uma senhora comissão como corretora e fui provar coisas sublimes, entre elas, um vinho. Foi a fé da minha avó que me pôs nessa jogada, que se tornou uma carreira próspera e um futuro grandioso. Fiquei, entre duas gigantes do mercado, quase dez anos. Muito glamour, viagens, cursos e oportunidades. Muito dinheiro, todo reconhecimento. E, de minha parte, muito esforço e muitos resultados. Ali, nessa atividade, conheci meu marido. E, já casada e com filho, resolvi segui-lo na cozinha – ele, um chef afamado; eu, uma pessoa querendo apenas cozinhar e vivenciar o mesmo que ele. Como almas companheiras. Decidimos juntar nossos sacrifícios e nossas entregas à gastronomia e foi aí que eu abri o Bar da Dona Onça, no improvável Centro de São Paulo. Hoje tenho 200 funcionários e atendo cerca de 12000 pessoas/mês. O sucesso, absolutamente inesperado, levou meu marido a arriscar e realizar o seu sonho: juntar a sua profissão de origem – açougueiro – com a alta cozinha: A Casa do Porco.   

Pois bem, foi a partir desse bar e do contato com clientes que eu acabei me envolvendo num projeto, cujo desfecho me feriu bastante. Tem como foco a merenda escolar na Capital. Quase 5000 escolas. Primeiro passo: trocar enlatados por produtos in natura. Depois, desenvolver dez cardápios e treinar as merendeiras que, curiosamente, não eram exatamente cozinheiras. Escolhemos uma escola-piloto e eu passei nela, cozinhando junto, 15 dias. Juntamos grupos de 50 merendeiras para treinar – três ou quatro pessoalmente, que depois repassavam. Resultado: em três anos e pouco, quase 1800 merendeiras treinadas e idêntico número de escolas atendidas. Mas tudo isso acabou. Do nada. Sem uma explicação. Sem respeito pelos que se doaram e, principalmente, pelas crianças. E também, é claro, pela Educação, onde o descaso é rotineiro.

Era um projeto que não ia ter fim nunca. Você sempre ia ter uma coisa para melhorar dentro dele.  (…) Não era um projeto de campanha política, era um projeto de política pública.


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