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História de: Maria Emília Lopes Freire
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/08/2010

Sinopse

Maria Emília passou no concurso para a Rede Ferroviária no Rio de Janeiro, mas não se adaptou e pediu transferência de volta para Recife. Os outros arquitetos foram se aposentando e Maria Emília ficou sozinha na função. Uma das tarefas era vistoriar a linha, portanto ela tinha de passar dias percorrendo a linha em um auto de linha, um carro menor. Acabou participando também do socorro a acidentes de trem. O socorro durava dias, tendo até cozinha improvisada perto do local.   

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História completa

 

P/1 – Maria Emília, bom dia.

 

R – Bom dia.

 

P/1 – Em primeiro lugar, obrigada por ter vindo, por ter aceitado o convite. Eu queria começar a entrevista com você nos dizendo o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

 

R – Meu nome é Maria Emília Lopes Freire, nasci em Viçosa, Alagoas, e minha data de nascimento é sete de agosto de 1959.

 

P/1 – E o nome dos seus pais?

 

R – Meu pai é Edvaldo Maia Lopes Ferreira e minha mãe é Maria Ivone de Vasconcelos Lopes Ferreira.

 

P/1 – Qual é a atividade dos seus pais?

 

R – Meu pai é bancário e minha mãe, professora.

 

P/1 – E você chegou a conhecer seus avós, Maria Emilia?

 

R – Sim.

 

P/1 – Todos eles?

 

R – Paterno e materno.

 

P/1 – Ah, que bom. Os nomes deles?

 

R – Os maternos são Odete e Casemiro; e os paternos são Luisinha - a gente a chamava de Luisinha -, e Juca.

 

P/1 – Que bonitinho! E o que eles faziam? Eles tinham alguma atividade?

 

R – Não. Meus avós maternos eram fazendeiros, sempre ligados a essa atividade de fazenda, no caso, cana-de-açúcar, gado... Meus avós paternos eram ligados a atividades comerciais.

 

P/1 – Você sabe como seus pais se conheceram?

 

R – Não, não sei.

 

P/1 – Não? Não contaram essa história pra você? (risos) E são vivos, os seus pais?

 

R – São vivos.

 

P/1 – Ah, que bom.

 

R – Acho que na convivência: o meu pai era bancário, ele foi transferido para Viçosa e lá conheceu a minha mãe. Mas especificamente, o momento...

 

P/1 – Depois precisa perguntar.

 

R – Vou buscar essa história.

 

P/1 – É sempre bom. (risos) E o seu pai trabalhava em que banco?

 

R – No Banco do Brasil.

 

P/1 – Certo, e foi por isso que ele foi transferido para Viçosa?

 

R – Ele passou num concurso em Viçosa. Passou lá um tempo, casou. Eu não era nascida ainda, mas moramos muito tempo em Viçosa; depois nos mudamos para Maceió, em busca de uma parte educativa mais fortalecida. Depois, eu vim para Recife fazer vestibular de Arquitetura, na época era um curso mais estruturado, e junto comigo veio também minha irmã, que é médica e veio fazer residência médica. E assim fomos trazendo toda a família, aos pouquinhos.

 

P/1 – E sua mãe era professora de que grau?

 

R – Hoje, a gente diria que é o ensino fundamental.

 

P/1 – Cuidava das crianças.

 

R – Em casa e na escola.

 

P/1 – Por quê? Vocês eram em muitos irmãos?

 

R – Quatro irmãos.

 

P/1 – Quatro irmãos? Como você está nessa escala?

 

R – Eu sou a terceira.

 

P/1 – Terceira? Então vamos falar dos outros irmãos que têm na sua frente e depois de você. Vamos lá.

 

R – Lourdes, ela hoje é médica. Edvaldo, que também é médico; a diferença dele para mim é de onze meses; eu, que sou arquiteta; e a outra, Rosa, que é dentista.

 

P/1 – Que é a caçula.

 

R – Caçula. Todos da área de saúde e eu fugindo da área de saúde.

 

P/1 – Então você passou a sua infância em Maceió, é isso?

 

R – Não. Eu fui para Maceió com doze, treze anos.

 

P/1 – Então uma parte foi em Viçosa?

 

R – Foi em Viçosa.

 

P/1 – Então me conte como era Viçosa na sua infância.

 

R – Era uma cidade muito pacata, bucólica. É uma cidade com muitas praças, me lembro muito disso. A gente morava em casas, o que era muito legal, com quintal; morávamos todos perto, a família procurava se agrupar. Eu acho que isso é uma característica da minha família, a gente querer muito viver se agrupando. Até hoje a gente tenta preservar, apesar de hoje a juventude ter outras atividades, mas a gente busca preservar isso na nossa família.

É uma cidade pequena. Eu ia para escola a pé; tinha um rio grande em que a gente não podia tomar banho porque tinha esquistossomose. A gente ia muito para a fazenda da minha avó. Meu avô faleceu logo, acho que eu tinha dez anos quando meu avô faleceu… Oito anos, acredito. A gente andava de cavalo, tomava leite da vaca logo cedinho, as nossas férias eram na fazenda. Foram marcadas, não só as nossas, como a de todos os meus primos. Tanto é que a minha avó faleceu o ano passado com quase cem anos e a gente criou a Comunidade da Odete, em que nós nos falamos por ela. A minha avó era uma grande centralizadora da família, então todo Natal, todos os anos, a gente passava com ela lá em Viçosa. A gente sentiu falta de criar um instrumento que pudesse continuar com essa união, esses conhecimentos e essas notícias de família, [então] criamos esse blog.

 

P/1 – Que interessante!

 

R – Ficou legal.

 

P/1 – Muito bacana. Então a família é grande?

 

R – Muito grande. A família materna é bem maior, a paterna é menor.

 

P/1 – Sim, mas são muitos irmãos, então? Você tem muitos tios?

 

R – Tenho muitos tios.

 

P/1 – E muitos primos, provavelmente.

 

R – Muitos primos. A descendência materna é em torno de duzentas e poucas pessoas, de cinco gerações. A paterna a gente já não tem tanto, porque tem uma tia que a vocação dela era ser freira; uma faleceu logo que teve o segundo filho. Eram cinco irmãos, só que a família ficou resumida em três. Uma não teve filho, então só tiveram filhos mesmo meu pai e uma [tia] que mora em Maceió.

 

P/1 – E nessa sua infância você brincava na fazenda, mas também tinha tempo para brincar na cidade?

 

R – Ah, sim. No quintal, de bicicleta, na praça. Fazia casinhas, no quintal fazia paneladas. Não sei se você sabe o que é isso...

 

P/1 – Não, conta para nós. Como era?

 

R – Quando se matava galinha sobrava pescoço, pé... E a gente fazia também nossa galinha guisada nas panelinhas de barro do lado da minha avó e da minha mãe.

 

P/1 – Vocês meninas então já cozinhando, brincando?

 

R – Fazíamos pirão, era muito legal. Muito bom morar nas cidades menores. Se eu pudesse... Mas hoje ainda não é o momento.

 

P/1 – É verdade. Mas você então começou estudando em Viçosa?

 

R – Sim.

 

P/1 – Como era essa sua primeira escola?

 

R – A minha escola era Educandário Dona Inaura. A gente ia a pé; as banquinhas, daquelas de caderninho, eram menores, só do bracinho; tinha o recreio, tinha os castigos, a palmatória. O recreio era muito bom porque era um pátio muito aberto, legal. Na verdade, não existia a palmatória, existia um outro tipo de castigo, que era botar a gente numa cadeira olhando para a parede.

 

P/1 – Você chegou a ficar de castigo?

 

R – Ah, sim.

 

P/1 – Ficou?

 

R – Eu era meio sonsinha. (risos) Quietinha, mas... (risos) Então, foi muito bom. Eu me lembro que a gente ia muito a pé, a gente saía andando pela cidade, olhando as coisas, os acontecimentos. As praças me marcaram muito. As professoras também, eram amigas da minha mãe – a minha mãe ensinava em escola pública, mas pela relação de cidade pequena, todos se conheciam – então: “Ah, a filha de Ivone, a filha de Ivone.” Assim, a gente ia levando. Os finais de semana, geralmente, eram na praia ou na fazenda; depois, quando a gente foi para Maceió, a gente dividia: nas férias de janeiro, a gente alugava casas de praia junto com meus outros primos; em julho, eram férias com a minha avó. Não tinha outro pensar: todo mundo queria ir para lá.

 

P/1 – Que gostoso.

 

R – Era muito bom.

 

P/1 – Isso é muito bom. Então você muda para Maceió aos doze anos? Como foi essa mudança? Vocês queriam mudar? Foi a família inteira: o pai, a mãe e os quatro irmãos?

 

R – Sim.

 

P/1 – Como eles contaram para vocês? Vocês queriam ir?

 

R – Já era uma tendência na época. Quando você tinha filhos numa determinada idade - minha irmã é mais velha que eu [em] quatro anos - já era uma tendência você procurar um local onde tivesse um estudo mais estruturado, até pensando já na universidade. A gente não viu como uma ruptura, não. Era uma coisa natural, até porque era muito perto, era uma hora e meia de viagem. A gente vinha muito aos finais de semana, todo final de semana a gente voltava para lá, então para a gente se enraizar em Maceió demorou um pouquinho. E a gente tinha uma casa muito boa, grande, muito jardim, cachorro, bichos. Minha mãe sempre gostou muito de bicho, então a gente tinha muitos passarinhos, cachorro. Tinha um tatu, muitas coisas legais, acho que trouxe um pouquinho da cidade do interior para Maceió. E Maceió era uma cidade muito pacata, pequena, a gente também ia para escola a pé. Quando eu fui para Maceió, eu fui para uma escola pública; eu estudei em escola pública todo o meu ensino fundamental, basicamente. Só quando foi para o científico, na época, que hoje é ensino médio, que a gente foi para escola de freiras, o Colégio Sacramento, e lá eu terminei meu curso.

 

P/1 – E vocês encararam bem, quer dizer, por ser mais pacata e por ter esse pedacinho de Viçosa na sua casa, estava tranquilo.

 

R – É, estava tranquilo.

 

P/1 – Mas vocês fizeram novos amigos lá em Maceió?

 

R – Ah, sim. Através da escola, eu também comecei a jogar basquete; joguei durante uns quinze anos da minha vida. O esporte também me deu a oportunidade de conhecer muita gente, muitos lugares. Naquela época era tudo pago pelo Estado, não era o pai que financiava, como hoje em dia, que tudo são os pais que financiam. Então se propiciava mais saídas e amizades.

 

P/1 – Vocês saíam para onde?

 

R – Pelo esporte?

 

P/1 – É.

 

R – Para qualquer lugar do Brasil que houvesse campeonato.

 

P/1 – Você era então de uma Seleção Estadual?

 

R – É. Seleção Estadual de Basquete.

 

P/1 – Que interessante. Muito bom. E aí viajou bastante, então?

 

R – Muito. O Brasil quase todo, menos a Região Norte. E os meus pais nos acompanhando, porque era eu e minha irmã mais velha.

 

P/1 – Que também jogava?

 

R – Também jogava no mesmo time. Quando era o campeonato maior, que era no mês de julho e se chamava Jeb’s, os Jogos Estudantis Brasileiros, onde quer que fosse ele ia de carro atrás da gente, porque ele gostava muito do esporte e ele levava a gente para os treinos logo cedo. [Às] cinco horas da manhã começavam os treinos; ele levava a gente, acordava, voltava, tomava banho e ia para o trabalho. Ele sempre foi muito motivador para o esporte lá em casa. Sempre desafiava a gente: na bicicleta tirava logo as rodinhas, que era pra poder andar logo, ensinou a gente a dirigir, a nadar; todas essas coisas a todos nós, ele ensinou. Hoje quem ensina é meu marido. Boto tudo para o meu marido ensinar os meninos: nadar, andar de bicicleta, dirigir, tudo ele ensina. Achei legal a experiência do meu pai, o que ele me passou e tento passar isso para os meus filhos também.

 

P/1 – E você optou pelo basquete. Você sabe por quê?

 

R – Eu, na realidade, fiz handebol, mas não gostei. E gostei muito do basquete.

 

P/1 – As pessoas incentivavam a prática do esporte?

 

R – É, tinha os jogos estudantis entre as escolas, mas o que mais me motivou foi um técnico que a gente tinha. Era Ivan, o técnico da seleção alagoana. Eu tinha treze anos e ele se encantou porque eu era muito alta, já tinha esse tamanho. Acho que ele viu um biotipo assim e tentou investir, então eu jogava na posição que usava, na época, o nome “guarda”, que é a defesa hoje; e minha irmã era da ala que é o ataque hoje. A gente jogava no mesmo time e viajava juntos. Depois ela saiu, era mais velha e teve toda uma outra vida a traçar.

Eu fiquei até a universidade. Quando vim para Pernambuco, eu também passei a fazer parte do time do Sport Club do Recife, depois fui para a Seleção Pernambucana e viajei muito aqui também pelo Estado.

 

P/2 – E como você conciliava os treinos e as aulas?

 

R – Os treinos geralmente eram à noite, depois da aula.

Em Maceió a gente saía também a pé. Tudo a gente fazia a pé. Quer dizer, tudo não: muitas coisas. Por exemplo: meu pai ia para o trabalho e deixava a gente na escola, mas a gente voltava a pé. Ou a pé ou de ônibus, mas era perto. Da escola para o ginásio a gente ia a pé também e voltava de ônibus. Tomava um picolé Guti-Guti na praça e voltava para a casa. Mas eram à noite os treinos. Quando chegava perto do campeonato tinha dois treinos por dia: era um às cinco horas da manhã e outro às seis horas da noite. Em Recife já foi [com] uma idade mais adulta, a gente fez pela universidade, mas eram treinos esporádicos: três vezes na semana e, quando chegava perto de campeonato, todo dia, mas sempre à noite.

 

P/1 – Você chegou a conquistar algum título?

 

R – Ah, vários. Está cheio de medalhas lá em casa.

 

P/1 – Conta alguns pra gente.

 

R – Veja, a seleção alagoana não era tida como uma das mais fortes. Mais fortes eram São Paulo, Pernambuco era muito forte, Minas Gerais. Então, geralmente, a gente chegava nas oitavas de final. Com Pernambuco a gente chegou a ser vice-campeão dos Jogos Universitários Brasileiros (JUBs) que teve em São Luís do Maranhão e outro que teve em Belo Horizonte. Pernambuco e São Paulo disputavam os primeiros lugares, geralmente. Aqui a seleção era muito mais forte, tanto que quando eu vim para cá eu não era titular. Lá eu sempre fui titular, em Alagoas. Aqui demorei um pouquinho para conquistar esse espaço, mas aqui era muito forte.

 

P/1 – Sempre na mesma posição?

 

R – Sempre na defesa.

 

P/1 – Esse JUBs, que você já falou, são os Universitários?

 

R – Jogos Universitários Brasileiros. Na equipe de Pernambuco tinha pessoas que iam para a Seleção Brasileira, para você ver o nível que era aqui.

 

P/1 – Que coisa.

 

R – Ah, espantou. No começo espantou. Fiquei assustada demais, porque é um time muito reconhecido, né?

 

P/1 – Você manteve algumas amizades desse tempo do esporte?

 

R – Eu mantenho duas amizades: Eneida e “Bolota”, que a gente chama. São arquitetas, por acaso, também e a gente se fala de vez em quando. Eu tentei voltar até para o Grupo dos 40, Grupo dos 30 e tudo mais, mas não consegui conciliar. Porque existe ainda, é o Master.

 

P/1 – Ah, que bom. Quem sabe uma hora você consiga porque é muito bom, né?

 

R – Ah, muito bom. Mas dos meus filhos, nenhum deu para o esporte, viu?

 

P/1 – É isso que eu ia te perguntar: nenhum?

 

R – Meu marido também é campeão pernambucano de handebol. Ele é atleta de primeira, mas nenhum dos filhos, por mais que a gente incentivasse... Tendência nenhuma.

 

P/1 – A gente vai falar deles daqui a pouquinho, mas em geral é assim: não adianta a gente querer.

 

R – É.

 

P/1 – Então você fez o segundo grau, o científico na época, lá em Maceió?

 

R – Lá em Maceió.

 

P/1 – Mas na época não havia científico e o normal? Por que você optou pelo...

 

R – Não, tinha o normal. O normal era mais para Pedagogia.

 

P/1 – Que era a profissão da sua mãe. Você não teve vontade?

 

R – Não, nenhuma. Eu não queria ser médica porque eu já via que os meus irmãos sofriam por questão de plantão: chegava de madrugada, era 24 horas, e também não gosto de sangue, de hospital. Eu não tenho essa tendência. E aí eu pensei [em fazer curso] ou na área de Design ou de Arquitetura. Mas de onde é que veio essa coisa? Eu acho que é um desejo meu.

 

P/1 – Você não teve ninguém que lhe influenciou? Alguém que você gostasse mais na família? Não?

 

R – De jeito nenhum. Foi assim, uma decisão que deu certo.

 

P/1 – Já de menina você pensava na questão de...

 

R – Não. Acho que mais quando a gente chegou no científico. No ensino médio, quando você começa a pensar. Na época, a gente fazia uns testes vocacionais.

 

P/1 – Você chegou a fazer?

 

R – Cheguei a fazer.

 

P/1 – E você lembra o que deu?

 

R – Deu Psicologia, Design ou Arquitetura.

 

P/1 – Então acertou.

 

R – Já tinha uma tendência, um gostar, e eu fui chegando lá. E professora não. Professora eu acho que é muito sacrificante e muito pouco remunerado.

 

P/1 – Você, nessa época de adolescente, de jovem, tinha passeios com a turma? Como foi essa convivência?

 

R – Na escola, você fala?

 

P/1 – É, na escola e com os amigos dessa fase de quinze, dezesseis anos.

 

R – Veja, como eu mudei muito de escola - eu estudei na escola pública, depois fui para escola particular -, ainda tenho duas amizades daquela época. Duas não, quatro amizades, mas eu mantenho mais contato com duas delas, que também são arquitetas, por acaso, mas são da época do ensino médio. Uma que a gente sempre teve mais afinidade, sempre está se falando por e-mail. Ela morou em Brasília, depois voltou pra Maceió, então quando eu vou para Maceió, sempre estou com ela; ela, quando vem para cá, visita. Essas coisas assim. É muito legal ter esse vínculo da época em que a gente ainda era adolescente porque relembra muitas coisas. E também pros meninos, meus filhos; eles ficam perguntando como é que pode uma amizade durar tanto. Porque é uma amizade mesmo, de dividir, de contar as coisas. E é bom também para eles como exemplo de amizade, que acho que é o que a gente tem de mais rico.

 

P/1 – Vocês frequentavam clubes, cinema? Como vocês se divertiam?

 

R – A gente era sócio da Associação Atlética Banco do Brasil (AABB), que era a associação do meu pai. Na época, era um clube, e ainda hoje é, de renome no Brasil todo. Nossos finais de semana se resumiam assim: a gente, no sábado, ou ia para fazenda da minha avó ou ia para Viçosa ou ia para o clube. E no clube era muita piscina, piscina enorme, maravilhosa; tinha quadra de basquete também, a gente ficava no basquete, meu pai jogava comigo e com a minha irmã. Depois que a gente veio para cá também a gente vinha muito para AABB, principalmente de domingo: fazia um timinho, juntava uns amigos e vinha jogar. Depois, tomava um banho de piscina, comia alguma coisinha e vinha para casa. O clube era uma atividade que a gente fazia com frequência. E ir à praia. Muita praia a gente ia, fazia piquenique.

 

R – É mesmo? Onde vocês faziam piquenique?

 

P/1 – Nas praias mais próximas, não na cidade. Minha mãe fazia um feijão com farinha, que se chama feijão de corda com farinha, galinha cabidela; a gente levava tudo aquilo e fazia acampamento. Era muito bom. Às vezes, a gente ia acampar, meu pai gostava muito de acampar em barraca de acampamento mesmo, então a gente ia [e] passava dois, três dias. Minha mãe não gostava muito porque não tinha muito onde tomar banho, aquelas confusões, mas a gente adorava. Arrumava as redes nos coqueiros... Meu pai sempre foi muito desportista e fazia muitas atividades, propunha também, propiciava. Minha mãe era mais cuidadosa, tinha mais cuidado com os receios, os riscos.

 

P/1 – Vocês acampavam em praias também?

 

R – Praias desertas. Hoje em dia não [se] pode mais fazer isso, mas a gente fazia muito. Ele comprava todos os equipamentos de acampamento, tudo a gente tinha: fogão, panela, tudo.

 

P/1 – Sua mãe não gostava, mas ia junto?

 

R – Ah, ela ia. Todo mundo ia.

 

P/1 – Até para ficar cuidando ali.

 

R – É, tinha que ter uma guardadora.

 

P/1 – (risos) E a opção por Pernambuco foi justamente pela universidade?

 

R – É. Na realidade uma tia minha, que é irmã da minha mãe, fez um convite para eu vir fazer a universidade aqui. Ela morava aqui, já. E esse meu tio, que é o Getúlio Luna Marino, já trabalhava na rede ferroviária. Eu fiquei na casa dela, passei no vestibular e passei um ano na casa dela enquanto a minha família vinha. Isso foi uma coisa que talvez tenha propiciado essa vinda para cá porque eu já tinha um lugar para ficar, uma família. Eu nunca tinha saído de casa, então foi um ponto forte.

 

P/1 – Havia uma ansiedade nessa sua mudança? Você se lembra? Embora vindo para casa da tia, por não ter ficado nunca longe de casa?

 

R – Por incrível que pareça, eu vim tão determinada a vir fazer Arquitetura aqui em Pernambuco, em Recife, que eu sentia falta, evidentemente, mas eu ia muito para Maceió, eles vinham muito para cá e essa minha tia era muito mãezona, tomava muito conta. Foi uma coisa que me surpreendeu, eu pensava que ia sentir muito mais, porque você, adolescente, deixar todas as suas amizades e vir para um lugar que você nunca... Recife, na época, era como se fosse hoje o Rio ou São Paulo para a gente. A diferença de Maceió para Recife era mais ou menos essa. Mas aqui também fiz outras amizades, fui fazendo e fui... Meu foco era a faculdade.

 

P/1 – E seus pais encararam bem essa sua mudança, incentivaram?

 

R – Também. Minha irmã já queria vir para fazer a residência. A gente via isso como uma coisa natural também, você querer crescer procurando os campos, os lugares mais estruturados para dar uma educação melhor. Eles sempre investiram muito em educação e no esporte.

 

P/1 – Durante todo esse seu período de escola até a faculdade, você era uma boa aluna, muito estudiosa?

 

R – Eu era muito estudiosa. Eu sou muito disciplinada até hoje. Acho que é uma coisa que às vezes até prejudica, mas sou muito disciplinada, então não sei fazer uma coisa mais ou menos. Quero fazer o melhor. Nem sempre a gente tem oportunidade e tempo para fazer isso, então você às vezes sofre com isso. Eu sempre fui muito aplicada, muito dedicada, o que às vezes não é muito bom, não. Eu tenho uma filha que é meio assim, eu digo a ela: “Relaxe mais.” Para viver mais...

 

P/1 – E tinha uma matéria em especial que você gostava?

 

R – Da faculdade?

 

P/1 – Desse período de escola, antes da faculdade.

 

R – Eu adorava História e Geografia. Sempre gostei muito de História, de ler sobre as civilizações. Muito mesmo.

 

P/1 – Algum professor foi mais marcante? Alguma professora?

 

R – Não.

 

P/1 – Nem do primário, nem do ginásio, nem do colegial?

 

R – Só não gostava de uma freira, que era [professora] de Português. Ela era muito crica, encrencava muito.

 

P/1 – Você fez colégio católico. Era bastante rigoroso?

 

R – Ah, muito. Com roupa, horário, postura, tudo era muito rigoroso.

 

P/1 – E até então o cotidiano da sua casa sempre foi: vocês estudavam de manhã, sua mãe trabalhava? Tinha algum apoio em casa, alguma empregada?

 

R – Ah, tinha sim, uma empregada bem antiga, Lindinalva. [De] muitos anos. Passou uns trinta anos com a gente; as empregadas sempre demoraram muito. Tinha os cachorros, minha mãe era louca por cachorro, tinha um pastor alemão, depois foi aquele pequinês, tinham uns três, quatro dentro de casa. Era uma confusão, mas a gente adorava.

 

P/1 – Vocês tinham esse cotidiano: iam pra escola pela manhã, voltavam, almoçavam. Seu pai almoçava em casa?

 

R – Sempre almoçava em casa. Todos almoçavam juntos, o jantar também era junto. Quer dizer, eu chegava do treino, chegava mais atrasada.

 

P/1 – Sentavam na mesa, todos juntos?

 

R – Ah, todos.

 

P/1 – No almoço e no jantar?

 

R – No jantar eu não estava porque sempre treinava, todos os dias. Meu pai é quem fazia o café da manhã da gente. Minha mãe cozinhava e ele fazia os nossos pratos. [Quando] chegava na mesa já estavam os pratos todos arrumadinhos; não perguntava nem o que a gente queria. Era inhame, macaxeira, cuscuz. Nem perguntava, já estava lá.

 

P/1 – Inhame, macaxeira, cuscuz… O que mais fazia parte do cardápio da família?

 

R – Essa coisa mais de interior. Nunca tinha essa coisa de sanduíche, nem se usava na época. Era ovo, queijo, inhame, macaxeira, cuscuz, pamonha, mungunzá. Essas coisas mais pesadas mesmo.

 

P/1 – E que dão água na boca. (risos) Bom, nesse período da faculdade você foi fazer que universidade aqui em Pernambuco?

 

R – A Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

 

P/1 – E era longe a casa da sua tia da Universidade? Como vocês se deslocavam?

 

R – Era longe. Eu morava em Boa Viagem e a faculdade é num bairro longe, Cidade Universitária. Quando comecei, eu andava de carona, porque a gente fazia carona, os solidários. A princípio era de ônibus, não tinha opção, não. Depois a gente começou a fazer o solidário: a gente contribuía com uma cota e a colega saía com o carro, pegando mais duas ou três. Era muito bom porque a gente ia conversando e tinha as músicas de preferência - James Taylor, que tocava muito, ela gostava muito de música americana. Era um carrinho branco. Era muito gostoso, a gente ia e voltava. Depois, quando a minha família chegou, meu pai conseguiu estruturar melhor a gente e aí deu mais condições: um carrinho pra dividir com o irmão. Mas nada de muita folga, sabe? A gente sempre foi muito comedido, pelas condições financeiras mesmo. A gente tinha que trabalhar com solidariedade com os irmãos também. Às vezes, começava a aula às dez e a do outro começava às oito, você tinha que ir. E assim ia levando.

 

P/1 – Vocês se davam bem, você e seus irmãos?

 

R – Ah, muito bem.

 

P/1 – Eles vieram para cá quando você estava o que? Ainda no primeiro ano?

 

R – No primeiro ano da universidade, eles já vieram.

 

P/1 – E vocês foram morar onde?

 

R – Também em Boa Viagem. Próximo da minha tia.

 

P/1 – E a casa como era, mais ou menos?

 

R – Nós moramos em apartamento. Foi um grande sofrimento para a minha mãe porque ela morava numa casa muito grande, com muitas plantas, muitos bichos e teve que vir para um apartamento pequeno, com três quartos. A gente não tinha nenhuma visão de morar num apartamento maior. Não era nem condição financeira, era visão. Não sei.

Era uma coisa muito ruim para ela, ela sofreu muito para se adaptar. Não tinha o quintal paras plantas dela, né? Aí pegava a varanda e enchia de planta pendurada; a gente não podia nem namorar porque a água caía na cabeça da gente. Ela ia aguar a planta [às] dez horas da noite (risos) para mandar o namorado para casa, estava na hora de ir pra casa. Então a gente foi se adaptando, se adaptando às coisas da vida.

 

P/1 – O seu pai conseguiu uma transferência e veio trabalhar aqui?

 

R – É, o meu pai… Na realidade, quando eu vim para fazer o vestibular aqui ele já trabalhava, havia sido transferido para Flores, aqui em Pernambuco. Apesar de Flores ser muito longe, ele me dava um certo apoio, às vezes vinha passar o fim de semana aqui. A família já estava desarticulada porque uma parte estava em Maceió, eu em Recife e meu pai em Flores. Mas ele já veio para Flores para tentar ir para Recife, porque não era fácil arranjar uma transferência para Recife. Ele se submeteu a isso para a gente poder tentar se reagrupar de novo.

 

P/1 – O Banco do Brasil, nessa época, também tinha a questão da permuta do funcionário ou não?

 

R – Não, você pedia transferência. Se tivesse vaga...

 

P/1 – Entendi.

 

R – Aí você esperava até ter a vaga.

 

P/1 – E a sua mãe continuou trabalhando?

 

R – Não, minha mãe, quando foi para Maceió, já tinha se aposentado. Em Maceió, ela só fazia cuidar da gente mesmo. Fazia crochê, cuidava das plantas dela, tinha as irmãs dela. Mas ela deu uma parada, sim. Principalmente quando veio para cá, ela deu uma estagnada na vida dela.

 

P/1 – E esse período de faculdade foi divertido? Tinha festa? Conte como foi.

 

R – Ah, foi muito bom. Maravilhoso. Para mim foi um descortinar da vida porque, como eu te disse, Maceió para Recife [era como] hoje Recife para o Rio. Nem digo tanto porque está tão pouca a distância, mas era como se fosse Recife para um grande centro, Nova York, sei lá. Os costumes eram diferentes, as pessoas tinham um outro estilo de vida, outro pensamento. Para mim foi um choque, porque eu era aquela matuta que chega do interior para uma cidade grande, coisa desse tipo. Mas a minha turma foi muito boa, muito boa mesmo. Tem sempre os grupos que se assemelham, então a gente foi se conhecendo. Tocávamos muito violão -  eu não, mas o grupo tocava muito violão, a gente era tido como a turma do violão.

A turma da Engenharia ia muito almoçar na turma de Arquitetura e eram os homens que vinham. Revi vários amigos meus de Maceió que também vinham. Tinha já uma tendência naquela época de o pessoal de Maceió vir fazer faculdade aqui. Vários amigos meus, que vieram fazer Engenharia, a gente se reencontrou aqui. A gente tocava muito violão, a gente acampava, às vezes, ia para muitos shows. “Batutas de São José” era o réveillon da gente; é um clube que hoje é popular, mas os arquitetos iam todos para lá. Arquiteto gosta de coisa diferente, então nunca ia para os tradicionais, sempre procurava um réveillon que tivesse alguma coisa bem diferente.

 

P/1 – E onde ficava?

 

R – No bairro do Recife. Perto da Rodoviária Antiga, como a gente chama.

 

P/1 – Sei. E era bem animado, então?

 

R – Era pequenininho! Uma escada estreita para se subir, era uma coisa bem... Primitiva. Não era nem primitiva, era uma coisa bem rudimentar. Mas todo mundo gostava de ir para lá no réveillon. Era uma turma boa.

 

P/1 – Você já pega a faculdade no finalzinho dos anos 1970, 1980?

 

R –1989 - 1989 não, 1979.

 

P/1 – O finalzinho dos anos 1970, então. E vocês chegaram a pegar alguma movimentação política - porque o Brasil já está vivendo a abertura política. Houve alguma movimentação estudantil nesse sentido ou não?

 

R – Na universidade tinha, mas eu sempre fui meio alienada nessa parte. Nunca fui muito de me ligar em política. Eu conhecia as coisas, mas não me envolvia, não tinha nenhum desejo.

 

P/1 – Mas havia um movimento?

 

R – Havia. Sempre teve o Diretório Central dos Estudantes (DCE), mas nunca vi passeatas, não me lembro disso. A gente pegou a primeira grande greve aqui na Universidade Federal, que foi em 1980, eu acho. Nessa época, foram três meses de paralisação, foi uma coisa terrível. Mas foi quando o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estava fazendo o censo e eu me cadastrei lá e consegui um trabalhinho. Trabalhei no Censo de 1980, exatamente no período da greve.

 

P/1 – Como recenseadora?

 

R – Como recenseadora.

 

P/1 – Foi seu primeiro trabalho?

 

R – Foi meu primeiro trabalho, meu primeiro dinheirinho. Foi muito bom.

 

P/1 – É? Quando você recebeu, você ficou emocionada?

 

R – Ah, foi. Eu tinha um sonho de ter um estojo de maquiagem da Payot, então, quando eu recebi o dinheiro todinho eu fui na Sloper, que era uma loja tradicional daqui de Pernambuco, um magazine, e comprei toda a minha maquiagem que eu adorava, com o meu primeiro salário.

 

P/1 – Ah, que bom.

 

R – É.

 

P/1 – Mas como recenseadora deve ter sido também uma experiência interessante, porque é sempre um aprendizado, não é? Conte para gente como foi.

 

R – O convívio. Você tinha que entrar na casa das pessoas, na intimidade, fazer perguntas. Às vezes, as casas estavam fechadas durante a semana e você tinha que ir à noite, de final de semana. Mas para mim foi bom, porque como eu estava com o horário flexível, a faculdade estava parada e eu estava sem muita coisa pra fazer, eu não tive problema de fazer adequação de horário. Foi um trabalho legal, eu gostei. Acho que é uma forma de você contribuir. Depois você ver o resultado nos quadros, nos gráficos, foi legal.

 

P/1 – Que bairro você pegou?

 

R – Boa Viagem, onde eu morava. Hoje está tendo de novo o recenseamento e eu [estou] incentivando os meus filhos a fazer. Eles se cadastraram na Fundação Cesgranrio. Mas os dois estão inscritos.

 

P/1 – Ótimo. Espero que eles tenham sucesso, porque é uma experiência. Acho que, principalmente nessa fase de idade, é muito interessante você ver outras famílias, né?

 

R – É saber o que o Brasil está pesquisando, não é? Por que é importante saber que tem uma televisão, que tem um telefone, os serviços. Eu acho legal.

 

P/1 – É verdade. E você se formou em que ano, Maria Emília?

 

R – Eu me formei em 1983.

 

P/1 – Você fez estágio?

 

R – Na realidade, meu curso são cinco anos e eu tentei antecipar seis meses, então, fiz o curso em quatro anos e meio, porque eu queria fazer o mestrado na Itália. Como eu entrei na primeira entrada de Arquitetura, começavam em janeiro as aulas e o mestrado começava em agosto na Itália, em Bolonha. Eu e uma amiga minha, a gente topou: passamos dois anos puxando as cadeiras, o que a gente podia, antecipando. E a gente concorreu, eu e ela.

Bolonha, na época, era uma grande área de intervenção internacional. Tinha havido uma intervenção que era o grande pull do momento junto aos arquitetos e eu tinha curiosidade. Eu concorri e fiquei esperando. Esse meu tio que trabalha na Rede, enquanto isso, perguntou se eu queria ser desenhista lá na Rede Ferroviária, temporária, e eu disse: “Ah, eu quero. Vou ganhar algum dinheiro enquanto espero a minha bolsa.” Aí comecei como desenhista da Rede. Em meados do semestre, nada da bolsa sair, nada do resultado sair, e houve um concurso para arquiteto, era uma vaga no Rio de Janeiro. E aí ele me incentivou muito: “Vá, faça.” Na época, a Rede Ferroviária era uma empresa que nunca atrasava salário, pagava muito bem e tinha um trabalho muito reconhecido nacionalmente. Foi quando eu comecei meu processo seletivo e fui passando nas etapas. Então, de dois em dois meses eu ia para o Rio, porque era psicotécnico, era isso, era aquilo. Foi quando saiu o resultado da bolsa na Itália. Aí fiquei em dúvida: o que fazer? Um concurso federal de renome, só tinha uma vaga para o Brasil todo; se eu fosse para a Itália eu ia precisar de novo da ajuda dos meus pais. Então eu brequei esse sonho, esse projeto. Eu me arrependo até hoje, mas a gente não deve olhar para trás. Graças a Deus tive sucesso no concurso e fui morar no Rio.

 

P/1 – E os estágios?

 

R – Na faculdade eu estagiei muito. A gente estagiava pelo Instituto Euvaldo Lodi (IEL). Eu ia para a faculdade à tarde ou de manhã e de tarde ou de manhã eu ia para o estágio. Era [na] Secretaria da Educação, algum órgão público ou escritório de arquitetura.

 

P/1 – O IEL é?

 

R – Instituto de…

 

P/1 – Educação?

 

R – Não. O IEL é um agenciador de estágios... Não sei como é a sigla hoje, não. Mas se for [consultar] na internet, ainda hoje ele existe.

 

P/1 – Na medida em que você antecipa, você tem que ‘rachar’ muito mais de estudar, né? Porque você estava fazendo o curso...

 

R – Eu deixei o estágio.

 

P/1 – Nossa, deve ter sido...

 

R – É, eu deixei o estágio. E foi exatamente na monografia, que é a parte mais pesada da gente; por acaso, meu projeto foi sobre Olinda, intervenção. Na época eu já estava com a tendência para ir trabalhar com preservação, né?

 

P/1 – Deixa eu retomar um pouquinho a questão do estágio, Maria Emilia. Você disse que fez muitos estágios. Você pode citar alguns para nós?

 

R – O meu primeiro estágio foi na Secretaria de Educação do Estado, a gente trabalhava nessa questão dos projetos de escola, creche e essas coisas. Depois fui trabalhar na Empetur, que é a Empresa de Turismo de Pernambuco, então a gente trabalhava com classificação de hotéis, com projetos de hotéis, era uma tipologia diferente. Depois eu achei que precisava ir para um escritório de arquitetura, para pegar um outro tipo de experiência. A gente foi trabalhar em Boa Viagem num escritório de arquitetura e depois, quando eu já tinha decidido entrar na Rede de desenhista, a gente abriu um escritório de arquitetura, eu e mais duas colegas. Então eu fiquei com a Rede Ferroviária e com o escritório de arquitetura, que foi muito bom, mas era muito trabalho, muito trabalho mesmo. A gente tocou ainda uns dois anos esse escritório. Dois anos não, porque eu fui para o Rio. Passei um ano no Rio, voltei e ainda fiquei no escritório. Depois a gente viu que não dava mais porque era muita atividade.

 

P/1 – Eu queria retomar também a questão da sua monografia. Foi sobre a intervenção em Olinda. E especificamente?

 

R – No Largo do Amparo. O Largo do Amparo é uma área tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) na cidade. A intervenção foi no sentido de fazer o resgate, fazer o levantamento das tipologias existentes naquele Largo, porque tinham casarões de primeiro andar, casas térreas, tinha a igreja e tinha o largo. Como é que se deu o largo? Tanto a questão da tipologia quanto a questão da evolução das esquadrias, das cobertas. Foi muito a questão da volumetria e a gente, naquela época, desenhava em nanquim, papel vegetal, não tinha AutoCAD, tudo era desenhado. Noites e noites sendo viradas para poder trabalhar. Até hoje eu tenho esse trabalho.

 

P/1 – A fotografia não era digital.

 

R – Não. Era preto e branco, às vezes, porque era necessário. Foi um trabalho que ficou muito bonito; a prefeitura de Olinda o aproveitou, foi legal. E até hoje o tenho, porque foi tanto sacrifício, tanto esforço, que eu ainda o guardo.

 

P/1 – Que bom.

 

R – Uma planta. Uma planta só! Enroladinha.

 

P/1 – E obteve nota máxima, provavelmente.

 

R – Não, eu passei. Não me lembro não a nota, mas fui aprovada.

 

P/1 – Recuperando a questão da vaga de desenhista: você foi trabalhar para desenhar o quê na Rede?

 

R – Eu fui trabalhar no Departamento de Planejamento. Na Rede Ferroviária a gente tinha dois setores: um na área de Planejamento, que era a parte mais local, de Recife, [em] que trabalhavam só os edifícios de Recife; e tinha uma área que era da Via Permanente - a gente chama de Engenharia da Via Permanente -, que pegava todos os estados do Nordeste em que a gente tinha jurisdição. Era um trabalho muito maior. Na época, eu fui trabalhar nesse setor fazendo só a parte das tipologias dos edifícios da rede de Recife.

 

P/1 – E era em que local esse seu escritório de trabalho?

 

R – O da Rede?

 

P/1 – Sim.

 

R – Era no centro, onde é o prédio da Rede Ferroviária, ali perto da Casa da Cultura.

 

P/1 – Sei. E tinha bastante gente trabalhando lá?

 

R – Muita gente. O prédio tinha umas duas mil pessoas.

 

P/1 – É mesmo? Descreva para gente um pouquinho esse panorama desse prédio.

 

R – Nós trabalhávamos [em] dois horários. Tinha um restaurante no quarto andar, então a gente, às vezes, ficava direto. Eu nunca ficava direto porque tinha uma carona para ir e para voltar, então eu sempre ia para casa. Mas era muito animado porque tinha gente jovem, assim como eu. Depois que eu entrei para a Rede não teve mais concurso, então não teve renovação nem de quadro nem de idade.

Era assim: na sexta-feira à noite a gente saía, o grupo dos jovens ia tomar uma cervejinha, saía direto do trabalho, era muito movimentado. O elevador tinha ascensorista, só podia andar com ascensorista. Tinha uma biblioteca maravilhosa, que eu gostava muito porque tinha umas revistas de Paris e da Itália, que eram assinadas, e eu ia lá nas minhas horinhas buscar essas informações. Tinha dois auditórios enormes também, em que a gente se reunia para palestras, reuniões.

 

P/1 – Era um prédio só? Vários andares? Quantos andares? Você lembra?

 

R – Dez andares na torre e os três primeiros andares se estendiam por uma área muito grande. Dava mais de quinze mil metros quadrados, o prédio.

 

P/1 – E cada andar tinha um...

 

R – Um departamento.

 

P/1 – E o seu departamento ficava em que andar?

 

R – Era no sexto andar.

 

P/1 – E como é que era o nome do departamento?

 

R – Departamento de Planejamento. Eu trabalhava diretamente com o setor de arquitetura. E o décimo andar era o Superintendente, depois era o Jurídico, o Administrativo e aí vinha o resto do grupo. Os últimos andares eram os andares que tratavam dos Recursos Humanos porque, às vezes, as pessoas não podiam subir e era um volume muito grande de pessoas e não poderia estar só com dois elevadores, então, eles tinham acesso pelas escadas. Era a parte de maior extensão do prédio. O estacionamento era enorme; o jardim era lindo - é lindo ainda, o jardim, muito bem cuidado. Tudo era muito bem cuidado, uma maravilha. Tinha um painel de [Francisco] Brennand maravilhoso que eu amava, ainda está lá. Era um trem: ele projeta um trem, mas cheio de pessoas, de bicho; as janelinhas têm gente, têm bichos, têm tudo. Todas as cargas ele representou nesse painel. Tinha um Banco do Brasil também, que prestava serviço à gente. Era uma mini-cidadezinha, tinha todos os serviços que você quisesse: banco, restaurante, lanchonete, o estacionamento era enorme, ainda é. Tudo isso está lá ainda, só que foi alienado, foi vendido ao Governo do Estado e passou para outro uso.

 

P/2 – Maria Emilia, eu gostaria de entender uma coisa: como foi o seu primeiro ano na Rede no Rio de Janeiro? Como foi sua mudança para lá?

 

R – Foi muito difícil porque o Rio era uma cidade que me espantava. Uma cidade muito grande. Olha, se Recife naquela época já foi um desafio, mas um desafio que eu estava querendo muito, o concurso... Eu, na realidade, fui para lá porque a vaga era para lá, mas eu sabia que não ia me dar muito bem porque estava muito longe da minha família, longe dos amigos. O Rio de Janeiro é uma cidade, para mim, muito fria. Eu não tinha amizades.

A Rede Ferroviária, por mais que eles me adotassem, e me adotaram -  eu digo que eu tinha um pai e um avô lá dentro. Mas no final de semana cada um ia para sua casa e você ia ficando, né? Era um prédio muito maior, com muito mais gente, com decisões muito mais importantes a serem tomadas.

Fui morar em São Cristóvão, que era um bairro muito ruim de acesso, qualidade de vida muito difícil. Fui morar lá porque fui morar com uma pessoa que foi casada com a minha tia, a que morreu, que é irmã do meu pai. Então eu fui morar com ela, pra eu também não ir sozinha para canto nenhum. Depois, eu fui tentar arrumar apartamento na Glória, que é o bairro em que eu queria ficar, mas vi que eu não ia dar. Eu não estava me enraizando, não estava me entrosando.

Era um trabalho muito bom porque fui para o Departamento de Engenharia. Eu gosto da área de planejamento, mas gosto muito mais do campo. Gosto mais de fazer projeto, então fui pra área de Engenharia. Um pessoal muito bom, muito capaz, que me deu muitas ajudas e orientações. É um trabalho novo, que também… Que espanta as pessoas novas, que assusta e eu não conhecia ninguém.

Com seis meses, eu vi que não dava. Todo dinheirinho que eu ganhava, eu comprava uma passagem e vinha embora para cá. De todo o meu dinheiro não guardei quase nada, porque a passagem aérea era muito cara, na época. E aí fui para o Diretor de Engenharia, que era um senhorzinho bem velhinho, e disse a ele: “Olhe, não dá para mim não. Eu quero ir embora.” Ele era muito bom, era um paraibano. Ele disse: “Eu vou lhe dar mais seis meses, se você passar seis meses e não se entrosar, você vem aqui que eu faço sua transferência.” E assim fui vivendo. Reencontrei-me com uns amigos de Maceió, uma senhora solteira, que morava em Copacabana, e aí foi o meu alívio, porque eu quase morava na casa dela. Ela era solteirona, tinha um monte de amigas solteiras que a gente pegava os carros e ia viajar para Paraty, para Angra. Então meus finais de semana começaram a ser mais prazerosos, né? Mas depois de seis meses, eu fui lá e disse a ele que não dava mais e o superintendente aqui também queria que eu voltasse, aí ele fez um pedido e eu voltei.

 

P/1 – Vou voltar para a época em que você era desenhista, porque eu queria saber: com que tipo de contrato de trabalho você ingressou para esse trabalho de desenhista?

 

R – Era terceirizado, não tinha um vínculo trabalhista com a Rede Ferroviária. Era temporário.

 

P/1 – Era um contrato, isso? Um contrato temporário?

 

R – Era.

 

P/1 – Era só mesmo pra você esperar aquela questão...

 

R – Da minha bolsa, do aceite da bolsa. Eu, na realidade, não queria vínculo nenhum mesmo com nada, porque tinha outra proposta pra ir pra Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf). Eram as grandes empresas na época: Chesf, Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), Rede Ferroviária; eram as propostas que a gente tinha de concursos.

Eu não queria nenhum vínculo, mas, resultado, eu terminei...

 

P/1 – (risos) Seu primeiro contrato foi o quê? De seis meses?

 

R – Não. Eram três meses, renováveis.

 

P/1 – Três meses? Então você entrou para ficar três meses e está há...

 

R – Vinte e dois anos.

 

P/1 – Certo. Havia muita demanda por arquitetos, nessa época? Você falou agora em Chesf. As empresas públicas, e mesmo particulares, precisavam de arquitetos?

 

R – Não, não. Não tinham muitos, tanto é que os concursos eram uma vaga, duas vagas. Era muito pouco. Para a Rede Ferroviária, a gente só tinha três arquitetos, e a gente atendia quatro estados. A demanda era grande, mas as vagas não existiam. Só tinha três vagas aqui porque dois já eram quase aposentáveis, então só ficou eu. Quando eu entrei mesmo para a Rede, acho que mais três, quatro, cinco anos, os outros dois se aposentaram. Então eu fiquei sozinha para o Nordeste e não teve mais concurso nenhum.

 

P/1 – Era mais engenheiro, Maria?

 

R – Todo o perfil era de engenharia. E homens. O perfil era transporte de carga, né? A atividade em si já tinha um perfil para ser homem, porque tinha que viajar muito, andar de locomotiva, de auto de linha. Às vezes não dava condições para a gente, mulher.

 

P/1 – Você entrou com o contrato de três meses e você ficou até o concurso?

 

R – Foi renovável. Aí eu fiz o concurso. As duas coisas: eu continuei sendo desenhista e prestando as provas de concurso. Esse concurso durou uns quatro ou cinco meses.

 

P/1 – É você falou que foi bem longo.

 

R – Longo. Você ia, esperava o resultado. Várias etapas, e você tinha que esperar o resultado daquelas etapas.

 

P/1 – Nesse período, você começou a andar de trem? Você já tinha andado de trem antes, precisava andar de trem?

 

R – Em Viçosa o trem era uma coisa importante, porque ele ficava numa praça muito grande, a maior praça da cidade, onde aconteciam as festas de Natal, a feira era nesse local. O agente de estação era uma pessoa muito graduada. Na época, os agentes eram pessoas do mesmo nível de um bancário, de um professor. A sociedade interagia com ele. E a estação de Viçosa era muito grande, ainda hoje é muito grande. Então eu tenho muitas lembranças do trem. O trem, acho que muitas pessoas têm [lembranças] da infância.

 

P/1 – Na infância, você andava de trem?

 

R – Não cheguei a andar, mas a gente ia para a estação. Meu pai ia lá visitar o agente da estação e a gente ia com ele, porque ele era cliente do banco do meu pai, os filhos dele estudavam com a minha mãe ou estudavam comigo, então...

 

P/1 – Quando chegava a locomotiva era um...

 

R – Ah, era um deslumbre.

 

P/1 – Quando mudaram vocês não usaram o transporte ferroviário?

 

R – Não, não. Era totalmente longe, bem longe.

 

P/1 – Mas, por força do trabalho, você precisou começar a andar mais de trem?

 

R – Não necessariamente. Depois que eu voltei do Rio, o trabalho da gente podia fazer de carro por que era nos pátios ferroviários. Mas três ou quatro vezes no ano a gente teria que fazer alguns trechos de trem, porque você tinha que fazer, digamos, a fiscalização de todos os imóveis durante o ano. Muitas coisas você tinha que ir não de trem, mas de auto de linha, que é um menorzinho, é tração a motor e a gente rodava. Então eram três, quatro dias andando na linha. Era pesado.

 

P/1 – Como era esse carro? Era confortável?

 

R – Não, nada.

 

P/1 – Nada? Como era?

 

R – O auto de linha deve ter o que? Uns cinco metros mais ou menos. Tem três bancos: um é para o motorista e os ajudantes e os outros dois eram para as pessoas que vão trabalhar. Eram de madeira, às vezes, tinham um estofadinho, mas nada de conforto.

Às vezes, a gente passava em lugar com muita cana. A primeira vez, eu não sabia, mas depois eu tinha que comprar blusa de manga comprida, porque a gente tinha que ir de manga comprida, protetor solar. A gente chegava para almoçar em qualquer lugar e tinha que comer qualquer comida. Quando você chegava aqui ia se banhar porque não aguentava, era aquele caldo escuro que saía do seu rosto. Isso com boné, a gente tinha que se proteger. Mas eu gostava; eu adorava quando andava de auto de linha porque eu gosto mesmo de ir para o campo. Eu não gosto muito de escritório, sabe? Você ia com a prancheta anotando, tirando fotografia, sem ser digital.

Outra dificuldade é que a gente ia e não tinha outra mulher para viajar. Tinha poucas mulheres na Rede para trabalhar, muito poucas. Arquiteta só tinha eu como mulher, e engenheira deviam ter umas cinco ou seis, mas raramente elas iam para esse serviço com a gente. Às vezes, você queria ficar à noite conversando coisas de mulher e não dava. Só viajava com homem.

 

P/1 – E você falou que vocês ficavam três, quatro dias. Tinha lugar para vocês dormirem?

 

R – Tinha. A gente parava nas cidades.

 

P/1 – Sempre nas cidades.

 

R – É, programava. Digamos assim: a gente ia daqui para Propriá, então a primeira parada era em Palmares. A gente tinha que dar conta para chegar em Palmares; depois vinha acho que era Quipapá, ou São Benedito do Sul, já em Alagoas; depois era em Maceió, Arapiraca. A gente cronometrava e planejava a viagem de forma que parasse em cidades que tivessem hotel, que tivessem condições.

 

P/1 – Para poder pelo menos tomar um banho, né?

 

R – Ah, tomar um banho.

 

P/1 – Quando você estava lá como desenhista, quando foram os seus primeiros tempos na Rede, também havia poucas mulheres?

 

R – Muito poucas, sempre foram muito poucas. Sempre foi um perfil mais masculino. Os cargos, tudo, quem ocupava mais eram os homens.

 

P/1 – Mesmo nas funções administrativas, não é Maria Emilia? Tinha muito homem, não é isso?

 

R – Muito pouca mulher, muito pouca mulher, mesmo em nível médio. Era um perfil assim... Talvez pela vocação da própria empresa, de ser de carga, né? Acho que quando eles faziam concurso, concurso para uma empresa de carga, acho que a pessoa pensava duas vezes antes de ir.

 

P/1 – Verdade. Mas havia algum tipo de discriminação?

 

R – Não, nunca houve nada assim. Ao contrário, eu acho. Teve uma época em que os trens estavam caindo muito, então na cabine da locomotiva ia um engenheiro. Se o trem estava indo para Salgueiro ia um engenheiro até lá; se ia para Mossoró, ia um engenheiro. E tinha a escala: todas as pessoas de nível superior tinham que participar.

Tentaram colocar a gente - as mulheres que, na época, eram quatro. A gente só ia até a Região Metropolitana e buscavam a gente. Mas viram que não dava certo porque era um trabalho muito pesado, não dava para a gente. Queria ir ao banheiro: como você ia ao banheiro? Não dava, né? Então eles reconheceram e não colocavam mais a gente na escala.

 

P/1 – Havia até um certo carinho?

 

R – Ah, sim.

 

P/1 – Na entrevista do Doutor Getúlio eu percebi um pouco isso. Quando eu perguntei ele disse que não, ao contrário, ele gostava muito de trabalhar com as mulheres,  mas elas que não... Não havia mulheres.

 

R – É, não havia mulheres. Mas tinha um cuidado, ainda mais a gente quando chegou. Acho que eles tinham mais cuidado ainda: novinha, saindo da faculdade. O cuidado em andar no auto de linha, que não é qualquer pessoa que pode andar, você tem os cuidados todos. E, às vezes, a gente se arvorava. Então eles tinham...

 

P/1 – Era uma aventura, né?

 

R – Era uma aventura. Teve uma vez que a gente foi para Quipapá, era um acidente ferroviário e eu fui com Aguilar, José de Aguilar Barros Góes, você chegou a falar com ele? Aguilar era como um pai para mim, porque ele [me] protegia de tudo. A gente subiu a serra de Quipapá num auto de linha, uma chuva! E o trem lá, virado. Ele ia para fazer o resgate e eu ia para ver se tinha tido algum dano com os imóveis, mas na volta a gente já não aguentava mais. A gente tinha tanto frio que parou numa bodeguinha e tomou uma lapada de conhaque. Eu me lembro que ele dizia assim: “Tome, tome.” Eu: “Ah, não quero, não bebo.” E ele: “Tome, senão você não vai aguentar.” E assim, molhada até [voltar para] o hotel. Você passa o dia todo no campo.

 

P/1 – Quando você volta do Rio, você volta com a função de arquiteta?

 

R – É, mas eu volto não mais para função de planejamento. Eu volto para o que eu chamo [de] o coração da empresa, que é a parte de Via Permanente. É onde eu gostei de trabalhar, muito mais do que a Área de Planejamento.

 

P/1 – Que é onde havia também uma demanda maior por uma arquiteta, não é isso?

 

R – Muito maior.

 

P/1 – E aí passa também a cuidar dessa questão do patrimônio dos prédios, não é isso, Maria Emilia?

 

R – É, é isso.

 

P/1 – Você ficou viajando para cima e para baixo durante quanto tempo, mais ou menos?

 

R – Ah, até o final, até a Rede ser privatizada. A função da gente era todo o patrimônio ferroviário. Foi sendo reduzido o quadro, sendo reduzido, reduzido… Cada vez menos pessoas e o trabalho continuava o mesmo.

 

P/1 – Você foi sentindo isso?

 

R – Muito. Os colegas indo embora, teve aquela era do Presidente Fernando Collor de Mello, que foi um enxugamento. Toda sexta-feira tinha uma chamada de quem ia ser demitido, dispensado. Era triste. Foram muitos meses assim, uma pressão. Toda sexta-feira saía uma listagem.

 

P/1 – Vocês conseguiam trabalhar como?

 

R – Não se conseguia. Não se conseguia trabalhar, não tinha como. [Era] Muita pressão. Nessa época, eu tinha tido meu terceiro filho e nem minha licença-maternidade eu gozei toda. A pressão de voltar era grande porque diziam que se ficava vulnerável. Na realidade não se fica, porque você tem a lei que lhe acoberta, mas era muita cobrança, muita pressão. Aliás, era meu segundo filho; quando ele tinha três meses, dois meses e meio, eu já voltei para trabalhar.

 

P/1 – Quer dizer que aquele prédio maravilhoso, com muita agitação, duas mil pessoas, foi diminuindo.

 

R – Foi minguando.

 

P/1 – Deve ter sido muito ruim, né?

 

R – Muito triste. Desmobilizar o que você ajudou a construir, isso foi partindo o coração da gente. E interferiu na vida pessoal também.

 

P/1 – Acordava de manhã e, às vezes, não tinha...

 

R – Não, motivação nenhuma. E na sexta-feira era o pior, porque você não sabia o que vinha. Nós somos regidos pela Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) e naquela época tinha uma meta a cumprir. O Collor queria porque queria fazer... Muito difícil.

 

P/1 – Ele queria, na verdade, fazer um primeiro enxugamento.

 

R – Mas não tinha um critério, não tinha.

 

P/1 – E o Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias do Nordeste (Sindifer-Pe), como é que ele se posicionou, Maria Emilia, nesse período do Collor?

 

R – Ah, o sindicato ia para lá, fazia movimentação, fazia paralisação, mas naquela época quem queria fazer paralisação? Você já estava num risco iminente de ir para rua, você não fazia parte do sindicato. A primeira grande paralisação da gente, a gente passou quase dois meses e meio parado e foi tudo descontado do salário. Naquela época, eu já era casada, meu marido era da Rede também, então o meu pai me ajudou porque a gente [ficou] sem salário. Meu pai teve que me socorrer. Depois dessa, eu não fiz mais greve.

 

P/1 – Que época foi essa primeira greve?

 

R – Essa foi em 1990.

 

P/1 – Bem esse período Collor.

 

R – É o período Collor.

 

P/1 – Dois meses e meio descontando tudo. Você era sindicalizada ou não?

 

R – Não. Eu nunca fui muito ligada a essa parte, nunca fui.

 

P/1 – O sindicato tinha uma atuação mais forte talvez com o pessoal da operação, não? Ou também com o pessoal do Administrativo?

 

R – O sindicato, na realidade, tem umas posturas muito fortes, então com o pessoal do Administrativo, como era um pessoal de maior conhecimento, eles tinham um atrito maior. Em vez de agregar, eles segregavam a turma, por isso se juntavam mais aos funcionários da operação, que eram pessoas que tinham menos conhecimento, então acreditavam muito naquilo. A gente, no prédio-sede da Rede, [via que] quando eles faziam manifestações era sempre denegrindo as pessoas. Falavam nominalmente, falavam da vida pessoal, então isso afastou muito o apoio que a Administração poderia dar ao Sindicato.

 

P/1 – O que também não é o princípio da atuação sindical.

 

R – O sindicato daqui, né? Porque tinha o sindicato do Rio Grande do Norte que tinha uma outra visão. Mas o daqui sempre foi meio pesado nesse sentido.

 

P/1 – Que coisa! Mas ainda na época do Governo Collor não se falava em concessão ou privatização. Ou já se falava?

 

R – Falava-se em desestatização, que era aquele processo de enxugamento; e o que seria a desestatização? Todo mundo ficava com receio de onde ia chegar, mas, por enquanto, não se sabia esse horizonte, onde é que ia se chegar, não. Isso já foi mais na época da presidência de Fernando Henrique Cardoso.

 

P/1 – Sim. Aí vocês passaram aquele período, houve então esse impacto e, depois, as atividades foram voltando ao normal, ou não?

 

R – Meio que capenga, sabe? Meio pela metade, porque a desmotivação era muito grande. O serviço começou a ser preterido, porque se você tinha dez para fazer um serviço e hoje você tem três ou quatro, você via que a qualidade do serviço tinha caído. Por isso a gente pensava que vinha uma privatização, até porque já estava acontecendo lá na Argentina, já tinha acontecido; se sabia que estavam querendo copiar o modelo de lá e a gente começou a se preparar para isso. Depois disso tudo, veio um grande investimento do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES) na linha férrea, exatamente para tornar mais atrativa a malha ferroviária e conseguir um preço maior. Então tudo estava atrelado, entendeu? Mas a preocupação nossa, de funcionários, naquele momento, era salvar o emprego da gente.

 

P/1 – E havia aquela conversa de que a Rede do Nordeste era deficitária, não é?

 

R – Ela sempre foi deficitária, mas a gente se pergunta até que ponto isso realmente deveria ter acontecido, né? Porque a carga, você tinha gesso, você tinha gipsita, tinha o açúcar, o milho. Na realidade, a grande diferença do Nordeste para as outras regiões do Brasil é que nas outras regiões você tinha poucas mercadorias transportadas, mas grandes quantidades. Você tinha o corredor de Paranaguá, o corredor do Porto de Santos - corredor de exportação, que tinha todo o minério, aquela área rica, então era um produto só e sempre, não era sazonal. Aqui não. Aqui eram vários produtos que tinham suas épocas, então você tinha que estar buscando sempre um contato comercial. O contato comercial daqui era muito ativo. Era deficitário nesse sentido, na questão da diversidade da carga. Difícil.

 

P/1 – Mas em compensação também muito fundamental na questão do transporte de passageiros.

R – Isso foi desmobilizado, né? Tinha o transporte de passageiros de longo percurso e de curto percurso; tudo foi se acabando. Foi quando entrou a Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU). Em 1985 foi a inauguração, em 1983 foi quando a gente perdeu mais esse espaço. Não digo perdeu, mas foi tirada da Rede uma atividade e junto com ela foram muitas partes do patrimônio ferroviário porque a CBTU foi constituída toda em cima do patrimônio ferroviário da Rede. Isso quer dizer que o ativo da CBTU foi todo migrado da Rede Ferroviária de graça. Isso não foi pago porque é tudo Governo Federal. Para eles se constituírem enquanto empresa eles tinham que ter um ativo, um respaldo imobiliário e isso foi a Rede que deu para eles. Todo o metrô foi implantado dentro dos terrenos da Rede Ferroviária.

 

P/1 – Isso foi no começo dos anos 1980?

 

R – Aqui foi em 1982, com a inauguração mesmo em 1985, quando foi mesmo o restauro da Estação Central.

 

P/1 – Então, a partir de 1982, esse patrimônio passou a ser incorporado à CBTU. Uma coisa que eu achei interessante é que alguns funcionários da Rede também foram junto para CBTU, é isso?

 

R – Sim.

 

P/1 – Houve algum critério ou não?

 

R – Se você quisesse, você ia.

 

P/1 – Era o funcionário que fazia a opção?

 

R – Às vezes tinha um amigo seu que ia e ele chamava. Não teve um critério, não teve um concurso, uma seleção, não. Você ia se tivesse vontade de mudar para lá.

 

P/1 – Já se sabia que seria uma operação do metrô e tudo isso?

 

R – Já sabia. E já sabia que a Rede ia passar por algum processo, né?

 

P/1 – A troca do trabalhador se deu automaticamente? Não houve nenhuma finalização de contrato, não foi isso? Foi uma coisa esquisita, isso.

 

R – Ah, não lembro disso, se foi sucessão trabalhista. Mas agora também foi sucessão trabalhista, porque a gente passou para a VALEC Engenharia, Construções e Ferrovias S/A e a carteira de trabalho é a mesma, o vínculo é o mesmo. Chamam juridicamente de sucessão trabalhista.

 

P/1 – Que está, provavelmente, no acordo de concessão.

 

R – Está na Lei de Extinção. A Lei de Extinção da Rede já prevê que todos os recursos humanos da Rede sejam passado para a VALEC.

 

P/1 – A gente estava falando um pouquinho dos anos 1990, do Governo Collor. E você, inclusive, como arquiteta, provavelmente estava vendo a deteriorização do patrimônio, não, Maria Emilia? Ou é só uma intuição que eu tenho?

 

R – Aquilo foi se deteriorando porque eu não poderia jamais trabalhar nos quatro estados com aquele universo de patrimônio. Logo que eu cheguei na Rede, devia ter uns dez desenhistas só na área de Via Permanente. Tinha topógrafo, tinha assessor de topógrafo, era muito movimentado. Chamava-se ala técnica; nessa ala técnica éramos eu e o Adrisse, que era um arquiteto, que logo depois se aposentou e mais uns dez funcionários. Era muito bom, o pessoal produzia muito, tudo no nanquim, no pantógrafo e no normógrafo. Mas, depois as coisas foram... Foram se aposentando, não houve uma reposição e teve também demissão.

 

P/1 – Explique para a gente o pantógrafo e o normógrafo. Acho que tem um monte de gente que nunca ouviu falar desses equipamentos.

 

R – O normógrafo é o que a gente usava para arquitetura. Era uma peça, tipo uma aranha, como a gente chamava. Você desenhava na régua a letra e a letra aparecia aqui na sua planta; então, era uma transcrição da régua que você escolhia o tamanho da letra. O pantógrafo era para você fazer uma ampliação dos mapas; então se você tinha uma linha e ia fazer uma retificação na linha você usava o pantógrafo para fazer essa retificação.

 

P/1 – E você fala muito na área da Via Permanente. Havia uma outra área que fazia o mesmo serviço que vocês?

 

R – Não. A estrutura da Rede tinha a Superintendência, que era nos quatro Estados: Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte; tinha as Superintendências de Produção, que davam conta de toda a parte do transporte de carga e o comercial ficava na Superintendência. Ela existia aqui em Pernambuco, no Rio Grande do Norte e em Alagoas e dentro dessa Superintendência de Produção tinha Transporte, Mecânica, Elétrica e Via Permanente, mas arquiteto só tinha na Via Permanente.

 

P/1 – Passou um pouco esse período e o governo Fernando Henrique veio a fazer o que não foi uma privatização, na verdade foi uma concessão. Não é isso, Maria Emilia?

 

R – O termo é concessão, sim.

 

P/1 – E como vocês ficaram sabendo? Até então vocês… Ainda acho que vinha uma conversa, sempre tem aquele mais otimista: “Não, não é assim...” Aí realmente aconteceu, não é?

 

R – É, a desestatização começou pelas regiões Sul e Sudeste. Nós fomos a última Superintendência a ser concessionada e ela consistia em: o contrato de concessão, que era o contrato de transferência para concessionária da operação do trem, então, simplesmente, operação, onde passou a concessão do transporte de carga, porque o transporte de passageiros já tinha sido dado à CBTU; e o arrendamento dos bens necessários à operação ferroviária, então todo ano a concessionária pagava. Não sei hoje como está o processo, mas acredito que está da mesma forma: você arrenda como se você alugasse, então você paga aquele aluguel por ano. Também tem o contrato de compra e venda. Foram os três contratos. O compra e venda foi aquele [em] que a concessionária chegou a comprar o mobiliário, coisas mais de escritório, coisas menores. Foram esses três contratos que aconteceram nesse processo que chamam de privatização, mas na realidade foi uma concessão.

 

P/1 – E para vocês, trabalhadores.

 

R – Para nós foi terrível, terrível. Veja: éramos 560, em torno disso, e a meta era chegar a 18 pessoas.

 

P/1 – De 560 pra 18 pessoas?

 

R – É. Eu estava já de licença médica do meu terceiro filho, porque eu estava na iminência de abortar. Foi quando ligaram lá para casa e disseram: “Olhe, você está na lista dos demitidos porque seu marido também é funcionário e um dos critérios é que não tenha cônjuge na empresa.” Eu não sei como não perdi o meu filho naquela hora, porque foi um choque; foi assim: ligaram e: “Pá!” E eu comecei a pensar o que a gente ia fazer. Primeiro porque eu estava na licença-maternidade, então, juridicamente, eu estava totalmente acobertada. Você está grávida, você ainda tem um tempo depois, tem a parte de amamentação mas  a vida não ia ser só aquele um ano. O que a gente ia fazer?

Foi quando o meu marido começou a estudar para concurso porque a gente achou terrível esse critério; até juridicamente, eu acho que ele não se sustentava, mas foi uma ameaça e a gente não queria viver daquela forma. Ele começou a estudar para concurso e, graças a Deus, ele passou e foi embora da Rede.

 

P/1 – E foi alguém do Departamento de RH que ligou?

 

R – Sim, sim. [Em] toda lista eu aparecia, porque era assim, critério de demissão: quem tem licença médica. Eu tinha tido já dois filhos, então, estava lá com oito meses de licença médica. Quando viam que tinha aparecido a questão das mulheres porque elas tinham licença-maternidade tiravam as mulheres, mas foi um critério que eles usaram para demissão. E depois apareceu esse critério, maluco, que a gente se assustou. Realmente nos assustamos muito. Já tínhamos dois filhos. Então... Mas foi bom, tudo na vida tem um lado bom. O redirecionamento na vida dele foi muito bom.

 

P/1 – Legal, então vamos aproveitar para falar de como é que vocês se conheceram.

 

R – Eita! Danou-se!

 

P/1 – Ah, vamos lá! Como é que ele chama?

 

R – Lúcio.

 

P/1 – Lúcio? Bonito nome.

 

R – Ele também é muito bonito! (risos)

 

P/1 – E vocês se conheceram como?

 

R – A gente se conheceu lá na Rede. Ele trabalhava no setor de Informática e eu trabalhava na Via Permanente. As nossas vidas particulares já estavam bem: ele tinha namorada, eu tinha namorado. Quando a gente se conheceu, foi quando eu fui morar no Rio, então não deu para continuar a relação porque eu fui morar fora. Mas quando eu voltei, a gente começou a namorar mesmo, e pouco depois...

 

P/1 – E como foi? Você olhou para ele e já achou que...

 

R – Não! Eu nem olhava! Ele tinha uma noiva e eu também tinha um noivo, então eu nem...

 

P/1 – Nem olhava. Você estava noiva?

 

R – Eu tinha um noivo de Maceió.

 

P/1 – É mesmo? Ele estava lá e você estava aqui, é isso?

 

R – Era. Ele morava lá e eu morava aqui. E ele era muito treloso e eu ‘cortava jaca’ para ele com uma amiga minha da Rede, porque ela gostava dele. A gente não conhecia a noiva dele, então a gente fazia as trelas da gente. Numa dessas saídas, tentando convencê-lo a ficar com ela, sobrou para mim. (risos) E a gente está até hoje aí.

 

P/1 – Mas foi meio conjunto ou a iniciativa foi mais dele?

 

R – Ah, nem sei. Foi numa cervejada da vida.

 

P/1 – Ah é? Que legal. E aí você terminou com seu noivo?

 

R – É, eu já estava meio assim. E ele também.

 

P/1 – Ah é? Ele era o mesmo noivo da época do Rio?

 

R – Era, então já tinha uma relação meio fragilizada aí. Eu que perdi minha amiga, né?

 

P/1 – Eu ia te perguntar se ela ficou brava.

 

R – Nossa! E eu decepcionada, porque eu não esperava nada. Foi uma coisa tão de relance; coisas da vida. Fiquei morta. Só fazia chorar contando a ela as coisas. Tinha que contar a ela a verdade e foi muito duro para mim. Porque na realidade eu não imaginava nem que essa coisa ia durar até hoje. Porque a gente não sabe os nossos destinos, não é? Mas foi engraçado.

 

P/1 – E vocês começaram a sair, a namorar.

 

R – É. Ele tinha uma moto, a gente andava muito de moto, fazia muitos passeios, ia trabalhar de moto. E logo depois a gente casou porque a gente já tinha uma estrutura profissional firmada, a gente já tinha tido nossas experiências de vida, não tinha muito o que esperar mais. E aí a gente casou. Continuamos na Rede até esse momento em que ele fez esse concurso.

 

P/1 – Qual era a função que ele tinha? Era no Departamento de Informática, mas qual era a função específica que ele tinha?

 

R – Ele era engenheiro. Engenheiro com especialização na área de Informática. Ele tinha tido experiência nessa área, conseguiu a vaga. Foi um concurso, entraram vários engenheiros nessa época. Foi o mesmo concurso meu, só que eu fiz no Rio, porque não tinha vaga de arquiteto para cá, e ele fez para Recife.

 

P/1 – E ele é daqui mesmo?

 

R – Ele é daqui.

 

P/1 – Então vocês namoraram um pouquinho, noivaram, casaram. Como é que foi o casamento?

 

R – Ah, foi ótimo! Casamento de arquiteto, né?

 

P/1 – (risos) É? Como é, eu não sei.

 

R – Hoje eu não sei mais como é, mas na época era um casamento mais simples: os vestidos eram curtos, não tinha véu, essas coisas. Arquiteto queria ser diferente em tudo, então foi um casamento bem gostoso: de manhã, na época de São João, no Poço da Panela, que é uma área rural da cidade, numa capelinha bem singela. Depois, nós viajamos. Teve uma feijoada na casa da minha mãe porque toda a minha família de Maceió veio. Então você imagina: um apartamento de três quartos ia acomodar tanta gente? Mas foi uma farra boa. Do casamento, a gente foi para a feijoada. Foi ótimo.

 

P/1 – A feijoada foi no apartamento?

 

R – Foi embaixo, no salão.

 

P/1 – E a família dele era uma família grande também?

 

R – Ele tem cinco irmãos, contando com ele. Ele é o quarto. Os pais dele são bem idosos, tanto é que não são mais vivos. A mãe dele faleceu há dois anos; o pai dele eu conheci muito pouco, porque quando eu o conheci ele já estava com mal de Alzheimer, então muito poucas histórias eu tenho dele a contar. Ela não, ela já era uma mulher mais firme, muito culta, muito calma, tranquila. Mas muito culta. Ela fazia doces, quitutes para fora, deliciosos, e ele era o provador dela. Ela sempre o chamava para provar as coisas.

 

P/1 – Mas ele não era gordinho, não, era?

 

R – Não, não. Ele era atleta também. Até hoje, ele se mantém.

 

P/1 – Ela fez os doces do casamento também ou não?

 

R – Não, não. Aí ela estava com outras preocupações, curtições.

 

P/1 – Mas as famílias se deram bem?

 

R – Ah, sim. Na realidade, a faixa etária é bem diferente, meu pais são mais novos. A gente morava em Boa Viagem e eles moravam do outro lado da cidade, então só se encontrava de fato nas festas, nas comemorações.

 

P/1 – Vocês tiveram quantos filhos?

 

R – Tivemos três filhos.

 

P/1 – Então vamos falar dos filhos. O primeiro...

 

R – Bruno, Karina, Rafael.

 

P/1 – Quais as idades? Bruno está com quantos anos?

 

R – Bruno está com vinte, Karina está com dezoito e Rafael está com treze.

 

P/1 – Rafael é o mimado, então?

 

R – Não, nem tanto. Poderia ser mais.

 

P/1 – Retomando: ele fez um concurso porque estava já nessa situação. Repete pra gente: ele fez um concurso pra...

 

R – Ele fez para auditor da Prefeitura. Foi um momento muito difícil na vida da gente porque eu já estava grávida. Eu também tinha uma irmã grávida em Maceió com problemas também de abortar, de sangramento. Minha mãe foi para Maceió ficar com ela e meu pai veio ficar comigo, porque Lúcio e eu, a gente trabalhava oito horas na Rede, então, à noite ele tinha que estudar, e tinha as crianças; na hora do almoço, tinha coisa para fazer, tinha os pagamentos no banco, tinha o supermercado. Então meu pai assumiu tudo isso. Tudo, tudo, tudo: ele se mudou lá para casa. E aí eu fiquei mais tranquila, porque ele também dava apoio aos meninos; as crianças iam para a natação, para o futebol, para o balé, essas coisas. Ele assumiu tudo e Lúcio teve tempo para estudar, porque também é muito perseverante e disciplinado. Autodidata porque, na época, era um concurso muito pesado e ele não fez cursos, porque também não tinha tempo. Ele passou pouco tempo lá porque depois prestou outro concurso pra Receita Federal e passou, é onde ele está hoje trabalhando.

 

P/1 – Deixa eu retomar um pouquinho: você pegou muito pouco tempo de Rede tranquila, porque foi de 1982 até 1990, é isso?

 

R – Nós fomos de 1983 até 1990. Foi um bom pedaço, quase dez anos, eu acho.

 

P/1 – Então vamos focar um pouquinho mais nesse pedaço? Havia capacitação, cursos que a Rede proporcionava?

 

R – Ah, sim, muitos. Muitos cursos mesmo. A gente fazia tanto cursos aqui como cursos fora. Interagia muito entre as Regionais, então a gente montou um trabalho de inventário do patrimônio ferroviário na época - muito preliminar, mas junto a outros colegas de outros Estados foi se propagando e foi implantando em outros locais. Então tinha uma interação entre as Regionais da Rede. E a Rede fornecia cursos não só na área da formação dela; quando a informática começou com a questão do microcomputador, ela deu todo esse treinamento para a gente desses softwares todos. De línguas, também a gente teve cursos lá.

Quando passou pelo processo de desestatização próximo ele deu uma capacitação, porque a empresa na realidade ia mudar o seu perfil, sua vocação; ela ia deixar de ser de transporte de carga pra ser tipo uma administradora de imóveis - de imóveis e de contrato. E a gente fez um curso de especialização na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), todos nós fizemos, do Brasil todo, de como administrar essa carteira imobiliária; então, na realidade, ela preparou a gente para essa mudança de vocação da Rede. Mas, na época áurea, como eu chamo, das construções, dos investimentos, tinha reuniões de planejamento, então você tinha toda uma preparação para onde é que ia investir, quais são as linhas de investimento da empresa, ou os eixos estruturadores, que, geralmente, era o trem, chegavam no trem, mas para chegar no trem você tem que ter as capacitações. Tinha a Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (Cipa), que era de segurança; depois teve um projeto de racionalização, visando à questão do meio ambiente, que era a questão do papel, de como tratar essa questão do meio ambiente na própria manutenção das Linhas. A gente tinha os hortos florestais, tinha as Unidades de Tratamento de Dormentes que a gente fazia, na época, com o creosoto, que danificava o meio ambiente de uma forma muito selvagem, mas a gente não sabia disso. E outra coisa era a capinação, a capina química, que matava não só o mato, mas as plantas que estavam em volta. Ele tem até uma história pra contar; ele contou aquela daqui de perto de Pau d’Alho.

 

P/2 – Dos coqueiros?

 

R – Dos coqueiros.

 

P/2 – Contou.

 

R – Nossa Senhora! Aquilo foi um rebu na Rede, foi um processo na gente. Bom, então, quando tinham avanços tecnológicos a Rede também capacitava a gente.

 

P/1 – Sempre muito suporte então, pelo que você está contando.

 

R – Muito. O salário era muito bom, tinha as promoções: todo ano você podia ser promovida, por merecimento ou por tempo de trabalho. Então, se você fosse dos dois, todo ano você poderia ser. Eu, na verdade, dei uma grande guinada porque lá a gente tem o PCC, que é o Plano de Cargos e Salários, que você vai galgando os seus níveis, só que eu consegui, com três anos de Rede, pular logo que eu cheguei uns dez níveis, porque eu me equiparei a uma colega minha que fazia o mesmo trabalho que eu. A gente entrou com Processo Administrativo e reconheceram que eu fazia a mesma coisa que ela; para mim foi ótimo, foi um plus no salário. Mas tinha muito investimento, tinha muitas reuniões, as Regionais interagiam, a parte operacional também interagia...

 

P/1 – Era isso que eu ia te perguntar: não era só pra esse nível, mas acho que como um todo, não?

 

R – Como um todo, porque o trem quando saía daqui de Recife, digamos, ele podia ser a mesma locomotiva a chegar em Salvador, chegar ao Rio de Janeiro. Podia ser a mesma locomotiva. Geralmente, tinha um limite virtual até onde iam os equipamentos e o material rodante de cada Regional para não ir muito longe e não ter o custo de voltar, até porque a manutenção era feita aqui, as fichas. Então tinha também essa interação. Na época era uma briga pra ver quem fazia maior quantidade de Toneladas por Quilômetros Úteis (TKU), acho que alguém já deve ter falado isso, né?

 

P/1 – Não, mas por favor, conte.

 

R – É o termo de Tonelada por Quilometro Útil, chama TKU. Cada Regional queria um desafio: quem ia passar quem em produção. Então, às vezes, o trem passava para outra regional, mas a gente queria que voltasse logo porque a gente tinha outro tempo para fazer, que ia contar pontos para a gente. Mas muito legal.

 

P/1 – Era saudável.

 

R – Era uma relação bem legal.

 

P/1 – E você se relacionava com esse pessoal da operação?

 

R – Ah, eu gostava muito do pessoal.

 

P/1 – Conte um pouquinho pra gente.

 

R – Eu sempre gostei muito do campo. Quando a gente viajava, nunca viajava só o arquiteto, sempre viajava mais um engenheiro calculista, ou o estrutural, ou o eletricista. Sempre fazia projetos de forma que quem fosse trabalhar naquele projeto viajava junto, então a gente aprendia um pouco do que o outro estava fazendo. A parte de telefonia, de telecomunicações a gente ia aprendendo, e eles também iam aprendendo o nosso. O trabalho era coletivo, conjunto, quando voltava para cá, para a sede, para Recife. A gente, depois de fazer o projeto, nunca liberava logo, porque tinha o calculista para olhar, o eletricista. Então era muito bom, uma época muito boa.

 

P/1 – E essa turminha de estação: maquinista, chefe de estação, bilheteiro. Você também se relacionava?

 

R – Eu gostava muito deles, porque quando a gente ia para campo, a gente tinha que se relacionar bem porque a informação vinha toda deles e eu nunca tive também essa questão de “doutora”. Eu nunca tive essa relação muito distante porque eu gosto muito de conversar também. Quando eu chegava nos campos, eu sempre me encostava neles porque eles sempre tinham histórias muito boas para contar e eles tinham uma cozinha mecanizada em que faziam uma comida deliciosa! Sempre que eu ia para as minhas fiscalizações eu colocava para parar na hora do almoço perto de uma delas, porque era muito boa! Eram eles mesmos quem faziam, os próprios funcionários que compravam charque, feijão, arroz.

 

P/1 – Havia várias cozinhas mecanizadas?

 

R – É. Havia.

 

P/2 – E como elas eram?

 

R – Elas podiam ser móveis ou fixas. As fixas: São José da Laje tinha uma, Palmares tinha outra; era uma cozinha normal, como um restaurante. E as móveis eram num vagão adaptado para cozinha, então eles levavam tudo: panela, prato, e na hora a gente comia em qualquer lugar. Tinha um vagão também com umas mesas grandes, mas ninguém gostava de ficar, porque era mais calor, então a gente ficava no campo mesmo, em cima de alguma pedra, por ali. Ela era mais usada quando tinha acidente ferroviário, porque você tinha que se manter num lugar muito tempo até você resgatar a locomotiva ou o vagão. Então elas eram encostadas num desvio ferroviário, esses dois vagões, e lá ficavam até acabar o acidente ferroviário, que, às vezes, durava dia e noite, dia e noite... Não se parava para dormir, não!

 

P/1 – Aproveitando esse gancho conte como era essa situação.

 

R – Olha, a mulher não ficava muito, não. Eu só participei de muito poucos, eu ia muito com Aguilar.

 

P/1 – Mas dos que você participou conte um pouco: primeiro, como vocês ficavam sabendo. Como é que se sabia de um acidente?

 

R – Na nossa época já tinha o rádio, então se passava um rádio - quando o maquinista não tinha sofrido nenhum acidente, porque quando acontecia com ele próprio, às vezes acontecia de ele não conseguir se comunicar. Mas sempre se sabia ao longo da linha e se passava um rádio, um telefone para a Administração Geral. Sempre era na Superintendência. Daqui partia uma equipe de socorro, que partia, dependendo do nível de acidente: se tombou, se descarrilou, com os equipamentos necessários, como o guindaste e a própria mão de obra; ia a mais especializada se era conservador de linha, ou se precisava de um engenheiro mecânico porque tinha que serrar não sei o quê da locomotiva, então, tinha que saber onde é que ia serrar. De acordo com o grau do acidente e com o que aconteceu, a gente montava a equipe de socorro e, às vezes, o arquiteto também ia.

 

P/1 – Você estava explicando para gente lá fora que você tinha que ir quando havia alguma interferência no imóvel, é isso?

 

R – É, algum dano em algum imóvel por perto. A gente tinha que ir. Eu fiquei algumas vezes mais por curiosidade, porque o arquiteto não precisava ficar passando a noite. Ele fazia o registro e podia ir embora, mas, às vezes, até por solidariedade também, o pessoal, a “engenheirada”, como a gente chamava, era muito solidária comigo, então nessa hora a gente procurava ajudar um pouquinho.

 

P/1 – É. Ficando, sempre tem o que fazer para ajudar.

 

R – Sempre tem, mas eles não gostavam porque diziam que à noite não era mulher para ficar no meio do mato. Às vezes, chovia e a gente usava aquelas capas amarelas, umas botas, tudo isso; a gente tinha equipamento de segurança, era muito rígido. Depois, a Rede comprou um carro de bombeiro, porque precisava ter; foi uma compra grande, em nível de Brasil, e ele saía também, fora os guindastes. Era uma operação muito difícil, mas era bonita.

 

P/1 – Até porque tinha muita gente trabalhando e com solidariedade é melhor ainda.

 

R – Era trágico, mas era uma operação muito bonita.

 

P/1 – Esse carro era um carro...

 

R – Rodoviário.

 

P/1 – Nem teria como ser diferente.

 

R – Não.

 

P/1 – Houve algum acidente bem marcante para você?

 

R – Eu acho que esse de Alagoas, que foi um arrombamento. A gente chama de arrombamento porque foi uma chuva, uma enchente, que arrombou o aterro que suportava a linha e não foi em um só local, foram vários locais, várias cidades, em 2001. E foi muita tragédia porque morreu muita gente, das muitas cidades, levou o trem, porque o trem estava em algum lugar na hora e caiu. As pessoas morreram. Então a gente fica sabendo, é muito triste. Até hoje, ainda está se recuperando; quer dizer, depois de quase dez anos ainda está se recuperando a linha férrea, para você ver o dano. Levou pontes, pontes enormes. Depois eu te mostro as fotos, você vê como a linha ficou suspensa, parecia uma ponte pênsil as linhas. Aquilo ali tinha dificuldade de comunicação, porque você vinha, vinha e não conseguia passar, tinha que passar para a rodovia, fazer, às vezes, uma volta tão grande para chegar de volta. Foi muito triste. Foi o mais marcante pra mim.

 

P/1 – Maria Emília, vamos fazer um bate-bola final, agora? Então: o maior desafio desses anos todos?

 

R – Na minha visão de hoje?

 

P/1 – Na sua visão de hoje.

 

R – O maior desafio foi sair da Rede porque, como eu falei, acho que desde 2000, desde a época da desestatização, 1995, que a gente sabia que ia acontecer e eu fiquei protelando a minha saída ou pelo menos a visão de saída, para onde eu ia. Na hora que foi criada a CBTU eu não quis ir para lá porque eu acreditava que podia dar certo. Quando meu esposo resolveu sair, eu disse: “É a hora de eu sair também, né?” Mas primeiro a gente ficou pensando: “Os dois estudarem não vai dar porque tem as crianças para cuidar.” Eu fiquei dando essa desculpa depois que ele saiu, aí eu disse: “Bom, agora é sua vez. Mas agora vamos esperar um pouquinho, a Rede vai melhorar.” E no fundo, eu não queria sair.

Foi quando houve a concessão. Na época, eu estava como Superintendente da Rede Ferroviária aqui no Nordeste, e para mim, como superintendente, foi muito difícil, porque todas as notícias chegavam primeiro para mim. A Lei de Extinção chegou para mim; eu tinha que dizer aos colegas e tinha que me manter no equilíbrio porque tinha que cumprir aquela missão, fora as coisas que a gente não podia dizer, coisas que eram reservadas aos cargos de maior confiança. Fui vendo que aquilo ali estava acabando comigo, porque eu começava a pensar assim: “A gente fez tanto, com tanto sacrifício, apoio da empresa, dos colegas, mas sempre construindo e, de repente, você passar a desmobilizar, desativar?” Mesmo assim, eu pensava: “Essa concessão não vai dar certo e vai voltar a Rede como era antes.” Sempre tinha uma desculpinha, até que eu entendi que não dava mais. Começou a envolver a minha questão pessoal, porque eu comecei emocionalmente a me comprometer e comecei a ver para onde é que eu ia. Foi quando eu pensei: “É o meu desafio de sair da Rede.”

Foi muito difícil deixar para trás assim... Mas tive uma grande surpresa, maravilhosa: quando eu cheguei no IPHAN, uns quatro meses depois houve a extinção da Rede, o IPHAN ficou com essa atribuição de preservar a memória ferroviária. Eu vi que estava na hora certa e no lugar certo, porque eu voltei a fazer o que eu vinha fazendo antes numa instituição que tem essa missão de preservação, que tinha um recurso, um planejamento, que tinha pessoas que queriam fazer. Foi um desafio muito difícil, pra mim, sair da Rede; no entanto, a vida guarda surpresas, não é? Hoje, é claro que eu vejo a Rede de uma outra forma, com outra visão, que é a missão do IPHAN e não me dói tanto fazer hoje como na época. Hoje eu vejo como uma forma que a gente tem de colaborar para preservar; nessa missão, a gente vai conseguindo os parceiros junto conosco. Eestamos conseguindo realizar algumas ações de preservação já palpáveis, isso é muito legal. Eu fico feliz.

 

P/1 – Vamos falar um pouquinho da sua trajetória de uma forma bastante resumida. Você entrou como arquiteta nessa função, depois de um tempo você teve uma promoção. Você passou para que função?

 

R – Na Via Permanente eu sempre fui arquiteta, só melhorou o meu nível dentro da empresa, meu nível salarial. Depois assumi uma função de Planejamento, aí sim [era] um cargo de confiança. Depois fui assessora do Superintendente; depois fui Chefe de Gabinete e Superintendente. Mas eu vi que eu não sou muito dessa função burocrática, aí voltei pra ser Chefe do Patrimônio da Rede Ferroviária. Depois fui para Superintendência, como superintendente; e fui para o IPHAN.

 

P/1 – Superintendente do Nordeste?

 

R – Do Nordeste, dos quatro Estados.

 

P/1 – Já nessa fase pré-concessão, é isso?

 

R – Sim. E na concessão.

 

P/1 – E na própria concessão você continuou? Mas ainda havia muito trabalho para ser feito, não?

 

R – Não de resgate da memória ferroviária. O grande desafio era trabalhar como se fosse uma imobiliária.

 

P/1 – Já na época que você estava como Superintendente?

 

R – Já. A época que eu peguei já foi a da desestatização, da concessão, então a gente teria que se adequar a esse novo perfil da empresa e foi outro trabalho. A gente foi capacitado para isso; a Rede deu não só esse curso da PUC de especialização, outros cursos foram dados para a gente para se preparar.

 

P/1 – Mas, ainda assim, era uma responsabilidade e tanto, não era? Os quatro Estados.

 

R – Nossa, era. E assim, do dia para a noite, você acorda e a empresa não tem mais advogado, não tem mais contrato de terceirizados, como limpeza e segurança, xérox. Nenhum contrato terceirizado poderia continuar, nenhuma pessoa contratada terceirizada poderia continuar, então o quadro reduziu bastante. Você bota a mão na cabeça: o que você vai fazer? Muito, muito difícil. E as pessoas desmotivadas. Eu sempre costumo dizer que a Rede Ferroviária desmobilizou não só o seu ativo como o seu RH. As pessoas também foram privatizadas, as pessoas também foram desmobilizadas, sabe? Foi uma época muito difícil para a muita gente. Eu não conseguiria mais estar na Rede hoje, não conseguiria.

 

P/1 – Pessoa marcante?

 

R – Na Rede? Getúlio, pela honestidade, pelo desafio, pelo empenho dele, dedicação. E outra é Picanço, Mario Antonio Garcia Picanço, que foi Superintendente da Rede aqui e foi Secretário Executivo do Ministério dos Transportes pela sua bondade, pela sua visão de sempre estar querendo ajudar e sempre estar querendo solucionar os problemas e as arestas. Ele é uma pessoa muito boa, de coração muito bom.

 

P/1 – Eu acho que de certa forma você já respondeu, mas eu vou perguntar novamente: Maior alegria?

 

R – Como profissional?

 

P/1 – Pode ser. Como você quiser.

 

R – Como profissional, eu acho que foi exercer a arquitetura esses anos todos na Rede Ferroviária. Você exercer sua profissão. Eu acho que hoje faria de novo arquitetura e durante muitos anos lá dentro consegui desenvolver essa minha profissão. Eu não precisei me adequar a outra para poder ficar na empresa, então, para mim, foi um sentimento de realização grande.

 

P/1 – O que você acha que precisaria acontecer nesse país para gente ter a valorização da ferrovia?

 

R – Eita perguntinha difícil. Eu acho que é vontade política. Acho que é planejamento dos governos em todas as esferas, é determinação nesse sentido. Assim como em 1960, o governo começou com a meta de construir estradas e valorizar as estradas e a rodovia em detrimento da ferrovia. Se agora a gente tivesse uma política forte de revitalização, como agora me parece que tem alguma sinalização para isso... Eu li um artigo sobre o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) das ferrovias que vai ser coordenado pela VALEC, são bilhões de reais até 2015. Mas o que me deixou triste na reportagem -  pelo menos, porque eu só li a reportagem, não conheço o projeto - foi que só fala em expansão de carga, de expansão da frota, material rodante. Não se fala em preservar a memória. Isso me deixou triste, não sei se o projeto tem algum cunho nesse sentido, mas, pela reportagem, eu só posso dizer isso.

 

P/1 – E o que significa pra você ser ferroviária? O que você é?

 

R – Eu digo que sou do IPHAN, mas no fundo, no fundo, eu não sei nem me apresentar (risos), então dependendo do lugar...

 

P/1 – Então, o que significa ser ferroviária?

 

R – Difícil responder.

 

P/1 – Essa resposta tem que vir do coração, acho que ela não é como as outras.

 

R – Eu acho que você quando realiza os projetos que gosta, quando você trabalha com o que gosta, consegue produzir, olhar para trás e ver que contribuiu de alguma forma para a construção de um projeto, de uma meta que você estabeleceu, eu acho que isso é uma coisa muito gratificante, muito mesmo. Para a ferrovia, eu não posso dizer que eu sou plenamente realizada em ser ferroviária pela minha trajetória funcional, porque eu peguei uma fase muito ruim da Rede e, graças a Deus, consegui sair, porque foi muito difícil sair, como eu já falei. Eu acho que é muito orgulho que o ferroviário tem. Apesar dos pesares, eu acho que o ferroviário ainda acredita que o trem vai voltar. Quando você chega pra conversar com o pessoal de estação mesmo eles sempre perguntam: “Quando é que o trem vem?” “Quando é que o trem volta?” No IPHAN, a gente está tentando fazer isso - eu também, a minha realização lá é nesse sentido, sabe? Resolver uma parte da minha vida que está questionada ainda, está nesse vácuo que não consegui resolver ainda. Acho que minha missão lá também é essa.

 

P/1 – Faltou alguma coisa para te perguntar, que você gostaria de deixar registrado?

 

R – Acho que só com relação pessoal, né? Acho que todo esse meu trabalho eu consigo fazer pelo apoio que eu tenho em casa, porque mesmo quando eu me casei, que era uma coisa difícil, que você tinha que viajar muito, com muitos engenheiros, acho que nunca foi levantada nenhuma possibilidade de [dizer]: “Você não vai viajar porque...” Nunca foi assim. Ao contrário, sempre foi dado muito apoio do meu esposo e dos meninos também. Eles compreendem demais; eu acho que quando eles vêm um simbolozinho em algum papelzinho lá em casa dizem: “Mãe, você está trabalhando de novo com a Rede Ferroviária? Você não deixa a Rede Ferroviária, mãe! Não é possível...” Eles também guardam com eles esse tempo que a gente passou.

O apoio que eu tive como mulher - não é fácil mulher trabalhar, se dedicar muito a uma profissão, porque tem hora em que você até coloca a profissão na frente de tudo. Tem momentos em que você tem que se dividir entre ser mãe, mulher e profissional e tem horas em que a profissional vai na frente; às vezes, você olha assim para trás e pensa: “Nossa, será que eu estou certa? Eu não posso perder aquele momento!” Sabe? E aí você conversa em casa, vai lá... E eles são muito legais. Eu acho que esse apoio que eu tenho em casa faz com que eu consiga trabalhar com mais tranquilidade. Às vezes, eu dou um stop no trabalho, sabe? “Não, assim está demais.” Quando a mesa começa a subir de papel, eu digo: “Está demais. Não dá para trazer mais nada para casa.” É minha meta esse ano, melhorar a minha qualidade de vida, tentando trabalhar com qualidade, mas com qualidade como pessoa, como família. Eu quero esse ano trabalhar com mais qualidade de vida, não com mais qualidade de trabalho.

 

P/1 – Tem uma pergunta que a gente fez para todo mundo, para você é um pouco sem graça fazer, mas enfim, vamos lá: o que você acha da ideia de contar essa história por meio de vocês que a viveram? Dessa ideia do projeto, o que você acha dela?

 

R – Eu acho que isso já está acontecendo. Eu ainda não entendi direito a sua pergunta, para ser sincera.

 

P/1 – O projeto tem essa missão de contar a história da Rede pelos atores dessa história. Então, eu quero lhe perguntar o que você acha da idéia de contar isso...

 

R – Ah, mas a ideia se originou por aqui. (risos)

 

P/1 – Eu mexi com você porque é uma pergunta comum a todos os nossos depoentes, mas como é que você pensou isso?

 

R – Depois eu quero até saber o que foi que eles responderam. (risos)

 

P/1 – Depois você vai saber, com certeza.

 

R – Na realidade, o grande diferencial da Superintendência do IPHAN em Pernambuco é de ter uma pessoa que foi da ferrovia, no sentido de que quando a gente olha a ferrovia, não está olhando só o edifício nem o trem. Eu recentemente fui a Minas Gerais, cheguei numa oficina e estava tudo no mesmo lugar. Fechando meu olho ali, eu pensava que o pessoal tinha saído para almoçar, porque as ferramentas estavam todas em cima das bancadas; as peças estavam todas em cima das pontes rolantes. Então eu, que vivenciei a vida dentro desses espaços, as relações profissionais dentro dos espaços, sentia falta, quando eu terminei o inventário do patrimônio ferroviário de natureza material, dessa parte do imaterial. Eu não conseguia enxergar aquelas coisas que a gente tinha levantado no IPHAN - o edifício, a oficina, o terreno - sem ver vida naquele local, sem sentir a vida, sem saber como era. Eu sabia porque eu tinha vivenciado, mas como é que eu ia passar aquilo para as pessoas que estão trabalhando comigo no projeto? Então, até em nível nacional, porque eu acho que em Pernambuco a gente já tem isso, já tem o apoio da Superintendência, da Divisão Técnica, que já propiciou isso; mas como é que a gente vai divulgar? É outro desafio meu: como eu vou conseguir usar esse projeto de forma a sensibilizar as outras superintendências e a Administração Central do IPHAN de que esse trabalho é necessário em todo o Brasil de forma articulada?

Eu não posso pensar que existia só um maquinista no Nordeste? Não existia. Tinha no Rio Grande do Sul, tinha em Minas Gerais. Como a gente vai conseguir agora usar esse instrumento desse projeto para fazer essa sensibilização? E passar duma forma - por isso que fomos trabalhar com vocês, no Museu da Pessoa, porque eu conheci vocês em um outro projeto - que faça essa sensibilização? Que faça essa compreensão desses espaços na parte da etnografia? Como se dava a vivência dessas relações dentro de um pátio ferroviário? A parte das relações sociais que existiam. Então é um desafio legal. Eu estou olhando agora a ferrovia nessa visão da etnografia, para ver se a gente consegue, junto com esse projeto, passar essa história dessa forma, e para a gente conseguir fazer salvaguardas e proteções nesse veio, não só do patrimônio não só Artístico, Histórico, Cultural, mas também na parte da etnografia da vida ferroviária nesses espaços.

 

P/1 – Então Maria Emilia, gostou de dar a entrevista?

 

R – Ah, muito gostoso. Amei.

 

P/1 – Gostou mesmo?

 

R – Recordou coisas legais e desafios que teremos pela frente ainda.

 

P/1 – Em nome do IPHAN e do Museu da Pessoa, a gente agradece o seu depoimento.

 

R – Obrigada vocês pela oportunidade.


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