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História

Trabalho e esperança de um Brasil melhor

História de: Entrevista de Hamilton Sousa Silva
Autor: Tayara Barreto de Souza Celestino
Publicado em: 12/07/2021

Sinopse

Hamilton narra a sua trajetória profissional e dá sua visão política a partir de sua experiência. Foi na capital do Maranhão que ele começou sua formação no Colégio Agrícola da região. Ainda aos 22 anos, mudou-se para Rondônia para trabalhar no Incra [Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária]. Lá, conheceu bem a realidade da região Norte do país e sua história. Conheceu os históricos Soldados da Borracha que foram alistados na da 2ª Guerra Mundial pelo governo brasileiro para trabalhar nos Estados Unidos. Nos anos 1980, ingressou no Banco do Brasil, na época em que o extrato bancário era feito à mão. Tentou voltar a São Luís, mas acabou em Brasília, na Fundação Banco do Brasil, onde fiscalizava empreendimentos da fundação feitos em comunidades rurais. Nesse trabalho, ele uniu seus conhecimentos em agronegócio e finanças. Ele fala sobre os projetos em que está envolvido e revela os benefícios que eles trazem para comunidades carentes. Hamilton é crítico do assistencialismo e acredita que é preciso dar educação e também estrutura à população.

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História completa

Projeto Fundação Banco do Brasil

Hamilton Sousa Silva

Entrevistado por Cláudia Leonor e Eliete Silva Pereira, 24/01/2006

Realização Museu da Pessoa

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Transcrito por Lívia Oushiro

Revisado por Fabiana Schiavon


P/1 – Então, Hamilton, a gente vai começar com a entrevista. Vou pedir para você falar de novo o seu nome completo, o local e a data de nascimento.

 

R – Meu nome é Hamilton Sousa Silva. Eu nasci em São Luís do Maranhão, em 10/12/1955.

 

P/1 – Qual o nome de seus pais e o que eles faziam profissionalmente?

 

R – O nome do meu pai é Joaquim de Castro Cotrim, ele era militar, e da minha mãe, Maria José Sousa Silva, do lar, ela...

 

P/1 – ...não trabalhava

 

R – Não, só cuidava de criança e de casa.

 

P/1 – Que já é um trabalho!

 

R – Já é um trabalho fantástico!

 

P/1 – E você, tem irmãos, Hamilton?

 

R – Eu tenho cinco irmãos. Tenho um que faleceu e três que ainda estão vivos, né? Tenho uma que mora em Santa Catarina, e tem dois em São Luís.

 

P/1 – Qual que é o nome deles?

 

R – É Maridalva Sousa Silva, que mora em São Luís; Luís Fernando Sousa Silva, que também mora em São Luís; e a Zinólia Sousa Silva mora em Santa Catarina.

 

P/1 – Hamilton, você passou a infância em São Luís?

 

R – Passei toda a minha infância em São Luís. Saí de São Luís com 22 anos, em 1977.

 

P/1 – O que que você teve como lembrança marcante da sua infância? O que você gostava de fazer, de brincar?

 

R – Ah, eu, na minha infância, eu sempre gostei... O meu esporte preferido sempre foi o futebol, né, minha diversão preferida. E lá a gente chama de empinar papagaio, que os outros chamam pipa, jogar bola de gude, chucho, né, ou finca, que o pessoal fala por aí. Mas o que eu gostava mais de fazer é jogar bola, até hoje.

 

P/1 – E onde você jogava?

 

R – Eu costumava jogar num sítio que tem em São Luís, que chamam de Palagome e outros chamam de Sítio da Ana Jansen. Hoje, esse sítio é uma Secretaria de Limpeza Pública, né? Mas, na época que eu jogava, era só o sítio e tinha um casarão lá semidestruído, que era do tempo ainda acho que do Brasil Império, por aí.

 

P/1 – Tem uma lenda em torno da Ana Jansen por ali. Você não tinha medo de entrar? Conte um pouco. Você conhece essa lenda?

 

R – O pessoal falava que ela tinha muitas posses, né, lá no Maranhão, e tinha inclusive escravos. E esse casarão é muito grande. E tinha muita lenda sobre ela, que à noite ela visitava lá os domínios dela, tal, mas, eu mesmo nunca encontrei com ela não.

 

P/1 – (risos) Vocês não tinham medo de jogar bola lá?

 

R – Não, porque a maioria era criança, né, na época mais ou menos de 8 anos pra frente. A gente morava perto, então frequentava lá. Era muita gente, né? Tinha os campos de pelada, acho que uns três campos mais ou menos. E é um sítio lá, né, então o sítio mesmo tem muitas fruteiras. Então, mangueira, cajueiro, amendoeira, aí tinha jaca, abricote, de tudo um pouco lá. Mas, então, frequentava muita gente lá, então a gente estava lá no meio do povo, não tinha receio não de frequentar lá o Sítio da Ana Jansen, não.

 

P/1 – Encontrar com a Ana Jansen.

 

R – Não, nunca encontrei com ela não.

 

P/1 – E você frequentou escola lá em São Luís?

 

R – Eu fiz, na época, eu fiz o primário, o ginásio e o curso técnico, tudo em São Luís. Então, quando eu saí de São Luís, eu já tinha o chamado segundo grau hoje. Então, eu fiz da primeira a quinta série em três escolas. Foi no grupo escolar Anna Adelaide Bello, que fica no Bairro da Alemanha; na Escola Modelo, que fica no centro de São Luís, e terminei a quinta série no grupo escolar Duque de Caxias, que fica no Bairro do João Paulo. Aí fiz, na minha época, a gente fazia três vestibulares, né? Você fazia um vestibular para passar para o ginásio e outro para passar para o científico ou curso técnico. Eu tive a sorte, porque eu fui para o Colégio Agrícola Federal de São Luís do Maranhão, então, eu fui fazer ginásio no Colégio Agrícola. Fiz o chamado Exame de Admissão ao Ginásio e iniciei em 1968 o curso ginasial que chamava Mestre Agrícola. Aí eu cursei quatro anos de ginásio. E no Colégio Agrícola, a minha turma foi a última de ginásio, então, conforme eu fui passando para outras séries, né, foi terminando o curso ginasial. Quando eu cheguei no curso técnico, acabou o ginásio no Colégio Agrícola. Aí, então, saí do Colégio Agrícola em 1975.

 

P/1 – Agora, por que essa escolha pelo Colégio Agrícola? Tinha alguém que te incentivava a exercer uma profissão nessa linha?

 

R – Porque no Maranhão, principalmente na época, na minha época, já o mercado de trabalho era restrito, né? Então sempre a disputa era por um curso profissionalizante. Então, existia a Escola Técnica Federal do Maranhão, que tinha diversos cursos técnicos, de edificações, agrimensura, química e outros cursos, né, e o Colégio Agrícola, que era já voltado para a formação de técnicos que viessem a exercer a profissão como autônomo, né? Então, vinha muita gente do interior para estudar no Colégio Agrícola, que já tinha uma certa convivência com o campo, né, mas tinha muitos alunos também da cidade, lá da Capital, porque terminava que essa mão de obra era quase todo absorvida pelo governo. Então, na área, vamos dizer assim, privada, trabalhava-se na Cáritas, ou então no governo, na Secretaria de Agricultura do governo, a Emater [Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Distrito Federal], né, geralmente na Emater, e o Incra também absorvia muita mão de obra, principalmente no Maranhão, Piauí, Pará, Amazonas. Na região, vamos dizer, da Amazônia Legal como um todo, né? E aí eu fui um desses que depois que saiu do Colégio Agrícola, foi para Rondônia, né? Ainda exerci a profissão por cinco anos no Incra, trabalhei praticamente cinco anos no Incra, de 1977 a 1981.

 

P/1 – Fazendo o que no Incra?

 

R – Eu trabalhava com Reforma Agrária, né? Então, eu fazia vistorias em áreas rurais, trabalhava em Projeto Fundiário. O Projeto Fundiário é um...O Incra, na realidade, criava empresas que a gente denominava de projetos. Então, tinha o Projeto Fundiário, tinha PIC, que era o Projeto Integrado de Colonização, e os PAD – na minha época, isso, né? – que eram Projeto de Assentamento Dirigido. Os PIC e os PAD. O Incra selecionava tanto para as áreas como também os agricultores, né, que iriam ocupar aquelas áreas. No Projeto Fundiário não. Você já encontrava o agricultor no local. Então, você regularizava a situação dele ou procurava  regularizar a partir do contato que se mantinha com ele. Ele já explorando aquela área, geralmente pra agricultura de subsistência. Mas trabalhava muito em Rondônia a questão de seringal, né? Tinha muito seringal chamado de seringal nativo. Então, eram áreas muito extensas, e a gente trabalhava também na regularização dessas áreas. Então, geralmente tem um processo no Incra que chama de discriminatória. Então, é que a gente entrava nas áreas para identificar quem estava trabalhando, quem tinha posse ou, então, tinha tido definitivo. Esses títulos são ainda do tempo do Império, então coisas muito antigas, áreas muito extensas, né? Às vezes, o cara tinha o domínio, mas já não trabalhava mais, mas ele tinha ainda aquele direito lá. Então, o Incra entrava reconhecendo todo aquela imensidão de terra lá.

 

P/1 – Você tinha quantos anos nessa época?

 

R – Eu fui pra Rondônia com 22 anos. Aí morei lá dez anos. Passei cinco anos no Incra morando em Guajará-Mirim, que é no sul de Rondônia. E em Guajará-Mirim, em 1981. Em 6 de outubro de 1981, eu ingressei no Banco do Brasil. Então, até hoje aí que eu estou nesta luta.

 

P/1 – Vamos voltar um pouquinho lá. Quando você sai de São Luís e vai para Guajará-Mirim?

 

R – Eu fui para Porto Velho.

 

P/1 – Pra Porto Velho. O que que mais mudou? Você foi sozinho, foi sem tua família? Como é que foi essa transição?

 

R – Eu fui sozinho, né? Saí de São Luís, entrei num avião e cruzei o Brasil de São Luís até Porto Velho. Você, quer dizer, eu era muito jovem, então muita coisa muda, né, porque você chega num outro local e não conhece ninguém. Então, você, às vezes, tem um pouco de dificuldade. No meu caso, porque eu saí de São Luís já com o emprego garantido, então eu não fui assim uma aventura, né? Eu já tinha tinha um direcionamento. Mas, mesmo assim, era um pouco difícil, você muito novo, então, a gente quando muito novo não tem muita coisa na cabeça não. Mas deu pra superar esses primeiros dias, a gente realmente tem muita saudade de tudo que ficou, mas você vai se integrando e vai melhorando. Como eu estava muito longe, né, e a dificuldade era muito grande na época. Por exemplo, para você retornar, ou teria que ser de avião, ou então, se fosse por terra, era muito difícil, né, de você cruzar Rondônia, porque tinha que vir pelo Mato Grosso e, na época, praticamente não tinha estrada. A BR-364, era talvez ainda um projeto, estava em construção. E quando chovia, principalmente –eu fui pra lá em maio, ainda estava chovendo um pouco– então, cortava as estradas, era muito difícil você sair de Rondônia, né? E se fosse pelo Amazonas, tinha que ser por água, né? Aí vinha até Manaus e aí, ou de avião ou então de barco até Belém, pra poder descer de novo para São Luís. Então, era um sacrifício.

 

P/1 – (risos) E como é que era Porto Velho nessa época? Descreve pra gente como é que era a cidade.

 

R – Olha, Porto Velho, ela era uma cidade, poderia se dizer, pequena ainda, né? Tinha uma infraestrutura porque Porto Velho, quer dizer, Rondônia era uma área de garimpo. Então, tinha muito garimpo de cassiterita, né, e também ouro, ouro de aluvião, ouro que o pessoal tira com o escafandro de dentro do rio. Ela não foi uma cidade planejada, mas já tinha um certo desenvolvimento na época, né, porque ela era capital de um território, do Território Federal de Rondônia. Mas assim, em comparação de onde eu saí, de São Luís, que era uma cidade já com mais de 300 anos de existência, ela deixava muito a desejar ainda, né? Eu voltei a Porto Velho agora, em 2005. Estou fazendo o trajeto de volta. De vez em quando, eu visito a cidade por onde eu iniciei essa trajetória. Ela está bem melhor, cresceu, mas na época, ela carecia ainda de muita infraestrutura, porque até hoje – eu estive conversando lá com o pessoal que a gente encontrou por lá – até hoje, apenas acho que 3% da população têm o saneamento básico fornecido pelo Estado, né? Então, o normal em outras cidades. Então, até hoje ela ainda carece de muita coisa, ainda é muito deficiente.

 

P/1 – Você tinha 22 anos, você era supernovo, jovem. Você saía à noite, você tinha amigos, com quem que você circulava ali? Como é que era esse convívio social?

 

R – Olha, eu, em Porto Velho mesmo, eu passei pouco tempo. Na realidade, eu fiquei hospedado num hotel lá chamado Hotel Samaúma e lá eu encontrei outros técnicos agrícolas que também estavam chegando, né? Só que tinha uma turma, eram acho que cinco, eram três cariocas e dois mineiros, eles já estavam lá em Porto Velho e, inclusive, estavam no alojamento do Incra. E nós nos conhecemos na sede do Incra, e a gente saía à noite. Tinha aquele tempo, era o negócio da boate, né? Então era...Não lembro bem quem era a música da moda, mas a gente saía muito, né, lá em Porto Velho. Como eles já estavam lá há muito tempo, eles já conheciam, acho que já estavam há um mês em Porto Velho. E, de vez em quando, a gente saía lá porque tinha um treinamento em Porto Velho que eles estavam participando. Eu não cheguei a participar porque logo surgiu um processo discriminatório em Guajará-Mirim e foi todo mundo deslocado para Guajará-Mirim. Na realidade, o meu contrato com o Incra era para um projeto chamado (____________), mas como surgiu esse trabalho em Guajará-Mirim, foi todo mundo, uma equipe deslocada pra Guajará-Mirim. Mas, eu ainda frequentei algumas festas lá em Porto Velho. Tinha um hotel chamado Joá, e à noite tinha um salão lá. Na realidade,  tinha uma boate no hotel, boate da moda, assim, como hoje existe. Então, naquele tempo já existia alguma coisa lá. E a gente, eu sempre gostava de dançar um pouco, né, então me diverti um pouquinho lá em Porto Velho.

 

P/1 – Em São Luís, você saía?

 

R – Em São Luís? Em São Luís eu saía, saía muito, porque eu conhecia, nasci, me criei lá. Então, São Luís é uma cidade muito divertida, né, então você frequentava muitas festas em São Luís, muitos bailes.

 

P/1 – Hamilton, quando você saiu de lá de São Luís nessa transferência que você fez, você deixou namorada, deixou amigo, o que que foi difícil nessa transferência?

 

R – Eu deixei muitos amigos, né, que eram amigos de infância. Assim, namorada mesmo, não. Não cheguei a deixar uma namorada que você estivesse um tempo namorando. Até porque, pela idade, a gente não se firma só num local, você passeia por muitos ambientes (risos). Mas, deixei muitos amigos de infância, né, que cresceram comigo. E também na escola, do colégio, porque eu passei sete anos no Colégio Agrícola. Então, nossa, eu tinha uma convivência no Colégio Agrícola, sempre era uma população variável entre 90 e 120 adolescentes, e também já até mesmo homens formados. Então, você deixa pra trás uma história, na realidade. Então quando souberam que eu ia pra Rondônia, alguns colegas me encontravam: “Ah, rapaz, soube que você vai pra Rondônia. Lá pra Rondônia só tem índio.” Aí, eu falava: “É, pois é, rapaz, eu vou conhecer as índias que tem lá.” Não me interessava nos índios. Mas era uma realidade diferente. Você faz, as pessoas fazem assim um retrato da Região Norte, mas na realidade quando você chega, você encontra….Quer dizer, eu encontrei lá muito nordestino na época, né? Então, tinha muito cearense, tinha muito maranhense –maranhense gosta de garimpo, né, então tinha muito maranhense– tinha muito paraibano. Eu, pelas minhas andanças lá pelas matas de Rondônia, encontrei muito soldado da borracha, o pessoal que foi na época da guerra, né, muitos já velhinhos, e outros ainda mais ou menos. Então, inclusive, tinha até soldado da borracha carioca, né?

 

P/1 – Ah, é?

 

R – É, encontrei um lá que era carioca, que foi pra lá na época da guerra.

 

P/1 – Por que que chama de “soldado da borracha”?

 

R – Em decorrência da guerra, né? Então, precisou-se de uma produção de muita borracha. Na época, acho que ainda não tinha borracha sintética, né, e não tinha mão de obra suficiente pra dar vazão à demanda. A produção que precisava pra equipar carro, tanque, essa coisa toda. Então, eles saíram...O governo, né, recrutando jovens, na maioria, pra servir na Amazônia. Então, eles iam para os seringais.

 

P/1 – Era através do exército?

 

R – Isso era um contrato com o governo que eles fizeram. Então, tinha uma carteira, teve até. Eles mostravam lá os documentos de liberação, tal. Então, muitos foram como se fosse servindo a pátria, né? Isso, depois, foi mudando o governo, a guerra acabou, muitos voltaram, outros ficaram, e foi uma luta para garantir os direitos que eles tinham, né? Porque com a mudança de governo, as mudanças da história, tal, eles foram esquecidos, né? Então, eles reclamavam muito que o governo tinha esquecido. Mas depois acho que algum deputado, não me lembro agora, os parlamentares encamparam essa luta, e foram identificar quem ainda estava vivo. Depois de muito tempo, reconheceram os direitos deles. Acho que muitos foram aposentados, então eles tiveram, até onde eu sei, os direitos reconhecidos. Mas eles foram para servir a pátria como, vamos dizer assim, militar, mais ou menos.

 

P/1 – E, me fala uma coisa, Hamilton. Depois desses cinco anos trabalhando em Guajará-Mirim no Incra, o que que te levou a prestar o concurso para o Banco do Brasil?

 

R – Eu prestei o concurso do banco, inclusive eu fiz a prova lá em Guajará-Mirim. Eu tinha uma intenção voltar pra São Luís, mas pelo Incra. Como eu tinha um contrato com uma empresa que o Incra criou, eu poderia me transferir mas só dentro, na época, já era o Estado de Rondônia. Eu não poderia sair porque eu não fazia parte do quadro do Incra. Então, eu fiz a prova do banco e aí passei, né? Eu acho que, se eu não me engano, esse concurso, ele foi feito em maio de 1981 e eu fui chamado em outubro, também de 1981, né? Quer dizer, então eu saí do Incra com a intenção de passar mais um ano em Rondônia, trabalhando no banco, e depois pedir transferência. Essa era a minha vontade naquela época. Mas daí eu terminei ficando mais cinco anos em Rondônia trabalhando pelo Banco do Brasil. Mas porque eu pedi a transferência, mas pra sair, eu tinha que conseguir alguém pra assumir a minha vaga, e era muito difícil conseguir alguém pra ir assumir uma vaga lá em Rondônia, mesmo sendo na época ainda pelo Banco do Brasil.

 

P/1 – A agência era pequena?

 

R – Não, a agência era uma agência média. Porque acho que ela tinha mais de 50 funcionários naquela época. A maioria era filho da terra lá, mas era uma agência média, porque Rondônia teve, em Guajará-Mirim mesmo, ela teve um comércio muito intenso com relação à castanha, à borracha, produtos extrativistas. Então, movimentava muito dinheiro, né, inclusive com a rodovia, não, a ferrovia lá, Madeira-Mamoré.

 

P/1 – Ainda tinha esse movimento na Madeira-Mamoré?

 

R – Não, a Madeira-Maimoré, na época, estava desativada. Então, eu conheci a ferrovia, mas os trilhos, mas assim, não funcionando mesmo. Tinha uma maria-fumaça, mas estava perto do museu lá, já não andava não.

 

P/1 – Como é que eram os procedimentos do banco? Mudou muito, está muito informatizado, né? O que que você lembra que mais mudou? O que você fazia no seu cotidiano e que mudou muito?

 

R – O atendimento do dia a dia, do que a gente chamava de setor de expediente, que tinha um setor que chamava plataforma e outro que era os caixas. Então, esse setor era muito manual ainda, né? Hoje ele mudou bastante. Você tinha o suporte, por exemplo, muita coisa você fazia ainda nas máquinas, nas Olivetti, Remington etc. Os caixas, eu lembro que tinha umas máquinas, eram as (____________), que você fazia as autenticações. Aí puxava a manivela, mas eram elétricas. Eram misto de elétrico com manual. Então, o caixa pagava e recebia, e esses papéis, eles passavam pra chamada retaguarda, que separava. E você tinha uma (____________) do lado, né, e você separava o que era pagamento de recebimento, questão lá de débito e crédito. No final do dia, você fazia uma soma mesmo na... puxava uma fita, às vezes uma fita quilométrica do débito, do movimento, se fosse segunda-feira, então uma fita, quer dizer, duas fitas, que era uma de pagamento e outra de recebimento. E aí tinha que bater com o movimento dos caixas, porque puxava as fitas dos caixas, somava. Então, dava o total de pagamentos e o total de recebimentos e tinha que bater com a soma que você fazia. Então, quando dava uma diferença, aí era um problema danado, né? Ou o erro era na soma e você com uma fita daquelas. Aí, você ia ticar, né, documento por documento, ou então às vezes o caixa entregava o papel que ele autenticava, ao invés dele reter. Entregava a via do cliente e retinha a dele, ele entregava as duas, e aí você não encontrava a diferença nunca.

 

P/1 – Você trabalhou como caixa, então, no começo?

 

R – Na época, não, eu trabalhava como escriturário, né? Eu vim a fazer curso de caixa no banco depois de 14 anos. Quando eu vim a fazer, eu já estava aqui em Brasília, né, aí fiz o curso de caixa, mas lá eu trabalhava como escriturário, mesmo. Quer dizer, eu trabalhei, rodei lá, eu trabalhava com o setor interno, né, depois eu fui para o setor de expediente, trabalhar lá com os caixas. Então, na realidade eu dava suporte ao serviço dos caixas. E tem muito serviço que o caixa, na época, fazia, passava pra retaguarda, daí você dava um acabamento lá e voltava aquele...então, a gente trabalhava em série, né? Outra situação que mudou muito era a questão de lançamento que se fazia, na época era ficha gráfica, tinha uma ficha amarelona assim. Acho que vocês não conheceram essa ficha não, ainda bem, né? Então tinha umas máquinas que se chamavam NCR, e elas tinham as barras, elas eram semiautomáticas, e você colocava as barras de acordo com o tipo de operação. Por exemplo, quando tinha uma operação cheque-ouro. O cheque-ouro você lançava com uma barra, e o cheque normal com outro tipo de barra. Outros documentos que tinham... Hoje, acho que estão nos museus do banco por aí, porque além de ser... naquela época, ela já era assim um tanto quanto obsoleta. Principalmente lá em Guajará-Mirim. Fazia muita “zoada”. Era uma quebradeira, parece assim que o mundo estava se acabando... mas era divertido.

 

P/1 – E conferência de extrato de conta?

 

R – Você conferia nas fichas. Nessas fichas gráficas, né, porque quando você fazia um lançamento, ela fazia o lançamento da movimentação individual de cada cliente. Então cada cliente, você imagina, tinha uma fita, uma ficha dessa. Então, no que chama de bateria de caixa, os arquivos eram só as fichas gráficas. Então, você dava o cheque, o caixa retirava a fita, essa ficha, e botava menos lá, no dia a dia, né? Aí o cara tinha lá, 5 mil, aí dava um cheque de 2 mil, ele ia lá, menos 2. Aí entrava um depósito de 500, aí ele ia lá, mais 500, à caneta. E esse papel, ele autenticava, e esse papel passava pra retaguarda, e aí você separava o cheque, papel de pagamento, depósito, e no final é que você fazia lá a soma do pagamento e recebimento e tinha que bater com o movimento do caixa, porque senão era um... E, às vezes, você ficava lá até meia-noite. Cansei de ficar até a meia-noite puxando saldo lá. Às vezes, a culpa não era da retaguarda, a culpa era do caixa, né, entregava o papel e não tinha jeito de você achar a diferença.

 

P/1 – E você trabalhou cinco anos em Guajará-Mirim?

 

R – Trabalhei cinco anos em Guajará-Mirim no setor de expediente lá.

 

P/1 – E depois você transferiu de agência? Aí você conseguiu?   

 

R – Na realidade, eu fui adido, que o banco ele tinha. Até hoje, ainda tem, né? Quando tem assim uma falta significativa em algum local, aí, por exemplo, a agência solicita o Departamento de Gestão de Pessoas, a Diretoria de Gestão de Pessoas do banco, a superintendência onde ela está ali ligada oferece vagas pra adição. Então, por exemplo, você está no Rio de Janeiro e tem vaga lá em São Gabriel da Cachoeira. Se ele tiver disposição, ele sai do Rio de Janeiro e vai pra lá, trabalhar lá em São Gabriel da Cachoeira. No meu caso, eu estava em Rondônia e criaram uma agência no norte de Minas, numa cidade chamada Grão Mogol, e eu fui selecionado, entrei no cadastro que você tem de adição, e fui selecionado pra Grão Mogol. Então, eu saí de Guajará-Mirim, fui pra Grão Mogol. Passei, fiquei lá de dezembro de 1985 até, acho que, maio de 1986 como adido, né? Então, desse... Aí voltei pra Guajará-Mirim. Fiquei até setembro, saí, tirei férias e aí vim pra Brasília, e depois eu já voltei. Consegui transferência, né, e voltei a Guajará-Mirim só pra pegar a família e vir embora, né?

 

P/1 – Você ia passar férias em Brasília?

 

R – Vim passar férias... na época?

 

P/1 – É.

 

R – Vim passar férias em Brasília, porque eu tinha um irmão aqui na época.

 

P/1 – Então, eu queria que você falasse um pouco disso. Como é que foi a viagem? O que é que você viu quando chegou em Brasília?

 

R – Olha, a viagem não fui muito boa porque eu vim de ônibus (risos). Na época, a BR-364 já estava asfaltada, mas de Guajará-Mirim a Porto Velho ainda não, né? Tinha uma BR lá chamada BR-42. Então, você pegava um ônibus em Guajará para Porto Velho e outro peguei de Porto Velho até Brasília. Mas aí você chega, tem assim aquele choque, porque você está voltando à cidade grande... Mas como eu nasci e me criei em uma cidade relativamente grande, numa capital, em São Luís, a capital do Maranhão, então o choque não foi assim tão violento porque você ainda guarda como é o convívio em uma cidade grande. Mas a diferença em Brasília é que, primeiro, não tem nome de rua, né, e você se acostuma, não tem bairro, não tem praça, e é tudo distante... Então, o negócio dos eixos até você... você vê, Eixo L, Eixo-isso, Eixo-aquilo. Porque o criador de Brasília se orientou pelos pontos cardeais, né, pra criar tudo aquilo, só que ele não passou isso pro resto do país. Então, você tem uma... o Eixo L é Eixo Leste, né, Eixo W é Eixo Oeste, norte, sul, eixão, aquelas coisas. Mas você sente a diferença, o impacto, porque eu estava em uma cidade... na época Guajará-Mirim deveria ter acho que uns 25 mil habitantes, colocando entre zona rural e zona urbana, aí vim pra Brasília em 1987, Brasília estava o que, estava com mais de 500 mil habitantes, mais ou menos. Então, era um choque muito grande, mesmo de convivência, porque Brasília, assim na minha opinião, quando você chega, é difícil você se entrosar com o pessoal. Se você não tiver alguém que já tem um ambiente formado pra você ir entrando, é difícil, porque é muito heterogêneo. Aí, formam-se aqueles grupos, mesmo de trabalho ou então de região, e aí até você descobrir um maranhense, né, achar o seu grupo, tal. “Vamos lá, também sou maranhense,” aí é mais difícil. Mas ela tem a vantagem que, além de você estar perto do poder, as oportunidades se multiplicam, até mesmo no próprio Banco do Brasil em função que a direção geral do banco está em Brasília, então tem muitos órgãos do banco lá que formam, têm a estrutura do banco, estão em Brasília. Então, as oportunidades se multiplicam. Então, inclusive para a carreira do bancário, em Brasília, é mais fácil, desde que lá também o sujeito tenha vontade de trabalhar e crescer, né, de se atualizar, estudar etc.

 

P/1 – O que que mais pesou para você vir pra Brasília?

 

R – Quando eu vim pra Brasília, a minha intenção ainda era ir pra São Luís, mas era muito difícil, até hoje, eu creio. Depois, eu parei com essa paranoia, né? Mas é o seguinte: porque São Luís é uma ilha marítima, então tem praia pra todo lado. Então, quem está lá, ninguém quer sair. Quem está no nordeste, em Fortaleza, Maceió, Aracaju, Salvador, não quer sair de lá. Então, eu tinha intenção de voltar pra São Luís, mas infelizmente não foi possível, não tinha vaga. Em São Luís, não tem vaga! Aí, eu estava já determinado também a sair de Rondônia. Achei que já tinha contribuído muito para o desenvolvimento da pátria lá em Rondônia (risos) e aí resolvi vir embora. Já estava decidido a vir embora, então vim pra Brasília. E aí me deram algumas opções de agência, no Guará, na Ceilândia e em Sobradinho, e dentre as três, eu preferi Sobradinho, né, que... Aí, lá em Sobradinho, eu me adaptei? Moro até hoje lá em Sobradinho, desde 1987, a minha residência... fixei a residência em Sobradinho. Mas a minha vontade era ir embora pra São Luís.

 

P/1 – E quando você veio pra Brasília, você veio casado, com filhos...?

 

R – Sim, é...

 

P/1 – Como é que foi essa adaptação?

 

R – Na época, eu casei em Rondônia e lá nasceram duas filhas. Tenho duas filhas. Aí vim com a família. Como eu tinha um irmão que morava aqui, então iniciei aqui com esse irmão, né, ele tinha família. Aí, depois que fui morar lá na Octogonal, ele morava lá no apartamento, e eu fiquei uns dias lá, e depois aluguei uma casa em Sobradinho, e fui pra Sobradinho. Mas como as minhas filhas eram pequenas. Em 1987 a minha filha mais velha, ela nasceu em 1980, né? Ela estava com 7 anos, e a mais nova, que é de 1985, estava com 2 anos. Então, pra elas não foi difícil, porque elas não tinham ainda... o ambiente que elas tinham em Rondônia era mais ou menos familiar, eram pequenas, então eram mais restritas à família, ou então na ABB [Associação Atlética Banco do Brasil]. Que o divertimento lá em Guajará-Mirim era no final de semana bater pelada e tomar cerveja na ABB, né? Então, a família, a gente ia pra lá, ia passar o fim de semana, e eu ia também jogar bola. Eu sempre gostei de jogar bola, então pelada, futebol de salão, joguei futebol amador lá. Mas pra elas foi... acho que foi bom elas terem inclusive vindo pra cá, porque aqui, na realidade, é que elas cresceram, fizeram amizade, então até hoje estou aqui.

 

P/1 – Pra sua esposa também foi bom?

 

R – Foi, né. Na realidade, foi bom por um lado, mas por outro foi meio complicado, porque a gente terminou se separando depois. Então, por esse lado não foi tão bom... mas pras meninas foi muito bom... pra ela também, né? Acho que foi porque... está tranquila até hoje. As meninas também.

 

P/1 – Hamilton, quando que você começa a ouvir falar da Fundação Banco do Brasil? É já lá em Guajará-Mirim ou foi aqui em Brasília?

 

R – Quando a Fundação praticamente... quando ela foi fundada, eu já estava em Brasília, né? Então, foi em 1986, e eu cheguei em 1987, e acho que a atividade dela mesmo começou lá por 1988. Foi, mais ou menos, a época que eu assumi uma função. Eu já estava em Sobradinho, então eu já assumi uma função que na época chamava-se auxiliar de Setop, que era auxiliar do Setor de Operações. Mas no banco eu era conhecido como fiscal do banco. Então, como eu fazia fiscalizações, e Sobradinho era –até hoje é– uma agência onde tem muitas operações na área rural, e a Fundação começou a desenvolver uns trabalhos lá em Sobradinho, mas na realidade eu não tinha conhecimento desse trabalho. Mas como já existia na época um convênio da Fundação com o banco, que as agências são condutoras dos projetos, isso na realidade, como se diz assim, no banco caiu no meu colo lá, né? Chegou os documentos, aí o pessoal chamou os beneficiários pra assinar convênio, essas coisas, e tinha a parte... Tinha construção, essa parte, então, foi passada pro fiscal, né, que era o Hamilton. Então, eu pegava o chamado dossiê, o processo, e ia verificar o que que a Fundação estava financiando e fazia as vistorias, fazia os laudos pra remeter à Fundação, pra dar conhecimento à Fundação do que que estava acontecendo. Se estava realmente sendo empregado os recursos, qual era a fase que estava. Então, é através desse trabalho é que eu vim a conhecer a Fundação. Isso lá em Sobradinho, na agência de Sobradinho, trabalhando como fiscal. Então eu acompanhei alguns projetos, especialmente dois que teve lá. Um é de uma escola, que funciona até hoje, que é uma escola lá numa entidade chamada de Jerônimo Candinho, é uma entidade ligada ao pessoal do espiritismo, né? E a outra é um centro de... é uma creche, né, um centro materno-infantil, que também é ligado a uma entidade, que por sua vez é ligada também ao, não sei se é instituto Adolfo Bezerra de Menezes, um negócio desses assim, que também tem uma ligação com o espiritismo. Não sei se na época o presidente da Fundação era espírita (risos) porque eu conheci mais... acompanhei, né, mais esses dois projetos que a Fundação tem em Sobradinho. Tem um outro também, que eu até cheguei a visitar, que acho que foi compra de equipamentos, esse eu não tive muita ligação, mas também na época lá... também acho que era lá do rol do Adolfo Bezerra de Menezes. E por aí é que a gente começou essa história de Hamilton e Fundação Banco do Brasil.

 

P/1 – Você ia na construção ou você acompanhava mais o processo dentro da agência?

 

R – Não...

 

P/1 – Você chegou a acompanhar lá, mesmo, vendo...?

 

R – Sim. O fiscal do banco, ele é o elo de ligação entre o banco, o cliente e o empreendimento, né? Então, o fiscal do banco, ele faz vistorias, né, nos empreendimentos que o banco financia. E nessa mesma lógica entrou também a Fundação. Então, eu acompanhava mesmo a construção, in loco mesmo, no local, eu ia lá, andava com o pessoal, né, fazia um laudo mesmo da construção, do empreendimento. Até hoje funciona mais ou menos assim.

 

P/1 – E, Hamilton, como é que a população recebia esses empreendimentos, benefícios da Fundação? Você chegou a perceber isso?

 

R – Olha, a entidade, ela já fica assim muito alegre, né, de ter, às vezes é um sonho que a pessoa tem, né, se realizando. Por esse lado, é muito... traz assim muita satisfação tanto pra quem idealizou e está vendo se transformar em realidade, como pro próprio funcionário do banco, que presencia o desenvolvimento de uma comunidade, tal. Hoje, por exemplo, lá em Sobradinho, funciona uma escola... então funciona, tem acho que médico, dentista para os alunos e mesmo para a comunidade. Então aquele empreendimento que a Fundação ajudou a... talvez um sonho a transformar em realidade, ele é benéfico, ele produz até hoje benefícios pra sociedade, principalmente para as famílias mais carentes. A escola é direcionada mais para as famílias mais carentes, mais para as mulheres, inclusive, que trabalham e têm dificuldade pra colocar os filhos nas escolas, então tem esse ambiente lá. E o outro lá é uma creche, que a Fundação... Nesse, ela não chegou a participar de 100% da construção, mas já deixou em pé, vamos dizer assim, o prédio onde funciona essa creche. Então, isso aí dá uma satisfação muito grande, acho que para toda a comunidade. E leva o nome da entidade a ser conhecida, então tem um benefício pra população, para os idealizadores, pra própria entidade beneficiária, pra comunidade e pro próprio Banco do Brasil, faz parte desse sistema. Então, termina que você atinge um conjunto muito grande de entidades e pessoas, e gera uma transformação na vida de muita gente. Isso é muito bom, né?

 

P/1 – Com certeza.

 

P/1 – Hamilton, você enquanto bancário ali na agência, você chegou a participar de movimento dos bancários, do movimento sindical?

 

R – O meu, mais ou menos, envolvimento com o sindicato de profissionais bancários, começou ainda em Rondônia. Mas lá, em função de que... como é um cidade pequena, não teve... Eu assinei a ficha lá de sindicalização no sindicato da região Norte, mas não teve prosseguimento, porque é muito... assim, o movimento sindical, inclusive na época, como você ainda estava no regime militar, entrei no banco na época da ditadura, então era muito segregado. E passava-se uma imagem, até hoje acho que ainda existe isso, o estigma de que o profissional que participa de uma entidade de defesa de funcionário, o patrão, tanto faz se é governo ou se é particular, ele gosta de rotular esse indivíduo como sendo nocivo à classe profissional a qual ele defende. Quer dizer, eu falo isso porque há muito tempo que a gente vem nessa luta. Depois que eu vim pra Brasília, eu já vim e me sindicalizei aqui, mais ou menos desde a época que eu cheguei, e participei do movimento sindical ainda em Sobradinho como delegado sindical. Então, o delegado sindical é um representante dos funcionários lá na agência. Aí depois entrou o governo Sarney, Fernando Collor, tal, mas isso não mudou muito. E a gente... por exemplo, no governo, nos 8 anos do Fernando Henrique, então, o movimento sindical foi muito segregado, ele até decresceu. Então, esse estigma de que o sindicalista, ao invés de ajudar, ele atrapalha, isso foi muito usado no tempo do governo do Fernando Henrique, eu acho que até com mais ênfase do que nos governos militares, né? Porque até acho que o militar precisava de um contraponto, né, pra não ficar dizendo que só ele estava mandando lá. E o Fernando Henrique não, ele foi muito enfático na questão de desestabilizar, ou até acho que eles tinham a ideia de acabar, destruir, na minha visão pessoal, né, destruir o movimento sindical e, em conseqüência, quem dele participava. Como a gente, nós também somos muito tinhosos, a gente não deixou que isso acontecesse. Mas houve, houve momentos no próprio Banco do Brasil que sindicalistas foram demitidos, e teve que ir pra justiça... Então foi um processo muito traumático dentro do próprio Banco do Brasil, pra você mobilizar a classe era muito difícil, todo mundo estava com medo, porque o desemprego foi muito grande. Por exemplo, durante esses 8 anos, 55 mil bancários só do Banco do Brasil perderam o emprego. Teve outras questões, teve gente que se suicidou, teve mais de 50 colegas que se suicidaram, então as mudanças que o banco sofreu, e em parte precisava, né, que o banco também evoluísse, mas elas foram muito traumáticas da forma como elas foram colocadas e como foram conduzidas. Mas, aqui em Brasília foi que eu entrei mesmo no movimento sindical. Então durante esse tempo, eu participei em algum momento, e depois eu fiquei um pouco à parte. O sindicato perdeu força, mas eu nunca saí do sindicato. Eu tive um tempo afastado e retomei esse convívio mais direto com o movimento e com a própria entidade, Sindicato dos Bancários de Brasília, a partir da minha ida pra Fundação, né? Que eu fui pra Fundação em 2004, justamente na época da campanha do Lula à presidência. Então lá na Fundação é que a gente retomou essa luta mais direta. A gente sempre estava participando das greves, do movimento, mas não dentro da entidade. Hoje, na Fundação, eu estou no terceiro mandato como delegado sindical e faço parte de uma diretoria de uma federação, chamada Federação dos Trabalhadores em Empresas de Crédito do Centro-Norte, que é chamada Fetec. Então, a gente...eu sempre... agora eu sou um social-democrata de esquerda, né, se existe esse sujeito. Se existe, eu participo aí desse contingente. Acho que existe uma opção.

 

P/1 – E, Hamilton, em que circunstâncias que você entrou na Fundação? Como é que você saiu da agência e foi pra Fundação?

 

R – Bem, assim como eu falei, eu tenho uma trajetória mais ou menos...Eu trabalhei dez anos em Sobradinho. Aí foi, saí de Sobradinho pra ingressar numa agência de cobrança que o banco criou, que era chamada URC [Unidade de Recuperação de Crédito]. Lá eu fiquei mais ou menos um ano e, como gerente, que eu trabalhei em Sobradinho, eu fui pra uma agência do Setor Comercial Sul. Aí me convidou pra assumir a gerência do Setor de Operações lá da Comercial Sul. E eu fui pra lá, e lá eu passei três anos. Lá eu conheci a Carmem...

 

P/1 – Ela trabalhava lá?

 

R – Quando eu cheguei, ela já trabalhava lá. E quando foi acho que no final de 2003, ela já vinha falando de sair, e ir pra direção geral, tal, e aí ela foi pra Fundação. E um dia, ela passeando lá pela agência, foi lá visitar o pessoal, e nós fomos almoçar. Almoçando, eu falei pra ela assim, mas até brincando, né? “E como é que a gente faz pra ir pra Fundação?” A gente estava almoçando. Aí ela lembrou, disse: “Ah, rapaz, olha, tem uma vaga lá, que tem uma menina que está saindo, e é na contabilidade, no setor de contabilidade.” E na época, eu estava terminando a graduação em Contabilidade, em Ciências Contábeis. E aí, quando foi no outro dia, ela disse: “Então, eu levo o teu currículo.” No outro dia ela passou, pegou o currículo, e levou aí o Ferreira –creio que vocês tenham conhecido, que é o contador da Fundação– ele me ligou, e a menina estava com pressa de sair, porque estavam chamando ela, ela foi inclusive, voltou pra Contadoria do banco, que ela também era contadora. E eu fui fazer a entrevista do Ferreira, isso no início de... Acho que no final de março, e ele perguntou se eu teria condição de, em menos de um mês, me desligar do banco e assumir a Fundação. Aí, bem, a gente tenta, né? E graças a Deus, eu voltei à agência, conversei, na época era uma gerente, e combinamos, e em 20 dias eu consegui me liberar, e assumi lá na Fundação no Setor de Contabilidade de lá, era diretoria de administração, e ia chegar a gerência de contabilidade que até hoje está sob o comando do Ferreira. Então, eu entrei na Fundação pelo setor de contabilidade, pela gerência de contabilidade.

 

P/1 – Que que te levou a querer sair do cotidiano mais de banco mesmo e ir pra Fundação? Que tem um perfil diferente, apesar de ser da parte de contabilidade?

 

R – Eu passei quase 21 anos no banco trabalhando em agência, né? Então, a gente, em determinado momento da sua carreira, procura outros caminhos. Eu tinha duas alternativas no banco: eu teria que ir pra gerência e começar a lutar pra assumir uma gerência e uma agência do banco, na época, eu era gerente de expediente até num setor, eu estava num setor fora do banco, que a gente chama de (PAV), Posto Avançado, ou, então, de ir pra direção geral. Então, como além de contador, eu sou técnico agrícola, eu estava procurando ir pra diretoria de Crédito Rural do banco. De agronegócio, né, que hoje... Surgiu a oportunidade da Fundação, e ela tem mais ou menos um perfil de direção geral, além de que você, na Fundação, o funcionário do banco, ele trabalha defendendo duas entidades: uma é o Banco do Brasil, que o cara depois de 20 anos dentro de uma empresa, se ele não gostar dela é meio complicado... e outra que você defende o banco e a Fundação, e além do que, o trabalho na Fundação é gratificante, porque você está participando de um outro universo, e que às vezes você não conhece. Eu tinha também essa condição porque além de quando eu trabalhei no Incra, né, eu trabalhei com muitas comunidades de agricultores carentes, então de assentamentos naquela época, né, que eram assim deixados. E, até hoje, ainda são deixados meio de lado. E também nessa condição de social-democrata de esquerda, eu entendo que todo mundo tem que ter oportunidade. Se o cara não quiser, tudo bem, você teve, você não quis, o que que pode se fazer? E na Fundação você tem essa dinâmica, tanto é que em quatro anos na Fundação, eu passei na contabilidade, depois eu participei de um processo seletivo dentro da Fundação, aí fui pra área de Finanças, mas eu tinha sempre a vontade, né, de ir para o setor que se chama na Fundação a área-fim, né? Eu que saí da área-meio, que era o suporte e fui pra área-fim, que é a área de projetos. Então, quer dizer, você desenvolve o seu lado profissional e, além de você estar desenvolvendo uma atividade que ela gera transformação nas pessoas, nas comunidades, e de você estar convivendo com aquelas pessoas e ajudando muito gente a crescer, a sair, vamos dizer, do anonimato, da questão da exclusão social, e trazendo esse povo pra luz, né? Dizendo: “Olha, você também faz parte desse contingente, vamos brigar juntos por um lugar?” Não vou dizer nem “ao sol,” mas por um lugar no Brasil, mesmo. Porque sol, a gente tem muito. Se fosse só por um lugar ao sol, você não está fazendo nada. E a gente tem a lógica, existe uma questão assim no lado social, pelo menos na minha visão, como mais à esquerda dos projetos de Brasil, que vêm aí por tantos anos, mais de 500 anos, que você, por exemplo... os donos do poder no Brasil, eles sempre falaram, na minha visão pessoal, sempre falaram o seguinte: “A democracia é de vocês e o social é meu. Então vocês ficam com a democracia e eu fico com o social, porque é no social que tem o dinheiro, então eu coloco dinheiro onde eu quiser e do jeito que eu quiser.” Então, eu via, por exemplo, até como nordestino, na época da questão aí das frentes de trabalho, os caras puxando, fazendo açude com a enxada, né, aquele monte de homem lá. “Não, vamos fazer frente de trabalho!” Quer dizer, então, cesta básica, né? Então quer dizer, isso não traz nenhum benefício pra ninguém, nunca trouxe. Tanto é que a indústria da seca está aí desde que Brasil é Brasil, né? E sempre pra frente de trabalho, não sei quantos bilhões e haja dinheiro. Então, isso é uma forma do cara colocar o social. E se fala nessa questão, por exemplo, que você tem que... é melhor do que você dar o peixe do que ensinar o cara a pescar, né? Aí você vai lá e ensina o cara a pescar. Só que depois você leva a linha, o anzol, a isca, e o cara ficou só com o conhecimento. Como é que ele vai pescar? Então, a nossa lógica é de ensinar o cara a pescar, mas deixar o material lá pra ele continuar a pescar, porque senão, que que adianta eu... não adianta você ensinar e não dar condições para o sujeito desenvolver. Não adianta você assentar o sujeito numa terra, numa fazenda, você desapropria uma fazenda e assenta o cara lá, se você não dá condição dele plantar, de ele criar uma galinha, um boi, um porco, fazer uma roça dele, uma casa, se você... eu vejo que colocam, se parcela as terras e o cara é obrigado a morar lá na parcela. Por que que não se cria uma vila, coloca-se esses indivíduos lá, num ambiente social e familiar e um vai desenvolver o outro, né, e ele vai trabalhar lá no lote dele. Não precisa o cara morar lá porque as distâncias não são tão grandes, inclusive vai facilitar o sujeito até não sofrer um infarto, alguma coisa parecida, porque ele vai caminhar todo dia pro trabalho dele. Então, na Fundação hoje, com o foco que se tem na Fundação, que é a geração de trabalho, de renda, de educação, cultura, tem-se a vontade e se direciona os recursos para a transformação, né? Trabalha-se em cadeia, reaplica-se tecnologia, educa-se, alfabetiza, coloca criança na escola, o BB Educar alfabetiza, e a BB Comunidade traz o aluno da escola pra dentro do clube, e ele passa se desenvolvendo lá, então, quer dizer, a lógica é outra, né? Então acho que agindo-se desta forma você, além de ensinar o sujeito o que que ele deve fazer, ele se desenvolve e ele se apropria de seu destino. Você tem que deixar o cara se apropriar da vida dele, e não você trabalhar com assistencialismo. Porque o que que gera o assistencialismo? Gera um contingente de cada vez mais miseráveis, que o cara se acostuma, né, então com o negócio da bolsa... cesta básica. O cara não vai trabalhar mais, porque todo mês ele tem uma cesta básica. Então vamos dar a cesta básica, mas vamos ensinar esse sujeito a fazer alguma coisa e dar condição para ele terminar sendo dono da vida dele. Essa é a minha visão, né, e eu trabalho com esse objetivo, não de simplesmente achar que o sujeito é um coitadinho e tal, que eu tenho que levar ele nas costas. Não, meu filho, nós vamos ensinar a você, mas depois você vai se virar. Acho que essa é a lógica. Até mesmo para você dar o exemplo para a descendência desse sujeito. Que não é só... que às vezes o sujeito já está meio perdido, né, então os filhos você pode recuperar. O Brasil é seu, cara, vamos lutar por ele porque a gente ainda não o perdeu.

 

P/1 – Quais são os projetos que você está trabalhando na Fundação, ou que você acompanhou?

 

R – Olha, hoje na Fundação eu trabalho com os projetos chamados Barraginhas, que é uma reaplicação de tecnologia da Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária], de Sete Lagoas, do doutor Luciano Cordoval, que é um engenheiro agrônomo lá que sistematizou as Barraginhas, que é uma tecnologia de recuperação de solo e também de retenção de água e determina também que ela, além de reter água, ela retém muitos poluentes, e revitaliza também as bacias de córrego e que termina em rios. Eu acompanho um projeto com a Universidade de Brasília que é chamado... eles chamam lá de bio-óleo, e a gente chama de biodiesel. Inclusive, foi inaugurada agora uma usina de fabricação desse biodiesel, parece que botaram até um trator lá pra rodar, em que o objetivo é você produzir o bio-óleo a partir... hoje eles trabalham com babaçu, mamona e acho que gordura, mas que ele tem um índice de pureza igual ou bem semelhante ao diesel fóssil. Então, quase que eles já chegaram lá, né, estão chegando, estão aprimorando com a inauguração da miniusina. Então, ela tem, mais ou menos... pode ter uma destinação para as comunidades isoladas, onde não tem nenhum tipo de energia e o próprio agricultor, então, a comunidade, começar a produzir o diesel pra usar lá no seu dia a dia. Então, esse é outro. Atualmente nós temos um sistema chamado de PAIS, que é Produção Agroecológica Integrada e Sustentável, que esse aí é em conjunto Fundação Sebrae [Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas] e o Ministério da Integração, que lá o nome do projeto chama-se Unidades Familiares de Produção Agrícola Sustentável, é a famosa UFPAS, que está distribuída em 12 estados, a maioria na Região Nordeste. Então, esse é um sistema de criação e produção de hortaliças.

 

P/1 – E como que ele se estrutura na prática?

 

R – Ele é um sistema de... é o gotejamento, né, de irrigação, sistema de produção irrigado por gotejamento. Então, ele tem a forma circular e nessa forma circular são canteiros de um 1,20 metro de largura. Então, o primeiro dá mais ou menos 25 metros, o outro dá uns 35, e o último vai pegar um perímetro de 45 metros, e no meio tem um galinheiro, um ambiente onde você pode circular, onde você pode criar galinha ou outro tipo de animal de pequeno porte, até talvez de médio-porte. E ele se baseia na agricultura agroecológica, onde você procura retirar da propriedade todo o sustento pra sua produção e vice-versa, né? Então, tem a sustentação alimentar, que é o primeiro objetivo, e depois você parte para o excedente pra você comercializar. Então, aí direcionado para o agricultor familiar. Então, uma área, por exemplo, de meio hectare, e que você pode expandir e também...

 

(fim do CD 1/2)

 

R – ... tem condição de você plantar fruteira e plantar agricultura de subsistência, por exemplo, milho para sustentar galinha. A Fundação, em conjunto com o Sebrae e o Ministério do Interior, você monta o sistema com todos os equipamentos necessários e ainda deixa plantado tudo, por exemplo, o milho, aí se o cara gosta de abacaxi, abacaxi, banana etc. e monta todo o sistema de irrigação. Então, esses são, assim, por exemplo, os três, atualmente, os três principais. Mas eu trabalhei com um programa chamado Programa Diversidade, que é direcionado para as pessoas portadoras de deficiência, acompanhei o Conselho de Direitos de Betim, que tem um programa lá que terminou. Eu acompanhei o Agenda Deficiência que é com a Rede Saci da USP [Universidade de São Paulo], né, da Cecae [Coordenadoria Executiva de Cooperação Universitária e de Atividades Especiais] da USP, que também encerrou. Acompanhei alguma coisa do Justiça Itinerante, que é o fortalecimento dos tribunais, leva a justiça para as áreas mais carentes da população e hoje nós estamos mais ligados à questão da reaplicação das tecnologias. Então, trabalhei também alguma coisa com o saneamento básico rural, com a Mércia, né? Ela que está mais ligada, mas a gente participou dos primeiros três projetos em conjunto, que é uma tecnologia da Embrapa em São Carlos, de São Paulo, e que é... eu chamo de kit-alquimista.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Porque você transforma dejetos humanos em ouro, né? (risos). Então, você trabalha com o sistema de fossas chamado fossas biodigestoras, fossas sépticas biodigestoras, a famosa FSB. Ele consiste em você ligar três caixas d´água no sistema sanitário da residência, estando na área rural, por exemplo, só que você liga direto só no vaso sanitário, você não usa em banheiro, em pia, só direto no vaso. Então, esse sistema é baseado, mais ou menos, no sistema de biodigestores, que isso aí vem da China, da Índia, por aí. E eles sistematizaram aqui no Brasil. Então, para uma família até de quatro pessoas, são três caixas, pra mais de quatro você coloca mais uma caixa, e nessa ligação você coloca uma válvula antes de chegar nas caixas, e nessa caixa você coloca os dejetos do boi, bovino, in natura, aí você mistura com água, dez quilos para dez litros de água. E as bactérias que vêm junto com os dejetos bovinos, elas se alimentam dos dejetos humanos e tudo que cai ali dentro ela come. Então, além de ela comer e transformar toda aquela sujeirada lá, tirar todas as impurezas, comer todos os coliformes fecais etc., ela fertiliza o efluente chamado... quer dizer, o final, quando sai a água, no final, na terceira caixa, ela é uma água já fertilizada. Então, é um adubo, então você usa na correção de solo. Então, além de você acabar com a questão da fossa negra, que gera doenças e inclusive termina poluindo o lençol freático, termina poluindo a água, com esse sistema você elimina esse ciclo e ainda usa o efluente, o produto final em... por exemplo, no pomar, na horta, no preparo do solo, né? Por exemplo, você vai fazer uma horta, no preparo do solo, você pega aquela água e leva e coloca nos canteiros. Não se aconselha que você regue, que você chega pra vender, né? (risos). Se bem que você irriga a sua horta lá... mas como adubo é muito bom, e é comprovado que dá resultado, então, é a coisa que eu chamo de kit-alquimista. Então, tem esse saneamento, e quais seriam outras mais? Essas seriam as mais importantes. Tem outras que estão entrando aí, mas a gente ainda não começou mesmo a trabalhar com elas. Então, trabalho mais na reaplicação de tecnologias voltadas pra questão da produção, vamos dizer, agropecuária familiar e também por questão do saneamento básico.

 

P/1 – Esse da agropecuária familiar, você acompanhou in loco. Vocês fizeram treinamento? Conta essa experiência pra gente.

 

R – Eu participei de um treinamento em Cristalina, Goiás, na formação de consultores que foram escolhidos pelo Sebrae, muitos funcionários do Sebrae e outros que prestam consultoria pro Sebrae. Então, nós fomos... acho que eram uns 30, mais ou menos, nós fomos pra Cristalina e passamos uma semana lá construindo essa unidade, nós construímos a unidade, aí tem fotos dela lá. E engraçado é que o pessoal acho que chegou pensando num treinamento, por exemplo, de sala de aula, e o treinamento era o cara meter a mão na massa (risos). Então, teve gente que ficou assim meio assustado, porque nós chegamos perto da matéria praticamente bruta e transformamos ela, terminamos... e interessante é que o sujeito, às vezes, acredita que não vai sair, porque a maioria era todo mundo de escritório, mas... tinha alguns economistas, economista não é muito chegado à terra, né? Mas em compensação tinha técnico agrícola, tinha técnico agrícola que trabalha mesmo, que ele aprende fazendo, o agrônomo, que faz alguma coisa, tinha veterinário. Então, deu pra fazer, construir o sistema. Foi a primeira experiência, né, então ela foi, assim, de fundamental importância que estivesse presente o Sebrae e a Fundação, que eu participei desde o início, inclusive, não só olhando, mas também trabalhando no sistema. E termina que você consegue passar para as pessoas, que muitos... as pessoas, às vezes, elas vão descrentes: “Será que isso vai dar certo? Vai se fazer mesmo? Vai se conseguir?” E nós tivemos a felicidade de contar com um senegalês, é um agrônomo chamado Ali. Ele se formou na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rural... não, Rural do Rio de Janeiro, e ele trabalha com agroecologia, então, isso facilitou o trabalho porque... pelo conhecimento que ele tem, conhecimento de causa. Não é conhecimento teórico, ele tem muito conhecimento teórico, mas ele tem o conhecimento também da prática. Então tem um ajudante, ele tem um ajudante, também um outro agrônomo, então, eles juntaram, que ele trabalha e também tem todo o conhecimento técnico-científico do que que é agroecologia, e o outro, o Leandro, que trabalha junto com ele, é que monta o sistema, o sistema de irrigação por gotejamento. Então, essa dupla deu muito certo, e aí motivou o pessoal. Como tinha muito jovem, também lá os caras meteram a mão na massa mesmo, e os outros foram aderindo, foram aderindo, então, depois formou realmente uma turma de alunos e eles compraram a ideia. No início, teve algumas questões, né? “Mas como é que faz isso, não sei o quê, vai dar certo, não sei o quê”. E no final de uma semana nós entregamos lá pro Osmar, que acompanhou lá e... isso foi feito num assentamento, né, num assentamento rural lá em Cristalina, e nós entregamos pronto, plantado, o sistema funcionando, tudo funcionando, as galinhas lá dentro do galinheiro. O Osmar ficou muito alegre com tudo isso e isso se expandiu, né? E depois eu não participei, tiveram mais dois encontros, um no Ceará e outro na Paraíba, mas teve assim uma repercussão, e como o Sebrae também tem um espaço na Revista Globo Rural, hoje a PAIS está na Globo Rural, na edição de janeiro, ela já está lá dentro. E também esse sistema, ele está implantado lá na aldeia Xavantes, na aldeia São Pedro, aqui acho que no Mato Grosso. Então, ele já começou assim com uma repercussão de mídia, de mídia impressa muito grande. E isso é que dá satisfação pra quem participa, e a gente como tem... conduz os projetos, e participa, já participei de um treinamento, desse mesmo do saneamento básico rural, esse em conjunto com a equipe do doutor Novaes, doutor Antônio Novaes, que é o pesquisador que sistematizou essa tecnologia. Então, então nós participamos construindo lá os protótipos que serviram de treinamento para os agricultores, do kit-alquimista. Então, isso também, além do aprendizado, né, e no meu caso de voltar à primeira profissão, maneira como eu comecei a ganhar dinheiro como profissional, que foi como técnico agrícola, que é um negócio que eu gosto, de trabalhar com a terra e com animais. Você está justamente ensinando, além de ensinar o sujeito a pescar, deixando o recurso, deixando o rio, né, e os apetrechos de pesca pra ele continuar a trabalhar, a ter um alimento mais saudável. E aí você não vai precisar estar todo tempo levando cesta básica pro sujeito que, de repente, se ele precisa de uma coisa, ele vai lá na horta, cata lá uns quatro pés de alface e vende pro vizinho. O cara já paga lá um real e ele já compra alguma coisa, mistura lá com... aí tem umas galinhas, que vão produzir. A questão de você ensinar o sujeito com essa tecnologia, que nem tudo que ele utiliza na sua atividade ele tem que comprar. Por exemplo, não precisa estar comprando adubo, porque a gente deixa lá um galinheiro com dez galinhas, com a cama e tal, que ali, os dejetos da galinha, você vai utilizar na horta, ensina o sujeito a fazer um composto, e já deixa iniciado esse composto. Então ele é um sistema integrado. Então você integra a horta, com a chamada agrofloresta, que aí então você vai plantar umas fruteiras, mandioca, e planta milho, faz uma barreira de proteção aí dessa unidade com bananeira, então, quer dizer, você já deixa um pé-de-meia pro sujeito, na realidade.

 

P/1 – Hamilton, quais são os critérios da Fundação para reaplicar tecnologias sociais, e também quais são os critérios dos locais que serão aplicadas?

 

R – O que escolhe geralmente são áreas rurais, então o critério, por exemplo, a Fundação sempre trabalha com entidades. A  Fundação só trabalha com pessoas jurídicas e que não tenham fins lucrativos. O critério geralmente é o seguinte: você vai numa comunidade e apresenta a tecnologia, geralmente a gente utiliza uma associação, eles chamam os associados ou não-associados e faz-se uma apresentação daquela tecnologia. A partir desse contato, começa um processo de seleção, por exemplo, seleciona uma família e a gente vem aqui e faz uma demonstração. Então, geralmente a gente leva já um kit da fossa séptica ou então no caso da PAIS, das UFPAS, que é o nome do projeto lá na Fundação, você, nesse treinamento, já ficou o exemplo. O que que é essa tecnologia? É tudo isso aqui que nós vamos fazer. Não é vocês que vão fazer, são os consultores que vão fazer, e a partir daqui eles vão multiplicar, e aí assim entram as famílias, que pode ser de mutirão, a família que vai participar. E aí tem os procedimentos, por exemplo, de escolha da entidade. Aí ela tem que ter estatuto, tem que estar registrada, tem que estar com a sua personalidade jurídica toda completa, tem que estar dentro das normas que regem a criação dessas entidades ou de uma associação, de uma cooperativa. E partir daí, quer dizer, a Fundação utiliza essas associações pra atingir, na realidade, o beneficiário final, que é, no caso da diretoria da Setec [Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica], que é da diretoria de tecnologia social e cultura. No caso, por exemplo, o agricultor, principalmente. E aí, você procura ou atualmente assentamentos rurais, populações formadas por quilombolas, agricultores familiares, comunidades de agricultores familiares. No caso, por exemplo, da BB Comunidade também pode-se colocar na turma de alfabetizandos em assentamentos, em comunidades ou mesmo nas periferias das cidades, ou mesmo nas cidades, ou mesmo até numa empresa que tenha uma associação, por exemplo, uma construtora, pode-se atingir esse público. Tem a renda, né, que acho que o pessoal da renda vem aí. Então, eles já trabalham em um outro sistema, porque eles utilizam o recurso de terceiros, né, então é o recurso de ministérios voltados também para a geração de trabalho e renda. O nosso foco na reaplicação de tecnologias sociais também tem esse viés de que ela venha a sustentar, né, essa tecnologia, tem que ser ações que transformam e que dão sustentabilidade. Então, também tem esse foco de geração de trabalho e renda. Então, acho que vou tomar uma água...

 

P/1 – Bom, Hamilton, você estava falando sobre as reaplicações de tecnologias sociais. Quais eram os critérios que a Fundação estava adotando até pra ser aplicado em determinados locais? Quais são os maiores desafios que você percebe hoje na reaplicação de tecnologias sociais?

 

R – Olha, tem... eu até esqueci de falar de uma dessas tecnologias, que é a coleta seletiva, coleta seletiva de lixo. Nós temos, eu acompanho, são três projetos. Três projetos pilotos em três capitais. Um é em João Pessoa, o outro é um Fortaleza e o outro em Porto Velho, em Porto Velho, Rondônia, né? A gente sempre tem uma afinidade nestas questões aí. Olha, uma das dificuldades que a gente encontra é com relação ao ceticismo das pessoas. Isso, na minha opinião, vem da questão de você sempre trabalhar com assistencialismo puro e simples. Então, na questão, por exemplo, da coleta seletiva, eu estive em Porto Velho pra visitar o projeto, né, e visitar a comunidade. E o pessoal, houve assim umas indagações, assim, até um tanto fortes, em que teve pessoas que questionaram: “Ah, mas aqui nós já estamos cansados de vir tanta gente e oferecer isso, aquilo outro. E depois, desculpa, vamos dizer assim. Enrola a gente, vem em tempo principalmente de campanhas eleitorais, e depois vão embora, deixam aí alguma coisa e nunca mais voltam.” Isso, o cara, o sujeito que levantou pra falar isso, inclusive as pessoas que estavam presentes, era uma pessoa que inclusive ele nem falava em reuniões, né? Não sei se ele tinha interesse nos outros, e eu tive, né, que no momento até me posicionar contra ele, e falei pra ele, perguntei pra ele quantas vezes eu já tinha ido lá oferecer alguma coisa pra eles ou a Fundação tinha ido oferecer alguma coisa lá. “Ah, não.” Então, você não pode estar colocando todo mundo no mesmo saco. Então, existe pessoas e pessoas, entidades e entidades, e por aí vai. Aí até ele calou e graças a Deus o projeto lá em Porto Velho é um dos que está dando melhor resultado, né? Você tem o pessoal do Instituto Nenuca de Desenvolvimento Sustentável de Belo Horizonte que acompanha esse projeto. Então, a maior dificuldade que você tem é em mobilizar a comunidade a participar do projeto, porque nós tivemos aqui... no caso do saneamento básico rural, nós implantamos aqui numa comunidade quilombola, na realidade são remanescentes de quilombolas, aqui na Cidade Ocidental, aqui perto, chamado Mesquita. E eu estive lá porque o projeto não estava indo tão bem, e conversando com as pessoas lá, eles estavam com medo de depois a gente cobrasse uma taxa, porque foram colocar água lá e depois foram cobrar, não sei o que. Aí, tive até conversando: “Se alguém chegar aqui e cobrar alguma coisa, a primeira coisa que você tem que fazer é chamar a polícia. E depois você comunica aí ao presidente da associação, comunica à Fundação, e a gente vem ver o que que acontece, porque aqui não tem cobrança nenhuma.” Na realidade são recursos não-reembolsáveis. No popular, chama-se a fundo perdido, né? Então, essa é uma grande dificuldade, e eu coloco o principal, vamos dizer assim, o que não deixa você trabalhar com mais liberdade com as comunidades. E um ponto que gera conflitos é essa questão do assistencialismo, de você... o sujeito não acredita que exista pessoas ou entidades que possam desenvolver um trabalho que visa à transformação de uma pessoa ou de uma comunidade e que traga desenvolvimento, que o seu objetivo seja não só ajudar, mas desenvolver –porque entre ajudar e desenvolver existe uma diferença muito grande. E na Fundação, como a gente não pode deixar de falar, quando se fala de Fundação não se pode deixar de falar em Banco do Brasil, tem... você não consegue, na minha visão, você não consegue desassociar os princípios do Banco do Brasil dos princípios da sua Fundação. O Banco do Brasil, como patrão, ele trouxe princípios que são desenvolvidos dentro da empresa Banco do Brasil e passou à Fundação. Então, por exemplo, o Banco do Brasil, quando ele chega em uma cidade, ele gera transformação, inclusive nos jovens, porque eles já veem o banco como uma carreira, né, quer dizer, uma empresa onde ele pode ter o objetivo de entrar. Então, você gera uma expectativa na comunidade, até no município mesmo, de crescimento. Quem trabalha, se for, por exemplo, se o mercado ou então a tradição desse município for, por exemplo, agrícola, então, também o banco, ele traz. O pessoal tem aí recursos pra gente desenvolver o nosso trabalho, a nossa atividade. E não poderia deixar de ser também, de acontecer, com a sua Fundação, e a gente que traz do banco esse compromisso. Então, o funcionário do banco, ele tem esse compromisso, ele tem uma história dentro do banco, e isso ele traz pra Fundação, naturalmente. E o que a gente busca, o nosso objetivo, além de ajudar, é desenvolver, principalmente hoje, inclusive com um governo que vem, do lado, por exemplo, na minha opinião, da social-democracia de esquerda, e que vem, e que conhece os sentimentos e as dificuldades dos mais carentes, daqueles que ficaram durante tanto tempo à beira da estrada. Até hoje, a gente passa por aí, vê muito sem-terra na beira da estrada. Então, nós temos esse sentimento de transformar a vida das pessoas a partir dos recursos que você emprega –eles são importantes, né, os recursos– mas, na nossa visão, o principal é a transformação que eles geram lá na ponta, que você coloca esse recurso à disposição e ele gera uma transformação que você depois sai e ela continua, né? Essa transformação continua. Então, tem depoimentos de muitas pessoas que, por onde a Fundação já passou, que trazem essa realidade à tona. Então essa... agora, como a prática, a prática política, principalmente, do poder público, ela sempre foi assistencialista, então, isso gera um conflito nas pessoas, nas comunidades de que o que se quer. “O que que será que ele quer aqui?” Quer dizer, o pessoal vem, “que que eles vieram fazer aqui? Já vieram tirar o nosso sossego e criar uma expectativa e depois deixar a gente aí a ver navios?” Às vezes, nem a ver navios deixa, né? Então, é essa a questão.

 

P/1 – Tem um momento que te marcou estando dentro da Fundação, algum fato curioso ou uma situação que você lembra?

 

R – Olha, um fato que me marcou, por exemplo, na Fundação partir do... eu cheguei na Fundação em 2004. Em 2002, em abril de 2002, era o final do governo do Fernando Henrique Cardoso. Em 2003, assumiu o governo Lula e houve um redirecionamento do foco da Fundação. Então, um novo planejamento estratégico, operacional, planejamento tático. E aí você direcionou os recursos da Fundação pra, por exemplo, pro foco da educação, que ela é um dos eixos, assim, de fundamental importância pro desenvolvimento de qualquer nação. Não só no Brasil e o direcionamento também dos recursos da Fundação pra ações que tenham esse viés de geração de trabalho e renda. Então, essa mudança, ela marcou, eu acho que marcou a Fundação. Houve um redirecionamento e priorizou-se essas ações. Conheço... já existia, por exemplo, o banco de tecnologias sociais. E, aí, a Fundação começou a reaplicar as tecnologias, até porque as nossas entidades, as nossas sociedades e as organizações sociais, elas carecem de recursos. Então, existia o banco, já existia o banco de tecnologias acho que desde de 2001, foi o primeiro prêmio, né, de tecnologias sociais do Banco do Brasil, da Fundação Banco do Brasil, mas... ele existia, mas não tinha assim uma, vamos dizer, utilização pelas entidades ou pela população mesmo em geral. Por quê? Porque não existe recurso, não existem verbas e também parece que a burocracia no setor público, ela é muito, muito grande quando se trata de você direcionar recursos para a população mais carente do país. Porque pros grandes, médios e grandes, isso aí é muito mais fácil. Quer dizer, eu falo isso por conhecimento de causa, que eu trabalho na empresa por tantos anos, mais de 20 anos. Mas pra direcionar recursos, por exemplo, pra você dar seguimento, pra implantar, por exemplo, um sistema de fossas sépticas, né, no caso aí de você reaplicar essa tecnologia, você vai penar muito pra conseguir alguma coisa. Então, a Fundação decidiu reaplicar essas tecnologias e também trabalhar, por exemplo, na área lá da renda, com geração, né, trabalho e renda. Então, desenvolver atividades, ao invés de você só capacitar o sujeito pra procurar um trabalho, você entrar na cadeia produtiva dele e desenvolver essa cadeia produtiva, de forma que ele venha a produzir, que ele venha a beneficiar e que ele desenvolva aptidões e conhecimentos e adquira conhecimentos pra comercializar; que ele tenha o conhecimento desde a origem do produto dele. Por exemplo, mandioca, como ele planta, como ele beneficia e como ele coloca no supermercado, Ou, então, como ele coloca numa feira ou até mesmo como é que ele exporta, que produtos além do alimento ele pode extrair da mandioca, então, a fécula, né? Por exemplo, o caju... trabalhar em cadeias, cadeias da chamada mandiocultura, cajucultura... Então, isso foi marcante, até porque você começa a criar uma outra lógica de desenvolvimento sustentável para um público que a gente chama de agricultores familiares ou de assentados, e que esse sujeito, ele vai multiplicar esses conhecimentos, as comunidades, elas vão se apropriar disso aí. Hoje, eu chamo isso de você se apropriar de seu futuro, você ser dono, passar a ser dono de sua vida e não você simplesmente olhar: “Olha, eu sou um assentado, mas o que que eu vou fazer?” Aí, você vai trabalhar o fazendeiro que está ali vizinho, aí o cara vai pagar um salário lá pra você, fornecer um alimento, tal, e você fica na mão do sujeito. Então, você cria uma outra lógica na situação, você começa a criar um outro indivíduo, né, porque você cria um outro indivíduo agindo dessa forma. Então, essa mudança no foco da Fundação, pra mim, foi assim muito marcante e trouxe uma alegria muito grande, inclusive pelo direcionamento que o presidente da Fundação, o Jacques Penna, ele abraçou essa causa e vem desenvolvendo essa causa. Ele trabalha nesse sentido, com esse objetivo e com essa convicção de que você pode transformar realmente a realidade de muita gente agindo dessa forma.

 

P/1 – Hamilton, como você avalia a sua trajetória na Fundação?

 

R – Eu avalio assim de uma forma muito boa porque, por exemplo, eu vou completar quatro anos na Fundação e eu conheci o funcionamento dela desde a área de suporte, que eu venho da área de suporte, passei pela contabilidade, onde você controla praticamente a vida da Fundação, depois eu fui pra área financeira, que é, vamos dizer, o coração de qualquer entidade, e ali também você conhece o que que a entidade onde você está, o que que ela faz, porque toda documentação passa por ali, você interage com as outras equipes. E, no financeiro, porque sem o recurso, o cara pode ter boa vontade, mas se você travar o recurso, não faz nada. Depois de 2003 eu fui para a área-fim da Fundação, que é a área de projetos, então tem muitos colegas que estão lá já há mais tempo do que eu, mas sempre numa mesma área. Então, pra mim foi assim uma alegria muito grande, tanto de ir pra Fundação quanto a trajetória, o conhecimento e a condição que ela me proporcionou de conhecer muitas realidades no Brasil. Então, dentro da Fundação, eu já conheci muitas comunidades, muitas realidades, muitos profissionais da área do terceiro setor, mesmo outros colegas do Banco do Brasil, de outras entidades, então, pra mim foi muito gratificante, está sendo muito gratificante.

 

P/1 – Você poderia citar pessoas ou fatos interessantes nessa convivência na Fundação?

 

R – É, assim, internamente... internamente, por exemplo, teve o Ferreira, que foi meu primeiro chefe na Fundação, na área de contabilidade, inclusive ele está lá, aprendi muita coisa com ele, ele tem um conhecimento muito bom do funcionamento da Fundação, ele é o contador da Fundação. Eu trabalhei com o Hélio, que hoje até não está mais no Banco do Brasil, no setor financeiro, o Chicão, o Chicão é a enciclopédia da Fundação (risos). Então, a gente não pode, por exemplo, se desenvolver na Fundação sem conversar com o Chicão, então além de ser uma pessoa agradável, ele é muito colega, companheiro, ele sempre está ali disposto a colaborar com... nas suas deficiências profissionais, né, está sempre lá pronto pra ajudar. E o Fumil, né, o Luís Fumil, que é assim uma pessoa dinâmica, um sujeito fácil de lidar, um chefe excelente e que está sempre disposto a trabalhar. Então, ele é um japonês, né, ele trabalha mais do que formiga... então, isso também contagia a gente. Ele sempre tem um objetivo, né, um objetivo nobre de desenvolver o que toca pra ele enquanto diretor da Setec. E, ter, assim, por exemplo, um conhecimento melhor do Jacques, do Jacques Pena, que nós somos bancários, né, e nos conhecíamos, mas não assim muito... não tínhamos muita amizade no movimento sindical. Então, de conhecermos melhor e de participar, participa dessas questões aí que eu coloquei, de você ter uma visão desenvolvimentista, e não assistencialista. E ter certeza de que nós participamos dessa visão de Brasil, de transformar o Brasil, não desprezando ou achando que o setor produtivo é inimigo. Não, a gente acha que no Brasil a gente tem que deixar de criar inimigos dentro da mesma pátria, né, achar que o agronegócio é inimigo da agricultura familiar, que o industrial é inimigo dos comerciantes e por aí vai. Então, a gente tem que trabalhar junto. Então, é usar, na realidade, até você trazer o setor produtivo pro poder maior, que é a riqueza, que você consiga trazer parte dessa riqueza pra construir um outro, trabalhar com outro Brasil, terminar com esse negócio do... o Brasil, a Bélgica, tem um negócio que eles falam, uma parte é Bélgica, outra é Índia, “Brasilíndia,” alguma coisa assim, “Belíndia,” né, que chamam, então...

 

(Fim do CD 2/2)

 

(CD 3/3)

 

P/1 – Bom, Hamilton, o que você aprendeu com a Fundação?

 

R – Olha, em primeiro lugar, eu aprendi a ser uma pessoa mais sensível, né, às realidades do nosso país e analisar, ter um senso crítico mais apurado, né, porque você convive com diversas realidades. Assim, como você participa de uma reunião onde pode estar presente um ministro de Estado, um secretário, um diretor de uma empresa, o presidente do Banco do Brasil ou o presidente de uma empresa, você participa também de reuniões onde estão presentes o presidente de associações de produtores rurais, familiares, agricultores, né, pessoas da comunidade, por exemplo, catadores de lixo, pessoas que você não sabia o ambiente onde eles trabalhavam. E, por exemplo, nesse projeto, Coleta Seletiva, você chega a não acreditar que o sujeito tira o sustento dele de uma montanha de lixo, né, e que ele mete a mão lá naquele trem. Então, quer dizer, você tem essa sensibilidade, então amplia, né, eu acho que transforma o sujeito num ser humano mais estruturado, né? Então, isso dá outra visão de mundo, uma outra visão de Brasil, uma outra visão do que que é uma comunidade, como ela se transforma ou como ela se forma, como ela trabalha, como ela interage com os demais órgãos, com os demais segmentos da sociedade. Então, a Fundação proporciona muitas surpresas agradáveis pra gente e eu acho que ninguém passa pela Fundação, principalmente se chegar na sua... por exemplo, no nível de trabalhar na sua essência, que é onde está se desenvolvendo o seu objetivo maior, que é transformar e aplicar recursos com a visão de transformação, inclusão social e desenvolvimento dos indivíduos dessas comunidades, sem mudar, né, sem adquirir uma outra visão de mundo. Então, é por isso que é muito bom a gente ter essa oportunidade. Se você for falar isso pros colegas de banco, aí fica todo mundo querendo ir pra Fundação, então a gente não pode divulgar muito isso (risos)

 

P/1 – (risos) Hamilton, você pode traduzir a Fundação em algumas palavras?

 

R – Olha, não é muito fácil, não, a gente traduzir isso, a Fundação. Mas, eu vejo mais ou menos o seguinte: a Fundação, ela surgiu de uma necessidade do seu patrono, o Banco do Brasil, em agir de uma forma mais, vamos dizer assim, mais contundente nas comunidades mais carentes, por exemplo. Então, o banco, ele já sempre teve esse, vamos dizer assim, esse viés social, essa visão social, até isso passado e repassado pela própria sociedade pra empresa Banco do Brasil e até mesmo como, em muitas ocasiões, condutor de políticas públicas, né, direcionadas pra determinado público. Então, isso aí foi... era um sonho, né, que o presidente, o Camilo Calazans realizou para o conjunto dos funcionários do Banco do Brasil. Então, isso já vinha acontecendo. Aí, depois, veio o BB Educar, que foi um programa gerado dentro do Banco do Brasil e depois vem passar pra Fundação. Então, quer dizer, além de uma continuação, a Fundação, ela, como braço social banco se vinculou a esse sonho. Então, acho que a Fundação, ela é uma entidade que possibilita aos seus integrantes as realizações e, ao mesmo tempo, criar sonhos e utopias, que hoje parece assim utopia, mas amanhã é uma realidade. Então, eu acho que a Fundação é uma entidade que transforma sonhos em realidade. É a visão que eu tenho. Até porque não poderia ser outra, porque nós, quando entrávamos no Banco do Brasil, a gente já tinha a visão do seguinte: “Eu hoje sou funcionário do Banco do Brasil e vou me aposentar no Banco do Brasil.” Hoje já mudou um pouco isso, até mesmo pela dinâmica da sociedade, da própria empresa, mas essa é uma visão que a gente tinha, e na Fundação, quem vai pra Fundação, funcionário do banco que vai pra Fundação, se ele não tinha, ele passa a ter uma afinidade com ela e se ele não sonhava, ele passa a sonhar. Isso aí já é um... assim, algo fascinante pra vida de qualquer ser humano.

 

P/1 – Agora, Hamilton, pra você, qual a importância desse trabalho de registro da memória da Fundação?

 

R – Primeiro, pra você pelo menos começar, eu acho que isso aí já vem se dando com outras empresas e outras entidades, inclusive que têm o mesmo objetivo da Fundação. O nosso país é um país sem memória, né? Afinal de contas, nós somos o que? Pentacampeões do mundo e a gente não esquece disso, né? Não é isso? Nós temos um Pelé, a gente não esquece disso, temos um Zico, aí tem um Juscelino Kubitschek, que a gente não esquece, tem a nossa história, né, nós temos um Lula, que nós não vamos esquecer dele tão cedo. Eu acho que nunca vamos nos esquecer disso. Então, é uma questão aí de você construir uma memória e preservar e, quando alguém queira acessar, isso esteja disponível, isso esteja ali ao alcance da mão tanto de quem continuar a construir a Fundação. Eu acho que ela não pára, né, é um corpo dinâmico que vai cada vez mais se desenvolvendo. E que você tenha os princípios que a norteou enquanto... no seu caminho, né? Então, eu tenho a visão de que toda entidade, ela tem que preservar a sua história, né, e dar conhecimento dessa história, de como ela começou, quem passou por ela, o que que ela fez ao longo da sua caminhada, não poderia deixar de ser pra Fundação. Então, eu acho muito importante a preservação da história e do percurso da Fundação durante esses 20 anos, né? E que isso até saia lá de dentro e seja mostrado, né, seja dinamizado, e que a sociedade conheça que... e se aproprie de que existe o Banco do Brasil, que trabalha, né, que sua matéria-prima principal é o dinheiro e que ele usa esse recurso pra sobreviver e pra também desenvolver o país, mas que existe uma entidade que foi criada pelo Banco do Brasil e que ela não se preocupa com, só com o dinheiro, com os recursos, e que ela tem uma visão transformadora da sociedade. Então, esse paralelo, inclusive, eu acho que ele tem que existir na história, na própria história da Fundação Banco do Brasil, porque muita gente associa direto o objeto da empresa Banco do Brasil com o objeto da Fundação Banco do Brasil, enquanto que eles são totalmente diferentes. E isso... a história conta isso aí. A história do Banco do Brasil caminha por um lado e, apesar de ter uma ligação, a da Fundação por outro. Então, isso eu acho que é de fundamental importância, que a nossa descendência, assim como a descendência daqueles que já passaram pela Fundação, tenham a oportunidade de conhecer. E acho que esse trabalho, ele vem coroar, né, todo o esforço que até hoje foi despendido por tantos colegas pra desenvolver e colocar a Fundação, assim, no caminho que hoje ela tem por onde seguir. Essa construção, ela vem se materializando aí ao longo desses 20 anos e sempre... a gente sempre tem uma data, né? Que onde você para, vamos dizer assim, por exemplo, nos 15 anos, né, e agora, principalmente as mulheres nos 15 anos, as debutantes e tal... acho que homem é... não é muito 15, acho que é mais 20 pro homem, ou 12, por aí. Então, você escolhe uma data e aí... uma entidade de 20 anos, como entidade, você ter essa condição de sobreviver por 20 anos no Brasil, né, já é assim um marco que você tem que preservar.

 

P/1 – Hamilton, o que você achou de ter participado desta entrevista?

 

R – Olha, eu achei muito gratificante, viu? Assim, porque você rememora muita coisa que você... da infância, né, que você, às vezes, não volta no seu dia a dia, naquela correria, você vai passando por cima e, às vezes, esquece que foi criança. Até mesmo da cidade natal, dos amigos, da escola, da sua trajetória enquanto participante de uma sociedade. Então, isso traz, assim, muitas recordações boas, outras nem tanto, mas coloca você dentro de uma realidade que, muito embora você hoje esteja participando de um outro ambiente, mas você passou por outros que lhe deram suporte pra você chegar até aqui, né? Então eu achei muito bom ter participado e também de saber que esse momento vai ser preservado e que outras pessoas vão, em algum momento, acessar essa história, e lá dentro vai estar, dentro dessa história, vai estar o Hamilton, né, como participante ativo, na realidade, desse momento. Então, pra mim foi excelente.

 

P/1 – Hamilton, então em nome da Fundação e do Museu da Pessoa, gostaria de agradecer o seu depoimento.

 

R – Eu é que agradeço. Muito obrigado.

  

--FIM DA ENTREVISTA-- 

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