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História

Trabalho, desde o dia do nascimento

História de: Maria da Conceição Câmara Romão
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 29/06/2017

Sinopse

Maria da Conceição Câmara Romão, em seu depoimento, relata um começo de infância no interior do Estado de São Paulo. O nascimento em uma propriedade particular, uma usina de produção de açúcar; aos três anos, a mudança para a Zona Leste de São Paulo, região que é seu lar desde então. De um lado, a assiduidade a missas católicas; de outro, os bailes - uma constante na juventude, suspensa com a chegada do matrimônio. O trabalho fabril é uma rotina na sua vida na capital, interrompido para a criação dos filhos. Estes, hoje, formados em instituições de ensino superior, tanto orgulho despertam em uma mãe que, se adolescente não quis dar continuidade aos estudos, hoje labora em uma instituição escolar.

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História completa

Meu nome é Maria da Conceição Câmara Romão. Nasci no dia primeiro de maio de 1949, em Ibaté, São Paulo. Na verdade, nasci entre Araraquara e Ibaté, na Usina Tamoio, e meu pai escolheu me registrar em Ibaté. A Usina era muito linda. Tinha a casa da fazenda, vistosa, aqueles jardins lindos, aquele riacho bem tratado. A igreja era muito bonita, os donos cuidavam muito bem. Tinha cinema, tinha baile. Toda a família morava junta. Meus pais vieram para São Paulo quando eu tinha três anos. Eles vieram morar na zona leste, na Santa Isabel. Disseram que era um barraquinho. Minha mãe falava que caía folha das árvores dentro do barracão. Foi o início. Logo ela conseguiu emprego no Lanifício Santista, começou a trabalhar e meu pai foi trabalhar na Epeda, uma fábrica de colchão. Eles alugaram uma casa, também na Santa Isabel e ali nós ficamos por uns cinco, quatro anos. Agora, onde a minha mãe trabalhou, é o Sesc Belenzinho. Depois nós fomos morar na Água Rasa. Da Água Rasa, nós viemos para a nossa casa no Carrão, a que meus pais compraram. Eu já tinha o meu irmão, eu já tinha de 11 pra 12 anos. Eu fiquei nessa casa até 73, quando me casei.

Com 16 anos, fui trabalhar em uma empresa que fazia peça pra rádio. Eu não queria mais estudar, queria trabalhar! Precisava ajudar o meu pai e a minha mãe. Meu primeiro emprego foi na Douglas Rádio, no Tatuapé. Entregava todo o meu salário para o meu pai, só ficava com a hora extra. Por isso eu fazia hora extra. Depois trabalhei na Philco, mas como a minha mão doía muito, comecei a trabalhar em malharia. Eu parei de trabalhar quando a minha filha nasceu, em 75. Conheci meu marido em um baile. Naquele tempo, namorar era ir ao baile, ir a uma lanchonete, ficar em casa, ir ao cinema. O casamento foi em 3 de fevereiro de 1973. Vai fazer 45 anos no ano que vem. Começamos a construir nossa casa depois que nos casamos, no Jardim Santa Maria. Não fomos os primeiros moradores da rua, mas fomos um dos primeiros. Quando nós fomos morar já tinha luz, mas não tinha água encanada, não tinha esgoto, não tinha asfalto, não tinha nada. Demorou para passar uma linha de ônibus. O meu marido e todos os moradores iam pegar condução na Avenida Itaquera ou na Avenida Rio das Pedras. Eles amassavam barro mesmo. Demorou um pouco, mas montaram um mercadinho, outro mercadinho. A gente ia se virando, mas era difícil comprar pão, viu? Depois começaram a construir o shopping Aricanduva, minha filha já estava moça. Começaram a construir o shopping, começaram as vans, também veio o metrô. Foi mudando.

Meus dois filhos fizeram faculdade. O meu filho é atuário e minha filha é contadora. Eu fiz até o ensino médio, só. Meu marido fez Senai. Quando voltei a trabalhar, foi uma época difícil: falta de dinheiro, filho crescendo, material escolar, todas essas coisas. Eu fiz concurso. Hoje sou agente escolar, sou funcionária pública. Trabalho no Cieja (Centro de Integração de Educação de Jovens e Adultos). Semana passada, fiz 19 anos de prefeitura. No Cieja tem adultos e deficientes: leves, mais fortes, cadeirantes. É na Avenida Itaquera, em Cidade Líder, Itaquera. Meu primeiro filho foi um flamboyant. Um amigo do meu marido deu pra ele. Trouxe a arvorezinha numa latinha de leite. Eu chamava a árvore de meu filhote. Quando eu chegava em casa, abraçava a árvore. Era muito bonita quando floria. Quando ela tinha mais de 30 anos, precisei cortar. Olhei pra rua, nada, aquele branco. Fiquei tão triste. Acabei acostumando, mas tenho foto, olho para a foto e lembro dela. As coisas mais importantes pra mim hoje em dia são meus filhos, meus netos, minha mãe, meu irmão, minha cunhada. Família é importante, eu acho. Antes do meu neto nascer, eu falava: “Quero ver meu neto, minha neta sentada aqui junto da gente, na mesa.” A mesa é redonda, não tem cabeceira. Todos estão na cabeceira. Colocar o menino ali, o primeiro, fazendo parte da mesa foi muito bom.

 

Editado por Raquel de Lima

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