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História

Trajetória da medicina pelo cooperativismo

História de: Edmundo Castilho
Autor: Érika
Publicado em: 08/06/2021

Sinopse

Idealizador e criador do cooperativismo na área médica, Edmundo Castilho, dedicou-se na qualidade de atendimento à população e condições dignas de trabalhos. Com muito empenho, viajou para muitos lugares, dentro e fora do Brasil levando a ideia do cooperativismo. Engajado em vários projetos em prol a assistência médica, participações de cunho efetivo em reuniões da Associação médica.

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História completa

UNIMED Brasil 40 anos

Realização Museu da Pessoa

Entrevista de Edmundo Castilho

Entrevistado por Lenir e Maurício

Santos, 23 de maio de 2007

Código: UMBR_HV021

 

Revisado por Roberta Christina Aparecida Prata Santos

 

P/1 – Doutor Edmundo, boa tarde. Vamos começar falando seu nome completo, local e data de nascimento. R – Edmundo Castilho, nascido no dia 05 de dezembro de 1929, na fazenda Costa Rica, situada em Penápolis, noroeste de São Paulo. P/1 – Certo. E qual o nome dos seus pais? R – Meu pai já falecido, José Castilho Sobrinho. E minha mãe, Alayde Rodrigues Castilho. P/1 – Qual era a atividade de seus pais? R – No campo, fazendeiro. Criação de gado, eu fui criado no meio de bois. P/1 – E a origem da família? R – A família, é curioso isso. A primeira Castilho, veio com Dom João VI, origem de Portugal. Depois um ramo, foi para Minas, outra parte foi para Santa Catarina, Rio Grande do Sul e para São Paulo. O ramo da minha família foi bandeirante no Noroeste do estado, na fundação de Penápolis, na época se chamava Água Limpa, conviviam com os índios. Depois veio a estrada de ferro Noroeste do Brasil, que é um tratado do Brasil com a Bolívia, para depois ir até a Bolívia, com isso, veio o progresso e mais: a família tinha uma posse, de 15 mil alqueires. P/1 – E o que influenciou o senhor para escolher a sua carreira de medicina? R – Olha, eu nunca me adaptei, embora nascido e criado, com fazenda, com gado, com aquela vida ali. Enquanto meu irmão mais velho fazia tudo direitinho eu fazia tudo errado. Eu entendi, que não era ali o meu lugar, porque eu não tinha gana, não tinha tendência, não tinha nada. Então, como eu tive várias doenças e convivi muito com muitos médicos: tive malária, quando morava na fazenda, depois, tive meningoencefalite, estreei a penicilina lá em Penápolis. Estudava no ginásio, depois tive tuberculose, fiquei um ano em Campos do Jordão. Quando criança, era o problema em termos de saúde, numa época em que a cura era benzimento, benzedura. Me apaixonei pela medicina. Então, imaginei, “não, eu vou ser médico”, meu pai não queria. Mas isso é outra história. P/1 – E qual foi o curso de medicina? R – Ah, foi fantástico. Eu vim para São Paulo com dezoito anos, trabalhei em São Paulo na indústria Matarazzo, fui locutor na rádio Excelsior. Naquela época, no interior, eu falava no alto falante da igreja e do clube. Estudava no Anglo Latino para fazer o vestibular em São Paulo. Ocorre que trabalhando na Excelsior, trabalhando no Matarazzo, eu não tinha tempo de estudar, um colega, que estudava odontologia em Curitiba, um colega lá de Penápolis. Me encontrei com ele em São Paulo, ele falou: “Olha, eu arranjo para você ficar na casa do estudante universitário, e você não paga nada”. Falei: “Poxa, se eu tenho lugar para dormir e para comer...” “E depois do vestibular você...”. E eu achei que era um grande negócio, fui para Curitiba. Tinha tempo para estudar e tal, passei bem e tem um monte de história. P/1 – E depois que o senhor resolveu fazer especialização, como foi? R – Eu, por conta da greve que nós fizemos quando o reitor Flávio Suplicy de Lacerda mandou matricular 76 excedentes, numa época, que nós estávamos pleiteando reduzir o número e terminar o Hospital das Clínicas, que estava parado, foi no governo Moyses Lupion que começou e ficou parado. O reitor estava fazendo o teatro Guaíra, que aliás hoje é uma glória do Paraná, esqueceu o hospital. Então o presidente Juscelino Kubitschek esteve lá, fez um apelo ao reitor para que ele matriculasse os 76 excedentes, nós entramos em greve e eu fui para a segunda época, fiquei para final em cinco matérias. Sempre passava por média, me puseram para segunda época, então não tive formatura, perdi. Porque eu estava matriculado, certinho, para ir para o Hospital dos Servidores do Rio de Janeiro, que naquela época era o melhor hospital do Brasil e a melhor residência que o país todo procurava. Então eu perdi. Em Santos, estava pensando em fazer uma faculdade de medicina, contando com a Santa Casa de Santos que era a primeira Santa Casa das Américas, com 1600 leitos daria para fazer. Então contrataram o professor Odair Pacheco Pedroso, que foi para os Estados Unidos e ficou alguns anos lá. Ele era o diretor administrativo do Hospital das Clínicas de São Paulo. Começou a movimentar, para criar a faculdade de medicina, começaram a fazer residência na Santa Casa. O lugar mais adequado, seria a Santa Casa de Santos. Então, vim para cá, mas o meu projeto de vida, era terminando a residência, iria para os Estados Unidos. Eu queria, primeiro, conhecer aquilo que eu criticava: para ver se eu continuava criticando ou se deixava de criticar. E segundo, eu achava que tinha que sair um pouco daquele ambiente de UNE, de política universitária, que eu dava a minha vida. Lutei sempre, na busca de melhorias. Cheguei em Curitiba. Curitiba era uma cidade de 200 mil habitantes, hoje está com dois milhões. Era um lugar espetacular para se estudar. Então, fiz um bom curso, vim para Santos para fazer a residência na Santa Casa, fiquei conhecendo lá na Santa Casa, o doutor Marcílio Dias Ferraz, que era um cirurgião de mão cheia, um dos maiores cirurgiões do estado de São Paulo. Ajudei em cirurgias, ele me convidou para ir para a Casa de Saúde de Santos, para ser o primeiro médico residente. Ele era sócio da Casa de Saúde de Santos, ali na Conselheiro Nébias. Fui. Fiz todo esse curso de cirurgia, que eu gostava, com o doutor Marcílio Dias Ferraz, já falecido, o filho dele continua dando seqüência, que é o Luiz Carlos Ferraz. Foi meu padrinho no momento mais difícil que estava vivendo. P/1 – E a partir daí o senhor começou a trabalhar? R – Sim, comecei a trabalhar, eles me arranjaram um emprego no sindicato dos estivadores ensacadores. Conheci a minha mulher e mudei de rumo. “Eu vou para o interior primeiro, depois nós vamos para os Estados Unidos”. Fiquei três anos aqui em Santos, quase quatro anos, fui para Apucarana, no norte do Paraná. Porque morreu o assistente anterior do doutor Marcílio, que foi para os Estados Unidos, voltou, foi para o Paraná e em cinco anos ele construiu um “big” hospital num local que na época só existia hospital de madeira. A viúva, que era médica também, veio, me convidou. Fiquei noivo, casei. Antes de casar, fui para lá, voltei. Me casei, minha mulher era filha única, que não conhecia o interior, foi para aquele sertão doido. Fiquei 3 anos. Lá, eu tive uma mononucleose infecciosa, e trabalhando, eu dormia quatro horas, ia fazer parto à domicílio, na roça, operava na casa. O jipe atolava, aquela terra vermelha, um negócio! Aconteceu o seguinte: minha mulher teve uma policistite calculosa, trouxe ela para operar aqui. Estava me sentindo muito fraco, quando voltei, tive uma hemoptise, sozinho em casa. Fui para Campos do Jordão, tuberculoso, fiquei um ano, com a possibilidade de se fazer uma ressecção de parte do pulmão, fazer toracoplastia. Tinha um filho, de um ano de idade. Então fiquei um ano sem vir para em Santos, falei: “Não, não quero contágio com filho”. Hoje, faz-se a radiografia. E não aparece nada. A minha mulher ficou com meu sogro, meu filho, aqui, durante esse ano. Cheguei, pesando 113 quilos, operei o pulmão lá, eles queriam que eu ficasse. Eu disse não, agora eu vou voltar e ficar em Santos. P/1 – E nessa sua volta para Santos o senhor foi trabalhar em quê? R – Eu voltei para o ninho aqui. Para o mesmo hospital, Casa de Saúde de Santos, trabalhei bastante, tinha que fazer a maternidade que não tinha. Então, os meus conhecimentos antes. Arranjei dinheiro na Caixa Econômica Estadual, terminamos a maternidade, fizemos residência, vinha gente do Brasil todo, para fazer ginecologia, obstetrícia, ortopedia, nós tínhamos um serviço excelente em pediatria e cirurgia gastro intestinal. P/1 – E como foi que surgiu a ideia de uma cooperativa de médicos? R – Bom, eu sempre militava nas reuniões da Associação dos Médicos. Nunca quis ser nada na Associação dos Médicos a não ser do conselho fiscal, porque eu achava que eu precisava pensar em mim um pouquinho, na minha profissão. E com isso, entrei também, porque a Associação Paulista de medicina e a Associação médica brasileira ficam no mesmo prédio em São Paulo. Então eu comecei a ser chamado para ir para lá, participar de reuniões, contra a mercantilização da medicina. Me elegeram presidente do Sindicato de Santos. Como presidente do sindicato, em assembléia, aprovamos que as várias medicinas de grupo que tinham aqui, que era uma coisa horrível de qualificação que quem trabalhasse lá, tinha que sair do sindicato e sair da Associação dos médicos. E foi uma briga enorme. Então, se você propõe acabar com uma coisa e você não propõe a solução. Então eu comecei a estudar. Tive simpatia pelo cooperativismo, comecei a estudar o cooperativismo. Me tornei amigo do pessoal do cooperativismo, um deles é o senhor Francisco de Toledo Piza, uma das maiores autoridades em cooperativismo, que era presidente do montepio cooperativista, um homem fantástico, que influiu muito na minha vida. Então eu disse: “Escuta, doutor” – ele morou na França, em Montevidéu, é falecido infelizmente. O doutor Chico falou: “Poxa vida, que maravilha rapaz, vamos nessa”. Fui ajudado, e a Doutora Henriqueta Magalhães, também era da Associação do Cooperativismo lá em São Paulo, também esteve na França. Então convivi muito, com os dois, me ajudaram a botar no papel aquilo que nós tínhamos imaginado. Faltava mostrar para a classe aqui. Porque a Santa Casa de Santos começou a fazer medicina de grupo. Veio aqui um hospital de São Paulo, de medicina de grupo. Nós fizemos a cooperativa, foi um trabalho muito grande, porque o médico não entendia nada de cooperativismo. Fizemos várias reuniões com especialidades, fomos doutrinando e saiu a cooperativa. P/1 – O senhor conheceu alguém com experiência em cooperativismo? R – Sim, o doutor Francisco de Toledo Piza, tinha no interior uma cooperativa de aves e ovos de galinha, lá em Penápolis tinha a cooperativa de laticínios. Levaram-me para conhecer tudo. Me tornei quase um expert em cooperativismo, antes de fundar a cooperativa. Só que a nossa cooperativa é de trabalho, e as outras eram outro tipo de cooperativa, tipo empresarial. P/1 – E a atividade médica em Santos e no Brasil era prioritariamente mercantilista nessa época? R – É, porque houve uma reforma da previdência social. Porque tinha os IAPS. Então unificaram os IAPS e fizeram os INPS [Instituto Nacional da Previdência Social]. Se propuseram a dar atendimento médico a todos os previdenciários, quando antes, o IAPTEC dava, o IAPC dava assistência médica, o IAPB e os outros, não. O universo cresceu muito, deram o “jeitinho brasileiro” e criaram o contrato global. Quer dizer, formava-se uma empresa, geralmente de médico associado, médico capitalista, contratavam com o INPS de receber aquele universo e dar todo o atendimento. Como o objetivo desse pessoal era o lucro. Então, ficou pior do que quando eram só os poucos institutos e as Santas Casas de Misericórdia, que fizeram um trabalho fantástico no Brasil, quem cobria a pobreza, mas “hasta” quando?. Então a gente criou a primeira cooperativa aqui e tinha aquela revista, ‘O médico Moderno’, depois fechou. Mas eles vieram aqui e fizeram uma entrevista com a Zoé, quem planejou, e eu. Foi uma loucura, porque o Brasil inteiro começou a procurar, o detalhe é que na fundação da cooperativa, no finalzinho, quando estava tudo pronto começou a haver uma questiúncula, que eu era da Casa de Saúde, da equipe do doutor Marcílio. Então a Santa Casa ia ser prejudicada, os outros hospitais, não sei quantos. “Não tem problema, vamos colocar o presidente da Santa Casa”. E foi o José Luiz Camargo Barbosa, que é uma figura fantástica, um grande cirurgião, um grande ser humano... Ele foi o primeiro presidente da Unimed. Seis meses depois, ele disse: “Castilho, eu estou cansado”. Porque ele tinha uma clínica muito grande: operava tórax, operava tudo. Então, renunciou e eu, fui eleito presidente. Fiquei por duas ou três gestões, como presidente. Todo mundo buscava Santos, me convidava para ir fazer palestra para mostrar como que era, como não era. Comecei a fazer no interior de São Paulo: sexta feira eu pegava o meu fusquinha, terminava minha consulta, ia visitar três cidades e voltava. No domingo, eu trabalhava também, voltava no domingo à noite. Montamos em Campinas, Sorocaba, Piracicaba, Marília e Bauru. P/1 – E era fácil, doutor, assim? As pessoas entendiam a idéia do cooperativismo? R – Não entendiam. Era como eu, no início. Mas quando a gente levava já, os resultados, porque o início aqui também foi muito difícil. Tanto que, quando compramos a casa aqui, nós conseguimos. O Banco Nacional de crédito cooperativo, nós conseguimos dinheiro com o Banco Nacional de Crédito Cooperativo, que era prazo de “égua”, desculpa, para pagar. Esta casa, foi uma atitude que mostrou à maioria que realmente era o caminho. Então a gente fazia aqui, a reunião dos usuários, fazia reunião das especialidades. Fomos doutrinando, mostrando. Assim, a mesma coisa aconteceu no interior. Porque no interior, não tinha muito medicina mercantilista, mas a turma, já estava caminhando para o interior. R – Isso. É bom que se diga que ninguém faz nada sozinho. Então, tive como companheiros de primeira linha: doutor Pedro Vinicius, doutor Nestor Biscardi, que era meu vice-presidente do sindicato, que foi diretor administrativo, o Biscardi tinha muito jeito para administração, Maurício Fang que faleceu, infelizmente. O Rego, que também faleceu, o Caetano Sorrentino Neto. Não pode faltar ninguém, heim? E, deixa eu lembrar, tinha o Paulo Miller Sellera, no início do funcionamento da Unimed. Ele foi contratado como administrador, junto com o Doutor Nestor Biscardi, realizou um excelente trabalho, pela experiência que possuía na área administrativa e pela seriedade que sempre conduziu seu trabalho. O Sr. Sellera já faleceu, mas eu ainda, tenho muito contato com sua esposa. P/1 – E o nome Unimed, doutor, como foi que surgiu? R – Depois de muitas ideias, fizemos uma votação, porque para mim, desde o início seria União dos Médicos. E ganhou Unimed, por eleição. Porque o importante para quem tem ideias e quer realizar, não é botar goela abaixo, tem que fazer a política para que os companheiros entrem conscientes do que é, como é, e quais são as responsabilidades. Para que entrem e se sintam beneficiados, realizados, tudo o mais. Inclusive entendam e participem das dificuldades, vêem como é, que se resolve. E faz renovação depois, de diretoria. P/1 – E o crescimento da Unimed nesse início? R – Foi difícil. P/1 – Como é que foi a questão econômica, financeira? R – Bom, o que aconteceu foi o seguinte: tinha o parque industrial petroquímico de Cubatão. O professor Osvaldo Paulino, foi outro grande santista, que infelizmente faleceu faz umas quatro semanas, ele era especialista em medicina do trabalho. Então a Petrobrás, o Doutor Paulino foi lá e fundou um plano de assistência à saúde, para não ficar por conta do INPS, que credenciou os médicos e os hospitais. E veja, o Paulino como foi. O médico atendia no consultório, mandava a conta, não tinha tabela. Depois veio a Cosipa [Companhia Siderúrgica do Estado de São Paulo], fizeram a mesma coisa. O negócio que ajudou bastante, foi que a Cosipa estava já com contrato assinado, com uma medicina de grupo lá de São Paulo. E isso ia ser um arraso no movimento dos nossos consultórios. Então a gente inclusive, criando a Unimed, a Cosipa desfez e depois fez contrato conosco. P/1 – E depois de Santos outras cidades aqui da Baixada Santista? R – Não, todas fazem parte de Santos. A cooperativa congrega as cidades aqui da região. Agora as cidades que têm São Sebastião, Ribeira, que na época, já fundou. E Santos a gente atendeu todo esse vale daqui. O importante é que o interior de São Paulo aderiu, fundamos a federação. Quando os estados, Rio de Janeiro, São Paulo, aliás, Minas Gerais, Pernambuco, o nordeste aderiu logo também. Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, a maioria dos estados. Hoje, todos os estados têm Unimed. Fizemos federações regionais. Fundamos a confederação, unindo tudo. E aí sim, que veio o Chastinet, veio esse grupo que realmente foi muito importante, mas muito importante mesmo, para o deslanche. Viramos internacional, com a criação. Primeiro na Colômbia, depois os argentinos em Aparecida, fomos lá e adequamos. Em 80, fomos convidados para ir à Barcelona. Eles estavam em uma crise, porque fizeram também um negócio muito frouxo, que não era bem uma cooperativa, embora tivesse o nome de cooperativa. Ajudamos, instalaram um modelo igual ao nosso. Tanto que a Espanha e o Brasil são, primeiro o Brasil, depois a Espanha, pioneiros nesse negócio. P/1 – E a confederação, quando vocês criaram, como foi, como surgiu a ideia da confederação? R – Para atender a parte continental e a parte mundial. Porque nós, criamos a Unimed do Brasil, que eu fui, presidente durante 20 anos. Conheci o mundo. Quer dizer, eu recebia o convite, a Unimed do Brasil, fomos para Tóquio, Nagóia. Tem mais uma cidade. No Japão, que tem um cooperativismo de saúde, mas como os japoneses são muito ligados à família, principalmente aos idosos, são hospitais onde os velhinhos vão, no regime cooperativo. Aprendemos bastante no Japão, teve uma vivência muito grande. O Japão, Brasil e Espanha, criaram a International Health Cooperative Organization, com sede na Suíça. O japonês era o presidente, eu era, o primeiro vice-presidente e o espanhol, o segundo vice-presidente. Agora, como eles não tinham grande vivência do tipo que a turma queria. Então, por exemplo, a Suécia convidou. Fui na Suécia, na Inglaterra, na Itália, na França, os países da Europa, quase todos. E depois, nos Estados Unidos e América Latina. Tínhamos quatro reuniões por mês na Suíça. Que era um negócio terrível. Porque o “japonês”, são super organizados, vinham com a equipe deles, de cinco caras, traziam tudo direitinho, mas eles queriam que nós, aprovasse. Muito disciplinados. Eu acho que o Japão é um dos países, melhor do mundo. Em organização, seriedade. P/1 – E a recepção da AMB [Associação Médica Brasileira], da organização cooperativista brasileira em relação a criação da Unimed Brasil? R – Boa pergunta. O Pedro Kassab era o presidente da Associação Médica Brasileira. O Pedro Kassab lutou, foi um grande presidente, pela livre escolha de médico na medicina liberal. Inclusive, quando eu comecei, com esse negócio da Unimed, eles me elegeram para uma secretaria de definições. Recebemos muita pressão: “pôxa, mas não é livre escolha?”. “Claro que é, qual a diferença? Eu estou realizando o que vocês pregaram”. Houve uma experiência da AMB, realizada pelo Kassab, em Goiás, outra no nordeste e outra no Rio de Janeiro. E foi um desastre. Porque o médico só tem direito, não tem dever. Então a AMB tentou dar uma podada. Tínhamos criado a federação dentro da Associação Paulista de Medicina. Depois criamos a Unimed do Brasil, que foi criada aqui em Santos, muitos anos depois, o presidente da Associação Paulista de Medicina veio aqui, dei a presidência, porque ele era o mais velho. Começou a fazer todo o jogo para não sair a confederação. Nós tínhamos a maioria, São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, principalmente esses três. Ele saiu, foi embora e nós criamos, houve um afastamento, uma tentativa inclusive, lá no Rio, em Petrópolis. Tentaram criar uma confederação sem a participação da diretoria da Confederação Unimed do Brasil. Nós chegamos antes, na assembléia, foi um negócio super desagradável, saímos quase que correndo. Nos respeitávamos, mas eles não deram apoio no início. Na convenção anual, a primeira foi em Santos. A convenção anual no Rio de Janeiro, o Chastinet convidou a AMB e convidou a Associação do Rio de Janeiro. Nos reaproximamos, mas nunca ficou como era. Então, há respeito, eles nunca fizeram mais nada. O Kassab deixou de ser presidente, ele é pai do prefeito de São Paulo, o Kassab. P/1 – E como foi o processo de crescimento do sistema Unimed, a criação da corretora, a sociedade civil do sistema nacional Unimed? R – Bom, vamos começar pelo doutor Francisco Toledo Piza. Ele era presidente do montepio do cooperativismo. Era muito sério, uma figura humana fantástica. Então falou: “Olha, a legislação que regula o montepio é do Brasil imperial ainda”. Então vamos fazer uma reforma previdenciária. Trabalhou para sair e veio essa reforma previdenciária, mas para as cooperativas, elas só poderiam ter 10% das ações do montepio. Bom, aí morreu o montepio. Acabou. Quando estava para liquidar, ele falou para mim: “Castilho, eu tive pensando, vocês podem fazer um tipo de sociedade, vocês pegam o montepio, entrega para o sistema Unimed. Eles venderam a seguradora, venderam o que eles não podiam. É importante se dizer, ele viveu uma fase de crise financeira e o Piza entregou. Nós começamos a fazer uma seguradora. A seguradora inicialmente tinha São Paulo, Rio e mais quatros. Hoje a nossa seguradora é uma das referências. Chegamos a conclusão, com essa experiência, que poderíamos fazer muito mais, porque precisávamos fazer hospital, precisávamos ter avião, para socorrer, precisávamos ter a interligação com informática. Começamos a trabalhar e criamos essa sociedade civil. Hoje é fantástica, algumas já estão fazendo medicina à distância, quando precisa remover para São Paulo, Rio, Porto Alegre. Quem está mais adiantado nisso é o Rio Grande do Sul. O aviãozinho, o helicóptero, o jatinho, vai buscar, leva, resolve o problema. P/1 – E como foi? Tem a Unimed participações, tem várias empresas? R – A Unimed participações é uma sociedade civil que controla a seguradora e controla outras empresas, como a aeromédica, sociedade de capital, através da própria Unimed participações. Uma sociedade com ânimo de lucro. P/2 – Como é que foi a expansão da Unimed na região norte? Como é que foi essa penetração da cooperativa nessas regiões mais inacessíveis no Brasil? R – Olha, uma das primeiras fora de São Paulo, que fundou, foi em João Pessoa, também morreu o presidente. Ele veio um dia aqui e disse: “Castilho, você não quer ir lá em João Pessoa, eu vou fundar”. Ele era fazendeiro, um cara realizador. Fomos lá e criamos. A que demorou mais, foi Pernambuco, por incrível que pareça, mas por questões políticas locais, hoje estão integrados, mas tudo bem. Maranhão demorou um pouquinho, mas o resto foi crescendo assim sem dificuldade. Porque é própria para uma região pobre. Essa experiência na assistência médica, minha expectativa é que fosse formando pessoas com o espírito cooperativista, não crescendo o país em cima de capitalistas empedernidos e o Deus deles é o dinheiro. P/1 – E o senhor conseguiu isso? R – Consegui. P/1 – E o processo de intercâmbio, no Sistema Unimed? R – O intercâmbio deu trabalho, muito trabalho, porque precisou uniformizar valores. E é claro que o custo mensal para um usuário de São Paulo é diferente que o custo para um usuário do nordeste, por exemplo. Mas é tão lógico isso daí. Hoje está funcionando que é uma maravilha, porque, veja, eu moro aqui em Santos, São Paulo, eu ia toda hora, fui operar agora em São Paulo. Por que? Porque era a pessoa que eu confiava. Inclusive o pessoal que viaja para o exterior te garante o atendimento, reembolsando. Então formou uma grande família, eu agora por exemplo, estou com essas dificuldades, tive essas dificuldades, operei e tive um problema e a assistência que eu tive foi fantástica em São Paulo. Agora pode pensar: “Ah, bom, mas você é o Castilhão!”, “não, não é isso, não é”. Então isso daí é botar o “ovo de pé”, porque o mundo inteiro procurava. P/2 – Fala um pouco da Usimed. R – Usimed, vem o socialista, que eu sempre fui. Tinha muitos amigos aqui, odontólogos, então eles me procuraram e disseram: “Castilho, não quer fazer uma Uniodonto?” E fizemos uma Uniodonto. Sempre achei que na relação médico paciente, pode haver problemas por ignorância do paciente ou por ignorância do médico ou do “staff” do médico. Eu disse: “Poxa vida, socialmente, remédio é um negócio que pesa”. Então vamos criar e ajudar os usuários, mas a turma já disse: “Espera, vamos devagar. Vamos criar a Usimed com usuários também, com o objetivo de baixar o custo dos medicamentos”. Criamos duas Usimeds. Em São Paulo, hoje não sei quantas têm, que trabalham com medicamentos. E assim a justiça social é feita, o respeito ao paciente e o respeito ao médico se realizam. E a Unicred, eu acho, a de Santos fantástica, concorre com as seguradoras, com bancos. Então o que é? Nós cooperados, somos cooperados da Unicred, operamos com o nosso banco, que é a Unicred. Aqui em Santos nós temos dois fantásticos. Porque ela realmente ganha a concorrência de bancos. Tanto que, as Unimeds, para facilitar, os bancos colocavam uma “filialzinha” dentro da cooperativa. Percebemos que ali, se jogava muito. Então nós criamos a Unicred, que vai muito bem mesmo, muito bem. Tudo para facilitar o usuário, trazer o usuário para o nosso lado, não para o lado mercantilista. P/2 – E a criação da ANS [Agência Nacional de Saúde], influenciou muito na Unimed. R – Fiz parte. Eu ia à Brasília quase toda semana e brigamos muito, e a ANS atrapalhou um pouco, porque ela tentou limitar, tentou fazer uma série de coisas. Mas hoje, me parece que está tranqüilo. Embora a ANS, eu acho que teria tanta coisa por fazer, que não é com o Lula presidente que ela vai fazer, não. P/2 – Qual a relação da Unimed com as autoridades governamentais? R – Muito boa. Eu sou amigo do Fernando Henrique Cardoso, fui à posse dele, tenho uma foto. Não aparece o Fernando Henrique, mas fui na posse. O Mário Covas era meu irmão, o Mário Covas foi... Um desastre, uma perda lamentável. Porque quando eu cheguei em Santos, abri o consultório, não tinha cliente, e o Mário Covas chegou de São Paulo, terminou a politécnica, fez política também lá em São Paulo. Só que naquela época, São Paulo não tinha a política que tinha no Rio, a sede era Rio de Janeiro, capital da república. E o Mário, quando ele não tinha o que fazer, trabalhava na prefeitura, tinha o próprio escritório, ia para o meu consultório e conversávamos, trocavamos ideias. Eu fazia a mesma coisa quando não tinha cliente. Depois que a gente arranjou cliente continuamos amigos. E o Mário sempre... Eu recebi o título de cidadão santista e o Mário era governador, ele fez questão de vir. Para mim foi uma honra muito grande ter convivido com Mário Covas. Por conta disso, sou filiado ao PSDB. Eu não queria me filiar a partido nenhum, acho que o Mário Covas merecia esse respeito. Agora, o meu irmão, que é advogado, mora em Penápolis ainda, foi eleito deputado estadual pelo PV. Foi prefeito de Penápolis, por conta disso, eu procurei: “Poxa vida, o PSDB não pode brigar com PV”. Porque ele é meu irmão. Mas não consegui e meu irmão não foi reeleito. Agora estão numa campanha doida para ele voltar a ser prefeito, ele está com 70 anos. Eu falei: “Oh, tá na hora!”. P/2 – Tem uma bancada cooperativista, não tem? R – Tem, mas na época que eu freqüentava era muito fraca. Porque a OCB [Organização das Cooperativas Brasileiras] é o órgão de cúpula do cooperativismo é composta por “fazendeirões”, por pessoal que a gente tinha muita dúvida e muita discussão quando eu freqüentava a OCESP [Organização das Cooperativas do Estado e São Paulo]. Porque, fui vice-presidente da OCESP, também. Agora essa bancada cooperativista poderia fazer muito mais no meu entendimento, para o bem do povo brasileiro, para o bem do Brasil. P/1 – E na época do regime militar, como era essa relação? R – Brava. Eu não me lembro, hoje lidei para lembrar o nome do general que, aliás é carioca, que era o comandante aqui. O dono de Santos era um coronel, que eu não vou dizer o nome, que fazia gato e sapato de tudo aqui. Quando fui eleito presidente do sindicato, senti que deu uma crise de coceira, sabe? Então o professor Osvaldo Paulino era muito ligado aos militares. Era de Petrópolis, esse general, depois foi ministro do exército. É um nome inglês. Bom, o Osvaldo Paulino foi comigo, me apresentou para esse cidadão que fazia de gato e sapato. A revolução séria não sei se existiu, mas esse general era sério. Ele foi mandado para cá por isso, porque era um coronel. Veio dos Estados Unidos, o Lauro Roca Diegues, coronel Lauro Roca Diegues, que era uma figura fantástica. A gente já tinha Unimed. O general falou: “Castilho, vai falar com o Lauro”. Então, fui falar com o Lauro e o resultado dessa conversa foi um contrato com o exército, no 2o BC aqui de São Vicente. Porque o cidadão que mandava, fazia e desfazia, sentou bem na frente e eu comecei a falar ele fez as perguntinhas lá ensaiadas. Ele fazia pergunta e eu falava: “Não, o senhor não”. No fim, o Lauro Roca Diegues puxou o cigarro e disse: “Olha aqui, eu fumo, lamentavelmente eu fumo, eu gasto não sei quanto. Quer dizer, pelo que o doutor falou o dinheiro do cigarro dá para pagar a assistência médica. Doutor, vamos fazer”. E fizemos. Foi um contrato positivo tanto para eles, depois o Lauro foi embora. Mas várias vezes eu fui indicado para fazer parte do SUS aqui e fui vetado pela revolução. Santos foi a última cidade a eleger o prefeito. Inclusive o meu primo irmão, Eduardo Castilho Salvador, foi o presidente da comissão para autonomia, para Santos, voltar a ter autonomia. Porque foi um general atrás do outro. Santos conseguiu, o último depois do trabalho dessa comissão que o Eduardo, meu primo, presidia. P/1 – E a posição da cooperativa Unimed em relação à legislação tributária? Teve dificuldade? R – Não, porque o cooperativismo, por definição é isento de tributo. Agora o dinheiro que o cooperado recebe, ele declara e paga. Mas a cooperativa não paga tributo. A definição do cooperativismo é uma sociedade aberta, sem fins lucrativos, que busca fazer justiça social. Isso aqui foi os honoráveis pioneiros de Rochdale, que fizeram a primeira cooperativa. Foi o sonho da humanidade, se criar alguma coisa desse gênero. Para dentro do capitalismo, ser alguma coisa que humanizasse o capitalismo. P/2 – E mesmo depois da ANS não trouxe programa de tributação? R – Não, eles tentaram, houve alguns, mas eu acho que eles não são loucos. P/2 – E as discussões que originaram a criação da constituição da Unimed, em 94? R – Isso daí também foi um negócio complicado. Porque o Chastinet e eu, tínhamos uma visão. Tinha outros. Porque é aquela história, se a gente for imaginar que todos os cooperados são cientes e conscientes do que é, o cooperativismo, seria uma maravilha. Mas o cara é, porque lhe faz bem para o bolso. Mas ele continua sendo um capitalista empedernido. Houve, essa assembléia, foi em Minas Gerais, se não me engano, nós ganhamos, parece que por dois votos, porque muitos não queriam. P/2 – Por que motivo? R – Porque, primeiro isso que eu falei. Segundo, porque existe ainda, que a cooperativa poderia se hipertrofiar, se transformar num monstro igual a vários monstros que tem aí, comandados pelo capitalismo. Então, ainda existe aquele que diz: “Olha, cooperativa para mim é a minha, o resto, não quero saber. Intercâmbio não quero saber, esse negócio de federação, de confederação”. Ainda existe isso, porque se todos fossem cooperativistas juramentados seria muito mais fácil. Mas infelizmente ainda não são. Mas a minha esperança é que com o tempo, quer dizer, isso vai entranhar na memória, na cabeça do pessoal e vai se tornar. Eu acredito que o mundo caminha para isso. P/1 – Isso tem a ver com a educação, doutor? E a Unimed trabalha com isso, com educação cooperativista? R – Trabalha, mas é aquela história, a gente nunca trabalhou o necessário. Porque ficou muito grande. P/2 – Mas mesmo assim, cada singular não trabalha com isso? R – Olha, muitas não. P/2 – Como o senhor vê isso? R – Eu vejo como uma lástima. Porque veja, no início os usuários freqüentavam a Unimed, nós fizemos um conselho de usuários, fizemos um conselho de especialidades, aqui, nessa casa. Porque eu sou médico ginecólogo, obstetra, cirurgião, eu vejo a coisa diferente do cara que faz outras especialidades. Todo mundo aprendeu durante a faculdade, que o negócio era, ter seu consultório, se realizar com o consultório, ser um profissional capacitado para merecer a livre escolha. Volto ao Kassab, não basta isso. Isso não basta. Eu, por exemplo, vou repetir aqui, eu era sócio da pro-matre, antes da cooperativa e depois com a cooperativa. Então, somente atendíamos particulares, nós tínhamos 30 consultas particulares por dia. Fazíamos, cada um dos três, eu, Natal e Luiz Fernando, que infelizmente também faleceu. Todos os clientes particulares, fazíamos o preventivo pago e cirurgia, o parto, também era pago. Naquela época o real, não sei se era real ou cruzado, ou cruzeiro, não parava, então a gente cobrava em dólar. Não em dólar, o equivalente. Encontramos muita resistência em pessoas, que estava habituado a esse tipo de regime. P/1 – E é difícil mudar. Voltando assim, para a constituição que a gente estava falando antes. A constituição veio para normatizar. A constituição da Unimed? E por isso então, que tinha gente que não queria. R – Por isso, houve o início de uma cisão, que acabou por se consumar, que agora acabou graças à Deus, voltou todo mundo. P/2 – Foi a partir dessa constituição, então? R – Não, já havia o regionalismo. Mas essa assembléia pôs fogo na fogueira. P/2 – Quais foram as convenções mais importantes? R – Eu acho que cada uma, foi a mais importante, em determinado viés, determinado foco. Porque, nas convenções, colocávamos aqueles assuntos polêmicos, discutíamos irmãmente e fazia comissões. Para montar o complexo empresarial Unimed. Imagina, sem uma convenção, para preparar, era muito difícil. Também para divulgar o cooperativismo Unimed. Então, na cidade onde tinha a convenção, era uma festa. As cidades circunvizinhas compareciam, era uma maneira de agregar. Agora as esposas criaram uma associação. É aquela história, a mulher não ia e ficava questionando: “Poxa, mas tem convenção toda hora?”. Fizeram a associação delas e está indo muito bem também. P/1 - Fala um pouco da Unimed São Paulo. R – O que aconteceu foi o seguinte: nós fundamos a Unimed paulistana na sede da APM, quem dominava a Unimed paulistana era a APM. Depois daquele desencontro. A Paulistana saiu do sistema porque, ela não queria atender o intercâmbio. Então o Chastinet fez o contrato no Rio de Janeiro com o Citibank, que eram em São Paulo, parece, 1500 a 2000 mil usuários. Quando chega na hora, a Paulistana disse, não e saiu. O sistema se reuniu, chegamos naquela época à conclusão, acredito que amenizou muito. São Paulo é um caso especial, precisávamos eleger um elemento, que não seja, de São Paulo, para ser o presidente e criar uma outra Unimed aqui para atender o Citibank. Porque senão, nós perdemos o Citibank e perdemos um monte de negócios. Nós estamos perdendo. Se acertaram e fomos ao hospital Matarazzo. Eu tinha um tio idoso, que era médico lá, fundamos a Unimed de São Paulo, no hospital Matarazzo. O presidente da Unimed do Brasil, o presidente da Unimed de São Paulo e eu. O meu sogro dizia: “A mi me toca bailar siempre com la ____”. Entendeu? E nós, montamos a Unimed de São Paulo e trabalhamos feito loucos. Imagina! Eu morando aqui e viajando representando a Unimed do Brasil e mais a Unimed de São Paulo? Foi um espetáculo o começo. A Unimed de São Paulo chegou a ser a maior singular do Brasil. Houve desencontros do intercâmbio do interior de São Paulo com a Unimed de São Paulo. Os custos dos hospitais de São Paulo, inclusive sendo relaxados para fazer com a Unimed, eram muito mais altos. Então a Unimed de São Paulo começou a: O usuário de fora, chegava, era atendido, dez dias depois, o hospital mandava a conta para a Unimed de São Paulo. A Unimed de São Paulo não recebia, ou recebia dali seis meses. Começou haver uma fricção, já havia uma questão com o norte e nordeste, juntou o presidente da federação de São Paulo e fizeram o racha. Separaram e criaram, não sei como é que chama. Agora acabou e voltaram, graças à Deus. A Unimed de São Paulo que teve avião, helicóptero, parte de informatização foi pioneira em investimento e, pôxa vida, tinha aquele hospital que ela comprou da Comepa. Foram comprados mais três terrenos, porque o nosso objetivo era, não precisar, era fazer um hospital de primeira linha e não precisar fazer concessão para os grandes hospitais de São Paulo. E o que sai, sai mais, do que entra, levaram a Unimed de São Paulo ao fim. E, graças à Deus, a Paulistana, com o Tyrson, que é o presidente, voltou para o sistema, tem sido uma pessoa fantástica. Hoje, São Paulo está muito bem representado, no meu entendimento, pela Paulistana. Não sei se tivesse a Unimed de São Paulo, eu acho que sim, porque o Tyrson é líder é um sujeito de visão. P/1 – E o senhor falou que morava aqui, trabalhava lá, ia para fora do país. Como era compatibilizar tudo isso com a sua carreira de médico? R – Eu parei, chegou um momento que não dava, então eu saí da Pro-Matre. Vendi minha parte da Pro-Matre, comprei uma salinha ao lado, meu filho é arquiteto, o Edmundo Castilho Júnior, então ao lado da sala dele, fiz uma salinha e quando eu arranjava tempo, ia lá atender aquela clientela que eu tive, que foi fantástica. O que eu perdi pela ausência e, veja, durante algum tempo eu estava em São Paulo trabalhando, entrava uma gestante minha em trabalho de parto, eu vinha aqui com meu carro, fazia o parto e voltava. Se era uma multigesta. Uma vez, eu vinha correndo como um doido, bati na serra, quase me quebrei todo, resolveram arranjar um motorista para me trazer e outro para me levar. Mas ultimamente eu não tinha como ter clínica aqui, eu nunca recebi nada. A partir desse momento, evidentemente, eu tinha que matar a fome dos barrigudinhos, então eu tinha um salário. Todos os diretores tinham um salário porque também sacrificavam a clínica. P/2 – O que o senhor acha que a Unimed representa para os funcionários? Tanto hoje como no passado. R – Olha, eu acho que os funcionários aprenderam muito e que a grande maioria tem um amor pela Unimed, uma dedicação pela Unimed, fora de série. Eu vou à São Paulo, chego lá, vou visitar o pessoal, ou em todo lugar que eu vou, fazem uma festa. Hoje eu cheguei aqui, fizeram festa também. Então, para os funcionários os salários são bons, não disse ótimo, disse bons. A doutrina enfeitiça, a doutrina. O pessoal que trabalha junto lá dentro vê que para ser cooperativista, antes disso, tem que ser idealista. Se não for idealista não vai. Então aquele sonho de UNE de estudante, eu acho que em boa dose eu realizei. E dizem: “E você, como você está?” A vida não é só dinheiro. Eu acho que não tem dinheiro que pague o tempo que eu dediquei para realizar algumas coisinhas que realizei. Porque lá, no interior eu já fazia política, fui orador da turma, no ginásio, em Penápolis, fui presidente do Centro Acadêmico. Fui diretor esportivo, por incrível que pareça como diretor esportivo eu joguei razoavelmente vôlei e basquete. Porque nós jogávamos em Birigui, em Araçatuba, em Lins. Íamos de trem, não tinha estrada de rodagem que tem hoje, que é uma maravilha. Então eu acho que a vida é uma luta e estou achando que ela é muito curtinha. Quando me jogaram na UTI há duas semanas, comecei a filosofar: “Poxa vida, tantas vezes eu entrei aqui, fui ver doente, fui ver um monte de doente, agora estou aqui. Aquelas cortinas e uma cama dura para burro, um travesseiro duro”. Não tem como você se adaptar. Sorte que no dia seguinte, eu saí, mas vou cuidar desse negócio de UTI. Precisa melhorar. P/2 – E quais foram, que o senhor considera – deve ter sido um milhão – os principais desafios nessa batalha de Unimed? R – Eu acho que a Unimed de Santos para mim foi o grande desafio, porque do nada você criar alguma coisa! Foi um grande desafio. Como presidente do sindicato eu sempre procurei cumprir a minha obrigação com algumas folgas, sacrificando com certeza a família. Porque eu acho que, se eu não tivesse a mulher que eu tenho, que é fantástica, ela é minha fã incondicional. Realmente ela criou os filhos, porque o pai e a mãe dela moravam conosco. O meu sogro e a minha sogra, foram também, muito bons. Eles conviveram mais com os meus filhos do que eu. Agora eu que estou convivendo. Brigando à bessa. Porque eu acho que se realizar, querer o bem da pessoa, não é só fazer carinho, não é só abanar a cabeça. É contribuir com a sua experiência para que não cometa a besteira. Agora, a exceção é neto. Eu acho que para neto não tem não. Quem tem que fazer isso são os pais, não o avô. Então adoro os meus netos e os curto demais. E eles também me curtem. Assim que eu vejo. P/2 – E na sua carreira de medicina, quais os fatos mais marcantes? R – Olha, lá em Apucarana, fiz tudo. Porque ou você fazia ou ninguém fazia. Então abri tórax. Apareceu, faz. Acredito, que as maiores responsabilidades que assumi, foi muito bom para mim, porque me amadureceu. Ficava meio receoso. Por exemplo, eu tinha um vínculo com o doutor Marcílio. Se eu pensasse diferente, o doutor Marcílio dizia: “Olha, não é isso” e eu mudava na hora. E depois não, quando eu voltei de lá, criei a personalidade de dizer: “Deixa eu ver o que eu penso”. E dificilmente, não coincidia. Em Campos do Jordão, tive o doutor Ramiro, uma figura humana fantástica, ele começou a carreira dele, na minha terra. Se formou no Rio e foi para lá, o menor que ele teve lá, foi um acidente de carro que perdeu um olho. Ele veio para São Paulo, se tornou o maior fisiologista de São Paulo. Com um olhinho só. Depois foi para Campos de Jordão e fundou uma entidade com empresários, para tuberculosos. A maior escola de tratamento de tuberculosos durante muitos anos, era a dele. Vinha gente do exterior. Então é uma pessoa também, que tenho grande admiração. Porque imagina eu, com o meu temperamento, quando eu tive que ir para Campos do Jordão, foi assim, a morte, parecia o fim. Naquela época, era assim: “Oh, deita, come bastante, para você ficar bom. Se não ficar bom, a gente opera”. Opera, fica torto. A noite que eu cheguei lá, debaixo de uma chuva incrível. Quer dizer, a hora que acendeu a luz era um desfile de... Até a freira, irmã superiora, era. Todo mundo torto. Eu digo: “Poxa vida, eu vou ficar tortinho assim também! E minha mulher é tão bonita, vai desequilibrar esse treco!”. Eu não sei se estou sendo prolixo? Eu entrei em fossa, me deu depressão. Toda noite, não tinha o que fazer. Tinha televisão, mas eu não via televisão. Eu lia jornal, o meu pai com a sabedoria cabocla, chega e fala: “Filho, escapou de sair do poço”. “Como é?” “Escapou sair do poço”. “Se o poço está aí e você tenta segurar, machuca a mão, quebra, o diabo. Então deixa cair lá no fundo, enxuga a mão, puxa devagarzinho com as duas mãos, que vem água clarinha. Bom, eu comecei a raciocinar em cima disso daí. É uma filosofia fantástica. Eu parei de tomar a encrenca para dormir. Estou “deitadão” e um dia, entra um colega. Porque o pessoal lá é médico tuberculoso, mas ele, não era cirurgião, ele aprende a operar tórax, mas o resto ele não tem base. Então aparece o colega todo sujo de sangue, assustado: “Escuta, você é cirurgião geral?” “Sou”. “Então escuta, você quer entrar lá? Eu estou enrolado.” “Posso?” Em dez minutos eu acabei a cirurgia para ele. “Poxa, Castilho, quando eu tiver outro, eu posso te chamar?” “Não sei, tem que falar com o Ramiro”. E, dali há uns dez dias, eu ouço. Meu quarto ficava, eu não paguei o hospital, não pagava nada, só pagava a comida, ficava no quarto do médico residente, que não tinha. E aparece o cara, eu ouvi uma barulheira lá no centro cirúrgico. Falei: “Meu Deus, o que será que está acontecendo?” Aparece o cara: “Castilho, vem cá, tem um negão, que eu estava operando a fimose dele e acabou a anestesia, ele está chutando tudo”. E o paciente estava mesmo. Eu comecei a falar baixinho com ele: pá, pá, pá. Deita e o resto do pessoal. Porque estava assim, uma festa, o resto do pessoal saiu, fui lá e fiz um bloqueio que a gente faz para para facilitar o parto. O paciente ficou quieto, fui lá, operei a fimose dele. Ele foi infiltrando o anestésico, só que o cara não sabia. Quando ele ia operar, ele me avisava, e eu, ajudava. Comecei a entrar na cirurgia de tórax, cirurgia de pulmão. Olha, fazíamos a reunião, discussão de casos, mensalmente, levava o meu caso. Quando fazíamos um tipo de tomografia, olhei e disse: “Poxa, será que não erraram?”. Mas levei. Fui lá, verifiquei. Chegam os caras, olham: “Escuta Castilho, para de brincar, mostra a sua”. E era a minha. Evoluiu, quer dizer era uma caverna que fechou. Estrelado! Nunca mais tive nem gripe. Quando, eu falei, eles queriam que eu ficasse lá. “Não”. “Chega”. P/2 – O senhor já contou um monte de casos pitorescos, mas o senhor tem para contar algum aí, ao longo desses anos de Unimed? R – Olha, de Unimed tem, mas eu acho que é melhor não. Porque vai ter que citar nomes, estou fora. Se eu fosse presidente eu falaria. Porque, aquela história, pensar que todo mundo é honesto é complicado. Não é? E se, nas outras instituições tem gente desonesta, na Unimed também tem. Houve, veja bem o verbo, houve gente, hoje eu não sei. Isso atrapalha demais. Porque o cara que é desonesto, ele é capaz de fazer qualquer coisa para se livrar do crime que ele cometeu. Mas, eu sou católico, apostólico romano. Vou à missa, comungo. Creio muito em Deus, sempre acreditei, mas eu não freqüentava a igreja. Mas sou católico hoje, praticante, se eu não vou à missa na semana, sábado e domingo, fica uma semana meio “braba”. Então é melhor a gente não mexer no que está quieto. P/2 – Então está bom doutor Castilho, vamos para uma parte final, uma avaliação geral. Como que o senhor vê hoje a atuação da Unimed no Brasil? R – Eu vejo com muita alegria, com muita admiração, com muito respeito. Acho que o Celso, o presidente atual da Unimed do Brasil, tem sido brilhante. Acho que a diretoria da Unimed do Brasil é brilhante. E, graças à Deus, a Unimed vai muito bem, a seguradora vai bem, todas as empresas vão bem. A seguradora foi a maior surpresa para mim, porque eu não esperava que explodisse, no bom sentido, como uma grande seguradora. Então, eu acho que há muitas coisas a serem feitas, mas com esse time que está jogando lá, eu aposto. P/2 – E como o senhor acha que a sociedade vê a Unimed? R – Eu acho que ela merece o respeito da sociedade. Agora, tem algumas queixas, principalmente nas grandes cidades e nos grandes conglomerados, que “Olha, isso aqui parece INPS”. Agradar o mundo inteiro é muito difícil, mas em todo lugar que vou, falo que sou da Unimed, é muito difícil alguém pixar. Lógico, poderia haver melhoras se todo mundo tivesse dinheiro, se todo mundo pudesse pagar e ter a melhor medicina, melhor médico, mais é caro. P/2 – Qual o principal diferencial da Unimed em relação aos outros planos de saúde? R – Primeiro, a Unimed é ética. Segundo, é humana. Terceiro, é cristã. Procura na sua essencialidade tratar o paciente com o respeito que ele merece. Porque a medicina tem que ser psicossomática, quer dizer, o cara pode operar muito bem, mas se tratar mal o paciente, pode evoluir para a morte. Então eu acho que o médico tem que ser um abnegado, tem que ter muita paciência e tem que ser muito humano e considerar cada paciente como mais um desafio a ser enfrentado e, com a graça de Deus, vencido ou, no caso de não conseguir, ter o respeito aos familiares e ao próprio falecido. P/2 – E qual a sua visão de futuro para a Unimed? R – Olha, eu acho que é imprevisível. Porque ela se internacionalizando e não é difícil, acredito que vai ser um paradigma. Já é um paradigma. Porque eu estava na Suécia, em Estocolmo, um colega lá quis conversar comigo. Me contou o seguinte: que a Suécia que tinha a medicina mais socializada, mais bacana do mundo, que os médicos da Suécia. O cara diz: “Olha, socializaram a custa do não pagamento do médico”. Então, ele queria saber como é a Unimed e queria a Unimed lá na Suécia. O Japão, que é o país, vou repetir aqui, eu se tivesse que morar fora do Brasil morava no Japão, tem uma dificuldade da língua, hoje lá tem muito nissei e dá até para a gente falar português, funciona muito bem. Inclusive esses hospitais de idosos no Japão. Inclusive hoje a gente vê no Brasil, nos Estados Unidos, tem em todo lugar, criarem essas casas para idosos. Que é uma exploração mercantil. Não tem carinho, não tem coisa nenhuma. Então, o idoso é tratado quase como um lixo. Acredito que o cooperativismo resolve. E acho que hoje a gente analisando os resultados do socialismo, não o socialismo da Suécia, não o socialismo comunistóide, falta muita coisa para melhorar. Vê a China, a China hoje está se tornando um país mais liberal do que socialista. Então forma o grupo de cima que tem tudo, que é quem manda, que tem o dinheiro. É o dinheiro que manda. Então eu sou um cooperativista convicto, meu mestre, meu grande mestre, foi o Chico Piza, acho que estou com 77 anos, sei lá quanto tempo mais eu vou viver. Mas, se eu morrer agora, eu estou feliz porque participei e trabalhei com cooperativismo. P/2 – E, em cima disso que o senhor falou, qual que o senhor acha que é a importância da Unimed para a história do cooperativismo brasileiro? R – Cooperativismo brasileiro e mundial. Nós somos respeitados no mundo todo. Porque realmente, talvez seja o maior desafio que o cooperativismo enfrentou, foi aqui. Primeiro pela desorganização do capitalismo velhaco que é o nosso segundo. Pelos resultados que a gente conseguiu de gente que não tem nada ver com a doutrina socialista. Então, desde Rochdale, quando se fundou a primeira cooperativa, eu acho que o nosso exemplo é um exemplo marcante no mundo. É referência. E que dá a esperança de que: por que não outros setores também não entrarem no cooperativismo? P/2 – E quais os maiores aprendizados de vida que o senhor obteve ao longo desses anos, à frente da Unimed? R - Olha, sobre o ser humano: o ser humano é uma obra de Deus, agora, por falta de religião, por falta de doutrinação, o ser humano toda vez que pode atuar como bicho, ele atua como bicho. Então, não é falso moralismo, não é nada disso. A gente tem que entender tudo, mas eu acho que nós estamos indo para um caminho muito sórdido, de desrespeito ao próprio ser humano. E acho que se todo mundo fosse cooperativista, que é um absurdo, realmente o ser humano seria melhor. Porque, meu Deus, é uma passagem! Eu já tenho 77 anos, é uma passagem, eu lembro quando era moleque, nesse lapso de tempo fazer tanto absurdo! Alguns inclusive, provocados por desrespeito ao próprio ser humano. Eu vejo esse morticínio que está acontecendo em São Paulo, no Rio. Eu acho isso um absurdo. Então o ser humano é capaz de ser um santo e é capaz de ser um diabo. Então na medicina, o médico também pode ser um santo, como pode ser um dinheirista só. O dinheiro é bom, mas não resolve a filosofia da vida. P/2 – E para o senhor o que é ser Unimed? R – É ser gente. O médico tratando o usuário como gente, com respeito. O usuário respeitando o médico. As duas parcelas se beneficiando e com isso beneficiando a comunidade. Respeitando o país, respeitando o mundo, respeitando a vida. P/2 – E o que o senhor acha da Unimed comemorar os seus 40 anos de vida por meio de um projeto de memória? R – Eu acho que foi muito próprio, muito interessante. Porque a história escrita assim, cada um escreve uma coisa, dispersa. Agora fazendo essa memória em que várias pessoas são ouvidas e se manifestam. Vocês vão ver que a maioria dos médicos não pensam muito diferente do que eu penso. Dos médicos, realmente médicos. Agora, falta muita coisa. Falta. Mas meu Deus do céu! Toda grande jornada começa com o primeiro passo e nós já estamos no centésimo milionésimo passo. Quer dizer, quantos hospitais nós temos? Como a gente poderia imaginar que nós iríamos ter hospitais fantásticos. O hospital em Sorocaba não deve nada aos melhores hospitais de São Paulo e Rio. Então eu vou à Sorocaba e me babo. E é isso. P/2 – Tem alguma coisa que a gente não perguntou e o senhor gostaria de falar? R – Eu gostaria de reafirmar aqui o respeito que eu tenho pela minha família. O orgulho que eu tenho da minha origem, tanto que eu trouxe a foto para mostrar. E acho que vaidade é uma coisa de gente menor, eu não tenho vaidade do que eu fiz, também não tenho vergonha. Eu me realizei, eu tive muita coisa em troca daquilo que eu realizei. Agora, eu sou um santo? De jeito nenhum. Se eu fosse santo não teria feito greve, não teria feito todas essas coisas. Porque quando eu acho que está errado e precisa ter ação, eu sempre agi. E por isso eu era briguento na escola, malcriado. Porque eu hoje vejo os meus netos: o menino, está com doze anos, então ele estava engordando, ele come feito um louco e está engordando. Eu digo, Pedro, vai fazer natação e judô. Por que ele não tem agressividade também, porque precisa ter agressividade, senão...Senta e diz que não dói. Então ele está fazendo natação, está parrudo já, um bração. E já cresceu inclusive, já está maior do que a mãe. E a gente consegue ir modelando. A menina mais velha é um doce. Lembra a minha mãezinha. Então, eu chamo de dona Lilá, é a Natália. Está namorando um garotão bacana, me chama de tio. E ela está estudando em São Paulo. A Taís é a rebelde, então eu chamo de vó Olímpia, porque a avó Olímpia era minha avó gaucha, brava feito um negócio. O pai dela era italiano, médico, veio do Rio Grande do Sul. Ela foi criada bem, estudou no Mackenzie, estudou nos melhores. E depois o pai dela teve um tumor foi para a Itália e morreu. A mãe dela casou com um cara lá meio, nada disso. E ela já, rebelde. E ela se casou com um administrador de fazenda que naquela época o administrador de fazenda tinha que. (?) O grande medo do fazendeiro era ladrão de cavalo. E o bom administrador de fazenda era aquele que ia atrás, trazia o cavalo e a orelha do ladrão. E o meu avô, Otávio Rodrigues, porque do lado da mãe é Picelli, italiano. O meu avô tinha a maior coleção de orelhas aqui do estado de São Paulo. Ela foi para Glicério, para a terrinha lá onde. Chegou lá, ele bebia, e ficava bravo e brigava com todo mundo. Ele tinha uma manopla. Era um grande brigador. Então, um dia bateu num cara lá no bar, foi para a fazenda, quando chega na fazenda, “atocaiaram” e pum, mataram. E então ela se casou, dali há alguns anos, com um mascate italiano. Essa parte é interessante porque é o Marcelo, foi o avô que eu conheci. Então, ele contando a história do pai dele, ele diz: “Meu pai veio da Itália com o Francesco Matarazzo. E foram morar no Ipiranga e fundaram lá no fundo de quintal, uma fábrica de sabão. O meu pai achou que aquilo não tinha futuro e saiu. Ai “maledetto!” Imagina de quem o pai dele foi sócio? Do velho Matarazzo!” P/2 – Bom doutor Castilho, o que o senhor achou de ter participado dessa entrevista? R – Bom. Eu acho que eu fui meio prolixo, não fui? Gostei. P/2 – Então em nome do Museu da Pessoa e em nome da Unimed a gente agradece a sua entrevista. Obrigada. ---FIM DA ENTREVISTA---

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